Malala: Eu sobrevivi ao Taliban. Eu temo por minhas irmãs afegãs. 17 de agosto de 2021 Por Malala Yousafzai* Fotografia: Belgaimage Nas...

Traduções: Malala Yousafzai

Malala: Eu sobrevivi ao Taliban. Eu temo por minhas irmãs afegãs. 17 de agosto de 2021 Por Malala Yousafzai* Fotografia: Belgaimage Nas últimas duas décadas, milhões de mulheres e meninas afegãs receberam uma educação. Agora o futuro que lhes foi prometido está perigosamente perto de se esvair. O Talibã - que até 20 anos atrás proibia quase todas as meninas e mulheres de frequentar a escola e punia duramente aqueles que os desafiavam - está de volta ao controle. Como muitas mulheres, eu temo por minha irmãs afegãs. Eu não posso deixar de pensar na minha própria infância. Quando o Talibã tomou conta de minha cidade natal no Vale Swat, no Paquistão, em 2007, e logo depois disso, proibiu as meninas de receberem uma educação, escondi meus livros sob meu longo e pesado xale e caminhei para a escola com medo. Cinco anos mais tarde, quando eu tinha 15 anos, o Talibã tentou me matar por falar sobre meu direito de ir à escola. Não posso deixar de ser grata pela minha vida agora. Depois de me formar na faculdade no ano passado e começar a abrir minha própria trajetória profissional, eu não consigo imaginar perder tudo - voltar a uma vida definida para mim por homens com armas. Meninas e jovens mulheres afegãs estão mais uma vez onde eu estive - desesperadas com a ideia de que talvez nunca lhes seja permitido ver uma sala de aula ou segurar um livro novamente. Alguns membros do Talibã dizem que não negarão educação ou o direito de trabalhar às mulheres e meninas. Mas dado o histórico do Talibã de suprimir violentamente os direitos da mulher, os medos das mulheres afegãs são reais. Já estamos ouvindo relatos de estudantes femininas sendo afastadas de suas universidades, e trabalhadoras de seus escritórios. Nada disso é novo para o povo do Afeganistão, que está preso há gerações em guerras por procuração [1] de potências globais e regionais. As crianças nasceram para a batalha. As famílias vivem há anos em campos de refugiados; milhares de outras fugiram de suas casas nos últimos dias. As Kalashnikovs [2] carregadas pelo Talibã são um fardo pesado sobre os ombros de todo o povo afegão. Os países que utilizaram os afegãos como peões em suas guerras de ideologia e ganância os deixaram para suportar o peso por conta própria. Mas não é tarde demais para ajudar o povo afegão - particularmente mulheres e crianças. Durante as últimas duas semanas, falei com vários defensores da educação no Afeganistão sobre suas situações atuais e o que eles esperam que vai acontecer em seguida. (Não estou nomeando-os aqui devido a preocupações com a segurança.) Uma mulher que dirige escolas para crianças rurais me disse que perdeu o contato com seus professores e alunos. "Normalmente trabalhamos na educação, mas neste momento estamos nos concentrando em barracas", disse ela. "As pessoas estão fugindo aos milhares, e nós precisamos de ajuda humanitária imediata para que as famílias não morram de fome ou por falta de água potável". Ela ecoou um apelo que eu ouvi de outros: poderes regionais deveriam estar ajudando ativamente na proteção de mulheres e crianças. Países vizinhos - China, Irã, Paquistão, Tajiquistão, Turcomenistão - devem abrir suas portas para os civis em fuga. Isso salvará vidas e ajudará a estabilizar a região. Eles também devem permitir que crianças refugiadas se matriculem em escolas e que organizações humanitárias locais criem centros de aprendizado temporários em acampamentos e assentamentos. Olhando para o futuro do Afeganistão, outro ativista quer que o Talibã seja específico sobre o que eles permitirão: "Não é o bastante dizer vagamente: ‘As garotas podem ir à escola’. Precisamos de acordos específicos para que as meninas possam completar sua educação, possam estudar ciências e matemática, possam ir à universidade e ser autorizadas a ingressar na força de trabalho e fazer os trabalhos que escolherem". Os ativistas com quem falei temiam um retorno à educação apenas religiosa, o que deixaria as crianças sem as habilidades necessárias para realizar seus sonhos e seu país sem médicos, engenheiros e cientistas no futuro. Nós teremos tempo para debater o que deu errado na guerra do Afeganistão, mas neste momento crítico devemos ouvir as vozes de mulheres e meninas afegãs. Elas estão pedindo proteção, educação, liberdade e o futuro que lhes foi prometido. Nós não podemos continuar a fracassar com elas. Não temos tempo a perder. *Malala Yousafzai (@malala), que sobreviveu a uma tentativa de assassinato do Talibã, é uma ativista pela educação das meninas e a mais jovem laureada com o Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ela também é co-fundadora do Fundo Malala. Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de tradução [1] No original, “proxy wars”. São chamadas “guerras por procuração” conflitos armados que ocorrem em países que representam os interesses de outros países (frequentemente mais potentes). Para maiores informações ver: https://www.scielo.br/j/cint/a/hMMrnxLKDmqyC5pPLQRZNmM/?format=pdf&lang=pt e também: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/proxy-war [2] Kalashnikov é um tipo de rifle também conhecido como AK-47.

Image-empty-state.png
  • Instagram