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Respeita nossa história: Marli Pereira Soares

Bruna Cássia Nascimento Fonseca* “No dia que aconteceu, se pensasse no que já passei e no que ainda vou passar, acho que teria deixado só por conta da justiça de Deus. Mas senti aquela revolta: ver tirarem meu irmão de dentro de casa dormindo, espancarem na minha frente, na frente dos meus filhos, pouco adiante matar igual a um cachorro! Podia ter ido à delegacia e dizer que não sabia quem matou, mas disse: foi a polícia civil e militar. Agora não penso em desistir. Vou até o fim, só paro no dia que morrer. Vou. Acho que só não crio coragem é pra ter medo de barata!(…) Minha mãe falou: 'Toma vergonha nessa cara! Mulher que é símbolo da coragem no mundo inteiro correndo por causa de barata...' Tenho pavor de barata, de polícia, não" (SILVA, Ano, p.16) Marli: mulher jovem, negra de Belford Roxo, Baixada Fluminense. Trabalhadora de serviços domésticos. Nascida e criada na zona metropolitana do Rio de Janeiro. Juventude difícil, com poucas oportunidades. Mãe, irmã. Separada. Sua vida mudaria completamente na noite de 12 de outubro de 1979, quando, aos 27 anos, presenciou, junto com seus dois filhos menores, o irmão Paulo Pereira Soares ser retirado de casa, sequestrado e, dias depois, encontrado morto próximo dali. Assassinado com três tiros. Segundo relatos, por um grupo de extermínio da região conhecido por ser composto por policiais militares do 20o Batalhão, próximo ao local do assassinato. Ela viu os rostos dos acusados. Diante de tamanha brutalidade precisou ressignificar o luto e enfrentar uma segunda violência. Além de viver a trágica perda do irmão por assassinato, iniciava a partir dali uma grande saga de busca por justiça, em plena ditadura civil-militar, exigindo das autoridades locais a investigação e a punição dos responsáveis dos crimes que o vitimaram. Uma busca que durou meses, anos. Inicialmente exposta a reconhecer dezenas de policiais militares daquela jurisdição todos os dias, olhos nos olhos, sofrendo constrangimentos e resistindo a ameaças constastes para desistir de prosseguir, ou sofrendo coerção para reconhecer quem ela não viu na cena do crime. Caso de grande notoriedade jornalística, praticamente tornou-se uma coluna especial de muitos destes periódicos. Na TV, concedeu dezenas de entrevistas. Muitos foram os registros fotográficos de Marli, ao centro da cena, fazendo reconhecimento diário de policiais. Virou símbolo para movimentos feministas no Brasil (Revista Mulherio) e no exterior (Revista francesa feminina, F Magazine, que publicou a entrevista "Marli, um símbolo de persistência” como referência da luta feminina – fonte: Revista Mulherio) os movimentos negros pelo seu exemplo de perseverança, com o Movimento Negro Unificado. Inspirou de artigo a artistas badalados que interpretavam o momento, como a música “Mulher, coragem”, em 1980, de Ivan Lins e Vitor Martin. “Agora, em setembro, faz um ano que estourou o Caso Marli, no Rio de Janeiro. Depois que um batalhão de policiais matou o seu irmão Paulo P S Filho em Belford Roxo. Crime na Baixada Fluminense não é novidade (mais de 99% dos presuntos são negros), mas acontece que a empregada doméstica Marli resolveu apurar os culpados. Dois ou três policiais foram incriminados e o resto continua impune. Para isto Marli foi obrigada a lutar até contra o promotor público do caso ilegível(mandou suspender o reconhecimento dos assassinos. Os três tiros que seu irmão levou não intimidaram Marli que resiste na acusação e, por isso é considerada como símbolo da resistência à violência policial indiscriminada, assim como propôs o Movimento Negro Unificado.” (SNI, 1481-1982, p. 119) A política de extermínio sobre a população negra traria mais um episódio na vida de Marli. Não seria a única vez que ela sofreria com a morte de um familiar assassinado e presenciado policiais como principais suspeitos. 14 anos depois, ainda sob a sombra da impunidade pelo assassinato do irmão, Marli veria a vida, dessa vez de seu filho de 15 anos, também ser violentamente interrompida. O sonho do menino Sandro de ser militar, havia terminado em 9 de janeiro 1993, também a tiros, quando foi assassinado e seu corpo encontrado num terreno baldio em Jacarepaguá, perto da nova residência da mãe. Marli chorava novamente à frente do corpo de seu descendente. Ela seguiu, mais uma vez prometendo lutar contra a impunidade. Por toda a sua postura, mesmo em vista a uma dor imensurável, Marli foi e é um símbolo de resistência, monstrando a força e a firmeza de uma mulher negra, de origem humilde e da periferia. Ela questionou o Estado, tanto durante a Ditadura Civil Militar, quanto após a abertura, na defesa da sua família, mas não apenas isso, pois seu sofrimento era, e infelizmente ainda é, compartilhado pela população negra e periférica. Em sua batalha ela recorreu aos jornais e fez sua voz ser ouvida na imprensa nacional. Assim, trouxe à luz a realidade de várias pessoas pobres e negras nas periferias das grandes cidades, que diariamente convivem com um cotidiano de violência e medo de se tornarem as próximas vítimas da necropolítica do Estado que sistematicamente segue matando mais homens negros pobres e jovens; pessoas que perdem seus planos, seus sonhos, que fazem falta para tantas outras mulheres negras, por serem seus filhos, irmãos, companheiros e companheiras. Recentemente sua história voltou a ter visibilidade com o lançamento do livro “Heroínas desta História”, em que divide o espaço de representatividade com mais 14 mulheres que lutaram pela manutenção da memória de pessoas queridas assassinadas dentro deste período de repressão política. Marli Pereira Soares sempre é lembrada pelos movimentos sociais por conta da sua luta por justiça. Deve ser lembrada como uma importante personagem na luta contra as violências ocorridas no período da ditadura no Brasil e principalmente representar a insubmissão frente a política de extermínio de negros e pobres que segue atuante na sociedade brasileira até hoje. * Mestranda em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2020-1/2022-1). Licenciada em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2019-1/2024). Bacharel em História pelo Instituto de História da UFRJ (2011). Licenciada em História - FE-UFRJ (2013). É natural do subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, busca em suas  escritas e obras resgates possíveis da sua trajetória e de inspirações históricas, valorizando as africanidades existentes nos afetos e nas lutas. Segue também por uma jornada pelo autoconhecimento, valorizando suas andanças cotidianas e reinterpretando sensações do passado. Do pastel de carne de Vila Isabel, ao toque das ondas de Copacabana nos pés, passando ao teste do acebolado cachorro quente do Méier com os namorados, indo ao Cabernet Sauvignon no Andaraí com a mãe, ao som de Emílio Santiago e Bethânia, chegando ao duplo grito de gol flamenguista das vozes confundidas com o pai, há caminhos, sons e afetos inesgotáveis e que seguem em mistura e investigação. Um pouco dessas traduções também passam pelas experiências como bacharel e licenciada em História pelos bancos do IFCS e corredores da Faculdade de educação da UFRJ. Segue caminhando hoje  pelas salas do 11º  andar  como licencianda e mestranda em Artes Visuais na UERJ. Referências do texto GONZALEZ, Lélia. "Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira". In: SANTANA, Bianca (org.). Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: do século XVIII à primeira década do século XXI. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2019. Disponível em : https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/. Acesso em: 07 Ago. 2020. LINS, Ivan e MARTIN, Vitor. Coragem, Mulher. Álbum: Novo Tempo. 1980. LP Disponível em: https://www.letras.mus.br/ivan-lins/901489/ Acesso: 09 Ago. 2020. SERVIÇO Nacional de Informações (SNI) – Informe 1481-1982/119 – Dossiê Movimento Negro Unificado – Arquivo Nacional – Localização: BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_EEE_82011816_d0001de0001 SILVA, Marli Pereira da. “Marli, um símbolo de resistência. Entrevista concedida a Maria Tereza de Moraes, Revista Mulherio, p. 16. Disponível em: Dossiê pelo Serviço Nacional de Informações - Arquivo Nacional. Localização BR_RJANRIO_TT_0_MCP_AVU_0308,fl 108 Disponível em: https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/ Referência das imagens Imagem de Marli Pereira Soares. Disponível em http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/ JACOB, Alberto. Reconhecimento. A tropa do 20º BPM, enfileirado para Marli reconhecer os assassinos do irmão, 1 fotografia. FO08 Abr. 1980. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/domestica-botou-tropa-em-revista-para-reconhecer-os-assassinos-do-irmao-10561218, Acesso em: 07 jun. 2020. Revista Mulherio. Julho/ Agosto de 1981. p. 16. Disponível em: Acervo Arquivo Nacional - BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_AAA_81018229_d0001de0001

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