Por Tássia Fernandes Paris* “Como verdadeira traça foi carcomendo, estragando as traves do edifício negro o célebre ‘Club do Cupim’, que...

Respeita a nossa história: Leonor Porto

Por Tássia Fernandes Paris* “Como verdadeira traça foi carcomendo, estragando as traves do edifício negro o célebre ‘Club do Cupim’, que foi um grande exército de abnegados. (...) Nem as senhoras ficaram inactivas: para melhor meio de acção fundaram a Sociedade Ave Libertas, que teve em seu seio, entre outras senhoras notáveis, (...); Leonor Porto, [que] sacrifica os seus interesses, põe o seu atelier de costuras e a sua competência profissional ao serviço desta causa; e contam que muitas vezes a sua habilidade disfarçava alentado molecote em veneranda matrona que conduzida pelo braço de algum membro do citado Club chegava ao caes e (...) embarcava, fugindo (...) para a terra da Luz, em busca da liberdade” (Jornal do Recife, ed. 136, 20 maio 1917). No dia 17 de dezembro de 1840, na cidade do Recife, nasceu Leonor Jorge Bastos, filha de Fortunato Pereira da Fonseca Bastos, comerciante recifense, e Carolina Leopoldina Jorge Bastos, comerciante lisboeta moradora do Recife. Leonor foi batizada com o nome de sua avó materna, Leonor Jorge. Não se sabe ao certo o número de irmãos que Leonor teve, sendo cinco os nomes conhecidos: José Fortunato da Fonseca Bastos, Joaquim Jorge da Fonseca Bastos, Gaspar Bastos, D. Adelaide Bastos Gomes Penna e D. Zulmira Bastos de Souza Monteiro. Passou a assinar Leonor Bastos dos Santos Porto, após o casamento com o comerciante portuense Antonio Augusto dos Santos Porto. Não sabemos ao certo a data do matrimônio. No entanto, na primeira referência em periódicos recifenses, D. Leonor Porto já figura com o seu nome de casada. Esta primeira notícia diz respeito à sua participação em uma festividade da Igreja Católica, em 1873 (Diário de Pernambuco, ed. 8, 11 jan. 1873). Leonor foi bastante atuante nos compromissos religiosos, participando de diversas irmandades e celebrações. Antonio e Leonor tiveram, ao todo, nove filhos que chegaram à vida adulta: Carolina Porto de Carvalho, Antonio Augusto dos Santos Porto (homônimo ao pai), João Augusto dos Santos Porto, Albertina Porto de Oliveira, Adelaide Porto da Silveira, Leonor Porto de Castro, Fortunato Augusto dos Santos Porto, Fausto Tancredo dos Santos Porto e Mario Augusto dos Santos Porto. D. Leonor Porto aparece, a partir do ano de 1879, como modista e costureira, em diversos periódicos do Recife, divulgando seus préstimos para meninas, senhoras e crianças. Seu futuro marido e o futuro cunhado, José Fortunato dos Santos Porto, foram citados, em conjunto com seu pai, Fortunato Bastos, em 1854, no mesmo anúncio do Jornal “O Liberal Pernambucano”, como vendedores de bilhete de loteria na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio (O Liberal Pernambucano, ed. 460, 24 abr.1854) A partir de 1880, Antonio Augusto Porto é citado em diversos anúncios de periódicos da mesma cidade como administrador de uma casa de bilhetes de loteria, a Casa Feliz, situada na mesma praça. Portanto, indo ao encontro com o afirmado por Alcileide Cabral do Nascimento e Noemia da Luz (2012, pp. 130-131), Leonor Porto não era proveniente de nenhuma família de posses ou de renome de Pernambuco, sendo todos comerciantes. Ao que parece, a aproximação de Leonor das damas da sociedade recifense se deu pelo seu trabalho como modista e pela devoção católica. Essa aproximação foi fundamental para que ela adentrasse o círculo abolicionista da cidade, já que, de acordo com Silva e Barreto (2014, p. 51) as mulheres abolicionistas, no Brasil, pertenceram preponderantemente à elite econômica e intelectual do país. As primeiras referências a Leonor Porto ligadas ao movimento abolicionista datam de 1884 e surgem no contexto da divulgação das reuniões da Sociedade de Senhoras Abolicionistas 25 de Março (Diário de Pernambuco, ed.104, 6 maio 1884). Fundada em 20 de abril de 1884, a sociedade passa a ser nomeada, já em sua segunda sessão, como Sociedade Abolicionista Ave Libertas, pois já havia uma sociedade registrada com a denominação “25 de março” (Diário de Pernambuco, ed. 104, 6 maio 1884). Durante o primeiro semestre de 1884, Leonor Porto exerceu a função de tesoureira da Sociedade Ave Libertas. Nesse curto período de tempo, são relatados diversos eventos e espetáculos em que a sociedade participou, seja como organizadora principal, seja como participante em eventos de outras sociedades. Desta maneira, a Sociedade Ave Libertas se consolidou como importante membro na rede de liberdade da cidade do Recife, tecendo diversas parcerias com várias organizações abolicionistas. Em 24 de Agosto de 1884, a Ave Libertas procedeu a uma nova eleição, nomeando Leonor Porto como sua presidente, Ernestina Lopes de Barros como vice, Odila Pompílio como 1ª secretária, Carlota Vilela como 2ª secretária e como tesoureira Flora Guedes Alcoforado (Diário de Pernambuco, ed. 196, 26 ago.1884). A primeira sede da Sociedade Ave Libertas foi instalada no primeiro andar do número 31 da Rua do Imperador. Na edição 205 do Jornal do Recife, dia 10 de setembro de 1885, noticiou-se a festa de aniversário da instalação da sede da Sociedade Ave Libertas, que ocorreu nos salões do Club Carlos Gomes. A solenidade foi iniciada com uma sessão magna da sociedade, na qual, após o discurso da presidente reeleita Leonor Porto, a primeira secretária, Odila Pompílio, realizou a leitura do relatório anual do primeiro ano social do grupo. Neste relatório, prestou-se contas de mais de 200 alforrias conseguidas, por pecúlio ou sem indenização, enfatizando os esforços pessoais da presidente da sociedade para tal feito. Com o fim da escravização de pessoas no Brasil, a 13 de maio de 1888, a Sociedade Ave Libertas, assim como as demais sociedades abolicionistas do país, foi dissolvida. Em nota publicada, no Diário de Pernambuco, na edição 111, no dia 17 de maio de 1888, a diretoria da Sociedade Ave Libertas se pronunciou. Na publicação, intitulada “Ave Libertas”, as sócias reconheciam que a questão não estava resolvida, pois apesar de alcançado o principal objetivo da causa, havia ainda uma tarefa, “a de olhar com desvelo para a sorte” dos libertados. No período imediatamente posterior à abolição, Leonor Porto passou a se dedicar novamente às suas atividades mais corriqueiras, como o ofício de modista e costureira e a devoção à Igreja Católica. No entanto, em 1891, a modista interrompe suas atividades, após a morte de seu esposo, Antônio Augusto Porto, vítima de “sofrimentos cardíacos” (Jornal do Recife, ed.102, 7 maio 1891). Leonor retorna ao ofício, publicando seus anúncios com maior frequência apenas no ano seguinte (Jornal do Recife, ed.258, 13 nov. 1892). Apesar do retorno, nos anos que se sucederam, a modista se dividiu entre o seu ofício e as estadas no Rio de Janeiro, aonde residiam alguns de seus filhos e netos. Leonor decide por se mudar de forma definitiva para a capital da República em 1897, constituindo leiloeiro para os seus objetos e mobília (Jornal do Recife, ed.43, 23 fev. 1897). A líder abolicionista embarcou para o Rio de Janeiro, via Bahia, em 15 de abril de 1897 (Jornal do Recife, ed.86, 18 abr.1897). Na edição 32, Jornal do Recife de 8 de fevereiro de 1901, noticiou-se a morte de D. Leonor Porto, ocorrida no dia 6 de fevereiro deste ano. Não é noticiada a causa da sua morte. Para homenageá-la, no âmbito das comemorações pela Abolição, em maio de 1902, renomeou-se uma rua: a Rua da Conquista, no bairro da Soledade, passou a ser denominada rua D. Leonor Porto (Diário de Pernambuco, ed.107, 13 maio 1902). Da mesma forma, uma escola também foi nomeada com sua homenagem, datando a primeira referência a ela em 1919 (Diário de Pernambuco, ed.118, 5 maio 1919). A Escola Leonor Porto situava-se no Recife, na rua Padre Floriano, nº80, mantida pela Liga Pernambucana contra o Analphabetismo (Diário de Pernambuco, ed.17, 20 jan. 1922). Nas edições dos periódicos recifenses de comemorações e homenagens ao dia 13 de maio, Leonor Porto é citada entre os principais líderes do movimento abolicionista do Recife, sendo referida como “à vanguarda da grande campanha” (Jornal do Recife, ed.129, 14 maio 1929), “ilustre abolicionista pernambucana” (Diário de Pernambuco, ed. 209, 1º ago. 1918), “distinta pernambucana, cujo nome se acha ligado (...) à história gloriosa da propaganda abolicionista” (Diário de Pernambuco, ed. 21, 27 jan.1897). Apesar de ter sido fundada em um momento de radicalização do movimento, a Sociedade Ave Libertas tinha em seu estatuto (FERREIRA, 1999, p. 205), logo no artigo 1º, parágrafo 1º Art 1º - Fica criada no Recife uma associação abolicionista com a denominação de Sociedade Ave Libertas, cujos fins são:
§1º - Promover a libertação de todos os escravos do município do Recife por todos os meios lícitos e legais ao seu alcance. [grifo nosso]. Portanto, em sua maior diretriz, as sócias do Ave Libertas, no primeiro artigo, deixaram claro que agiriam conforme a lei. Todavia, encontramos relatos que as identificavam como umas das principais articuladoras da luta clandestina contra a escravização no Recife. Contrariando o que foi posto neste estatuto, Leonor e outras sócias teriam participado de diversas ações ilegais realizadas pelo abolicionismo radical recifense, especialmente nas fugas de escravos para a província do Ceará, encabeçadas pela associação clandestina Club do Cupim. A modista teria, por diversas vezes, utilizado seus dotes de costura para disfarçar “molecotes” como “matronas” (Jornal do Recife, ed.136, 20 maio 1917). Os garotos eram conduzidos, disfarçados por Leonor Porto como damas, até o cais do Recife por um membro do Club do Cupim, enquanto José Mariano, político liberal muito popular e um dos líderes abolicionistas mais conhecidos da cidade, distraía as autoridades, puxando conversa. Desta maneira, o rapazola embarcava, rumo à província livre do Ceará. Outra contribuição de Leonor e de suas sócias era esconder escravizados fugidos em suas casas, até que a rede clandestina pudesse estabelecer um plano de fuga seguro (Jornal do Recife, ed.128, 13 maio 1914 e Diário de Pernambuco, ed. 109, 11 maio 1938). Assim, de acordo com esses relatos e com o excerto referenciado na abertura deste ensaio, a Sociedade Ave Libertas foi fundada como um ramo legal das ações abolicionistas de suas associadas. A perseguição aos abolicionistas, engendrada a partir de 1884, com a ascensão do Gabinete Cotegipe, teria sido o mote para a criação desta associação, como um meio de autoproteção e desvinculação destas mulheres das possíveis punições às quais estariam sujeitas, se pegas em atividades ilegais. O fato de estes relatos serem praticamente ignorados e a real dimensão da participação feminina no movimento abolicionista brasileiro ser pouco estudada demonstra a urgência em aprofundar tais investigações. *Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – Pesquisadoras em rede e membra do Grupo de Estudos Feministas Dandara dos Palmares. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro e cinco cachorros, fora os peixes. Referências bibliográficas FERREIRA, Luzilá Gonçalves. Suaves Amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste. Recife: Universitária da UFPE, 1999. NASCIMENTO, Alcileide Cabral do; LUZ, Noemia Maria Queiroz Pereira da. Liberdade, transgressão e trabalho: cotidiano das mulheres na cidade do Recife (1870-1914). Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 5, n. 1, jan-jul., 2012, pp. 126-149. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos; LEANDRO, Jacilene de Lima. As mulheres e o movimento abolicionista: participação e engajamento (Recife, 1880-1888). Gnarus Revista de História, vol. X, n. 10, set 2019, pp. 48-55. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos. O 25 de março de 1884 e a luta pela libertação dos escravos em Pernambuco. Clio Revista de Pesquisa Histórica, vol. 33, n. 2, jul-dez 2015, pp. 158-180. SILVA, Wladimir Barbosa; BARRETO, Maria Renilda N. Mulheres e abolição: protagonismo e ação. Revista da ABPN, vol. 6, n. 14, jul-out 2014, pp. 50-62. Referências da imagem Retrato utilizado como capa do jornal Ave Libertas, publicado em 1885, no Recife, pela Tipografia Mercantil, em homenagem ao primeiro ano de fundação da Sociedade Ave Libertas. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=731935&pesq=%22Ave%20libertas%22&pagfis=

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