Entrevista com a Elza Soares

(Foto de Stephane Munnier, disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/10/13/noticias-musica,172888/elza-soares-transforma-dor-em-canto-em-seu-primeiro-album-de-ineditas.shtml) Nessa primeira edição, divulgamos a entrevista feita com a artista Elza Soares. O “Mulheres do fim do mundo” dá nome ao nosso site e faz parte de um total de 105 lançamentos feitos pela Elza Soares, contabilizando discos e compactos. Além disso são 9 singles e cerca de 180 participações especiais em projetos de outros artistas. Elza Soares é inspiração para muitas mulheres. O álbum conta a história da própria cantora que passou por dores, perdas, episódios de violências domésticas e de racismo e que, hoje, pode cantar a sua própria voz. Mulheres do fim do mundo são aquelas que, em contextos de pandemônio, dançam em meios aos destroços e continuam em pé, cantando até o último momento. Confiram a nossa entrevista! Revista MFM: Elza, em primeiro lugar, agradecemos muito sua disponibilidade para essa entrevista. Estamos nos dedicando com enorme carinho ao projeto do site Mulheres do fim do mundo e será maravilhoso inaugurá-lo com as palavras de quem nos inspirou. Pensamos em algumas perguntas relacionando sua biografia, carreira e atuação pública com o contexto atual do Brasil. Revista MFM: Em entrevista ao Estadão, em 2018, você disse que encontrou seu propósito musical: “Foi quando percebi o que eu deveria fazer. Entendi que esse seria o caminho. Mudou tudo. Encontrei uma brecha para dizer aquilo que eu sentia". Em mais de 60 anos de carreira, com uma coleção de prêmios, foi com o lançamento do Mulher do Fim do Mundo e também do álbum Deus É Mulher que você afirmou poder dizer o que sente. Gostaria que você falasse um pouco sobre como você enxerga essa mudança, a possibilidade de finalmente se expressar? O que ocasionou isso? Quando você, Elza Soares, consegue se expressar, consegue dizer o que você sente, consegue falar de temas "proibidos", você dá voz a uma multidão de mulheres que são diariamente silenciadas pelo machismo e misoginia que permeia nossa sociedade de modo estrutural. Como você vê os veículos que dão voz às mulheres nos dias de hoje? Elza Soares: acho que o encontro comigo mesma, entendeu? Eu vi, me vi livre de seus grilhões...me vi livre sem a mordaça... me vi livre. Iguais a liberdade! E também o que sou. Revista MFM: O nome “Elza Soares” se transformou em um símbolo de luta e resistência para as mulheres brasileiras, sobretudo nos núcleos do feminismo negro. Nos últimos anos, sua trajetória tem se conectado a de muitas mulheres das periferias do Brasil que entraram nas universidades, fizeram pós-graduação e lutam por melhores colocações no mercado de trabalho. Como inspiração para elas, a sua vida profissional está em ótima fase. Em 2016 o álbum “Mulher do Fim do Mundo” esteve entre os dez melhores do ano pelo New York Times, em 2017 seu show no Central Park teve grande sucesso, em 2018 fez apresentações em museus como o CCBB e o Museu de Arte do Rio, em 2019 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela UFRGS em uma cerimônia emocionante e, nesse mesmo ano, o musical “Elza” foi muito elogiado, tendo também recebido prêmios. Como você interpreta seu reconhecimento nesses espaços tradicionalmente elitistas e com forte recorte racial? Seria possível fazer um balanço de avanços e retrocessos sobre a questão da mulher em meio ao crescimento do conservadorismo no cenário político atual? Elza Soares: É tão difícil responder porque a gente fica em uma encruzilhada sem saber o que dizer, né? Crescemos tão pouquinho, tão pouquinho, quase nada. E esse quase nada é tão grande. Pra quem não tinha nada, foi um avanço muito grande, né? Então eu vejo assim, dando passadas curtas e prolongadas. Mediação da Vanessa* (*assistente da Elza): Como você interpreta seu reconhecimento nesse espaço tradicionalmente elitistas e com tão forte no recorte social? Como você interpreta isso? Elza Soares: Eu não sei Vanessa, é difícil! Vanessa: Você chegou a sentir todo esse recorte racial? Elza Soares: Lógico! Estou viva, né? Emocionalmente falando mais viva que nunca. Lógico! Vanessa: Mas mostrou quem era Elza! Elza: Mostrei quem era Elza, né? Tive que mostrar, com toda a ferida aberta, mostrando quem era Elza. Revista MFM: Elza, sua biografia, seu trabalho e sua atuação pública têm se tornado uma referência muito forte para milhares de brasileiras, que também passaram (ou passam) por privações alimentares, pobreza, além de vivências cotidianas de machismo, violência e racismo. Um episódio notável de sua trajetória artística é o momento em que você diz para Ary Barroso, em sua primeira apresentação como cantora, que vem do “planeta fome”. No ano passado, você lançou o álbum “Planeta Fome”, com músicas que, em seu conjunto, contam a história de um Brasil desigual, mas resistente. Como diz uma das canções, “são histórias que a história qualquer dia contará”. Pesquisas mostram que, desde 2014, os índices de desigualdade de renda no país aumentam sem parar. Em 2017 e 2018, os relatórios de segurança alimentar da ONU e ‘Luz da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável’, mostraram que, em função do congelamento de investimentos sociais por 20 anos, aumento do desemprego e cortes no Bolsa Família, o Brasil pode vir a ser reinserido no mapa do fome. A construção de seu último álbum, para além de ser um balanço de sua própria trajetória, também foi motivada pela situação que vivemos agora no país? Como você vê, ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento no país (que, como sabemos, recai com mais força sobre mulheres negras?) Elza Soares: Como me assusta! Um país que tudo que se planta dá, até o que não presta. Mediação da Vanessa: Como você vê ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento do país? Elza Soares: Como assim... graças a Deus tem os negros o que sabem plantar, que sabem acolher. Graças a Deus estamos vivos, gente! Vivos! Estamos vivos, graças a Deus! As mãos ainda plantam, as mãos ainda colhem. Revista MFM: Durante o período da Ditadura militar no Brasil, devido às ameaças que recebeu, você e sua família se exilaram na Itália. A música e as variadas produções artísticas da época também sofreram uma dura censura. Em 2020, 56 anos depois do início do regime autoritário brasileiro, ainda nos deparamos com alguns grupos diminuindo negando os crimes de perseguições, torturas e assassinatos que ocorreram na Ditadura Militar, bem como pedindo uma intervenção militar. Como você se sente diante dessas atuais manifestações e declarações antidemocráticas? Elza Soares: Quem tem fé consegue. Eu tenho muita fé, sempre consegui tudo através da minha grande fé, que eu tenho. Acredito muito em Deus, acredito que a gente possa crescer mais ainda, entendeu? Com essa fé que a gente carrega, que é um poder grande, que é a fé, minha gente, fé, muita fé. Revista MFM: De acordo com a ONU mulheres, o contexto de emergência aumenta os riscos de violência contra mulheres e crianças, especialmente em razão do isolamento das mulheres e da sua permanência no lar em tempo integral junto ao seu agressor. Durante a pandemia Covid19, observamos um aumento considerável do número de casos de violências domésticas no Brasil, sobretudo contra mulheres negras. Se você pudesse deixar um recado para essas vítimas, o que você diria para elas nesse atual contexto? Elza Soares: Denunciem. Gritem muito, por favor. Gritar, gritar, gritar! Cantar, cantar, cantar! Porque muitos… tá aí, na frente de todo mundo. É só gritar. Pedir socorro. Não se calar. Por favor! Revista MFM: Elza, sua história é de muitas batalhas. Você passou pela fome, racismo e violência, numa trajetória única de resistência e coragem. Diante de tanta luta e experiência, o que você teria a dizer para as mulheres que hoje enfrentam a pandemia em meio aos mesmo desafios? Elza Soares: Acredite. Por favor, vai em frente! Vá à luta! Não desista! Sem desistência, acreditando sempre que é capaz. Revista MFM: Em novembro de 2015 você concedeu uma entrevista ao Cultura Livre (canal do YouTube) para falar sobre o lançamento do álbum Mulher do Fim do Mundo. Ao ser questionada sobre quem seria aquela mulher do fim do mundo, respondeu: "não sei que mulher é essa não… é uma mulher forte, uma mulher guerreira, uma mulher que luta, que busca, que bate, apanha.. enfim.. é uma mulher. (...) parece com uma pessoa que eu conheço... parece muito." A mulher do fim do mundo de hoje é a mesma de 2015? Quem é a mulher que você citou na entrevista, aquela que se parece com a pŕopria descrição que você deu? Levando em conta a pandemia da Covid-19, bem como nossa crise política, o que é o fim do mundo para você? E qual é o papel da mulher nele? Mediação da Vanessa: Quem é a mulher que você citou na entrevista? Aquela que se parece com a própria descrição que você deu? Elza Soares: É ela mesma, ela só muda um bocadinho…. Porque… 5 anos dá pra dar mais 5 passadas… Já dei cinco passadas, mas é ela mesma, ela não muda não, ela só cresce um bocadinho mais. É tudo isso aí… Um bela feijoada né… Mediação da Vanessa: Uma pizza, como se torna tudo no Brasil… Elza Soares: Continuar caminhando sem se deixar derrotar. Tudo isso vai passar, tudo passa, já vi tanta coisa passar… É mais uma que vai passar. Tenho fé. Acredito!

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