Tributo ao tempo em que eu estava certa sobre nossa existência Nalü* Quando eu era pequena e me perguntavam o que eu queria ser quando...

"La Gringa": Nalü

Tributo ao tempo em que eu estava certa sobre nossa existência Nalü* Quando eu era pequena e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, minha resposta era: aposentada. Lembro que minha mãe sempre disse ser impossível, porque essa não é uma carreira. Meu pai não disse nada. Porque ele já estava morto. Seria muito estranho se eu tivesse uma lembrança dele dizendo algo sobre isso. Pra provar que essa seria minha verdadeira vocação, eu argumentava: "você é quem não sabe de nada! o meu avô é a-p-o-s-e-n-t-a-d-o!". Pronto, ganhava. Com o tempo percebi que precisaria de um plano melhor e mais estável pro futuro... por isso, aos 13 anos, decidi que seria milionária. Em minha cabeça eu seria capaz de fazer apenas duas coisas: nada & destruir a sociedade. Era uma pré-adolescência muito feliz e saudável, obrigada. Mas tudo mudou em uma noite, enquanto meus amigos fumavam maconha e Lucas disse: “vai, dá uma aí!”. Em 30 segundos já não concordava comigo mesma–– não precisaria de tanto dinheiro pra ser feliz. Basicamente eu só precisaria de alguns dinheiros e um jardim. E, se pensa que mudei de ideia, você está completamente certo. Afinal, não vim com a genética necessária pra apreciação da natureza. Estou convencida de que minha incapacidade de estar no mato tem uma explicação científica, a psicanálise ainda não deu conta. Como sustentar o tráfico nunca foi uma opção, ao procurar pessoas que tenham essa mutação genética; vocação pra jardinagem e um jardim, ganhei mais uma habilidade: networking. Palavra chique que dei à minha tagarelice – que me trouxe até Nova York. Ao longo de minha ainda-breve-vida, arte foi a única coisa constante. Sabe aquela criança engraçadinha (e talvez chata) que desenha você como um dinossauro de três olhos, e depois faz um TED talk sobre? Eu! Lembro de amar observar os adultos e imitar tudo que via: as atrizes, minha vó, os porteiros... e agarrava meus irmãos pelos cabelos pra torná-los meus fantoches. Me pergunto se minha vida não é uma grande imitação. Encontro conforto quando penso, logo depois, que talvez todas (as vidas) sejam. Atuar, cantar, tocar violão e principalmente escrever, não pareciam um plano para mim. Pensei que esses eram parte da minha história e de quem eu era. É difícil entender que um hobbie pode também ser profissão. Que é possível fazer de uma facilidade, maestria. Principalmente porque essa é uma propaganda capitalista ridícula. Eu, classe mérdia bonitinha e defensora dos frascos e comprimidos, não me lembro ao certo o momento em que decidi aceitar que, ser artista era a única coisa que eu poderia fazer. Mas, lembro perfeitamente de todas as pessoas que tentaram me convencer a dar importância ao antigo plano A: aposentadoria. Optando pela profissão-artista, eu também estava desistindo do plano B: receber um salário. De quebra, pro desespero de alguns (de ninguém) (pois a essa altura já me apoiavam) (mas preciso desse ensaio dramático) decidi imigrar. Por que não? Como se não fosse suficientemente difícil sobreviver em minha própria língua e cultura. Fui. E por muito tempo, em Nova York, só pude pôr em prática o plano C: fumar maconha. Fiz de tudo, menos o plano D: viver como artista. Felizmente, percebi nos primeiros meses que continuaria artista, independentemente de como minha vida fosse. Os metrôs por aqui são a prova viva disso. Tive que abraçar minha eu do passado: é, realmente, uma parte indispensável de mim e de minha história. Por fim, não tenho planos. Pra minha sorte, hoje em dia posso explicar essa decisão citando o ganhador do Oscar, Parasite. Assumo que ainda tenho muitos planos; pois pra mim esse papo de viver o presente além de egoísta, é classista; mas estão em pausa. Saiba você que, por hora, o plano C se tornou um estilo de vida; tudo isso por causa da... pandemia. Pois é, eu sei que você pensou que estava finalmente lendo uma crônica de 2020 que não mencionou a quarentena. A verdade é que só escrevo isso pra dizer que o mundo inteiro está fazendo exatamente o que pensei que meu futuro poderia ser. Aprendemos, todos os dias, a fazer absolutamente nada. Enquanto a sociedade está sendo destruída por nós-mundo, só o que queremos é ficar chapado. De repente, todo mundo vive um frenesi coletivo e pensa que pode viver a vida como artista. Somos todos imitação e repetição e dinossauros de três olhos. Eu estava certa esse tempo todo. *Nalü é uma artista multidisciplinar. Escritora, atriz, humorista e ativista. Carioca, reside em Nova Iorque desde 2016. É a autora de “você (e todas as outras coisas que me machucam também)” best seller de poesia LGBTQIA+ na amazon em Abril 2019, disponível em inglês como “yoü (and all the other stuff hurting me too) publicado pela editora estadunidense Wide Eyes Publishing. Atualmente é cronista na plataforma global EmpowHer NY. Além de ser uma personalidade da internet, trabalha na produção de eventos político-culturais; encontros; workshops e debates junto ao coletivo Mulheres da Resistência no Exterior. É uma das idealizadoras da Feira do Livro da Língua Portuguesa em Manhattan, “Mulheres na Escrita,” a primeira Feira do Livro feminista do mundo. Assina seu nome (e algumas palavras) com dois pontinhos ü, para criar e espalhar uma carinha sorridente. Acesse: https://nalu.blog/who-am-i-quem-sou-eu/ [Referências da imagem da coluna "Na gringa": Ketllyn Fernandes, título da arte "Mapa Mundi aquarela". Disponível em: https://www.urbanarts.com.br/prints/ketllyn-fernandes?O=OrderByScoreDESC]

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