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Mãos Livres (13ª Edição)

Mãos Livres (13ª Edição)

A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte Final Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pra minhas dúvidas; queria não ser humana. Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior, enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava! Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi, então, que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados, ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava, e desviava o olhar pro chão, e me olhava de novo, e gaguejava, e suspirava, e derretia sob o sol de inverno, e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros. “Não é fácil pra mim te dizer isso...”. Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...” “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...” “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não se encontra homem que preste, nem pruma transa... te contar que a vida não tá fácil... hahahahaha. O que foi?!! Que cara é essa?!” “Só achei que sua reação seria outra...” “Mas me conta, você tá comendo alguém?” “(...)” “Fala! (risos)” “Não.” “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!” Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha. Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir por ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele... Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade, acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados? Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria. Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar. Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções. Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho. Queria não me sentir estranha... e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo (...) vida q segue. *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal DE QUANDO FUI UMA JOVEM BRINCANTE Aline Sampin* Se eu fosse mais jovem
Amava o domador
Do circo da cidade.
Não tenho mais amor
Nem tenho mais idade.

Pudesse eu ser criança.
Me enamorar pelo palhaço
Que toda vida não se cansa
De brincar com seu fracasso.

O passado vinha devagar,
Espiando, sorrateiro que só,
Cada passo que dei de amar.
Toda pisada errada era um ai de dó.
E mais um ponto para o azar.
Mais um tropeço para o amor.

Agora digo, sem mais delongas,
Tanta coisa, tenho visto.
De trato tão pobre e tão rico.
Que não me faltam ditas lonas
Nem mesmo lembro do meu/circo. *Aline Sampin, 38 anos, é atriz, com 20 anos de carreira no teatro e já foi premiada em festivais no Rio de Janeiro e em outras cidades pelo Brasil. Possui bacharelado e licenciatura em teatro pela UNIRIO e é mestra em história do teatro pela mesma instituição. É professora de artes cênicas da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 10 anos. Aline também é poetisa e artista plástica autodidata: trabalha com técnicas como desenho em grafite, carvão e pinturas em aquarela e giz pastel. Casada há 4 anos, tem uma filha de dois anos, que passa boa parte dos seus dias a rabiscar. Site (em construção): www.alinesampin.com PROFANAÇÃO Gabriela Mitidieri* aprendi que sou duro (ao mesmo tempo delicado) discreto, cruzado, concentrado o ideal é que eu quase suma (disseram) magro, não forte regrado, limitado, enclausurado letrado (minto, não muito) sob medida o chá de revelação é todo dia marcado na pele do corpo da menina disseram que sou sagrado me deram modelos vários vai, Maria, ser santa na vida reaprendi que sou dádiva, matéria em expansão puro gasto jogo a beleza do inútil o contrário da angústia dança que ocupa e enreda com tecidos, tendão, torção conjunto de células vivas irrigadas, agitadas pipa voada puro suco de contravenção (deixa eu dançar). *Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia e experiência nos ensinos básico, superior e de línguas. Professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Aprendiz de acrobata e praticante da esperança equilibrista. Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri SOCIEDADE DOS POETAS METALINGUÍSTICOS Lya* a partir de "Carta ao Zezim", de Caio Fernando Abreu Querido Caio, Eu não quero escrever. Invento desculpas, busco ocupações, consumo distrações, colho insônias, testo receitas, repito filmes, viro sommelier de séries, fiscal da natureza e testemunha ocular do tédio. Escrevo. A contragosto, pois a escrita é espelho com eco: a lágrima, o vômito, a verdade incômoda, o medo da falha, a vergonha do aplauso, a fuga, o encontro, a construção, a melancolia, a erupção, a ruína, a catarse. É minha latrina. Meu melhor e meu pior. Ventre, fluxo, gozo, escarro, esgoto, velório. Exorcismo das emoções que joguei pra debaixo do tapete do miocárdio. A usurpação gráfica dos meus sentimentos. Tenho medo de ir na cozinha de madrugada e me deparar com um poema falando coisas de amor. É deitar-se nua no divã com o carrasco. Fazer uma entrevista de emprego com a mulher perfeita, bem-sucedida-comida-amada que eu seria aos 30. Andar de mãos dadas com o espectro dos meus fracassos. Abraçar o chorume da lembrança. Tentar explicar para a minha criança de estimação como falhamos até aqui. É o caminhão das derrotas passando na sua rua! Um convite ao passado pra passar tempo com o presente enquanto fofocam sobre o futuro. Tempo, futuro, legado. Meio milhão de mortes te fazem questionar a vida. 34 anos na cara e ainda perdida. É foda! Quem diria, aquela menina prodígio, aluna nota dez, com tamanho potencial para mudar o mundo, agora não passa de um peso morto prestes a virar poeira cósmica. Um total de zero feitos para ostentar na lápide. Que morte horrível! Um desperdício! Aquele passado tinha tanto futuro! Vai fazer a passagem sem fazer diferença, falta ou alarde. Menos um nome na Wikipedia. "Esperávamos mais de você." Eu também, Caio. Eu também... O que você quer ser quando morrer? Isolada em meu casulo, lagarta estagnei. Pérola em ostra não gerei. Farta de ser farsa, meus dedos niilistas calei. O sol tá em câncer e eu, só eclipse. Mas o pássaro azul cantarola dentro do eu-gaiola em plena madrugada querendo sair. Minha voz desenhada ele deseja ouvir. Malditos sejam os versos que não me deixam dormir! Ok, Caio. Você venceu. Eu me rendo! Satisfeito? Meu poema parido não é mais meu. É cidadão do mundo. Assim como ninguém pode entrar novamente no mesmo rio, nenhum poema é lido duas vezes. A cada dose, nasce um novo poema. Fruto da fecundação do seu olhar-sêmen no meu óvulo-verso. Quando você me lê, você também me escreve. Ler é a última etapa da cadeia de produção poética. A leitura é uma bolsa estourando a caminho da maternidade. Formamos família. Será que esses versos vão envelhecer bem? Seria a poesia cringe? Escrever está ultrapassado para a geração Z? Perceba Caio, estou redigindo a presente carta num aplicativo de notas do celular, enquanto a máquina de escrever empoeira esquecida na estante. Note, nem papel, guardanapo, notebook ou diário: notas virtuais armazenadas numa nuvem cibernética. Poesia imortalizada no Instagram, disputando algoritmos com memes, barrigas tanquinho e dancinhas de TikTok. Número de seguidores, curtidas, comentários e stories selam meu destino literário. Números, não letras. Seria eu uma aplicada poetisa de aplicativo? Uma futura membra da Academia Brasileira de Influencers? Ou apenas uma fraude que se diz escritora para provar que não é só uma bunda? Oi, sumida! Aqui quem fala é a síndrome da impostora. Tá passada? Aliás, seria eu poetisa ou poeta? Porque veja bem, você como homem há de convir que nós mulheres somos histórica e constantemente silenciadas e subestimadas. Mary Shelley, Sylvia Plath, Mary Ann Evans, Virgínia Woolf, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus. Seria poetisa uma mulher que escreve poesia, ou um poeta de marca menor por ser mulher? Pertencemos à categoria da literatura genérica? Tal qual uma mulher necessitada do companheiro para evitar assédio, visto que homens só respeitam os seus semelhantes, precisamos usar pseudônimos masculinos para sermos validadas? Ou apenas nos conformamos com a condição de sermos uma escritora inferior? Pois, eu, do alto de meu um metro e cinquenta e dois centímetros, decreto: sou POETA de grande porte e mão cheia, em capslock! Serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Deixo os escritos de sangue como legado. Até o meu último suspiro, ou canto do pássaro. Abraços, meu amigo! Viva a Sociedade dos poetas metalinguísticos! *Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca A FOTO QUE ME NARRA Lívia Vargas-González* Para Daniel Ramírez, o autor da fotografia que, tirada o dia do meu aniversário, no ano 2016, inspirou estas paisagens. Reconheço-me na gordura destas pernas que abraçam que sustentam que seguem o balanço da minha medida na fenda das estrias que descubro entre os cinzas desta imagem Ando a linha que cruza e divide um abdômen definido pelo arrulho de uma vida prestes entre cantos dores em prazeres contrações vigia da vertigem o riso abdômen que filtra espasmos e espantos do umbigo discreto que marca o grito de uma ruptura Vejo a linha que me corta em metades e inflexões riso pélvico entre costura e cicatriz quebra de um útero ameaçado fissura inaugural de uma alvorada Na foto do meu corpo vejo rachas marcas manchas pegadas escrita do rejeito o estupor vergonha da humilhada revide da descontente desafio ao mórbido escrutínio dos olhos Corpo que habito que secreta que orgasma que despecha que tristeia e felizeia Abençoado seja este corpo que ri comigo no preto e branco imortal de uma foto que me narra. Ouro Preto-MG, 15 de agosto de 2021 *Lívia Esmeralda Vargas-González (Carracas - Venezuela, 1977): Mãe de Aquiles e migrante, compartilho as horas de meus dias entre a atividade acadêmica e a criação poética, reservando tempo e vontade para o cultivo permanente dos afetos que me sustentam, os daqui e os de lá, esses que rego na terra, no ar, na água, no fogo e na virtualidade indomável das telas e das redes. Sou escritora, poeta, pesquisadora, professora universitária, e hoje estou no Brasil, fazendo um doutorado em História, e mais um em Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), habitando as ruas que resguardam o barroco brasileiro e que ecoam as memórias da escravidão e da conquista. Publicaram-me: os livros Entre libertad e historicidad. Sartre y el compromiso literario (Caracas, 2008), Trânsitos Cotidianos. Passagens de uma Venezuela convulsa (Rio de Janeiro, 2020) e Fantasmagorias da trama (em imprenta); publiquei artigos de pesquisa em revistas acadêmicas de distintos países da América Latina e participei de várias antologias poéticas. Junto com Patrícia Parra Hurtado, Nideska Suárez e Tánia Alemán, faço parte da coletiva poética venezuelana Querencias & Saudades. E-mail: liviasartre@gmail.com | Insta: @liviavargasgonzalez

Mãos Livres (12ª Edição)

Mãos Livres (12ª Edição)

#Literatura #Poesia #Conto #Fotografia A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte III Na terapia É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos. Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... Eu só fiz um plano... Todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim, eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando. É... Eu... Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E por que te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá. Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H. É sério. Tá. Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo?... Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer.... de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá. Parte final na próxima edição... *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal À BORDA DO COGITO Gabriela Mitidieri* Inominável Sou rosto em construção, Penso, logo me desloco (de mim) El placer de vivir en déplacement Criatura das margens Atraída pelos cantos e vozes de es-quinas Dança de serpente Deslizo pelas beiras Desprovida de centro protocolo&disciplina sou jazz do coração pela estrada à toda Não gosto do bom gosto dos bons modos nem das grandes religiões Gosto dos que têm fome e comem tabus à boca pequena traça de papéis sociais Criatura de mar y viento raiz submarina Evadi-me na nau das loucas, com Judiths, Genis e Sherazades (por todas que não têm nome) Pai, Pátria, Família, Propriedade Maiúsculos não cabem na minha bagagem Meio, jamais fim Sendo, jamais sou margem da palavra F(r)esta você não me pega você nem chega a me ver. *Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia, professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Mambembe, gosta de blues, de circo e de Caetano. Como ele (com trocadilho) também gosta de paçoca, mas nunca estacionou no Leblon (nada contra, tem até amigxs que). Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri (SEM TÍTULO) Lya* Em pele cor de terra Curvas férteis, precipícios, Rachaduras e cicatrizes
Desenham meu r-existir Faça um mapa pra me decifrar Desbrave matas pra me descobrir Suba montanhas pra me alcançar Pois não vou me apequenar Pra te manter aqui Me poupe da sua posse
Meu decote não é convite Meu colo não é colônia Meu corpo é terra de ninguém Minha alma é de alforria Das memórias ancestrais sou moradia. *Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* E fiquei eu Naquele canto, só, Esperando o momento (o teto estava por desabar) Caíam algumas telhas Caíam algumas madeiras Mas a estrutura ainda se mantinha e me mantinha (aos pedaços) Até que, de repente, tudo ruiu. E, junto aos escombros, Sem nada que nos cobrisse, sem proteção Levantamos, eu e a minha história, Com a sensação ímpar de liberdade plena. E fui... *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. *Taiane Cerqueira - Fotógrafa, poetisa, comunicóloga em formação e criadora da Olhos da Preta. Ela conta a história da singularidade do ser através da fotografia e de poemas que são escritos partindo do que ela sente durante o processo criativo de cada imagem. É o que faz o seu coração vibrar. São experiências lindas de muita conexão e cuidado, para que você se veja e se sinta na sua melhor versão. Apaixonada pela arte de comunicar, ela traz e ensina a importância do autorretrato como mergulho, autoconhecimento e narrativa de si. Instagram: @olhosdapreta

Carta ao espelho: confissões - 12ª edição #alertagatilho

Carta ao espelho: confissões - 12ª edição #alertagatilho

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Querida Beatriz, Tenho andado um tanto reflexiva nos últimos dias. Há cerca de uma semana, em isolamento protetivo, estava eu organizando minhas coisas e me deparei, acidentalmente, com uma cópia empoeirada da minha tese. Desde então tenho rememorado o trauma daquele concurso e muitas lembranças e histórias, minhas e de outras mulheres, povoam o meu pensamento. Tenho pensado sobre como nós, mulheres, com toda nossa diversidade interseccional, sofremos violências como uma constante em nossas vidas, mas também sobre como, a despeito delas, existimos como desejamos. E me lembrei da história de uma mulher. Essa é uma história de violência, mas também de sobrevivência, resiliência, resistência, mas, principalmente, de transcendência. Compartilho com você a história dessa mulher, que é uma de nós. Mas vale uma advertência, minha querida Beatriz. Apesar dos traumas das violências sofridas, não pensemos se tratar de uma mulher derrotada. A mulher sobre a qual falarei é teimosa em sua determinação e desejo de liberdade. Ela é uma mulher feliz e amada, uma mulher que conquistou o necessário para existir sem amarras, em seu próprio mundo. * Depois de me narrar uma série de violências sofridas ao longo de sua vida, hoje, já na meia idade, ela me confidenciou que sua brecha de negociação com o patriarcado é extremamente estreita. Em suas palavras, “nessa brecha cabe apenas o que me parece indispensável à sobrevivência nesse mundo, que é dos homens”. Isso, segundo ela, gera problemas de relacionamento e dificuldades de aliança, com homens e com mulheres. Mas que tipo de violência estaria por trás de tamanha indisposição em negociar? A essa pergunta ela me respondeu com algumas “confissões”, dentre as quais as que destaco a seguir: Confissão número 1: “Eu era uma criança pequena, apesar de gordinha, e o poder da minha imaginação dava de 7x1 na minha estrutura física (sim, eu adorava futebol e fiquei meses sem conter o riso quando, num sorteio, ganhamos uma bola da copa de 1990). Eu era pura potência, força e sensibilidade, de uma doçura desengonçada e um gênio difícil. Adorava brincar, sem fronteiras de gênero (viria daí a dificuldade do gênio?). Gostava de dinossauros, acreditava em seres extraterrestres e, mais ainda, que a Tilinha, minha cadelinha, com um pano na cabeça nos faria voar na minha bicicleta com cestinha. Essa garotinha, aos sete anos, foi vítima de um predador sexual, seu tio-avô, um homem com fama de tarado e sobre quem se ouvia burburinhos de que já havia abusado do filho, das filhas, da neta e até de uma vizinha. Naquela época, me parece, se silenciava muito mais do que hoje sobre violência sexual na família. Ele nunca foi responsabilizado por nenhum desses casos e já está morto.” * Confissão número 2: "Eu era adolescente quando me apaixonei por um garoto. Ele era motoboy e me levava para baixo e para cima em sua moto. Era divertido. A gente transava, fumava maconha, ouvia música e se divertia muito. Ele frequentava a casa dos meus pais e eu a casa dos pais dele. Almoço de domingo em família, ele estava lá e nós estávamos contentes. Eu confiava nele. Um dia estávamos sozinhos na casa dos pais dele e algo aconteceu, contra a minha vontade. Eu disse não, não quero, não porra! Mas foi assim mesmo, contra a minha vontade e à revelia de todos os meus nãos. Apenas 20 anos depois eu entendi que namorados também estupram e que aquilo pelo que passei, sofrendo em silêncio e sozinha, era um estupro.” Confissão número 3: Eu já estava na Universidade, estudava História. Eu tinha na época um namorado super gente boa, somos amigos até hoje, meio que irmãos. Eu estava na casa dele quando finalmente minha mãe conseguiu falar comigo. Naquela época meus pais estavam em um processo doloroso de separação e todas nós vivíamos uma experiência de profunda transformação em nossas vidas. Acontece que meu pai decidiu viver outra vida, ao mesmo tempo em que pretendia nos privar das nossas. Embora eu não estivesse em casa, o plano era matar todas nós. Cenas de filme de terror. Pulou o muro. Os cachorros não latiram porque o conheciam muito bem. Pegou minha mãe e minha irmã de surpresa e partiu para cima das duas com uma faca aos gritos de “eu vou matar vocês”. Ambas gritaram, correram e, se esquivando dos golpes, se trancaram em seus respectivos quartos. O cabo do telefone sem fio foi desconectado pelo meu pai, para evitar que elas ligassem para alguém. Nossas vizinhas, igualmente calejadas no tema da violência doméstica, chamaram a polícia, que chegou a tempo de impedir a tragédia. Ainda hoje tenho vários pensamentos contrafactuais quanto ao que teria acontecido se eu estivesse em casa naquela noite. Penso nisso, especialmente, porque a porta do meu quarto tinha um defeito (não podia ser trancada) e também porque eu não costumava fugir dele, eu o enfrentava…” ... As confissões daquela mulher me impactaram profundamente e, como você deve imaginar, a lista é muito maior. Contudo, nada parece superar essas três confissões que mencionei. E, se entendi bem o que ela me disse, são essas as experiências que ela evoca sempre que precisa dizer para si mesma que irá sobreviver a mais uma violência simbólica, a mais uma tentativa de manipulação, de distorção de suas palavras, de expropriação de suas ideias, de deslegitimação de seus argumentos, de ridicularização de seu jeito, de insinuação de loucura, da acusação de agressividade, da pecha de arrogante, etc., etc., etc. E, ao fazê-lo, ela completa sua estratégia cíclica de sobrevivência diária, solta uma imensa gargalhada interior e libera para seus agressores um olhar de desprezo e um ar de superioridade, assim como quem diz… eu transcendi! É isso! Um abraço de sua querida amiga, Alice.

Tá rolando... - 12ª edição

Tá rolando... - 12ª edição

1. LIVRO “DAS RIBEIRAS O TESOURO, DA RECEITA O SUSTENTO: A ADMINISTRAÇÃO DA PROVEDORIA DA FAZENDA REAL DO RIO GRANDE (1601 – 1723)”, POR LÍVIA BARBOSA: É mais uma edição da EDUFRN, foi lançado no último dia 30, no Youtube, no canal do Laboratório de Experimentação em História Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LEHS/UFRN). O evento ocorreu com a palestra da autora da publicação, a professora e historiadora Lívia Barbosa, mediada pela professora Carmen Alveal, do Departamento de História da UFRN. O link para a palestra, aberta a todas as pessoas interessadas, é: https://youtu.be/KoxImi678yc. O tema que este livro trata está ligado à perspectiva da História administrativa e concentrado na Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande. Ao compreender a estruturação da Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande, a autora reconstitui parte de alguns elementos que formaram o espaço colonial da capitania do Rio Grande. A cada provisão de ofício, a cada lance dado pelo arrematador interessado nos ganhos com os contratos da capitania, Lívia Barbosa reconstitui em partes como funcionava a administração fazendária do Rio Grande, movida por homens a serviço da Coroa, mas não isentos de seus próprios interesses. Este livro demonstra que, com base nessa dinâmica, consolidaram-se espaços de arrecadação de tributos e manteve-se, mesmo com percalços, o pagamento das despesas da capitania. Foi nesse sistema que das ribeiras proveio o tesouro da capitania do Rio Grande – a arrecadação de tributos –, tornando-se possível a sua receita e, consequentemente, o seu sustento. O livro é resultado da dissertação de mestrado da autora, defendida e indicada para publicação em 2017. Link para download do livro: https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/32607?fbclid=IwAR3OfoWeWDNdclRmG0WttH_g1ou6_o_R565MXryfCxaEW_6vAdMDrnSCg9c 2. EP “MOTUMBASÈ, MOTUMBÁ?", DA ARTISTA POTIGUAR OYÁ IYALE O EP "Motumbasè, Motumbá?" foi lançado no dia 10 de julho. E, com a benção da ancestralidade, o álbum veio para celebrar a fé, a cultura, os corpos, os ritmos e a musicalidade do povo preto. O EP "Motumbasè, Motumbá?" é fruto de um projeto contemplado pela Lei Aldir Blanc, através da Fundação José Augusto, Estado do Rio Grande Do Norte. A produção reuniu: Oyá Iyalê (composição e voz), Kleber Moreira (percussão, produção e direção musicial), Rannah Duarte (percussão), Iury Matias (violão e guitarra), Analuh Soares (backing vocals, preparação e direção vocal) , GabyVarela (backing vocals), Diogo Mãozinha (fotografia). Arte: Cattaprisma. O EP pode ser conferido em todas as plataformas musicais! Confiram a rede social da artista: @oya.iyale 3. CANTORA E COMPOSITORA POTIGUAR ANANDA K LANÇA SINGLE “FEITIÇARIA”: A cantora e compositora, Ananda K traz em sua bagagem mais de 11 anos de carreira e consagra seu trigésimo ano de vida com o lançamento de “Feitiçaria”, single que também dá nome ao seu primeiro álbum autoral, com lançamento previsto para agosto. “Sempre enfrentei os desafios de construir um trabalho autoral e acreditei que seria possível atingir os corações com tudo aquilo em que eu acreditava”, diz Ananda sobre sua estreia autoral. A artista, filha do cantor e compositor, Gilson de Moura, vem se renovando e se encontrando a cada dia, refletindo sobre sua missão, sua trajetória e seu propósito com a música. Apesar de uma grande carga autobiográfica, “Feitiçaria”, vem com canções que têm a característica de envolver e cativar o público, provocando o sentimento de identificação e aproximação com as letras e as histórias nelas contadas. A produção do álbum ficou a cargo de Diego Francisco, com mixagem de Yves Fernandes, direção artística de Anderson Foca e masterização por Eduardo Pinheiro, todos técnicos e produtores potiguares. O clipe da canção também está em andamento e deve ser lançado nas próximas semanas. O Lançamento é do Dosol (@festivaldosol), dentro das comemorações de 20 anos do combo cultural. Segue o link pra ouvir o single em todas as plataformas digitais: https://onerpm.link/Feticaria Confiram as redes sociais: @anandakoficial 4. @DOT.TATOO Carina Ribeiro tem 29 anos e é formada em design gráfico. Conhecida como “Carina Dot”, ela tatua há 7 anos e desenvolve trabalhos com desenhos personalizados, coberturas, aquarela, fineline, botânica/floral e minirealismo. Além de tatuadora, Carina Dot também faz histórias em quadrinhos. Confiram o seu instagram @dot.carina e os sites: https://www.catarse.me/assinaturadot e https://www.dottattoo.com.br/ 5. LIVRO “O ESTADO NOVO NO CONTROLE DA INFORMAÇÃO COTIDIANA: O CASO DA CIDADE DE NATAL (1941-19430)”, POR FERNANDA COSTA: Esse livro nasceu de uma série de quereres, de um hiperfoco que achou na pesquisa acadêmica caminho para se desenvolver e que vem da estrutura de uma pesquisa de mestrado em Ciência da Informação, mas que antes foi pensado em dois trabalhos de conclusão de curso respectivamente em Biblioteconomia e História. Além disso, a obra foi um resgate da própria identidade natalense da autora, pois, assim como ela, outros tantos natalenses e norte-rio-grandenses crescem escutando sobre a importância de Natal na segunda guerra mundial, mas nunca passam dos mesmo clichês “fomos os primeiros a tomar coca cola”, “palavra x, y e z são do tempo de convivência com os americanos” ou “fomos importantes porque era aqui que os aviões passavam antes de ir para a África e Europa”. Apesar dos tantos clichês que alimentam o imaginário sobre o período, com a importância e a festas que foi tudo isso em Natal, mesmo no meio de tanta dor e tristeza na maior parte do mundo em guerra e os terrores nazifascistas, ainda temos uma série de perguntas a fazer a esse período da história de Natal, do Rio grande do Norte e do Brasil na guerra. Assim, tendo como parte do objeto a informação e sua compreensão no cotidiano, muitas perguntas foram sendo feitas, o contexto histórico é apresentado para mostrar como o aparelhamento do Estado Novo carece de necessária compreensão para as narrativas memorialísticas com as marcas indissociáveis do que podia ser dito e do que se recheia os não ditos. Isso faz com que, os três anos estudados nesta pesquisa, tragam com riqueza detalhes do cotidiano de Natal e da Guerra através dos olhares daqueles que tinham algum poder para criar expressões escritas dentro do universo jornalístico estudado e de como o memorialístico informacional pode dizer sobre. O livro pode ser encontrado para download gratuito no site do Selo Nyota: https://3b2d7e5d-8b9a-4847-aa3e-40931d588fb7.filesusr.com/ugd/c3c80a_2e267b5947674d6c844fd62c597e2743.pdf. 6. HISTÓRIA PARA ENEM (@historiaparaenem) Idealizado pela historiadora Ristephany Kelly da Silva Leite, o História para Enem foi criado no período em que as discussões sobre o adiamento da prova do ENEM 2020 estavam ocorrendo, o História para ENEM se propôs a ser mais uma ferramenta de auxílio no processo de aprendizagem dos estudantes que iam realizar a prova. Funcionando com vídeos curtos de resoluções de questões, acompanhados de postagens escritas com as mesmas questões dos vídeos, para os estudantes que não possuíam muito acesso à internet, e com o envio de PDFs para os e-mails daqueles que não tinham como estar no Instagram diariamente, o projeto cresceu e extrapolou o conteúdo das provas do ENEM. Percebendo a necessidade da divulgação da produção historiográfica e de debates mais amplos com a sociedade, hoje o projeto continua trabalhando com as questões do ENEM, mas traz a produção acadêmica de forma rápida e simples para o dia a dia das pessoas, por meio de postagens com discussões importantes para a sociedade, sempre acompanhadas de indicações de leituras, músicas, filmes e documentários para os que desejam aprofundar seus conhecimentos. Confiram a produção de conteúdo de qualidade na página do Instagram @historiaparaenem 7. UM ANO DO CANAL E SELO LITERATURA FEMININA, DA POETISA POTIGUAR JEOVÂNIA P. : A literatura feminina cada dia mais vem ganhando força, nos últimos anos com a criação do Mulherio das Letras e sua disseminação, pelo país e fora dele, vem provocando uma revolução literária, que preza por evidenciar uma literatura que por séculos foi invisibilizada, isto é, a produção literária feita por mulheres. Crescemos em um mundo que defende uma sociedade falocêntrica, embranquecida e preconceituosa, sendo assim, a tomada de consciência da nossa potencialidade transforma essa realidade preestabelecida. Quando mulheres que escrevem se reúnem e juntam forças para mostrar para o mundo que suas escritas são potentes, e que elas estão aqui para ficar, adentramos a uma nova Era. Que como bem coloca a matriarca, Maria Valéria Rezende, horizontaliza o espaço literário, dando assim uma nova forma à literatura, uma onde todas as escritoras podem se sentar a mesma mesa e debaterem como iguais, independente de serem iniciantes ou com longos anos de estrada, todas em uma mesma caminhada e juntas. É nesse espírito de luta pela valorização e visibilidade do que vem sendo produzido por mulheres escritoras que nasce Literatura Feminina, tanto o canal quanto o selo. O canal surgiu junto com o projeto “Bom dia com literatura feminina”, onde todos os dias às 7:00 horas são publicados vídeo de mulheres recitando mulheres, não apenas se auto declamando, mas também nos apresentado outras escritoras, criando o laço que se forma quando uma mão segura outra, e de repente há uma imensidão de braços dados, tudo isso lá no nosso canal do YouTube Literatura Feminina: https://www.youtube.com/channel/UcjLppp_PfR6WkEaqHLNMuxA . Esse espaço não só propaga a literatura feita pelo mulherio, como auxilia na construção de uma rede que vem se solidificando diariamente, a partir da união das companheiras. Estas buscam juntas meios de superarem as dificuldades do mercado editorial, dos preconceitos sociais, da autoafirmação e reconhecimento de si enquanto escritora. Coisas que são necessárias para trilhamos nosso caminho, assim como essa resistência que se efetiva a partir da comunhão de umas com as outras. Esta parceria literária vem dando muitos frutos, e completa um ano de um canal e de um selo que se fez por meio dessa confluência que está rendendo até a produção literária impressa, pois as coletâneas “O Livro das Marias” e “Escrituras Negras” são prova disso. Seguindo esse movimento, o e-book “Sinergia”, uma obra que proclama a parceria entre escritoras, logo ganhará versão impressa e foi lançado no dia 15 de julho com um sarau de lançamento do sarau disponibilizado no link de acesso à obra. Essa coletânea conta com a presença de 41 (quarenta e uma) autoras, mais a participação especial de Maria Teresa Moreira que faz a apresentação e a arte da capa é baseada em quadro da artista plástica Sayonara Pinheiro.

Mãos livres (11ª Edição)

Mãos livres (11ª Edição)

A MORTE DA FELICIDADE Jeovânia P. A felicidade pegou a estrada vida Chegou admirando-se do céu Das belezas que pelo caminho encontrava Como há de tudo E umas tantas coisas muito mais A felicidade começou a ver tanta coisa ruim Quem foi ficando cabisbaixa Um dia deu para examinar seu nome Felicidade Escrito com F como feio como falso como fedido como filho da puta a partir daí não deu mais para manter o riso no rosto uma áurea. Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial; e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte II A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823. Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia: Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria.
Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar.
Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções.
Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho.
Queria não me sentir estranha...
e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo
(...)
vida q segue. Desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e, então, só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo. Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás. Porém, aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querida da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão. Novamente, Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajudá-la a terminar a história. No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo TV com elas. Compreensiva ela, mas Marisa não podia calar. “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito, muito distante, e muito, muito esquisito, chamado Copa...” *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | Twitter: @sheilalopesleal (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Vamos caminhando... Contra o tempo (inimigo) E contra os inimigos do nosso tempo Vamos caminhando apesar de mas, apesar de tudo com esperança (ela não pode acabar) Vamos caminhando E sempre lutando E sempre buscando E vamos vivendo (de olhos bem abertos) e, assim, crescendo E vamos sonhando Por que não? Às vezes faz bem Ajuda a descansar da realidade (pequenas doses para temperar o dia) “Vamos levando esse barco Buscando essa tal de felicidade” E sempre que possível, vamos caminhando de mãos dadas Quem sabe no fim do caminho, possamos dizer que valeu a pena. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAUSOS DO TINDER (CRÔNICA 1) Maiara Juliana Gonçalves da Silva* Esse tal de Tinder é uma experiência bem engraçada, né? Hoje conversava com uma amiga sobre o uso e as experiências que tive no aplicativo durante um certo tempo. Tem uma amiga minha (Outra amiga. Não a do diálogo de hoje.) que combinamos de, quem sabe um dia, escrever um livro sobre os "Causos do Tinder" narrando nossas (des)aventuras em certas vezes que recorremos ao aplicativo. Hoje, decidi narrar sobre uma delas, que ocorreu no ano passado... * Eu nunca dou like em homens policiais no app. Sempre achei algo bem estranho como, a maioria deles, se "promovem" nas fotos do "catálogo" da vitrine virtual do aplicativo de relacionamento. É sempre exibindo suas armas e, em outros casos, as fotos com armas adicionam a fotos na viatura, distintivos, coletes a prova de bala etc. Um fetiche construído em resposta a relação que se faz entre farda, poder e virilidade. Pois bem. Um certo perfil do catálogo se apresentava com fotos bonitas (com ausência de símbolos que fizessem alusão a). Na descrição, poucas informações. Entre elas, constava "servidor público". Resolvi pagar pra ver. A conversa iniciou com cumprimentos e elogios de protocolo. Ao seu desenrolar, identificamos pontos em comum: naturalidade carioca, mudança do Errejota para Natal no mesmo ano, moradia atual no mesmo bairro. Os poucos pontos em comum, que se resumiam a trajetórias de deslocamento, terminaram quando começamos a falar sobre nossas profissões. Eu fiz a seguinte pergunta: "- E você é bolsominion?". A primeira resposta foi: "- Não costumo falar de política logo assim de cara". Expliquei que, no atual momento, era algo importante a se saber, afinal de contas "diga-me em quem tu votas (votou) e eu vos direi quem és". A preliminar (política), então, se tornou um debate... Ele disse que não era bolsominion, "MAS...". Penso que boa parte das frases que vem em complemento após esse uso do "mas" como conjunção coordenativa de adversidade deveriam encerrar antes mesmo dele. Em menos de dez minutos, o perfil tinha dito que antes o país sofria com a corrupção PTista, que era "uma escolha muito difícil" e que o PT era de extrema esquerda. Ali foi demais para mim. Extrapolou toda tentativa de um saudável debate que estávamos a fazer. Após o desnudamento das preferências políticas, ele pediu o meu instagram. Foi quando eu disse que não o forneceria. Então, foi a vez dele: "- No seu perfil deve ter aquelas fotos mostrando os peitos, de legenda 'meu corpo, minhas regras' e fumando maconha". Na resposta, ativei o tom de um certo deboche "- Praticamente isso...". Depois foi só ladeira abaixo, e como sempre dá para cavar mais em fundos de poços (vide o Brasil atual), então veio a cereja do bolo. Não satisfeito com a recusa em fornecer o perfil do instagram, o cidadão soltou em breves palavras: "- Para sair comigo é preciso fazer exame toxicológico". Foi, então, que eu respondi: "- Relaxe, meu bem. Não estou te convidando para sair". A conversa encerrou com ele desfazendo o "match". * A experiência requer um apelo: por fineza, quem souber onde vende ego de homem, por favor me avisar porque eu quero comprar de quilo. Ou, como diria por essas bandas de cá, eu compro "de ruma". Não à toa, a premissa segue inabalável: "diga-me em quem tu votas (ou votou), e eu vos direi, não só quem és, como também se ando com você." * Ainda em tempo (e pré dia 19 de junho #19J): Fora, Bolsonaro genocida. * Maiara Juliana Gonçalves da Silva - é uma mulher preta, é uma mulher livre e é uma mulher mãe da Sofia Valentina. Nas horas vagas, ela é intelectual, historiadora, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Escola Agrícola de Jundiaí - EAJ) e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Instagram: @maiarajulianags ILUSTRAÇÕES Juliana Fernandes* Meu nome é Juliana, mas todo mundo me chama de Ju. Sou formada em publicidade e tenho mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Ao longo dos meus quase 20 anos de carreira no mundo corporativo, sempre tive a sensação de que não me encaixava. Mesmo quando trabalhei com Patrocínio e Incentivo de Projetos Culturais, ainda assim, sentia que faltava algo. Queria mudar de carreira, mas não sabia o que eu gostaria de fazer. Em fevereiro de 2017, minha filha Morena nasceu e virou meu mundo de cabeça pra baixo (ou pra cima, na verdade…). Assim como acontece com muitas mulheres, eu não conseguia mais conciliar a vida que eu tinha com a maternidade que eu queria exercer. Quando, após 7 meses em casa com ela, tive que voltar a trabalhar, simplesmente não conseguia mais. Chorei todas as manhãs ao sair de casa, durante 6 meses. Até que veio a coragem que me faltava para dar o grande passo: pedi demissão. Decidi então que iria começar algum projeto pessoal. No caso, eu havia composto uma canção de ninar para Morena e tinha imaginado que poderia transformar esta canção em um livro. Com essa ideia na cabeça comecei a fazer aulas de desenho e descobri que simplesmente amo desenhar! Uma amiga me incentivou a postar meus desenhos no Instagram e, com isso, surgiram as primeiras encomendas. De lá pra cá, venho retratando famílias, histórias, amores... Ano passado lancei finalmente o livro que deu origem a isso tudo: A Valsa da Bailarina, meu segundo filho. E assim, quando dei por mim, havia encontrado minha nova carreira, meu propósito de vida: trazer mais amor e beleza para o mundo e para as relações, através da arte. Assim, nasceu o JuPocket Studio, projeto que oferece ilustrações personalizadas e produtos autorais. Confiram mais no instagram: @JuPocket Studio *Juliana Fernandes é publicitária e possui mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Natural de Aracaju, rodou o mundo e, há 10 anos, escolheu Natal para fincar suas raízes. Mãe de Morena, ilustradora, designer, empreendedora, aprendiz de violeira e autora do livro A Valsa da Bailarina.

Tá rolando... (11ª edição)

Tá rolando... (11ª edição)

Confiram as nossas recomendações: III JORNADA VIRTUAL DA REDE DE HISTORIADORAS/ES LGBTQIA+: HISTÓRIAS, MEMÓRIAS, SUJEITAS E RESISTÊNCIAS. A rede de Historiadoras e Historiadores LGBTQIA+ preparou uma programação que está ocorrendo desde o dia 17 de maio e será finalizada no dia 28 de junho. A programação inclui mesas de debates, lançamentos de livros e entrevistas com pioneiros/as e pesquisadores/s do movimento LGBT. A transmissão ocorre pelo canal da rede no Youtube. Confiram em: Rede Historiadorxs LGBTQI https://www.youtube.com/channel/UC6pRt1_iiTroHrDi8l-hJ6A LIVRO: CLIO SAI DO ARMÁRIO - HISTORIOGRAFIA LGBTQIA+ A obra Clio sai do armário, organizada por Rita Colaço Rodrigues, Elias Ferreira Veras, Benito Bisso Schmidt, é um marco nos estudos históricos brasileiros, fruto do primeiro encontro organizado entre historiadoras e historiadores ligados à temática LGBTQIA+. Seus textos oferecem uma reflexão densa e atualizada, situada em seu escopo temático, mas que mobiliza questões que perpassam toda a historiografia. Nas palavras de Joana Maria Pedro, é uma obra que "conclama à empatia, ao olhar para o outro, para o cuidado. É resultado da coragem de quem, no passado e no presente, soube desobedecer a cisheteronormatividade". A obra conta com a colaboração dos seguintes nomes: Joana Maria Pedro (prefácio), Benito Bisso Schmidt, Paula Silveira-Barbosa, Daniel Vital Silva Duarte, João Gomes Junior, Rodrigo de Azevedo Weimer, Julia Aleksandra Martucci Kumpera, Kleber José Fonseca Simões, Rita de Cassia Colaço Rodrigues, Elias Ferreira Veras, Hélio Secretário dos Santos, Rafael França Gonçalves dos Santos, Augusta da Silveira de Oliveira e José Wellington de Oliveira Machado. O livro foi publicado pela editora Letra e voz e pode ser adquirido no link: Clio sai do armário: Historiografia LGBTQIA+ [Em pré-venda: Envio a partir de 05/05] CANTORA CLAUDIA MANZO - MÚSICA VACILÃO A cantora e compositora Claudia Manzo, chilena residente em Belo Horizonte, lançou na última semana, na companhia de Mariana Cavanellas, seu single baphônico "Vacilão''. Cumbia circense feminista, Vacilão convida as mulheres a não se calarem diante de esquerdomachos, abusos e outras tretas, como podemos ver no verso da canção “vacilão merece exposição”. Dançante e teatral, “Vacilão” nos convida à dança; não uma dança só, mas acompanhada das várias mulheres que somos, ancoradas em nossos corpos femininos, que já não aceitam caladas os (mil) assédios pelos quais (infelizmente) todas já (ainda) passamos. Cláudia Manzo lançou recentemente as músicas “Pachamama” e “Capucha” no álbum OxeAxeExa, do BaianaSystem, o single “Re-volta” e é autora do álbum solo “América por una mirada femenina”, de 2017. Em 2021 vai lançar, ainda, seu novo álbum. Aguardamos ansiosas. COLETÂNEA “ESCRITURAS NEGRAS II - AS MARCAS” - Indicação da leitora e autora Jeovânia Pinheiro A coletânea “Escrituras Negras II_ As Marcas” é organizada pela escritora Jeovânia P., e traz consigo um recorte de gênero e etnia. Visto que o projeto é todo voltado para a produção intelectual da mulher negra, a saber, desde a idealização, organização, capa, homenageada, textos, tudo é produzido por pretas. Uma das marcas que as coletâneas produzidas por Jeovânia P. têm é que as capas de todas as obras são baseadas em obras plásticas de mulheres. No caso de Escrituras Negras, as artistas plásticas são sempre afro-brasileiras. Esse volume II traz na capa o quadro de Vânia de Farias Castro e homenageia Maria Firmina dos Reis. Outro aspecto relevante a se pensar, é que a obra contém em si três gêneros literários: contos, crônicas e poesias. Portanto, traz a diversidade na linguagem e nas formas. Além de que as mulheres que estão na obra vêm das mais variadas partes do país e de fora dele. São trinta e uma autoras vindas do nordeste, sudeste, sul, centro-oeste, Portugal e Alemanha. Ainda se unem a estas a homenageada, Maria Firmina dos Reis, a escritora que produziu o poema sobre a homenageada, Selma Maria da Silva, e a prefaciadora, Elisabete Nascimento. Logo, há mais que a multiplicidade de gêneros literários, há uma pluralidade de olhares e experiências que são oriundas das próprias culturas em que cada uma dessas mulheres estão inseridas. Por isso, quando elas refletem e produzem literariamente sobre ‘as marcas’ que o mundo imprime nelas, elas apresentam marcas de diferentes perspectivas, isto é, sociais, físicas, psicológicas e ancestrais. Ao mesmo tempo, proporcionam a identificação de outras mulheres negras com as suas escritas, como quem fala de uma multidão inteira. Elisabete Nascimento no prefácio nos diz: “O livro Escrituras Negras II atravessou a minha alma, cortando-a, afetando-a, paradoxalmente, com dores e alegrias. As autoras, num ousado ato político, ao escrevê-las como escrita de si e /ou de vozes de mulheres negras, também inscrevem suas narrativas e poemas num corpus literário brasileiro mais complexo. Neste sentido, os corpos negros femininos são, de fato, um campo de luta contra as violências físicas e simbólicas impostas historicamente às mulheres negras. Esta obra nos inspira a um debate político e poético sobre o corpo da mulher negra no enfrentamento com o corpus literário, cujas matrizes e cânones hegemônicos prescrevem o corpo negro feminino como tema/objeto da narrativa e da pesquisa, mas não como sujeito. Na contramão, vozes e autorias fecundam e vão parindo insubordinações e um corpus literário com suas marcas e subjetividades. Nele, se inserem como escrevivências, interpelando a tradição literária brasileira que relegou a estes corpos à invisibilidade e à subalternidade. Assim sendo, as Escrituras Negras denunciam o corpus político estereotipado, invisibilizado e silenciado, contra os quais vozes e autorias se insubordinam.” Portanto, convidamos a todos a conhecerem não apenas esta obra “Escrituras Negras II_ As Marcas”, como também a escrita das mulheres negras, a potência que há na literatura das nossas pretas. LIVRO VELHAS SÁBIAS: UM TRIBUTO ÀS QUE VIERAM ANTES DE NÓS- Indicação da leitora e autora Jeovâ nia Pinheiro Quase todos conhecem uma velha sábia, a mulher que atravessou anos fazendo coisas espetaculares como, por exemplo, viver a vida da melhor forma que possível, nas circunstâncias que se apresentassem, num país que não tem olhos para a força feminina. Velhas Sábias – Um tributo às que vieram antes de nós, junta um punhado delas, numa antologia organizada pela escritora Fátima Soares. O livro, que reúne 27 escritoras de sete estados brasileiros, terá lançamento nacional virtual na próxima quarta-feira, dia 26, às 18h, com transmissão pelo canal Projeto Velhas Sábias, no YouTube. As escritoras – e algumas das velhas sábias que ainda estão entre nós - participarão da festa, com a presença de Maria Valéria Resende, a inspiradora do movimento Mulherio das Letras, e da organizadora. A conversa será mediada pelas escritoras Leila Santos e Sofia Leal. Editada pela Ipanec, sob o selo do Mulherio das Letras, a antologia foi idealizada, inicialmente, no Morro da Conceição, em Recife, quando 13 mulheres negras pensaram em enfrentar o desafio de contar a vida de mulheres que fizeram história nos seus núcleos e alcançaram a longevidade. A ideia foi maturando e, sob o advento da pandemia, cresceu e alcançou outras mulheres, algumas estreantes na escrita. “Velhas Sábias – Um tributo às que vieram antes de nós” conta histórias de mulheres negras, brancas, descendentes de indígenas e imigrantes. Todas elas atravessaram as mudanças do Século XX em núcleos de extrema pobreza ou em famílias abastadas, no campo e nas cidades de um Brasil que começava a deixar para trás a sua característica rural. Em comum, elas venceram de alguma forma a opressão característica do patriarcado, pariram ou criaram núcleos familiares, ganharam o sustento das crias. Sábias por driblar as dificuldades, alcançar a velhice e deixar um legado às que chegam depois delas. As escritoras são de Recife e outras cidades de Pernambuco, da Bahia, do Rio Grande do Norte, do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba e Brasília. Lançamento: Velhas Sábias – Um tributo às que vieram antes de nós, selo Mulherio das Letras, Editora Ipanec, Recife, 2021 Dia 26/05 – 18 horas Transmissão: Canal Projeto Velhas Sábias, no YouTube (Projeto Velhas Sábias)