Traduções: Sheila‌ ‌Rowbotham - E. P. Thompson, Feminismo e os anos 1960

Atualizado: 25 de Set de 2020

Uma entrevista com Sheila Rowbotham


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Membros do Movimento Nacional de Libertação das Mulheres, em uma marcha pelos direitos iguais para marcar o Dia Internacional da Mulher, Londres, 1971, Fotografia: Daily Express / Hulton Archive / Getty



Sheila Rowbotham: E. P. Thompson[1], Feminismo e os anos 1960

Uma entrevista com Sheila Rowbotham

Em entrevista, a historiadora feminista de longa data Sheila Rowbotham reflete sobre as décadas na esquerda - lidando com a realidade de ser uma socialista da classe média - sobre sua relação com E. P. e Dorothy Thompson[2] e sobre a influência do livro clássico “A formação da Classe Operária Inglesa”.


Sheila Rowbotham é historiadora, socialista, feminista e autora de muitos livros, tais como Hidden from History (Escondido da História), Women, Resistence and Revolution (Mulheres, Resistência e Revolução), dentre muitos outros, sendo o mais recente Rebel Crossings: New Women, Free Lovers, and Radicals in Britain and United States (Travessias rebeldes: Novas Mulheres, Amor Livre e Radicais na Grã-Betanha e nos Estados Unidos)[3].

Ela foi recentemente entrevistada pela escritora Alex Press[4] e pelo historiador Gabriel Winant[5] no podcast "Casualties of History" (Vítimas da história), da revista Jacobin, na qual falou sobre sua história na esquerda e sua relação com E. P. e Dorothy Thompson. O link para a entrevista em inglês está disponível em https://www.jacobinmag.com/2020/06/sheila-rowbotham-gabriel-winant-british-socialist-feminism

Alex N. Press (ANP) - Você veio para a esquerda no início dos anos 1960, no ambiente da campanha de desarmamento e das consequências do 1956[6]. Como esses anos marcaram seu posicionamento político?

Sheila Rowbotham (SR) - Eu acho que era fundamental estar envolvida em um movimento, porque a CND [Campanha para o Desarmamento Nuclear] tinha muitos tipos diferentes de pessoas. Havia membros da União Nacional dos Professores que costumavam andar muito solenemente e pareciam incrivelmente velhos. Havia pessoas com jaquetas de couro e jeans. Era uma época em que ainda havia uma contracultura beatnik[7]. Então os sindicalistas se juntavam também.

Era uma grande mistura de pessoas, e a política não era de todo sectária; havia pessoas que eram socialistas, cristãs e anarquistas. Tinha uma tradição através do Comitê dos 100[8] de ação direta pacífica inspirada na influência ghandiana. Fazíamos coisas como sentar em protesto. Em uma ocasião marchamos para uma sede regional do governo. Nossa ideia era permanecer desafiando a falta de democracia do Estado e ao mesmo tempo fazer um protesto moral.

Gabriel Winant (GW) - Você faz a descrição desses anos - e eu acho que você está se referindo especificamente à New Left Review[9]. Você não podia entender como eles poderiam ser socialistas, mas não se preocupar em serem pessoalmente afastados das pessoas das classes trabalhadoras. Estou curioso sobre como você lidou com a questão de ser uma socialista de classe média enquanto desenvolvia a sua orientação política.

SR - Acho que eu tinha essa consciência porque eu vim de uma cidade industrial do norte. As pessoas vieram do sul, e particularmente de Londres. As famílias do meu pai e da minha mãe não tinham tido educação formal. Meu pai era engenheiro mecânico de mineração. Ele teve momentos de altos e baixos na vida, trabalhou nas minas quando não conseguiu emprego nos anos 30, depois se tornou vendedor. Não havia uma tradição de livros em nossa casa. Tínhamos vários livros que chegavam por acaso, porque meu pai trazia dos leilões. Os livros vinham em lotes e eu costumava lê-los.

Eu tive uma professora de história muito boa na escola, que era liberal. Eu cresci em um momento que havia uma ênfase muito forte na classe, por causa da cultura dos romances, dos jovens irritados - havia um sentimento rebelde que era mobilizado pela classe. Então, acho que aprendi isso antes de ter ideia do que era a política de esquerda. Era parte de ser contra tudo que parecia já ter existido.

ANP - Qual era sua relação com as pessoas da New Left Review?

SR - Quando eu estava na universidade nós tínhamos um grupo chamado Universities and Left Review. Era uma situação mais leve. Meu namorado na época se chamava Bob Hawthorne. Ele era um amigo íntimo de Gareth Stedman Jones[10]. Conheci Gareth no meu primeiro ano de universidade. Na verdade, conheci Gareth em um encontro às cegas - fui convidada por um amigo para encontrar um amigo de alguém - e Gareth e eu nos conhecemos.

Eu não era de todo de esquerda, e ele tinha feito pichações contra a Guerra da Argélia. Não foi o encontro às cegas mais bem sucedido, porque eu era uma espécie de hippie beatnik mística. Eu disse que tinha pichado em Paris - mas para conseguir dinheiro. E ele tinha pichado slogans políticos. Eu só o encontrei novamente por meio do Bob, foi quando realmente conheci o Gareth e as pessoas que começaram a New Left Review. Ele era estudante, um pouco mais jovem do que Perry [Anderson][11].

ANP - Depois do período como trotskista, você se descreve atraída pelo socialismo libertário e pela causa da libertação das mulheres?

SR - Eu não era realmente uma trotskista. A principal influência não era o trotskismo, nem a New Left Review, embora alguns dos meus contemporâneos estivessem ligados a isso. Era a política da Nova Esquerda que eu tinha lido no Reasoner e no New Reasoner [periódicos] de Dorothy e Edward [Thompson]. Eu sempre tive amigos que estavam em muitos grupos diferentes, então desenvolvi um comportamento amigável com pessoas de diferentes posições políticas. Eu consegui isso através da participação em um movimento que contava com grande diversidade de pessoas. Havia um compromisso moral, um compromisso de viver e de trabalhar com pessoas da classe trabalhadora, como Dorothy e Edward fizeram.

Grande parte da minha vida vivi em regiões operárias e trabalhei com essas pessoas. Eu queria superar as divisões de classe. Desde muito cedo, senti que essas divisões eram inúteis e estúpidas. Parecia óbvio que as desigualdades afetavam as pessoas desde muito jovens, porque antes de lecionar na Universidade de Manchester eu lecionei em escolas. Eu pude ver que tudo era contra as meninas e meninos da classe trabalhadora que tentavam estudar.

ANP - Você poderia falar um pouco sobre sua relação com Dorothy and E. P. Thompson?

SR - Eu os conheci quando tinha 19 anos. Um tutor me indicou e eu era um pequeno problema. Ele disse, “você deveria ir ver esses meus amigos, Dorothy e Edward Thompson, que vivem perto de Halifax. Eles escrevem sobre coisas como o cartismo”. Então liguei para eles. Eu estava extremamente nervosa. Edward e Dorothy me convidaram para fazer uma visita, então eu fui. Quando cheguei na casa, não vi Edward, eu vi somente Dorothy, que tinha cerca de 30 anos na época. Ela estava usando um pulôver preto de gola e meias pretas, o que era bem comum entre as mulheres intelectuais da época, não entre as pessoas que a minha mãe conhecia. Eles não me conheciam, nem tinham ideia de porque eu estava lá exatamente, mas eles me receberam bem. Eu costumava visitá-los muito e ler tudo que produziam. Então, eu li os manuscritos da "A Formação da Classe Operária Inglesa" ainda em elaboração. Era diferente de qualquer outro livro de história que eu já tinha lido. E eu tinha lido coisas como “Rebeldes Primitivos” de Eric Hobsbawm. Eu tinha lido um pouco da história de esquerda. Mas o livro de Edward era completamente extraordinário - todas essas pessoas [que ele descrevia] - e muitos dos lugares eram familiares para mim, porque eles são próximos de Leeds.

GW - Parece que a revolução da história social desempenhou um papel importante no seu próprio desenvolvimento político ao longo da década de 1960. Estou curioso sobre como você elaborou a relação entre sua identidade em desenvolvimento como historiadora e estudiosa profissional com os movimentos radicais da época.

SR - Bem, costumávamos chamar a coisa de Labor History Society (História Social do Trabalho). É um pouco fechado, mas tinha uma perspectiva alternativa sobre a história. Então tivemos a ideia de que aquilo poderia ser um tipo diferente de história. Havia pessoas questionando o escopo da história - todos os movimentos contra o colonialismo estavam desafiando as ideias de como a história deveria ser escrita. E, claro, fomos muito influenciados pelas lutas pelos Direitos Civis nos EUA - sabíamos sobre o movimento negro nos Estados Unidos e de sua luta pelos direitos civis, e depois sobre os Black Power.

Então, a ideia de que a cultura era uma área na qual você deveria contestar como as pessoas eram definidas era algo que estava no ar e que era muito importante no final dos anos 1960, quando o assunto sobre a libertação das mulheres começou a ser discutido. A ideia de escrever um tipo diferente de história parecia fazer sentido e eu estava certa disso por ter conhecido os desafios da história do trabalho, e pela influência thompsoniana, que não tratava apenas das questões estruturais criadas pelas pessoas das classes trabalhadoras. Ao contrário, era realmente um mergulho na vida cotidiana e na experiência dos trabalhadores individuais - bem como no fato de as pessoas estarem se organizando de muitas maneiras diferentes, não necessariamente de uma maneira formal apenas para obter o voto, mas para alcançar as coisas da maneira que pudessem, seja através de sociedades secretas, ação coletiva ou organização sindical.

GW - Você escreve sobre o final dos anos 60 e parece que está descrevendo a si mesma, eu penso:

"É assustador partir para novas jornadas sem mapas, talvez a parte mais difícil seja decidir o que manter e o que abandonar. Parecia haver uma atmosfera que aniquilaria a história, como se o passado estivesse muito comprometido para ser reconhecido".

Estou curioso sobre como essas perguntas ganharam sentido para você enquanto desenvolveu, ao que parece, a sua própria política de libertação das mulheres.

SR - Acho que deveria ter voltado a professora liberal e metodista que tive na escola. Ela estava realmente preocupada com esse tipo de “absolutismo” que queria se livrar de tudo. Acho que ela sentiu que eu poderia me tornar uma pessoa assim. Então, ela passou muito tempo me fazendo ler pessoas como [Edmund] Burke[12] e gente que falava sobre algum tipo de conexão orgânica através do tempo, com o passado.

Acho que sempre tive as duas coisas: uma atração pelas pessoas com bandeiras, derrubando tudo e o mundo virado de ponta cabeça. Mas também algum tipo de apreciação pela continuidade e pelas ligações com o passado. Uma das coisas boas é que Edward conheceu uma mulher muito velha que tinha realmente se ajoelhado em frente ao orador Henry Hunt, o radical. E assim, eu me sinto muito agradecida, porque eu posso dizer a você que eu sou uma mulher que conheceu um homem que conheceu uma mulher que conheceu Henry Hunt, o que leva você de volta ao início do século XIX.

GW - Estou curioso para perguntar mais sobre a política de libertação das mulheres neste período e o que significou para você. Mais uma vez, há uma citação que eu gostaria de ler para enquadrar isso. Você escreveu:

"Enfatizamos, por exemplo, a proximidade e proteção de um pequeno grupo, e seu sentimento de irmandade. Dentro do pequeno grupo, tem sido importante que toda mulher tenha espaço e oxigênio para que seus sentimentos e ideias cresçam. A suposição é que não há uma única resposta certa, que pode ser aprendida de cor e transmitida cutucando as pessoas. Sabemos que nossos sentimentos e ideias se movem e se transformam em relação a outras mulheres. Todas nós precisamos nos expressar e contribuir; nossos pontos de vista são válidos porque eles vêm de dentro de nós, não porque recebemos a resposta certa. As palavras que nós buscamos, ao dizermos, são honestamente fruto de nosso próprio interesse. Esta é a linguagem oposta à maioria da esquerda, que está constantemente se distinguindo como correta, e depois se cobrindo com uma objetividade determinada".

Isso parece uma dinâmica muito viva para mim. Eu gostaria de saber o que de sua própria experiência você estava descrevendo e que tipo de prática política essa visão originou em você?

SR - Ouvimos dizer que existia uma coisa chamada "conscientização" da América. E nós tentamos e fizemos isso também, embora estivéssemos preocupados em fazer tão puramente como sentíamos. Como talvez na América estivesse acontecendo. Porque ainda existia um sentimento de que talvez devíamos sair, organizar, distribuir panfletos, e tentar envolver mais mulheres da classe trabalhadora, ou seja, alcançar as pessoas.


Então nós montamos grupos nos quais conversávamos sobre todos os nossos sentimentos. Esses encontros eram realmente fortificantes, porque nós que fomos criadas nos anos 1950, quando as mulheres não sentiam realmente muita conexão umas com as outras, fomos criadas para competir e ser atraente para os rapazes. Se nós gostássemos de garotos era isso que a gente deveria estar fazendo. Se você fosse uma pessoa que estivesse questionando isso como mulher, você tendia a ficar mais entre os homens, como quando eu era estudante. Então, as pessoas com quem eu discutia ideias eram homens.

E eu sempre tive algumas amigas mulheres que também transpassavam essas fronteiras e estavam interessadas em ideias. Mas isso realmente mudou com o desenvolvimento da liberação das mulheres. Minha agenda que era cheia de rapazes como amigos e poucas mulheres mudou. O número de homens foram decrescendo e mais e mais mulheres se tornavam amigas realmente próximas.

Esse se tornou um caminho para entender mais sobre as mulheres que não eram necessariamente como nós. As pessoas que a gente acabava encontrando em um grupo de conscientização era muito aleatório. Como nós tínhamos que conversar pessoalmente, isso permitia que nós entendêssemos de onde as pessoas estavam vindo. Daí entendíamos porque elas poderiam tomar certas posições particulares.

Uma das coisas mais angustiantes dessa forma de política, que era um pouco problemática, era que nem sempre nesse trabalho você se sentia igualmente próxima a todas do grupo. Então havia uma espécie de tensão oculta em torno da existência de desigualdades nas amizades. Mas os laços surgidos no contexto dessa política ainda persistem. Estávamos com cerca de 70 anos e ainda em contato com pessoas que havíamos conhecido no movimento de libertação das mulheres. Isso foi mais do que só um movimento de descoberta do feminismo – isso continuou por um longo tempo.

ANP - Houve muitas críticas à abordagem histórica social e humanista popularizada por Thompson. Isso foi algo que você tentou absorver em seu próprio trabalho?

SR - De fato não. Você quer dizer que não há uma boa referência às mulheres no “Formação da Classe Operária Inglesa”? Bem, não tem mesmo. Mas na época parecia que tinha muitas referências às mulheres, porque nos tínhamos que ler pessoas como J. H. Plumb[13] – uma história que absolutamente não havia mulher nenhuma. O fato era que tinha algumas no “Formação da Classe Operária Inglesa”, o que chamou minha atenção.

Tinha um pouco a tendência do Edward sentir que o tema das mulheres era um assunto que ele não queria escrever, porque sabia que Dorothy estava interessada em mulheres, como no cartismo. Então tinham um pouco do sentimento de não avançar para a área dela. Não era que ele não estivesse a par ou desinteressado pela posição das mulheres.

Eles particularmente não curtiam a liberação das mulheres. Eles pensavam que aquilo era muito classe média. Eles pensavam que nós éramos indulgentes por falar sobre nossas vaginas e vida sexual, enquanto eles pensavam que nós erámos incrivelmente privilegiadas, porque eles estiveram na guerra e nós tivemos muitas opções. Era o que Edward sentia, eu sei; Por que na face da terra tem esse movimento de jovens mulheres?

Alguma coisa começou a mudar para eles sobre a libertação das mulheres após eles irem para a Índia em meados dos anos 1970. Eles nunca deixaram de ser amigáveis comigo ou com pessoas como Catherine Hall[14]. Eles não eram de forma alguma hostis com o feminismo. Na verdade, como velhos comunistas eles eram hostis a uma espécie de feminismo anticomunista. Eles eram pela emancipação da mulher, mas também eram muito preocupados que isso não se tornasse uma abordagem exclusivamente da classe média, eles sentiam que – e essa era uma visão particularmente da Dorothy – as mulheres da classe trabalhadora valorizavam coisas como a família, porque a família era o lugar onde elas iriam encontrar suporte e parentesco. E isso era uma forma de suporte e poder. Então eles viam como muitas suspeitas essa coisa de “abolir a família” que nossa geração reivindicava.

ANP - Você disse que a postura deles começou a mudar depois que eles foram para a Índia. Pode falar sobre como eles isso aconteceu?

SR - Sim, eles mudaram. Eles conheceram muitas feministas socialistas que tinham estado envolvidas na resistência à depressão indiana com Mrs. [Indira] Gandhi[15]. Foi através deles que conheci a feminista socialista Radha Kumar[16], que era amiga deles. A família de Edward tinha conexão com a Índia, então os links com a esquerda indiana eram fortes para ele. Assim eu herdei muitos amigos dele, incluindo Radha Kumar.

Na Grã-Betanha eu conheci uma trabalhadora têxtil chamada Gertie Roche[17]. Ela esteve no Partido Comunista, mas saiu em 1956. Eles sempre falaram que era interessante como as pessoas que são lembradas por deixar o partido em 1956 eram da classe média intelectualizada - como eles -, mas na verdade em Yorkshire tinha muita gente da classe trabalhadora sindicalizada que também deixou o partido em 1956, inclusive essa mulher incrível - Gertie Roche - que continuou envolvida com a causa da liberação das mulheres.

Isso foi realmente divertido, eu me lembro de ir a um encontro no início dos anos 1970 em Leeds, ela estava lá e as mulheres comunistas foram. Mas claro, a divisão foi tão dura e profunda que eles nunca mais se falaram desde que ela deixou o Partido Comunista. Por um lado, eu acho que o movimento de libertação das mulheres reuniu essas velhas mulheres de novo.

Existem outras conexões interessantes com Gertie Roche. Ela me deu o jornal de Claudia Jones[18], que tinha saído da América por causa do McCarthy e do caça às bruxas. Então ela estava em Londres e começou uma revista. Gertie me deu as cópias que Claudia tinha dado para ela. Esses tipos de conexões, entre alguém como Claudia Jones e a sindicalista em Leeds, não são do tipo de ligações que as pessoas normalmente se apegam, mas eu achei interessante. Pessoas sempre estão conectadas na esquerda. Mesmo assim, com o tempo algumas dessas interconexões se perdem.

GW - Há alguns minutos você estava descrevendo – ceticismo talvez seja uma palavra muito forte – mas talvez os caminhos pelos quais Dorothy e Edward se mantiveram distantes da política feminista de sua geração. Para mim, parece que isso é contemplado em parte do seu trabalho historiográfico. Você diria que esses dilemas ou essas separações foram abordadas de alguma maneira?

SR - Eles não gostaram do Women, Resistance and Revolution. Eles pensaram que eu estava marchando para um objetivo pré-arranjado. O que em algum sentido era verdade: eu pensava que tinha visto a luz e resolvido tudo no movimento de libertação das mulheres. Eu escrevi isso em 1969, quando os primeiros grupos estavam emergindo. Havia uma espécie de sensação de que estávamos indo para algum lugar, onde todos os outros movimentos revolucionários tinham falhado. Como se estivéssemos lidando com algo que resolveria tudo. E eles estavam realmente incomodados porque achavam que se tratava de algo que não gostavam no marxismo, que é essa imagem da pomba mensageira que sempre sabe onde vai. Eu não sabia, mas estava profundamente chateada pelo fato deles não terem gostado.

Com o tempo fui me atendo mais aos detalhes. Muitas pessoas leram Women, Resistance and Revolution. Esse livro foi traduzido em muitas línguas. Então os Thompsons gostavam do Hidden From History, que eu escrevi quando dava aulas para mulheres adultas na Workers’ Education Association (Associação Educacional de Trabalhadores). Mas [as mulheres] não gostavam dos longos capítulos de Women, Resistance and Revolution. Então, eu escrevi com muitos pequenos capítulos, que foram muito usados na escola.

GW - Eu também gostaria de perguntar sobre o Black Dwarf[19], no qual você foi uma figura chave.

SR - Black Dwarf passou pelo Tariq [Ali]. Eu tinha estado na universidade com ele, mas nós começamos nossa amizade depois que saímos. Ele me apresentou a Clive Goodwin[20] no encontro do May Day Manifest[21], grupo que Edward e Dorothy faziam parte. Eu inicialmente costumava vender o Black Dwarf , mas depois fiquei um bom tempo no conselho editorial.

Eu não acho que Edward gostava muito do jornal. Ele pensava que era muito londrino e revolucionário demais, exibicionista, eu imagino. Eles foram mais simpáticos com o que aconteceu um pouco depois, quando eu estava fazendo uma coisa chamada Jobs for a Change[22], porque eu trabalhava para o Greater London Council [GLC][23], e Ken Livingstone e John McDonnell também estavam lá. Eu estava em uma coisa chamada Popular Planning Unit (Unidade de Planejamento Popular) com Hilary Wainwright[24]. Se existiam tentativas para busca de ideias sobre estratégias econômicas e sobre como democratizar o processo de planejamento construindo uma alternativa econômica socialista eles [Dorothy e Edward Thompson] faziam parte.

GW - Gostaria de saber quais foram as principais lições aprendidas naqueles anos. Nós falamos bastante sobre o final dos anos 1960, mas você sabe, muito tempo já passou.

SR - Eu acho que a luta continua, e continua. Aconteceu de eu me envolver com a esquerda em um tempo muito difícil, então eu não tinha grandes expectativas. Você poderia ir ao Labour Party Young Socialists[25]. Nós sempre fazíamos panfletagens, mas muito poucas pessoas vinham nas reuniões devido às nossas ações. Mas de repente houve um grande aumento de militância e da excitação [política]. Muitas pessoas estavam envolvidas em manifestações no final dos anos 60.

Então eu penso que esse ímpeto seguiu na década de 1970, até os primeiros anos da década de 1980. Fazíamos muita resistência à Margaret Thatcher nos primeiros anos, até a abolição do GLC em 1986. Daí uma espécie de conclusão obscura pairou sobre nós: talvez as coisas não iriam acontecer tão rápido quanto pensávamos.

Houve muitas décadas duras desde então. É realmente difícil envelhecer, porque você acaba pensando: “oh, tanto tempo se passou, tanto esforço e ainda assim. Nós realmente não provocamos uma mudança significativa”. Algumas mudanças aconteceram, mas quase nenhuma das quais a gente tinha pensado. Transformações realmente importantes aconteceram no campo da cultura e dos costumes, mas não houve mudanças significativas em termos de desigualdade.

GW - Isso certamente parece verdade nos Estados Unidos também, mas se captamos qualquer coisa da “Formação da Classe Trabalhadora Inglesa”, é que os movimentos das pessoas, mesmo em derrota, nunca acabam.

SR - Isso é absolutamente verdade.

Notas

[1] Historiador Britânico, autor de livros como “A formação da Classe Operária Inglesa”, “Costumes em Comum”, “Miséria da Teoria”, “Senhores e Caçadores”, entre outros. Além de historiador ele foi militante da Nova Esquerda Britânica, tendo participado de campanhas antinucleares e trabalhado com a educação de adultos. Edward Thompson é uma das principais referências na renovação da história social do trabalho na década de 1990 no Brasil. [2] Historiadora social, especialista no movimento cartista e militante da Nova Esquerda Britânica. Ela e seu companheiro E. P. Thompson tinham muitas confluências tanto na forma de pensar a história quando na visão política. Dorothy Thompson é autora de vasta produção bibliográfica em língua inglesa, dentre as quais “The early charters” (1971),Outsiders: Class, Gender and Nation” (1993) e a recente coletênea organizada por Stephen Roberts “The Dignity of Chartism: Essays by Dorothy Thompson” (2015). [3] Os títulos dos livros foram traduzidos de maneira livre, não correspondendo a publicações em português. [4] Alex N. Press é editora assistente no Jacobin. Ela escreveu para Washington Post, Vox, Nation, n+1, entre outros periódicos. [5] Gabriel Winant é historiador da saúde e do movimento operário. É ex-membro da Unite Here. [6] No ano de 1956, a URSS, através do chamado “Relatório Kruschev”, reconheceu uma série de crimes praticados durante o stalinismo, o que provocou uma grande fissura nas esquerdas e levou ao abandono de muitos intelectuais do Partido Comunista. [7] Os Beatniks foram uma movimento sociocultural do pós 2ª Guerra Mundial que propunha um estilo de vida antimaterialista. [8] Grupo pacifista britânico criado em 1960 com cem pessoas públicas como signatários. Entre suas táticas estavam a ação coletiva, a reação não-violenta e a desobediência civil. [9] Revista fundada em 1959, a partir da junção de dois outros periódicos, a New Reasoner e a Universities and Left Review. Ela se tornou o principal instrumento de divulgação do debate político e teórico da nova Esquerda Britânica e existe até os dias de hoje. Mais detalhes sobre a Nova Esquerda britânica ver: FORTES, Alexandre; NEGRO, Antônio Luigi; FONTES, Paulo. “Peculiaridaes de E. P. Thompson. In: NEGRO, Antônio Luigi & SILVA, Sérgio. E. P. Thompson. As Peculiaridades dos Ingleses e outros artigos. Campinas- SP: Editora da Unicamp, 2001. [10] Historiador britânico, professor universitário e editor da New Left Review. [11] Historiador, professor universitário e ensaísta político marxista de origem inglesa. [12] Filósofo, teórico político e orador irlandês da segunda metade do século XVIII e membro do parlamento londrino pelos Whigs, que reunia tendências liberais. [13] Historiador britânico conhecido por seus estudos sobre o século XVIII. [14] Catherine Hall é pesquisadora e professora de história social e cultural moderna britânica no University College London. Ela tem trabalhos como historiadora feminista sobre os séculos XVIII e XIX nos temas de gênero, raça, classe e império. [15] Indira Gandhi primeira-ministra da Índia entre 1966 e 1977; e entre 1980 e 1984, quando foi assassinada. Em seu primeiro governo se aproximou dos comunistas e das causas populares, sendo também uma importante líder internacional. Ela não teve ligação de parentesco ou matrimonial com Mahatma Gandhi, embora ele tenha sido uma inspiração. [16] Radha Kumar é uma feminista indiana, acadêmica e autora de muitos escritos. Suas pesquisas tratam sobre conflitos étnicos e pacificação em uma perspectiva feminista. [17] Gertie Roche foi uma importante líder operária têxtil e feminista. Ela teve muito destaque na greve de 1971 e no movimento feminista britânico. Ver: https://doi.org/10.1093/hwj/1998.45.313 [18] Claudia Jones foi uma mulher negra natural de Trinidad e Tobago, comunista, feminista e pan-africanista. No Partido Comunista Estadunidense ela tratava de temas como antirracismo, descolonização da África, luta de classes, sendo também ativista pela paz mundial. Ver: https://harvardmagazine.com/2020/09/features-vita-claudia-jones [19] Black Dwarf foi um jornal político e cultural publicado entre maio de 1968 e 1972 por coletivos de socialistas na Gra-Betanha. Tariq Ali editou e publicou o jornal até 1970, quando o conselho editorial se dividiu entre leninistas e não leninistas. A entrevista faz referência ao artigo publicado por Sheila Rowbotham em 1969 “O ano da mulher militante”. Arquivo disponível em https://www.versobooks.com/blogs/3818-women-the-struggle-for-freedom [20] Ator, escritor e agente literário muito conhecido na cena artística popular em Londres. [21] Manifesto publicado em 1967 produzido originalmente por um grupo de socialistas associados à New Left Review, tinha como editores Edward Thompson, Stuart Hall e Raymond Williams. Ver: https://www.chartist.org.uk/may-day-manifesto-1968/ [22] Foram dois festivais de música que aconteceram em Londres em meados dos anos 1980 contra a alta taxa de desemprego, pela greve dos mineiros entre 1984 e 1985 que fazia um ano e contra os planos de Margareth Thatcher de acabar com o Greater London Council. [23] O Greater London Council (GLC), que pode ser traduzido como Conselho da Grande Londres, foi uma poderosa organização coordenadora do poder local em toda a área londrina. Ele funcionou entre 1965 e 1986, quando foi abolido por pressão do governo conservador de Thatcher, entre outras razões, devido à administração trabalhista e esquerdista do seu líder Ken Livingstone. [24] Hilary Wainwright é uma socióloga britânica, ativista política e feminista socialista. Ela é muito conhecida por ser editora da revista Red Pepper e diretora do New Politics Project of the Transnational Institute em Amsterdam. [25] Sessão da juventude do Partido Trabalhista britânico entre 1965 e 1993.


Tradução: Flávia Veras


Link para a entrevista original: https://www.jacobinmag.com/2020/06/sheila-rowbotham-gabriel-winant-british-socialist-feminism