Respeita nossa história: Juana Manso

Atualizado: 24 de Set de 2020

por Sheila Lopes Leal Gonçalves*



MANSO, Juana Paula. Fotografia. Disponível em :  http://www.juanamanso.org/carta-de-sarmiento-a-juana-manso-%ce%bdueva-%cf%85ork-%ce%bd%ce%bfviembre-20-de-1865/  Acesso em: 17/Set./2020.
Juana Paula Manso

Emancipação moral da mulher - o que vem a ser isto? Ai! que temos revolução; dirão por aí os que pugnando contra Deus e a natureza querem conservar o mundo estacionado. Sossegai. (...) Mas deixemos essas digressões; o que vem a ser essa tal emancipação moral da mulher? Eu vo-lo digo. É o conhecimento verdadeiro da missão da mulher na sociedade; é o justo gozo dos seus direitos, que o brutal egoísmo do homem lhe rouba e dos quais a deserda, porque tem em si a força material, e porque ainda se não se convenceu de que um anjo lhe será mais útil que uma boneca. É um perigoso e terrível inimigo para a realização do nosso desejo, o egoísmo do homem!.. De que serve ilustrar o espírito da mulher, e desampará-lo sob as bases do progresso! De que serve dizer isto tudo ? (...) Sim, a mulher conhece a injustiça com que é tratada, reconhece perfeitamente a tirania do homem; não é a elas a quem temos de convencer da necessidade de sua emancipação moral.
 
Juana Manso - O Jornal das Senhoras, Domingo, 11 de janeiro de 1852.

Juana Paula Manso nasceu em 26 de junho de 1819, na cidade de Buenos Aires, filha de Teodora Martínez Cuenca e José María Manso. Chegou a frequentar uma escola, a Monserrat, entretanto, registros apontam que ela não se adaptou a metodologia e passou a estudar em casa, onde aprendeu a ler e depois se dedicou ao estudo de idiomas estrangeiros e à música. Em 1833, traduz um texto francês sob o título “El egoísmo y la amistad o los defectos del orgullo”, o qual seu pai publica com o pseudônimo “Una joven argentina”.[1]


Assim como outros intelectuais contemporâneos a ela, em especial, àqueles vinculados à Geração de 1837, Manso nasceu (e viveu) numa época conturbada pelas guerras de independência e por intensa disputa política – marcada em Buenos Aires pelo conflito entre unitários e federalistas. A atuação política de José María Manso junto aos unitários foi um fator determinante para que, em 1839, assim como outras tantas famílias, incluindo a de Mariquita Sánchez[2], partisse para o exílio em Montevidéu.


Uma vez exilada na Banda Oriental, Juana Manso estabelece contato com uma rede de intelectuais exilados, dentro os quais José Mármol, figura com quem Juana manterá correspondência por anos, incluindo o período de residência no Brasil. Uma vez lá, provavelmente em 1841, ela abriu o Ateneo de Señoritas (mais tarde, seria convidada pelo Governo para retomá-lo) onde advogou por uma educação gratuita, mista e direcionada a todas as esferas sociais. A criação do Ateneo é destacada pelo governo uruguaio nos Anales de la Universidad. Montevideo (Casa A. Barreiro y Ramos S. A., 1933, p. 52):



Entre las escuelas particulares de Montevideo se destacaban la de niñas, que dirigía doña Juana Manso, distinguida educacionista que tuvo más tarde brillante actuación en la Argentina, y la de varones, que dirigía don Juan Manuel Bonifaz, con mucha competencia y notable dedicación.


A inauguração dessa escola foi um marco importante, pois, em Montevidéu, não havia um “sistema educacional com respaldo legal” e proporcionou uma fonte de renda para a família que teve seus bens confiscados ao deixar Buenos Aires. Além do sucesso em sua estreia como educadora, nesse primeiro período na Banda Oriental, Manso teve reconhecimento como intelectual e escritora, junto a outros exilados, conforme aponta Florencio Sanchez:


Os escritores exilados em Montevidéu, Santiago do Chile e Bolívia, condutores da luta ideológica anti-rosista, deixaram para trás um jornalismo poético, narrativo e militante, sempre superior aos seus exercícios teatrais. As tentativas de Bartolomeu Mitre, Juan Bautista Alberdi, José Mármol e Juana Manso de Noronha, aparecem com um sotaque patriótico muito impregnado de um romantismo cultamente europeizado.[3]

Ainda em Montevidéu, Juana Manso colaborou nas folhas El Constitucional e no célebre El Nacional (redigido pela equipe do La Moda[4]), no qual publicou textos como Recuerdos de la infancia, La mujer poeta e A Corrientes vencedoras. Em 1842, a família de Manso teve que partir para novo exílio, dessa vez, no Brasil. Montevidéu se encontrava em delicada posição, devido à iminência de uma invasão Argentina, por parte das tropas rosistas. Do outro lado da fronteira, as tensões no Império do Brasil também geravam insegurança no cenário sul americano. Manso regressa a Montevidéu em 1843. O período de pouco mais de um ano que passa, pela primeira vez, no Rio de Janeiro quase não foi registrado; o que se sabe é que ela publicou um poema, Fragmento sobre una momia egipcia que se halla en Río de Janeiro.[5]


Em seu retorno à capital uruguaia, Manso é convidada a dirigir uma escola para meninas e publica o Manual para la educación de niñas. Por motivos ainda desconhecidos, a família Manso volta ao Rio de Janeiro em 1844 e Juana Manso casa-se com o violonista Francisco de Sá Noronha. Em 1846[6], agora Juana Manso de Noronha (nome que consta em algumas biografias) acompanha o marido em turnê e, assim, viaja aos Estados Unidos (Filadélfia e Nova Iorque), onde nasce a primeira filha do casal e, posteriormente a Cuba (Havana), onde nasce a segunda filha. Ao acompanhar o trabalho do esposo, Manso circulou por teatros, cafés e clubes, onde teceu observações que mais tarde seriam publicadas no Álbum de Señoritas; além disso, começou a redação de seu primeiro romance histórico: Los mistérios del Plata. Sua passagem pelos Estados Unidos vem sendo estudada no campo dos estudos literários com ênfase em relatos de viagem. Carrie Bramen comenta:


Juana Manso, considerada a primeira feminista radical da Argentina no século XIX, comentou que flertar é um instinto, inerente a todas as mulheres, a tal ponto que ‘não se pode ser mulher sem ser paqueradora’. (...) Em seu próprio relato de viagem para os Estados Unidos, em 1845, Manso descreve os atributos distintos do flerte estadunidense: ‘As mulheres estão todas flertando, amolecidas e sem sentimentos; seu amor é compartilhado entre o dinheiro e a penteadeira’.

Em 1848 o casal chega a Cuba, onde permanece pouco mais de um ano. Em seguida, chegam ao Rio de Janeiro. Manso, então, começa a dar aulas particulares e continua a trabalhar em obras que publicaria posteriormente. Em 1852, funda O Jornal das Senhoras, que circulou durante quatro anos (1852-1855), tendo Juana Manso presente como colaboradora e redatora chefe apenas no ano de 1852. Ele teve um total de 213 números, divididos em dois tomos (no total foram oito), somando 1.910 páginas, sendo cada exemplar composto, em média, por 10 páginas, podendo variar de oito a doze. Neste periódico o romance histórico Mistérios del Plata, que aborda um período do governo rosista, e é publicado em forma de folhetim.


No ano seguinte, dois acontecimentos desestabilizam a vida de Manso: a morte de seu pai e a separação do esposo, que a deixava com duas filhas para criar. Naquele momento, impulsionada pela derrota de Rosas, decide retornar a Buenos Aires, lança a folha Álbum de Señoritas: periódico de literatura, moda, bellas artes y teatros. Ao contrário d`O Jornal das Senhoras, o periódico fundado por ela em Buenos Aires, Álbum de Señoritas, teve vida curta, contida em oito números publicados nos primeiros meses de 1854. Jeremy Shumway se refere ao Álbum de Señoritas como sendo “o periódico de mulheres mais contundente daquele tempo”. Nesta folha, a autora publica, também em folhetim, a novela La família del Comendador, ambientada no Rio de Janeiro. O fato de ambas as folhas abordarem as mesmas temáticas e serem escritas em tons e estilo narrativo semelhantes, não significa que o segundo seja uma tradução ou mesmo continuação do primeiro. Manso, considerada a primeira mulher a produzir romances históricos, as histórias nacionais em seus romances históricos: publica sobre Buenos Aires no Rio de Janeiro e vice versa.


Ainda em 1854, devido a dificuldades financeiras, Manso teria retornado ao Brasil, permanecendo por cinco anos. Mais uma vez, a passagem pelo Rio de Janeiro não se encontra documentada, apenas citada pela literatura do tema. O tempo em que passou no exílio e, em especial no Brasil, é enaltecido pela bibliografia dedicada à Manso. De acordo com Luiza Lobo, seu retorno a Buenos Aires pode ter sido provocado por três motivos: “o término do seu casamento, o fato de ter sido recusada na Escola de Medicina [por ser mulher] e, principalmente, por ter chegado ao fim a ditadura de Juan Manuel de Rosas (1829-1852).” Sendo por um motivo ou por outro, o retorno de Manso não a impediu de ser vista, muitas vezes, como uma “argentina-brasileira”, para usar a expressão cunhada por Adriana Amante. Sobre o período em que viveu no Brasil, Lidia Lewkowicz cita uma fala de Manso que pode ter contribuído para que ela fosse vista como uma “argentina -brasileira”:


Sempre que falar de você, Brasil, o farei com entusiasmo, porque foi minha pátria adotiva por muitos anos, e estás ligado ao meu coração e aos meus pensamentos, por um altar e dois túmulos! O altar em que liguei o meu destino ao destino de outro, os túmulos do meu velho pai, morto na emigração e do meu primeiro filho, que morreu antes de nascer!

No livro Poéticas y políticas del destierro, Amante analisa os conceitos de “raça” e “escravidão” na novela de Manso La familia del comendador e posiciona a autora de modo tangencial à rede de sociabilidade antirosista que se encontrava (muitas vezes reunida na mesma cidade) no exílio. Manso parece ser argentina e também brasileira em função dos laços familiares que cultivou no Brasil, ao passo que outros intelectuais (homens) exilados aqui, ficaram menos tempo e interagiram de outra maneira com a corte. De acordo com Elisabetta Pagliarulo, Manso retorna definitivamente a Buenos Aires em 1859, ano em que se filia ao Partido Autonomista e quando trava contato com Bartolomeu Mitre.


Em 1862, Manso publica o Compendio de la Historia de las Provincias Unidas del Río de la Plata, material didático dedicado à instrução escolar, baseado na História de Belgrano y de la Independência Argentina do General Mitre e no Ensayo Historico de Dean Funes. Em 1864, publicou a peça teatral La revolución de Mayo de 1810, além de colaborar em diversos periódicos e tornar-se fundadora honorária da Revista de Buenos Aires. Em 1869, publicou artigos em defesa do Projeto de Casamento Civil no jornal El Inválido Argentino. No ano seguinte, atende a Primeira Conferência de Professores; é a primeira mulher nomeada membro da Comissão Nacional de Escolas, cargo que ocupou até 1874. Morre em 24 de abril de 1875. Suas obras podem ser acessadas através do site: http://www.juanamanso.org/biblioteca-digital/

* Sheila Lopes Leal Gonçalves é uma das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora e historiadora. Este texto é parte do projeto de pós-doc dela (status: aguardando financiamento) que investiga a obra e a trajetória de Juana Manso sob a perspectiva da História Intelectual. “Eu estudo História da América e História Intelectual desde a graduação; no mestrado, pesquisei o argentino Juan Bautista Alberdi e li bastante coisa sobre a Geração de 1837. Foi somente no meio do meu doutorado, e totalmente por acaso, que “descobri” Juana Manso. A primeira coisa que me perguntei naquela tarde de 2015 foi: “como assim eu nunca tinha parado para pensar sobre as mulheres que escreviam, debatiam, frequentavam os mesmos espaços dos homens da Geração de 1837?!” Até aquele momento eu tinha “aceitado” a ausência (ou apenas menções curtas) de mulheres no material que lia para pesquisa, sem muitos questionamentos. Era tarde demais para mudar o tema da tese, mas não a maneira como eu enxergava a História Intelectual. Apresento a vocês Juana Paula Manso, mulher latino-americana, exilada, intelectual, educadora e redatora.”

[1] Título do poema: “O egoísmo e a amizade, ou os defeitos do orgulho”. Pseudônimo: “Uma jovem argentina”. PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura Argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, p.25. [2] María Josepha Petrona de Todos los Santos Sánchez de Velazco y Trillo de Thompson y Mendeville, conhecida como Mariquita Sánchez (1786 –1868), foi uma das figuras mais influentes da primeira metade do século XIX em Buenos Aires. [3] SANCHEZ, Florencio. Teatro. Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas / Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967, p. VIII.” [4] La Moda foi um periódico publicado em Buenos Aires por alguns dos membros da Geração de 1837. Para maiores informações. [5] MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999, p.74. [6] Há divergência sobre a data de embarque para os Estados Unidos. Segundo Elisabetta Pagliarulo, a viagem teria ocorrido logo após o casamento. Já Margarita Pierini cita uma carta que Manso teria escrito a sua filha mais velha e assevera que o fato ocorreu anos depois: ‘En abril de 1846 desembarcan en los Estados Unidos, llevados por la promesa de éxito con que “el cónsul americano en Pernambuco nos había trastornado el juicio…; y nosotros, con esa confiada imprudencia de la mocedad inexperta, nos arrojamos con escasos medios a probar fortuna en país tan extraño y distante’” PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, p. 461.


Referências Bibliográficas

AMANTE, Adriana. Poéticas y políticas del destierro: Argentinos en Brasil en la época de Rosas. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010.


BRAMEN, Carrie Tirado. “Flirting in Yankeeland: rethinking American exceptionalism through Argentine travel writing”. In: LAZO, Rodrigo; ALEMÁN, Jesse (org.). The Latino Nineteenth Century: Archival Encounters in American Literary History. The New York University Press: New York, 2016.


LEWKOWICZ, Lidia F. Juana Manso (1819-1875): Una mujer del siglo XXI. Buenos Aires: Corregidor, 2000.


LOBO, Luiza. “Juana Manso: uma exilada em três pátrias”. In: Gênero. Niterói, v. 9, n. 2, p. 47-74, 1. sem. 2009, p. 48.


MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999.

PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, pp. 17-42.


PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, pp. 457-488.


SANCHEZ, Florencio. Teatro, Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas /Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967.


SHUMWAY, Jeremy. The case of the ugly suitor: and other histories of love, gender, and nation in Buenos Aires. Linclon: University of Nebraska Press, 2005.