Respeita Nossa História: Adélia Sampaio


Por Letícia M. S. Pereira*


“sou uma negra assumida,

uma cineasta assumida,

uma mãe assumida,

uma avó assumida

e vou por aí me assumindo

em todos os sentidos.

A mulher tem que se assumir.”


Adélia Sampaio



Adélia Ferreira Sampaio, nasceu em Belo Horizonte - MG, em 1944, é considerada a primeira cineasta negra do Brasil, e a primeira a produzir um longa-metragem ainda nos anos de 1980. Foi casada com o jornalista Pedro Porfírio Sampaio com quem teve dois filhos: Wladimir Porfírio (jornalista) e Gogoia Sampaio (figurinista). Adélia ingressa no mundo cinematográfico, em 1967, na distribuidora DIFILM – Distribuição e Produção de Filmes Brasileiros Ltda, atuando como telefonista.



Imagem: Acervo pessoal/ Adélia Sampaio

Adélia Sampaio é uma mulher negra, filha de empregada doméstica, com pai desconhecido. Devido às condições de vulnerabilidade econômica da família, deixa a cidade de Belo Horizonte e vai para o Rio de Janeiro, ainda aos 4 anos. A relação trabalhista da mãe impõe a separação entre elas, Adélia passa parte da infância num internato em Minas Gerais, retornando ao contato da família somente aos 13 anos. Durante todo esse tempo, a mãe trabalhava para juntar recursos e pagar a “dívida” de escola, roupas e passagens, ou seja, os custos do envio forçado ao Arraial Santa Luzia dos Rios das Velhas, uma espécie de abrigo para meninas pobres e, assim, poder trazer de volta a filha ao convívio familiar.


A irmã Eliana Cobbett, revisora da Tabajara Filmes, foi sua maior incentivadora e a pessoa responsável por apresentar a Sétima Arte para Adélia. Ela tinha 13 anos quando se deparou, pela primeira vez, com a sala escura e sua grande tela mágica, exibia-se o filme Ivan, o terrível (direção de Serguei Eisenstein, 1944), momento em que se encanta pelo cinema, e passa a desejar ser uma realizadora. Já adulta, descobre que a DiFilm estava precisando de uma telefonista, nesse momento os caminhos para viabilizar seu sonho começam a se desenhar. A DiFilm era um reduto do Cinema Novo, entre um telefonema e outro, ela organizava as sessões do Cineclube, ademais interagia e observava o trabalho das equipes e dos diretores cinemanovistas.


Adélia Sampaio começa a executar pequenas funções e vai, pouco a pouco, passando a dominar os recursos e as técnicas do audiovisual. Atuando como assistente de produção, assistente de direção, diretora de produção, produtora executiva, roteirista, entre outros. Em sua atuação como diretora, destacam-se os seguintes filmes: 5 (cinco) curtas-metragens: Denúncia Vazia (1979); Agora um Deus dança em mim (premiado) (1984); Adulto não brinca (1979); Na poeira das ruas (1984), e, o mais atual, O mundo de dentro (2017). O documentário Cotidiano (1981); assim como, outros 2 (dois) documentários sobre a Ditadura Militar: Fugindo do passado: um drink para Tetéia, 1987; e, História Banal, 1987. Em 2004, em co-direção com Paulo Markum, lança o filme AI-5 – o dia que não existiu (2004).


O seu longa-metragem Amor Maldito (1984) marca sua carreira em pelo menos duas frentes: 1) primeiro longa-metragem realizado por uma diretora negra, no Brasil e na América Latina; 2) o primeiro a trazer como tema um relacionamento homossexual feminino. O filme não consegue verba da Embrafilme (que classifica o tema absurdo), mas é viabilizado por sistema de cooperação. Outro problema enfrentado foi com a distribuição, a condição para ser exibido em São Paulo, no Cine Paulista, era se transvestir de pornográfico.

Imagem: site Garotas Greeks

O crítico da Folha de São Paulo, Leon Cakoff, escreve uma matéria importante valorizando o filme. Essa ação favorece a ampliação do número de salas de exibição e o retira desse rótulo de pornô. A história é baseada num caso real, narra o julgamento da empresária Fernanda Maia (atriz Monique Lafond) acusada de matar sua namorada, a ex-miss simpatia Suely Oliveira (atriz Wilma Dias), que se suicidou. A trama transita entre a violência / preconceito do júri e as lembranças dos momentos vividos pelo casal lésbico.


Sobre suas produções, Sampaio afirma:


“Eu acredito no cinema onde se possa denunciar ou alertar as pessoas. Todos os curtas são baseados em fatos reais, até mesmo o AI5, em que fiz a direção artística (reconstituindo os fatos com atores) e com a direção geral de Paulo Markun.” (entrevista à revista Catarinas)

Interessante destacar, na trajetória da diretora, as micropráticas que levaram a telefonista a aprender sobre montagem, fotografia, roteiro; passando a atuar como diretora de produção, diretora de arte, programadora de revistas eletrônicas, entre outros. Essas microrresistências, na perspectiva de Michel de Certeau (2000), são estratégias e táticas do cotidiano que escapam às relações de poder exercido sobre eles. Me aproprio do termo para falar de microrresistências negras, considerando as práticas cotidianas que estão ligadas a pequenos movimentos de ruptura do modelo pré-estabelecido, ou seja, as dinâmicas do “micropoder” constituindo espaços de resistência afrodiaspóricas.


Conforme Viviane Ferreira, é preciso visibilizar a produção de Adélia Sampaio, por ser a “primeira mulher brasileira negra a dirigir um longa-metragem – buscando a subjetividade de seu pertencimento racial em obras como ‘Amor Maldito’ (1984)”. (FERREIRA, 2016). Infelizmente, seu nome ainda é pouco conhecido dentro da academia e cursos de comunicação do Brasil. Até a publicação da tese de doutorado da professora Edileuza Penha de Souza, em 2013, o nome de Adélia Sampaio era completamente ignorado, mesmo em publicações e artigos sobre a presença negra no Cinema Nacional, ou sobre a constituição do Cinema Negro Brasileiro. Outro agravante, é o fato de seus curtas-metragens (negativos masters de imagem e som) entregues à Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro terem desaparecido. O que dificulta ainda mais o acesso a suas produções.


Quando perguntada sobre a amnésia da indústria do audiovisual, responde: “Deve ser porque sou preta, né?”. É evidente a presença do racismo e do machismo, no tocante a invisibilidade de seus trabalhos no cenário cinematográfico brasileiro. Adélia Sampaio, em entrevista para blogueiras negras, destaca:

“Cinema é, sem dúvida, uma arte elitista, aí chega uma preta, filha de empregada doméstica e diz que vai chegar à direção, claro que foi difícil! Até porque me dividia entre fazer cinema e criar meus dois filhos.” (GONÇALVES; MARTINS, 2016)

Entre os anos 1970-1980, foram muitas as suas realizações na DiFIlme e em sua produtora, além dos filmes citados, participou em mais de 70 outras produções, o que demonstra a gravidade desse apagamento e sugere o esforço realizado por ela para se manter ativa e atuante no audiovisual.


“A terra é um grande útero pedindo para ser fertilizado pelo olhar da mulher” Adélia Sampaio

Na tentativa de registrar – em meio às limitações que envolvem uma pandemia (2021) e no auge dos seus 77 anos - seus novos e férteis projetos que incluem a produção de um longa-metragem A Barca das Visitantes, no qual revive episódios da Ditadura Militar com base em cartas enviadas aos presos políticos, ainda sem patrocínio. E dos curtas Meu Nome é Carretel e Amor em Estado Terminal. Atualmente, visando disponibilizar seus filmes abre um canal no YouTube – Adélia Sampaio (Disponível em: https://youtube.com/channel/UCVcvsoqRG6qC09VU-KV5rCw).


Imagem: Site Garotas Greeks


A peculiaridade das microrresistências cotidianas se dá na ressignificação de práticas, conteúdos e lugares sociais. Assim, Adélia Sampaio sai da invisibilidade e passa a ser representatividade feminina e negra, no Festival Palmares de Cinema (FepalCine), em março de 2016, ela foi homenageada batizando uma categoria com o título de “Adélia Sampaio”, visando promover a visibilidade do trabalho de jovens cineastas negras. A partir do I Encontro Internacional de Cineasta e Produtoras Negras foi criada a Mostra competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio – quando mulheres fazem cinema, 2016-2019 – Brasília, na Universidade Federal de Brasília – UnB. A Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB realiza a Mostra com Mulheres, no Festival de Documentários de Cachoeira-BA, sendo um dos programas uma homenagem a Adélia Sampaio, sob a curadoria de Yasmin Thayná (RJ), para citar algumas homenagens.


Destaca-se aqui que a visibilidade dos trabalhos de Adélia Sampaio - para além do processo de exclusão que ainda predomina sobre o acesso dos/as negros/as à “sétima arte” - é possível infringir rasuras, alterar os lugares sociais e propor mudanças futuras, no qual possibilita hoje o reconhecimento de uma mulher negra, como uma importante diretora do cinema nacional. Constitui-se repertórios alternativos, que trazem à cena outras tradições e uma diversidade de formas de representação que lutam para serem incorporadas às políticas simbólicas da memória cultural.

PARA SABER MAIS...


AGUIYRRE, Claudia. Adélia Sampaio e o pioneirismo cinematográfico de Amor Maldito. Portal Catarinas. Disponível em: Adélia Sampaio e o pioneirismo cinematográfico de Amor Maldito | Portal Catarinas

FERREIRA, Viviane. Cinema Negro: Totem vem sempre de longe. No Brasil. 18/Jul./2016. Disponível em: http://nobrasil.co/cinema-negro-totem-sempre-vem-de-longe/ Acesso em: 04 ago. 2016.

GONÇALVES, Juliana e MARTINS, Renata. O racismo apaga, a gente reescreve: conheça a cineasta que fez história no cinema nacional. 09 mar. 2016. Disponível em:http://blogueirasnegras.org/2016/03/09-o-racismo-apaga-a-gente-reescreve-conheca-a-cineasta-negra-que-fez-historia-no-cinema-nacional. Acesso em: 20 set. 2016.

NEVES, Bia. Conheça Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra brasileira. Garotas Geeks. Disponível em: Garotas Geeks | Conheça Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra brasileira

PEREIRA, Letícia M. S. Corpografias negras em telas: memórias, identidades e culturas afrodiaspóricas em filmes do Cinema Negro Brasileiro. 242f.il. 2017. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura. Universidade Federal da Bahia, 2017.

SOUZA, Edileuza Penha de. Mulheres negras no cinema brasileiro: estratégia de afeto, amor e identidade. In: Fazendo Gênero 8: Corpo, violência e poder. Florianópolis, 25-28/Ago./2008.


*Letícia M. S. Pereira é uma das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e defendeu uma tese sobre Cinema Negro no Brasil.