Respeita Nossa História: Adèle Toussaint-Samson (1826-1911), vida e obra de uma viajante parisiense

Atualizado: Jun 23

por Thainã Teixeira Cardinalli*


Madame Toussaint-Samson

A trajetória de Madame Toussaint-Samson guarda alguns pontos de encontro com o Brasil: além de ter morado aqui durante doze anos (1849/50-1862), ela publicou um relato de viagem sobre este período, intitulado Uma parisiense no Brasil (1883). A longa permanência na cidade carioca, bem como sua obra onde narra os percursos e as experiências vivenciadas no país, não foram suficientes para incluir a autora como uma das referências sobre o Brasil imperial. Ao contrário dos relatos de viajantes-franceses como Charles Expilly (1814-1886) ou das famosas gravuras de Jean-Baptiste Debret (1768-1848). A vida e obra de Adèle somente nas últimas décadas começaram a ser estudadas por parte da historiografia (LEITE, 1984, 1997 e 2000; TURAZZI, 2003; HAHNE, 2004 e MAIA, 2016). Dessa forma, pretendo apresentar aqui uma breve biografia dela, dando atenção especial à sua estadia no Brasil.

Nascida em Paris, em 1826, Toussaint-Samson cresceu imersa no ambiente teatral em razão da profissão de seu pai, famoso comediante da Comédie française. A partir desses espaços construiu suas redes de amizade e trabalho: por exemplo, suas amigas Madame Alan-Depréaux e Madame Arnould-Plessy foram ex-alunas de M. Samson; seu esposo, Jules Toussaint, era dançarino; e ainda, o primeiro jornal onde divulgou suas crônicas sobre perfis femininos, o La Sylphide, pertencia a H. Villemessant, jornalista e amigo de seu pai. A presença de M. Samson é tão marcante na vida profissional de Adèle que uma parte de seus trabalhos foram dedicados a ele, como a organização e a elaboração da introdução de seu livro de memórias, Mémoires de Samson de la Comédie Française (1882) e também a produção de textos endereçados aos jornais parisienses em defesa da imagem e caráter de seu pai, principalmente, diante das acusações de ter se envolvido amorosamente com uma de suas alunas, a atriz trágica Mademoiselle Rachel.


Alguns anos após o casamento com Jules, em 1843, a França atravessou um momento conturbado com a Revolução socialista de 1848, a alta dos preços dos alimentos e a epidemia de cólera que se alastrou pelo país em 1849. O que trouxe dificuldades para a vida do jovem casal e os motivou a viajar para o Brasil em busca de trabalho. Seu esposo, apesar de ter pais franceses, havia nascido aqui, mas mudou-se logo quando criança para a França. Segundo Maria Inês Turazzi, um tio de Jules ainda morava no Rio de Janeiro e foi ele quem acolheu o casal em sua chegada.


Enquanto Jules trabalhava nos palcos da capital e dava aulas de dança para as princesas Isabel e Leopoldina, Adèle ensinava línguas. Emprego que, conforme pontua em seu relato de viagem, era visto com maus olhos pelas brasileiras, responsáveis apenas pelos afazeres domésticos. De acordo com as documentações levantadas por Ludmila Maia (2016), Toussaint-Samson publicou textos em dois jornais da capital, o franco-brasileiro, Courrier du Brésil (1854-1862) e o Jornal das Senhoras (1852-1855). O primeiro deles pertencia à Ad. Hubert era destinado a comunidade francesa pertencente à Corte e divulgava notícias sobre o que ocorria na Europa e na França, bem como sobre fatos importantes da capital carioca. Nele, Maia identificou quatro textos da viajante, um poema e as seguintes crônicas, “De la femme pot au feu”, “De la femme auteur” e “De la femme incomprise”. Sendo estas duas últimas publicadas anteriormente no jornal La Sylphide, na década de 1840.



[Toussaint, Adèle. De la femme auteur. Courrier du Brésil, 02/12/1855. Fonte: Hemeroteca Digital Nacional]

São crônicas que retratavam perfis femininos: a “femme pot au feu”, por exemplo, era aquele tipo de mulher dedicada aos afazeres da casa, mas pouco atenta ao cuidado com os filhos; a mulher-autora, por seu turno, vivia em função da carreira literária, abandonando as obrigações domésticas; e por fim, tinha a “incompreendida” que em razão dos romances lidos, esperava encontrar um grande amor tal qual o de suas histórias.

Esta preocupação com a moralidade feminina, como também os contatos de seu marido no meio teatral, provavelmente, contribuíram para que publicasse um poema em homenagem à diretora do Jornal das Senhoras, Joana Paula Manso de Noronha, em 1853. Segundo L. Maia, o elogio à diretora do jornal foi motivado pela estreia de suas peças teatrais nos palcos da capital. Neste poema, Adèle discorre sobre as qualidades de Manso, assim como enaltece seu papel de mãe.



[Toussaint, Adèle. A Joana Noronha. Jornal das Senhoras, 25/09/1853. Fonte: Hemeroteca Digital Nacional]

Cabe lembrar que o Jornal das Senhoras foi o primeiro periódico nacional elaborado por mulheres e dedicado exclusivamente a elas. Nele, continham sessões sobre “moda, literatura, belas-artes, teatro e crítica”, e mais, colunas onde se divulgava partituras e romances-folhetim (LIMA, 2010, p.228). Enquanto no Brasil, esta foi a única experiência de escrita em periódicos voltados ao público feminino, na França, após o seu retorno, Toussaint-Samson colaborou com o Journal pour Toutes (1864-1867), dirigido por Madame Niboyet, e o La Fronde (1897-1905), “journal quotidien féministe” (“jornal cotidiano feminista”), cuja diretora era Marguerite Durand.


Em relação à sua atuação no Journal pour Toutes, lembro que o nome de Adèle apareceu pela primeira vez neste jornal, em 1865, com a tradução da novela de José de Alencar, Cinco Minutos. Romance publicado no Brasil em 1856, momento em que a viajante ainda morava no Rio de Janeiro, e cujo autor era próximo de Paula Brito, que, por sua vez, conheceu Jules Toussaint. Em 1851, Brito, famoso editor e tipógrafo carioca, organizou “uma noite de apresentações dirigida e dançada pelo marido de Adèle para apresentar o novo baile ao público da Corte (Maia, 2016, p. 120).


Se a conjuntura político-econômica francesa impulsionou a vinda da viajante ao Brasil; as experiências e atividades exercidas aqui, por outro lado, foram fundamentais em seus escritos posteriores: são crônicas, textos ficcionais, poemas e livros que recuperaram os fatos observados no país para a construção de enredos e personagens, e/ou para a ilustração de seus argumentos. Dentre esses textos, além do relato de viagem Uma parisiense no Brasil, destaco a coletânea, Épaves, sourires et larmes (1870), cujos poemas eram dedicados à amigos e familiares, como também traziam referências de suas vivências nos trópicos. Em um deles expressa suas saudades da natureza tropical, em outro trata da escravidão, e, por fim, em um outro homenageia o célebre “ator trágico” brasileiro, João Caetano dos Santos.


A partir desse breve panorama da vida e obra de Adèle Toussaint-Samson, observamos suas estreitas relações com o Brasil. O país não apenas marcou um momento de sua trajetória pessoal, mas foi, igualmente, personagem e/ou cenário de seus escritos posteriores; textos, aliás, que acompanharam a sua participação em periódicos voltados ao público feminino. Ao estudar trajetórias como a de Madame Toussaint-Samson, abrem-se novos campos para se pensar o entrelaçamento entre relatos de autoria feminina, viagens e trocas culturais entre a França e o Brasil.


Referências bibliográficas:

HAHNER, June. “Àdele Toussaint-Samson: Uma viajante estrangeira desconhecida e fugida”. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 165 (423), p. 33-41. Abril/junho. 2004. Disponível em: https://ihgb.org.br/publicacoes/revista-ihgb/item/146-volume-423.html. Acesso em 09 setembro de 2020

LEITE, Miriam Moreira. (org.) A condição feminina no Rio de Janeiro, Século XIX. São Paulo-Brasília: Hucitec-Edusp-INL, 1984

___________________. Livros de Viagem (1803-1900). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997

___________________. Mulheres viajantes no século XIX. Cadernos Pagu, Campinas, 15, 2000 p. 129-143. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8635570. Acesso em 28 mai. 2020

LIMA, Joelma Varão. “Jornal das senhoras: as mulheres e a urbanização na Corte”. Cadernos CERU, v.21, n.2, 2010, pp.227-240. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/11926/13703. Acesso em 07 setembro 2020,

MAIA, Ludmila de Souza. Viajantes de saias: gênero, literatura e viagem em Adèle Toussaint-Samson e Nísia Floresta (Europa e Brasil, século XIX). Tese em História defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/Unicamp). Campinas, SP: [s.n.], 2016

TURAZZI, Maria Inez. Adèle Toussaint-Samson (1826-1911): um esboço biográfico. In TOUSSAINT-SAMSON, Adèle. Uma parisiense no Brasil. Trad. Maria Lucia Machado. Rio de Janeiro: Editora Capivara, 2003.


*Thainã T. Cardinalli é formada em Ciências Sociais e, atualmente, doutoranda em História pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp).

Perfil no Insta: @thaina.cardinalli