Traduções: Nós fomos as últimas “boas garotas negras [1]”

Atualizado: Mar 22

Em 1968, a história encontrou-nos numa pequena faculdade feminina, forjando a nossa identidade Preta e fortalecendo a nossa rebeldia [2].


Anna Deavere Smith*





Minha conselheira da Western High School, uma escola pública só para meninas em Baltimore, era uma mulher branca rotunda, com um semblante agradável, mas pouco enérgico. Ela esteve totalmente ausente de minha educação até que um dia, depois que começaram os rumores sobre ações afirmativas nas faculdades, sacudindo o terreno que os negros atravessavam para o ensino superior, ela convocou, a mim e à minha mãe, para uma reunião.


Minha mãe, uma professora veterana em escolas públicas de Baltimore, tirou a tarde de folga. Nós nos sentamos na sala de teto alto do escritório de aconselhamento, o mais afetado e limpo possível, enquanto a conselheira nos mostrava um panfleto após o outro com imagens de garotas brancas em conjuntos de suéteres relaxando em ambientes bucólicos.


Eu não sabia nada sobre a multidão de pequenas faculdades nos EUA que haviam sido fundadas, muitas por instituições religiosas, com o propósito específico de educar mulheres brancas. Nem sabia nada sobre as "suitcase schools", algumas das quais ficaram reputadas como gloriosas escolas de acabamento onde as meninas se concentravam em conhecer meninos que frequentavam instituições próximas. (Elas eram chamadas de “suitcase schools” porque às sextas-feiras, as meninas iam passar o fim de semana com os seus futuros maridos.)


Mas em 1966, como a conselheira disse para minha mãe, muitas dessas faculdades só para meninas estavam “procurando boas garotas negras como Anna”.


Meu pai não gostou da ideia. Ele foi inflexível e queria que eu estudasse em Howard ou Morgan State, ou alguma outra faculdade ou universidade historicamente Preta, assim como ele e seus irmãos e meus primos mais velhos tinham feito. Minha mãe e eu argumentamos em torno da ideia de "oportunidade."


Ele se tornou enfático: se eu fosse para uma faculdade para mulheres brancas, ele disse, não teria vida social. Essa era uma preocupação legítima, mas até aquele ponto, a rigidez de meu pai havia circunscrito severamente minha "vida social". Agora ele estava, de repente, preocupado com isso?


Candidatei-me a três das faculdades que a conselheira sugeriu. Quando chegaram as cartas de aceite de todas as três, meu pai disse que se recusaria a ajudar financeiramente, então minha mãe e eu começamos a tentar encontrar financiamento.


A única sugestão de meu pai sobre isso foi murmurar que eu deveria escolher a faculdade mais próxima de Baltimore, para que eu pudesse voltar para casa com despesas limitadas de trem. Eu acabei escolhendo o Beaver College, em um subúrbio da Filadélfia, sem sequer ter visto o campus.


Agosto de 1967: a família Smith deixou Baltimore para ir para o Beaver College no raiar do dia. Porque, como assim, poderíamos ser “de cor” e atrasados? Meu pai sentou ao volante, e meus dois irmãos, minhas duas irmãs pequenas, meu avô paterno e minha mãe entraram no carro.


Minhas tias Esther e Mildred, preocupadas com o estado precário da minha bagagem, juntaram seus recursos para me comprar um conjunto novo. Minha bagagem nova, minhas roupas novíssimas, minha vitrola de plástico (com meus cinco LPs) e o peso da minha família fez com que o carro emitisse um som de raspagem ao passar pela estrada.


Fomos um dos primeiros a chegar. Um grande castelo cinza assomava. O lugar tinha sido originalmente uma propriedade privada feita no modelo de um castelo inglês. Os edifícios foram reaproveitados para se tornarem um teatro, uma capela, um estúdio de arte e um laboratório de biologia.


Garotas brancas acompanhadas por suas famílias arrastavam-se pelo corredor do dormitório ao longo da manhã e da tarde. Enquanto minha mãe e eu sentamos sozinhas em uma sala antisséptica esperando para conhecer minha colega de quarto, o resto da minha família vagou pelo campus, avaliando o lugar.


Tive amigos brancos no colégio, mas não morava com eles. Eu tinha ido apenas para uma “festa do pijama” em uma casa de brancos, uma doce festa do pijama de 16 anos, da qual meu pai me levou embora às 22h, porque, para ele, não havia nada de doce em me ver passando a noite com um grupo de meninas brancas. Ele e minha mãe não me permitiam sair com alguém cujos pais eles não conhecessem - e em Baltimore, naquele tempo, os pais negros não conheciam muitos pais brancos.


"Eu sou Marie." Uma voz ressonante com um timbre rico. Minha colega de quarto, uma garota branca com longos cabelos lisos e um sorriso contagiante, estendia a mão. A mãe dela estava elegantemente vestida e usava óculos escuros, que nunca tirou. Eu me levantei da cadeira para cumprimentá-la.


Marie começou a conversa fiada [3] imediatamente. “Quantas crianças na sua família?” Na fronteira entre raça e classe, até mesmo perguntas simples causam um embaraço. A preocupação com o “número negro”, resultado do “Projeto negro” de Margaret Sangers, em 1939, ainda tinha ressonância nos anos de 1950 e 1960 [4].


As famílias negras em que cresci eram muito menores do que na geração dos meus pais. Meu pai foi um de seis. Minha mãe, uma de oito. Meus primos - os outros filhos de seis e oito - não ultrapassavam três por família, e a maioria dos agrupamentos era de dois por domicílio. “Cinco,” eu disse. “Venci por um! Somos seis! ” ela anunciou. Marie era católica.


Minha família me deixou com um mar de garotas brancas e voltou para Baltimore. Eu caminhei ao longo da estrada que subia lentamente, passando pelo poço dos desejos, pelo castelo, pelo campo de lacrosse, pelo estúdio de arte e pelo teatro (que outrora fora o aposentos dos empregados), pela capela (que outrora fora um estábulo), e subi as escadas para a convocação.


Como qualquer negro que se preze, quando sentei, contei cada pessoa com cor em sua pele. Os recrutadores do Beaver College encontraram sete "boas garotas negras", incluindo a mim. Não havia União de Estudantes Pretos. Nós nem éramos “Pretas” ainda. Fizemos contato visual e acenamos.


Nós sete ocupávamos lugares diferentes dentro do sistema de classes da comunidade negra. Tínhamos relacionamentos diferentes com cabeleireiros, gírias diferentes, diferentes experiências de ensino médio, diferentes formas de fé, arranjos familiares diferentes.


Diriam que a identidade de raça ultrapassaria aquelas diferenças, mas, em 1967, não. Três das meninas tinham ido para a mesma escola, então elas se tornaram mais próximas.


Uma de nós, Karen McKie, morava na Filadélfia e havia sido recrutada pessoalmente da Simon Gratz High School, escola com baixas taxas de formados, uma abismal taxa de frequência à faculdade e a reputação de ser um lugar violento e perigoso.


Eu conversei com Karen algumas semanas atrás:


  • Anna Deavere Smith: Quando chegamos, não tínhamos (cabelo) afro.

  • Karen McKie: Absolutamente não. A ideia era que nos misturássemos.

  • Smith: Nós, sendo estas meninas obedientes - qual foi o quadro de referência para o nosso comportamento? Havia filmes ou romances sobre “boas garotas negras” como nós?

  • McKie: Não.

  • Smith: Certo?

  • McKie: Ser “preto e orgulhoso” já era uma letra para as músicas - James Brown. Mas estávamos nessa linha tênue, porque não tínhamos exemplos na Beaver College. Eu não sabia de ninguém de aparência como a minha que havia estado na Beaver. Éramos uma experiência, eles estavam nos dando a oportunidade de sermos uma experiência para essas meninas brancas. Para que elas pudessem ficar mais confortáveis saindo para um mundo onde as pessoas estavam falando sobre ser “preto e orgulhoso”. Algo precisava ser feito para que elas estivessem preparadas.

  • Smith: isso é hilário. Eu pensava que isto vinha de uma ideia de “branco salvador” da parte deles, para nos dar uma oportunidade.


Uma noite, ainda no início do semestre, minha colega de quarto e eu estávamos estudando em nossas mesas. "Você recebeu uma carta?" Ela perguntou casualmente, balançando os pés na cadeira. "Que carta?" “Recebi uma carta perguntando se eu me importaria de ter uma colega de quarto negra”, disse ela. "Não”, eu disse. “Não recebi carta.” Nenhuma de nós recebeu uma carta.


Havia cerca de uma dúzia de alunas na minha aula de inglês do primeiro ano - todas brancas, exceto duas de nós. Nossa professora era Helen Buttel, uma mulher branca (Beaver não tinha professores Pretos quando cheguei). Ela está com aproximadamente 90 anos agora. Liguei para ela algumas semanas atrás.


  • Smith: Só preciso ver se você se lembra de alguma coisa sobre isso. No meu primeiro trabalho para a aula de inglês do primeiro ano, a tarefa era escrever sobre uma palavra-tabu. E eu escrevi sobre a palavra negro - agora dizemos "a palavra com N" - e o mesmo fez a única outra mulher Preta na classe.

  • Helen Buttel: Eu certamente me lembro de ter pedido este trabalho e devo ter ficado surpresa. Parecia uma coisa corajosa para uma dupla de alunas Pretas trazer isso à tona - uma palavra pejorativa sobre sua raça - em uma aula onde os trabalhos seriam lidos em voz alta. Pareceu-me algo muito dramático.

  • Smith: Lembro-me de você chegar quando estava devolvendo os trabalhos e dizer: "Bem, duas pessoas na classe escreveram sobre a mesma palavra, e elas escreveram sobre isso de formas diferentes”.


A outra garota Preta e eu, que àquela altura do ano nunca tínhamos trocado palavra, nem mesmo nos entreolhamos quando a professora Buttel anunciou que teríamos escrito sobre a mesma palavra com interpretações completamente diferentes. Minha colega havia escrito que a “palavra com N” representava afeto; Eu tinha escrito que era ofensiva e dolorosa.


  • Buttel: Não me lembro disso ter causado alguma discussão selvagem sobre o tema em sala de aula. E você?

  • Smith: Não. Eu não me lembro de nenhuma discussão selvagem de qualquer tipo. [Risos]

  • Buttel: Eu imagino que o tema deva ter, provavelmente, calado todas elas. [Risos]


Uma noite, quatro garotas brancas nervosas me visitaram na sala de estudo do meu dormitório. Beaver era uma escola pequena, com menos de 1.000 alunos, mas nenhuma dessas meninas estava em aulas que eu fiz.


Elas queriam me dizer que sua colega de quarto, que era do Sul profundo, havia hasteado uma bandeira dos confederados no poço dos desejos, no centro do campus, depois da Beaver College ter ganhado um jogo de lacrosse. Eu tinha escutado sobre isso? Eu não havia escutado. A colega de quarto delas tinha uma personalidade forte, e elas presumiram que a notícia tivesse se espalhado pelo campus. Mas eu não estava sabendo.


O objetivo da reunião: elas queriam saber se eu estaria disposta a atuar como “embaixadora dos Negros” em nossa turma de calouros, explicando que sua colega não quis fazer mal. Por que elas me escolheram? Mais surpreendente, por que elas presumiram que nós sete éramos um grupo?


Comecei com as três meninas que frequentaram a mesma escola e andavam juntas. O consenso foi dar à garota do sul o benefício da dúvida. E “nós” agora éramos um grupo.


Quatro de abril de 1968: assassinato de Martin Luther King Jr. As garotas brancas em Dilworth Hall corriam para cima e para baixo no corredor - horrorizadas menos, se bem me lembro, pelo assassinato e mais porque os toques de recolher e as restrições de viagens em grandes cidades bagunçariam seus planos para o recesso de primavera.


As “boas garotas negras” planejaram se encontrar. Minha colega de quarto me lembrou que havia perguntado: “Posso ir à reunião?” E que eu dissera: “Não, não desta vez”. Não me lembro disso especificamente. Mas tenho certeza de que disse não.


Até aquele ponto, o mundo fora dos muros do Beaver College havia permanecido distante, como um ruído abafado. Um véu separava o corpo discente da realidade externa. A vida de muitas de minhas colegas de classe estava centrada em encontrar um marido nas proximidades de Princeton, Lehigh, Lafayette, Haverford, Penn e Franklin & Marshall. Tratava-se de uma “suitcase school” com pouquíssima atividade política. Mas para as sete de nós, o assassinato de King destruiu o que restava do véu. Véu que se rasgaria para as nossas colegas brancas também, por causa do Vietnã e do alistamento militar. Tudo estava desmoronando.


Para as Beaver College Blacks, como passamos a nos chamar, a morte de King ampliou as lacunas em nossas vidas. Como estudantes Pretos em todo país, procuramos entender o que estava acontecendo nas áreas urbanas antes e depois do assassinato. “Acho que aprendemos a exigir educação”, diz Karen.


Nós nos encontramos com uma reitora que era do sul. Seu sotaque, cheio de vogais estendidas e consoantes cristalinas, era o suficiente para fazer qualquer garota Preta voltar atrás, sentindo-se como carne de linchamento. Nós nos encontramos em uma sala de aula esterilizada com piso de linóleo e sem arte.


Nossas demandas eram modestas: queríamos cursos de História Preta e um ou dois membros Pretos no corpo docente. A reunião não correu bem. Ela nos disse que, se exibíssemos “comportamento indesejável”, o governo não ficaria feliz em nos receber. E "se vocês continuarem a mostrar um comportamento indesejável", disse ela, "certamente não pagaremos para ter vocês aqui”.


Se um reitor falasse assim com um grupo de alunos Pretos nos dias de hoje - caramba, se o zelador de uma escola falasse assim com um grupo de estudantes Pretos hoje - eles não esperariam chegar à parte do “pagar para ter você aqui”. Eles já estariam queimados ao dizerem “comportamento indesejável”. Alguém colocaria nas redes sociais, e o episódio terminaria assim.


Naquela época, porém, não havia muito o que pudéssemos fazer. A saída que encontrei foi passar a imitar a reitora, com sotaque e tudo, e fazer apresentações sempre que solicitado - nos corredores para a aula, no refeitório, enquanto fazia arco e flecha (meu esforço para cumprir a exigência de treinamento físico).


Minhas reconstituições cômicas de nossa reunião serviam como uma espécie de bálsamo. Claro, deveríamos ter ficado indignadas. Nós ficamos indignadas. Quando você ri alto, você mostra os dentes.


Finalmente conseguimos um curso de estudos Pretos [5] - não um currículo completo, mas uma única aula - e um membro do corpo docente preto [6], do tipo avô, que rapidamente nos ajudou a nos sentir mais em casa... E então, infelizmente, morreu. Criamos uma performance - uma celebração de sua vida por meio de canções, poemas e leituras - para elogiá-lo, e nosso "nós" ficou ainda mais forte.


A maior parte das sete de nós chegou a este cenário arquitetônico pseudo-gótico vinda de cidades que foram envolvidas em distúrbios. O relatório da Comissão Kerner, documento histórico sobre as relações raciais americanas lançado em 1968, começava assim: “O verão de 1967 trouxe novamente desordens raciais para as cidades americanas, e com elas choque, medo e perplexidade para a nação. ”


Ler o Relatório Kerner é ouvir augúrios do verão de 2020 - motins, polícia espancamentos, assassinato. Muitos acreditam que o momento em que vivemos não tem precedentes. Eu não sei com base em quê. Direi apenas que, por mais difícil que tenha sido o que nós sete passamos em 1967, o que outros passaram não muito antes de nós foi ainda pior.


Certa vez entrevistei a jornalista Charlayne Hunter-Gault, que integrou a Universidade de Geórgia cerca de meia década antes de nós sete chegarmos a Beaver. Sua presença causou um motim em sua terceira noite na escola. Alguém jogou uma pedra pela janela de seu dormitório. Havia vidro, ela me disse, por toda parte sobre suas roupas, que estavam em uma mala aberta no chão. Gás lacrimogêneo foi usado para dispersar a multidão. As garotas no dormitório dela foram obrigadas a tirar os lençóis de suas camas para dispersar o gás. O reitor veio tirar Charlayne do dormitório e dizer que ela teria que deixar a universidade.


Enquanto ela era escoltada para fora, todas as suas companheiras brancas estavam alinhadas no corredor, vestidas com suas camisolas, algumas em pé nas cadeiras. Enquanto ela se dirigia para a porta da frente, uma das mulheres jogou uma moeda de 25 centavos e disse: "Aqui, Charlayne, vá e troque meus lençóis”.


As Beaver College Blacks estávamos entre as últimas “boas garotas negras”. Nós tínhamos aspirado a ser educadas e dar um passo além de onde nossos pais puderam chegar. Disseram-nos que tínhamos que tirar boas notas na escola e que tínhamos que trabalhar mais do que as crianças brancas (como hoje). Disseram-nos para nunca irritarmos figuras de autoridade - especialmente figuras de autoridade brancas. Disseram-nos que tínhamos que ser boas e legais em todos os sentidos. Foi-nos dito que devíamos, acima de tudo, escapar da gravidez na adolescência, porque a gravidez arruinaria nossas vidas. (O uso de pílulas anticoncepcionais para mulheres solteiras não foi legalizado até 1972, um ano depois que nós nos formamos.)



Então, enquanto nós sete estávamos aninhadas em nosso último ano, Angela Davis entrou para a lista de mais procurados do FBI, acusada de fornecer armas para um tiroteio em um tribunal do condado de Marin. Ela estava fugindo por dois meses e, durante esse tempo, mulheres Pretas que se pareciam remotamente com ela (ou nem um pouco com ela) eram apreendidas por policiais.


Renunciando à nossa personalidade de “boa garotas negras”, deixamos crescer nossos afros tão grandes quanto o dela, como se disséssemos: “Venha e me pegue também”. Nos libertar do calor dos ferros e produtos à base de soda cáustica (que deixavam crostas e queimaduras em nosso couro cabeludo e em nossas testas e pescoços) em busca de cabelos lisos era uma escolha cosmética, sim, mas com Davis na prisão e quase no corredor da morte, também estávamos dizendo: “Vocês estão certos, nós poderíamos ser ela. As boas garotas se foram”.


Fomos realmente “boas”? Graciosas, talvez. Gentis, talvez. Nós definitivamente éramos polidas. Mas essas boas maneiras tinham a ver com a forma como tratávamos uns aos outros dentro das paredes da segregação. Qualquer pessoa com mais de 30 anos era tratada como Senhorita ou Sr. Mas o "boa" que os recrutadores de Beaver buscavam era uma performance herdada da escravidão e de Jim Crow, quando não ser “bom” era uma sentença de morte em potencial.


Posso ter deixado minha personalidade de “boa garota negra” para trás no Beaver College, mas a necessidade de ser "boa" permaneceu. Nos anos 80, quando um terrível obstáculo foi lançado no meu caminho profissional, alguns amigos homens, brancos e mais velhos rapidamente identificaram a causa como sendo racismo - ainda assim aconselharam-me a nunca usar a palavra “raça”, enquanto eu lutava para sobreviver. Embora a academia se vanglorie da sua dedicação à verdade, poucas pessoas a dizem como ela é. Um quadro de académicos experientes, Pretos e brancos, ajudou-me a escapar. Um ajudou-me literalmente a fazer as malas. Até hoje, eu carrego o trauma, mas consegui um cargo efetivo em Stanford. A horrível história teve um final feliz. Mas eu sei que nem sempre é assim.


O mais sinistro passado da América está rompendo as rachaduras. As divisões estão nítidas. A Guerra Civil acabou?


Uma nova geração de irmãs que não performam mais "gentileza" tem um palpável senso de sua vulnerabilidade, mesmo que tenham um melhor controle da escalada para o sucesso do que nós sete tínhamos.


Andrea Ambam, uma excelente aluna minha, recém-graduada, é a primeira geração americana de uma família que imigrou dos Camarões e se estabeleceu em uma pequena cidade do Missouri. Ela foi educada em instituições predominantemente brancas desde a pré-escola até a graduação - não teve um professor Preto até a faculdade. Ela foi criada em uma casa que enfatizava a necessidade de ficar longe de problemas. Mas, na escola, ela começou a questionar a política de respeitabilidade.


"Penso que tantas mulheres Pretas que se deslocam pelo mundo são advertidas sobre a sua atitude - sabe, sobre serem educadas, sobre serem suficientemente femininas", ela me disse recentemente. Na ladainha de vídeos de pessoas Pretas atacadas ou mortas pela polícia, o episódio que ocorreu mais perto de sua casa foi o de Sandra Bland. Em 2015, a universitária afro-americana de 28 anos foi encarcerada após uma blitz, e morreu na prisão três dias depois.


A conclusão de nossa conversa de uma hora sobre o que tornava a história de Sandra tão significante para Andrea e seus colegas foi: " podia ser eu".


  • Andrea Ambam: Se eu tivesse estado naquele carro e o polícia me dissesse para apagar o meu cigarro, eu o apagaria, certo? Mas eu compreendo a sensação de não querer fingir, de não querer dizer "Sim, está tudo bem", “está tudo ótimo, Sr. policial".


O último vídeo que temos é a sua luta pela sua vida e pelo seu direito a não ser tratada desta forma, e então a próxima coisa que temos é que ela [morreu]. Sinto-me tão profundamente conectada à sua rebeldia. Isso pode fazer você se encolher e dizer: "Está bem, não vou fazer isso". Ou pode fazer com que se incline para a rebeldia. Pode acender algo em você que diz: "Estou seguindo em frente com orgulho na minha rebeldia, em vez de sufocar essa rebeldia e essa resistência como medida de segurança".


Houve progresso, claro. Beaver College, agora Arcadia University, é mista. Estudantes Pretos e outras minorias históricas agora têm seus grupos de afinidades. O presidente da Arcadia, Ajay Nair, é publicamente dedicado à justiça social. No final dos anos 60, nós sete tivemos que lutar para conseguir um professor Preto - e agora muitas faculdades têm departamentos inteiros de estudos afro-americanos.


Não precisamos mais nos esforçar tanto, com o perdão do eufemismo. Quando falei com a Dra. Buttel, ela lembrou que um reitor havia lhe dito que ela tinha que sugerir às sete meninas negras, de quem ela havia se tornado uma conselheira dedicada na instituição, que parassem de usar o “terrível” nome que havíamos dado a nós mesmas: Beaver College Blacks.


"E eu disse ao reitor, ''é impossível. Como gostaria que se chamassem, the Beaver College Colored Folk?'".


No nosso atual momento de divisão, não podemos dar-nos ao luxo de avançar sem olhar para trás. Temos de cavar a história para avaliar como aprendemos a restaurar a dignidade humana que tinha sido arrancada pela pilhagem e pela escravatura. Como chegámos até aqui? Não foi sendo “bons”.




*Anna Deavere Smith, uma escritora contribuinte da Atlantic, é dramaturga, atriz e professora. Em 2013 recebeu o prêmio The Dorothy and Lillian Gish Prize, em 2015 foi escolhida como Jefferson Lecturer pelo National Endowment for the Humanities. Ela é fundadora e diretora do Institute on the Arts and Civic Dialogue na New York University. Como atriz, seus trabalhos mais conhecidos são: The Human Stain (2003), Rachel Getting Married (2008) e The American President (1995). Para conhecer seus mais recentes projetos, acesse: https://www.annadeaveresmith.org/ . No Twitter: @AnnaDeavereS


Créditos da imagem: https://www.theatlantic.com/world/


Tradução: Gabriela Mitidieri

Revisão: Sheila Lopes Leal Gonçalves


Notas de revisão e tradução:


[1] Em respeito à semântica, aos movimentos sociais e à literalidade de Anna Deavere Smith este texto operou a tradução literal dos termos “negro / nigger” e “Black”, respectivamente “negro(a)” e “Preto(a)” - mantendo também a grafia com letra maiúscula.


[2] O texto original pode ser consultado aqui: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2021/03/the-last-of-the-nice-negro-girls/617786/


[3] No original: small talk.


[4] Nos anos de 1920 e 1930, a enfermeira norte americana e ativista do controle de natalidade, Margaret Sanger, elaborou um projeto para as comunidades negras, denominado “The negro project”. Em 1929, com o apoio de W.E.B. Dubois, ela fundou uma clínica de planejamento familiar no Harlem. Sua defesa do aborto e do controle de natalidade baseava-se em teorias eugenistas. Para ela, se as famílias pudessem escolher ter menos filhos, criando-os de maneira mais saudável, haveria possibilidades de “melhoramento da raça”. Mesmo tendo trabalhado junto à NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) de Dubois e tendo seu trabalho elogiado por Luther King, Sanger segue sendo uma figura controversa tanto na sociedade, em geral, quanto no meio acadêmico norte-americano.


[5] No original: Black-studies course.


[6] O professor em questão era Horace Woodland. O artigo original de Anna Deavere Smith indica um pequeno texto biográfico que pode ser acessado aqui: https://scholarworks.arcadia.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1814&context=college_newspapers