Ensaios: pandemia, mulheres e mercado de trabalho, por Regina Prado

Atualizado: Mar 22


Mulheres são as maiores vítimas da pandemia no mercado de trabalho


Análise feita por economistas sobre os dois últimos trimestres da PNAD/IBGE forma um retrato da sobrecarga feminina, da maior perda de postos de trabalho e da difícil reconquista de vagas por causa da crise econômica e sanitária que assola o país


Resumo de relatório feito por Regina Prado*


Foto: Portal Catarinas

Em termos gerais, toda a população sofre com as consequências do isolamento social e da quarentena impostos pela pandemia, mas nem todos com a mesma intensidade. Números da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) revelam uma desigual distribuição dos danos causados pelo vírus. As mulheres representam quase a metade dos chefes de família no Brasil (49,5%) e dependem muitas vezes de diversos apoios para poderem exercer seus ofícios, seja na contratação de outra mulher, doméstica, seja na existência de creches e escolas onde possam deixar seus filhos. Toda a rede de apoio está comprometida pelo isolamento social e a mulher, mesmo que deseje ou necessite, não consegue voltar ao mercado de trabalho. Na desigualdade de gênero estrutural, ela ganha menos que o homem, disputa as vagas menos qualificadas no mercado e quando há crise são as primeiras a perder postos de trabalho. O que a PNAD de 2020 mostra até agora é que esta conhecida desvantagem se escancarou com a situação atípica de pandemia.

Estas são algumas das conclusões de economistas do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP, que acompanha as oscilações do mercado de trabalho feminino a partir dos microdados do IBGE. Descobriram, por exemplo, que o número de homens que alegam não poder trabalhar por causa dos afazeres domésticos vem diminuindo trimestre a trimestre, abaixando de 552 mil para 524 mil no segundo trimestre, e chegando a 497 mil homens no terceiro trimestre de 2020. Mesmo que na prática o casal se encontre em situação de igual quarentena e isolamento social sem escola para as crianças, esta resposta foi dada por apenas 1,8% dos homens. Enquanto as mulheres que declararam estar impedidas de trabalhar por causa dos afazeres domésticos somam mais de 13 milhões, principal motivo para não estarem no mercado de trabalho (26,3%).

Esta sobrecarga e a responsabilidade pelos cuidados domésticos afetaram mulheres desempregadas e também aquelas que exercem ocupações e têm diferentes níveis de renda. “De certa forma, este é um dado que demonstra também o que já sabemos sobre a sobrecarga das mulheres. Sejam mulheres em home office, sejam mulheres com trabalhos fora de casa ou procurando por trabalho, ainda é a mulher quem está cuidando de todos da casa”, segundo a professora Daniela Gorayeb, economista e uma das autoras do estudo.

Ela acrescenta ainda que os dados da PNAD com relação ao desemprego já são preocupantes, mas que poderiam ser vistos de uma forma ainda mais dramática. Em parte porque acabam trazendo uma subnotificação do desemprego por causa da ocorrência do trabalho informal. “Aquele bico, por exemplo, figura como uma ocupação nas estatísticas, bastando trabalhar uma hora na semana. Então a realidade é mais dramática do que as pessoas imaginam. Sabemos que o IBGE precisa seguir um padrão utilizado em outros países, mas acabamos tendo uma visão limitada da realidade porque nosso mercado de trabalho é majoritariamente informal e precário. O que sabemos também é que nessa escala de trabalhadores com ocupações de menor renda e precárias se encontram mais mulheres que homens, e em último lugar a mulher negra.”

Na pandemia, as mulheres foram, mais uma vez, as primeiras a perder os postos de trabalho e são a maioria dos trabalhadores que desejariam trabalhar, mas não estão disponíveis para assumir uma função (chamado tecnicamente de Força de Trabalho Potencial). Entra nesta preocupante realidade o grande número de trabalhadores desalentados, que são aqueles que procuraram trabalho por muito tempo e desistiram, seja pela dificuldade de encontrar uma oportunidade ou por que, sem renda, não conseguem arcar com os custos da busca, do transporte ou da internet, por exemplo. E também entram nessa categoria as pessoas que desejam trabalhar mas estão em uma situação que as tornam indisponíveis para assumir algumas ofertas de trabalho. Como já dito, os afazeres domésticos são o principal motivo para essa indisponibilidade das mulheres.

Desde o começo do ano, 9 milhões de pessoas haviam saído do mercado de trabalho e o terceiro trimestre da PNAD mostra um pequeno retorno, mas muito revelador. Retornaram 418 mil pessoas, sendo 380 mil homens e apenas 37 mil mulheres. Esse pequeno número de pessoas que conseguiram retornar à força de trabalho no terceiro trimestre representa 5% daquelas que saíram da força de trabalho desde o início do ano. Para as mulheres, o cenário é ainda mais dramático, pois menos de 1% daquelas que perderam suas ocupações, tiveram a oportunidade de voltar a trabalhar ou até mesmo de voltar a procurar trabalho.

Para as economistas autoras deste estudo, na pandemia, as alterações de trimestre a trimestre não foram marginais como normalmente ocorre, configurando uma espécie de quebra estrutural do mercado de trabalho. “Isso porque milhões de pessoas saíram da força de trabalho apoiadas pela presença do auxílio emergencial e o retorno dessas pessoas ao mercado de trabalho, mesmo com o fim do auxílio, não está assegurada pois muitas vagas de trabalho ou atividades produtivas já não existem mais.” “O auxílio emergencial teve um impacto muito significativo no orçamento das famílias de baixa renda e pôde garantir atividades produtivas em várias localidades. Com o fim do auxílio, parte dessas atividades também deixam de ser viáveis economicamente e mais uma onda de eliminação de vagas de trabalho pode ocorrer”, acredita Daniela.

A redução do valor emergencial e o fim dele (anunciados no último mês do trimestre, setembro) estão forçando as pessoas a voltar a buscar trabalho e já se nota o aumento do número de mulheres desocupadas. Grande parcela delas, que trabalhava no setor de serviços, por exemplo, não está reencontrando as vagas anteriores, porque é um setor que no terceiro trimestre estava parcialmente ocioso, ou voltava a funcionar timidamente ou simplesmente deixou de existir. As ocupações de cozinheiras, garçonetes, limpeza, salões de beleza estão entre aqueles postos de trabalho que foram destruídos durante a crise sanitária. Muitos estabelecimentos foram fechados ou estão operando com alto nível de ociosidade (seja pelo baixo volume de vendas, seja pelas limitações sanitárias de funcionamento)

Esse aumento da taxa de desocupação para as mulheres deve-se mais a esta perda dos postos de trabalho em relação ao 2º trimestre (774 mil mulheres deixaram a categoria Ocupadas), uma taxa de desocupação recorde de 16,8% da força de trabalho, quatro pontos percentuais a mais que os homens (12,8%), mas com a ressalva de que eles haviam perdido menos postos que elas anteriormente, 489 mil. “O emprego formal continua caindo, tanto para homens como para mulheres, e no quarto trimestre a expectativa é que haverá uma explosão de tudo isso, quando mais gente passará a procurar trabalho por causa do fim do auxílio”, acredita a economista Juliana Filleti, outra autora do estudo. A recuperação econômica ainda é muito lenta e não acontece no ritmo desta necessidade de volta das pessoas ao mercado de trabalho.

Durante a pandemia o que se notou foi uma maior variação no mercado de trabalho menos qualificado. No caso das domésticas, principal ocupação de milhões de trabalhadoras no país (as empregadas domésticas sem carteira representam 8,6% das mulheres ocupadas), já se registra a falta de demanda, seja por crises econômicas que nasceram no rastro da pandemia nas famílias, seja pelo isolamento social. Muitas trabalhadoras que dependiam de creches e escolas para os filhos não têm esta opção nesse momento e ainda não sabem quando terão, para poder efetivamente se candidatar ao emprego anterior ou qualquer outra ocupação no mercado formal de trabalho. Considerando o período de um ano (2019-2020) as posições da ocupação de emprego doméstico tiveram uma redução de 1,6 milhão de postos de trabalho para as mulheres (1,2 milhão sem carteira e 404 mil com carteira), contra uma redução de 45 mil vagas para os homens (25 mil com carteira e 20 mil sem carteira).

Quadro preocupante

Apesar de que existem alguns sinais de recuperação do nível de atividade econômica, com PIB oficial de 7,7% no terceiro trimestre, a possibilidade de retorno é mais tímida para as mulheres. Os níveis de taxa de Desocupação e de Subutilização da Força de Trabalho mais elevados para as mulheres se ampliaram nesse período crítico do país e são evidências de uma inserção mais precária no mercado de trabalho. Além disso, o retorno das mulheres para a força de trabalho no terceiro trimestre pode ser considerado pífio, principalmente levando em conta a grande saída delas do mercado de trabalho nos primeiros meses da pandemia. Segundo aponta o estudo do NPEGen, o país apresentou recordes históricos nas taxas de Desocupação e de Subutilização, em comparação aos dados a partir do 1º trimestre de 2012, início das medições da PNAD Contínua.

Nos dados da Força de Trabalho Potencial (FTP) – uma parte da população fora da força de trabalho mas com potencial para se tornar força de trabalho e que são classificadas como Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento na PNAD – as mulheres continuam sendo a ampla maioria (59% da FTP, 63% das Pessoas Indisponíveis e 54,3% das Pessoas em Desalento). O aumento neste período de pessoas nessa situação é gigantesco, em especial para as mulheres, que passam a somar 7,6 milhões (um aumento de 60,8% com relação ao ano anterior). A Força de Trabalho Potencial masculina também apresenta forte aumento (66,6%), mas o número de homens nessa situação é bem menor do que o de mulheres (5,3 milhões de homens).

Na questão da renda no 3º trimestre de 2020, os brasileiros obtiveram, em média, um rendimento de R$ 2.553,6, mas se mantiveram as grandes desigualdades por sexo, cor ou raça. O maior rendimento médio foi o de homens brancos ou amarelos (R$ 3.687,4) e o menor, das mulheres indígenas e pretas ou pardas (R$ 1.596,3 e R$ 1.652,7, respectivamente). As mulheres indígenas apresentam o menor rendimento médio da população, equivalente a 62,5% do rendimento médio do Brasil. Elas são seguidas pelas mulheres pretas/pardas (64,7%) e depois por homens pretos/pardos (78,1%). No outro extremo, situam-se os homens brancos/amarelos, com rendimento equivalente a 144,4% do rendimento médio do país, sendo seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (113,2%), um retrato incontestável da desigualdade no Brasil.

Apesar de alarmantes informações, o 3º trimestre de 2020 ainda não captou os efeitos da redução pela metade do auxílio emergencial e é possível que, nos meses finais do ano, as taxas de desocupação e subutilização batam um novo recorde porque devem captar o retorno à busca de trabalho de muitas pessoas que ficarão incapacitadas de sustentar suas famílias sem esse importante apoio financeiro. A dramaticidade das condições de trabalho e de formas de obtenção de rendimentos pelas mulheres tende ainda a aumentar para os próximos períodos se medidas compensatórias urgentes não forem implementadas no Brasil.

*Regina Prado é jornalista assessora da Facamp, com passagens por SOS Racisme e Reporteros sin Fronteras, em Barcelona, Espanha. Formada pela PUC São Paulo, trabalhou em TVs, jornais e revistas, e é co-autora do livro "Helio Lourenço: Vida e Legado", pela EDUSP, entre outras obras.


Contato para imprensa

How Comunicação

Regina Prado

regina.prado@howcomunicacao.com.br

(16) 99620.6444

Acesso ao relatório completo:

https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen/boletim-mulheres-no-mercado-de-trabalho-terceiro-trimestre-de-2020/

FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo.

Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP:npegen@facamp.com.br

BOLETIM MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO

EXPEDIENTE: Pesquisadoras: Camila Veneo Campos Fonseca; Daniela Salomão Gorayeb; Georgia Christ Sarris; Juliana de Paula Filleti; Juliana Pinto de Moura Cajueiro; Maria Fernanda Cardoso de Melo e Tatiana de Amorim Maranhão.

Como citar este Boletim: NPEGen. Mulheres no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 03, novembro de 2020.


Imagem da capa: PETRA ERIKSSON / EPS