Mãos Livres

#literatura #contos #poesia #arte



PARA CRIANÇA QUE VOCÊ FOI!

Lucilene Soares*


Me cortou o coração a infância que você teve, ou não teve, e a menina que você não pode ser! Tive vontade de te acolher e te proteger de toda dor que te abateu. Busquei na minha resistência de mulher negra um aconchego para você descansar, um lugar de sonho e lembrança, ainda que de “lembranças desejos” de um ontem mais doce e um por vir de abundância. Receba estas singelas palavras que remetem à infância e acolhida à menina que ainda te habita. Vamos juntas acolhê-la e nutri-la, pois ela é divina!

Gratidão por você existir, gratidão por você resistir!


Acorda Letícia

Sonhei com você

Estava calor e você a girar

Sua saia voava

Tra

Trav

Travessa

Traquina

Sonhei com você ainda menina


Levanta Letícia

Descortina os horizontes

Voa bem alto

Semeia seu ser

Porque

Você é

Tra

Trave

Travesti


Vestida de mundo

Vestindo este mundo

De beleza e presença

Subverte o vigente

Nos ensina a ser

Ainda mais gente


Desperta Letícia

Receba a infância que

Dolorosamente

revelou que não teve

Te vejo menina

E ouso sonhar

Um mundo mais lindo pra você habitar


Desejo a você

Bordado

Batom

Beijo na boca

Amigos

Amor e

Axé


Levanta minha

pequena ancestral

Abre caminhos

Que outras virão

Transformando este mundo

Num lar para todas

Afinal.


*Lucilene Soares - Mãe de Arthur e Luna, professora da rede pública estadual de Curitiba/PR, com mestrado em Educação. É atriz, poetisa, terapeuta integrativa do Espaço Terapêutico Metamorfose, militante antirracista, do feminismo negro e da cultura popular. Instagram: @lu.soares.100




DAN’AMOR

Célia Regina da Silva*


Maira acordou assustada, um pouco ofegante. Tinha ido dormir altas horas da noite. Teve noite de sono agitada, sonhou muito. Eram sonhos que se repetiam, com frequência, recorrentes. Ao acordar, sentia muitas sensações diferentes, sem saber direito o que era. Ela que, às vezes, demorava para lembrar dos sonhos, nesta manhã, se recordava plenamente de todos os detalhes. A cobra era enorme. De pele azul cintilante, adornada por grossas escamas, de tamanho nunca visto, tomava vários degraus da escada. Não sentiu medo, senão fascínio, vontade de se enrolar com ela, se arrastar, se envolver, acompanhando o movimento contínuo e frenético da cabeça e língua.


Ela morava com avó, foi criada por ela, mas evitava falar sobre seus sonhos com Dona Gabriela. Nas primeiras vezes, chegou a contar para a avó que, muito católica, fez alusão imediata à cobra mítica, a serpente falante do Jardim do Éden.


- Minha filha, quando moça eu também tinha esses sonhos.

- Sonhava com cobra grande, pequena. Enrolada no meu corpo, mas a que mais gostava é que se transformava em arco-íris. Essa era a que tinha mais medo. Como pode? Não à toa, ela enganou Eva, a fez comer do fruto proibido.


Foi o suficiente para Maira entender que não poderia falar mais sobre seus sonhos com a vómãe. Logo ela que recentemente tinha se descoberto preta, em família nordestina miscigenada. Estava lendo tudo sobre África, sobre os deuses que foram trazidos para o Brasil, por escravizados no chão dos navios negreiros. De homens e mulheres que trouxeram na memória e no coração os ensinamentos das divindades milenares africanas. Pensativa, resolveu não trabalhar pela manhã. Aproveitou que estava sozinha em casa. A avó tinha saído para visitar uma amiga. Fez café. Voltou para o quarto e resolveu ler livro comprado recentemente. Na primeira página aberta, linda imagem de Oxumarê. O orixá representado pela cobra arco – íris, símbolo do movimento, da transformação, da riqueza e da fortuna. Uma força imensa toma conta do seu corpo, sem controle. Ouve barulho de chuva. Corre e abre a janela. Após chuva forte e rápida, o arco colorido desponta no céu. Sente refletidas em seu corpo todas aquelas cores. Elas penetram em seus poros, em seus pelos, na sua cabeça, pelo seu corpo, em seu coração. O amor estava ali, pulsante, transcendente, magnânimo. Deu-se o encontro de si, encontro encantado com o eu.


"Célia Regina da Silva – Jornalista carioca, professora e pesquisadora da UFSB. Feminista negra, acredita na potencialidade do diálogo intercultural entre as várias vertentes artísticas e literárias. Vislumbra a escrita como libertação. Coordena o Grupo de Pesquisas e Estudos em Negritude, Gênero e Mídia - GEMINA/ UFSB – CNPq. Fez parte do Processo Formativo - FLUP Pensa - Narrativas Curtas "Uma Revolução Chamada Carolina", iniciativa da Festa Literária das Periferias/2020, que resultou no livro Carolinas, Ed. Bazar do Tempo, 2021. Com o Conto "Do Lixo a Ressurreição” foi contemplada com quinto lugar, no Concurso do Movimento Literário Digital - Motus, Projeto de Extensão da Universidade Federal do Pampa, 2020. Instagram: @celregins




(SEM TÍTULO)

Maria Helena Miranda*


Quero a criança

Não o adulto que cansa, sufoca.

Quero a criança

Não a miniatura de adulto

Sem o mínimo contágio com o vírus

O maldito vírus da maturidade.


Quero a criança livre

E só quero a criança.

Que não me procurem os grandes

E que as crianças venham sozinhas.


A elas prometo,

Despindo-me de tudo que é “grande”

Ser criança também.


*Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.





A HISTÓRIA DO GOZO

Sheila Lopes Leal Gonçalves*


Parte I

Na Ritz


Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá - conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imaginá-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, ou melhor dizendo, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bem, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha noção do que era isso, que ninguém entendia nada do que ela sentia ali naquele cotidiano de sobrevivência, e disso se queixava aos montes - em silêncio. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?!


Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, entendeu?, sem mimimi, sem ninguém para te bancar, e aí não podem manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse.


Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento. Lamento esse que frequentemente vem com um traço de culpa: como falar mal de um sistema que salva vidas? Como reclamar do direito ao acesso gratuito à saúde? Será que quem passa 12 ou 15 horas numa sala escura e fria, sofrendo com dor, sem saber quando será atendida, pode reclamar sem parecer ingrata? Mas enfim… Em parte, grande parte, não cabe narrar simplesmente porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida da narradora, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxergá-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça.


O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares.


A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atém à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados.


Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pelos seres humanos (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok.


(Continua na próxima edição)


* Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal




MITOS DE GUARDA-CHUVA

Letícia Pereira*


Fotografei

Um morro

E sua história¹

De negro, de luta

Uma prova de amor

Suave salto mortal.

A história do morro

A minha

Na cruz de Inácio

Trovas de amor

Por de soís

Nascer de luas

Um despencar lá de cima.

Histórias, imagens,

lembranças...

Ais

(quase mortais).


¹ Referência ao mito do Pai Inácio, um escravizado, que, no séc. XIX, se apaixonou pela filha de um poderoso fazendeiro, sem aprovação da família, ele passa a ser perseguido e escapa da morte pulando do morro com o guarda-chuva dado pela amante. Reza a lenda que ele passou a viver escondido entre as pedras do Morro, que leva o seu nome, na Chapada Diamantina/BA.


*Letícia PereiraÉ soteropolitana, editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora, doutora em Literatura e Cultura pela UFBA, com pesquisa na área de Literatura Afro-brasileira e Cinema Negro, realiza (e participa) de Oficinas de Criação Literárias em espaços alternativos de aprendizagem em Salvador/BA. Instagram: @leticiapereira_ba




Pintura de Arissana Pataxó
"Mulheres Xikrin", 2018 – técnica mista em acrílica sobre tela (60x90)

*Arissana Pataxó - É artista plástica formada pela Escola de Belas Artes e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. É natural de Porto Seguro/BA, pertence a etnia Pataxó e reside em Coroa Vermelha, onde atua como professora de Arte no Colégio Estadual Indígena. Desenvolve uma poética sobre povos indígenas e a contemporaneidade, utilizando de diversas técnicas artísticas, desde pintura à fotografia. Instagram: @arissanapataxoportfolio | arissanapataxo.blogspot.com