Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos



PARTIDA


Meire Martins de Souza*


Vai, segue o teu destino.

Relutei tanto pra que tu ficasse,

Eu me refiz, eu me atirei,

Eu tentei ser o teu mundo,

Mas tudo que posso te proporcionar, é pouco pra ti.


Vai, segue o teu destino.

Lembrarei de ti como uma estrela

Que um certo dia apareceu no meu céu,

E trouxe brilho para a minha noite que estava ofuscada.


Vai, segue o teu destino.

Foi lindo te ver, foi gostoso te ter,

Mas se precisas agora brilhar em outro céu,

Vai, segue o teu destino.


Porque o amor não prende, o amor liberta.

Te darei então a liberdade de me deixar.

Te matarei dentro de mim, não por maldade, não por rebeldia,

Mas sim, para que possas renascer em outro céu.


Vai, segue o teu destino.

E o brilho que tu trouxeste para a minha vida, permanecerá para sempre.

E quando eu pensar em ti, tua luz refletirá em meus olhos,

E um sorriso resplandecerá em meus lábios,

Porque quando uma estrela morre, o brilho dela permanece no céu.


Vai, segue o teu destino.

Tu de repente apareceu,


Tu de repente se vai,

E eu fico aqui a contemplar esse céu, na esperança de que de repente tu vai voltar.

Vai, segue o teu destino.


*Antonia Luzimeire de M. M. de Sousa nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas.





RASCUNHO

[quarto texto da série Amanheceu]


Maria Helena Miranda*


Os anos passam

E a vida tem sido

Como aquele livro.

Páginas e páginas escritas

Em rascunho...

O texto ideal não foi escrito

A inspiração ainda não aconteceu, inteira...

Angustia-me a ideia de não saber quanto tempo ainda levará para que ele seja passado a limpo.



10 de outubro de 1982.


*Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.





“O DESENCANTO DE UMA PAISAGEM”


Isabella Poppe*


Foi no outono de 2013, estávamos eu e Ângela fumando um baseado atrás dos imensos galpões do cais do porto na cidade do Rio de Janeiro. Num horizonte pouco distante, a paisagem portuária composta de uma flora estupenda, artificial e insaciável saltava aos olhos. Era a primeira vez que sentia o impacto visual causado por aquele maquinário em fúria, onde trópicos humanos de ferro e força erguiam-se nos planos inclinados de costas para a cidade. Ângela me passou o baseado, dei um tapa caprichado, prendi a respiração e, ao soltar a fumaça, tossi incessantemente, sentindo a garganta arranhar. Ela pediu desculpas pela falta de qualidade da erva, justificando que eram tempos difíceis de escassez. Eu estava compenetrada naquela paisagem metálica, atenta aos contrastes de suas cores amarela, vermelha, azul e branca, das tantas pilhas de containers retangulares que amontoavam-se uns sobre os outros, numa espécie de jogo de empilhar gigante, não fossem os nomes das empresas estampados em suas laterais – que revelavam a função comercial de toda aquela estrutura globalizada.


Até que me dei conta de que não havia movimento algum ali. Nenhum sinal de atividade humana. Os trabalhadores eram invisíveis no universo portuário. Não fosse a brisa, talvez desconfiasse de que estivéssemos diante de uma miragem. Indaguei à Ângela se ela alguma vez havia visto um porto em atividade, mostrando algo para além de uma exibição estética. “Desce ruim na garganta, mas até que sobe legal na mente”, foi o que Ângela respondeu, me dando uma gastada. Passei o beck de volta para ela e me surpreendi ao vê-la fechar um dos olhos, enquanto fazia um gesto com os dedos polegar e indicador, como se imitasse um guindaste erguendo um daqueles infinitos retângulos coloridos. “É tipo aquelas máquinas de shopping em que a gente tenta pegar um bichinho de pelúcia. Nunca consegui fisgar um desgraçado desses.”


Durante algumas horas, ficamos as duas assim, curtindo a leveza daquele momento, aliviadas por ao menos conseguirmos abstrair de todas as desgraças da humanidade. Mas o impacto que eu havia experimentado, um misto de adrenalina e desencanto, essa sensação não iria passar da mesma maneira que a onda daquele bagulho de qualidade duvidosa. Eu havia sentido um misto de “Entusiasmo” – em que os planos detalhes de Vertov pulsam triunfantes em sua saudação ao progresso no seu maior esplendor – com o “Arábia”, de Uchoa e Dumans – onde a imagem imobiliza o tempo e, a abstração sonora da última cena de um navio em erupção, é um gesto de admiração do mundo em sua majestade e horror. Não compartilhei esses pensamentos com Ângela, receosa de que ela pudesse achá-los pedantes – ou totalmente vazios de sentido.


Reparei então em um dos imensos navios atracados no cais. Tinha o casco amarelo, onde estava escrito Grande América. Encarei-o por longos minutos na esperança de conseguir flagrar o momento em que o imenso guindaste vermelho se inclinaria até ele, para finalmente erguer um dos containers que aguardavam pacientemente a hora de ser descarregado. Mas nada. Tudo permanecia estático como de costume. Comecei a ansiar pelo dia em que veria aqueles imensos guindastes em pleno movimento. Se não para erguer containers, quem sabe para se desgarrarem de uma vez do chão, num ato feroz de rebeldia. Por fim, eles encarariam a cidade de frente e a invadiriam, alertando-a de seu progresso desenfreado.


Anos depois, eu viria saber que o mesmo navio Grande América havia pegado fogo e afundado, levando para o fundo do oceano cerca de dois mil automóveis. Dentre eles, estavam duzentos Porshes, carros de luxo destinados ao 1% da população grandeamericana, que agora se encontravam perdidos a mais de quatro mil metros de profundidade. Ao contrário das caravelas que invadiram nuestro território no passado, a viagem do navio de carga Grande América fora interrompida, impossibilitada de chegar ao seu destino final.


Naquele tempo, eu e Ângela havíamos tomado rumos diferentes na vida, como acontecem com muitas das amizades de infância, e já não éramos mais o silêncio cômodo uma da outra. Assim como o porto e a cidade, após tanto tempo rumando por caminhos paralelos e sem contato, com objetivos diferentes e até opostos em relação ao mesmo espaço, a ausência de diálogo entre nós tornou-se o indício de um confronto velado. Ela havia se formado em design, trabalhava em uma agência de marketing, e expunha o que havia aprendido de arte em NY em sua conta do instagram. Ângela conseguia ser feliz, pois encarava a vida como uma eterna distração. Já eu me sentia impotente diante de tudo que acontecia ao meu redor. Determinada a nunca ferir minhas convicções, estagnei-me numa inércia que se justificava pelo medo de tornar-me uma hipócrita.


No dia do naufrágio do Grande América, rompi nosso silêncio e mandei uma mensagem à Ângela com a notícia. Ela me respondeu amável, dizendo que apesar da tragédia, aquele dia lhe trazia boas lembranças, e finalizou com um “Saudades”. Não respondi sua mensagem de imediato. Depois de certo tempo, tudo que pude dizer acabou se resumindo num “Eu também” previsível. Não sei por que hesitei tanto em respondê-la. Talvez fosse pelo simples fato que, para mim, aquele navio cheio de carga afundado era, na realidade, um símbolo do que havia acontecido com a nossa amizade.


*Isabella Poppe é formada em História pela UNIRIO, mestranda em História, Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV-RJ e roteirista de projetos audiovisuais. É esquerdista, indecisa e doida pela América Latina. Curte ironia e toca mal vários instrumentos. Já foi livreira no Rio e em Buenos Aires. Colabora no site Women's Media Center.