Mãos livres

Atualizado: 17 de Out de 2020

#literatura #contos #poesia #desabafos



Sem título

[terceiro texto da série Amanheceu]



Maria Helena Miranda*



Eu não queria essa boca que não sorri

Esse ouvido que sempre ouve

Essa mente que tudo registra...


Eu não queria esse olhar que entrega

Que não disfarça uma dor, uma alegria, uma revolta

Que se mostra e me mostra... indefesa


Eu não queria esses pés que hesitam em caminhar

Que pisam, muitas vezes, temerosos

Quando o caminho não é, de todo, conhecido


Eu não queria essas mãos

Que se oferecem sempre e no “escuro”

E, por isso, muitas vezes permanecem no ar...


Eu não queria essa compreensão que me ultrapassa

Essa dor que sufoca

Esses olhos tão abertos pro mundo


Eu não queria o rosto, os olhos, o sorrir – tristes

Eu não queria essa vida

Eu não me queria assim...


21 de agosto de 1979


*Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.






RESTOS


Jeovânia P.*



O que resta de você cabe

em uma caixa

[de papelão ou madeira]

em um saco

em um pote

em uma urna


O que resta de você cabe

em uma página

em um livro


O que resta de você

Passa uma vida inteira

impregnado

na pele

na mente

no Eu



* Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da FPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”.




O rio da memória


[alerta gatilho / suicídio, estupro, violência]


Simeia Dos Santos*



A vida é como o rio: nasce, segue o seu curso e morre, se esgota no mar. A vida é o sangue despejado do meu pulso e que desliza pelo chão do meu quarto. Vivi trinta e três anos, agora já não sei quanto tempo me resta. A vida em mim, se dissipa. O tempo tornará o sangue seco assim como me endureceu por longos dias. O Tempo é o Senhor de Todas as Coisas. Fecho os olhos. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dez anos. A televisão ligada no telejornal. Tomo conta da minha prima de cinco anos enquanto os seus pais estão na igreja. Este tio - o mais novo dos seus irmãos.. Quanto anos ele tinha? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três? Não lembro. Isso faz tanto tempo. Este tio chegou dizendo que queria assistir o jornal da noite. Qual o ano? Também não lembro. Era ano de eleição. Na TV uma propaganda mostrava que era possível fazer um bolo com um Real. Um bolo… que fome! Este tio chamou-me para ir com ela até a cozinha. Aposto que ele vai dar biscoito recheado para nós.


Um quarto escuro.


Agora sinto-me abatida, uma sensação de fraqueza no corpo, a cabeça pesa. Sinto um formigamento no braço esquerdo.


Estou sentada de frente para este tio. Tenho dezessete anos. A família está reunida na sala da vovó. Este tio encontra-se em pé na porta. A filha dele aparece — deve ter uns cinco anos — uma criança linda e fofa. Ela senta-se no meu colo. É primeira vez que a vejo, pois, estive morando em outra cidade. Ela pula do meu colo e vejo que este tio está olhando em minha direção. Rapidamente fechei as pernas. Tenho dezessete anos, mas me lembro. Agora eu me lembro. Naquele dia, eu também usava saia. Eu também estava sentada de frente para este tio. Ou ele que escolheu ficar de frente para mim? É como se tudo estivesse acontecendo novamente, aos dez, aos dezesseis, aos trinta e três, todos os dias, todas as noites antes de dormir, basta o fechar dos olhos e tudo se repete. Noites insones. Remédios para me controlar. Remédios para desentristecer. O tempo não cura tudo.


Deixo o meu corpo deslizar inteiro para o chão. Estou exausta. Fixo meu olhar na larga estante de livros que acumulei durante esses trinta e três anos. Queria poder ter lido mais, ter conhecido mais histórias, outras possibilidades — trágicas, felizes, dramáticas, leves — onde o bem sempre vence — nas piores condições, mas vence. Eu queria ter vencido hoje. Sorrio. Sinto-me em paz, finalmente esquecerei tudo. E esse era o meu único desejo em vida: esquecer.


Este tio não leva à cozinha. Este tio me levou para um quarto que tinha uma cama de solteiro. Este tio pede para eu abaixar a saia. Acho que vou apanhar, mas não sei o que eu fiz de errado. Será que é porque reclamei que não queria assistir o telejornal, mas, sim, a novela Chiquititas? “Você está de calcinha, que droga”. Este tio pede para eu deitar e abaixa minha calcinha. Ele me observa enquanto um dos seus braços estão agitados, para cima e para baixo.


Este tio segura algo e pede para que aquela menina beijasse aquilo. Ela beija a ponta. Eu não teria feito isso se soubesse. Eu teria me recusado. Eu teria gritado. Pegaria a minha prima pela mão e sairia correndo até o fim do mundo. Eu correria até não ter mais pernas. Eu não olharia para trás. Minha prima iria chorar ou de fome ou, porque suas pequeninas pernas não aguentariam, mas eu a pegaria no colo e continuaria a correr.


Minhas pernas se movimentam como se estivessem correndo. Pouso minha mão direita sobre uma delas. É impossível correr deitada no chão, as consolo. Já não posso correr agora, como nunca consegui correr. Aquela menina está deitada sobre a cama, não totalmente, suas pernas balançam penduradas, passam um pouco da barra da cama, mas não alcançam o chão. Este tio diz: “É muito grande, não vai caber”. Um líquido sai da minha boca, não sinto o gosto, mas arrependo-me de ter bebido tanto vinho antes. Sinto o cheiro do sangue misturado com o vômito do vinho barato. O álcool não tirou a dor da fisgada da lâmina sobre a minha pele. Mas já não importa.


Não sinto qualquer dor mais.



* Simeia Dos Santos

Historiadora formada pela Universidade Federal de Ouro Preto.

Apaixonada pelo cinema nigeriano. I l♡ve Nollywood.

Mãe solo.

33 anos.

Tenho um perfil no Instagram dedicado aos livros, filmes, séries e também, entrevistas com amigos sobre diversas áreas do conehcimento: arte, cultura, trabalho, política, etc...:

@a.meninna.grapiuna