Mãos Livres (13ª Edição)

Atualizado: Nov 10




A HISTÓRIA DO GOZO

Sheila Lopes Leal Gonçalves*


Parte Final


Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pra minhas dúvidas; queria não ser humana.


Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior, enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava! Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi, então, que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados, ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava, e desviava o olhar pro chão, e me olhava de novo, e gaguejava, e suspirava, e derretia sob o sol de inverno, e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros.


“Não é fácil pra mim te dizer isso...”.

Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...”

“Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...”


“Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não se encontra homem que preste, nem pruma transa... te contar que a vida não tá fácil... hahahahaha. O que foi?!! Que cara é essa?!”


“Só achei que sua reação seria outra...”

“Mas me conta, você tá comendo alguém?”

“(...)”

“Fala! (risos)”

“Não.”

“Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!”


Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha. Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir por ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele...


Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade, acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados?

Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria.

Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa,

queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo,

q eu já sabia no q ia dar.

Queria ter certezas,

a despeito de saber q elas não existem para além das ficções.

Queria falar à toa,

pq sou dessas,

pq sempre falo pra caralho.

Queria não me sentir estranha...

e no fim das contas,

pouco importa o q eu quero ou digo

(...)

vida q segue.


*Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal




DE QUANDO FUI UMA JOVEM BRINCANTE

Aline Sampin*


Se eu fosse mais jovem Amava o domador Do circo da cidade. Não tenho mais amor Nem tenho mais idade. Pudesse eu ser criança. Me enamorar pelo palhaço Que toda vida não se cansa De brincar com seu fracasso. O passado vinha devagar, Espiando, sorrateiro que só, Cada passo que dei de amar. Toda pisada errada era um ai de dó. E mais um ponto para o azar. Mais um tropeço para o amor. Agora digo, sem mais delongas, Tanta coisa, tenho visto. De trato tão pobre e tão rico. Que não me faltam ditas lonas Nem mesmo lembro do meu/circo.



“Jovem Brincante”, pintura da série chamada “Altivo Mambembe” (ainda em produção), inspirada na poesia “De quando fui uma jovem brincante”.

*Aline Sampin, 38 anos, é atriz, com 20 anos de carreira no teatro e já foi premiada em festivais no Rio de Janeiro e em outras cidades pelo Brasil. Possui bacharelado e licenciatura em teatro pela UNIRIO e é mestra em história do teatro pela mesma instituição. É professora de artes cênicas da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 10 anos. Aline também é poetisa e artista plástica autodidata: trabalha com técnicas como desenho em grafite, carvão e pinturas em aquarela e giz pastel. Casada há 4 anos, tem uma filha de dois anos, que passa boa parte dos seus dias a rabiscar. Site (em construção): www.alinesampin.com




PROFANAÇÃO

Gabriela Mitidieri*


aprendi que sou duro

(ao mesmo tempo delicado)

discreto, cruzado, concentrado

o ideal é que eu quase suma

(disseram)


magro, não forte

regrado, limitado, enclausurado

letrado (minto, não muito)

sob medida

o chá de revelação é todo dia

marcado na pele

do corpo da menina


disseram que sou sagrado

me deram modelos vários

vai, Maria, ser santa na vida


reaprendi que sou dádiva,

matéria em expansão

puro gasto

jogo

a beleza do inútil

o contrário da angústia


dança que ocupa

e enreda com tecidos, tendão, torção

conjunto de células vivas

irrigadas, agitadas

pipa voada

puro suco de contravenção


(deixa eu dançar).


*Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia e experiência nos ensinos básico, superior e de línguas. Professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Aprendiz de acrobata e praticante da esperança equilibrista. Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri




SOCIEDADE DOS POETAS METALINGUÍSTICOS

Lya*


a partir de "Carta ao Zezim", de Caio Fernando Abreu

Querido Caio,


Eu não quero escrever. Invento desculpas, busco ocupações, consumo distrações, colho insônias, testo receitas, repito filmes, viro sommelier de séries, fiscal da natureza e testemunha ocular do tédio. Escrevo.


A contragosto, pois a escrita é espelho com eco: a lágrima, o vômito, a verdade incômoda, o medo da falha, a vergonha do aplauso, a fuga, o encontro, a construção, a melancolia, a erupção, a ruína, a catarse.


É minha latrina. Meu melhor e meu pior. Ventre, fluxo, gozo, escarro, esgoto, velório. Exorcismo das emoções que joguei pra debaixo do tapete do miocárdio. A usurpação gráfica dos meus sentimentos. Tenho medo de ir na cozinha de madrugada e me deparar com um poema falando coisas de amor.


É deitar-se nua no divã com o carrasco. Fazer uma entrevista de emprego com a mulher perfeita, bem-sucedida-comida-amada que eu seria aos 30. Andar de mãos dadas com o espectro dos meus fracassos. Abraçar o chorume da lembrança. Tentar explicar para a minha criança de estimação como falhamos até aqui. É o caminhão das derrotas passando na sua rua! Um convite ao passado pra passar tempo com o presente enquanto fofocam sobre o futuro.


Tempo, futuro, legado. Meio milhão de mortes te fazem questionar a vida. 34 anos na cara e ainda perdida. É foda! Quem diria, aquela menina prodígio, aluna nota dez, com tamanho potencial para mudar o mundo, agora não passa de um peso morto prestes a virar poeira cósmica. Um total de zero feitos para ostentar na lápide. Que morte horrível! Um desperdício! Aquele passado tinha tanto futuro! Vai fazer a passagem sem fazer diferença, falta ou alarde. Menos um nome na Wikipedia. "Esperávamos mais de você." Eu também, Caio. Eu também...


O que você quer ser quando morrer?

Isolada em meu casulo, lagarta estagnei. Pérola em ostra não gerei. Farta de ser farsa, meus dedos niilistas calei. O sol tá em câncer e eu, só eclipse.


Mas o pássaro azul cantarola dentro do eu-gaiola em plena madrugada querendo sair. Minha voz desenhada ele deseja ouvir. Malditos sejam os versos que não me deixam dormir! Ok, Caio. Você venceu. Eu me rendo! Satisfeito?


Meu poema parido não é mais meu. É cidadão do mundo. Assim como ninguém pode entrar novamente no mesmo rio, nenhum poema é lido duas vezes. A cada dose, nasce um novo poema. Fruto da fecundação do seu olhar-sêmen no meu óvulo-verso. Quando você me lê, você também me escreve. Ler é a última etapa da cadeia de produção poética. A leitura é uma bolsa estourando a caminho da maternidade. Formamos família.


Será que esses versos vão envelhecer bem? Seria a poesia cringe? Escrever está ultrapassado para a geração Z? Perceba Caio, estou redigindo a presente carta num aplicativo de notas do celular, enquanto a máquina de escrever empoeira esquecida na estante. Note, nem papel, guardanapo, notebook ou diário: notas virtuais armazenadas numa nuvem cibernética. Poesia imortalizada no Instagram, disputando algoritmos com memes, barrigas tanquinho e dancinhas de TikTok. Número de seguidores, curtidas, comentários e stories selam meu destino literário. Números, não letras. Seria eu uma aplicada poetisa de aplicativo? Uma futura membra da Academia Brasileira de Influencers? Ou apenas uma fraude que se diz escritora para provar que não é só uma bunda? Oi, sumida! Aqui quem fala é a síndrome da impostora. Tá passada?


Aliás, seria eu poetisa ou poeta? Porque veja bem, você como homem há de convir que nós mulheres somos histórica e constantemente silenciadas e subestimadas. Mary Shelley, Sylvia Plath, Mary Ann Evans, Virgínia Woolf, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus. Seria poetisa uma mulher que escreve poesia, ou um poeta de marca menor por ser mulher? Pertencemos à categoria da literatura genérica? Tal qual uma mulher necessitada do companheiro para evitar assédio, visto que homens só respeitam os seus semelhantes, precisamos usar pseudônimos masculinos para sermos validadas? Ou apenas nos conformamos com a condição de sermos uma escritora inferior? Pois, eu, do alto de meu um metro e cinquenta e dois centímetros, decreto: sou POETA de grande porte e mão cheia, em capslock! Serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados.


Deixo os escritos de sangue como legado. Até o meu último suspiro, ou canto do pássaro.


Abraços, meu amigo! Viva a Sociedade dos poetas metalinguísticos!


*Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca




A FOTO QUE ME NARRA

Lívia Vargas-González*


Para Daniel Ramírez, o autor da fotografia que, tirada o dia

do meu aniversário, no ano 2016, inspirou estas paisagens.



Reconheço-me na gordura destas pernas

que abraçam

que sustentam

que seguem o balanço da minha medida

na fenda das estrias que descubro

entre os cinzas desta imagem


Ando a linha que cruza e divide um abdômen

definido pelo arrulho de uma vida

prestes entre cantos dores

em prazeres contrações

vigia da vertigem o riso

abdômen que filtra espasmos e espantos

do umbigo discreto

que marca o grito de uma ruptura


Vejo a linha que me corta

em metades e inflexões

riso pélvico entre costura e cicatriz

quebra de um útero ameaçado

fissura inaugural de uma alvorada


Na foto do meu corpo

vejo rachas

marcas

manchas

pegadas

escrita do rejeito

o estupor

vergonha da humilhada

revide da descontente

desafio ao mórbido escrutínio dos olhos


Corpo que habito

que secreta

que orgasma

que despecha


que tristeia

e felizeia


Abençoado seja este corpo

que ri comigo

no preto e branco imortal de uma foto que me narra.


Ouro Preto-MG, 15 de agosto de 2021



Daniel "Chaco" Ramírez * Instagram: @ramirezelchaco * Behance: ElChaco Ramirez

*Lívia Esmeralda Vargas-González (Carracas - Venezuela, 1977): Mãe de Aquiles e migrante, compartilho as horas de meus dias entre a atividade acadêmica e a criação poética, reservando tempo e vontade para o cultivo permanente dos afetos que me sustentam, os daqui e os de lá, esses que rego na terra, no ar, na água, no fogo e na virtualidade indomável das telas e das redes. Sou escritora, poeta, pesquisadora, professora universitária, e hoje estou no Brasil, fazendo um doutorado em História, e mais um em Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), habitando as ruas que resguardam o barroco brasileiro e que ecoam as memórias da escravidão e da conquista. Publicaram-me: os livros Entre libertad e historicidad. Sartre y el compromiso literario (Caracas, 2008), Trânsitos Cotidianos. Passagens de uma Venezuela convulsa (Rio de Janeiro, 2020) e Fantasmagorias da trama (em imprenta); publiquei artigos de pesquisa em revistas acadêmicas de distintos países da América Latina e participei de várias antologias poéticas. Junto com Patrícia Parra Hurtado, Nideska Suárez e Tánia Alemán, faço parte da coletiva poética venezuelana Querencias & Saudades. E-mail: liviasartre@gmail.com | Insta: @liviavargasgonzalez