Mãos livres (11ª Edição)


A MORTE DA FELICIDADE

Jeovânia P.


A felicidade pegou a estrada vida

Chegou admirando-se do céu

Das belezas que pelo caminho encontrava


Como há de tudo

E umas tantas coisas muito mais


A felicidade começou a ver tanta coisa ruim

Quem foi ficando cabisbaixa


Um dia deu para examinar seu nome

Felicidade

Escrito com F

como feio

como falso

como fedido

como filho da puta


a partir daí não deu mais

para manter o riso no rosto

uma áurea.


Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial; e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”.



A HISTÓRIA DO GOZO

Sheila Lopes Leal Gonçalves*


Parte II


A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823.


Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia:


Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria.
Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar.
Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções.
Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho.
Queria não me sentir estranha...
e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo
(...)
vida q segue.

Desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e, então, só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo.


Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás.


Porém, aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querida da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão.


Novamente, Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajudá-la a terminar a história.


No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo TV com elas. Compreensiva ela, mas Marisa não podia calar.


  “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito, muito distante, e muito, muito esquisito, chamado Copa...

*Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | Twitter: @sheilalopesleal



(SEM TÍTULO)

Maria Helena Miranda*


Vamos caminhando...

Contra o tempo (inimigo)

E contra os inimigos

do nosso tempo


Vamos caminhando apesar de

mas, apesar de tudo

com esperança

(ela não pode acabar)


Vamos caminhando

E sempre lutando

E sempre buscando


E vamos vivendo

(de olhos bem abertos)

e, assim, crescendo


E vamos sonhando

Por que não?

Às vezes faz bem

Ajuda a descansar

da realidade

(pequenas doses para

temperar o dia)


“Vamos levando esse barco

Buscando essa tal de felicidade”


E sempre que possível,

vamos caminhando

de mãos dadas


Quem sabe no fim

do caminho, possamos

dizer que valeu a pena.


*Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.



CAUSOS DO TINDER (CRÔNICA 1)

Maiara Juliana Gonçalves da Silva*


Esse tal de Tinder é uma experiência bem engraçada, né?

Hoje conversava com uma amiga sobre o uso e as experiências que tive no aplicativo durante um certo tempo.


Tem uma amiga minha (Outra amiga. Não a do diálogo de hoje.) que combinamos de, quem sabe um dia, escrever um livro sobre os "Causos do Tinder" narrando nossas (des)aventuras em certas vezes que recorremos ao aplicativo. Hoje, decidi narrar sobre uma delas, que ocorreu no ano passado...

*

Eu nunca dou like em homens policiais no app. Sempre achei algo bem estranho como, a maioria deles, se "promovem" nas fotos do "catálogo" da vitrine virtual do aplicativo de relacionamento. É sempre exibindo suas armas e, em outros casos, as fotos com armas adicionam a fotos na viatura, distintivos, coletes a prova de bala etc. Um fetiche construído em resposta a relação que se faz entre farda, poder e virilidade. Pois bem. Um certo perfil do catálogo se apresentava com fotos bonitas (com ausência de símbolos que fizessem alusão a). Na descrição, poucas informações. Entre elas, constava "servidor público".


Resolvi pagar pra ver.


A conversa iniciou com cumprimentos e elogios de protocolo. Ao seu desenrolar, identificamos pontos em comum: naturalidade carioca, mudança do Errejota para Natal no mesmo ano, moradia atual no mesmo bairro. Os poucos pontos em comum, que se resumiam a trajetórias de deslocamento, terminaram quando começamos a falar sobre nossas profissões. Eu fiz a seguinte pergunta: "- E você é bolsominion?". A primeira resposta foi: "- Não costumo falar de política logo assim de cara". Expliquei que, no atual momento, era algo importante a se saber, afinal de contas "diga-me em quem tu votas (votou) e eu vos direi quem és". A preliminar (política), então, se tornou um debate... Ele disse que não era bolsominion, "MAS...". Penso que boa parte das frases que vem em complemento após esse uso do "mas" como conjunção coordenativa de adversidade deveriam encerrar antes mesmo dele. Em menos de dez minutos, o perfil tinha dito que antes o país sofria com a corrupção PTista, que era "uma escolha muito difícil" e que o PT era de extrema esquerda. Ali foi demais para mim. Extrapolou toda tentativa de um saudável debate que estávamos a fazer.


Após o desnudamento das preferências políticas, ele pediu o meu instagram. Foi quando eu disse que não o forneceria. Então, foi a vez dele: "- No seu perfil deve ter aquelas fotos mostrando os peitos, de legenda 'meu corpo, minhas regras' e fumando maconha". Na resposta, ativei o tom de um certo deboche "- Praticamente isso...".


Depois foi só ladeira abaixo, e como sempre dá para cavar mais em fundos de poços (vide o Brasil atual), então veio a cereja do bolo. Não satisfeito com a recusa em fornecer o perfil do instagram, o cidadão soltou em breves palavras: "- Para sair comigo é preciso fazer exame toxicológico". Foi, então, que eu respondi: "- Relaxe, meu bem. Não estou te convidando para sair".

A conversa encerrou com ele desfazendo o "match".

*

A experiência requer um apelo: por fineza, quem souber onde vende ego de homem, por favor me avisar porque eu quero comprar de quilo. Ou, como diria por essas bandas de cá, eu compro "de ruma".


Não à toa, a premissa segue inabalável: "diga-me em quem tu votas (ou votou), e eu vos direi, não só quem és, como também se ando com você."

*

Ainda em tempo (e pré dia 19 de junho #19J): Fora, Bolsonaro genocida.


* Maiara Juliana Gonçalves da Silva - é uma mulher preta, é uma mulher livre e é uma mulher mãe da Sofia Valentina. Nas horas vagas, ela é intelectual, historiadora, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Escola Agrícola de Jundiaí - EAJ) e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Instagram: @maiarajulianags


ILUSTRAÇÕES

Juliana Fernandes*


Meu nome é Juliana, mas todo mundo me chama de Ju. Sou formada em publicidade e tenho mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Ao longo dos meus quase 20 anos de carreira no mundo corporativo, sempre tive a sensação de que não me encaixava. Mesmo quando trabalhei com Patrocínio e Incentivo de Projetos Culturais, ainda assim, sentia que faltava algo. Queria mudar de carreira, mas não sabia o que eu gostaria de fazer. Em fevereiro de 2017, minha filha Morena nasceu e virou meu mundo de cabeça pra baixo (ou pra cima, na verdade…). Assim como acontece com muitas mulheres, eu não conseguia mais conciliar a vida que eu tinha com a maternidade que eu queria exercer. Quando, após 7 meses em casa com ela, tive que voltar a trabalhar, simplesmente não conseguia mais. Chorei todas as manhãs ao sair de casa, durante 6 meses. Até que veio a coragem que me faltava para dar o grande passo: pedi demissão. Decidi então que iria começar algum projeto pessoal. No caso, eu havia composto uma canção de ninar para Morena e tinha imaginado que poderia transformar esta canção em um livro. Com essa ideia na cabeça comecei a fazer aulas de desenho e descobri que simplesmente amo desenhar! Uma amiga me incentivou a postar meus desenhos no Instagram e, com isso, surgiram as primeiras encomendas. De lá pra cá, venho retratando famílias, histórias, amores... Ano passado lancei finalmente o livro que deu origem a isso tudo: A Valsa da Bailarina, meu segundo filho. E assim, quando dei por mim, havia encontrado minha nova carreira, meu propósito de vida: trazer mais amor e beleza para o mundo e para as relações, através da arte. Assim, nasceu o JuPocket Studio, projeto que oferece ilustrações personalizadas e produtos autorais. Confiram mais no instagram: @JuPocket Studio



*Juliana Fernandes é publicitária e possui mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Natural de Aracaju, rodou o mundo e, há 10 anos, escolheu Natal para fincar suas raízes. Mãe de Morena, ilustradora, designer, empreendedora, aprendiz de violeira e autora do livro A Valsa da Bailarina.