Mãos Livres

Atualizado: 16 de Out de 2020

#literatura #contos #poesia #desabafos



Em Meio à Névoa


Ana Paula Maciel Vilela*


Quando o carro estacionou em frente ao número seiscentos e trinta e oito, sentia-me com a boca seca, o coração em sobressalto.


Ela havia sido uma mulher independente, trabalhava e estudava à noite quando os filhos eram pequenos e algo que não suportava era a preguiça e má vontade de algumas pessoas. Incentivava as mulheres conhecidas e as filhas a serem independentes, terem seu próprio sustento e não dependerem de homem algum.


Em mim a baixa autoestima e excesso de cobrança foram crescendo na proporção de sua falta de paciência quando, no final da noite, ao chegar cansada da faculdade, lá estava eu aguardando, com o caderno de matemática nas mãos suadas, já no prenúncio do que aconteceria.


Paguei o motorista do táxi, atravessei a mureta baixa e alcancei o pequeno alpendre ladeado por um jardim que há muito perdera seu encanto.


Sentada em frente à televisão, minha mãe não se virou quando entrei, apenas fez um sinal com a mão pedindo silêncio quando lhe desejei bom dia.


A doença chegou sorrateira e muito camuflada com a falta de atenção que lhe era peculiar e por um período me agarrei a essa esperança de que os sinais que presenciávamos não seriam nada sério.


Em cada aposento da velha casa, memórias cravadas nas paredes, no piso, nas telhas.

A água fresca do filtro de barro parecia evaporar em contato com a sequidão na qual me transformara.


Quando me sentei a seu lado durante o café da tarde, alisava o crochê largo que enfeitava a toalha estampada e elogiava a amiga que a havia presenteado e que falecera há alguns anos. Disse que encomendaria uma para mim. Em instantes foi envolvida em um silêncio profundo. Quando a convidei para caminharmos no quintal, com o cenho franzido, me perguntou quem eu era.


Procurando abstrair da dor que me machucava quando a percebia tão longe e envolta naquela densa névoa, caminhei pelas trilhas e lembranças de cheiros, risadas e cores invadiram o entardecer. Sentei-me no banco. Esperei.


Ao retornar para a casa e entrar pela porta da cozinha, a encontrei: surpreendida pelo sorriso largo e olhos brilhantes, me chamou pelo apelido carinhoso da infância, estendendo para mim os braços abertos.


A névoa dissipou-se por alguns momentos.


Me perdi e quis ficar indefinidamente dentro daquele abraço.



*Ana Paula Maciel Vilela nasceu em Ituiutaba, Triângulo Mineiro, e foi moldada com finais de semana na fazenda até sua adolescência, andando pelo mato, conversando com plantas e bichos; hábito enraizado que persiste ainda hoje. Com um amor de companheiro há 40 anos, tem um casal de filhos, Carolina e Gabriel, mora em Belo Horizonte e escolheu ser fisioterapeuta para cuidar de pessoas, mas bem que poderia ser bióloga, agrônoma, psicóloga, nutricionista e mais alguma coisa. Adora ficar em casa, cozinhar, ler, escrever, bordar, cuidar das plantas, deitar na rede e conversar com Lucky, o cachorro que adotou a família.






Acontece…

[Segundo texto da série "Amanheceu"]



Maria Helena Miranda*



Já estou acostumada a ser ignorada...

Nas ruas, por onde quer que passemos, pessoas vão apressadas, sem perceber presenças a seu lado.


Algumas vezes acontece de sermos olhados de uma maneira inexplicável, isto é, sem nenhum motivo evidente, pessoas lançam-nos um certo olhar de raiva, revolta, sei lá...


É terrível, mas a gente se acostuma também com isso: “a gente se acostuma com tudo”...


Ontem, porém, algo de diferente aconteceu.


Ao sair do cinema (e lamentavelmente não estava sozinha – poderei depois justificar esta observação) fui parada por um homem descalço, roupas rasgadas, um mendigo. Pediu-me um cigarro, até aí nada de novo. Mas e o olhar? Há quanto tempo não sinto tanto carinho no olhar de um estranho? Observei-o por alguns minutos enquanto acendia o seu cigarro (e o fiz lentamente). Ele nada disse, limitou-se a um gesto com a mão e novamente o olhar...


Estranho, mas senti vontade de permanecer um pouco mais ali, senti uma vontade louca (louca?) de conversar, de saber o que era a vida para aquele homem, de entender o porquê daquele olhar carinhoso quando sua vida...


Mas não estava sozinha, assim sendo não poderia levar adiante a ideia que me veio à cabeça. Mas levaria adiante essa ideia, se estivesse só? Não sei, a gente se reprime tanto... A gente se conserva ainda tão presa a tantas coisas bobas.


O fato é que ainda hoje penso nesse homem, penso sem entender bem.


Não lembro direito do seu rosto; mas sua maneira de olhar, dessa eu me recordo perfeitamente.

O sábado não foi vazio...

Novembro de 1978


*Maria Helena, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.





Puerpério


Maria Cristina Martins*



comprou uma caneta preta

com uma borracha na ponta

borracha que apaga

tinta de caneta

apaga e não borra nada

nem destrói o papel

diferente daquela da infância

mas essa que apaga mesmo

e não borra nada

só apaga a tinta

da caneta específica

fez um teste

escreveu teste

apagou

sorriu

e sorriu por ter sorrido

uma coisa boba assim

fazê-la sorrir

escreveu

meu corpo todo apartado de mim

e nunca antes tão meu



*Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina.




O eterno feminino

em tempos imemoriais


Emilly Martins Alves*



Um "gritinho" de nada

Foi o começo de tudo

Ela, por fim, assustada

Calada, assente, contudo

Culpada sem culpa

Pelo masculino sem escrúpulo


Um "empurrãozinho" de nada

Era o seguimento

Ela não percebia, mas seguia se prendendo

"Desculpas", ele disse

Talvez, uma flor se seguisse

E o emaranhado ia se estendendo


Um "soquinho" de nada

Ah, ela sentiu

Mas fingiu

Seria aquilo amor?

"Esconda isso, por favor!"

As marcas, as lágrimas, a dor

Precisava fugir daquilo

Mas estava amarrada

Sozinha, sem auxílio


Umas "facadinhas" de nada

Seu último suspiro, um grito de horror

E no escárnio de seu assassino, seu sangue escorria, sem nenhum pudor

Junto com o de suas ancestrais

Abusadas, mitificadas, assassinadas

O eterno feminino em tempos imemoriais


E "eles" seguem

Nos estigmatizando

Nos emaranhando

Nos matando

E nos dizendo

Que a nós não pertencemos

Até quando?


2020

[Baseado na obra "Unos cuantos piquetitos" (KAHLO, 1935)]



*Emilly Martins Alves é discente de História pela UERN e aspirante à escritora nas horas vagas. Fascinada por arte, política, sua fusão e sua História, o que dá sempre inspiração para escrever, principalmente pela atemporalidade dos temas e por como podemos observar processos por meio de obras da forma mais autêntica possível.