Mãos livres

Atualizado: 16 de Out de 2020

#literatura #contos #poesia #desabafos


Diários de quarentena - Semana 16 – de 29 de junho a 05 de julho

(A pandemia nos une, a classe nos divide)

Amanda Moreira*



Cheguei à triste conclusão que esta pandemia está despertando o que há de pior nas pessoas. Embora eu siga alternando o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, isso tem se convertido, com frequência, em otimismo ingênuo e pessimismo engajado.


Nem mesmo esta tragédia humanitária, que dilacera vidas ao redor do mundo inteiro, tem sido capaz de fazer as pessoas pensarem mais no outro, no bem comum. Infelizmente o coronavírus só veio para acentuar o cada um por si e ninguém por todos, num mundo cada vez mais sem horizonte coletivo e com pessoas cada vez mais individualistas.


Neste domingo atingimos a marca oficial de 1 milhão e 580 mil infectados pela Covid e 64 mil mortos. Já passamos do dobro da meta do Jair, e ele não se contenta. Atinge a meta e quer dobrar a meta, mesmo que para isso se valha de medidas estapafúrdias como vetar na lei de uso de máscara a obrigação do seu uso em igrejas, estabelecimentos comerciais, escolas e locais fechados. Nada, absolutamente nada, explica alguém fazer isso em plena pandemia. E ainda tem gente que não entende porque ele merece o título de genocida.


Seguimos aprendendo tudo que não presta com quem dá mau exemplo e, neste caso, a população segue os passos do presidente e o presidente segue os passos do único país que nos supera no número de casos no mundo. Assim, EUA e BR seguem liderando o morticínio com duas figuras que dispensam comentários.


Com toda a liberação promovida, não deu outra. Farra do boi! O gado bolsonarista saiu de sua cerca de arame liso e logo ocupou as ruas sem máscara, lotando todos os espaços possíveis, felizes, gravando vídeos, debochando, dizendo que a vida voltou ao normal. Normal é parar de morrer gente, estúpido! Mas, para essa gente é a oportunidade de tomar uma cerveja e voltar a “pegar as mina”.


Vou repetir: 60 MIL MORTES, e como prêmio: praia cheia, shopping cheio, ruas lotadas, academias, bares e restaurantes voltando a funcionar. Deste modo, o isolamento social se tornou uma escolha individual, bem no pico da pandemia.


Esta semana o Rio de Janeiro registrou 168 mortes em 24h. Só na capital temos mais de 7 mil óbitos e quase 11 mil em todo estado. E a galera segue vivendo numa realidade paralela... Não existe amor em SP, no RJ, nem em lugar nenhum. Leblon e Barra da Tijuca com seus bares cheios de almas tão vazias, onde a ganância vibra e a vaidade excita, nos deram a certeza da profecia criolê, ali ninguém vai pro céu.


No Brasil a vacina para Covid-19 será muito bem vinda, mas a vacina contra estupidez é a mais urgente. Que asco eu tenho dessa gente egoísta, de enorme umbigo, tudo eu-eu-eu, desrespeitadores, covardes... Tudo isso me faz cerrar os dentes, apertar os lábios. Mas, individualismos à parte, hoje eu vou falar de classe, porque embora muitos não façam isso, pensar na coletividade e nos entender como classe trabalhadora é fundamental.


Ficou claro para todo mundo, durante esta pandemia, que são os trabalhadores que fazem a economia girar, que sem o trabalho humano não há saída para a vida em sociedade, que o trabalho gera a riqueza do mundo e que o capital financeiro é parasitário e não serve para nada. Nos últimos três meses e meio, aqueles que nunca foram valorizados mostraram que existem, que fazem falta. O trabalho doméstico relegado às mulheres, vistas como criadas, passou a ser visibilizado. O trabalho dos mais precários são os mais essenciais e todo mundo entendeu que não podemos viver sem garis, sem motoristas de ônibus, sem entregadores, sem trabalhadores da limpeza, sem os trabalhadores da saúde, em sua maior parte enfermeiras e auxiliares.


Esta pandemia exasperou as contradições sociais. O vírus, que chegou de avião para matar quem pega o busão, segue escancarando os retratos da sociedade de classes com a reabertura. Esta semana, vimos uma cena aterrorizante: trabalhadores balançando nos andaimes em meio a um ciclone no Sul, num prédio em construção. Havia alerta e mesmo assim eles estavam lá no meio do temporal. Assim como a Covid, desastres naturais seguem matando mais os pobres que, com Corona ou sem Corona acabam morrendo na contramão atrapalhando o público.


Nesta pandemia aprendemos também que a solidariedade de classe é fundamental e que se a vida não é garantida pelo Estado, o povo da perifa vai lá e garante (e não deixa de cobrar do Estado!). Assim, tomando o problema nas próprias mãos, preservaram a vida de muita gente. A experiência de Paraisópolis em SP, a quinta maior favela do país, nos faz refletir muito. Os presidentes de rua – lideranças locais que acompanham os casos de Covid na comunidade – têm feito muito mais do que o presidente ou o governador. Se dependesse do governo seria mortandade em massa nas favelas, foram iniciativas como esta, que ocorreram pelo país todo, que permitiram que as pessoas pudessem ficar acolhidas, seguras e vivas. Isso acalenta a gente.


Com este caos social instaurado, entendemos que é necessário ampliar as políticas sociais. O auxílio emergencial, implantado com a luta do setor democrático popular, é essencial, e continuaremos lutando pela sua permanência e ampliação, ao contrário do que querem Bozo e Guedes. Lutaremos também para que essa renda chegue à classe trabalhadora e atenda aqueles que mais precisam, pois é uma chacota o que tem sido feito com o programa. Sem coordenação do poder público ele beneficiou mais pessoas do que deveria e está custando mais do que o necessário. O IBGE nos mostrou que 5 milhões de brasileiros e brasileiras em extrema pobreza, com renda mensal até R$ 56,62 (isso mesmo!), não receberam o auxílio, ao mesmo tempo 461 residências com renda acima de 10 mil reais receberam. Um total descontrole do dinheiro público!


É um escárnio o perfil de algumas pessoas que conseguiram o auxílio-emergencial destinado à população mais vulnerável. Teve madame com casamento marcado no Caribe que recebeu, gente que frequentemente faz viagens caríssimas pelo mundo que também recebeu. Houve quem gastasse com churrasco pró-Covid e outros que utilizaram o dinheiro para ir ao salão de beleza, enquanto milhões de pessoas que necessitam desta renda para seu sustento tiveram o auxílio recusado.


Não há dúvidas, a classe mérdia aprendeu a feder tanto quanto a burguesia, esta que sempre cheirou muito mal, como já dizia Cazuza. O medo da contaminação levou os super ricos a finalmente descobrirem que há brasileiros que não tem água e não conseguem comprar sabonetes. Também descobriram que existem os invisíveis moradores de rua.


A mulher do Dória (sim, não sei o nome e não tenho problema algum em me referir a ela assim, porque é só uma parasita mesmo), com aquela boca cheia de botox, falou que as pessoas vivem nas ruas porque querem e porque são preguiçosas. Disse isso sentada ao lado de outra parasita, em ambiente luxuoso, ambas cheias de pose e mexendo naquelas perucas de boneca.


A burguesia não tem charme nem é discreta. Não tem nada mais repugnante que essa gente que se sente elevada, que parece não se constipar ou que, constipando-se, não espirra. Eu não consigo descrever o sentimento que possuo dessa gente podre que só quer manter os seus privilégios em qualquer circunstância da vida. Certamente eu colocaria a mão do nariz ao passar ao lado de uma madame daquela só pra não sentir o odor da mesquinhez abafada com perfume francês.


“Ainn, mas elas são mulheres, você vai se referir a elas assim mesmo, você não é feminista? Cadê a sororidade?” Sim, sou feminista e não tenho nenhuma sororidade com esse tipo de gente. Eu nunca vou defender essas mulheres burguesas que humilham e exploram a classe trabalhadora. O gênero nos une, a classe nos divide. Para mim não existe luta feminista sem luta classista, assim como não há luta antirracista sem luta anticapitalista. A questão racial nos une, a classe nos divide.


A despropósito, esta semana rolou uma polêmica envolvendo o ex-ministro da educação. Não falo do Weintraub, este continua fugido do país. Falo do seu sucessor, o Decotelli, que não durou cinco dias no ministério porque não se segurou diante dos fatos. Falsificou o currículo na cara dura. O cara é a fraude em pessoa. Inclusive, quando foi dispensado correu para colocar no currículo que foi ministro durante cinco dias, o que não considerei mais falsidade e sim patologia.


Teve gente na esquerda que passou pano, tolerou a mentira, a fraude. Disseram que por ele ser negro a pressão foi maior, a queda foi mais rápida. Não desconsidero este elemento, considerando o racismo estrutural, mas achei meio rasa esta análise e não acho que caiba defesa de alguém que aceita cargo em governo fascista. De qualquer forma, refleti bastante sobre isso, pois sempre que alguém acusa um assunto de conter racismo, eu paro para pensar e acho que todos que se colocam no campo do antirracismo deveriam fazer o mesmo, especialmente se não são negros ou negras.


Neste caso a questão foi política. Embora o governo Bolsonaro seja a expressão do racismo em seu grau mais extremo, o motivo de Decotelli ter rodado teve muito mais a ver com a crise que o governo enfrenta do que com a questão racial, como foi apresentado nas polêmicas de redes sociais. Esse senhor chegou ao governo pelo currículo, não tinha relação forte com o governo, não tinha laços, não tinha o perfil ideológico desejado pelo Bozo. O currículo era única coisa que o segurava, era a seu cartão de visitas. Tanto que a primeira coisa que o tosco do presidente fez foi vomitar o suposto currículo do cara aos quatro ventos. Logo depois veio a fraude, isso ficou mal, péssimo, desgastou.


O governo Bolsonaro agora não está podendo comprar barulho, diferente de momentos anteriores que seguram as bizarrices do mestrado bíblico da Damares, do falso mestrado em Yale do Salles e das pirotecnias de Weintraub. O governo está vivendo na base de concessão do centrão e isso está a definir o jogo no tabuleiro. A proximidade com o centrão e com os militares mais milicianos busca uma estabilidade para a corja insana. O velho Bozo, o palhaço antissistêmico, que vocifera contra a globolixo e a Foice de São Paulo, de dentro do seu chiqueirinho no Picadeiro do Planalto, agora está sendo contido. Ele não usa focinheira contra a Covid, mas está sendo guiado na coleira.


Entre Decotellis e Damares, eu jamais defenderei um inimigo de classe só pela condição de ser uma mulher, um negro ou um homossexual. Sei que isso é polêmico, já perdi amigos na militância por conta desse debate, porque em geral ele é mal feito, é vazio, liberal. É inegável que há um esvaziamento do debate de classe social e um superdimensionamento do debate identitário. Eita, fui polêmica agora, até nos termos, mas precisava falar sobre isso, mesmo com o risco de ser criticada. Aliás, crítica é uma coisa que a galera tem feito muito bem, o problema é a direção equivocada que faz atingir o lado errado.


Tem gente, trabalhadores como nós, da esquerda, que faz a gente se sentir uma opressora identitária. Quando dei uma zoada no ministro postando um diploma verdadeiro (cabe dizer que achincalhar ministros é o meu esporte favorito), quase me disseram assim “não pode postar diploma, sua branca sinhazinha!”. A gente está muito perdido mesmo. A quarentena enlouqueceu mais o que já estava enlouquecido. Há uma inversão doida. Os inimigos de classe passam a ser defendidos e os trabalhadores tornam-se inimigos por terem um suado diploma.


E segue a lei do valor e o fluxo. Enquanto a gente se esbofeteou discutindo entre nós se o candidato a ministro da educação mereceu ou não escracho público por ser um fraudador, a gente perde a grana do Fundeb e a educação segue em risco.


A falta do debate de classe está levando muita gente a confundir privilégios com direitos, a pensar que não tomar tiro da polícia e poder ficar em casa durante uma pandemia é um privilégio. A gente precisa combater esse discurso dentro da esquerda. Não existe privilégio no seio da classe trabalhadora. Não existe! Só burgueses são privilegiados, parasitas, vacas gordas, que vivem das grandes fortunas, que nunca precisaram mover uma palha e vivem às custas do nosso trabalho.


Este tempo poderia nos ajudar a melhorar essas reflexões, que tem a ver com a nossa humanidade, mas isso não vai acontecer se não qualificarmos o debate e melhoramos as nossas organizações. Precisamos de mais solidariedade de classe com os trabalhadores e trabalhadoras e não com a burguesia. Eu queria gritar: Gente, somos uma classe lutando contra a outra! Apesar do patriarcado e do racismo estrutural, existem mulheres burguesas e negros burgueses que não estão do nosso lado! Vamos falar da nossa classe e parar de defender burgueses exclusivamente por seu pertencimento de raça ou gênero?


É que em vez de fazer a análise política tem gente, partido e movimentos que gastam um tempo tentando convencer que são de esquerda, mas acabam fazendo a opção e o caminho da burguesia. Acreditam na justiça burguesa, na mídia burguesa, apostam todas as fichas na institucionalidade burguesa e jogam o jogo do capital. Para mim não tem essa, me desculpem. Sair em defesa da Damares, da mulher do Dória, do ex-ministro Decotelli, daquele sujeito que está a frente da Fundação Palmares e de outras mulheres, e de outros negros que estão com esse governo é ir na contramão da luta de classes, é dar apoio àqueles/as que desejam arrancar as nossas unhas a alicate, apagar cigarros na nossa testa e outras lisonjas dos fascistas.


Mas, o debate que tem rolado por aí está fugindo muito dessa vibe. Falar de classe é quase old, fora de moda. O tribunal da internet não gosta muito e sempre parte de julgamentos vazios. Se você postar uma frase com uma vírgula a menos vão dizer que você falou uma atrocidade. Se você disser “Vou comer, gente!” e esquecer da vírgula, vão te acusar de canibalismo. E parece que para quem é de esquerda a cobrança só aumentou. Tudo tem que ser milimetricamente certo, não pode ter erros e quando se erra os "companheiros", militantes, estão ali, como abutres, para tentar acabar com você. Nesse jogo da política, as forças continuam a ter como prioridade, a sua autoconstrução, os ataques são a prática cotidiana. Solidariedade? Empatia? Conversa? Imagina... Muitas vezes dentro da esquerda o que há é cobrança e grosseria. Como sempre as pessoas deduzem mais do que conversam.


É na luta que a classe se faz classe. Não é na segregação. A gente precisa se aprumar. Pegar o rumo do barco porque ele está afundando e levando todo mundo. A luta de classes é como um jogo de futebol. Precisamos entender o lance, olhar o jogo com estratégia para não continuar colecionando mais derrotas no placar. A rejeição de Jair tem o nível mais alto desde que ele assumiu. São diversas ameaças de impeachment, inclusive pela via do TSE, e os filhotes estão todos indiciados. Resumindo, Jair está todo cagado. Mas ele tenta se manter em jogo e faz de tudo para impedir que o povo vença no final.


Jair anda desesperado para se manter em campo. No mesmo dia que divulgou a prorrogação do auxílio-emergencial (mesmo que não chegue no bolso das pessoas devidamente) promoveu o Mengão “de graça” no YouTube. Foram 4 milhões de pessoas assistindo um jogo de futebol de um time que hoje tenho vergonha de torcer. Nos comentários enxurradas de agradecimentos feitos por um povo que ignora a promiscuidade entre os presidentes do Flamengo e da República.


A fórmula é: Duas parcelas de auxílio emergencial + jogo do Flamengo por Streaming = carta branca para o governo genocida seguir matando pobre. Nesse governo a política do pão e circo é temperada com ódio e resulta em morte. E assim voltou a ter jogador em campo, comemorando gol no Maracanã, no patético campeonato carioca, enquanto pessoas morrem no hospital de campanha ao lado, em só mais uma revelação da miséria humana a que chegamos.


O Brasil sempre foi de mal a pior. Digamos que quem é trabalhador aqui luta todos os dias para permanecer vivo. Só que hoje está ainda mais difícil viver por aqui com a política da morte funcionando a todo vapor. Resta saber quantos sobreviverão ao covarde genocídio em curso em nosso país.


Mas, há resistência! Um novo semestre se inicia e ele começou muito bem! 1 de julho foi um dia histórico nas lutas da classe trabalhadora. Quem pensou em ver uma greve de motoboys? O #BrequeDosApps mostrou a que veio, os jovens das periferias, que carregam comida nas costas sem ter o que comer, deram aula, não só no Brasil, mas na América Latina. Uma verdadeira lição de internacionalismo proletário. Em poucos dias de articulação materializaram o ideal de união latino-americana que defendemos há séculos e pouco fazemos. Mostraram que a luta é uma só, que a classe trabalhadora deve lutar sem fronteiras por direitos, contra o Estado e o Capital. Foi um verdadeiro marco na luta de classes no que diz respeito à uberização do trabalho.


Parar a produção agora é “não peça nada” e assim frear a circulação do capital. O motor das motocas poderá ser um capítulo central no motor da história. O precariado está nos ensinando como se faz a luta. Precisamos aprender com eles, reinventar os nossos sindicatos, saber utilizar as redes sociais e centrar o fogo para o lugar certo. O velho está morrendo e o novo sempre vem. Esses movimentos nos dão força. A vacina contra a Covid é a nossa esperança para voltarmos à vida normal e os trabalhadores precarizados são a nossa injeção de ânimo para derrubarmos o capital.


O Galo cantou “Se você entrega a sua força de trabalho você é entregador. Somos todos entregadores!”. É verdade. Precisamos de solidariedade, organização coletiva. E assim como os entregadores, os professores também estão dando a lição. Não vão voltar a trabalhar na próxima semana como querem os donos das escolas privadas. É greve pela vida! Educadores mais entregadores juntos numa só classe. A luta é uma só contra a uberização do trabalho e da vida que atinge a todos nós. Trabalhador unido, jamais será vencido!


Tudo isso dá uma injeção de ânimo na gente. Faremos de nossas lutas dispersas uma revolução? Não tenho dúvidas! Quando? Não sei. Precisamos de líderes, estratégias, programas. Ainda estamos muito longe de ser uma oposição de verdade. Somos só umas pessoas legais, de punhos erguidos e cerrados, cheios de ideias, humanos pra caramba, dotados de algum voluntarismo e mais nada, por enquanto. Ainda somos só umas crianças ingênuas protestando porque os pais não deixaram descer pro play, quando está claro que deveríamos era estar tocando fogo no parquinho todo. Mas, um dia a gente chega lá. Nos inflamaremos e não sucumbiremos à desgraça de um vírus oportunista e um verme inoportuno. Eles terão o que merecem: a nossa resistência, implacável, sempre. Vamos pra cima desses féla!



* Amanda Moreira é professora da Uerj, Doutora em Educação e Cronista pandêmica de fim de semana.






Metrópole


Rô Carmo*



O ano era 1983, me lembro bem. Estudávamos, as quatro irmãs, em um colégio no centro da cidade, e tínhamos que subir a imensa e famigerada rua da Bahia diariamente, pra chegar à escola. Minha irmã Meirinha, alguns anos mais velha, segurava minha mão; e isso me conferia uma soberba liberdade: presa assim, elevava os olhos acima dos imensos edifícios...abria as asas. À iminência de qualquer perigo, ela apertava minha mão e eu aterrissava em terra firme. Acontecia largas vezes ao longo do trajeto.


Entanto, no meio do caminho, havia O cinema. Sim, “O”: não conhecia nenhum outro, por dentro ou por fora. Ganhava meu olhar de pronto! Os cartazes eram janelas pra um mundo que nunca soubera, mas já amava. Era uma sugestão diária, que se insinuava na ida pra escola e se concretizava na volta. Nomes de filmes dançavam na minha cabeça, cartazes suscitavam histórias e o resto eu resolvia só, imaginando. Enquanto desenrolava a tarde, em meio às aulas, construía, a partir do pouco que capturara dos cartazes com meus olhares oblíquos, todo o resto necessário: cenário, roteiro, música.


Certo dia do ano de 83, outono/inverno, por certo_ ainda sinto a mão fria de minha irmã a guiar-me_ meu olhar procura, como de hábito, o refúgio de sempre. Nesse átimo de segundo, já eu antecipava o sorriso, sabendo que veria os cartazes de “Tootsie” estampados nos dois batentes das janelas do cinema, bem como o nome “Dustin Hoffman” em letras grandes acima da porta principal. Não...não foi isso que vi. E, pela primeira vez, quem guiava a caminhada era eu, puxando veementemente a mão de minha irmã, forçando-a a atravessar a rua pra ver de perto o que seria o fim de meus sonhos? O prédio do cinema estava em frangalhos: tapumes pra todo lado, escombros aqui e ali...passantes. Como podiam passar sem perceber que “O” cinema_ e isso abarcava, na minha meninice, todos os cinemas do mundo_ vinha abaixo?



E pensava: Não tive a chance! Imaginei incontáveis vezes minha entrada triunfal pela porta da frente, supondo seguramente que veria o melhor filme de todos os tempos; mas não tive a chance. Mais que isso: roubaram-na de mim.


Como poderia, depois desse desacontecimento, seguir Bahia até a escola? O que me esperaria na volta? Naquele dia, como nos próximos que se sucederam, testemunhei a vagarosa demolição do Cine Metrópole. Nenhum cartaz pra instigar minhas histórias, nenhuma música pairando sobre a cena inventada. Cena? Que cena? E a cada olhar lançado para os lados do prédio (art déco), cada dia menor; me assaltava uma tristeza funda, e uma dúvida incessante tamborilava em mim: Seria o cinema só ilusão?



* Rô Carmo é graduada em Língua e Literatura brasileiras e pós graduada em Educação Musical. Professora na rede municipal de ensino de BH há 26 anos, sempre pautando sua docência na crença de que a leitura é uma experiência de descoberta e libertação. Militante da literatura, possui um blog de divulgação de crônicas em língua portuguesa desde 2019.






Amanheceu...

[primeiro texto da série de mesmo nome]


Maria Helena Miranda*


Amanhece na cidade

Tanto movimento...

Gente apressada,

Lojas abrindo,

Sol, muito sol

Correria...

Pra quê?

Crianças caminham para as escolas

Homens pro trabalho

Alguns para o fim.

Livraria abrindo,

Livro na vitrina

“Cem anos de solidão”

Cem anos?

Não, apenas dezesseis.

Rapazes vazios em bares cheios.

Gente alegre, gente triste,

Gente, apenas.

Eu também.

Assalto à luz do dia

Nervosismo da pessoa assaltada

Calma dos outros.

Livrarias vazias

Boutiques cheias

Importância da embalagem.

Casa de discos

Vitrolas berrando

Gente procurando

A música que já não quer ouvir.

Casa de flores

Gente que olha as rosas indagando o preço

É, sempre o preço...

Carros luxuosos

Com gente triste.

Crianças famintas

Que ainda sorriem.

É... amanheceu.


[21 de novembro de 1970

Colégio Estadual Brigadeiro Schorcht]



*Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança.






(anti)Freud


Tássia Veríssimo*



Que medo é esse que os homens têm das fêmeas que falam?

Medo desse sangue que escorre por entre as pernas e medo das pernas abertas que parem o mundo

Verdadeiro pavor nutrem os homens dessa potência nas filha de Eva

Medo da fêmea que goza apenas porque quer

Se a deusa nos deu hímen foi apenas como proteção

não como selo de valia

A deusa nos deu clitóris

A eles? Sobrou apenas inveja.



*Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Formada em Produção Editorial pela UFRJ e mestra em Literatura Brasileira pela UERJ, está lançando a marca Insones Poemas (@insonespoemas) na qual transforma frases-poemas em vestuário e acessórios de moda. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados.