La Gringa: Tássia Paris

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Pessoa, F. Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959.



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“Ó mar salgado”... Ou como minha adolescência me tornou historiadora


Tássia Fernandes Paris*


Até meus treze anos, meu mundo era pequeno. Resumia-se à minha casa, em Natal, à escola e às férias em Olinda, na casa dos meus avós. Qual não foi meu choque ao descer de um avião, em um continente diferente, para residir na Cidade Invicta, no Porto, em Portugal. As pessoas falavam português, assim me diziam, mas eu não entendia nada. Como aquele poderia ser o mesmo idioma? Os cheiros, os sons, os costumes, as paisagens… Tudo diferente da tropicália em que fui criada até então. O frio dos ares temperados, e a cultura lusitana… Como poderíamos ser filhos de pai tão diferente? O estranhamento foi dando lugar ao fascínio, e o fascínio foi dando lugar à saudade. Saudade do mar tropical, dos coqueirais, da comida, mas, principalmente, da família. E como este novo ambiente me moldou? Com a História.

Ao visitar mosteiros, castelos milenares, ao navegar em rios tantas vezes navegados... Ao se chegar às beiras do Tejo, as mesmas que embalaram as embarcações que cortaram os sete mares rumo às terras brasis, ao chegar lá todo brasileiro e toda brasileira se emociona. Rememora coisas que não viveu. E o fado passa a entrar no seu sangue também. A parte portucalense do seu ser grita em você. Há, inevitavelmente, o entendimento “do outro lado” da história: o lado do navegador português, do argonauta que se lança no oceano em um pedacinho de madeira e deixa noivas por casar. E foi justamente ao estudar, na disciplina de Português, esse poema de Pessoa que o coração finalmente abriu para esse discurso tão forte na identidade portuguesa: o discurso do descobridor. E, indubitavelmente, eram essas as disciplinas que me alimentavam a alma na adolescência: o estudo da literatura lusitana e o estudo da história. A viagem era garantida. Como não se projetar dentro dessas vidas, ao olhar, ao poder tocar rochas, ao pisar em ruas que têm milênios? Se ao perambular em um centro histórico o coração pulsar, se ao olhar um aqueduto romano, seu sangue acelerar, você foi fisgado por Clio, não há hipótese.

Sim, havia momentos de saudade, palavra tão portuguesa, tão brasileira também. Sim, infelizmente havia xenofobia, o ser humano pode ser cruel em todas as culturas e idiomas existentes. Porém, havia muita beleza. Havia muito amor, amizades e risadas. E havia a história. E havia Fernando Pessoa, Camões, Gil Vicente, Florbela Espanca... Havia muitos monumentos a percorrer, histórias a imaginar, vidas a projetar em si. E como não escolher a história como profissão? Se ao olhar o horizonte eu só podia pensar: quantos pés pisaram esse caminho? Quantos navios zarparam desse porto? Quantas vinhas floresceram nesse chão? A temporalidade sempre presente na imaginação. E assim se fez mais uma historiadora, mais uma persecutora dos tempos idos, do que é findo. Espero nunca mudar esse meu percurso.


*Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda em história pela Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – pesquisadoras em rede, membra do grupo de estudos feministas Dandara dos Palmares, membra do Grupo de Trabalho Africanidades. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro, cinco cachorros e um porco da índia, fora os peixes.