"La Gringa": Mariana Selister Gomes

Atualizado: Mai 22

Ser Brasileira em Portugal


Mariana Selister Gomes*


O que significa ser uma mulher brasileira em Portugal?


Vivi quatro anos em Lisboa (de 2009 a 2013), convivi com inúmeras conterrâneas na terrinha além-mar, participei de movimentos de mulheres e de imigrantes, realizei meu Doutoramento em Sociologia sobre o tema, mas ainda não sou capaz de definir...


E será necessária uma definição?


O que concluí, a partir da minha experiência, da minha escrevivência e da minha investigação científica, foi que ser mulher brasileira em Portugal não é algo substantivo, nem essencialista. <Mulher Brasileira> é, antes de tudo, uma construção social, discursiva e performática, imersa em relações de poder históricas e em modos de subjetivação sempre reconstruídos. Ou seja, há um imaginário sobre a <Mulher Brasileira>, marcado por racismo e machismo; mas há, de igual forma, múltiplas formas das mulheres brasileiras se reinventarem – reexistirem e resistirem – em Portugal.


O imaginário em torno da <Mulher Brasileira> é muito presente na sociedade portuguesa. Esse fantasma começou a ser construído desde o período colonial (a partir da famosa carta de Pero Vaz de Caminha sobre as indígenas brasileiras e suas “vergonhas” à mostra), tem sido reforçado com o fluxo de migração brasileira para Portugal, do final do século XX e início do século XXI (marcado pela feminização) e, é constantemente incentivado pela presença midiática, cultural e turística do Brasil em Portugal. É um imaginário atravessado pelo racismo, pelo machismo e pela colonialidade (manutenção de ideias e relações de poder coloniais), fazendo com que as brasileiras sejam vistas, muitas vezes, como hipersexualizadas, disponíveis sexualmente e inferiores culturalmente. Essa visão preconceituosa pode ser entendida como uma violência simbólica. Mas a situação não pára por aí... O preconceito se transforma em discriminação. A violência simbólica avança para física, sexual, moral, econômica e psicológica.


Quando fiz meu Projeto de Tese, estava concluindo o Mestrado em Sociologia no Brasil (UFRGS), estudando o imaginário de <Mulata> como uma forma de racismo e sexismo. Então, propus pesquisar como esse imaginário funcionava em Portugal. Ganhei uma Bolsa do Governo Brasileiro na época (Governo Lula, em 2009) e fui para o ISCTE-IUL ser orientada pela Beatriz Padilla, uma excelente (e muito querida) pesquisadora argentina pioneira no tema da imigração brasileira em Portugal, com olhar feminista e de Gênero. Sinceramente, não imaginava encontrar o que encontrei... O imaginário era muito mais intenso e violento do que eu esperava...


Ouvi relatos (e, também, vivi algumas experiências) muito fortes, que vão de xingamentos em transporte público até casos de estupro, passando por inúmeros casos assédio sexual e moral em universidades e no mercado de trabalho. Os alvos: as brasileiras! De todas as classes, idades e cores/raças/etnias. Brasileiras que migraram por diferentes motivos: para trabalhar e sustentar a família no Brasil; para buscar uma vida melhor para si; para fugir de situações de violência; para estudar e realizar sonhos pessoais; para ter experiências diferentes de vida; por amor; para acompanhar a família; entre outras motivações. As brasileiras, em geral, são vistas como uma “raça” própria, mestiça, não-branca, colonizada, hipersexualizada e culturalmente inferior. Certamente, aquelas que enfrentam também o racismo antinegro - que é marcante em Portugal (apesar de muito se dizer o contrário) -, e as dificuldades socioeconômicas, estão em situação ainda mais vulnerável. Mas o preconceito específico contra as brasileiras ganha contornos muito fortes e precisamos falar sobre ele.


Em 2011, junto com um grupo de outras estudantes brasileiras de pós-graduação, organizamos aquele que ficou conhecido como o primeiro grande movimento das imigrantes brasileiras em Portugal: o “Manifesto contra o Preconceito às Brasileiras em Portugal”. Inicialmente, escrevemos a carta-manifesto e divulgamos nas redes sociais, protestando contra o preconceito de forma geral e, especificamente, contra a personagem “Gina” de um programa de televisão, que estigmatizava as brasileiras. A carta-manifesto começou a ganhar enorme repercussão, a ponto de receber apoio de diversas entidades, como a Embaixada do Brasil em Lisboa, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República do Brasil (hoje extinta), a Casa do Brasil de Lisboa, a Marcha Mundial de Mulheres em Portugal, entre outras. Conquistamos a retirada da personagem “Gina” do ar e provocamos uma grande discussão sobre o tema na sociedade portuguesa.

Quase 10 anos depois (em 2020), eclode outro enorme movimento, que muito orgulha a todas nós: o “Brasileiras Não se Calam”. A página do Instagram, que já soma mais de 34 mil seguidores, divulga relatos anônimos de preconceito e discriminação, como forma de denunciar o problema e contribuir para seu enfrentamento.


Além dessa resistência organizada e combativa, percebi, na minha pesquisa e na minha vivência, que as brasileiras reexistem de diferentes formas. Muitas vezes, tentamos nos passar por portuguesas – camuflamos o sotaque, mudamos roupas e cortes de cabelo, recolhemos o sorriso – para tentar evitar constrangimentos e sofrimentos. Outras vezes, buscamos reafirmar nossa nacionalidade, nossa cultura e nossa origem, como forma de autoafirmação e autoestima. Quando possível, buscamos falar sobre o assunto em círculo de amigos, mostrando o problema e encontrando apoio, inclusive entre portugueses não preconceituosos.


Nos (des)caminhos da imigração, somos brasileiras. Nos (des)caminhos da vida, somos pessoas. Somos cheias de sonhos, lutas, sofrimentos, alegrias, desafios, conquistas e complexidades. Seguiremos lutando, como nos ensinou Rosa Luxemburgo: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. E seguiremos concordando com Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”.


*Mariana Selister é ativista feminista e antirracista, mãe da Cecília, Doutora em Sociologia pelo ISCTE-IUL (Lisboa) e Professora e Pesquisadora na Universidade Federal de Santa Maria (Rio Grande do Sul, Brasil) – onde atua no Departamento de Ciências Sociais e nos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Relações Internacionais e Estudos de Gênero, e também coordena o Programa de Extensão GIDH / UFSM – Gênero, Interseccionalidade e Direitos Humanos.



Crédito da imagem: Marca do Manifesto contra o Preconceito às Brasileiras em Portugal, de autoria da artista Letícia Barreto (Insta: @leticiabarreto_art)


Insta e Twitter: @marianaselister @programagidh

E-mail: mariana.gomes@ufsm.br

Lattes: http://lattes.cnpq.br/4111932033395194

Link do Blog do Manifesto (2011): http://manifestomulheresbrasileiras.blogspot.com/

Insta do Movimento Brasileiras Não Se Calam (2020):@brasileirasnaosecalam