"La Gringa": Macarena Merino Farías

Atualizado: 23 de Set de 2020


Foto da autora
Felinni* - companheiro de quarentena e empresário de brechó

Confissões da quarentena


Estou consciente de mim  em  um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta, languidez, enjôo, ânsia angustiante” Fernando Pessoa

Antes de começar preciso fazer uma confissão, “tenho sido feliz na quarentena”. Sinto um pouco de vergonha de fazer essa declaração, porque sei que a tenho vivido de um lugar diferente de muitas outras pessoas, porque tenho um lar para desfrutar, porque sigo tendo trabalho e talvez porque fico bem comigo mesma. Lá fora sei que muitos perderam seus trabalhos, a segurança, que tem medo, que tiveram perdas, ou que simplesmente sentem falta da vida como era antes. Entretanto, eu tenho sido feliz na quarentena.

Vivo com meu gato, Felinni, em um apartamento de 30 metros quadrados em pleno centro de Santiago. Quando começou essa conversa de vírus eu não acreditei, “eram conspirações, eu acreditava”, e ainda penso um pouco. Mas mesmo assim em março tivemos que parar. No meio de uma “revolução” que enchia as ruas de todo o país, o Chile estava em ebulição social, o que me fazia pensar que algumas coisas iriam mudar, que existiam possibilidades de nos mobilizar para um lugar onde valeria a pena viver.

Mas tudo isso se dissipou e como ratos voltamos para nossas tocas com medo e necessidade de sobreviver à pandemia.

Pandemia

Substantivo feminino

1. medicina

Doença epidêmica amplamente disseminada

E, segundo eu mesma, já tinham muitas pandemias dando voltas por ai, que passavam desapercebidas, mas que faziam com que lá fora as coisas estivessem mais hostis, a pandemia da desigualdade, da discriminação, da falta de desejo, da automatização, do consumo, entre outras.

Então, para mim, estar do lado de dentro fazia sentido, eu já levava um tempo vivendo aqui dentro, porque lá fora às vezes doía, porque lá fora as vezes me sentia como estrangeira. Porque já não me faziam sentido as saídas, nem esperar as escapadas do fim de semana para relaxar, essas escapadas que no fim me deixavam sempre no mesmo lugar, de saco cheio das demandas de lá fora, da idade “está na idade, não está na idade”, das normas sociais que sempre me incomodaram, do corpo em “boa” forma, da estabilidade ou instabilidade, de haver alcançado alguns sucessos ou desbloqueados certos níveis, normas que finalmente eu já tinha me desprendido.

É por isso que sigo feliz na quarentena, não tenho tido que ir visitar os familiares que insistem em “e você, quando...?” (sobre ser mãe) sem se importarem se eu quero, ou se isso me interessa. Não tenho tido que dar respostas politicamente corretas e isso me faz muito bem. O único com quem eu tenho que lidar é com o meu gato de gostos culinários exigentes e horários pontuais, embora me pareça amável sua forma de estar no mundo. Tenho podido desfrutar de questões básicas, simples ou mundanas, como não me depilar derrubando o cliché de “me depilo para sentir bem comigo mesma”, porque tenho me sentido bastante confortável com os meus pelos. Tem sido libertador poder tê-los e respeitar que eles estejam aí. Pude improvisar versões diferentes de mim mesma sem que uma me defina ou tenha que ser fiel. Como escutei ou li por aí: “o confinamento me libertou”.

Para aqueles que o viver tem sido um desafio de lidar com aquilo que não encaixa, que têm sentido cansaço e o esgotamento das justificativas ou da busca de poder se encaixar em algo que não faz sentido, o confinamento tem dado um respiro. Escutaram esse meme que dizia: “quando se deu conta que seu estilo de vida se chamava quarentena”.

E será que eu tenho que me sentir culpada? Se não para todos é fácil poder encarar o lá fora, as exigências são altas e os custos maior ainda, autômatos sem desejos em um sistema que te suga e logo te cospe. Para mim nunca foi fácil me render a isso! Então fechar a porta fazia sentido.

Sei que vou ter que voltar a sair e espero que quando esse momento chegue também nos mobilizem outras pandemias, estas que já nos tinham exercitado “o distanciamento social”, a indiferença. Já se deram conta de que, usando a máscara, estamos nos olhando mais nos olhos? Isso me dá esperança.


(Versão traduzida)


*Macarena Merino Farías é chilena, vegetariana, animalista, psicóloga infanto-juvenil, amante do cinema e das viagens. Trabalha em uma linha telefônica de apoio psicológicos crianças de uma escola de educação especial. Administra o brechó online de seu gato, Felinni, que promove o consumo de roupas sustentáveis, atualmente vive em Santiago do Chile, onde reencontra juntando dinheiro para viver perto do mar.


**Felinni Feliz ainda não completou um ano e já viveu várias experiências significativas. Se aventura em deixar sua difícil infância para provar a sorte na cidade. Vive com sua humana que atende a todos seus exigentes gostos culinários, é amare de sapatos e alface. Faz pouco tempo, abriu uma loja de roupas usadas (@gatomarillobrechó)


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Confesiones de cuarentena


“Estou consciente de mim em um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta, Languidez, mareo y angustioso afán”. Fernando Pessoa

Antes de empezar, necesito hacer una confesión, “he sido feliz en cuarentena” y un poco siento pudor de hacer esta declaración, porque sé que la he vivido desde un lugar distinto al de muchos, porque mi hogar, si puedo vivirlo como tal, porque sigo teniendo trabajo y tal vez porque me llevo bien conmigo misma. Y sé que allá afuera hay muchos que perdieron sus trabajos, la seguridad, que tienen miedo, que han tenido pérdidas o que simplemente extrañan hacer la vida que antes tenían. Pero yo he sido feliz en cuarentena.

Vivo con mi gato, Felinni en un depto de 30 mts2, en pleno centro de Santiago. Cuando empezó esto del virus nunca me lo creí, “que eran conspiraciones creía yo”, aunque aún lo pienso un poco. Pero, aun así, en marzo nos tuvimos que encerrar, en medio de una “revolución” que llenaba las calles de todo el país, Chile estaba en medio de un estallido social, que me hacía pensar que algunas cosas iban a cambiar, que había posibilidades de movilizarnos hacia un lugar en el que valiera la pena vivir.

Pero todo eso se difumino y cuál roedores huimos hacia nuestras guaridas con miedo y necesidad de sobrevivir a la Pandemia

Pandemia

substantivo feminino

1. MEDICINA

enfermedad epidémica ampliamente diseminada.

Y según yo, ya había muchas pandemias dando vueltas por ahí, que pasaban desapercibidas, pero que hacían que allá fuera la cosa estuviera más hostil, la pandemia de la desigualdad, la de la discriminación, la de la falta de deseo, la de la automatización, la del consumo, entre otras. 

Entonces para mi estar adentro me hacía sentido, ya llevaba algún tiempo viviendo adentro, porque afuera a veces dolía, porque a fuera a veces me sentía como extranjera. Porque ya no me hacía sentido las salidas y esperar las escapadas de fines de semana para relajar, esas escapadas que finalmente me dejaban siempre en el mismo lugar, de agobio por la demandas de allá a fuera, de la edad “estás en edad, no estás en edad”, de los mandatos sociales que siempre me han incomodado, del cuerpo en “buena” forma, de la estabilidad o inestabilidad, de haber alcanzado algunos logros o desbloqueado ciertos niveles, mandatos que finalmente ya nos tenían bien encerrados hace rato. 

Es por eso que he sido feliz en cuarentena, no he tenido que visitar a los familiares que insisten en ¿y tú cuándo? (respecto del ser madre) sin importarles que quiera, si eso me interesa, no he tenido que dar respuestas políticamente correctas y eso se siente bien. Con el único que tengo que lidiar es con mi gato, de gustos culinarios exigentes y estrictos horarios, sin embargo, me parece amable su forma de estar en el mundo. He podido disfrutar de cuestiones tan básicas, simples o mundanas, como no depilarme derribando ese cliché “me depilo para sentirme bien conmigo misma” porque con pelos me he sentido bastante cómoda, ha sido liberador poder tenerlos y respetar que estén ahí. He podido improvisar en diferentes versiones de mi misma sin que una me defina o tenga que serle fiel. Como escuché o leí por ahí “el encierro me libero”.

Para los que el vivir ha sido siempre un desafío, de lidiar con aquello que no encajas, que hemos sentido el cansancio y el agotamiento de las justificaciones o de buscar poder encajar en algo que no hace tanto sentido, el confinamiento me ha dado un respiro.  Escucharon ese meme que decía: “Cuando te diste cuenta que tu estilo de vida se llamaba cuarentena”. 

¿Y será que me tengo que sentir culpable? si no para todos es fácil poder encajar allá afuera, las exigencias son altas y los costos más aún, autómatas faltos de deseo, en un sistema que te chupa y luego te escupe. ¡No para mí nunca ha sido fácil rendirme a eso! Entonces cerrar la puerta me hacía sentido. 

Sé que tendré que volver a salir y espero que cuando ese momento llegue también nos movilicen las otras pandemias, esas que ya nos tenían ejercitando “el distanciamiento social”, la indiferencia. Se han dado cuenta que usando mascarilla nos estamos mirando más a los ojos. Eso me da esperanza.


(Versão Original)


Macarena Merino Farías, Chilena, vegetariana y animalista, psicóloga infanto juvenil, amante del cine y los viajes. Trabaja en una línea telefónica de apoyo psicológico dirigido a crianza y en una escuela de educación diferencial. Administra la tienda Brechó online de su gato Felinni, que promueve el consumo de ropa sustentable, actualmente vive en Santiago de Chile donde se encuentra ahorrando para poder vivir cerca del mar.


*Felinni Feliz, Aún no cumple un año y ya ha vivido varias experiencias significativas. Se aventura a dejar su difícil infancia para probar suerte en la ciudad, vive con su humana quien accede a todos sus exigentes gustos culinarios, es amante del zapallo y la lechuga. Hace poco comenzó una tienda de ropa usada. (@gatoamarillobrechó)