"La Gringa": Lidia V. Santos

Atualizado: 19 de Dez de 2020


Imagem do site de Lidia. Confiram!! https://www.lidiavsantos.com


Influência do jazz


por Lidia V. Santos*


Só agora, depois da morte de Miles Davis, tinha certeza de que ele não tivera essa importância toda na sua vida. Até bem pouco tempo não podia ouvir o som cortante do trompete de Miles sem estremecer. “Diga, querida, quem está tocando o trompete?", a frase vinha imediatamente à sua cabeça. Antes que ela respondesse, ele dizia: “Miles Davis, é lógico." Era o mesmo com Charles Mingus, com Coltrane, com Gillespie, que também acabara de morrer, embora Miles fosse o preferido. Ele se dispusera a ensinar-lhe tudo, e a intensidade do aprendizado acompanhou durante bom tempo as experiências futuras: nada seria igual, ela se afirmava todos os dias e nada mais parece ter-se passado em sua vida nesse curto período. 

- Quem está tocando o trompete?, Miles Davis, my dear - antes que respondesse. Tinha sido assim desde o princípio, ele dizia que era preciso ouvir e ela não fizera outra coisa enquanto tudo durou. “Com quantos compassos se faz um blue?” “Doze”, ela já sabia repetir. Estava agora diante do espelho, esculpindo o rosto em traços de blush. Pensava que o tempo não tinha sido tão implacável, enquanto Billie Holliday cantava When a Woman Loves a Man. Ela sempre preferindo o canto das mulheres, identificação, ele afirmava. Bessie, Billie as grandes rainhas solitárias, durante muito tempo não pôde ouvir Miles Davis. 

Lembrava-se do traço espesso de delineador que se usava naquela época, a arte da maquiagem se desenvolvera muito desde então. O jazz, esse sobreviveu no culto do pequeno círculo que ela nunca mais vira. Hoje os tons são mais suaves e os traços se esfumam num colorido natural. Os azuis e os líquidos verdes, para os dias alegres, indianos negros e púrpuras para as noites trágicas, que ultimamente não havia mais. Maquiar-se permaneceu uma forma de render-se homenagem; se estava triste, era lá, diante do espelho, tendo à frente seu arsenal de pincéis, tinturas, pastas e pós dourados, que tudo se resolvia. 

No princípio era o enfeitiçado trajeto que vai do delta do Mississipi à cidade de Nova York. Gostava de acompanhá-lo nas reuniões dos amigos, em que a falação dele tinha evidente prestígio. Era cômodo, não precisava dizer nada, a música encantadora, ela, a princesa mimada que merecia um afago a cada tirada brilhante. Miudinha naquela ocasião, achegava mais o corpo ao dele e era feliz. Recordava o espanto em seu rosto quando dissera numa dessas reuniões: “Miles Davis é um homem bonito", e como demorara a responder, os olhos fixos nos dela: “Faz sucesso com as mulheres." 

O segundo compasso foi diminuir o tom da voz, porque ele não gostava que o interrompessem enquanto, noite adentro, durassem na vitrola as jam-sessions. Um dia lhe disseram que precisava ir a um médico, ninguém conseguia mais ouvir suas frases, os colegas do trabalho pedindo sempre que ela as repetisse. 

-Quem está tocando o trompete?- Miles Davis - ela respondeu do lado de dentro. — Muito bem, ouviu a voz dele do outro lado da porta. Foi nesse compasso que desenvolveu a arte da maquiagem, talvez para disfarçar as olheiras surgidas com as noites em claro regadas a uísque. Retirava-se para o espelho e, enquanto os solos do Bird entravam por todas as frestas, ela estava diante de si mesma, metamorfoseando-se.

 A transformação foi lenta, mas segura. Um dia, o rosto marcado pela maquiagem pesada, chegou ao apartamento e ele não estava. Sumiu três dias seguidos, ela mudando a pintura a cada três horas, aprendera sozinha muito jazz, ouvindo toda a coleção. Alguma coisa começou a se partir, talvez o espelho, talvez o acetato dos discos, em que, sem a presença dele, percebera pequenos chiados. Ela se vendeu por trinta desculpas, mas a fissura tinha-se instalado. Na segunda ausência, trancou-se no quarto e cortou-lhe à tesoura a roupa prestável, deixando-o com a roupa do corpo. Ele soube, mais uma vez, convencê-la da necessidade da sua presença, mas ela notou-lhe uma ruga no pescoço. A minissaia instalava seu reinado, e os amigos da rua, que ela voltara a procurar, ouviam rock-and-roll. Da terceira vez foi encontrá-los e esqueceu por dias a frase, até que a volta da fechadura surpreendeu o trompete de Miles Davis: “Quem está tocando o trompete?" Ela atravessou a sala e esvaziou o armário de uma só vez, encheu uma mala grande com a própria roupa e nunca mais o viu, porque ele também nem se deu ao trabalho de procurar por ela. 

A notícia veio quase ao mesmo tempo que a da morte de Miles Davis, ele deve ter morrido feliz. A amiga dos velhos tempos fez questão de contar, dentre outras tristezas. Sentiu uma dor funda, que nem de longe trazia de volta a emoção daqueles dias. Além daquele amor, veio junto a lembrança da construção de uma nova capital, da nova arquitetura, da poesia sintonizada com aqueles dias. Pensava isso enquanto Alberta Hunter cantava um país em francês, tinha posto as mulheres a cantar depois de receber a notícia. Fora imediatamente para o espelho, preparava-se para o encontro de hoje à noite, um homem novo em sua vida, promessa de amor mais uma vez renovada.

(in Os Ossos da Esperança, 1994, pp. 83-87)



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The Influence of Jazz

by Lidia V. Santos*

            Only now, after the death of Miles Davis, was she certain that he hadn’t been all that important to her life.  Until just a little while ago, she couldn’t hear the piercing sound of Miles’ trumpet without trembling.  “Tell me, dear, who is playing the trumpet?” the phrase came immediately to her mind.  Before she could answer, he would say: “Miles Davis, of course.”  It was the same thing with Charles Mingus, with Coltrane, with Gillespie, who had also just died, even though Miles was the favorite.  He had taken it upon himself to teach her everything, and the intensity of the apprenticeship [accompanied for a long time the future experiences: nothing would be the same, she would tell herself every day and nothing else seemed to have happened in her life during that short time.

            - Who is playing the trumpet?, - Miles Davis my dear – before she could answer.  It had been that way since the beginning.  He would say that she needed to listen and she hadn’t done anything else while it lasted.  “How many bars are in the blues?”  “Twelve”, she had learned to repeat.  She was in front of the mirror now, sculpting her face with touches of blush.  She was thinking that time had not been so implacable while Billie Holliday sang “When a Woman Loves a Man”.  She always preferred the female singers, because she could identify with them, he would assert.  Bessie, Billie, the great solitary queens, for a long time she couldn’t listen to Miles Davis.

            She remembered the thick stroke of eyeliner that she used at the time.  Her art with makeup had greatly developed since then.  Jazz survived in the worship of the small circle that she had no longer seen.  Today the tones are softer and the strokes are shaded with a more natural coloring.  The blues and the liquid greens for the joyful days, the Indian blacks and purples for the tragic nights, of which lately there had been none.  The makeover remained her way of rendering herself homage; if she was sad, it was there in front of the mirror, having before her her arsenal of brushes, paints, shades, and gold powders, that everything was resolved.

            In the beginning, it was that bewitched route from the Mississippi Delta to New York City.  She liked to escort him to meetings with his friends in which his conversation was evidently prestigious.  It was nice, she didn’t have to say anything, the music was enchanting and she, the spoiled little princess who received a caress for every one of his brilliant witticism.  Feeling small on that occasion, she drew her body closer to his and was happy.  She remembered the shock on his face when, in one of those meetings, she had said: “Miles Davis is a handsome man,” and how long he had taken to answer, his eyes fixed on hers: “He is good with the women.”

            The second measure was to quiet her voice down, because he didn’t like anyone to interrupt him at night during the “jam-sessions” on the record player.  One day someone told her that she needed to go see a doctor, because no one could hear her anymore, her co-workers were always asking her to repeat everything.

            - Who is playing the trumpet? – Miles Davis – she answered from inside.  Very good – she heard his voice through the door.  It was doing that that she developed the art of the makeover, maybe it was to disguise the dark circles under her eyes that would appear after the whisky-filled all-nighters.  She would retire to her mirror and while the solos of “Bird” wafted in through the vents, she would stand before herself, metamorphosing.

            The transformation was slow, but sure.  One day, with a heavily made-up face, she arrived in the apartment. He was not there.  He disappeared for three days, and she, while changing her makeup every three hours, learned a lot of jazz alone, listening to the whole collection.  Something began to crack, perhaps it was the mirror, perhaps it was the acetate on the records, on which, without his presence, she had begun to perceive small scratches.  She sold herself for thirty excuses, but the fissure remained.  During his second absence she locked herself in his room and, with a pair of scissors, cut up all of his good clothes, leaving him with only the clothes he had on.  He was able to convince her one more time that her presence was necessary to him, but she realized he had a wrinkle on his neck.

            The miniskirt was beginning its reign and her old friends that she had hunted up again, were listening to rock-and-roll.  The third time she went to find them and for days forgot the phrase, until the turning of the lock interrupted Miles Davis’ trumpet: “Who is playing the trumpet?”  She crossed the room and emptied out the chest of drawers at once.  She filled a large suitcase with her own clothes and never saw him again, because he didn’t even go to the trouble of trying to find her.

            The news came at almost the same time as that of Miles Davis’ death – he must have died happy.  A girlfriend of hers from the old days made sure to tell her, amongst other sad news.  She felt a deep ache, that brought back from far away, the emotion of those days.  Besides that love affair, came the memory of the new capital’s construction, the new architecture, the poetry that went with those times.  She thought about all that while Alberta Hunter sang a country in French. She had had the women sing after receiving the news.  She had gone immediately to the mirror, and was preparing herself for that night’s date, a new man in her life, the promise of love renewed once more.

__ Translated from the Portuguese by Treb Winegar

The Dirty Goat, 2002, number 12. pp. 42-43.


*Lidia V Santos nasceu no Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira literária e acadêmica. Em 1995, mudou-se para a cidade de New Haven, nos Estados Unidos, graças a um convite da Universidade de Yale, onde, desde então, foi professora de literatura latino-americana (hispano-americana e brasileira). De 2006 a 2102 foi professora do curso de doutorado nas mesmas disciplinas no CUNY Graduate Center / Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de New York. No Brasil, se graduou em Português - Literatura na Faculdade de Letras da UFRJ, onde também fez o mestrado em Literatura Hispano-Americana. Continuou essa especialidade no seu Doutorado pela Universidade de São Paulo/ USP. Ao sair do Brasil, era professora associada do Departamento de Letras Estrangeiras da Faculdade de Letras da UFF. Sua mudança para Manhattan ocorreu em 2012, ano em que transcorrem os eventos narrados nos seus Diários da patinete. Sem um pé em Nova Iorque, seu livro mais recente. Hoje, vive entre Rio de Janeiro e New York, cidade onde passa parte do ano. Como escritora, recebeu o primeiro prêmio “Guimarães Rosa”, outorgado pela Radio France Interationale / RFI, com o conto “Os Ossos da Esperança”. E também o primeiro prêmio do Concurso “Escritoras emergentes”, outorgado pelo Conselho Federal da Mulher, pelo conto “Pequena Sinfonia para Flauta e Cavaquinho”, além de outros. Com um romance em andamento, escreve regularmente no blog “Lidia V. Santos, escritora”, incluído no site www.lidiavasntos.com