Entrevista com Mariana Monni

Atualizado: 20 de Set de 2020


Escritora Mariana Monni



Nesta edição entrevistamos a escritora Mariana Monni, autora de romances sexies com alta vendagem em plataformas como Amazon e também nas livrarias. A carioca Mari Monni sempre foi apaixonada por Literatura. Hoje, não é diferente, desde que resolveu começar a publicar, já lançou vinte títulos, todos eles com um toque de humor, sensualidade e finais felizes garantidos. Mari ingressou nas faculdades de História, Letras e Marketing, além de ser tradutora certificada. Nenhuma de suas tentativas profissionais foi capaz de fazer com que ela se sentisse realizada. Pelo menos, até começar a escrever sobre os inúmeros personagens que estão sempre em sua mente.

Mãe solo de uma menina linda e de um cachorro carente, ela mora no interior do Rio e passa seus dias criando histórias cheias de humor e que fazem você sentir “coisinhas gostosas lá embaixo”. Hoje, além de publicar comédias românticas, também investe na literatura Jovem Adulto, assinando como M. Monni.

Muito obrigada por conversar conosco, Mariana Monni.


Mariana Monni: Eu que agradeço por poder estar aqui. É muito bom ter esse espaço para compartilhar minhas experiências com outras mulheres.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Primeiramente, gostaríamos de saber como foi sua trajetória até você se entender como uma escritora profissional. Como isso aconteceu?


Mariana Monni: Juro que ainda tento entender. Às vezes paro e penso: “Caramba, não é que consegui mesmo?!”. Eu sempre escrevi. Outro dia, estava arrumando um armário aqui em casa e encontrei o meu primeiro livro. Eu tinha 9 anos e contei a história de uma bruxinha levada. Só que o caminho para ser escritor é bem complicado. Primeiro, porque você dificilmente acredita que vai conseguir. Depois, são todas as dificuldades de publicação.

Eu era professora de Inglês e não conseguia parar de ter ideias para livros novos. Sempre começava a escrever, só que nunca tinha tempo para concluir o livro. Afinal, minhas prioridades eram outras. Mãe-solo com um emprego? Impossível ter tempo para escrever. Mas eu insisti. E foi então que terminei o primeiro, “Uma Chance Para Amar”, que conta a história de Laura, uma mãe-solo. Usei muito da minha experiência, apesar de não ser uma biografia (muito longe disso, inclusive). Fui convencida por uma amiga a postar no Wattpad (1), e foi um sucesso logo de cara! Isso me deu coragem para continuar...

Digo que precisei sair do armário literário. No início, tinha muita vergonha do que as pessoas iriam achar do meu livro. Pouco a pouco, fui me acostumando, tanto às críticas quanto aos elogios, e deu certo. Comecei a publicar de forma independente na Amazon, até que fui demitida do curso de Inglês. Em vez de buscar outro emprego, decidi focar na minha carreira de escritora. Hoje, além de ser independente, também tenho uma série lançada pela Pitangus Editorial. E agora estou aqui, dando até entrevista para vocês. Não é louco?


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você poderia nos falar um pouco a respeito da sua rotina de trabalho? Também gostaríamos que nos contasse sobre o funcionamento do mercado editorial, de modo geral, e também do mercado de literatura erótica, em particular.


Mariana Monni: Durante este período de responsabilidade social, muitas pessoas estão entendendo que trabalhar em casa tem seus prós e contras. A minha rotina em si não mudou muito. Sempre fui mais eficiente pela manhã. Então, acordo cedo e, por volta das 7h, começo a escrever. Tento ir até às 11h. À tarde, foco mais em coisas burocráticas e no marketing. Cada autor tem seu próprio método. Eu, particularmente, gosto de estipular um número mínimo de palavras por dia – 2 mil, ou um capítulo.

Também gosto de ter algum estímulo sensorial, que me ajuda a relaxar enquanto escrevo. Algumas pessoas escutam música. Eu prefiro coisas cheirosas. Incenso, velas aromáticas…

Sempre fui daquelas que deixava o personagem contar a história, mas quanto mais a gente se profissionaliza, mais técnicas usamos. Hoje em dia, gosto de fazer um roteiro, isso tem me ajudado bastante. Não crio um cronograma fechado para a história, apenas coloco os pontos principais que irão acontecer e depois vou criando um pequeno roteiro de capítulos – de 10 em 10 –, para que eu ainda tenha espaço para fazer mudanças no plot(2) e ser criativa. Mas escrever um livro, por incrível que pareça, não é a parte mais difícil da publicação.

Vocês perguntaram sobre o mercado editorial. Eu poderia escrever um livro sobre isso, mas vou deixar aqui alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, é preciso entender que existe a publicação com editoras, que pode ser de modo tradicional – quando a editora arca com todos os custos da publicação – ou com coparticipação – o autor paga um valor x (depende da editora) e a empresa realiza todos os trabalhos. Durante a escrita de um livro, sempre recomendo ter alguns leitores betas. São pessoas críticas e cheias de amor no coração, que estão dispostas a ler seu trabalho e apontar as falhas da história, em especial as de continuidade.

Após o leitor beta terminar de ler e você ajustar o que for preciso, é hora da edição. Editar um livro significa eliminar o que é desnecessário (a boa e velha “encheção de linguiça”) e acrescentar o que falta. Pense que um capítulo precisa ter emoção, sensações, fluidez e ação. Fora que precisa terminar em um pequeno gancho para fazer com que dê vontade de continuar a leitura. O leitor precisa enxergar o que está acontecendo, entender como o personagem reage à determinada situação. O processo de edição ajuda nisso. Feito isso, partimos para a preparação de texto. Mudanças de frases, de estruturas, valorizando a fluidez do texto. Em seguida, é a vez da revisão. É o pente fino, que elimina os erros de gramática e ortografia.

Entre todas essas etapas é importante que o autor leia o texto. Sim, ele precisa ler o próprio livro várias vezes antes de dizer o tão sonhado: “está pronto”. Texto concluído e bem trabalhado, vamos à parte gráfica, que constitui na capa e na diagramação. A capa pode ser frontal (para e-book) ou aberta (para livro impresso). A diagramação faz com que um texto de Word, por exemplo, esteja ajustado para a impressão ou para a versão digital. Algumas diagramações são mais elaboradas, e incluem imagens, seja para ilustrar aberturas de capítulos ou o texto em si. Deixo aqui meu apelo, caso você tenha como objetivo publicar um livro de forma independente: contrate profissionais sérios para todas essas etapas. Nada de pedir ao amigo que é ótimo em português para revisar seu livro. Mas se você acha que acabou, está errado. Livro pronto, impresso ou nas plataformas de leitura digital, agora que vem o problema: divulgação. Em 2019, foram lançados mais de 350 mil livros no Brasil. Como fazer com que seu livro seja lido? O Marketing é peça essencial na publicação. Não adianta nada gastar milhares de reais com tudo isso que falei acima e não investir na divulgação. Tanto editoras quanto autores independentes estabelecem parcerias. Blogs, canais no YouTube, Instagrams… todos voltados para o público leitor. Eles leem os livros, fazem resenhas, postam comentários e ajudam a promover seu lançamento. Fora isso, existe o que chamamos de publieditorial. As parcerias são gratuitas; ou melhor, você envia o livro para o parceiro e ele trabalha em cima do produto. Já o publieditorial é quando você paga para um influencer ler e divulgar.

A grande diferença aqui é que, com editoras, a verba é muito maior. Por isso, conseguem fazer tudo que falei acima. Já um autor independente não consegue arcar com este peso. Por isso, na maioria das vezes, limita-se a uma revisão, diagramação, capa e parcerias. Então, peço a vocês: não deixem de ler autores independentes.

Você me perguntou do mercado erótico. Confesso que, apesar de meus livros conterem algumas cenas de sexo, eles não se encaixam nessa categoria. Por isso digo que são “sexy e com muito humor”. Mais próximos de serem comédias românticas do que eróticos. A Amazon tem um catálogo gigantesco de livro erótico. Ela foi essencial para a promoção de livros voltados para o público feminino, em especial os eróticos. Nem toda mulher tem coragem de carregar um livro com capa e título sugestivo. Há o medo de ser julgada pelo que está lendo. Porque, nós sabemos, qualquer coisa pode ser usada como justificativa para o assédio: “Olha o livro que ela está lendo. Precisa de uma boa p***!”. Acredite ou não, já fui muito assediada pelos livros que escrevo. Recebo nudes, propostas sexuais e ofensas nas redes sociais. Uma vez um homem me chamou para um “daddy kink”(3). Tive que pesquisar o que era. Foi tenebroso. Livros digitais ajudaram muito as mulheres a consumirem conteúdo erótico. É difícil superar o preconceito, entrar em uma livraria e comprar livros “hot”.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Vivemos um período no Brasil no qual, ao mesmo tempo em que a pauta dos Direitos das Mulheres entra em evidência, há um movimento de certos setores da sociedade para condenar a vivência e a satisfação sexual da mulher. Como você entende o sucesso dos seus livros nesse contexto? Você poderia nos falar um pouco sobre seu público leitor?


Mariana Monni: É bem isso. Mulher que sente prazer é puta. Pelo menos, aos olhos de muitos. Seria engraçado se não fosse trágico. Meus livros são voltados, sim, para mulheres adultas. Também tenho vários leitores que são homens homossexuais. A proposta do meu trabalho é diversão, não apenas erotismo. Não escrevo dramas, nem abordo assuntos pesados. Quero que um leitor chegue em casa cansado, pegue meu livro e relaxe. Solte gargalhadas e sinta coisinhas gostosas lá embaixo. Eu valorizo a leveza na minha escrita. E meu público alvo chega a mim justamente por isso. “Gosto tanto dos seus livros. Eles me ajudam a sair da realidade. Me divirto muito”, é a frase que mais escuto.

Por outro lado, minhas personagens, em sua esmagadora maioria, são mulheres bem resolvidas sexualmente. Algumas, inclusive, se masturbam em cena. A ideia é justamente romper com a lógica de que mulheres não podem sentir prazer. Em todas as cenas de sexo que escrevo, elas chegam ao orgasmo. Porque mulheres não podem aceitar que o prazer seja limitado ao homem. Confesso que crio um ideal masculino no livro. Faço isso porque, ao longo da minha vida, encontrei muito mais sapos do que príncipes encantados. E não podemos ficar com alguém que pouco se importa com nosso prazer.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Muitos dos seus livros trazem um modelo masculino idealizado: "Meu virgem inesperado", "Vizinho indiscreto", "Professor insaciável" e "Mecânico indecente". Essa nomeação vem subverter certo ideal conservador que atribui aos homens à autoria das fantasias sexuais e fetiches na representação de mulheres. Seus títulos mostram que as mulheres também se animam em fantasiar na busca do prazer. Como essas representações do masculino são recebidas pelo público leitor?


Mariana Monni: É, exatamente, o que comecei a falar na resposta acima. A idealização principal do homem nos meus livros está direcionada ao prazer. São homens que querem dar prazer às suas mulheres. Tenho personagens variados, e tento romper com o clichê do CEO(4) bilionário. A maioria dos meus mocinhos é assalariado, justamente para que sejam, de certa forma, “atingíveis”. Reais. Em “Meu Professor Insaciável”, por exemplo, trabalho muito com fetiches. Alexandre adora role play(5). Eu tenho um grupo de leitoras no WhatsApp e é incrível como elas sonham com determinados homens. Um professor safado, um peão suado, até mesmo um mecânico cheio de graxa. Acho muito importante dar voz a esses fetiches.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Uma das coisas que você promete nos seus livros é o "Final Feliz". Porém, entre ele e o conflito inicial, ao invés de dor e sofrimento, temos cenas românticas muito apimentadas. Como você lida com os ruídos entre "amor romântico" e o "empoderamento feminino" na escrita dos seus livros?


Mariana Monni: Histórias cheias de dramas e vilões não são muito realistas. O conflito principal nos meus livros são os próprios personagens. Trabalho, ao longo da história, o amadurecimento pessoal e emocional deles. A maioria das minhas personagens transa porque está com vontade. Porque sente tesão. E é isso que precisamos mostrar! Mulheres não precisam ser as “recatadas do lar”, que apenas sentem prazer com o marido. Ou melhor, deixam que o marido sinta prazer e são esquecidas. Eu valorizo o amor romântico, mas sem deixar de lado o empoderamento feminino. As mulheres nas minhas histórias têm uma vida longe dos mocinhos. Elas trabalham, seguem seus sonhos e valorizam sua independência. O relacionamento – idealizado, porque sou extremamente contra publicar livros que romantizam abuso moral e sexual – é só mais uma conquista delas.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Na última bienal do livro no Rio de Janeiro, você trabalhou intensamente no evento e certamente assistiu as medidas lamentáveis da prefeitura do Rio de Janeiro, na tentativa de censurar uma HQ que retratava um beijo entre homens, seguido da reação inesperada do YouTuber Felipe Neto. Como escritora de tema adulto, como você percebe esse policiamento moral?


Mariana Monni: Alguns dos meus livros, naquele dia tenebroso, tiveram que ficar escondidos. Eles tinham um homem sem camisa na capa, logo, eram considerados eróticos. A fiscalização não permitiu. Tenho vários amigos que sofreram muito mais do que eu. Livros LGBT+ foram muito atacados. Eu chorei muito naquele dia. É muito triste ver a literatura censurada.

Tanto os meus livros quanto os dos meus amigos trazem a realidade. Devemos censurar a realidade? Temos que esconder o fato de que mulheres fazem sexo fora do casamento e sem o objetivo de procriar? Temos que ignorar que existem gays, trans, bi e todos os outros que não seguem o padrãozinho? Eu chorei de raiva. Chorei de desespero. Chorei porque é impensável um representante da democracia diminuir o valor das mulheres e dos LGBTs.

Ao mesmo tempo, marchei contra essa atitude imoral. Porque não são nossos livros que devem ser censurados, e sim esse comportamento preconceituoso. Para a minha felicidade, o estande em que estava ficava ao lado da Faro Editorial. O Pedro Almeida, querido amigo e editor, transformou a vitrine dele em protesto. Havia uma placa “Livros proibidos pelo prefeito” e todos os títulos de terror que haviam sido censurados. Aquele dia vai estar para sempre na minha memória como um dos mais tristes. Ao mesmo tempo, um dos mais fortes, porque ninguém abaixou a cabeça. O mercado editorial se uniu contra o absurdo, e foi lindo ver como o povo tem força. A postura do Felipe Neto foi louvável, mas a marcha de leitores, bradando contra a censura, foi ainda melhor.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Há algumas décadas, vem se constituindo um campo de filmes pornô dirigido por mulheres. Essas diretoras (muitas vezes também produtoras e atrizes) costumam mencionar a importância de um outro ponto de vista, que não seja o da masculinidade, para a construção de roteiros e, claro, para a filmagem das cenas. Trata-se de humanizar o(a)s personagens e representar a mulher como agente do próprio prazer, e não apenas como objeto de realização de fantasias masculinas. O pornô “tradicional” sempre foi muito criticado dentro dos debates feministas, por incentivar violência contra mulheres e por violentar as próprias atrizes. Uma frase da escritora americana, Robin Morgan, resume esse ponto de vista: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”. Esse debate também acontece no interior do campo da literatura erótica?


Mariana Monni: Muito. Assim como eu, muitas autoras, blogueiras e mulheres que trabalham no mercado editorial criticam com força a romantização do abuso na literatura. Infelizmente, é muito comum ver homens “possessivos” sendo idealizados. São aqueles que dizem o que as mulheres podem usar. Brigam com elas por ciúmes. Soltam a frase “você é minha”. Não me refiro apenas a Cinquenta Tons de Cinza, porque a única coisa não abusiva naquele livro é o relacionamento BDSM(6) consensual. Há pouco tempo, foi lançado na Netflix o filme “365 DNI”, baseado em um romance polonês. Eu nunca vi nada tão preocupante na minha vida. O mafioso sequestra a mulher e diz que, em até 365 dias, ela irá se apaixonar por ele. Romântico? Não, louco. Perigoso. Ele a estupra diversas vezes, com a justificativa de que ela também quer. Pior do que isso, foram os comentários que li de algumas mulheres após terem assistido ao filme: “Queria eu ser sequestrada por um homem desse”, “Se ele me estuprasse, gozaria muito”... Eu fiquei chocada. E triste de uma forma tão intensa que não consigo sequer verbalizar.

Quando trabalhava com revisões, no início da minha carreira como escritora, cheguei a pegar alguns trabalhos assim. E, em todos eles, me recusava a continuar revisando caso a autora não mudasse a cena. Um simples “não quero” seguido de ato sexual é estupro. Uma cena de uma mulher completamente bêbada seguida de ato sexual é estupro. Não podemos deixar que isso seja o normal. Tais comportamentos possessivos e abusivos devem ser recriminados. Principalmente porque vemos que algumas mulheres enxergam isso como uma característica positiva nos personagens. “Ele a ama tanto que não deixa nenhum outro homem chegar perto.” Pensamentos como esse devem ser desconstruídos. E já!


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você usa “book trailers”(7) como uma de suas estratégias de divulgação. Poderia nos falar um pouco sobre isso, especialmente, visando quem ainda não conhece esse tipo de vídeo? Gostaríamos também que falasse sobre a produção desse material e de onde surgiu essa ideia. Isso tem a ver com algum projeto editorial específico do formato e-book? Como você avalia o impacto desse tipo de divulgação? Em que medida isso amplia seu público leitor?


Mariana Monni: Eu usei book trailers no passado. Não uso mais, porque é uso indevido de direitos autorais. Não critico quem usa, de jeito nenhum. Cada um sabe a melhor forma de divulgar seu trabalho. Porém, assim como detesto ver meus livros serem distribuídos sem meu consentimento, tento não fazer o mesmo com o trabalho alheio. Às vezes, acabo cedendo, confesso.

Mesmo assim, sei que o público leitor adora ver a cena. É como se estivessem assistindo ao filme do livro – sonho de qualquer leitor voraz. Na época, uma amiga minha, também autora, indicou um canal no YouTube que produzia os vídeos. A mulher que realizou os meus book trailers fez um trabalho incrível! De fato, as vendas aumentaram bastante. Hoje em dia, sempre que faço leitura coletiva dos meus livros, as leitoras pedem os avatares – artistas que, fisicamente, representam os personagens. São essas imagens de artistas, representando os personagens, que acabo usando ocasionalmente. Acho muito interessante essa ideia de visualizar também. É trazer para o real aquilo que estava no abstrato.


Revista Mulheres do Fim do Mundo: Por fim, sabemos que está no forno uma nova série de livros chamada "YA". Você poderia nos falar um pouquinho sobre ela e explicar como as questões identitárias aparecem nesse trabalho?


Mariana Monni: Eu sempre escrevi livros adultos. Agora, durante o período de responsabilidade social, me veio à mente uma história jovem e bastante crítica. O livro se chama “A Imperatriz” e será lançado na Amazon no dia 23 de setembro. Inclusive, já está na pré-venda. Essa história é diferente de tudo que já escrevi, estou muito feliz com a receptividade que está tendo pelos blogueiros que estão participando da leitura antecipada. Por mais que a história seja classificada como Jovem Adulto e Fantasia Urbana, ela traz uma intensidade muito grande. A personagem principal é uma carioca suburbana que se muda para São Paulo e consegue uma bolsa de estudos em uma escola de elite. Dentro dessa escola, existe um sistema chamado Dinastia. Porém, a Dinastia é dividida em dois segmentos: a Nobreza e os Servos. O sistema é, teoricamente, meritocrático, e diz que, se o aluno se destacar nas cinco provas estabelecidas, ele fará parte da classe nobre. Caso não consiga, deverá servir aos demais alunos. Na escola, os nobres fazem o que querem, sem se importarem com as consequências e com a aquiescência dos docentes. A protagonista, que é constantemente ridicularizada por sua classe social, tem como objetivo lutar contra esse sistema. Aos poucos, ela percebe que, para fazer parte da Nobreza, é preciso seguir um padrão: branco, bonito, rico, magro e heterossexual. É em torno dessa ideia de discriminação e de falsa meritocracia que gira o livro. Como a personagem principal lida com o bullying e luta contra os preconceitos.

Fiquei muito feliz quando os blogueiros vieram elogiar a maturidade da história. Principalmente quando enxergaram o simbolismo relacionado à Dinastia. Há muito tempo quero abordar alguns assuntos mais socialmente relevantes nos meus livros. Nos meus chick lits (8), tenho personagens gordos, gays e negros, mas nunca problematizados. Com “A Imperatriz”, espero conseguir mostrar um pouco do meu senso crítico. Estou louca para saber como ele será recebido pelo público.

Inclusive, faço um apelo: comprem meu livro! Ele está na pré-venda, pelo precinho lindo de R$2,99 (Disponível em: http://bit.ly/AImperatriz). Um livrão de 500 páginas! Sou escritora independente, mãe-solo e tenho boletos! Ajudem a escritora nacional.

De qualquer forma, peço de todo coração, que vocês leiam mais livros brasileiros. Nós sofremos muito preconceito. Vejo muita gente dizer que prefere livros internacionais, que não gostam de histórias que se passam no Brasil. Que a qualidade dos nossos livros é muito inferior. Um livro estrangeiro, além de passar por todo aquele processo de publicação que expliquei mais cedo, na verdade, passa por ele duas vezes. O livro é trabalhado novamente após a tradução. Por favor, vamos mudar esse pensamento! A literatura brasileira contemporânea é riquíssima. Tem muito autor que merece ser lido. Quem quiser me pedir indicações, minhas redes sociais estão sempre abertas para conversarmos. Redes sociais:

Instagram @marianamonni

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Twitter @marimonni. YouTube - http://bit.ly/MariMonni



Notas

(1) watpad: é uma plataforma digital que permite compartilhar livros e contos gratuitos a uma comunidade virtual de leitores e escritores do mundo inteiro.

(2) plot: é o enredo da narrativa, o encadeamento das ações a serem realizadas pelos personagens na ficção.

(3) daddy kink: é um fetiche envolvendo o daddy/mommy (adulto/ativo) e o baby (jovem/passivo). Os limites físicos e sexuais são estipulados entre as partes previamente, abrange relações de poder, com destaque para o contexto infantilizado, com expressões, acessórios e, por vezes, roupas de bêbes.

(4) CEO: a sigla significa Chief Executive Office. No Brasil, é o Diretor Executivo de uma empresa. Nos romances, são sempre os homens mais importantes da empresa, normalmente os donos.

(5) role play: é uma encenação. Realizar a simulação de uma situação real.

(6) BDSM: é um conjunto de práticas consensuais envolvendo Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadomasoquismo e outros padrões de comportamento sexual.

(7) book traillers: é uma estratégia de divulgação de e-books. É, basicamente, um videoclipe criado para anunciar um o livro digital.

(8) chick lits: é um gênero de ficção dentro da narrativa feminina que aborda questões das mulheres modernas.