Entrevista com Maria Rizolete Fernandes

Atualizado: Mar 22


A entrevista apresentada à Revista Mulheres do Fim do Mundo faz parte da pesquisa de mestrado de Janaína Porto, iniciada no ano de 2017 pelo Programa de Pós-Graduação em História PPGH/UFRN. A pesquisa resultou na dissertação de mestrado em História intitulada: "Cidade com rosto de mulher: a trajetória do movimento feminista em Natal (1978-1989)”. O trabalho buscou identificar e entender o processo de criação e atuação de alguns grupos de mulheres e feministas que militavam desde os finais da década de 1970, em Natal/RN, até fins da década de 1980, quando o último grupo com o perfil associado aos anteriores se formou. Conforme autora:


“O primeiro nome com o qual tive contato foi o de Maria Rizolete Fernandes. Na época, motivada por um trabalho de uma disciplina de graduação, consegui seu telefone e agendei um encontro. Quando nos conhecemos, Rizolete, ou “Rizó” para os íntimos, foi muito receptiva e me fez entender o porquê de ser considerada um dos nomes com significado na história das mulheres do Rio Grande do Norte. Muito determinada e com um histórico de vida cheio de protagonismos, tanto de militância política quanto de atuação na escrita, Rizolete, para mim, se traduzia em um misto de força e sensibilidade. A cada encontro uma nova lição. Atrevo-me a dizer que ficamos próximas e, hoje, passados alguns anos desde o nosso último contato presencial, sinto com carinho e saudade os tempos compartilhados nos encontros que tivemos em sua residência, quase sempre acompanhados com os chás de maçã e canela.


Como disse antes, a trajetória de Maria Rizolete é cheia de vida. Para esta edição, disponibilizo parte de minha entrevista realizada em 08 de junho de 2017. Nela, procurei compreender sua atuação nos grupos feministas que se formaram na capital potiguar, considerando que tinham como um de seus objetivos entrar em bairros e comunidades da cidade para estabelecerem uma rede de atuação mais dinâmica e que, de fato, constituísse a ideia de um movimento para além das discussões teóricas iniciadas na universidade.


Localizando a/o leitora/o em relação aos grupos estudados em Natal/RN:


1978 - Centro da Mulher Natalense [CMN];

1982 - Movimento Mulheres em Luta [MML];

1982 - Federação das Mulheres do Rio Grande do Norte [FMRN];

1984 - União das Mulheres de Natal [UMNa];

1989 - Grupo Autônomo de Mulheres [GAM]).”


Janaína Porto - A primeira pergunta que quero lhe fazer é como se organizavam os grupos nos bairros?


Maria Rizolete Fernandes - Era o seguinte, Janaína [Porto], nós estávamos nos reunindo com os grupos: o pessoal da UNE, da universidade, dos estudantes, do DCE, da universidade, os professores da universidade, da associação dos sociólogos... Nós nos reuníamos por aqui e todas as pessoas, o pessoal da Pastoral da Juventude, enfim. E todo esse povo... Muitas dessas pessoas tinham contatos nos bairros, com alguém que conhecia alguém que era do bairro, que era do Conselho Comunitário, nós tínhamos também presidente do Conselho Comunitário que era quem participava dessas reuniões e aí foi fácil... Através desses contatos, alguém que conhecia o Presidente Comunitário, alguém conhecia gente de Clube de Mães e foi assim que a gente foi aos bairros. O que ficou especificado quando a gente fez o I Encontro da Mulher Natalense, foi em 1982... Que a gente foi aos bairros convidando as pessoas, né? Foi aos bairros, foi aos locais dessas entidades convidar todo mundo, e a partir daí os desdobramentos desses encontros foi justamente criar núcleos em alguns lugares onde as pessoas... as lideranças comunitárias eram mais engajadas. Foi assim que a gente chegou aos bairros.


Janaína Porto - Como era a recepção dessas comunidades em relação às ideias que vocês trabalhavam?


Maria Rizolete Fernandes - Bom, como elas já tinham um mínimo de conhecimento através de um dia inteiro discutindo aqui no encontro, né? Porque essas mulheres vieram e... De fato vieram participar do encontro, tanto é que a gente organizou creche para os meninos, quem tinha menino pequeno, deixar nas creches lá mesmo no encontro, alguém tomava conta das crianças nas creches e essas mulheres participaram, se dividiram em grupos, né, os grupos que você encontra no livro lá, é... Mulher e sociedade, mulher e política, mulher e, enfim, e aí essas mulheres participavam, escolhiam os grupos que queriam participar, mulher e saúde... Um dia inteiro assistindo discussões e propondo e opinando, porque dali se tiravam propostas políticas que a gente entregava as autoridades. Ao governo, ao prefeito, na câmara, na assembleia [...].


Janaína Porto - [...] o que dificultava essas mulheres nesses bairros a levar essas propostas à frente? [...] o movimento foi até essas mulheres nessas comunidades para fazer com que elas tivessem mais força para levar essas pautas a essas autoridades. Eu estou entendendo certo?


Maria Rizolete Fernandes - [...] Foi sim. Porque dava consistência. Eram reivindicações também de caráter popular [...]


Janaína Porto - [...] a gente tem uma tendência a achar que por estar num espaço que é a universidade, onde você tem contato com ideias, enfim, você está tendo contato com um fluxo de ideias que estão vindo de fora, né? [...]


Maria Rizolete Fernandes - Sem dúvidas! Mas [...] não se esqueça que a gente está se referindo aos primeiros anos da década de 1980, nós estávamos, o primeiro grupo feminista criado aqui em Natal foi em 1979, foi o Centro da Mulher Natalense, de Rossana Sudário, né, [...] e esses que a gente começou a criar a partir de 1981, 82, as principais... Eu nem diria lideranças, era tudo muito inicial, as principais pessoas que continuavam trabalhando não tinham esse acúmulo. A gente tinha uma dificuldade, assim, de leituras. Era tudo muito novo para gente. Eu me lembro que a gente recorreu a alguns amigos nossos, homens, tinham mulheres, a professora Dalcy Cruz que hoje é aposentada, ela fez discussão conosco sobre essas questões. Mas a gente recorreu aos professores, aos meninos, aos homens da universidade para ajudar a gente ... Da universidade só, não, tinham sociólogos também. Dois sociólogos. Lincoln [Moraes de Souza] na época não era professor na universidade, Manu Duarte que foi... Manu era presidente do Conselho Comunitário de Candelária, deu muita força a gente. Manu sempre teve muito estudo. Então, a gente recorria, esse auxílio também dos homens, né? A gente tinha muita dificuldade, não tinha muita leitura, não. Ah, se fosse agora era muito bom!


Janaína Porto - Fazendo uma pergunta um pouco mais específica em relação a essas feijoadas. Eu quero saber se você já sinalizou alguma coisa aí nesse sentido. Se os almoços foram pensados como forma de atrair as pessoas para esses encontros?


Maria Rizolete Fernandes - Não digo que não, mas não era o principal, porque o objetivo era trazer as mulheres para discutir e elas sabiam. Tanto é que boa parte delas não sabiam que ia ser oferecido almoço. Creche... a gente acha que quando a gente foi convidar elas diziam “eu não posso ir porque não tenho com quem deixar meu menino”. Sabe? Daí a gente, não... a Senhora vai, por isso não! Vamos manter creche e tal, e aí a gente resolveu oferecer comida à essas mulheres, foi muito bom, né? Elas passavam o dia tranquilas, mas o objetivo primeiro não era esse. Eu acho que o que você tá captando aí é algo que, [...] a história lá do núcleo do conjunto Gramoré que a gente já tinha o núcleo formado e quando começou a prefeitura a distribuir leite nos bairros, aí a gente lá em conjunto Gramoré, inclusive a presidenta é uma das que morreu infelizmente agora, mas na época a gente... Foi um estalo que deu na gente e a prefeitura solicitar para distribuir através do núcleo, porque que aí sim, as mulheres tudo no dia da distribuição do leite, aí elas vinham trazendo de lá e a gente vinha pra cá para discutir. Pegávamos para discutir. Viu? Isso aconteceu! A gente fazia a distribuição e ah, mas isso é assistencialismo... não! O assistencialismo é da prefeitura. Nós estamos pegando isso aí como veículo...


Janaína Porto - [...] quais eram as principais pautas discutidas quando vocês conseguiam fazer essas reuniões especificamente nos finais de semana?


Maria Rizolete Fernandes - As principais eram: “Mulher e saúde” que elas pediam muito. “Mulher e creche”, elas queriam muito discutir, discussão de creche. “Mulher e trabalho”...


Janaína Porto - Eram agendas bem divididas…


Maria Rizolete Fernandes - “Mulher e política”. Foi, sim. Eram os temas mais solicitados. “Mulher e saúde”, “Mulher e creche”, “mulher e trabalho”, participação política da mulher. [...] Naquela época não se discutia tanto mulher e violência, embora a violência contra a mulher seja uma coisa discutida desde sempre…


Janaína Porto - Verdade. Alguma pauta específica era voltada única e exclusivamente para a realidade dessas mulheres inseridas nesses bairros?


Maria Rizolete Fernandes - Toda discussão nos bairros era ilustrada com as experiências das mulheres locais. Elas falavam da violência do marido, que batia, principalmente, se os maridos não estivessem, né? [...] Se fosse falar “Mulher e violência” com certeza aparecia alguma que tinha tido aquela experiência de ser... Da violência doméstica, né? “Mulher e saúde” elas também... “Mulher e sexualidade" também. Sexualidade era um tema que era mais difícil de introduzir…


Janaína Porto - Tabu!?


Maria Rizolete Fernandes - Principalmente porque tinham uns homens que iam com as mulheres. Se tivesse homem presente nem puxasse esse tema que elas ficavam todas caladas.


Janaína Porto - Entendi. Vocês tentavam promover a discussão sobre a questão do aborto?


Maria Rizolete Fernandes - Também. Também era um tema muito…


Janaína Porto - ... Presente! Essas conversas... Depois desses encontros vocês conseguiram fazer, estruturar uma espécie de rede de informações diretamente com elas? Como é que ficava a... Como é que eu posso perguntar?


Maria Rizolete Fernandes - ... A sequência desse trabalho?


Janaína Porto - É, exatamente.


Maria Rizolete Fernandes - Olha, isso foi a partir de 1982, 83, 84, 85, a sequência que teve aí foi... O que deu sequência a isso foi a criação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, porque quase todas nós estávamos nessas batalhas aí nós fomos parar nesse Conselho. E aí o que se fez foi a gente transferir essas pautas para o Conselho da Mulher e o Conselho deu sequência. E aí até com um pouco mais de estrutura, embora no começo o Conselho não tivesse nada e a gente fizesse o trabalho no nosso cargo, tirar do nosso bolso, mas o que deu sequência foi o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Naquela época tudo com gente muito comprometida. Era a Elizabeth Nasser, era a Joana Darc, ligada à saúde... E por aí vai! E aí a gente fez. O que foi o grande problema da continuidade? É que em 1989 nós ficamos no governo de Garibaldi. Foi em 1985... Em 1989 teve eleição, né? Não sei. Um ano a mais ou um ano menos. Mas aí mudou o prefeito e nós saímos do Conselho e perdeu-se tudo e nós não voltamos mais para aqueles grupos, quer dizer, eu não voltei. Porque o União de Mulheres continuou. Acho que ainda existe até hoje. Está mais atrelado ao pessoal do PC do B, né? Eveline [Guerra], Joana Darc. Elizabeth [Nasser]! Ela saiu de lá e criou um Grupo Autônomo de Mulheres que era para dar sequência a isso, embora esses grupos, nenhum mais retornou aos trabalhos nos bairros [...]


***

“Como eu disse antes, essa entrevista teve um objetivo muito específico dentro de minha metodologia de pesquisa na construção de minha dissertação de mestrado. Muitos trechos foram suprimidos por motivos de adequação textual. No entanto, isso não significa omissão ou algo do tipo, significa que no trabalho com a história oral, o pesquisador/entrevistador decide a abordagem/técnica para desenvolver a escuta atenta que, após transcrição, se transforma em um novo formato: o texto. Em tempo, optei pela história oral temática.


Considero importante informar que as estratégias adotadas por Rizolete e suas companheiras nem sempre foram homogêneas. Isso quer dizer que todas tinham e têm sua própria visão e testemunho desse passado de lutas.


Neste momento, gostaria de mencionar o nome de Elizabeth Nasser. “Betinha”, como também era conhecida, teve um enorme significado dentro dos grupos que fizeram parte do movimento dessas mulheres. Além disso, devido a sua influência enquanto professora e militante nos bairros e meios populares, ela tinha uma fluidez nos espaços de discussão. Desta forma, não foi difícil pensar em um nome para a primeira representação oficial do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher [CMDM], criado em 1986, na gestão do então prefeito Garibaldi Alves.

Elizabeth Nasser nos deixou em 16 de dezembro de 2020, vítima da COVID - 19.

Elizabeth Nasser PRESENTE!”

Janaína Porto



RIZOLETE FERNANDES é do Rio Grande do Norte (RN) e reside em Natal. Formada em Ciências Sociais pela UFRN, milita nos movimentos sociais, feminista e poeta. Publicou seis livros, entre eles “Luas Nuas” (Una, 2006), “Vento da Tarde e Tecelãs” (Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2013 e 2017) de poesia, traduzidos para o espanhol. Participa de dezenas de coletâneas. Integra a UBE-RN, o ICOP – Instituto Cultural do Oeste Potiguar e o Coletivo Mulherio das Letras, através dos grupos locais Nísia Floresta e o Zila Mamede.


JANAÍNA PORTO é nascida na Paraíba, mas desde os 6 anos vive na capital potiguar. Licenciada e Bacharela em História pela UFRN, Mestra em História & Espaços pelo Programa de Pós-Graduação em História/UFRN, professora substituta do Departamento de História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - UERN. É viciada em batom vermelho e acredita que a escrita é uma forma poderosa de se localizar no mundo.



*Crédito das imagens: acervo pessoal da pesquisadora.