Entrevista: Anielle Franco, diretora executiva do Instituto Marielle Franco

Em nossa 12ª edição, publicação especial de aniversário, tivemos a oportunidade de entrevistar Anielle Franco, educadora, jornalista, escritora, feminista, mestranda, mãe, diretora executiva do Instituto Marielle Franco e irmã da Marielle Franco (PSOL-RJ), que completaria 42 anos no dia 27 de julho de 2021. Nós, editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, queremos agradecer e parabenizar a Anielle Franco e o Instituo Marielle pela grande atuação social na luta e em defesa de um mundo mais justo e igualitário.


" As condições para mulheres negras nunca foram e não são fáceis, mas seguiremos sem dar nenhum passo atrás na busca por igualdade e nos espaços de decisão."
Anielle Franco

Mulheres do Fim do Mundo: O Instituto Marielle Franco tem operado ativamente na construção de uma plataforma antirracista tanto para a atual, quanto para as próximas eleições. Pelo que vimos, trata-se de um movimento de pressão, junto aos partidos políticos e aos órgãos eleitorais, para que democratizem seus procedimentos internos e incentivem candidaturas de mulheres negras e periféricas. Como tem sido a recepção dessa plataforma? Você vê, efetivamente, melhores condições para a candidatura de mulheres negras no Brasil?


Anielle Franco: A PANE, que é a nossa plataforma antirracista nas eleições, chegou já balançando as estruturas. Nossa primeira ação foi em parceria com a Educafro, a Coalizão Negra por Direitos e as Mulheres Negras Decidem, em uma mobilização histórica que pressionou o TSE pela garantia de condições justas para candidaturas negras nas eleições. Depois de mais de 10.000 pessoas mobilizadas pressionando os ministros, eles aprovaram o pedido feito pela Deputada Benedita. Mas a decisão ia valer só para 2022. Agora estamos numa pressão no STF para que passe a valer desde já, além de cobrar que os partidos não esperem a justiça mandar. Além dessa ação, lançamos também a Agenda Marielle, um conjunto de compromissos com práticas e pautas a partir do legado da Mari para que candidaturas de todo o país se comprometam. As condições para mulheres negras nunca foram e não são fáceis, mas nós seguiremos sem dar nenhum passo atrás na busca por igualdade nos espaços de decisão.


Mulheres do Fim do Mundo: O Instituto Marielle Franco atuou para o incentivo e fortalecimento de uma rede de solidariedade e prevenção ao Coronavírus nas favelas do Rio de Janeiro. Como você vê a política do estado do Rio para as periferias nesse momento? Como as favelas estariam sem essa rede de solidariedade, sem o protagonismo e iniciativa dos próprios moradores?


Anielle Franco: Já sabemos há séculos que o Estado só chega para a população mais pobre com o seu braço armado. Não está sendo diferente na pandemia. Como se desviar dinheiro público da saúde e se recusarem e demorarem a entregar o auxílio emergencial já não fosse suficiente, ainda vemos o Estado insistir em matar nossos jovens com operações policiais violentas e inúteis na perspectiva da segurança do cidadão. Mais uma vez as favelas precisaram se organizar, daquele jeito, "nós por nós", pra sobrevivermos aos efeitos dessa crise, e o Instituto Marielle Franco, junto com o Favela em Pauta, ajudou a dar visibilidade pra essa rede de coletivos através do Mapa Corona nas Periferias.


Mulheres do Fim do Mundo: No dia 17 de julho do ano de 2020, em meio à pandemia, nasceu sua segunda filha, Eloah. Como foi a gestação nesse período particularmente tenso? Como tem sido ser mãe de um bebê nesse momento particular de sua vida, tão intenso no que concerne às lutas políticas pelas mães e mulheres negras, em geral?


Anielle Franco: Realmente a chegada da Eloah veio pra mover com as minhas estruturas (risos) Imagine que ela estava pra chegar no dia do aniversário de Marielle… Foi muita emoção. Mas ela trouxe muita luz, serenidade e amor para esses tempos difíceis. Não gosto dessa ideia de maternidade perfeita, idealizada.. A maternidade aqui é sem filtros, real, falo sobre isso nas minhas redes. Ser mãe de duas, mulher, negra, favelada, professora, ter que dar suporte pra minha família e ainda ter que construir um Instituto com tamanha responsabilidade é um jornada sem fim de trabalho. Mas consigo fazer tudo isso porque o que nos move é o amor e a vontade de seguir lutando por justiça e regando as sementes, para construir um mundo melhor para as minhas filhas.


Mulheres do Fim do Mundo: Já completamos três anos e quatro meses do assassinato da sua irmã, Marielle Franco, e de Anderson Gomes,e ainda continuamos sem respostas sobre o ocorrido. No mês de maio de 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou a federalização das investigações do caso Marielle. O que essa decisão representou para vocês familiares de Marielle e de Anderson? E quais são os perigos de federalizar esse crime em meio ao governo Bolsonaro?


Anielle Franco: A decisão foi uma vitória depois de uma campanha que organizamos com o Instituto e centenas de organizações e parceiras, e mais de 150 mil pessoas que pressionaram contra a federalização. Não temos como confiar que as investigações estejam nas mãos da polícia federal justo no momento onde saíram todas aquelas suspeitas de interferência por parte da presidência da república.


Imagem retirada de: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/03/13/interna-brasil,742568/o-desafio-agora-e-descobrir-quem-mandou-matar-marielle.shtml


Mulheres do Fim do Mundo: Desde o assassinato da vereadora Marielle e do Anderson, a polícia suspeita do envolvimento de milícias no crime. Muito embora o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) - que foi preso no ano passado- negue que as milícias sejam o principal problema do estado, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas vivem sob a influência dessas organizações no Rio de Janeiro. Em sua opinião, quais são as principais dificuldades atualmente no combate às milícias no Rio de Janeiro? As ações sociais, projetos como o Instituto Marielle, por exemplo, poderiam contribuir com o enfrentamento a esse tipo de organizações criminosas?


Anielle Franco: O grande desafio é que as milícias estão ocupando todos os poderes. Nós acreditamos que é possível construir uma sociedade justa, livre e sem desigualdades, onde as pessoas vivam em paz e a violência e o medo não sejam dominantes. É esse o futuro que queremos colher e por isso plantamos e regamos as sementes que podem nos levar a esse futuro: mais mulheres negras ocupando todos os espaços, fortalecimento da população favelada, resgate da nossa memória e cobrança por justiça.


Mulheres do Fim do Mundo: A revista Mulheres do fim do mundo visa se constituir como um espaço de troca, diálogo, intervenção pública e, também, formação política e intelectual para mulheres, especialmente mulheres que habitam as periferias do capitalismo. Nesse sentido, há uma convergência de valores com a ideia da Escola Marielles. Você poderia nos falar um pouco desse projeto?


Anielle Franco: Sem dúvida, a Escola Marielles é um sonho antigo que temos de poder construir espaços de formação descentralizados onde possamos fortalecer e potencializar muheres negras, LGBTs, periféricas para que sigam movendo as estruturas da sociedade. Precisamos de muitas iniciativas assim para que possamos realizar o sonho de vivermos em uma sociedade justa. A ideia é que a primeira turma da Escola Marielles aconteça no ano que vem, ainda estamos preparando tudo para que seja lindo!


Mulheres do Fim do Mundo: Agradeço a oportunidade da entrevista, Anielle. Para finalizarmos, você gostaria de deixar uma mensagem para as leitoras da revista Mulheres do Fim do Mundo?


Anielle Franco: Minha mensagem é que sigam em frente com seus sonhos independente do que digam ou façam para tentar te interromper. Não esqueçam que uma sobe e puxa a outra e que devemos seguir juntas para seguir lutando por justiça, defendendo a memória, multiplicando o legado e regando as sementes de Marielle. O Instituto Marielle Franco está de portas abertas para quem quiser chegar junto! Espero que, apesar da demora, vocês possam usar as respostas e sua produção seja um sucesso! Parabéns por um ano de revista!!!