Ensaio: Por que as pedagogas são as mais burras?!

Atualizado: 21 de Nov de 2020

Juliana Taline Pereira Nogueira[1]



“Professor no Brasil não sabe ensinar porque ele é burro...”, bradava um homem. Em seguida, ele focaliza seu alvo “ Sujeito que menos estudou na vida, sabe o que ele escolhe fazer no terceiro ano? PE-DA-GO-GIA! ...Pedagogo é o quê? Burro!”. LAMENTAVELMENTE este vídeo me chegou em 20 de maio de 2020, dia do(a) Pedagogo(a), via whatsapp. Um homem branco e medido olavista, importa dizer. Eu não problematizaria aqui discurso tão tacanho se ele não tivesse ressonância na mentalidade coletiva brasileira.


Por que as pedagogas são mesmo tão burras? Eu não me pergunto, mas a pergunta está posta nas mentes de tantos outros profissionais, inclusive entre alguns docentes de outras áreas, infelizmente. Preciso dizer: eu não acho pedagogos e pedagogas burros(as), tampouco acredito que sua profissão mereça a desvalorização social, muito bem evidenciada na péssima remuneração que recebem esses profissionais, mais baixa que a média recebida por profissionais de outras áreas com mesmo nível de formação, mesmo entre professores. Eu também sei que a Pedagogia é exercida por mulheres, majoritariamente, ao menos no Brasil, mas que também o é por homens. Mesmo assim, afirmo o feminino porque entendo que a resposta da pergunta inicial é perpassada por preconceitos de classe e gênero, sobretudo.


(Referência da imagem: Getty images)



Para responder a famigerada, indignada e indignante pergunta, eu penso minha vivência enquanto pedagoga, rememoro experiências, passeio brevemente pela história da profissionalização desta área. Transito entre minha história, as histórias de outras professoras da infância (a Pedagogia tem outros campos de atuação, mas este continua sendo seu campo majoritário) e a história da educação no Brasil. Eu me percebo no mundo, mas também percebo o mundo em mim. Eu, corpo humano, corpo biológico, mente, emoções, histórias velhas e novas, ditas e não ditas, ouvidas e vividas, atravessadas pelo meu tempo, pela cultura, pelo tecido social, pelas estruturas econômicas injustas, pelos poderes institucionalizados. Assumo aqui que estou interessada na reflexão sobre visões estereotipadas que reproduzem preconceitos de classe e gênero e corroboram a vergonhosa condição de trabalho e formação das educadoras (mas também dos educadores) dos anos iniciais.


Não posso deixar de contar-lhes que meu olhar é de uma pedagoga, que vem de uma família de trabalhadores assalariados e/ou informais, de duas gerações de professoras, dessas 6 pedagogas (entre tias e primas), atuantes na educação básica. Todas mulheres. Todas as primeiras mulheres com Formação Profissional (média, na primeira geração e superior, na segunda). Todas ocupando espaços outrora inimagináveis às mulheres, muito menos às mulheres pobres. Deste lugar, penso relações de classe e gênero na profissionalização da docência dos anos iniciais.


Em uma longa trajetória de idas e vindas, negações e afirmações, tornei-me professora, professora Pedagoga dos anos iniciais e EJA.[2] Dois breves e importantes anos, objetos desta reflexão que não parou de ecoar em mim, desde que vi aquele vídeo onde agride-se ferozmente professoras dos anos iniciais. Afinal, são mulheres trabalhadoras, a maior parte de origens populares, submetidas a baixos salários e, tantas vezes, a relações de trabalho precárias. São alvos fáceis do machismo e classismo que estruturam as relações sociais nesse país. No país onde se faz essencial a leitura e incorporação prática da reflexão de Paulo Freire “Professora sim, tia não”.[3]


Discutir a profissionalização do magistério nos coloca a questão central sobre como a carreira docente, nos anos iniciais, é um duplo espaço de resistência feminina - maioria até hoje neste espaço profissional - e de classe, bem como é espaço de ausência de políticas públicas, de valorização profissional e social, pois, sabemos, historicamente que, no Brasil, essa profissão – mais especificamente nos anos iniciais do Ensino Básico – sofre com desvalorização, salários baixos e a precariedade das condições e relações de trabalho. Frequentemente, professores da educação básica são mulheres, provenientes das camadas populares e proletárias, muitas vezes moradoras das comunidades onde exercem suas atividades, quando em escolas públicas de periferia. A situação muda quando nos referimos às escolas privadas de classe média alta para onde tantas professoras se dirigem de outros cantos da cidade.[4]


Lancemos nosso olhar para o processo histórico da profissionalização do magistério, em suas relações de classe e gênero, e poderemos ver o quanto esse associou-se às mulheres, inicialmente, e depois às mulheres pobres, mais especificamente. Em 1827, a Lei de 15 de Outubro, criava as primeiras escolas primárias para o sexo feminino em todo o Império, onde se admitia mulheres para lecionar nas turmas femininas. Eram as primeiras vagas para o magistério feminino.[5] O magistério primário - como então era denominado - anteriormente espaço de homens religiosos, começa a se configurar como profissão feminina por excelência. E as mulheres passaram a ser vistas, não sem desconfianças e sob muitas condições definidas pela sociedade patriarcal, como construtoras da boa sociedade, numa espécie de extensão das atividades de cuidados das crianças que já vivenciavam no âmbito privado.


A discussão em torno da feminização do magistério é, certamente, muito complexa, não nos cabendo aqui esgotá-la. Contudo, vale ressaltar que, em ampla medida, ela se baseia em um pensamento sexista que afirmava diferenças "naturais" entre homens e mulheres. Portanto, cabia às mulheres socializar as crianças, como parte de suas funções maternas. Não obstante, o ensino primário era entendido como extensão da formação moral e intelectual recebida em casa, a educação das crianças estaria melhor cuidada nas mãos de uma mulher, uma professora. Uma identidade construída de fora pautada na vocação “natural” das mulheres para o cuidado das crianças. Assim, as relações de discriminação com o sexo feminino permeiam, desde sua gênese até os dias atuais, o trabalho da mulher na docência.


Associada ao sacerdócio, a ideia de vocação para o magistério, foi e é utilizada como mecanismo de legitimação do preconceito contra o sexo feminino e contra a docência dos anos iniciais, e como explicativo dos baixos salários da profissão e poucos investimentos na educação pública, especificamente. Ainda hoje essa premissa de trabalhar como professora, por amor, e se sujeitar a uma baixa remuneração, é compreendida como parte do perfil vocacional das mulheres, quando na realidade revelam muito mais sobre opressões de gênero e classe social. Obviamente esta identidade não foi assumida sem resistência pelas mulheres docentes que se organizaram em sindicatos, coletivos e, principalmente, a partir dos anos 80, ganharam as ruas construindo lutas em torno da defesa da escola pública e da estruturação e valorização do magistério.


No decorrer de século XX, as exigências para atuação no ensino dos anos iniciais e educação Infantil (antigo primário e pré-primário) se modificaram bastante. Até 1971, exigia-se formação secundária em escolas normais - correspondente a uma formação profissional em nível fundamental -, a partir de 1971 exigia-se formação em 2º grau - correspondente ao atual ensino médio. Com o advento da Lei 9394/93 que instituiu a Nova Lei de Diretrizes e Bases, a formação requerida passou a ser de nível superior de Licenciatura Plena em Pedagogia[6]. As mudanças nas exigências legais de formação, contudo, não vieram acompanhadas de mudanças significativas de valorização profissional, e a despeito delas, a docência dos anos iniciais, eminentemente feminina e proletarizada, permanece socialmente desvalorizada, e alvo de ataques como o citado no início desse texto, mas não apenas esse, quem dera fosse.


Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2019, 79% da docência é exercida por mulheres. Observa-se também que, quanto mais elementar o nível da escolaridade de um grupo, maior a quantidade de professoras. Na Educação Infantil esse número sobe para 97%. Em contrapartida, a remuneração fica, em média, 30% abaixo de outras profissões.


Aliando a histórica desvalorização profissional à ausência de políticas de formação docente que encare a dimensão científica deste trabalho, é fácil perceber como o professorado dos anos iniciais, enquanto uma profissão, majoritariamente, de mulher e de pobre, seja alvo de ataques de homens como aquele. Antes que eu esqueça, professores e professoras (sejam dos anos iniciais ou de qualquer outra etapa de ensino), pedagogos e pedagogas não são burros e burras, tampouco são culpados pela perpetuação do fracasso educacional brasileiro, embora alguns discursos pedagógicos, midiáticos, políticos - pautados conscientemente ou não em concepções neoliberais de escolarização, educação e fazer docente - insistam em querer nos fazer crer assim.


A qualidade da educação passa por questões complexas como a nossa concepção de vida e sociedade, de educação e escolarização; pela superação de nosso modelo de oferta educacional historicamente dual; pela valorização e estruturação da carreira docente pautada em sua natureza didático-pedagógica, mas também científica de produção de saberes; por políticas públicas e financiamento educacional comprometidos com a efetivação da educação pública, gratuita e de qualidade… A lista poderia aqui se ampliar e pormenorizar, mas eu escolho pontuar apenas essas questões mais estruturais. Obviamente, esse pensamento é muito mais analítico e complexo, porém fundamental para abordar uma questão delicada como a educação brasileira. Mais fácil é atacar mulheres, mais fácil é atacar trabalhadoras.


Eu, contudo, nascida mulher pobre, criada nas lutas, das quais freqüentemente me canso, mas ferozmente prossigo, não aceito discursos fáceis. Não me calo frente a agressão classista e machista, como essa e tantas outras vivenciadas cotidianamente na Educação Brasileira. Permito-me, contudo, a fala simples e urgente, pelas palavras do educador brasileiro atacado pela mediocridade olavista. Fala, Freire: “É urgente que engrossemos as fileiras da luta pela escola pública neste país. Escola pública e popular, eficaz, democrática e alegre com suas professoras e professores bem pagos, bem formados e permanentemente formando-se”. É vital não naturalizar ataques às professoras e aos professores!


Referenciais:


FREIRE, Paulo. Professora sim tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho D’água, 1993.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petropólis, RJ: vozes, 2003. 6ª ed.

TANURI, Eleonor Maria. História da formação de professores. Universidade Estadual de São Paulo. Revista Brasileira de Educação, Mai/Jun/Jul/Ago 2000 Nº 14.

Notas:


[1] Graduada em Pedagogia pela UFRN. Psicopedagoga Institucional. Pedagoga do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceara.

[2] Atualmente não ocupo mais este espaço. Continuo Pedagoga, mas atuante na mediação técnico-pedagógica no IFCE.

[3] Esta afirmação se faz necessária a uma profissão historicamente subalternizada e desprofissionalizada, mesmo quando comparada à docência de outros níveis e etapas da educação. Nada tem a ver com ausência de afetividade no processo pedagógico, mas parte da compreensão de que a linguagem é constitutiva de nossas relações e que a profissionalização do magistério passa pela dissociação entre a figura da professora da Tia (extensão da vida familiar que não requer práxis específicas).

[4] A afirmação se pauta na observação da realidade próxima de um grupo de professoras conhecidas da rede pública e privada, não se pretende generalista, mas um dado inicial que precisa de mais estudos e análises.

[5] As professoras precisavam ter formação específica nas chamadas Escolas Normais. Segundo DEMARTINI (1999) a escola normal passou a representar uma das poucas oportunidades, se não a única, das mulheres prosseguirem seus estudos além do primário.

[6] O curso de Pedagogia surgiu em 1939, inicialmente criado na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, mas visava a dupla função de formar bacharéis, para atuar como técnicos de educação, e licenciados, destinados à docência nos cursos normais (formação de professoras e professores da Educação Básica).


Imagem da capa:

https://unoieducacao.com/2019/02/26/a-importancia-dos-contextos-significativos-na-educacao-infantil/