Ensaios: A liberação animal também é a liberação humana

Atualizado: Jun 24

Uma breve análise sobre a relação entre feminismo e veganismo Aline Amorim*


O feminismo é uma visão filosófica e movimento político, protagonizado pelas mulheres, que buscam igualdade em diversas esferas entre homens e mulheres, se opondo ao machismo e as estruturas que as inferiorizam. O veganismo é um movimento ou ideologia que defende a não utilização de produtos de origem animal, opondo-se a todo e qualquer tipo de uso ou exploração animal. Se pararmos para refletir, a relação entre ambas as causas vai muito além da busca contra a opressão de alguns seres sobre outros.

O fato é que, assim como o corpo feminino, o dos animais também é objetificado. Tomando como exemplo o corpo feminino, que serve para dar prazer aos homens e procriar, assim também o corpo dos animais serve para fornecer carne, leite, além de serem utilizados em testes de produtos, dentre outras formas de violência, que geram lucro através dos corpos humanos e não-humanos para o sistema capitalista. O livro “A política sexual da carne” escrito pela feminista e ativista pelos direitos dos animais Carol Adams nos propõe uma análise mais apurada das ligações entre feminismo e veganismo, bem como da relação entre o patriarcado e a prática de comer carne. Quando descreve a função do “referente ausente”, ela observa, através de uma pesquisa abrangente entre as feministas veganas americanas - como também através da análise de objetos como cardápios, anúncios publicitários, entre outros - o processo simbólico que torna mulheres assim como animais, em referentes ausentes, permitindo o entrelaçamento da opressão dos corpos humanos e não-humanos. Segundo Adams, esse processo mantém a carne separada de qualquer ideia de que ela era um animal. Como explica a autora, a ausência encontra-se por trás de toda a refeição com carne onde há a morte do animal, cujo lugar é ocupado pela carne. Diante dessa análise, é possível refletir que em nossa sociedade e cultura, as mulheres também são referentes ausentes, pois são vistas, com frequência, como um corpo a ser consumido e usado pela publicidade, além de muitos outros modos; o que nos revela, mais uma vez, como o movimento feminista é essencial e necessário, pois da mesma forma como os animais são consumidos, os corpos femininos também são vistos como “consumíveis”, não só visualmente, mas também através do acesso sexual dentro de uma sociedade patriarcal que os considera estupráveis.

Outra lógica que precisa ser analisada é a questão da caça, pois assim como existe a dominação dos nossos corpos de forma violenta, nos corpos não-humanos também é possível observar essa dominação, como se o mais forte tivesse um direito natural de oprimir o mais fraco. Assim como o uso frequente de certos “clichês” na tentativa de neutralizar comportamentos abusivos, como por exemplo "os homens são assim mesmo" para justificar violências, abusos ou outros tipos de atitudes destrutivas em relação às mulheres, os seres não-humanos em nossa sociedade não têm o direito de expressar livremente seus desejos e vivem para servirem como objeto de uma cultura patriarcal, sexista e especista, reforçando a máxima de que o patriarcado se utiliza de corpos fragilizados. As ilusões impostas pela mídia em geral são inúmeras, mostrando que se nunca questionarmos e simplesmente aceitarmos, jamais iremos entender o que está acontecendo por trás dos interesses individuais. Inumeráveis outros fatos, argumentos e estudos, mostram como o especismo e o machismo andam de mãos dadas.

Na Europa sufragista, surgiu a ideia empoderadora de que as mulheres, mesmo as que exerciam o papel de dona de casa, poderiam ajudar a criar um mundo novo e mais compassivo ao adotar uma dieta vegetariana, como apresenta o artigo da historiadora norte americana Lean Leneman - The awakened instinct: vegetarianism and the Women’s suffrage movement in Britain. As raízes da ligação entre vegetarianismo e feminismo remetem ao ano de 1890, conforme manifestado no jornal radical Shafts - editado por Margaret Shurmer Sibthorp[1] de novembro de 1892 ao início de 1899 - cuja primeira edição incluía, normalmente, um artigo intitulado 'Escrita como um emprego para mulheres’, uma síntese complexa de feminismo, socialismo e tradições ocultas relacionadas à Teosofia. A revista se destacou no apoio ao acesso ao controle de natalidade, antivivissecção e sufrágio universal. Shafts também apresentava outros aspectos do bem-estar animal, com artigos que colocavam questões sobre a crueldade da caça durante o período de sufrágio, e também as relacionadas com o uso de peles. A atriz e militante Maude Arncliffe-Sennett[2] chegou a colar no jornal alguns anúncios de modelos vestidas em casacos de pele e rabiscados ao lado: "Nesses todas as mulheres me parecem odiosas – elas representam muita matança!”

Diante do que foi exposto, é possível notar que é mais do que necessário apostar na interseccionalidade entre as causas, buscando cada vez mais fomentar essas discussões dentro de um modelo capitalista e patriarcal que relaciona a exploração animal e ambiental, o consumo da carne e a dominação entre pessoas através das relações de gênero, fazendo dessas discussões uma prática natural, buscando a compreensão de que a luta é muito maior e traz mais resultados quando agrega movimentos, como afirmou o filósofo australiano Peter Singer: “A liberação animal, também é a liberação humana”.


* Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea. Pesquisadora das temáticas Mulheres e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo.

Instagram: @a.line.amorim



Referências bibliográficas:

ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre carnivorismo e a dominância Masculina. São Paulo: Alaúde, 2012.

MONTEIRO, Lorena Lúcia Cardoso. Veganismo, feminismo e movimentos sociais no Brasil. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X

LENEMAN, Lean. The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain. Women’s History Review, v. 6, pages 271-287, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1080/09612029700200144 Acesso em 30 Jan 2021.

SINGER, Peter. Libertação animal: O clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos animais. 1ª edição. SP: Martins Fontes, 2010.


Notas: [1] Editora do jornal Shafts : A Paper for Women and the Working Classes , que foi publicado entre 1892 e 1899. Disponível em: https://www.classicsandclass.info/product/18/ Acesso em 30 Jan 2021. [2] Também conhecida com o nome artístico de Mary Kingsley foi uma atriz e sufragista inglesa, presa quatro vezes por seu ativismo. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Maud_Arncliffe_Sennett Acesso em 30 Jan 2021.