Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.

Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram!

#alertagatilho #denúncia #abusos




Oi, Bia.

Como anda a vida?


Por aqui as coisas vão bem, na medida do que é possível “estar bem” em tempos de pandemia. Esses tempos de isolamento social não têm sido fáceis, mas a nossa troca de cartas tem me ajudado. Eu sei que o assunto que eu vou tratar hoje vai pegar você de surpresa e talvez você se pergunte o porquê de eu não ter dividido isso antes, mas não leve a mal, acho que eu só não queria revisitar um assunto que ainda é doloroso. Você me entende, eu sei.


Como você sabe, antes de vir para o sertão alagoano, eu estava professora de uma escola particular em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Naquele dia, que parecia ser apenas uma sexta-feira comum de fevereiro de 2018, na turma do terceiro ano do Ensino Médio, discutimos sobre Islamismo, Feminismo e Ocidentalização com base no texto “A mulher no Oriente Médio e o feminismo islâmico”, escrito por Claudia Santos. Tirando alguns risinhos debochados, olhares de reprovação e breves reclamações sobre o tema, a aula ocorreu tranquila (pelo menos foi o que eu pensei). Expediente encerrado, no horizonte, mais um final de semana de Netflix e leituras do mestrado.


Já passava das vinte e duas horas do sábado, quando meu celular apitou avisando que havia uma nova mensagem no WhatsApp. Li as mensagens, ouvi os áudios e não quis acreditar: eu havia sido adicionada em um grupo e estava sendo xingada com frases sexistas e misóginas. Percorri a lista de participantes, reconheci alguns rostos e vozes, apesar de eu não ter nenhum daqueles números na minha agenda, percebi que eram alunos e ex-alunos da escola na qual eu estava professora. Pelo curto espaço de tempo em que permaneci ali, antes de ser removida por um deles, me mantive em silêncio. Tentei digerir o que estava acontecendo e então a ficha caiu: um bando de rapazes (eu diria moleques, mas estou tentando ser polida) estava me insultando abertamente em um grupo do WhatsApp e se divertindo com isso.


Passei o final de semana bancando a detetive particular (você sabe que sou boa nisso), na tentativa de associar nomes e rostos àqueles números de telefone e, depois de um domingo inteiro, consegui. Na segunda-feira, depois das aulas ministradas, procurei a coordenadora disciplinar. Narrei em detalhes o que havia acontecido, apresentei as informações que eu havia coletado e ela ficou de levar o ocorrido à direção da escola. Meses se passaram (isso mesmo, meses) e os alunos não foram chamados na coordenação, eu sabia disso porque a história não estava circulando pelos corredores da escola, como era costume. Quando eu perguntei o porquê, a coordenadora respondeu: “Lucila, eu não chamei os alunos para conversar porque aconteceu fora da escola”. Fiquei sem acreditar e respondi: “Sim, mas envolve alunos da instituição!”. Na minha cabeça, a postura da coordenação, que eu pensava ser também a postura da direção, ia de encontro à missão da empresa “ o desenvolvimento integral dos educandos”.


No caminho para casa, planejei mil formas para resolver aquele assunto sozinha. Eu não admitia (ainda não admito) que aqueles jovens ficassem sem punição, mas se tratava de uma instituição particular, que não estava se importando com o bem estar de uma docente. Duas coisas me fizeram desistir de seguir com qualquer um dos meus planos: eu não tinha autonomia para responsabilizar institucionalmente, muito menos juridicamente, aqueles jovens e, infelizmente, eu precisava daquele emprego.


Os dias que se seguiram não foram fáceis, me senti derrotada (é como me sinto até hoje). E, apesar de não querer admitir, eu precisava pedir demissão daquele lugar. A verdade é que aquela escola já não me fazia bem desde 2017, quando fui perseguida pelo professor de geografia e a instituição não soube lidar com a “mediação do conflito”, este criado por um homem machista, que se sentia oprimido pela profissional que eu era e que não admitia que eu não precisasse dele como mentor, conforme ficou claro na conversa que tivemos. Mas isso é assunto para outra carta.


Em junho de 2018 marquei uma reunião com a direção para avisar que eu não continuaria como professora da escola depois das férias de julho. Durante a conversa, expliquei os motivos da minha saída e, pasme, a coordenadora não havia levado o assunto do tal grupo do WhatsApp para a direção. Como aquele era um assunto desconhecido da diretora, revisitei os fatos daquele final de semana de fevereiro, enquanto narrava os detalhes do que havia acontecido. Mesmo com a minha saída iminente, a direção convocou os adultos responsáveis pelos alunos para uma reunião, da qual eu não participei e na qual fui acusada, por uma das mães, de perseguir um “pobre menino inocente, que fez uma brincadeira e não entendia a gravidade do que disse”. O assunto foi dado como encerrado, os alunos não foram responsabilizados e eu segui a vida bem longe dali.


Hoje, mais de dois anos depois, esse ainda é um assunto que me deixa triste e frustrada. Você sabe, não gosto de assuntos inacabados e carrego comigo um sentimento, uma necessidade de justiça. Mas eu precisei me afastar daquilo tudo, principalmente porque entraria nos seis meses finais do mestrado e eu tinha uma dissertação para terminar. Espero que agora você entenda o porquê de eu ter demorado tanto para escrever sobre isso.


Saudades das nossas conversas na varanda da sua casa.

Um abraço enorme, Bia.

Ansiosa pela sua opinião sobre isso,

Lucila.

Lucila Barbalho Nascimento é apenas uma feminista potiguar que mora no sertão alagoano e está em constante (des)construção. Historiadora de formação e apaixonada pela docência. Uma leonina que não gosta de espelho e é viciada em séries. Fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Feministas Dandara Dos Palmares (instagram @gefem_dandaradospalmares). Seu Instagram pessoal é @lucila_barbalho.