Cartas ao espelho #mãesnauniversidade

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos.

Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.




Em nossa 10ª edição, recebemos um texto especial de uma colaboradora para a coluna Cartas ao espelho. Leiam:


Naquele dia tudo aconteceu como vinha acontecendo. Acordaram cedo, tomaram juntas o café e foram para seus destinos. A pequena pra escola, a mãe para o trabalho. Um longo dia distantes, algo que era até bem novo para elas, visto que durante esses 5 anos longos as duas distantes era muito raro, sempre juntinhas, sempre coladas e se cuidando.

Mais tarde, se juntaram novamente e seguiram sua rotina. A filha, acostumada desde o ventre a acompanhar a mãe onde quer que fosse, a Universidade acabava sendo só mais um espaço comum entre as duas. Muitos brincavam que seria uma criança prodígio, com boas articulações na fala e bem desinibida. O que de fato se concretizava.

Desde sempre a pequena acompanhava a mãe nas aulas, com uma tranquilidade e completamente invejável. Costumava entrar e sair das salas sem ser notada, sempre acompanhada de folhas de papel, lápis de cor e alguns livrinhos ou um celular com fones para assistir seu desenho.

Os amigos da mãe diziam achar incrível a forma como a criança se comportava, era uma criança super agitada, mas dentro da sala de aula sabia respeitar o ambiente e suas atitudes mais notáveis eram a entrega de desenhos aos professores e colegas de sua mãe ao fim das aulas.

No tal dia ela estava assim, como sempre estivera. Calma, silenciosa e desenhista. Sentada ao fundo da sala com a mãe, visto que em aula anterior havia sentido certa rapidez do professor.

Quando tudo aconteceu, ambas não entenderam direito, assim como não entendem até hoje. Mas pra mãe lhe doeu muito. O professor pediu que saísse da sala com sua filha, e ao pedir começou a proferir diversas palavras maldosas, preconceituosas e humilhantes.

As duas saíram, acompanhadas de alguns amigos que se compadeceram naquele momento inesperado. Enquanto tentava entender de verdade o que estava acontecendo, a mãe chorava copiosamente, desejando profundamente que sua pequena não estivesse ali, presenciando aquela situação, aquele choro... compartilhando este momento doloroso.

A criança chorava ao ver a mãe chorar e somente perguntava "por que ele não gosta da gente, mamãe?"

Os dias que se seguiram pareciam uma sequência de filme mal produzido e mal editado. A história ganhava uma repercussão que não se esperava e as duas estavam mais uma vez no olho do furacão. Passando por um momento tenso e sofrido, juntas.

Se seguiram várias entrevistas, depoimentos e coisas que não eram usuais para a mãe. O quanto pode, manteve a filha distante desses holofotes, que causaram na matriarca um grande aprofundamento de problemas psicológicos. O pior sentimento instaurado foi o medo. Quando a mãe recebeu um chamado do Conselho tutelar para responder sobre uma denúncia que haviam recebido do tal professor, dentre as acusações da denúncia estavam: não alimentar a criança, ser o pai um traficante, entre tantas outras mentiras absurdas e completamente infundadas.

Não foi preciso muito para desmentir, bastava olhar pra ela pra ver que aquilo não passava da mais fútil e sádica forma de torturar e perseguir alguém.

A mãe chorava dias e dias seguidos, necessitando de remédios para controlar tudo que sentia. Um grande medo de perder sua filha, de perder o seu futuro...

Mas assim como sua mãe Oyá, tornou os ventos agentes de mudança, aprendeu com cada percalço nesse caminho, tem aprendido.

A perseguição do professor não conseguiu muitos frutos, a mãe segue seu caminho na Universidade, com as mãos quase no diploma. A filha, segue sendo articulada como sempre foi, inteligente e forte ao lado da mãe.

As duas juntas, como sempre foi.

E sempre será.


Para todas as mães universitárias do mundo.