Cartas ao espelho #amorpróprio


A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos.

Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.





Em nossa 9ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam:


Espelho


Você conhece o mais escuro dos caminhos?

Já teve a desgostosa experiência de ser carregado por tentáculos sem a sua vontade e anuência, para o mais profundo dos mares, perdido entre as coisas mais ruins desta Terra, onde todos os tipos de demônios estão presentes, seus maiores pesadelos, nuvens de cinza que emergem de seu peito feitas pelo desmembramento destilado de seus próprios sentimentos?

Seu coração derrete, e começa a perfurar seu peito de dentro para fora, como se transformado em ácido, numa ascensão para o mundo externo. Os demônios balbuciam embebidos de desejo, percorrendo-lhes comichões por todo o seu corpo em ondas incessantes, babando numa idílica e fremida concupiscência. Você vê desesperada esta nuvem turvar à sua volta, tornando tudo vermelho e negro à medida que os demônios famintos se alimentam lubricamente do sangue, lhe rondam e misturam-se à sua volta, doidejando desvairados, voluptuosos de desejo do sofrimento, da energia e amor que jaz num coração. O sangue passa a coagular no ar, e tornar tudo negro. Esta imensa névoa torna a entrar para o seu corpo por suas narinas, e a voltar ao seu lugar de origem como numa eterna retroalimentação, contaminando todo o seu pulmão numa gigantesca contrição de desgosto e tísica, dando de volta uma névoa cada vez mais negra, triste, opaca, áspera, seca e sem vida. Esta névoa negra e tóxica começa a poluir seu corpo por completo, adentrando em todos os órgãos, falanges, extremidades e pontos de força, como um fumante que tira aos poucos a sua própria vida.

Tudo começa a se tornar um gigantesco e fortíssimo vácuo e você começa a ruir de dentro para fora. Como dementadores, a vida começa a ser retirada de seu corpo célula à célula, e no final não resta sequer pó, tudo desaparece.

Você percebe que tudo aquilo que pensava era mentira. E que os demônios se transformaram em palhaços engraçados, ou enfeites de festa.

Você ri como um diabo diante do seu próprio sofrimento, e sente pena e misericórdia daqueles que jazem lá embaixo.

Apenas estava apontando o espelho pro lugar errado.

Você segue confiante, e percebe que não precisava olhar para o escuro, quando tem tanta luz à sua volta.


Vi FF*




Legenda: foto da autora Vivian Froés recitando o texto "Espelhos", no Teatro Oscar Niemeyer.






*Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catalogação da Rádio Nacional. Entrou para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, a qual na atualidade é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e, especialmente, no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e, principalmente, no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e, no momento presente, faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.