Cartas ao espelho #amorpróprio

Atualizado: Mar 26

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos.

Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.





Em nossa 8ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam:


Transluza


Gente, hoje eu vim falar sobre amor próprio. Mas não aquele amor próprio pra postar nas redes sociais, só para aparecer e fingir que está bem. Não um amor egóico. Aquele amor próprio MESMO. Verdadeiro, humano, puro, humilde e genuíno. Uma luz que cultivamos lá dentro de nós, e que jogamos para dentro, e para fora. De se olhar no espelho, e se valorizar, saber reconhecer seus valores, qualidades, e aquilo que não souberam e >>não quiseram<< valorizar, admirar. Sobre cuidar de você mesma, se preservar de determinadas situações, ser feliz em seu próprio cantinho, universo, e fazer dele querido e especial. Sobre não permitir mais que te machuquem ao ponto de te fazer perder o prumo, os eixos, a sua identidade e a sua origem, nem acreditar que você é uma pessoa indigna de que lhe façam companhia, sejam fiéis, te amem, e fiquem - e desejem ficar - para sempre com você.

Eu sofri tanto no meu antigo relacionamento. Não pelas dores, desafios, brigas. Isso era o de menos, porque isso faz parte de todo relacionamento. Mas pelo abandono, pela indiferença. Pela falta de amor! Amor esse que é uma construção, longa, dura, árdua, difícil. De batalhas, sofrimentos, conquistas, vitórias. Vencemos tanta coisa juntos. Coisas inimagináveis. Se soubessem da missa a metade do que eu vivi e fiz por ele, jamais iriam acreditar. Daria um livro.

No final, fiquei só. Fui deixada. Fui esquecida num estalar de dedos. Como se jamais tivesse conhecido essa pessoa.

É assustador. É traumatizante. Às vezes achamos que vamos enlouquecer. Fiquei completamente perdida, sem entender nada. Nadando no vazio sem sair do lugar. Perdida nos confins mais profundos dos sentimentos e pensamentos. Parece que de uma hora pra outra, tudo virou um pesadelo.

De todo o mal que possamos ter sofrido, nada, absolutamente nada é comparável ao abandono. Pois quando se ama não desiste. Ainda mais, tendo vivido tantas infinitas coisas, extremamente difíceis, e tendo superado. Depois de tudo que fiz por ele e ainda vinha fazendo. Estávamos na melhor fase do nosso relacionamento! Até hoje não entendi o porquê.

E aí me peguei arrumando coisas em casa, e dentre elas achei esse presente que tinha dado pra ele. E pensei em mandar no frete para o endereço em que ele está, assim como fiz com as coisas dele depois de 1 mês ele tendo sumido.

Mas mudei de ideia. E resolvi ficar. Resolvi transformar esse coração no meu amor próprio. Amor esse, que diante da conjuntura, se fez tão necessário, mais do que nunca.

Independente dos motivos, e do que passamos na vida, ninguém pode ter o poder de lhe tirar isso. Nada justifica.

Então, hoje, aprendi que a única pessoa que eu não posso tirar da cabeça, sou eu mesma! Pois a vida me ensinou, que a força da mulher (trans, cis, negra, branca, indígena, umbandista, católica, seja qual for a condição) está no amor próprio. Pois os homens são literalmente, capazes de lhe destroçar em mil pedaços quando querem. Pois não tenho dúvidas que o que eu passei foi machismo. E isso é algo que todas nós sofremos.

E esse abandono, é algo que eu já sofri a vida inteira! Eu já sofri tanto nessa vida! Cansei de sofrer! Cansei do machismo! Para ele mais, não derramo nem >>uma<< gota de lágrima.

Então levanta a poeira mulher, seja qual você for. Porque ninguém tem o direito de lhe arrancar a vontade de viver, o amor próprio, e a felicidade!

escrito por: Mulher trans, em constante transição. Transformação. Transigência e transmutação.

Trans"formem"-se!

Transluza!

Vi FF*



Legenda: fotos da autora do texto no evento realizado no Teatro Oscar Niemeyer, em que a mesma recitou outro texto de sua autoria: "Espelhos" .




*Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catologação da Rádio Nacional. Entrou inicialmente para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, à qual atualmente é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, é artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e especialmente no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e principalmente no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e atualmente faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.