Cartas ao espelho

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.

Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram!

# alertagatilho #denúncia #abusos




Não sou uma vítima*.

O homem entrou, me violou, me roubou. As vizinhas - mulheres brancas de família – acusaram minha conduta, afinal, toda a cena não era suficiente para que eu fosse considerada vítima de um crime.

Um desconhecido em minha porta – morto caminhante – foi o primeiro a lançar o vírus que infectou todos à minha volta. Alguém me perguntou, inesperada, se não se tratava de acerto de contas.

Contas? Que contas?

Iam um a uma virando seus cérebros ao avesso de forma que podíamos vê-los por dentro, muitas partes podres. O fedor que exalavam dificultava a respiração; então, me isolei um pouco.

Dois policiais me jogaram em um carro para andar pelas vazias e estranhas ruas do Alecrim à noite, em busca de um violador – com uma vítima que não era vítima, portanto, não precisava ser zelada ou poupada. O pânico cresceu como um vulto, que me engolia do estômago para fora. Luzes, faróis, pessoas, o ruído das viaturas sobre as tampas de bueiro pareciam sucessivos galopantes acertando meus ouvidos. Quem já tomou tapa na cara saberá metaforizar.

A menina tá em pânico. Vamos voltar com ela. A menina não conseguia mais se levantar.

Delegacia da mulher.

Enquanto o homem delegado buscava características físicas do homem agressor para fazer um retrato falhado, eu me dava conta que cada parte de seu rosto que tentava lembrar apenas podia ser acessado uma vez.

- Como são seus olhos? E novamente fui olhada. - De qual cor? Não sei. Não consigo mais lembrar.

Até que quando o retrato falhado ficou pronto, eu mesma não mais o reconhecia. Ao final, a policial mulher branca me olhou e disse “se fosse comigo eu não teria deixado”. Por certo ela estava sozinha naquela sala quando falou, pois não me viu nem ouviu.

Arregalei os olhos e uma falsa ficha caiu.

Uma vítima que não podia ser vítima.

Então é por isso? Fui eu quem deixei? Mas como?

Era tarde demais. O vírus deles entrou em mim como forma de culpa e vergonha, as mãos esquecidas do homem agressor permaneceram anos enforcando meu pescoço de mulher negra e eu não conseguia falar. Falhei. Fali. Saí calada e dilacerada dali, sem poder levantar o peso de meu infortúnio.

Ainda era preciso ir ao IML, eles precisavam coletar microvida do morto caminhante homem agressor de dentro da minha corpa meio morta, meio querendo morrer. Talvez para se certificar que era mesmo o vírus da desgraça que pairava nos olhos das pessoas. Prédio amarelo desbotado, de neutro a asqueroso, ali me esperava um técnico, que era também um homem, que poderia também ser um agressor.

Não há uma mulher para me examinar?

Se não quiser pode ir embora.

Grosseiro. Rude. Seco. Era o mesmo técnico que examinava os corpos feridos de balas, das guerras urbanas de periferias, que matam homens como os meus. Um técnico. Homem branco, bigode, eu era apenas mais uma das desgraças na sua mesa de análise. Ao sair dali foi quando eu chorei. E depois disso nunca mais.

Precisei de silêncio. Me desprendi do meu senso de dignidade por muito tempo.

Como ela lida bem com a situação.

Nem aparenta sofrimento.

Vergonha, já que a culpa da violência era minha. Medo de andar na rua sem poder me proteger, já que não reconhecia mais o rosto do agressor. Deixei minha casa. Me deram medicamentos que me fizeram adoecer também o corpo. Nem a alma nem a matéria podiam então mover-se, carregar seus pesos, sentir o sol.

O homem branco companheiro não precisou de tempo. Contou aos conhecidos mais e menos próximos pois ele precisava desabafar.

Você não tem esse direito!

Mas eu me senti vítima!

Foram meses longos enquanto tentava me curar. Enfim, o corpo sanou.

O corpo era meu. O silêncio era meu. A dor era minha. Vítima nunca fui.

Ainda preciso lutar pela liberdade da minha imagem sagrada. Naquele tempo eu não entendia o que as pessoas viam quando olhavam para mim.

Treze anos atrás entrei no quarto e então, escrevi.

Minha voz muda era um pedaço de papel.


*Sobre a autora: Stéphanie Moreira (Mamba Negra) é mulher preta e mãe, macumbeira, militante do movimento negro, capoeirista angoleira. Brotou do chão no agreste potyguar. Poeta, tem insistido em não perder novamente sua voz. Escura demais, arredia, diz verdades desafinadas, sua música não sabe por onde anda, mesmo assim ela dança. Performer, seu corpo fala nas ruas, no mato, nas encruzilhadas, sobre as proibições que pesam sobre os corpos de mulheres negras. Também antropóloga, trabalha sobre a criação de memórias por populações subalternizadas no Brasil.

Redes sociais - Instagram @acobraveia @nenguavo, e-mail stecamposmoreira@gmail.com, sites: https://stecamposmoreira.wixsite.com/adupe

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Hoje resolvi revisitar-me...**

O dia está nublado, quieto, parece um convite a rememorações. Fui para o quarto e coloquei a música que tanto gosto, um som baixinho que se encaixava perfeitamente com o ambiente. Em alguns minutos a vibração sonora espalhava-se por todos os espaços e podia me levar para onde quisesse. Fechei os olhos e fui adentrando no meu interior, cuidadosamente, comecei abrindo os armários da minha alma, procurando por mim. Encontrei-me trancafiada, escondida, esquecida...Que dor! Queria pedir desculpas, abraçar-me e promover o resgate. Mas, antes de qualquer ação, o meu eu levantou-se rapidamente e envolveu todo o meu corpo. Foi tão forte, tão caloroso, foi mesmo arrebatador. Enquanto eu sentia aquela efervescência afetiva, as lágrimas banhavam meu coração, sentia-me tão confortável, estável, feliz. E, uma voz me surpreendeu:

-- Estava à sua espera! Já tem muito tempo que você não vem me ver... Observei tudo daqui, seu vôo, sua rotina, seus vícios e delírios. Que linda! Uma linda mulher! Orgulho-me em saber que você sou eu, tinha certeza que este momento chegaria e você viria me buscar para completar o seu mundo. Em algum momento, eu faria falta e você iria me resgatar. Sou sua alma, brilhante, andante.... Olhe para mim! Eu? Sou você! Sua essência, menina brincante, sonhadora. Sou a voz que fica na sua cabeça, gritante, relutante que te instiga a ir longe, cada vez mais longe. Mas, é que às vezes você se esquece de mim e fico aqui esquecida, em um dos armários da sua memória, a te olhar, sonhar e esperar... A vida? Ela não para por aqui! Ande! Me leve com você, ainda há muito para realizar...

Com um supetão despertei, a face ainda estava molhada e ainda podia escutar o tinido daquela voz. Queria um espelho, por favor, um espelho! Preciso me certificar de uma coisa, olhei-me e vi o reflexo de uma expressão risonha, vivida que me convida a dançar os embalos da vida e me apresenta o presente. Isso! O presente é tudo que tenho nas mãos, não posso deixar o tempo passar. Enfim a liberdade, trouxe-me de volta à vida, passei a ouvir a voz, a minha voz, a voz da minha alma. Revisitar-se é um ato de coragem, encarar seus medos e anseios, revirar aquele baú cheio de lembranças e recordações que são só suas. Na procura por mim, deparei-me com situações diversas, monstros do passado que precisam ser despertados para transformar-se em seres de luz. È mesmo um processo de cura. Entre olhares, conversas e toques, absolvi uma capacidade de fortalecer o elo comigo mesma, para só depois alcançar o mundo. Sair do quarto, ainda pensativa, mas encorajada.

No momento do espelho eu disse TE AMO para mim mesma

e fui viver...


**Sobre a autora: Liliane Rosado é professora, historiadora, feminista e organizadora da página @Interfaces-femininas. Rede social: Instagram @lilianerosado05