Cartas ao espelho

#alertagatilho #denúncia #abusos


Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvida. Para preservar a identidade dos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos.

Caso queira enviar algum relato, por favor, nos envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.


Olá querida Alice,


Hoje te escrevo, consternada, para relatar um caso que aconteceu em nosso departamento na Universidade que envolveu um colega professor e renomado profissional da área e uma aluna. A gente ouve pelos corredores de casos de assédio entre professores e alunas, mas é aquela coisa, né? Boa parte das narrativas que chegam é muito no “anonimato”. Pior que sabemos que esse anonimato se justifica ora pelo medo de uma retaliação do docente, ora pelo sentimento que faz pensar “mesmo que eu denuncie, não vai dar em nada”.

Pois bem, a história aconteceu com uma aluna que ingressou recentemente em nosso curso de História. Ela estava pagando a disciplina ministrada pelo professor em questão agora no segundo semestre. A aluna - vou chamá-la de Clio nessa correspondência - sempre sentava na cadeira da frente pois, desde o início, ela aguardava ansiosamente pelo momento que iria pagar essa disciplina. O aguardo ansioso não era apenas pela disciplina em si, mas pelo docente que a conduziria. Sabemos que as disciplinas ministradas por profissionais que muito se destacam no meio acadêmico acabam sempre tendo muitas inscrições. Contudo, não condeno o encanto dos alunos e das alunas, mas as péssimas posturas, e bem mais comuns do que imaginamos, que alguns docentes empreendem mesmo estando cientes que toda relação entre professor e aluno é uma relação de poder.

Durante aproximadamente cinco meses de disciplina, a aluna comentava com as colegas sobre os olhares que o docente lançava para ela e os elogios que a dirigia, sobretudo, no final da aula. Tudo começou quando Clio foi tirar uma dúvida com o professor no fim da aula. Segundo o relato dela, ele se mostrou muito solícito: sanou a sua dúvida e elogiou as intervenções que vinham sendo feitas pela aluna durante as aulas ministradas. Nos dias que se passaram e com dada frequência, ao final da aula, o professor pedia para que a aluna permanecesse na sala pois gostaria de dar uma “palavrinha” com ela. Os bate-papos após a aula iam de esclarecimento de dúvidas sobre as atividades - até mesmo quando a aluna não solicitava o auxílio - a empréstimos de livros e mais livros. Na cabeça da menina, o docente desenvolvia um carinho especial por ela. Nós, que somos professores e professoras, sabemos muito bem que vez ou outra sempre tem aquele aluno ou aquela aluna ao qual nos afeiçoamos mais. Mas o que vou relatar a seguir tomou um rumo diferente do que admitimos como “afeição”.

A aluna Clio era uma menina que pertence a uma família com renda baixa, mora na periferia da cidade e precisava pegar duas conduções (totalizando quatro) para ir e para voltar do campus. O docente passou então a oferecer caronas para a menina. Como as aulas eram ministradas no turno da noite, e sempre acabavam às 22 horas, a aluna aceitava de bom grado pois a carona diminuiria o número de ônibus que ela precisaria pegar para retornar para casa, assim como encurtaria o tempo que ela ficava falando dentro de sala com o professor, sendo possível travar a conversa no decorrer do trajeto. Certa noite, ao fim da carona, o professor se despediu da menina alisando as suas pernas, que estavam um pouco cobertas por um vestidinho rendado de cor azul. A reação imediata da aluna foi afastar a mão e dirigir a ele um xingamento. Clio destravou a porta do veículo e saltou rapidamente. Fico imaginando o que deve ter passado pela cabeça da aluna após a ocorrência do abuso. Imagina ser explicitamente assediada por um profissional que você admira e respeita, e com o qual ainda terá que conviver alguns meses pois ele é o tutor da sua disciplina. Mas o uso antiético da autoridade do docente não parou por aí.

Dois dias depois, na aula da semana que ocorreu após o assédio, Clio apresentou um seminário avaliativo para a disciplina do docente. A partir do relato dos demais integrantes do grupo e de outros discentes da disciplina, soubemos que tudo se passou de forma muito positiva na apresentação. Também declararam que, ao final da apresentação, o professor teceu elogios à abordagem do grupo, mas fez duras críticas individuais a Clio. A turma ficou sem entender, pois tinha avaliado toda a apresentação como coesa, esclarecedora e de bom conteúdo. Enquanto a aluna chorava, o docente se aproximou e pediu para falar com ela após o final da aula. Muito embora apresentasse medo, a aluna concordou em ficar pois aguardava ouvir a justificativa das críticas feitas a ela. Ao invés disso, o docente propôs um acordo: “aumento a sua nota, se você topar sair comigo”. Não é preciso dizer mais nada… Com muito receio da possível retaliação aliado à falta de segurança para fazer a denúncia, já sabemos qual foi a resposta dada à proposta, Alice.

O caso veio à tona quatro semanas após o ocorrido. Clio passou a faltar às aulas do docente. Após ser confrontada pelas amigas, a aluna contou o que havia ocorrido. O caso se tornou público quando as alunas resolveram produzir cartazes denunciando a ocorrência de assédios feitos pelos docentes do departamento. Todo o material produzido foi colado pelos corredores das salas de aulas e pelos murais do departamento de História. Além disso, as meninas se organizaram também para passar de sala em sala, durante as aulas dos turnos da manhã e da noite, sempre pedindo cinco minutos ao professor presente em sala para dialogar e alertar as turmas sobre o assédio moral e sexual de docentes contra discentes. Mas o ápice das ações coletivas feita pelas alunas foi uma denúncia feita à Ouvidoria da universidade, onde uma delatora anônima enviou o relato da Clio com prints do whatsapp que mostravam as intimidações feitas pelo professor.

Como você sabe, Alice, estou ocupando o cargo da chefia do departamento desde o início do nosso primeiro semestre. E, após vir a público o caso da Clio, as denúncias de assédio têm chegado em maior número. Não sei se ter uma mulher na posição de chefe acaba incentivando as alunas a denunciarem por sentirem uma certa segurança e confiança - para não dizer esperança que as coisas sejam encaminhadas… No entanto, foi a organização coletiva de mulheres em resposta à má conduta do docente que fez toda diferença. A instituição encaminhou a abertura de um processo administrativo contra o docente, que foi ouvido, e em seu relato culpabilizou a aluna e seu vestido curto de cor azul. Não é preciso dizer que o professor foi apoiado por colegas do nosso departamento, que reclamam de como as alunas “se insinuam” nas aulas. Também, após o caso, a aluna ficou conhecida, pelos colegas de outras turmas, como a menina do “vestidinho azul”. A situação chega a ser constrangedora e triste, Alice. Mas, ainda bem que azul é uma cor que remete à esperança. E é isso que eu tenho: esperança em uma geração que não se cala. Que elas continuem falando então.


Com carinho (e esperança),

Beatriz.