Carta ao espelho: confissões - 12ª edição #alertagatilho

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos.


Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com.

Querida Beatriz,


Tenho andado um tanto reflexiva nos últimos dias. Há cerca de uma semana, em isolamento protetivo, estava eu organizando minhas coisas e me deparei, acidentalmente, com uma cópia empoeirada da minha tese. Desde então tenho rememorado o trauma daquele concurso e muitas lembranças e histórias, minhas e de outras mulheres, povoam o meu pensamento.

Tenho pensado sobre como nós, mulheres, com toda nossa diversidade interseccional, sofremos violências como uma constante em nossas vidas, mas também sobre como, a despeito delas, existimos como desejamos. E me lembrei da história de uma mulher.

Essa é uma história de violência, mas também de sobrevivência, resiliência, resistência, mas, principalmente, de transcendência. Compartilho com você a história dessa mulher, que é uma de nós. Mas vale uma advertência, minha querida Beatriz. Apesar dos traumas das violências sofridas, não pensemos se tratar de uma mulher derrotada. A mulher sobre a qual falarei é teimosa em sua determinação e desejo de liberdade. Ela é uma mulher feliz e amada, uma mulher que conquistou o necessário para existir sem amarras, em seu próprio mundo.


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Depois de me narrar uma série de violências sofridas ao longo de sua vida, hoje, já na meia idade, ela me confidenciou que sua brecha de negociação com o patriarcado é extremamente estreita. Em suas palavras, “nessa brecha cabe apenas o que me parece indispensável à sobrevivência nesse mundo, que é dos homens”. Isso, segundo ela, gera problemas de relacionamento e dificuldades de aliança, com homens e com mulheres. Mas que tipo de violência estaria por trás de tamanha indisposição em negociar? A essa pergunta ela me respondeu com algumas “confissões”, dentre as quais as que destaco a seguir:

Confissão número 1: “Eu era uma criança pequena, apesar de gordinha, e o poder da minha imaginação dava de 7x1 na minha estrutura física (sim, eu adorava futebol e fiquei meses sem conter o riso quando, num sorteio, ganhamos uma bola da copa de 1990). Eu era pura potência, força e sensibilidade, de uma doçura desengonçada e um gênio difícil. Adorava brincar, sem fronteiras de gênero (viria daí a dificuldade do gênio?). Gostava de dinossauros, acreditava em seres extraterrestres e, mais ainda, que a Tilinha, minha cadelinha, com um pano na cabeça nos faria voar na minha bicicleta com cestinha. Essa garotinha, aos sete anos, foi vítima de um predador sexual, seu tio-avô, um homem com fama de tarado e sobre quem se ouvia burburinhos de que já havia abusado do filho, das filhas, da neta e até de uma vizinha. Naquela época, me parece, se silenciava muito mais do que hoje sobre violência sexual na família. Ele nunca foi responsabilizado por nenhum desses casos e já está morto.”

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Confissão número 2: "Eu era adolescente quando me apaixonei por um garoto. Ele era motoboy e me levava para baixo e para cima em sua moto. Era divertido. A gente transava, fumava maconha, ouvia música e se divertia muito. Ele frequentava a casa dos meus pais e eu a casa dos pais dele. Almoço de domingo em família, ele estava lá e nós estávamos contentes. Eu confiava nele. Um dia estávamos sozinhos na casa dos pais dele e algo aconteceu, contra a minha vontade. Eu disse não, não quero, não porra! Mas foi assim mesmo, contra a minha vontade e à revelia de todos os meus nãos. Apenas 20 anos depois eu entendi que namorados também estupram e que aquilo pelo que passei, sofrendo em silêncio e sozinha, era um estupro.”


Confissão número 3: Eu já estava na Universidade, estudava História. Eu tinha na época um namorado super gente boa, somos amigos até hoje, meio que irmãos. Eu estava na casa dele quando finalmente minha mãe conseguiu falar comigo. Naquela época meus pais estavam em um processo doloroso de separação e todas nós vivíamos uma experiência de profunda transformação em nossas vidas. Acontece que meu pai decidiu viver outra vida, ao mesmo tempo em que pretendia nos privar das nossas. Embora eu não estivesse em casa, o plano era matar todas nós. Cenas de filme de terror. Pulou o muro. Os cachorros não latiram porque o conheciam muito bem. Pegou minha mãe e minha irmã de surpresa e partiu para cima das duas com uma faca aos gritos de “eu vou matar vocês”. Ambas gritaram, correram e, se esquivando dos golpes, se trancaram em seus respectivos quartos. O cabo do telefone sem fio foi desconectado pelo meu pai, para evitar que elas ligassem para alguém. Nossas vizinhas, igualmente calejadas no tema da violência doméstica, chamaram a polícia, que chegou a tempo de impedir a tragédia. Ainda hoje tenho vários pensamentos contrafactuais quanto ao que teria acontecido se eu estivesse em casa naquela noite. Penso nisso, especialmente, porque a porta do meu quarto tinha um defeito (não podia ser trancada) e também porque eu não costumava fugir dele, eu o enfrentava…”

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As confissões daquela mulher me impactaram profundamente e, como você deve imaginar, a lista é muito maior. Contudo, nada parece superar essas três confissões que mencionei. E, se entendi bem o que ela me disse, são essas as experiências que ela evoca sempre que precisa dizer para si mesma que irá sobreviver a mais uma violência simbólica, a mais uma tentativa de manipulação, de distorção de suas palavras, de expropriação de suas ideias, de deslegitimação de seus argumentos, de ridicularização de seu jeito, de insinuação de loucura, da acusação de agressividade, da pecha de arrogante, etc., etc., etc. E, ao fazê-lo, ela completa sua estratégia cíclica de sobrevivência diária, solta uma imensa gargalhada interior e libera para seus agressores um olhar de desprezo e um ar de superioridade, assim como quem diz… eu transcendi!

É isso!


Um abraço de sua querida amiga,

Alice.