Carta àqueles que se acham autorizados a ceifar as (nossas) vidas pretas


Compartilhamos o texto de nossa editora Maiara Juliana Gonçalves, que expressa nosso posicionamento:


"Carta àqueles que se acham autorizados a ceifar as (nossas) vidas pretas:


Na véspera do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2020, um homem preto foi morto nas dependências do @carrefourbrasil , na cidade de Porto Alegre. Homem preto que tem nome. É sujeito. É vida. João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado por dois homens que faziam a segurança da loja na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.


Em fevereiro de 2019, no Rio de Janeiro, também nessa mesma rede de supermercado, um homem, também preto, foi derrubado, imobilizado e estrangulado. O outro corpo era jovem e também tinha nome: Pedro Henrique Gonzaga, 24 anos.


O discurso em resposta aos acontecimentos é o mesmo: "houve excesso", "equívoco", "engano", "lamentamos". Muda-se (ou não) a justificativa, só não muda a cor do alvo. Nem preciso falar dos assassinatos pela máquina de segurança pública feita nas comunidades brasileiras.


A quem está autorizado matar nossos corpos? Ou quem autoriza? E por que autoriza?

Não satisfeito em apagar nossos nomes, nossas línguas, nossas ancestralidades, nossas memórias, nossas produções e invenções, nossos símbolos de resistência... Não satisfeito em sumir com nossos corpos, os corpos de Amarildos, de Cláudias, de Silvas... Não satisfeitos em ceifarem as nossas vidas, vidas de Ágatas, João Victor, Miguel, Kauan... Não satisfeitos em manterem seus status e privilégios... Nos matam. Não satisfeitos em arrancarem nossas vidas, nos retiram, e desde muito tempo, toda nossa condição humana.


Então, pelo amor dos orixás, nesse dia de hoje e nos 364 dias restantes, NÃO me venham falar de consciência humana, quando o homicídio no Brasil tem cor: ela é PRETA".