As “Cloroquina Squares” do Brasil de quase meio milhão de mortes


Larissa Riberti*


A reabertura gradual do comércio e a retomada das atividades suspensas por decisões de governos municipais e estaduais – que buscam frear a segunda onda da pandemia de coronavírus – têm suscitado uma série de embates e confrontos entre os que apoiam a flexibilização das regras de isolamento e os que defendem a continuidade das medidas restritivas.


Um impasse desnecessário, visto que, numa pandemia, nossa preocupação fundamental deveria ser a garantia da vida. Porém, num país onde o governo federal se desresponsabiliza da tarefa de instituir políticas públicas como as que garantissem o emprego e a renda de grande parte dos brasileiros, a queda no padrão de vida faz com que muitos trabalhadores se oponham a medidas que poderiam ser mais efetivas no combate à pandemia.


O cenário é catastrófico! Não bastasse a crise sanitária, temos uma crise social, do mundo do trabalho, do desemprego, que reflete o desespero dos brasileiros pobres e da classe média baixa ao verem sua renda cair e o custo de vida aumentar. Para muitos, não resta outra alternativa a não ser implorar pela “possibilidade de trabalhar”.


Esses trabalhadores, e me refiro àqueles que não atuam na chamada linha de frente ou nos serviços essenciais, mas aos que prestam serviços gerais, atuam no comércio, têm empregos informais e vivem de pouca renda, são influenciados por um jogo duplo.


Por um lado, são diretamente afetados pelas consequências da omissão do governo comandado por Jair Bolsonaro. Não custa lembrar que, não fosse a pressão das bancadas de oposição no legislativo, o Auxílio Emergencial seria reduzido a um cartaz de propaganda política, cujo valor seria ainda mais aquém daquilo que foi pago nos meses anteriores. Assim, aos brasileiros foram negadas as condições ideais de sobrevivência em meio a um estado de exceção provocado pela pandemia.


Por outro lado, os trabalhadores são diariamente bombardeados, desde o início da crise sanitária, por informações que lhes dão uma falsa sensação de virtude e resistência ao continuarem e desejarem trabalhar nessas condições de risco.


Impossibilitadas de fazer o lockdown ou de trabalharem em casa, essas pessoas foram profundamente influenciadas por narrativas que disfarçam a exploração e a precarização do trabalho com a ideia de que as atividades desempenhadas por elas são “essenciais”.


Funções que adquiriram a falsa caraterística de “indispensável”, mesmo quando se referem às tarefas desempenhadas pela faxineira da casa da madame, pelo cuidador do pet da vizinha, pelo motorista do filho do patrão, pela recepcionista da clínica de estética, pelo instrutor da academia, pelo garçom da cervejaria artesanal.


À tal narrativa não se nega a paternidade. Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu perfil do Facebook: “Atividade essencial é toda aquela necessária para um chefe de família levar o pão para dentro de casa!”.


Publicação do perfil do Facebook do presidente Jair Bolsonaro. Reprodução: Internet

Assim, estimulando a ideia de que, se não trabalharem, esses trabalhadores morrerão de fome, o chefe do governo federal se aproveitou da desobrigação de suas próprias funções, e jogou nas costas dos brasileiros pobres a tarefa de lutar pelo seu próprio sustento, ainda que isso lhes custasse a vida. Daí o grande apelo popular pelo retorno de atividades não essenciais, pela reabertura do comércio, de bares, de escolas, de shoppings centers.


A construção dessa ideia, que pretende fazer desses trabalhadores “heróis” por resistirem ao isolamento, teve (e tem) a decisiva participação de setores da nossa sociedade, como parte da grande imprensa, empresários, parcelas da classe média. Os membros da elite foram uníssonos em defenderem a exposição dos trabalhadores, maquiando suas intenções com uma falsa valorização do trabalho.


Para isso, disparam correntes e fake news nas redes sociais, financiam propagandas na televisão e nos outdoors, vestem a camisa (literalmente), organizam protestos – na segurança de seus carros 0km – e influenciam os “subalternos” fazendo com que estes acreditem que são realmente “essenciais”, que sem eles “o Brasil para”.



A frase virou destaque em outdoors de várias cidades do Brasil.

Pura canalhice de quem explora o trabalho alheio, mas que em nenhum momento se preocupa com as necessidades e a saúde dos trabalhadores.


Prova disso é que grande parte dessa elite pode ser facilmente encontrada nos locais que voltaram a abrir recentemente: pontos turísticos, bares, shoppings, restaurantes, praias...


Do auge do seu privilégio de classe, desfrutam a vida durante e aos finais de semana a despeito das mais de 400 mil mortes e de mais de 15 milhões de casos de Covid-19. Certamente, entre as centenas de milhares de falecidos estão muitos daqueles que foram influenciados pelo perverso discurso da “indispensabilidade” de seus trabalhos.


Perfis das redes sociais ilustram o fato, reunindo imagens e vídeos de festas clandestinas, aglomerações, reuniões de final de semana, bares, restaurantes. Nas denúncias há algo em comum: todos os lugares estão lotados de pessoas que se divertem como se não houvesse um vírus de alta letalidade à solta.



Casas de shows, bares e restaurantes lotados durante a retomada das atividades. Reprodução: Internet.

Dentre tantas, destaca-se a imagem de uma praça central de Tiradentes, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Chamam a atenção os elementos caricatos do enredo: homens e mulheres, majoritariamente brancos, desfilam em carros novos e em suas roupas caras para a estação do frio. Ocupam cada um dos espaços disponíveis, sem máscara, bebendo e comendo, não deixando absolutamente nenhuma margem para que se cumpra algum protocolo de distanciamento. É a “Cloroquina Square”!


Nessa cidade quase cinematográfica, que remete ao auge da mineração no período colonial, figuram ainda as peças centrais de um Brasil atrasado, irresponsável e elitista. Se no passado fomos marcados pela exploração da mão de obra escravizada, negra e indígena, no presente temos os filhos da elite que se aglomeram colocando em risco aqueles que não têm alternativa senão servir para tentar sobreviver: os trabalhadores.


A “Cloroquina Square” é, portanto, o lugar onde se reúne essa elite que defende a “essencialidade” do trabalho alheio, mas que cumpre suas tarefas na segurança do home office. Uma gente egoísta e inconsciente que, incapaz de assumir seu papel na coletividade, defende uma vulgar noção do direito de ir e vir no seu sentido estritamente individual.


Perfis do Instagram denunciam festas e aglomerações.

Essa sobreposição de imagens deixa evidente o nível da luta de classes existente no Brasil dos dias atuais. Uma realidade que transcende qualquer projeto de governo, ainda que a atual gestão de Bolsonaro endosse e estimule as ações arbitrárias dos individualistas. Mas, é de se suspeitar que, tivéssemos no poder um presidente responsável e preocupado com o bem-estar de toda população, certamente ainda teríamos que nos confrontar com uma elite pronta a “fazer suas próprias regras”, a aglomerar e colocar em risco as vidas que eles consideram menos necessárias.


A “Cloroquina Square” é justamente a metáfora que revela o estilo de vida e o potencial destrutivo dessa parcela da nossa sociedade. E, pelo que denunciam as redes sociais e as reportagens publicadas pelos veículos de comunicação, brotam “Cloroquina Squares” num país de quase meio milhão de mortos pela Covid-19.



*Larissa Riberti é professora Doutora da área de História Contemporânea da UFRN, pesquisa movimentos sociais, armados, sociedade, política e gênero na América Latina.