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Traduções: Marie Peltier
Traduções: Marie Peltier

Como o 11 de setembro pavimentou o caminho para a conspiração em grande escala Entrevistada: Marie Peltier, historiadora Entrevista por Benoît Zagdoun, France Télévisions Fotografia : AFP Seth Macallister Os atentados do 11 de setembro ainda são associados às teorias do complô que surgiram a partir daquela data. As Torres gêmeas do World Trade center não teriam caído em razão dos dois aviões que as atingiram, o Pentágono teria sido atingido por um míssil, o governo norte-americano teria deixado os terroristas agirem… Vinte anos depois, estas narrativas de complô permanecem pregnantes. Para a historiadora Marie Peltier, o 11 de setembro marca a entrada do mundo na Era do complô. As teses conspiracionistas, que proliferam desde então nas redes sociais, são os sintomas de uma sociedade cansada de suas fraturas. Na ocasião da rememoração dos ataques, France Info entrevistou esta especialista do tema, notadamente autora de Obsession : dans les coulisses du récit complotiste (Ed. Inculte, 2018). Franceinfo: Vinte anos depois, as teorias do complô sobre o 11 de Setembro continuam a circular. Como você explica isto? MP: A narrativa dos atentados do 11 de setembro de 2001 foi prolífica em teorias do complô, que chegaram muito rapidamente depois do evento. Houve uma multiplicação de histórias, mas também uma massificação destas narrativas através da internet. Estas teorias do complô tornaram-se um modelo. A cada atentado terrorista nos países ocidentais, coloca-se em ação uma narrativa alternativa que se funda sobre o mesmo esquema que aquele das teorias do 11 de setembro: a ideia de um teatro, de uma mentira de políticos e da mídia a serviço de interesses obscuros, em geral das potências ocidentais, frequentemente com um componente antissemita às vezes central, às vezes marginal. FI:As teorias do complô não nasceram, entretanto, com o 11 de setembro… O conspiracionismo, na sua forma estruturada ideologicamente, tal como o conhecemos hoje, é um fenômeno antigo. Vemos os panfletos conspiracionistas que pululavam na Europa no fim do século XVIII, no momento da Revolução francesa. Este movimento, muito impregnado de antissemitismo, perdura até o fim da segunda guerra mundial. Após o genocídio judeu, vários escritos complotistas, especialmente o Protocolo dos sábios de Sião, são proibidos. Até o fim do século XX, estes discursos foram marginalizados, mas não desapareceram. Estes livros continuaram a circular de maneira clandestina. FI: Como o 11 de setembro permitiu o renascimento do conspiracionismo? Primeiro, porque é um evento traumático. Este ataque foi um choque terrível para a opinião pública ocidental e até mundial. Ora, a conspiração é uma retórica que gira em torno do trauma. Quando experimentamos um trauma, precisamos encontrar um significado, fornecer uma explicação. É em torno desta narrativa do 11 de setembro de 2001 que as obsessões contemporâneas se cristalizam. Além disso, o 11 de setembro veio para remobilizar uma semântica antiga. Por um lado, tínhamos o caráter “civilizacional” dado ao evento por George W. Bush e seus aliados, com essa retórica do Iluminismo atacado pelas trevas, da civilização atingida pela barbárie, do Islã percebido como uma ameaça ao Ocidente... Uma velha oposição já em ação na época das Cruzadas voltou com a luta contra o terrorismo. A intervenção no Afeganistão, a invasão do Iraque com base em uma mentira... Toda esta sequência política causou um repúdio do público. Os cidadãos tiveram a impressão de que os políticos estavam mentindo, que a mídia estava a seu serviço - a famosa aliança que os conspiradores constantemente sublinham. A semântica anti-sistema foi reativada. A Al-Qaeda quis atingir o Ocidente em seu coração simbólico e funcionou: os ataques causaram grande medo da perda da hegemonia ocidental. Ora, o Ocidente é assimilado a regimes democráticos, e este questionamento da dominação ocidental foi acompanhado por um questionamento da democracia. FI: Ao mesmo tempo, é o advento da internet e o nascimento das redes sociais. Não é este o verdadeiro gatilho? MP: No início dos anos 2000, a conspiração ainda não estava nas redes sociais, mas circulava em blogs e fóruns. As esferas conspiratórias perceberam rapidamente a oportunidade que a internet representava de divulgar suas histórias, principalmente na forma de vídeos, antes mesmo do YouTube. Pessoas como Alain Soral [ensaísta de extrema direita condenado em várias ocasiões por incitar ao ódio ou questionar crimes contra a humanidade, em particular] muito cedo fizeram vídeos em que falavam sozinhos na frente das câmeras. Eles viram o poder do formato de imagem. A Internet tornou possível deixar os textos e teses de conspiração acessíveis novamente a todos. As redes sociais têm acentuado o movimento, principalmente a partir da década de 2010. FI: Hoje, as mesmas teorias da conspiração estão circulando em todo o mundo. Vemos isso com a pandemia da Covid-19. Com a internet, a conspiração não se globalizou? MP: Tivemos uma tal disseminação do conspiracionismo nos últimos vinte anos que hoje até as pessoas que não estão imersas nestes discursos são capazes de se apropriar da grade de leitura conspiratória e aplicá-la a qualquer evento. Vemos isso com a pandemia Covid-19. Nem mesmo precisamos mais de ideólogos conspiratórios. Esta trama narrativa - segundo o qual as autoridades e a mídia estão a serviço de interesses ocultos, mentindo e manipulando as pessoas - pode ser aplicada a todas as situações. Esta narrativa global já estava em ação nos escritos do século XVIII e no século XX, nos textos fascistas. Portanto, é algo ancorado nos imaginários, inconscientemente, desde muito tempo. FI: Nos últimos vinte anos, a exploração política das teorias da conspiração também não se intensificou? MP: Esquecemos disso durante muito tempo, mas a conspiração é uma arma para levar forças reacionárias, até mesmo fascistas, ao poder. Não é, como muitos pensam, uma arma de resistência. Essa é uma das grandes iscas da postura conspiratória. Historicamente, o repertório conspiratório que se desenvolveu contra a Revolução Francesa ou a Revolução Russa produziu discursos que visavam desacreditar os movimentos de emancipação democrática e fortalecer os poderes reacionários. A ideologia nazista foi nutrida pelos Protocolos dos Sábios de Sião e levou à ascensão de Hitler ao poder. Hoje, testemunhamos uma banalização da conspiração. Temos políticos que não são ou que não se consideram reacionários ou fascistas, mas que aproveitam essa onda. Já era o caso durante as eleições presidenciais de 2017. Havia elementos de discurso conspiratório em Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen. Havia também alguns em François Fillon, quando falava da “conspiração dos juízes”. Havia até em Emmanuel Macron, que se apresentava como o candidato anti-sistema. FI: Qual você acha que é o principal perigo da conspiração? A conspiração reprova a democracia por supostas falhas de caráter ditatorial. Ela ataca as instituições democráticas dizendo que mentem, que manipulam... Aqueles que se manifestam com o grito de "liberdade" contra Emmanuel Macron, que denunciam a "censura" e a "ditadura da saúde" também reivindicam os grandes princípios democráticos. Eles se consideram democratas, revolucionários, lutadores da resistência, estão persuadidos de que atacam uma lógica ditatorial. Hoje, muitas pessoas que se dizem anti-sistema questionam a democracia, de fato, e também frequentemente apoiam regimes autoritários, como o de Vladimir Putin na Rússia. Eles equiparam a democracia liberal, por mais imperfeita que seja, a uma ditadura, o que não é correto. É pernicioso. Houve uma inversão de valores nos últimos vinte anos. Com o tempo, essa forma de pensar se espalhou na sociedade, este está cada vez mais desinibida. FI: Como podemos lutar contra o conspiracionismo? MP: A conspiração é uma maneira ruim de fazer perguntas. A dúvida está equivocada. O conspirador pensa que duvida, mas na realidade já tem sua história, seu postulado dado. Os conspiradores do 11 de setembro já estão convencidos de uma encenação. A partir daí, eles vão questionar tudo o que é dito e procurar corroborar sua visão por todos os meios possíveis. Para não entrar na banalização desta conspiração, devemos lutar concretamente. Há a luta no dia a dia, tanto pela “averiguação” e pela “desmistificação”, mas, também, pela denúncia da ideologia que está por trás deste tipo de discurso. Devemos também tentar recriar a confiança. Há muito a ser feito por políticos, jornalistas, todas as profissões de "autoridade". Você tem que ir para o campo, conhecer pessoas, sair do mundo digital. Devemos recriar o vínculo social. Não conseguiremos convencer as pessoas que aderem a esta ideologia com soluções fáceis, porque já não acreditam em nós. Isso nos força a rever nossa própria relação com o mundo. A entrada no século XXI é o declínio das grandes ideologias. O "nunca mais", que tinha nos estruturado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está desaparecendo. Não sabemos mais em que nos apoiar para ter algo que nos conecte como sociedade. É difícil falar sobre o que está acontecendo conosco com a mesma linguagem de antes. A Covid-19 mostrou-nos, infelizmente. Diante dessa falta de projetos políticos estimulantes, surge um apelo ao vazio. Entrevista original pode ser acessada no link: GRAND ENTRETIEN. Comment le 11-Septembre a ouvert la voie au complotisme à grande échelle Publicada em: 12/09/2021 Tradução: Gabriela Mitidieri, editora da revista Mulheres do fim do mundo.

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Traduções: Malala Yousafzai
Traduções: Malala Yousafzai

Malala: Eu sobrevivi ao Taliban. Eu temo por minhas irmãs afegãs. 17 de agosto de 2021 Por Malala Yousafzai* Fotografia: Belgaimage Nas últimas duas décadas, milhões de mulheres e meninas afegãs receberam uma educação. Agora o futuro que lhes foi prometido está perigosamente perto de se esvair. O Talibã - que até 20 anos atrás proibia quase todas as meninas e mulheres de frequentar a escola e punia duramente aqueles que os desafiavam - está de volta ao controle. Como muitas mulheres, eu temo por minha irmãs afegãs. Eu não posso deixar de pensar na minha própria infância. Quando o Talibã tomou conta de minha cidade natal no Vale Swat, no Paquistão, em 2007, e logo depois disso, proibiu as meninas de receberem uma educação, escondi meus livros sob meu longo e pesado xale e caminhei para a escola com medo. Cinco anos mais tarde, quando eu tinha 15 anos, o Talibã tentou me matar por falar sobre meu direito de ir à escola. Não posso deixar de ser grata pela minha vida agora. Depois de me formar na faculdade no ano passado e começar a abrir minha própria trajetória profissional, eu não consigo imaginar perder tudo - voltar a uma vida definida para mim por homens com armas. Meninas e jovens mulheres afegãs estão mais uma vez onde eu estive - desesperadas com a ideia de que talvez nunca lhes seja permitido ver uma sala de aula ou segurar um livro novamente. Alguns membros do Talibã dizem que não negarão educação ou o direito de trabalhar às mulheres e meninas. Mas dado o histórico do Talibã de suprimir violentamente os direitos da mulher, os medos das mulheres afegãs são reais. Já estamos ouvindo relatos de estudantes femininas sendo afastadas de suas universidades, e trabalhadoras de seus escritórios. Nada disso é novo para o povo do Afeganistão, que está preso há gerações em guerras por procuração [1] de potências globais e regionais. As crianças nasceram para a batalha. As famílias vivem há anos em campos de refugiados; milhares de outras fugiram de suas casas nos últimos dias. As Kalashnikovs [2] carregadas pelo Talibã são um fardo pesado sobre os ombros de todo o povo afegão. Os países que utilizaram os afegãos como peões em suas guerras de ideologia e ganância os deixaram para suportar o peso por conta própria. Mas não é tarde demais para ajudar o povo afegão - particularmente mulheres e crianças. Durante as últimas duas semanas, falei com vários defensores da educação no Afeganistão sobre suas situações atuais e o que eles esperam que vai acontecer em seguida. (Não estou nomeando-os aqui devido a preocupações com a segurança.) Uma mulher que dirige escolas para crianças rurais me disse que perdeu o contato com seus professores e alunos. "Normalmente trabalhamos na educação, mas neste momento estamos nos concentrando em barracas", disse ela. "As pessoas estão fugindo aos milhares, e nós precisamos de ajuda humanitária imediata para que as famílias não morram de fome ou por falta de água potável". Ela ecoou um apelo que eu ouvi de outros: poderes regionais deveriam estar ajudando ativamente na proteção de mulheres e crianças. Países vizinhos - China, Irã, Paquistão, Tajiquistão, Turcomenistão - devem abrir suas portas para os civis em fuga. Isso salvará vidas e ajudará a estabilizar a região. Eles também devem permitir que crianças refugiadas se matriculem em escolas e que organizações humanitárias locais criem centros de aprendizado temporários em acampamentos e assentamentos. Olhando para o futuro do Afeganistão, outro ativista quer que o Talibã seja específico sobre o que eles permitirão: "Não é o bastante dizer vagamente: ‘As garotas podem ir à escola’. Precisamos de acordos específicos para que as meninas possam completar sua educação, possam estudar ciências e matemática, possam ir à universidade e ser autorizadas a ingressar na força de trabalho e fazer os trabalhos que escolherem". Os ativistas com quem falei temiam um retorno à educação apenas religiosa, o que deixaria as crianças sem as habilidades necessárias para realizar seus sonhos e seu país sem médicos, engenheiros e cientistas no futuro. Nós teremos tempo para debater o que deu errado na guerra do Afeganistão, mas neste momento crítico devemos ouvir as vozes de mulheres e meninas afegãs. Elas estão pedindo proteção, educação, liberdade e o futuro que lhes foi prometido. Nós não podemos continuar a fracassar com elas. Não temos tempo a perder. *Malala Yousafzai (@malala), que sobreviveu a uma tentativa de assassinato do Talibã, é uma ativista pela educação das meninas e a mais jovem laureada com o Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ela também é co-fundadora do Fundo Malala. Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de tradução [1] No original, “proxy wars”. São chamadas “guerras por procuração” conflitos armados que ocorrem em países que representam os interesses de outros países (frequentemente mais potentes). Para maiores informações ver: https://www.scielo.br/j/cint/a/hMMrnxLKDmqyC5pPLQRZNmM/?format=pdf&lang=pt e também: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/proxy-war [2] Kalashnikov é um tipo de rifle também conhecido como AK-47.

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Tradução: Colocando as mulheres em mais pé de igualdade nas Olimpíadas
Tradução: Colocando as mulheres em mais pé de igualdade nas Olimpíadas

Quase metade dos atletas deste ano serão mulheres, mais do que em qualquer outro Jogo da história. E, em alguns eventos, mulheres e homens competirão juntos. Publicado em 28 de maio de 2021 Atualizado em 22 de julho de 2021 Gretchen Reynolds* Nikita Ducarroz da França, uma ciclista de elite BMX [1], girou e chicoteou sua bicicleta através de movimentos audaciosos de estilo livre em um isolamento quase total nas competições internacionais. "Há quatro anos, poderia haver oito mulheres nos principais eventos da Copa do Mundo", disse ela sobre os torneios realizados pela União Internacional de Ciclismo. Então, em 2017, o Comitê Olímpico Internacional anunciou que o ciclismo livre masculino e feminino BMX seria acrescentado às Olimpíadas de Tóquio de 2020, elevando instantaneamente as representantes do esporte. "De repente, tantas meninas novas se interessaram em pedalar", disse Ducarroz, 24 anos, que representará a Suíça nos Jogos. "Há alguns anos, eu poderia citar todas as outras mulheres que estavam competindo. Não mais". É como um novo esporte agora. As Olimpíadas mudaram tudo". De acordo com a I.O.C. (Comitê Olímpico Internacional), as mulheres representarão 48,8% do campo total dos Jogos Olímpicos, um aumento em relação aos 45% de participação nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 e aos 2,2% nos Jogos Olímpicos de 1900, os primeiros a incluir mulheres. Lá, 22 mulheres apareceram em cinco esportes "femininos", incluindo golfe e croquete. Este foco no número e na visibilidade das mulheres nas Olimpíadas representa o auge de uma estratégia iniciada em 2014, quando a I.O.C. adotou uma nova agenda de planejamento que incluía explicitamente um compromisso com a "igualdade de gênero". Esse objetivo terá sido realizado com esses Jogos, disse um porta-voz do comitê. Se assim for, os Jogos Olímpicos de 2020 poderão se tornar um momento liminar para as esportistas, aumentando o interesse e as oportunidades para as competidoras, atraindo novos patrocinadores e acordos de transmissão, abrindo cargos de treinadora e liderança, e promovendo o impulso para a igualdade de remuneração nos esportes femininos e masculinos. Mas os analistas e mesmo algumas atletas continuam não convencidos de que os Jogos possam realizar tanto. "Historicamente, o impulso que os Jogos Olímpicos e todos os grandes eventos esportivos deram ao interesse e à cobertura das mulheres não se traduziu em mudanças duradouras", disse Olga Harvey, a diretora de estratégia e impacto da Women's Sports Foundation, uma organização fundada pela estrela do tênis Billie Jean King. [2] Estes Jogos também sustentaram a reputação de apoiar as mulheres quando ambos, presidente do comitê organizador e diretor executivo de criação dos Jogos e outras cerimônias foram levados a renunciar após observações consideradas sexistas. [3] Ainda assim, a maioria dos analistas e das atletas têm pelo menos uma esperança de que os Jogos serão diferentes. Nenhum evento esportivo global anterior mostrou mulheres na mesma medida, inclusive nos novos “marquee sports”. [4] Neste verão, mais de 5.000 atletas femininas competirão em mais de 300 eventos, muitos envolvendo velocidade, risco, força, inteligência e garra. [5] A programação competitiva também destacará os eventos femininos, com muitas faixas de horário durante os principais períodos de transmissão global. Na verdade, todos os cinco novos esportes que estreiam ou retornam aos Jogos deste ano - surf, skate, escalada esportiva, karatê, beisebol e softball - oferecem números idênticos de eventos para homens e mulheres e totais quase iguais de competidores masculinos e femininos. Da mesma forma, vários esportes olímpicos existentes, alguns outrora dominados por homens, adicionaram novos eventos midiáticos com divisões femininas, incluindo o BMX freestyle park riding e canoagem individual. Outros esportes criaram novas competições mistas, onde homens e mulheres competem juntos. Ao todo, 18 eventos neste verão serão mistos, duas vezes mais do que nos Jogos do Rio. Estas competições mistas de gênero incluem um revezamento em pista 4x400, duplas mistas em tênis de mesa e um revezamento misto de quatro pessoas em triatlo. Nesse evento, cada competidor nada 300 metros (cerca de 325 jardas), percorre oito quilômetros (cerca de cinco milhas) e faz um sprint final de dois quilômetros, antes de bater a mão de seu companheiro de equipe. (Somente os eventos eqüestres permitem que homens e mulheres possam competir frente a frente, tanto como cavaleiros quanto como montadores). Para as atletas, estes novos eventos e o foco geral dos Jogos são desafiantes e empolgantes. "Eu gosto de competir com homens", disse Léonie Périault, 26 anos, uma triatleta francesa de primeira linha, que espera representar a França no triatlo individual nos Jogos de Verão e no novo revezamento misto. "Fazendo triatlo desde jovem, eu costumava correr contra meninos, e queria vencê-los", disse ela em um e-mail. "Agora, no nível de elite, as corridas são separadas, mas corremos as mesmas distâncias, e acho que isso mostra que as mulheres são tão capazes de grandes desempenhos quanto os homens". O formato de composição mista, em particular, sublinha o quão pequenas são as margens que separam atletas homens e mulheres. Um olímpico masculino provavelmente consegue atravessar sua perna de revezamento em menos de 19 minutos e uma colega de equipe em cerca de 20, disse ela. "No revezamento misto, estamos em pé de igualdade, homens e mulheres", disse ela. "Eventos mistos como este revezamento tornam possível perceber não apenas que as mulheres podem correr com os homens, mas que a diferença no nível atlético não é muito importante. O esporte é universal e feito para todos". Giancarla Trevisan, 28 anos, uma atleta americana que representará a Itália nas Olimpíadas como parte do revezamento misto 4x400 do país, disse que estava hesitante. "Quando ouvi pela primeira vez falar de revezamentos mistos, achei a ideia um pouco tola, para ser honesta", disse ela, "como se fosse algo similar a cheerleading". Mas sua opinião mudou durante sua primeira corrida mista. "Eu gostei muito", disse ela. Correr com homens aumentou os níveis de competição e camaradagem: "Estamos fazendo a mesma distância em quase o mesmo tempo, e nos apoiamos completamente uns aos outros". Nas Olimpíadas, ela continuou, a diferença de tempo entre as pernas de revezamento das mulheres e as dos homens se tornou quase imperceptível, uma questão de segundos. "Espero que as meninas lá fora nos observem e aprendam que elas podem ser tão boas quanto qualquer um na pista e na vida". Espero que elas aprendam a se sentir confiantes em si mesmas, que experimentem novos esportes, que assumam desafios. É isso que espero que o revezamento misto e as próprias Olimpíadas possam realizar". Ela tem uma cautela, no entanto. "Aprendi que tenho que estar mais preparada" durante a parte de entrega do revezamento misto, disse ela, se o corredor for masculino. "Os caras vêm na brasa". Num contexto mais amplo, espera-se que os Jogos de Verão de 2020 expandam a percepção dos espectadores sobre o que constitui o esporte feminino e as capacidades das mulheres. Pela primeira vez nas Olimpíadas, as mulheres vão “flipar” bicicletas BMX, ondas de espuma e skates pop-shove em frente a um dos maiores públicos mundiais para um evento esportivo. "Tanta gente vai ver skate pela primeira vez" nestes Jogos, disse Lizzie Armanto, 28 anos, dos Estados Unidos, que estará competindo pela Finlândia em Tóquio. "E eu acho que eles ficarão bastante surpresos. As garotas fazem muitos dos mesmos truques que os garotos. Nós caímos tão forte quanto eles. Nós nos levantamos tão rápido quanto eles. Continuamos tentando mais e mais coisas difíceis. Vai ser muito divertido assistir e acho que vai ensinar muito às pessoas sobre o que as garotas podem fazer". É claro que nem todos os atletas e comentaristas ficaram encantados com o aumento da participação e do perfil das mulheres nestas Olimpíadas. Alguns eventos masculinos foram cancelados ou reduzidos para dar lugar a mais mulheres, com resmungos e recuos previsíveis. "No início, alguns atletas masculinos mostraram sua frustração com as perdas dos eventos", disse José Perurena López, presidente da Federação Internacional de Canoagem, que substituiu vários eventos masculinos de canoa e caiaque por corridas femininas após os Jogos de 2016. Mas os homens "imediatamente entenderam que não havia outra alternativa", disse López. "Estou mais do que satisfeito" com a situação hoje, continuou ele. "As mulheres demonstraram em apenas quatro anos que são capazes de competir em canoa com o mesmo nível técnico que os homens". Mais preocupante para alguns observadores, incluindo os afiliados aos Jogos Olímpicos, é a possibilidade de que qualquer influência benéfica no esporte feminino possa ser fugaz ou insubstancial. "Fora do campo de jogo, a I.O.C. e o movimento olímpico devem se concentrar na igualdade de gênero dentro da comitiva dos atletas e mais especificamente nos treinadores", disse Lydia Nsekera, membro da I.O.C. e presidente da Comissão de Mulheres no Esporte da organização. "Em média, nos últimos 10 anos, as mulheres representaram apenas 10% dos treinadores nos Jogos Olímpicos. O fato de este número não ter se movido em uma década é alarmante e precisa ser abordado". Harvey, da Women's Sports Foundation, disse que este ano, de fato, parecia diferente. "Tem havido uma construção constante de interesse, cobertura e pagamento para as mulheres no esporte", disse ela. Mas, a menos que o impulso destas Olimpíadas se traduza em uma onda de dinheiro e posições de liderança para as mulheres no esporte, ela disse, terá sido apenas um hype”. Ainda assim, as atletas continuam não apenas otimistas, mas também entusiasmadas com os Jogos e suas reverberações, disse Ducarroz, que será a única atleta de BMX da Suíça. "Está abrindo tantas portas, em tantos níveis, para as mulheres e para o BMX", disse ela. "Está nos tornando atletas melhores, porque, com mais de nós competindo, estamos nos incentivando umas às outras". Uma ciclista sobe a caixa de lançamento com uma barraca de pino duplo, as garotas em casa fazem “ooooh” e tomam notas, e as mulheres avançam no esporte. *Gretchen Reynolds foi repórter de saúde e fitness para as revistas Runner's World e Bicycle. Atualmente, é colaboradora frequente das revistas Oprah e Women's health. Publica uma coluna no New York Times. Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves Revisão: Gabriela Mitidieri Notas de tradução e revisão [1] BMX (Bicycle motocross ou bicicross em português) “é um esporte praticado com bicicletas especiais, uma espécie de corrida em pistas de terra. Surgiu no final da década de 1950 na Europa e se popularizou na Califórnia no começo dos anos 1960”. https://pt.wikipedia.org/wiki/BMX [2] No original "Women’s Sports Foundation, an advocacy organization". Um "advocacy group", no inglês, é um grupo que defende uma causa política ou social. [3] Ver: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/02/04/apos-declaracoes-sobre-mulheres-chefe-da-olimpiada-de-toquio-pede-desculpas-mas-descarta-renuncia.ghtml [4] Marquee sports é uma rede regional de esportes dedicada exclusivamente ao Cubs Baseball. https://en.wikipedia.org/wiki/Marquee_Sports_Network [5] Não compreendemos por que esses adjetivos (“speed, risk, strength, smarts and guts” no original) aparecem no texto como se fossem um desafio particular para mulheres.

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Traduções: Interregno Americano, entrevista com Nancy Fraser
Traduções: Interregno Americano, entrevista com Nancy Fraser

Entrevista feita por Alessandra Spano* com Nancy Fraser** Alessandra Spano - Que tendências você vê surgindo das crises social, de saúde e econômica produzidas pela Covid-19? O que as reconstruções pós-pandêmicas nos dizem sobre a crise nos serviços de assistência? Nancy Fraser - Tanto a pandemia quanto a resposta a ela representam a irracionalidade e a destrutividade do capitalismo. A crise dos serviços de assistência já era evidente antes do surto de Covid, mas foi muito exacerbada por ele. A condição pré-existente, por assim dizer, era o capitalismo financeirizado - a forma especialmente predatória que dominou nos últimos quarenta anos, erodindo progressivamente nossa infraestrutura de assistência pública pelo desinvestimento em nome da "austeridade". Mas, na verdade, todas as formas de sociedade capitalista funcionam permitindo que as empresas [os negócios] tirem vantagem [1] do serviço de cuidados não pago [2]. Subordinando a produção de pessoas à produção de lucros, ela engendra uma tendência à crise social reprodutiva. Mas o mesmo vale para a atual crise ecológica, que reflete uma dinâmica estrutural profunda que estimula o Capital a tirar proveito da natureza, sem pensar em reparos ou reposição, desestabilizando periodicamente os ecossistemas e as comunidades que eles sustentam. O mesmo se aplica à nossa atual crise política, que reflete o severo enfraquecimento dos poderes públicos por megacorporações, instituições financeiras, revoltas fiscais por parte dos ricos, resultando em obstrução e sub-investimento em infraestrutura crucial. Embora isso tenha se tornado especialmente agudo pela neoliberalização, expressa uma tendência à crise política que está embutida em todas as formas de sociedade capitalista. A crise da assistência médica está inextricavelmente entrelaçada com outras disfunções - ecológicas, políticas, étnico-raciais - que se somam a uma crise geral da ordem social. Os efeitos de Covid em humanos seriam terríveis em quaisquer condições. Mas eles foram agravados pelo fato de o Capital, neste período, ter canibalizado o poder público - as capacidades coletivas que, de outra forma, poderiam ter sido usadas para mitigar os efeitos da pandemia. Como resultado, a resposta foi dificultada em muitos países, incluindo os EUA, devido à décadas de desinvestimento da infraestrutura crucial de saúde pública. Há uma tendência nos EUA de culpar Trump. Mas isso é um erro. O desinvestimento já ocorre há décadas. AS - O governo Clinton nos anos 90 deu os primeiros passos nesse sentido. NF - Sim, toda uma série de administrações dos Estados Unidos, tanto democratas quanto republicanas, desinvestiram na infraestrutura essencial de saúde pública. Eles reduziram os estoques de equipamentos essenciais como EPIs, ventiladores, máscaras, esgotaram capacidades vitalmente importantes - rastreamento de contratos, armazenamento e distribuição de vacinas - e deixaram subfinanciadas instituições fundamentais, como centros de pesquisa, hospitais públicos, unidades de UTI, agências governamentais de saúde. Os cientistas estavam alertando que outra epidemia viral era provável, mas ninguém ouviu. Portanto, quando a Covid chegou, os EUA estavam totalmente despreparados. Não tínhamos praticamente nenhum rastreamento de contato - e ainda não temos, depois de mais de um ano. As autoridades de saúde pública simplesmente não tinham capacidade para organizar isso e ainda não conseguiram criar uma maneira de aumentá-la. O colapso dos já fracos sistemas de assistência pública de saúde jogou todos os fardos para as famílias e comunidades - e especialmente para as mulheres, que ainda fazem a maior parte dos serviços de cuidado não remunerado. Sob confinamento, os cuidados infantis e a escolaridade foram repentinamente transferidos para as casas das pessoas, deixando as mulheres com esta responsabilidade além de muitas outras - e tendo que lidar com tudo isto em pequenos espaços domésticos, incapazes de suportar essa carga. Muitas mulheres empregadas acabaram deixando seus empregos para cuidar de filhos e outros parentes; muitas outras foram demitidas. Um terceiro grupo, sortudo o bastante para manter seus empregos e trabalhar remotamente de casa, ao mesmo tempo em que realizava serviços de cuidado, inclusive para crianças enfermas, teve que elevar a habilidade de “multitarefa” a novos patamares de loucura. Um quarto grupo, de 'trabalhadoras essenciais', enfrenta a ameaça de infecção diariamente na linha de frente, o medo de levar o vírus para casa e para suas famílias, enquanto faz o que precisa ser feito, muitas vezes por salários muito baixos, para que outras, mais privilegiadas, possam acessar os bens e serviços de que precisam para se isolar em casa. Quais mulheres se encontram em cada grupo tem tudo a ver com classe e cor. É como se alguém tivesse injetado um contraste [tinta] no sistema circulatório do capitalismo, iluminando todas as suas falhas constitutivas. AS - Nos Estados Unidos, o surto de Covid foi seguido por uma onda impressionante de protestos, principalmente liderados por jovens negros, contra a violência policial racista. O slogan ‘Black Lives Matter’ assumiu um significado diferente durante a pandemia? É uma questão importante. Por que o ressurgimento da atividade militante anti-racista nos Estados Unidos coincidiu com a pandemia de Covid? Os assassinatos de pessoas de cor [3] pela polícia já acontecem há muito tempo, assim como as lutas contra eles. Então, por que os protestos se tornaram tão grandes e sustentados exatamente naquele momento, em meio a uma terrível crise de saúde? Alguns sugeriram que os meses de lockdown criaram intensa pressão psicológica, que encontrou uma válvula de escape muito necessária nas ruas. Mas acho que há razões mais profundas, forjadas na crise, que provocaram alguns grandes lampejos de percepção política. A constatação de que essas duas expressões aparentemente distintas de racismo estrutural - vulnerabilidade díspar à morte por vírus e vulnerabilidade díspar à morte por violência policial - estavam na verdade vinculadas, de que ambas estavam enraizadas no mesmo sistema social. Quando os protestos eclodiram em maio de 2020, já estava claro que os americanos de cor, e os negros em particular, estavam contraindo e morrendo de forma desproporcional de Covid. Eles tiveram menos acesso aos cuidados de saúde e uma taxa mais alta de doenças ligadas à pobreza e à discriminação, e associadas a resultados ruins de Covid - asma, obesidade, estresse, pressão alta. Eles enfrentaram maiores riscos de exposição, graças aos trabalhos de linha de frente que não podiam ser realizados remotamente e às condições de habitação: lotadas. Tudo isso foi amplamente divulgado na mídia. E ressoou, emprestando um novo significado a ‘Black Lives Matter’. O slogan já vinha circulando desde 2014, quando o assassinato de Michael Brown pela polícia em Ferguson (Missouri) deu início ao “Movimento por Vidas Negras” [Movement for Black Lives]. Desde então, tem havido muita organização, incluindo grupos de conscientização e leitura, formando uma nova geração de ativistas anti-racistas militantes, especialmente jovens ativistas negros. Esse era o contexto, a atmosfera em que relatórios do impacto racializado da Covid eram recebidos e processados. Além disso, veio o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis [em 2020], capturado para todo o mundo ver, naquele vídeo enfurecedor e comovente. E então o fusível foi aceso. Em outras palavras, o momento não foi coincidência. A convergência da pandemia e do protesto contra a violência policial expressou a expansão, o aprofundamento do ‘Black Lives Matter’. Um primeiro nível de significado era que, se as vidas de negros realmente importassem para o sistema de 'justiça' criminal dos EUA, então as múltiplas formas de violência racializada dentro dele não existiriam. Com o impacto da pandemia, também passou a significar: vidas negras não deveriam ser desproporcionalmente perdidas e encurtadas por esta mistura letal de exposição a infecções e problemas de saúde pré-existentes - apontando também para condições estruturais subjacentes. O impacto eleitoral do BLM (Black Lives Matters) foi extremamente positivo, mais obviamente no estado da Geórgia, que mudou de vermelho profundo para azul, dando seus votos eleitorais a Biden e trocando duas cadeiras no Senado, dando uma para um afro-americano e a outra para um judeu (o que é uma grande novidade na [região comumemte referida por] Deep South) e, portanto, entregando o controle do Senado ao partido Democrata. A dinâmica em ação aqui incluiu a repulsa suburbana branca contra Trump, bem como a participação maciça dos negros, esta última sem dúvida galvanizado pelo Black Lives Matter, mas também preparada por anos de organização do tipo 'saia e vote' naquele estado - o trabalho duro e sustentado de ativistas de base, como Stacey Abrams. AS - A derrota de Trump na eleição foi saudada como uma vitória, mas não parece que o mesmo entusiasmo foi despertado pela vitória de Biden. Como você lê o resultado das eleições americanas? Um "neoliberalismo progressista" venceu de forma decisiva o populismo reacionário do bloco Trump e o populismo progressista de Sanders? Permanecemos, para usar os termos de Gramsci, em um interregno, onde o velho está morrendo, mas o novo não pode nascer. Nessa situação, você tende a ter uma série de oscilações políticas, oscilações de vaivém entre alternativas que estão esgotadas e não podem ter sucesso. No momento, no entanto, ainda não voltamos do trumpismo para o "neoliberalismo progressista", em grande escala personificado pelos governos Clinton e Obama. Isso ainda pode acontecer, é claro, mas a partir de agora o movimento do pêndulo está sendo controlado pela encorajada ala esquerda do Partido Democrata. A derrota de Trump foi garantida por uma aliança entre o centro neoliberal estabelecido do Partido, a ala Clinton-Obama, e sua oposição populista de esquerda - a ala Sanders-Warren-AOC. Certo, os centristas haviam arquitetado a expulsão brutal de Sanders do processo primário, apesar - ou por causa - de sua forte exibição, a fim de abrir caminho para que o então tropeço Biden se tornasse o candidato do Partido. Mas, ao contrário de 2016, as duas alas se uniram para as eleições gerais. A facção de Sanders deu um apoio bastante irrestrito a Biden contra Trump e, em troca, ganhou mais voz na política. O resultado é que populistas progressistas e neoliberais progressistas estão agora em uma coalizão. Os populistas são a parte mais fraca nesta aliança e não estão representados no gabinete de Biden. Mesmo assim, sua influência cresceu. Sanders agora lidera o poderoso Comitê de Orçamento do Senado e é frequentemente entrevistado na TV nacional, o que é novo - ele nunca foi tratado como um porta-voz ou comentarista importante. Então, também ‘The Squad’, o caucus de Alexandria Ocasio-Cortez [4] no Congresso, dobrou seus números, vencendo algumas disputas parlamentares importantes nas eleições de 2020. E na política interna, os centristas moveram-se para a esquerda. Os democratas em ambas as casas votaram unanimemente a favor do projeto de lei de alívio da Covid de US $ 1,9 trilhão de Biden, que contém vários itens na lista de desejos do populista progressista. Esse pacote reflete claramente a força e a influência da ala Sanders. Ainda assim, teve o apoio dos consultores econômicos de Biden que, embora certamente não "na esquerda", representam pelo menos uma ruptura parcial com os ex-alunos da Goldman-Sachs [5] que dirigiram o Departamento do Tesouro por décadas e nos trouxeram a financeirização. Liderada por Janet Yellen, a orientação da nova equipe é neo ou quase keynesiana; embora ainda comprometidos com o "livre comércio", eles renunciaram, pelo menos temporariamente, à lógica de austeridade e priorizaram o pleno emprego em vez da baixa inflação. vários itens na lista de desejos do populismo progressista. O estado atual da administração Biden representa uma formação de compromisso. Sua política de (re) distribuição mescla alguns elementos reativados do pensamento do New Deal com o lado do livre comércio da economia política neoliberal, enquanto sua política de reconhecimento inclui elementos meritocráticos e igualitários. Existem muitas tensões embutidas aqui, e estas estão fadadas a explodir mais cedo ou mais tarde. Resta saber quando e de que forma - também, se elas podem ser resolvidas e em que termos. Em geral, a aliança esquerda / liberal é instável e não durará para sempre. Mas o que exatamente a substituirá ainda não está claro. Uma variável-chave é até que ponto as políticas de Biden irão satisfazer uma população cambaleando não apenas com as consequências econômicas e de saúde da pandemia, mas também com as "condições pré-existentes". Quarenta anos de desindustrialização e deslocalização [6], financeirização, quebra de sindicatos, McJobificação [7], decadência da infraestrutura - assim como violência policial, devastação ambiental, fragmentação da rede de segurança social: tudo que serviu para piorar as condições de vida dos pobres, da classe trabalhadora, das classes média e baixa. Esses são os processos que desencadearam a deserção em massa do "neoliberalismo progressista", na revolta populista de dois lados de 2016 - Trump, de um lado, Sanders, do outro. E ambos os movimentos continuarão de uma forma ou de outra, enquanto esses processos continuarem. Portanto, o futuro do compromisso de Biden depende de sua capacidade de fazer concessões pró-classe trabalhadora suficientes para manter os populistas de esquerda a bordo e embotar a força dos populistas de direita. Além disso, também deve manter a classe de investidores feliz. Não é um trabalho fácil. AS - A eleição de Kamala Harris provocou reações mistas na esquerda, entre aqueles que enfatizam ter uma mulher negra como vice-presidente e aqueles que criticam suas posições anteriores sobre a pena de morte e seu encobrimento de abusos de autoridade como procuradora-geral da Califórnia. Qual é a sua análise? Nunca fui uma grande fã do que Anne Phillips uma vez chamou de 'política de presença', a ideia de que eleger alguém que se parece com você - por exemplo, uma mulher ou uma pessoa de cor - é em si uma grande conquista . Ninguém minimamente feminista [Margaret] Thatcher [8]. Nós, nos Estados Unidos, estamos mais esclarecidos sobre isso agora, eu acho, depois de termos eleito um afro-americano para a presidência em 2008. Muitas pessoas votaram com tremendas esperanças de uma grande mudança, que o candidato cultivou deliberadamente por meio de uma retórica de campanha incrementada. E o resultado foi uma profunda decepção. Uma vez no poder, Obama rapidamente abandonou o discurso inspirador e governou como um neoliberal progressista. Depois dessa experiência, ninguém que pense profundamente sobre política ficará muito entusiasmado com a ascensão de Harris à vice-presidência. Temos um velho ditado: ‘me engane uma vez, vergonha para você; me engane duas vezes, vergonha para mim '. Em qualquer caso, Harris - ao contrário de Obama - não é uma desconhecida da política nem uma oradora em ascensão. Ela tem um longo histórico político como promotora e administradora "dura com o crime" - e como uma ambiciosa operadora política. Você teria que ser deliberadamente cego para pensar nela como um farol de "esperança e mudança". Por outro lado, ela é muito inteligente e flexível, boa em “ler as folhas de chá” [9] e ajustar seu caminho de acordo. Ela poderia possivelmente se mover um pouco para a esquerda se esse movimento servisse às suas ambições, que incluem a presidência para a qual ela agora está sendo preparada como a número dois de Biden e suposta sucessora. Mas na medida em que ela é alguém que segue o fluxo, é mais importante analisar o fluxo. Quando o compromisso de Biden entrar em colapso, como deve acontecer, os liberais provavelmente irão atacar a esquerda e tentar ressuscitar o neoliberalismo progressista sob uma nova roupagem, assim como as forças do MAGA (Make America Great Again) [10] tentarão ressuscitar sua alternativa reacionário-populista. Nesse ponto, a esquerda enfrentará uma encruzilhada. Neste cenário, poderiam desdobrar-se formas de políticas de identidade superficiais que impulsionam o fetichismo da cultura do cancelamento e da diversidade. Por outro lado, poderia ser feito um grande esforço para se construir uma terceira alternativa, articulando uma política inclusiva de reconhecimento com uma política igualitária de redistribuição. A ideia seria separar os elementos pró-classe trabalhadora de cada um dos outros dois blocos e uni-los em uma nova coalizão anticapitalista, comprometida com a luta por toda a classe trabalhadora - não apenas os negros, os imigrantes e mulheres que apoiaram Sanders, mas também cortejando - com base em seus interesses econômicos - aqueles que desertaram para Trump. Essa coalizão pode ser entendida como uma versão da esquerda populista. Mas vejo isso menos como um ponto final do que como um estágio de transição, a caminho de algo mais radical - uma transformação estrutural profunda de todo o nosso sistema social. Isso exigiria não apenas uma política de populismo de esquerda, mas algo mais como um eco-socialismo democrático. *Alessandra Spano é colaboradora da New Left Review. **Nancy Fraser é filósofa feminista afiliada à Teoria Crítica. Professora de filosofia e ciência política na New School University, em Nova York. Texto original: Nancy Fraser, American Interregnum — Sidecar Traduzido por: Gabriela Mitidieri Revisado por: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de tradução e revisão: [1] No original, “free-ride”. Esse termo circula tanto nas Ciências Sociais quanto na Economia, em ambos é referido na análise e abordagem de condutas clandestinas e corruptas. Para saber mais clique aqui e aqui [2] No original, “care work”. Esse termo, traduzido aqui como “serviços de cuidado” vem sendo discutido no âmbito da economia por conta dos impactos que pode gerar nas contas de um Estado. Esses serviços incluem o trabalho realizado por mulheres ao administrar a casa e gerenciar a educação das crianças, trabalhos sociais voluntários, e outros serviços sociais prestados, podendo ser remunerados ou não. Ver: What is 'care work'? — Economy e https://www.scielo.br/j/rk/a/VWLgnQfY5n3ZQwRp6rs7CWC/?lang=pt [3] Tradução literal. No original: “people of color”. Segundo o professor de ciência política e psicologia Éfrén Pérez, “people of color” é uma categoria identitária que ganhou força nos anos de 1960, com o crescimento dos processos de imigração nos EUA. Foi criada dentro do Movimento negro como forma de chamar a atenção para experiências similares de pessoas racializadas nos Estados Unidos (pretas, asiáticas, latinas, muçulmanas etc). Era, também, uma forma de chamar à luta política mais unificada. Ainda de acordo com o professor, que tem feito pesquisas em torno do tema, há alguns grupos e indivíduos que pensam que a categoria dissimula diferenças e simplifica complexidades. Porém, em sua maior parte, “americans of color” (ou “people of color”) tem sido solidários nas lutas políticas. Ver: Black leaders started using the term “people of color” in the 1960s. Now it's a major identity. [4] “The Squad (em português: O Esquadrão) é o nome informal de um grupo de quatro mulheres eleitas nas eleições de 2018 para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, composto por Alexandria Ocasio-Cortez de Nova Iorque, Ilhan Omar de Minnesota, Ayanna Pressley de Massachusetts e Rashida Tlaib de Michigan. Todas são mulheres de cor com menos de 50 anos,[1] foram apoiadas pelo comitê de ação política Democratas da Justiça e estão na ala esquerda do Partido Democrata”. Ver: The Squad (Congresso dos EUA) – Wikipédia, a enciclopédia livre . Já o Caucus, nos EUA, é o nome que se dá a grupos de bairro, afiliados a um partido, que se reúnem para decidir qual nome sairá candidato a presidente do partido em questão. Estes grupos também elegem os delegados de cada estado, figuras fundamentais no sistema eleitoral norte-americano. Ver: Présidentielle américaine : comment fonctionnent les caucus et les primaires ? ; Caucus – Wikipédia, a enciclopédia livre [5] Goldman-Sachs é um grupo financeiro multinacional sediado em Nova Iorque. Uma das principais empresas globais de investimentos, conhecida por se infiltrar nas altas instâncias do Estado. [6] No original, “off-shoring”. Trata-se de realocar empresas ou fábricas onde os custos de produção e manutenção são mais baratos - geralmente, em outro país. Ver: http://periodicos.unesc.net/workshopcomex/article/view/2539 [7] No original, “McJobification”. O termo refere-se a trabalhos mal remunerados, com condições precárias. Ver: https://libcom.org/news/mcjobification-city-employment-precarious-workers-expereince-city-oakand-18022018 [8] Conhecida por sua austeridade, Margaret Thatcher ocupou o cargo de primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990. [9] Referência metafórica a um método de adivinhação que consiste na leitura das folhas de chá que ficam no fundo da xícara. Ver: READ THE TEA LEAVES (phrase) definition and synonyms [10] Slogan que já foi utilizado por políticos dos Partidos Democrata e Republicano nos EUA, mas, recentemente, popularizado na campanha de Donald Trump. Atualmente, a sigla MAGA é usada por comentadores e jornalistas norte-americanos para designar forças políticas e ideológicas próximas a Trump.

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Tradução 2: Skunk [1]: outra arma israelense para punição coletiva
Tradução 2: Skunk [1]: outra arma israelense para punição coletiva

As forças israelenses estão usando uma arma de "controle de multidões" com a qual punem coletivamente os civis palestinos por se atreverem a protestar. Yara Hawari* Em Nazaré, Haifa, Ramallah, Jerusalém e em outras localidades, palestinos têm se manifestado contra a contínua limpeza étnica nas mãos do regime israelense. Motivados e inspirados pela inabalável resistência das famílias palestinas que enfrentam despejos a força de suas casas no bairro do Sheik Jarrah em Jerusalém, eles tomaram corajosamente as ruas - corajosamente porque o fazem sabendo que o que os espera é uma brutal repressão por parte do exército e da polícia israelense. De fato, no complexo de Al-Aqsa, onde ocorreu grande parte da violência contra manifestantes, os palestinos receberam tiros e bombas de gás lacrimogêneo enquanto rezavam. Mais ao sul, Israel lançou ataques aéreos em Gaza, atingindo edifícios civis e matando mais de 40 pessoas, incluindo pelo menos 14 crianças. Para além dos mortos, centenas foram feridos por balas de borracha e letais, gás lacrimogêneo e espancamentos, mas também por uma arma que é menos conhecida da mídia global que cobre os protestos. Muitos se referiram erroneamente a ela como canhão de água ou um caminhão de esgoto [2]. Em árabe, chamamos de "kharara" - literalmente "o cagador" [3] - por seu cheiro pútrido. Em inglês, ela é chamada de skunk water, em referência ao cheiro notoriamente horrível liberado pelos gambás. A skunk water foi desenvolvida como uma "arma de controle de multidões" por uma empresa israelense chamada Odortec. A skunk water é um composto líquido com um odor avassalador que foi descrito por aqueles que a experimentaram como o cheiro de esgoto misturado com cadáveres em decomposição. Na realidade, é uma mistura de produtos químicos que causa náusea intensa, obstruindo a respiração normal, provoca violentos engasgos e vômitos. O documento de segurança da empresa também indica que ela pode causar irritação da pele, dor ocular e abdominal. Os palestinos também relataram que ela causa queda de cabelo. As forças de segurança que utilizam skunk water afirmam que ela não é letal e não é tóxica. No entanto, doses altas podem ter um efeito letal e, quando disparada de um canhão de água, é pulverizada a uma pressão extremamente alta, o que pode causar ferimentos graves. Mesmo uma pequena borrifada de skunk water deixa um mau cheiro na pele durante dias. Nas roupas e nos edifícios, o fedor pode durar ainda mais. É claro que as forças israelenses não a utilizam somente para reprimir os protestos, mas também para castigos coletivos. Caminhões de skunk water passam por bairros palestinos pulverizando edifícios em retaliação aos moradores locais que protestam contra a ocupação israelense e o apartheid [4]. Como resultado, as empresas têm que fechar por dias e as famílias têm que deixar suas casas por longos períodos até que o odor desapareça. Isto é o que faz dela uma ferramenta de punição coletiva brutal. Além de vender skunk water ao governo israelense para usar nos palestinos, a Odortec também a exporta. Nos Estados Unidos, ela é fornecida pela empresa Mistral Security, que recomenda seu uso em "postos de fronteira, instalações correcionais, demonstrações e sit-ins [5]". Vários departamentos policiais já a compraram, inclusive o de Ferguson, Missouri, após os protestos de 2015 contra a brutalidade policial e o racismo institucional. O fato de que esta arma desenvolvida por uma empresa israelense está ganhando popularidade no exterior não surpreende. Israel é o maior exportador per capita de armas do mundo e usa os palestinos como cobaias para demonstrar sua "eficácia" e sua "mortandade". A Odortec e outros fabricantes de armas israelenses não precisam sequer investir na comercialização de suas armas; os canais de notícias que divulgam filmagens de ataques brutais do exército israelense fazem o trabalho por eles. As empresas israelenses que produzem armas para matar em massa têm Gaza para testá-las. Os israelenses até chamaram a faixa densamente povoada, onde os civis não são protegidos por uma "cúpula de ferro" [6] ou abrigos militares sofisticados, de "galinha dos ovos de ouro" [7]. O horrendo resultado de décadas de práticas de "testes" das empresas de armas israelenses tem sido a morte e mutilação de milhares de palestinos. Israel exporta armas testadas em civis palestinos para cerca de 130 países, inclusive para governos com registros horríveis de direitos humanos. Para as pessoas desses países, que se encontram na ponta final da agressão das forças locais usando armas israelenses, os palestinos têm muitos conselhos. Especificamente para lidar com o "kharara", recomendamos o seguinte: se pegar na sua pele, esfregue tomate e azeite de oliva para ajudar a tirar o cheiro; se pegar em suas roupas, jogue fora. No geral, é melhor evitar ser atingido a todo custo. Para lidar com os efeitos psicológicos da repressão violenta e do castigo coletivo, os palestinos também têm uma recomendação: humor ácido. O "kharara" já figura de forma proeminente nas piadas palestinas. Uma delas é: o que você prefere enfrentar - tiros ou "kharara"? *Yara Hawari é doutora, escritora e analista política sênior da Al Shabaka. Além de seu trabalho acadêmico focado em estudos indígenas e história oral, ela também é uma comentarista política que escreve para vários meios de comunicação, incluindo The Guardian, Foreign Policy e Al Jazeera English. Ela frequentemente documenta e relata abusos cometidos pelas forças de ocupação israelenses na Palestina. twitter: @yarahawari Info da bio: https://www.frontlinedefenders.org/en/profile/yara-hawari Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves, professora doutora em história e editora da revista Muheres do Fim do Mundo. Notas da tradutora: [1] Nota da tradutora: conforme explica Yara Hawari, a palavra “skunk” do título se refere a um composto químico que tem sido usado como arma pelas forças armadas israelenses, muitas vezes chamado de “dirty water” ou “skunk water” - a expressão é mantida no original ao longo desta tradução. Já em 2014 a jornalista e correspondente internacional do jornal Le Monde, Florence Beaugé, denunciava seu uso contra os palestinos. Para maiores informações ver: https://www.bbc.com/news/magazine-34227609 e também o texto de Ana Echevenguá sobre a escassez de recursos hidráulicos na Palestina: https://www.ecodebate.com.br/2011/09/09/a-agua-como-arma-de-guerra-artigo-de-ana-echevengua/ [2] No original, “sewage truck”. [3] No original, “the shitter”. [4] Para se aprofundar um pouco mais nas discussões sobre o uso de apartheid no contexto palestino, recomendo o trabalho da Havana Alícia (em especial o terceiro capítulo): MARINHO, Havana Alícia de Moraes Pimentel. Ocupação israelense na Palestina: colonialidade, geopolítica e violações de direitos. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia, Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, 2015. E também o artigo: BARKAY, Rafaela. Nenhuma mulher será livre até que todas as mulheres sejam livres: um olhar sobre o conflito israelense-palestino sob o prisma feminista. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 16, n. 35, p. 53-70, abr. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2016000100004&lng=pt&nrm=iso> [5] Os “sit-ins” são protestos não violentos que ocorrem sobre a forma de ocupação de determinado espaço no intuito de chamar atenção para demandas específicas. Para maiores informações, ver: https://kinginstitute.stanford.edu/encyclopedia/sit-ins [6] No original, “Iron Dome”. Trata-se do sistema de defesa antiaérea israelense. [7] No original, “cash cow”. Texto original publicado em 12 de maio de 2021 e pode ser acessado aqui: https://www.aljazeera.com/opinions/2021/5/12/the-skunk-another-israeli-weapon-for-collective-punishment Imagem de capa: Prédio derrubado por ataque israelense em Gaza / AFP , acesso em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57069211

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Tradução 1: Colômbia, retrato de um país que se levanta
Tradução 1: Colômbia, retrato de um país que se levanta

Marina Sardiña* “Para o povo libertação, para o povo o que é do povo, para o povo a vitória”. [1] Este coro, entoado por milhares de pessoas, ressoou na última quarta-feira (05/05/2021) nas ruas de Bogotá durante uma nova jornada de greves nacionais. Um canto que ao cair da noite se viu sufocado pelo som das bombas de efeito moral lançadas pela polícia para dispersar os manifestantes. [2] Os protestos contra o governo de Iván Duque reuniram amplos setores da sociedade: jovens estudantes endividados devido aos custos para ingressar na universidade; coletivos feministas que exigem o fim da violência contra mulheres, que aumentou durante o confinamento com mais de 630 casos de feminicídios durante 2020, segundo o Observatorio Independente de Feminicidios de Colombia [3]; o setor médico, que rechaça as privatizações e desigualdades a que levará a iminente reforma da saúde. A pandemia mostrou que morrer por causa da Covid-19 na Colômbia era cinco vezes mais fácil para as classes baixas e, agora, em plena terceira onda de coronavírus, quando o país se aproxima dos três milhões de pessoas contaminadas e supera a marca de 76.000 mortos, os manifestantes temem mais as políticas governamentais do que a pandemia. Essas são as imagens do mal estar social durante os oito dias de protestos em todo país latino-americano. Eles foram iniciados no dia 28 de abril para exigir que o governo conservador de Duque eliminasse o projeto de Lei de Solidariedade Sustentável, uma reforma fiscal impulsionada pelo ex-ministro da fazenda Alberto Carrasquilla. Uma vez que a carta foi retirada do congresso “para redigir um novo texto”, ele anunciou sua demissão. A reforma tributária, que afetaria principalmente as classes médias e baixas do país, reacendeu um conjunto de insatisfações históricas, tanto nacionais, quanto setoriais e locais. “A situação econômica, social e de saúde também se fez presente nas manifestações. Embora tenha começado com uma reforma fiscal, as pessoas estão pedindo muitas outras reformas sociais dada essa acumulação de queixas, abandono, abusos e violações dos direitos humanos por parte da polícia. De alguma maneira as pessoas estão, também, protestando contra o governo”, explica Mauricio Albarracín, subdiretor do Centro de Investigação Colombiano de Justiça. A onda de protestos abarca o descontentamento com a classe política dirigente e a desconfiança nas instituições públicas. O clamor de milhares de jovens que não se sentem representados nem pelo Governo conservador no poder, que segue a estrela e as diretrizes do ex mandatário Álvaro Uribe Veléz [4], nem pelo principal candidato opositor, o esquerdista Gustavo Petro. Mas suas vozes também são retratos das carências sociais da segunda nação mais desigual da América Latina. “Antes da pandemia tiveram provavelmente os maiores protestos contra um governo em todo o país.” Relembra Albarracin sobre a greve nacional de novembro de 2019 [5], que perdeu forças devido às restrições impostas pela pandemia. Desde então ocorreram muitas mobilizações, como os protestos contra a violência policial no caso do assassinato do advogado Javier Ordoñez, gravado em vídeo. Um dos distúrbios que deixou dezenas de mortos em enfrentamentos com a polícia de Bogotá. Ou a chegada dos indígenas à Plaza Bolívar para conversar com o presidente, que se negou a sentar com as comunidades para escutar suas demandas. “É certo que durante todo o ano as pessoas têm protestado desde suas casas”, disse Albarracin. “Para onde se dirige a marcha?”, alguém perguntou a um grupo que se manifestava na quarta. “Para casa, porque nos matam”, respondeu um jovem com uma faixa com os dizeres: “A resistência não é um capricho, é um ato de dignidade”. Mas nas ruas do país também há medo. O temor de não voltar para casa vivo, exacerbado nos últimos dias pela massiva mobilização policial e por mensagens incendiárias do político Álvaro Uribe Vélez, em apoio ao uso da força militar para sufocar os protestos. O trabalho sujo é feito por centenas de policiais em motos, patrulheiros que chegam ao fim do mês com um salário mínimo colombiano, um pouco mais de 220 euros. “Gente pobre com uniforme matando gente pobre com fome, dirigidos por gente rica sem fome e sem uniforme”, se podia ler em um cartaz. Militares armados patrulham os bairros. É frequente o uso de gás lacrimogêneo ou o acionamento do ESMAD (Esquadrões móveis antidistúrbios) para atacar os manifestantes ou até disparar balas reais, enquanto as autoridades colombianas recebem silenciosamente a condenação internacional. Já temos mais de vinte e quatro mortos durante as marchas, segundo números oficiais da Denfesoría del Pueblo. Contudo, já se somam trinta e sete segundo denunciam os organismos de direitos humanos. Uma mãe em Ibagué lamenta frente ao corpo imóvel de seu filho: “Leva-me contigo, amor”. Aos protestos também se uniram camponeses, afro-colombianos das periferias e indígenas dos territórios e das áreas rurais do país. “Queremos avançar sobre a possibilidade de um diálogo entre todos os setores sociais que permitam alcançar a paz. La Minga indígena [6] (uma forma de protesto das comunidades indígenas do país) é um exercício coletivo de pensamento e palavra para tecer uma nova proposta de nação”, diz Giovanny Yuli, ativista político do Consejo Regional del Cauca (CRIC) [7], em Cali, onde se decidiu o apoio às mobilizações e onde se está vivendo os confrontos mais violentos e a maior repressão das forças de segurança contra os manifestantes. No país mais letal para os defensores da terra, com 64 assassinatos de líderes ambientais em 2019, segundo o último informe da Global Witness [8], eles também tomaram as ruas com bandeiras brancas pedindo paz, depois de mais de três décadas de conflito armado. Considerando os acordos de paz de 2016 com a ex-guerrilha das FARC e o governo do então presidente, Juan Manuel Santos, o conflito se perpetua naqueles territórios onde o Estado apenas tem presença, mas os grupos armados ilegais que marcam a lei. Como explica o analista de dinâmicas sociais e conflitos, Luis Celis, a sociedade colombiana tem trabalhado pela paz e pela transformação do país: “Mas esse governo não tem tido nenhum interesse em desenvolver os acordos porque o uribismo é a força política que defende essa ordem de exclusões. Esse acordo de paz segue sendo uma tarefa pendente e se soma à insatisfação existente nas ruas”. Os protestos incluem a insígnia colombiana acenando nas varandas de bairros ricos, panelaços noturnos e velórios para os mortos; delegacias de polícia queimadas e barricadas nas estradas após tumultos que proliferam ao anoitecer. "O governo tem a tática de criminalizar o protesto através da estigmatização das pessoas que saem para se manifestar, o que se torna uma prática comum. Isso visa legitimar o uso excessivo da força pela polícia", critica Alejandro Rodriguez, da organização Temblores, plataforma que registra os abusos e violações de direitos no marco dos protestos. As atuais mobilizações são também a representação nas praças de todo país, daqueles panos vermelhos que, durante o último ano, eram pendurados nas janelas dos bairros populares sufocados pela crise econômica acentuada pela pandemia. “A sociedade colombiana é uma sociedade profundamente desigual. Temos uma ordem social cheia de exclusões: existe exclusão de terra, exclusão de conhecimento, exclusão do crédito”, aponta Celis. Mais de 42,5% da população colombiana está em situação de pobreza e 7,5 milhões de pessoas padecem de pobreza extrema, segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estadística (DANE). Em uma nação de 50 milhões de habitantes, o trabalho informal representa um 48,7 do mercado de trabalho. “A riqueza na Colômbia se concentrou em poucas mãos, existe uma enorme fragilidade social que em meio da pandemia se expressa como fome”. Continua o analista colombiano. “O que começou com tom reivindicativo contra o que denominamos “pacote de Duque” vem assumindo dimensões políticas de esgotamento do regime atual, em particular com o uribismo, com a extrema direita”, relata o líder social e político Diego Pinto, que acrescenta que as ruas exigem a renúncia imediata do presidente Iván Duque, cuja aprovação caiu 16 pontos no último mês. Um declínio que se deve em parte à reforma tributária e ao manejo da pandemia, segundo uma pesquisa de Guarumo-EcoAnalítica. Nesses dias, nos bairros populares preparava-se, em potes comunitários, o tradicional sancocho colombiano, uma sopa feita com os alimentos mais representativos do país: mandioca, banana, batata, milho, coentro, frango e abacate, cozido em uma panela grande ao fogo baixo. Um sancocho também é uma expressão colombiana para chamar uma situação que tem problemas muito diferentes, nem sempre com relação entre si. Essa analogia culinária pode ser a metáfora para as mobilizações massivas que, como a sopa tradicional, foram cozidas em uma panela grande com a pressão que é a Colômbia. Notas (originais e da tradutora): [1] Original:“Para el pueblo liberación, para el pueblo lo que es del pueblo, para el pueblo se lo ganó” (nota da tradutora). [2] Matéria com imagens e vídeos da repressão policial disponível em: https://www.lamarea.com/2021/05/05/continua-sangria-victimas-en-colombia-al-menos-19-manifestantes-muertos/ [3] https://www.lamarea.com/2021/05/05/continua-sangria-victimas-en-colombia-al-menos-19-manifestantes-muertos/ [4] Álvaro Uribe foi presidente da Colômbia entre 2002 e 2010. Reconhecido como conservador, de direita e por se opor ao diálogo com o ex-grupo guerrilheiro FARC. Após o fim do seu mandato presidencial intensos diálogos entre o poder público e os guerrilheiros mostraram um caminho possível para a construção da paz. Esse diálogo foi interrompido por Iván Duque, o que traz muitos problemas para a população pobre e camponesa. Além disso, Uribe respondeu a processo que resultou em prisão domiciliar por sua relação com milícias paramilitares, levando a manipulações, violências e ameaças. As concepções de Álvaro Uribe, em muito inspirando o atual regime e a extrema direita colombiana, ganhou o nome de uribismo (nota da tradutora). [5] https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-50520302 [6] https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-54625586 (nota da tradutora) [7] https://www.cric-colombia.org/portal/ [8] https://www.globalwitness.org/es/defending-tomorrow-es/ *Marina Sardiña é jornalista e colaboradora do La Marea. https://twitter.com/marinasardina_ Publicado originalmente em https://www.lamarea.com/2021/05/06/colombia-retrato-de-un-pais-que-se-levanta/ Tradução: Flavia Veras, professora doutora em história e editora da revista Mulheres do Fim do Mundo. Imagem de capa: Protestas en Colombia. MARINA SARDIÑA, acesso em https://www.lamarea.com/2021/05/16/la-represion-no-consigue-acallar-las-protestas-en-colombia/

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Traduções: A surpreendente eleição no Peru revela profundas divisões digitais
Traduções: A surpreendente eleição no Peru revela profundas divisões digitais

Reportagem feita pela jornalista peruana, Jimena Ledgard*, e publicada em: https://restofworld.org/2021/eleccion-peru-redes-sociales/ Os peruanos das zonas rurais não estão desconectados, simplesmente estão fora da bolha limenha. Quando a CNN anunciou os resultados do 1º turno das eleições presidenciais no Peru em 11 de abril, a imagem que usaram foi chamativa. Ou melhor, a que não usaram. A foto escolhida do claro vencedor, Pedro Castillo do Partido Peru Libre, foi de uma silhueta obscura. A omissão não pode ser explicada unicamente como um caso de estrangeiros que não entendiam uma eleição latino-americana; os próprios meios de comunicação peruanos pareciam igualmente desinformados a respeito do homem que terminou recebendo quase um em cada cinco votos. Apenas uma semana depois das eleições muitas pesquisas o colocavam em sétimo lugar em intenção de voto entre 18 presidenciáveis. Desde a eleição Castillo tem sido descrito por muitos como a voz do “Peru profundo e não escutado”, um conceito que tende a irritar muitos peruanos fora de Lima. Em consequência do surpreendente resultado do domingo, esta lógica levou os comentaristas limenhos a declarar que “o Peru sem internet falou”, oferecendo assim uma explicação conveniente frente a inesperada vitória. Contudo, uma conversa com simpatizantes de Castillo das áreas rurais e da classe trabalhadora revela uma história mais complexa. Não é que eles estejam desconectados, mas que se movem em uma câmara de eco virtual distinta. Ingred Montoya, uma professora de 35 anos de São Jerónimo, um povoado rural da região andina de Andahuaylas, zomba desse estereótipo que chega desde Lima. “Como todo mundo no Peru, nós temos redes sociais! Além do mais, durante a pandemia temos falado com nossos pais por WhatsApp”. Ela soube da candidatura de Castillo pelo Facebook, em um dos grupos regionais que pertence. “Não sei o que a imprensa vai fazer. Onde estarão? Como dizem que não estamos na rede? Sim! Meu facebook está bombando”. A falta de inclusão digital que afeta o Peru mais rural e empobrecido é real, mas até um ponto. O país tem uma ampla brecha digital. Ainda que 62% dos lares em Lima tenham acesso à internet, nas áreas rurais a porcentagem cai para 6%. Castillo venceu por uma ampla margem nesse último setor. Na capital ficou em quinto. Líder sindical de 51 anos, ex-professor de escola pública e autodenominado marxista, Castillo faz campanha com estilo claramente pré-digital. No transcorrer do 1º turno privilegiou intencionalmente os meios de comunicação comunitários, em sua maioria estações de rádio locais e compareceu para votar a cavalo. Tendo permanecido abaixo do radar por tanto tempo, a conta de Castillo no Twitter ainda tinha menos de 8.000 seguidores até a data da presente reportagem (14 de abril). De acordo com a BBC, ele tinha apenas 3.000 fãs no dia da eleição, tendo entrado na plataforma apenas em fevereiro de 2021. Em contraste, Keiko Fujimori, que Castillo enfrentará no segundo turno em junho, tem 1 milhão de seguidores. O candidato do Peru Livre ainda não tem uma página verificada no Facebook e não parece ter uma conta no Instagram. Franco Pomalaya, um jovem limenho de 28 anos, parte do grupo de campanha de Castillo, disse à Rest of World que ri quando escuta os especialistas afirmarem que havia algo de inovador e pouco usual em sua estratégia. “Nossa campanha foi muito básica: assim como os políticos têm feito campanhas por décadas. O que tem de especial? “Ele considera que o alcance real das redes sociais tem sido exagerado no Peru. “As pessoas falam de números, porcentagens, mas nunca da qualidade da rede. Um lar pode ter acesso a internet, mas se ela está lenta ou é de má qualidade não vão usá-la”. Nem Castillo, nem seu partido tiveram uma estratégia afinada com as redes sociais. Sebastian Reyes, um dos representantes legais do Peru Livre, é rápido em apontar que sua presença digital segue sendo um dos pontos mais frágeis de sua campanha. “sim, estou sendo completamente honesto”, disse Reyes à Rest of World, "não temos certeza de como colocar a marca azul de verificação ao lado do nome do candidato. Mas, na verdade, queremos.” A falta de canais oficiais do Peru Livre nas redes sociais tem levado a certas confusões. Representantes da campanha confirmaram recentemente, após as eleições, qual das contas do Twitter em nome de Castillo era a verdadeira. Antes disso, a mídia havia citado contas não oficiais como se essas representassem a linha do partido. Marco Antonio Paz Olivares, eleitor de Castillo de 29 anos e residente de um assentamento em Catacaos, uma região ao norte de Piura, não considera que isso seja um problema. Está convencido de que seu candidato ganhou graças ao trabalho real do seu candidato, em vez de apostar em novas tecnologias. A ênfase excessiva que se coloca nas redes sociais, segundo ele, é um erro muitas vezes cometido pelos limenhos. “Eu venho de um assentamento, sem água corrente, muito menos acesso a internet”, disse Paz Olivares à Rest of World. “Castillo se deu ao trabalho de ir de porta em porta, de povoado a povoado, chegando aos lugares que nenhum candidato quis visitar. E não passou acenando em uma caminhonete, mas falou de verdade com as pessoas, aquelas a quem não chega a publicidade das redes sociais”. As plataformas virtuais provavelmente cumpram um papel mais importante no segundo turno, mas a falta de uma estratégia digital organizada do candidato do Peru Livre não significa que não mobilize as massas online. Faz apenas uma semana que todo mundo parecia indicar que Verónika Mendoza, candidata com forte apoio nas zonas urbanas e entre eleitores com ensino superior, era o nome mais forte da esquerda. Seus seguidores, apelidados de verolovers por alguns comentaristas, mostravam-se extremamente ativos nas redes sociais. Além disso, as interações virtuais relacionadas a Mendoza eram as mais positivas entre todos os candidatos, uma medida usualmente vista como chave por pesquisadores e comentaristas políticos. No entanto, uma vista no Google Trends mostra que, inclusive antes que as pesquisas registrassem um maior interesse na Candidatura de Castillo, já se estava googleando mais a ele que a Mendoza. Alguns jovens das zonas rurais peruanas desafiam ainda mais o estereótipo de que suas regiões estão fundamentalmente desconectadas. A hashtag #PedroCastilloPresidente [1] tem mais de 7.7 milhões de views no TikTok, com muitos de seus criadores das áreas rurais dos Andes. E ainda que Castillo não tenha uma página validada no Facebook, dezenas de grupos nesta rede social têm aparecido organicamente para expressar seu apoio ao candidato. Grupos como Pedro Castillo no 2º turno, Todos com Pedro Castillo Presidente ou Pedro Castillo “Presidente dos Pobres”[2], entre outras, tem cada uma dezenas de milhares de membros extremamente ativos, que compartilham memes e participam de discussões políticas. Os grupos regionais também são particularmente ativos, algo que a campanha reconheceu desde o começo. “Cada região tem seus interesses próprios e nosso enfoque é descentralizar a política. Por isso deixamos que as regiões falem por si mesmas. Isso inclui estratégias de comunicação. Damos algumas pautas aos seguidores de cada lugar, mas deixamos que eles façam seus próprios spots” conta Pomalaya a Rest of World. Como aconteceu no Brasil durante as eleições presidenciais de 2018, o uso de espaços virtuais privados tornou o segmento digital mais difícil. Para aqueles que não souberam onde buscar poderia ser particularmente complicado notar o interesse crescente ao redor de Castillo Agora, à medida que sua campanha tenta conquistar novos eleitores nos próximos meses, sua presença online certamente será maior, especialmente para alcançar eleitores jovens e urbanos. "Sabemos que teremos que mudar a maneira como fazemos as coisas", reconhece Pomalaya. "Para começar, vamos contratar alguém que veja as mídias sociais." *Jimena Ledgard mora em Lima, Peru, onde apresenta o Estación Ciudad, um podcast documentário sobre poder e políticas urbanas. Ela trabalhou com a Vice e a Deutsche Welle. Recentemente, ela recebeu o Fundo IWMF para Mulheres Jornalistas e uma bolsa da Fundación Gabo para o Fundo de Jornalismo Investigativo de Novas Narrativas sobre Drogas (FINND), para desenvolver um podcast com histórias de pessoas envolvidas no comércio de cocaína no vale do VRAEM, no Peru. [3] Tradução e notas: Flavia Veras Revisão: Sheila Lopes Leal Gonçalves [1] https://www.tiktok.com/tag/pedrocastillopresidente?is_copy_url=1&is_from_webapp=v1&lang=en [2] https://www.facebook.com/groups/717197822237641/; https://www.facebook.com/groups/425168475279894/; https://www.facebook.com/groups/426825595255748/ [3] https://restofworld.org/author/jimena-ledgard/

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Traduções: Nós fomos as últimas “boas garotas negras [1]”
Traduções: Nós fomos as últimas “boas garotas negras [1]”

Em 1968, a história encontrou-nos numa pequena faculdade feminina, forjando a nossa identidade Preta e fortalecendo a nossa rebeldia [2]. Anna Deavere Smith* Minha conselheira da Western High School, uma escola pública só para meninas em Baltimore, era uma mulher branca rotunda, com um semblante agradável, mas pouco enérgico. Ela esteve totalmente ausente de minha educação até que um dia, depois que começaram os rumores sobre ações afirmativas nas faculdades, sacudindo o terreno que os negros atravessavam para o ensino superior, ela convocou, a mim e à minha mãe, para uma reunião. Minha mãe, uma professora veterana em escolas públicas de Baltimore, tirou a tarde de folga. Nós nos sentamos na sala de teto alto do escritório de aconselhamento, o mais afetado e limpo possível, enquanto a conselheira nos mostrava um panfleto após o outro com imagens de garotas brancas em conjuntos de suéteres relaxando em ambientes bucólicos. Eu não sabia nada sobre a multidão de pequenas faculdades nos EUA que haviam sido fundadas, muitas por instituições religiosas, com o propósito específico de educar mulheres brancas. Nem sabia nada sobre as "suitcase schools", algumas das quais ficaram reputadas como gloriosas escolas de acabamento onde as meninas se concentravam em conhecer meninos que frequentavam instituições próximas. (Elas eram chamadas de “suitcase schools” porque às sextas-feiras, as meninas iam passar o fim de semana com os seus futuros maridos.) Mas em 1966, como a conselheira disse para minha mãe, muitas dessas faculdades só para meninas estavam “procurando boas garotas negras como Anna”. Meu pai não gostou da ideia. Ele foi inflexível e queria que eu estudasse em Howard ou Morgan State, ou alguma outra faculdade ou universidade historicamente Preta, assim como ele e seus irmãos e meus primos mais velhos tinham feito. Minha mãe e eu argumentamos em torno da ideia de "oportunidade." Ele se tornou enfático: se eu fosse para uma faculdade para mulheres brancas, ele disse, não teria vida social. Essa era uma preocupação legítima, mas até aquele ponto, a rigidez de meu pai havia circunscrito severamente minha "vida social". Agora ele estava, de repente, preocupado com isso? Candidatei-me a três das faculdades que a conselheira sugeriu. Quando chegaram as cartas de aceite de todas as três, meu pai disse que se recusaria a ajudar financeiramente, então minha mãe e eu começamos a tentar encontrar financiamento. A única sugestão de meu pai sobre isso foi murmurar que eu deveria escolher a faculdade mais próxima de Baltimore, para que eu pudesse voltar para casa com despesas limitadas de trem. Eu acabei escolhendo o Beaver College, em um subúrbio da Filadélfia, sem sequer ter visto o campus. Agosto de 1967: a família Smith deixou Baltimore para ir para o Beaver College no raiar do dia. Porque, como assim, poderíamos ser “de cor” e atrasados? Meu pai sentou ao volante, e meus dois irmãos, minhas duas irmãs pequenas, meu avô paterno e minha mãe entraram no carro. Minhas tias Esther e Mildred, preocupadas com o estado precário da minha bagagem, juntaram seus recursos para me comprar um conjunto novo. Minha bagagem nova, minhas roupas novíssimas, minha vitrola de plástico (com meus cinco LPs) e o peso da minha família fez com que o carro emitisse um som de raspagem ao passar pela estrada. Fomos um dos primeiros a chegar. Um grande castelo cinza assomava. O lugar tinha sido originalmente uma propriedade privada feita no modelo de um castelo inglês. Os edifícios foram reaproveitados para se tornarem um teatro, uma capela, um estúdio de arte e um laboratório de biologia. Garotas brancas acompanhadas por suas famílias arrastavam-se pelo corredor do dormitório ao longo da manhã e da tarde. Enquanto minha mãe e eu sentamos sozinhas em uma sala antisséptica esperando para conhecer minha colega de quarto, o resto da minha família vagou pelo campus, avaliando o lugar. Tive amigos brancos no colégio, mas não morava com eles. Eu tinha ido apenas para uma “festa do pijama” em uma casa de brancos, uma doce festa do pijama de 16 anos, da qual meu pai me levou embora às 22h, porque, para ele, não havia nada de doce em me ver passando a noite com um grupo de meninas brancas. Ele e minha mãe não me permitiam sair com alguém cujos pais eles não conhecessem - e em Baltimore, naquele tempo, os pais negros não conheciam muitos pais brancos. "Eu sou Marie." Uma voz ressonante com um timbre rico. Minha colega de quarto, uma garota branca com longos cabelos lisos e um sorriso contagiante, estendia a mão. A mãe dela estava elegantemente vestida e usava óculos escuros, que nunca tirou. Eu me levantei da cadeira para cumprimentá-la. Marie começou a conversa fiada [3] imediatamente. “Quantas crianças na sua família?” Na fronteira entre raça e classe, até mesmo perguntas simples causam um embaraço. A preocupação com o “número negro”, resultado do “Projeto negro” de Margaret Sangers, em 1939, ainda tinha ressonância nos anos de 1950 e 1960 [4]. As famílias negras em que cresci eram muito menores do que na geração dos meus pais. Meu pai foi um de seis. Minha mãe, uma de oito. Meus primos - os outros filhos de seis e oito - não ultrapassavam três por família, e a maioria dos agrupamentos era de dois por domicílio. “Cinco,” eu disse. “Venci por um! Somos seis! ” ela anunciou. Marie era católica. Minha família me deixou com um mar de garotas brancas e voltou para Baltimore. Eu caminhei ao longo da estrada que subia lentamente, passando pelo poço dos desejos, pelo castelo, pelo campo de lacrosse, pelo estúdio de arte e pelo teatro (que outrora fora o aposentos dos empregados), pela capela (que outrora fora um estábulo), e subi as escadas para a convocação. Como qualquer negro que se preze, quando sentei, contei cada pessoa com cor em sua pele. Os recrutadores do Beaver College encontraram sete "boas garotas negras", incluindo a mim. Não havia União de Estudantes Pretos. Nós nem éramos “Pretas” ainda. Fizemos contato visual e acenamos. Nós sete ocupávamos lugares diferentes dentro do sistema de classes da comunidade negra. Tínhamos relacionamentos diferentes com cabeleireiros, gírias diferentes, diferentes experiências de ensino médio, diferentes formas de fé, arranjos familiares diferentes. Diriam que a identidade de raça ultrapassaria aquelas diferenças, mas, em 1967, não. Três das meninas tinham ido para a mesma escola, então elas se tornaram mais próximas. Uma de nós, Karen McKie, morava na Filadélfia e havia sido recrutada pessoalmente da Simon Gratz High School, escola com baixas taxas de formados, uma abismal taxa de frequência à faculdade e a reputação de ser um lugar violento e perigoso. Eu conversei com Karen algumas semanas atrás: Anna Deavere Smith: Quando chegamos, não tínhamos (cabelo) afro. Karen McKie: Absolutamente não. A ideia era que nos misturássemos. Smith: Nós, sendo estas meninas obedientes - qual foi o quadro de referência para o nosso comportamento? Havia filmes ou romances sobre “boas garotas negras” como nós? McKie: Não. Smith: Certo? McKie: Ser “preto e orgulhoso” já era uma letra para as músicas - James Brown. Mas estávamos nessa linha tênue, porque não tínhamos exemplos na Beaver College. Eu não sabia de ninguém de aparência como a minha que havia estado na Beaver. Éramos uma experiência, eles estavam nos dando a oportunidade de sermos uma experiência para essas meninas brancas. Para que elas pudessem ficar mais confortáveis saindo para um mundo onde as pessoas estavam falando sobre ser “preto e orgulhoso”. Algo precisava ser feito para que elas estivessem preparadas. Smith: isso é hilário. Eu pensava que isto vinha de uma ideia de “branco salvador” da parte deles, para nos dar uma oportunidade. Uma noite, ainda no início do semestre, minha colega de quarto e eu estávamos estudando em nossas mesas. "Você recebeu uma carta?" Ela perguntou casualmente, balançando os pés na cadeira. "Que carta?" “Recebi uma carta perguntando se eu me importaria de ter uma colega de quarto negra”, disse ela. "Não”, eu disse. “Não recebi carta.” Nenhuma de nós recebeu uma carta. Havia cerca de uma dúzia de alunas na minha aula de inglês do primeiro ano - todas brancas, exceto duas de nós. Nossa professora era Helen Buttel, uma mulher branca (Beaver não tinha professores Pretos quando cheguei). Ela está com aproximadamente 90 anos agora. Liguei para ela algumas semanas atrás. Smith: Só preciso ver se você se lembra de alguma coisa sobre isso. No meu primeiro trabalho para a aula de inglês do primeiro ano, a tarefa era escrever sobre uma palavra-tabu. E eu escrevi sobre a palavra negro - agora dizemos "a palavra com N" - e o mesmo fez a única outra mulher Preta na classe. Helen Buttel: Eu certamente me lembro de ter pedido este trabalho e devo ter ficado surpresa. Parecia uma coisa corajosa para uma dupla de alunas Pretas trazer isso à tona - uma palavra pejorativa sobre sua raça - em uma aula onde os trabalhos seriam lidos em voz alta. Pareceu-me algo muito dramático. Smith: Lembro-me de você chegar quando estava devolvendo os trabalhos e dizer: "Bem, duas pessoas na classe escreveram sobre a mesma palavra, e elas escreveram sobre isso de formas diferentes”. A outra garota Preta e eu, que àquela altura do ano nunca tínhamos trocado palavra, nem mesmo nos entreolhamos quando a professora Buttel anunciou que teríamos escrito sobre a mesma palavra com interpretações completamente diferentes. Minha colega havia escrito que a “palavra com N” representava afeto; Eu tinha escrito que era ofensiva e dolorosa. Buttel: Não me lembro disso ter causado alguma discussão selvagem sobre o tema em sala de aula. E você? Smith: Não. Eu não me lembro de nenhuma discussão selvagem de qualquer tipo. [Risos] Buttel: Eu imagino que o tema deva ter, provavelmente, calado todas elas. [Risos] Uma noite, quatro garotas brancas nervosas me visitaram na sala de estudo do meu dormitório. Beaver era uma escola pequena, com menos de 1.000 alunos, mas nenhuma dessas meninas estava em aulas que eu fiz. Elas queriam me dizer que sua colega de quarto, que era do Sul profundo, havia hasteado uma bandeira dos confederados no poço dos desejos, no centro do campus, depois da Beaver College ter ganhado um jogo de lacrosse. Eu tinha escutado sobre isso? Eu não havia escutado. A colega de quarto delas tinha uma personalidade forte, e elas presumiram que a notícia tivesse se espalhado pelo campus. Mas eu não estava sabendo. O objetivo da reunião: elas queriam saber se eu estaria disposta a atuar como “embaixadora dos Negros” em nossa turma de calouros, explicando que sua colega não quis fazer mal. Por que elas me escolheram? Mais surpreendente, por que elas presumiram que nós sete éramos um grupo? Comecei com as três meninas que frequentaram a mesma escola e andavam juntas. O consenso foi dar à garota do sul o benefício da dúvida. E “nós” agora éramos um grupo. Quatro de abril de 1968: assassinato de Martin Luther King Jr. As garotas brancas em Dilworth Hall corriam para cima e para baixo no corredor - horrorizadas menos, se bem me lembro, pelo assassinato e mais porque os toques de recolher e as restrições de viagens em grandes cidades bagunçariam seus planos para o recesso de primavera. As “boas garotas negras” planejaram se encontrar. Minha colega de quarto me lembrou que havia perguntado: “Posso ir à reunião?” E que eu dissera: “Não, não desta vez”. Não me lembro disso especificamente. Mas tenho certeza de que disse não. Até aquele ponto, o mundo fora dos muros do Beaver College havia permanecido distante, como um ruído abafado. Um véu separava o corpo discente da realidade externa. A vida de muitas de minhas colegas de classe estava centrada em encontrar um marido nas proximidades de Princeton, Lehigh, Lafayette, Haverford, Penn e Franklin & Marshall. Tratava-se de uma “suitcase school” com pouquíssima atividade política. Mas para as sete de nós, o assassinato de King destruiu o que restava do véu. Véu que se rasgaria para as nossas colegas brancas também, por causa do Vietnã e do alistamento militar. Tudo estava desmoronando. Para as Beaver College Blacks, como passamos a nos chamar, a morte de King ampliou as lacunas em nossas vidas. Como estudantes Pretos em todo país, procuramos entender o que estava acontecendo nas áreas urbanas antes e depois do assassinato. “Acho que aprendemos a exigir educação”, diz Karen. Nós nos encontramos com uma reitora que era do sul. Seu sotaque, cheio de vogais estendidas e consoantes cristalinas, era o suficiente para fazer qualquer garota Preta voltar atrás, sentindo-se como carne de linchamento. Nós nos encontramos em uma sala de aula esterilizada com piso de linóleo e sem arte. Nossas demandas eram modestas: queríamos cursos de História Preta e um ou dois membros Pretos no corpo docente. A reunião não correu bem. Ela nos disse que, se exibíssemos “comportamento indesejável”, o governo não ficaria feliz em nos receber. E "se vocês continuarem a mostrar um comportamento indesejável", disse ela, "certamente não pagaremos para ter vocês aqui”. Se um reitor falasse assim com um grupo de alunos Pretos nos dias de hoje - caramba, se o zelador de uma escola falasse assim com um grupo de estudantes Pretos hoje - eles não esperariam chegar à parte do “pagar para ter você aqui”. Eles já estariam queimados ao dizerem “comportamento indesejável”. Alguém colocaria nas redes sociais, e o episódio terminaria assim. Naquela época, porém, não havia muito o que pudéssemos fazer. A saída que encontrei foi passar a imitar a reitora, com sotaque e tudo, e fazer apresentações sempre que solicitado - nos corredores para a aula, no refeitório, enquanto fazia arco e flecha (meu esforço para cumprir a exigência de treinamento físico). Minhas reconstituições cômicas de nossa reunião serviam como uma espécie de bálsamo. Claro, deveríamos ter ficado indignadas. Nós ficamos indignadas. Quando você ri alto, você mostra os dentes. Finalmente conseguimos um curso de estudos Pretos [5] - não um currículo completo, mas uma única aula - e um membro do corpo docente preto [6], do tipo avô, que rapidamente nos ajudou a nos sentir mais em casa... E então, infelizmente, morreu. Criamos uma performance - uma celebração de sua vida por meio de canções, poemas e leituras - para elogiá-lo, e nosso "nós" ficou ainda mais forte. A maior parte das sete de nós chegou a este cenário arquitetônico pseudo-gótico vinda de cidades que foram envolvidas em distúrbios. O relatório da Comissão Kerner, documento histórico sobre as relações raciais americanas lançado em 1968, começava assim: “O verão de 1967 trouxe novamente desordens raciais para as cidades americanas, e com elas choque, medo e perplexidade para a nação. ” Ler o Relatório Kerner é ouvir augúrios do verão de 2020 - motins, polícia espancamentos, assassinato. Muitos acreditam que o momento em que vivemos não tem precedentes. Eu não sei com base em quê. Direi apenas que, por mais difícil que tenha sido o que nós sete passamos em 1967, o que outros passaram não muito antes de nós foi ainda pior. Certa vez entrevistei a jornalista Charlayne Hunter-Gault, que integrou a Universidade de Geórgia cerca de meia década antes de nós sete chegarmos a Beaver. Sua presença causou um motim em sua terceira noite na escola. Alguém jogou uma pedra pela janela de seu dormitório. Havia vidro, ela me disse, por toda parte sobre suas roupas, que estavam em uma mala aberta no chão. Gás lacrimogêneo foi usado para dispersar a multidão. As garotas no dormitório dela foram obrigadas a tirar os lençóis de suas camas para dispersar o gás. O reitor veio tirar Charlayne do dormitório e dizer que ela teria que deixar a universidade. Enquanto ela era escoltada para fora, todas as suas companheiras brancas estavam alinhadas no corredor, vestidas com suas camisolas, algumas em pé nas cadeiras. Enquanto ela se dirigia para a porta da frente, uma das mulheres jogou uma moeda de 25 centavos e disse: "Aqui, Charlayne, vá e troque meus lençóis”. As Beaver College Blacks estávamos entre as últimas “boas garotas negras”. Nós tínhamos aspirado a ser educadas e dar um passo além de onde nossos pais puderam chegar. Disseram-nos que tínhamos que tirar boas notas na escola e que tínhamos que trabalhar mais do que as crianças brancas (como hoje). Disseram-nos para nunca irritarmos figuras de autoridade - especialmente figuras de autoridade brancas. Disseram-nos que tínhamos que ser boas e legais em todos os sentidos. Foi-nos dito que devíamos, acima de tudo, escapar da gravidez na adolescência, porque a gravidez arruinaria nossas vidas. (O uso de pílulas anticoncepcionais para mulheres solteiras não foi legalizado até 1972, um ano depois que nós nos formamos.) Então, enquanto nós sete estávamos aninhadas em nosso último ano, Angela Davis entrou para a lista de mais procurados do FBI, acusada de fornecer armas para um tiroteio em um tribunal do condado de Marin. Ela estava fugindo por dois meses e, durante esse tempo, mulheres Pretas que se pareciam remotamente com ela (ou nem um pouco com ela) eram apreendidas por policiais. Renunciando à nossa personalidade de “boa garotas negras”, deixamos crescer nossos afros tão grandes quanto o dela, como se disséssemos: “Venha e me pegue também”. Nos libertar do calor dos ferros e produtos à base de soda cáustica (que deixavam crostas e queimaduras em nosso couro cabeludo e em nossas testas e pescoços) em busca de cabelos lisos era uma escolha cosmética, sim, mas com Davis na prisão e quase no corredor da morte, também estávamos dizendo: “Vocês estão certos, nós poderíamos ser ela. As boas garotas se foram”. Fomos realmente “boas”? Graciosas, talvez. Gentis, talvez. Nós definitivamente éramos polidas. Mas essas boas maneiras tinham a ver com a forma como tratávamos uns aos outros dentro das paredes da segregação. Qualquer pessoa com mais de 30 anos era tratada como Senhorita ou Sr. Mas o "boa" que os recrutadores de Beaver buscavam era uma performance herdada da escravidão e de Jim Crow, quando não ser “bom” era uma sentença de morte em potencial. Posso ter deixado minha personalidade de “boa garota negra” para trás no Beaver College, mas a necessidade de ser "boa" permaneceu. Nos anos 80, quando um terrível obstáculo foi lançado no meu caminho profissional, alguns amigos homens, brancos e mais velhos rapidamente identificaram a causa como sendo racismo - ainda assim aconselharam-me a nunca usar a palavra “raça”, enquanto eu lutava para sobreviver. Embora a academia se vanglorie da sua dedicação à verdade, poucas pessoas a dizem como ela é. Um quadro de académicos experientes, Pretos e brancos, ajudou-me a escapar. Um ajudou-me literalmente a fazer as malas. Até hoje, eu carrego o trauma, mas consegui um cargo efetivo em Stanford. A horrível história teve um final feliz. Mas eu sei que nem sempre é assim. O mais sinistro passado da América está rompendo as rachaduras. As divisões estão nítidas. A Guerra Civil acabou? Uma nova geração de irmãs que não performam mais "gentileza" tem um palpável senso de sua vulnerabilidade, mesmo que tenham um melhor controle da escalada para o sucesso do que nós sete tínhamos. Andrea Ambam, uma excelente aluna minha, recém-graduada, é a primeira geração americana de uma família que imigrou dos Camarões e se estabeleceu em uma pequena cidade do Missouri. Ela foi educada em instituições predominantemente brancas desde a pré-escola até a graduação - não teve um professor Preto até a faculdade. Ela foi criada em uma casa que enfatizava a necessidade de ficar longe de problemas. Mas, na escola, ela começou a questionar a política de respeitabilidade. "Penso que tantas mulheres Pretas que se deslocam pelo mundo são advertidas sobre a sua atitude - sabe, sobre serem educadas, sobre serem suficientemente femininas", ela me disse recentemente. Na ladainha de vídeos de pessoas Pretas atacadas ou mortas pela polícia, o episódio que ocorreu mais perto de sua casa foi o de Sandra Bland. Em 2015, a universitária afro-americana de 28 anos foi encarcerada após uma blitz, e morreu na prisão três dias depois. A conclusão de nossa conversa de uma hora sobre o que tornava a história de Sandra tão significante para Andrea e seus colegas foi: " podia ser eu". Andrea Ambam: Se eu tivesse estado naquele carro e o polícia me dissesse para apagar o meu cigarro, eu o apagaria, certo? Mas eu compreendo a sensação de não querer fingir, de não querer dizer "Sim, está tudo bem", “está tudo ótimo, Sr. policial". O último vídeo que temos é a sua luta pela sua vida e pelo seu direito a não ser tratada desta forma, e então a próxima coisa que temos é que ela [morreu]. Sinto-me tão profundamente conectada à sua rebeldia. Isso pode fazer você se encolher e dizer: "Está bem, não vou fazer isso". Ou pode fazer com que se incline para a rebeldia. Pode acender algo em você que diz: "Estou seguindo em frente com orgulho na minha rebeldia, em vez de sufocar essa rebeldia e essa resistência como medida de segurança". Houve progresso, claro. Beaver College, agora Arcadia University, é mista. Estudantes Pretos e outras minorias históricas agora têm seus grupos de afinidades. O presidente da Arcadia, Ajay Nair, é publicamente dedicado à justiça social. No final dos anos 60, nós sete tivemos que lutar para conseguir um professor Preto - e agora muitas faculdades têm departamentos inteiros de estudos afro-americanos. Não precisamos mais nos esforçar tanto, com o perdão do eufemismo. Quando falei com a Dra. Buttel, ela lembrou que um reitor havia lhe dito que ela tinha que sugerir às sete meninas negras, de quem ela havia se tornado uma conselheira dedicada na instituição, que parassem de usar o “terrível” nome que havíamos dado a nós mesmas: Beaver College Blacks. "E eu disse ao reitor, ''é impossível. Como gostaria que se chamassem, the Beaver College Colored Folk?'". No nosso atual momento de divisão, não podemos dar-nos ao luxo de avançar sem olhar para trás. Temos de cavar a história para avaliar como aprendemos a restaurar a dignidade humana que tinha sido arrancada pela pilhagem e pela escravatura. Como chegámos até aqui? Não foi sendo “bons”. *Anna Deavere Smith, uma escritora contribuinte da Atlantic, é dramaturga, atriz e professora. Em 2013 recebeu o prêmio The Dorothy and Lillian Gish Prize, em 2015 foi escolhida como Jefferson Lecturer pelo National Endowment for the Humanities. Ela é fundadora e diretora do Institute on the Arts and Civic Dialogue na New York University. Como atriz, seus trabalhos mais conhecidos são: The Human Stain (2003), Rachel Getting Married (2008) e The American President (1995). Para conhecer seus mais recentes projetos, acesse: https://www.annadeaveresmith.org/ . No Twitter: @AnnaDeavereS Créditos da imagem: https://www.theatlantic.com/world/ Tradução: Gabriela Mitidieri Revisão: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de revisão e tradução: [1] Em respeito à semântica, aos movimentos sociais e à literalidade de Anna Deavere Smith este texto operou a tradução literal dos termos “negro / nigger” e “Black”, respectivamente “negro(a)” e “Preto(a)” - mantendo também a grafia com letra maiúscula. [2] O texto original pode ser consultado aqui: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2021/03/the-last-of-the-nice-negro-girls/617786/ [3] No original: small talk. [4] Nos anos de 1920 e 1930, a enfermeira norte americana e ativista do controle de natalidade, Margaret Sanger, elaborou um projeto para as comunidades negras, denominado “The negro project”. Em 1929, com o apoio de W.E.B. Dubois, ela fundou uma clínica de planejamento familiar no Harlem. Sua defesa do aborto e do controle de natalidade baseava-se em teorias eugenistas. Para ela, se as famílias pudessem escolher ter menos filhos, criando-os de maneira mais saudável, haveria possibilidades de “melhoramento da raça”. Mesmo tendo trabalhado junto à NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) de Dubois e tendo seu trabalho elogiado por Luther King, Sanger segue sendo uma figura controversa tanto na sociedade, em geral, quanto no meio acadêmico norte-americano. [5] No original: Black-studies course. [6] O professor em questão era Horace Woodland. O artigo original de Anna Deavere Smith indica um pequeno texto biográfico que pode ser acessado aqui: https://scholarworks.arcadia.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1814&context=college_newspapers

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