Respeita Nossa História

Respeita Nossa História: Adèle Toussaint-Samson (1826-1911), vida e obra de uma viajante parisiense
Respeita Nossa História: Adèle Toussaint-Samson (1826-1911), vida e obra de uma viajante parisiense

por Thainã Teixeira Cardinalli* A trajetória de Madame Toussaint-Samson guarda alguns pontos de encontro com o Brasil: além de ter morado aqui durante doze anos (1849/50-1862), ela publicou um relato de viagem sobre este período, intitulado Uma parisiense no Brasil (1883). A longa permanência na cidade carioca, bem como sua obra onde narra os percursos e as experiências vivenciadas no país, não foram suficientes para incluir a autora como uma das referências sobre o Brasil imperial. Ao contrário dos relatos de viajantes-franceses como Charles Expilly (1814-1886) ou das famosas gravuras de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), a vida e obra de Adèle somente nas últimas décadas começaram a ser estudadas por parte da historiografia. Dessa forma, pretendo apresentar aqui uma breve biografia dela, dando atenção especial à sua estadia no Brasil. Nascida em Paris, em 1826, Toussaint-Samson cresceu imersa no ambiente teatral em razão da profissão de seu pai, famoso comediante da Comédie française. A partir desses espaços construiu suas redes de amizade e trabalho: por exemplo, suas amigas Madame Alan-Depréaux e Madame Arnould-Plessy foram ex-alunas de M. Samson; seu esposo, Jules Toussaint, era dançarino; e ainda, o primeiro jornal onde divulgou suas crônicas sobre perfis femininos, o La Sylphide, pertencia a H. Villemessant, jornalista e amigo de seu pai. A presença de M. Samson é tão marcante na vida profissional de Adèle que uma parte de seus trabalhos foram dedicados a ele, como a organização e a elaboração da introdução de seu livro de memórias, Mémoires de Samson de la Comédie Française (1882) e também a produção de textos endereçados aos jornais parisienses em defesa da imagem e caráter de seu pai, principalmente, diante das acusações de ter se envolvido amorosamente com uma de suas alunas, a atriz trágica Mademoiselle Rachel. Alguns anos após o casamento com Jules, em 1843, a França atravessou um momento conturbado com a Revolução socialista de 1848, a alta dos preços dos alimentos e a epidemia de cólera que se alastrou pelo país em 1849. O que trouxe dificuldades para a vida do jovem casal e os motivou a viajar para o Brasil em busca de trabalho. Seu esposo, apesar de ter pais franceses, havia nascido aqui, mas mudou-se logo quando criança para a França. Segundo Maria Inês Turazzi, um tio de Jules ainda morava no Rio de Janeiro e foi ele quem acolheu o casal em sua chegada. Enquanto Jules trabalhava nos palcos da capital e dava aulas de dança para as princesas Isabel e Leopoldina, Adèle ensinava línguas. Emprego que, conforme pontua em seu relato de viagem, era visto com maus olhos pelas brasileiras, responsáveis apenas pelos afazeres domésticos. De acordo com as documentações levantadas por Ludmila Maia (2016), Toussaint-Samson publicou textos em dois jornais da capital, o franco-brasileiro, Courrier du Brésil (1854-1862) e o Jornal das Senhoras (1852-1855). O primeiro deles pertencia à Ad. Hubert era destinado a comunidade francesa pertencente à Corte e divulgava notícias sobre o que ocorria na Europa e na França, bem como sobre fatos importantes da capital carioca. Nele, Maia identificou quatro textos da viajante, um poema e as seguintes crônicas, “De la femme pot au feu”, “De la femme auteur” e “De la femme incomprise”. Sendo estas duas últimas publicadas anteriormente no jornal La Sylphide, na década de 1840. [Toussaint, Adèle. De la femme auteur. Courrier du Brésil, 02/12/1855. Fonte: Hemeroteca Digital Nacional] São crônicas que retratavam perfis femininos: a “femme pot au feu”, por exemplo, era aquele tipo de mulher dedicada aos afazeres da casa, mas pouco atenta ao cuidado com os filhos; a mulher-autora, por seu turno, vivia em função da carreira literária, abandonando as obrigações domésticas; e por fim, tinha a “incompreendida” que em razão dos romances lidos, esperava encontrar um grande amor tal qual o de suas histórias. Esta preocupação com a moralidade feminina, como também os contatos de seu marido no meio teatral, provavelmente, contribuíram para que publicasse um poema em homenagem à diretora do Jornal das Senhoras, Joana Paula Manso de Noronha, em 1853. Segundo L. Maia, o elogio à diretora do jornal foi motivado pela estreia de suas peças teatrais nos palcos da capital. Neste poema, Adèle discorre sobre as qualidades de Manso, assim como enaltece seu papel de mãe. [Toussaint, Adèle. A Joana Noronha. Jornal das Senhoras, 25/09/1853. Fonte: Hemeroteca Digital Nacional] Cabe lembrar que o Jornal das Senhoras foi o primeiro periódico nacional elaborado por mulheres e dedicado exclusivamente a elas. Nele continham sessões sobre “moda, literatura, belas-artes, teatro e crítica”, e mais, colunas onde se divulgava partituras e romances-folhetim. Enquanto no Brasil, esta foi a única experiência de escrita em periódicos voltados ao público feminino, na França, após o seu retorno, Toussaint-Samson colaborou com o Journal pour Toutes (1864-1867), dirigido por Madame Niboyet, e o La Fronde (1897-1905), “journal quotidien féministe” (“jornal cotidiano feminista”), cuja diretora era Marguerite Durand. Em relação à sua atuação no Journal pour Toutes, lembro que o nome de Adèle apareceu pela primeira vez neste jornal, em 1865, com a tradução da novela de José de Alencar, Cinco Minutos. Romance publicado no Brasil em 1856, momento em que a viajante ainda morava no Rio de Janeiro, e cujo autor era próximo de Paula Brito, que, por sua vez, conheceu Jules Toussaint. Em 1851, Brito, famoso editor e tipógrafo carioca, organizou “uma noite de apresentações dirigida e dançada pelo marido de Adèle para apresentar o novo baile ao público da Corte”. Se a conjuntura político-econômica francesa impulsionou a vinda da viajante ao Brasil; as experiências e atividades exercidas aqui, por outro lado, foram fundamentais em seus escritos posteriores: são crônicas, textos ficcionais, poemas e livros que recuperaram os fatos observados no país para a construção de enredos e personagens, e/ou para a ilustração de seus argumentos. Dentre esses textos, além do relato de viagem Uma parisiense no Brasil, destaco a coletânea, Épaves, sourires et larmes (1870), cujos poemas eram dedicados à amigos e familiares, como também traziam referências de suas vivências nos trópicos. Em um deles expressa suas saudades da natureza tropical, em outro trata da escravidão, e, por fim, em um outro homenageia o célebre “ator trágico” brasileiro, João Caetano dos Santos. A partir desse breve panorama da vida e obra de Adèle Toussaint-Samson, observamos suas estreitas relações com o Brasil. O país não apenas marcou um momento de sua trajetória pessoal, mas foi, igualmente, personagem e/ou cenário de seus escritos posteriores; textos, aliás, que acompanharam a sua participação em periódicos voltados ao público feminino. Ao estudar trajetórias como a de Madame Toussaint-Samson, abrem-se novos campos para se pensar o entrelaçamento entre relatos de autoria feminina, viagens e trocas culturais entre a França e o Brasil. Referências bibliográficas: HAHNER, June. “Àdele Toussaint-Samson: Uma viajante estrangeira desconhecida e fugida”. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 165 (423), p. 33-41. Abril/junho. 2004. Disponível em: https://ihgb.org.br/publicacoes/revista-ihgb/item/146-volume-423.html. Acesso em 09 setembro de 2020 LEITE, Miriam Moreira. (org.) A condição feminina no Rio de Janeiro, Século XIX. São Paulo-Brasília: Hucitec-Edusp-INL, 1984 ___________________. Livros de Viagem (1803-1900). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997 ___________________. Mulheres viajantes no século XIX. Cadernos Pagu, Campinas, 15, 2000 p. 129-143. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8635570. Acesso em 28 mai. 2020 LIMA, Joelma Varão. “Jornal das senhoras: as mulheres e a urbanização na Corte”. Cadernos CERU, v.21, n.2, 2010, pp.227-240. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/11926/13703. Acesso em 07 setembro 2020, MAIA, Ludmila de Souza. Viajantes de saias: gênero, literatura e viagem em Adèle Toussaint-Samson e Nísia Floresta (Europa e Brasil, século XIX). Tese em História defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/Unicamp). Campinas, SP: [s.n.], 2016 TURAZZI, Maria Inez. Adèle Toussaint-Samson (1826-1911): um esboço biográfico. In TOUSSAINT-SAMSON, Adèle. Uma parisiense no Brasil. Trad. Maria Lucia Machado. Rio de Janeiro: Editora Capivara, 2003. *Thainã T. Cardinalli é formada em Ciências Sociais e, atualmente, doutoranda em História pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp). Perfil no Insta: @_thainatc

Júlia Medeiros: do esplendor à penumbra*
Júlia Medeiros: do esplendor à penumbra*

Feminista, professora, atuante no jornalismo e na vida pública caicoense; doente e vil, foi nomeada de “Rocas-Quintas” Júlia Augusta de Medeiros nasceu em 28 de agosto de 1896, em Caicó, estado do Rio Grande do Norte. Filha de Antônio Cesino de Medeiros e Ana Amélia de Medeiros, Júlia Medeiros era de origem rural, mas graças ao apoio de sua família e do seu espírito transgressor, conseguiu superar as adversidades e ingressar no Colégio Nossa Senhora da Conceição (CIC), instituição localizada na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, dedicada ao ensino das meninas da capital. Posteriormente, desejando ser professora, ingressou na Escola Normal de Natal. Em 1926, retornou a Caicó e passou a lecionar no Grupo Escolar Senador Guerra. Nessa época, ela integrou o Jornal das Moças – o primeiro periódico exclusivamente feminino da cidade de Caicó –, em que reivindicava a inserção das mulheres nas Letras e na vida pública. O jornal tinha publicação semanal e era dedicado ao interesse da mulher. Sua circulação iniciou-se no dia 07 de fevereiro de 1926, na cidade de Caicó. Além de ser editado pela professora Georgina Pires e gerenciado por Dolores Diniz, o periódico ainda contava com as redatoras Santinha Araújo, Maria Leonor Cavalcante, Julinda Gurgel, como também várias moças da sociedade caicoense. Esse grupo de mulheres escreveu sobre literatura, humorismo e críticas com relação à condição da mulher na sociedade norte-rio-grandense. Ainda no que tange à sua atuação na imprensa potiguar, Júlia Medeiros também colaborou para a revista Pedagogium, órgão oficial da Associação de Professores do Rio Grande do Norte. Segundo o jornal A República (13 de março de 1926), a professora Júlia Medeiros escreveu, em 1925, um artigo intitulado “A missão da mulher”, em que ela questiona o papel da mulher na sociedade. Na cena cultural do estado do Rio Grande do Norte, a sua atuação era plural, uma vez que, além de professora, Júlia Medeiros era também responsável pela produção de pequenos dramas teatrais na cidade. Por volta de 1940, passou a conciliar as práticas pedagógicas com a direção do Hospital do Seridó, tornando-se a primeira mulher a ocupar esse posto. Ademais, atuou como vereadora de 1950 a 1958. Em 1960, perdeu a lucidez e foi levada, pela família, para Natal, na tentativa de restaurar sua saúde. Entretanto, não se recuperou e passou a perambular como mendiga, justificando seu apelido “Rocas-Quintas”, em referência à linha de ônibus que realizava o mesmo trajeto feito por ela. Excluída e esquecida, morreu em Natal em 29 de agosto de 1972, onde foi sepultada. Júlia Medeiros viveu de 1896 até 1972, em uma sociedade brasileira em que à mulher cabia, quase que exclusivamente, as posições coadjuvantes. No entanto, mesmo com a educação restrita aos homens, teve o privilégio de estudar em Natal, tornando-se professora. Ao regressar a Caicó, dedicou-se ao magistério desvinculando-se das estruturas sociais femininas do Seridó, as prendas domésticas. Vista como “louca”, Júlia Medeiros transgrediu a condição da vida privada imposta às mulheres: atuou em um periódico feminil, em que reivindicou os direitos negados ao público feminino e o letramento das camadas populares, se recusou a casar-se e foi a primeira mulher de Caicó a dirigir um automóvel. Além disso, administrou uma instituição pública na cidade e se elegeu vereadora. Sendo assim, a professora foi uma figura ilustre de sua era, por romper paradigmas sobre o espaço da mulher. Todavia, não teve destaque na história hegemônica, registrada a partir de padrões que reprovavam o seu protagonismo. Com a sanidade mental comprometida, vivendo como mendiga pelas ruas de Natal e fadada ao esquecimento, terminou seus dias como “Rocas-Quintas”, sucumbindo consigo a imagem irreverente de Júlia Medeiros. *A autoria do texto é atribuída a um trio de alunos, da Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ - UFRN), composto por Ana Dandara Vieira Brito, Maria Helena Silva no Nascimento e Anderson Kaian de Lima Maniçoba, sob a orientação da professora e historiadora Maiara Juliana Gonçalves da Silva para a Olimpíada Nacional de História do Brasil (2019). O texto original foi publicado no Dicionário de verbetes Excluídos da História, organizado pela ONHB e disponível em: https://www.olimpiadadehistoria.com.br/especiais/excluidos-da-historia/verbetes/398 Sobre os autores: Ana Dandara Vieira Brito tem 19 anos e é residente na cidade de Parnamirim, Rio Grande do Norte. É Técnica em Agropecuária pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente cursa Licenciatura em Química na UFRN. Anderson Kaian de Lima Maniçoba tem 19 anos e reside na cidade de Parnamirim/RN. É Técnico em Agroindústria pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente, é discente do curso de Odontologia da UFRN. Maria Helena Silva do Nascimento tem 18 anos e reside na cidade de Parnamirim/RN. É Técnica em Agroindústria pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente, está no cursinho pré Enem. Orientadora: Maiara Juliana Gonçalves da Silva é graduada no curso de licenciatura em História (UFRN) e de bacharelado em História (UFRN). Possui mestrado em História e Espaço pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGH-UFRN) e, atualmente, é aluna do doutorado em História na mesma instituição. Maiara Gonçalves é professora adjunta de História da Escola Agrícola de Jundiaí (UFRN) e é uma das editoras da nossa revista. Legenda da foto: Júlia Medeiros entre livros e papéis – Natal/RN (1925). Fonte: acervo particular de Manoel Pereira da Rocha Neto. BIBLIOGRAFIA: JORNAL DAS MOÇAS (1926-1932). Semanário feminino editado na cidade de Caicó, pelas professoras Georgina Pires, Dolores Dinis, Júlia Medeiros e um grupo de mulheres. FELIX, Ezequielda; MOREIRA, Aldo; FREIRE, Francisca Daise Galvão. Júlia Medeiros, peso na tradição, desejo de liberdade. Caicó, (Monografia) – Departamento de Estudos Sociais e Educacionais, Universidade Federal do Rio Grande do Norte,1997 MONTEIRO, Pe. Eymard L’Eraistre. Caicó: subsídios para a história completa do município. 2. ed. Natal: Nordeste Gráfica/ Sebo Vermelho, 1999. MORAIS, Maria Arisnete Câmara de. Leituras de mulheres no século XIX. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. RIBEIRO, Caroline Lasneaux. Publicações femininas: Uma análise da representação das mulheres no Jornal das moças (1926) e na revista Marie Claire (2005). Brasília, (Monografia). Centro Universitário de Brasília. 2006. ROCHA NETO, Manoel Pereira da. Jornal das Moças (1926-1932): Educadoras em manchete. Natal, (Dissertação). Universidade do Rio Grande do Norte. 2002. ROCHA NETO, Manoel Pereira. A educação da mulher norte-rio-grandense segundo Júlia Medeiros. Natal, (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2005.

Respeita Nossa História: Adélia Sampaio
Respeita Nossa História: Adélia Sampaio

Por Letícia M. S. Pereira* “sou uma negra assumida, uma cineasta assumida, uma mãe assumida, uma avó assumida e vou por aí me assumindo em todos os sentidos. A mulher tem que se assumir.” Adélia Sampaio Adélia Ferreira Sampaio, nasceu em Belo Horizonte - MG, em 1944, é considerada a primeira cineasta negra do Brasil, e a primeira a produzir um longa-metragem ainda nos anos de 1980. Foi casada com o jornalista Pedro Porfírio Sampaio com quem teve dois filhos: Wladimir Porfírio (jornalista) e Gogoia Sampaio (figurinista). Adélia ingressa no mundo cinematográfico, em 1967, na distribuidora DIFILM – Distribuição e Produção de Filmes Brasileiros Ltda, atuando como telefonista. Adélia Sampaio é uma mulher negra, filha de empregada doméstica, com pai desconhecido. Devido às condições de vulnerabilidade econômica da família, deixa a cidade de Belo Horizonte e vai para o Rio de Janeiro, ainda aos 4 anos. A relação trabalhista da mãe impõe a separação entre elas, Adélia passa parte da infância num internato em Minas Gerais, retornando ao contato da família somente aos 13 anos. Durante todo esse tempo, a mãe trabalhava para juntar recursos e pagar a “dívida” de escola, roupas e passagens, ou seja, os custos do envio forçado ao Arraial Santa Luzia dos Rios das Velhas, uma espécie de abrigo para meninas pobres e, assim, poder trazer de volta a filha ao convívio familiar. A irmã Eliana Cobbett, revisora da Tabajara Filmes, foi sua maior incentivadora e a pessoa responsável por apresentar a Sétima Arte para Adélia. Ela tinha 13 anos quando se deparou, pela primeira vez, com a sala escura e sua grande tela mágica, exibia-se o filme Ivan, o terrível (direção de Serguei Eisenstein, 1944), momento em que se encanta pelo cinema, e passa a desejar ser uma realizadora. Já adulta, descobre que a DiFilm estava precisando de uma telefonista, nesse momento os caminhos para viabilizar seu sonho começam a se desenhar. A DiFilm era um reduto do Cinema Novo, entre um telefonema e outro, ela organizava as sessões do Cineclube, ademais interagia e observava o trabalho das equipes e dos diretores cinemanovistas. Adélia Sampaio começa a executar pequenas funções e vai, pouco a pouco, passando a dominar os recursos e as técnicas do audiovisual. Atuando como assistente de produção, assistente de direção, diretora de produção, produtora executiva, roteirista, entre outros. Em sua atuação como diretora, destacam-se os seguintes filmes: 5 (cinco) curtas-metragens: Denúncia Vazia (1979); Agora um Deus dança em mim (premiado) (1984); Adulto não brinca (1979); Na poeira das ruas (1984), e, o mais atual, O mundo de dentro (2017). O documentário Cotidiano (1981); assim como, outros 2 (dois) documentários sobre a Ditadura Militar: Fugindo do passado: um drink para Tetéia, 1987; e, História Banal, 1987. Em 2004, em co-direção com Paulo Markum, lança o filme AI-5 – o dia que não existiu (2004). O seu longa-metragem Amor Maldito (1984) marca sua carreira em pelo menos duas frentes: 1) primeiro longa-metragem realizado por uma diretora negra, no Brasil e na América Latina; 2) o primeiro a trazer como tema um relacionamento homossexual feminino. O filme não consegue verba da Embrafilme (que classifica o tema absurdo), mas é viabilizado por sistema de cooperação. Outro problema enfrentado foi com a distribuição, a condição para ser exibido em São Paulo, no Cine Paulista, era se transvestir de pornográfico. O crítico da Folha de São Paulo, Leon Cakoff, escreve uma matéria importante valorizando o filme. Essa ação favorece a ampliação do número de salas de exibição e o retira desse rótulo de pornô. A história é baseada num caso real, narra o julgamento da empresária Fernanda Maia (atriz Monique Lafond) acusada de matar sua namorada, a ex-miss simpatia Suely Oliveira (atriz Wilma Dias), que se suicidou. A trama transita entre a violência / preconceito do júri e as lembranças dos momentos vividos pelo casal lésbico. Sobre suas produções, Sampaio afirma: “Eu acredito no cinema onde se possa denunciar ou alertar as pessoas. Todos os curtas são baseados em fatos reais, até mesmo o AI5, em que fiz a direção artística (reconstituindo os fatos com atores) e com a direção geral de Paulo Markun.” (entrevista à revista Catarinas) Interessante destacar, na trajetória da diretora, as micropráticas que levaram a telefonista a aprender sobre montagem, fotografia, roteiro; passando a atuar como diretora de produção, diretora de arte, programadora de revistas eletrônicas, entre outros. Essas microrresistências, na perspectiva de Michel de Certeau (2000), são estratégias e táticas do cotidiano que escapam às relações de poder exercido sobre eles. Me aproprio do termo para falar de microrresistências negras, considerando as práticas cotidianas que estão ligadas a pequenos movimentos de ruptura do modelo pré-estabelecido, ou seja, as dinâmicas do “micropoder” constituindo espaços de resistência afrodiaspóricas. Conforme Viviane Ferreira, é preciso visibilizar a produção de Adélia Sampaio, por ser a “primeira mulher brasileira negra a dirigir um longa-metragem – buscando a subjetividade de seu pertencimento racial em obras como ‘Amor Maldito’ (1984)”. (FERREIRA, 2016). Infelizmente, seu nome ainda é pouco conhecido dentro da academia e cursos de comunicação do Brasil. Até a publicação da tese de doutorado da professora Edileuza Penha de Souza, em 2013, o nome de Adélia Sampaio era completamente ignorado, mesmo em publicações e artigos sobre a presença negra no Cinema Nacional, ou sobre a constituição do Cinema Negro Brasileiro. Outro agravante, é o fato de seus curtas-metragens (negativos masters de imagem e som) entregues à Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro terem desaparecido. O que dificulta ainda mais o acesso a suas produções. Quando perguntada sobre a amnésia da indústria do audiovisual, responde: “Deve ser porque sou preta, né?”. É evidente a presença do racismo e do machismo, no tocante a invisibilidade de seus trabalhos no cenário cinematográfico brasileiro. Adélia Sampaio, em entrevista para blogueiras negras, destaca: “Cinema é, sem dúvida, uma arte elitista, aí chega uma preta, filha de empregada doméstica e diz que vai chegar à direção, claro que foi difícil! Até porque me dividia entre fazer cinema e criar meus dois filhos.” (GONÇALVES; MARTINS, 2016) Entre os anos 1970-1980, foram muitas as suas realizações na DiFIlme e em sua produtora, além dos filmes citados, participou em mais de 70 outras produções, o que demonstra a gravidade desse apagamento e sugere o esforço realizado por ela para se manter ativa e atuante no audiovisual. “A terra é um grande útero pedindo para ser fertilizado pelo olhar da mulher” Adélia Sampaio Na tentativa de registrar – em meio às limitações que envolvem uma pandemia (2021) e no auge dos seus 77 anos - seus novos e férteis projetos que incluem a produção de um longa-metragem A Barca das Visitantes, no qual revive episódios da Ditadura Militar com base em cartas enviadas aos presos políticos, ainda sem patrocínio. E dos curtas Meu Nome é Carretel e Amor em Estado Terminal. Atualmente, visando disponibilizar seus filmes abre um canal no YouTube – Adélia Sampaio (Disponível em: https://youtube.com/channel/UCVcvsoqRG6qC09VU-KV5rCw). A peculiaridade das microrresistências cotidianas se dá na ressignificação de práticas, conteúdos e lugares sociais. Assim, Adélia Sampaio sai da invisibilidade e passa a ser representatividade feminina e negra, no Festival Palmares de Cinema (FepalCine), em março de 2016, ela foi homenageada batizando uma categoria com o título de “Adélia Sampaio”, visando promover a visibilidade do trabalho de jovens cineastas negras. A partir do I Encontro Internacional de Cineasta e Produtoras Negras foi criada a Mostra competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio – quando mulheres fazem cinema, 2016-2019 – Brasília, na Universidade Federal de Brasília – UnB. A Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB realiza a Mostra com Mulheres, no Festival de Documentários de Cachoeira-BA, sendo um dos programas uma homenagem a Adélia Sampaio, sob a curadoria de Yasmin Thayná (RJ), para citar algumas homenagens. Destaca-se aqui que a visibilidade dos trabalhos de Adélia Sampaio - para além do processo de exclusão que ainda predomina sobre o acesso dos/as negros/as à “sétima arte” - é possível infringir rasuras, alterar os lugares sociais e propor mudanças futuras, no qual possibilita hoje o reconhecimento de uma mulher negra, como uma importante diretora do cinema nacional. Constitui-se repertórios alternativos, que trazem à cena outras tradições e uma diversidade de formas de representação que lutam para serem incorporadas às políticas simbólicas da memória cultural. PARA SABER MAIS... AGUIYRRE, Claudia. Adélia Sampaio e o pioneirismo cinematográfico de Amor Maldito. Portal Catarinas. Disponível em: Adélia Sampaio e o pioneirismo cinematográfico de Amor Maldito | Portal Catarinas FERREIRA, Viviane. Cinema Negro: Totem vem sempre de longe. No Brasil. 18/Jul./2016. Disponível em: http://nobrasil.co/cinema-negro-totem-sempre-vem-de-longe/ Acesso em: 04 ago. 2016. GONÇALVES, Juliana e MARTINS, Renata. O racismo apaga, a gente reescreve: conheça a cineasta que fez história no cinema nacional. 09 mar. 2016. Disponível em:http://blogueirasnegras.org/2016/03/09-o-racismo-apaga-a-gente-reescreve-conheca-a-cineasta-negra-que-fez-historia-no-cinema-nacional. Acesso em: 20 set. 2016. NEVES, Bia. Conheça Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra brasileira. Garotas Geeks. Disponível em: Garotas Geeks | Conheça Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra brasileira PEREIRA, Letícia M. S. Corpografias negras em telas: memórias, identidades e culturas afrodiaspóricas em filmes do Cinema Negro Brasileiro. 242f.il. 2017. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura. Universidade Federal da Bahia, 2017. SOUZA, Edileuza Penha de. Mulheres negras no cinema brasileiro: estratégia de afeto, amor e identidade. In: Fazendo Gênero 8: Corpo, violência e poder. Florianópolis, 25-28/Ago./2008. *Letícia M. S. Pereira é uma das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em Literatura e Cultura (UFBA) e defendeu uma tese sobre Cinema Negro no Brasil.

Respeita Nossa História: Itália Fausta
Respeita Nossa História: Itália Fausta

Por Flavia Veras* "Para a maioria dos comentaristas da época, Itália Fausta foi a grande dama do teatro brasileiro da sua época, e um dos mais generosos temperamentos trágicos que o nosso teatro já teve, capaz de interpretar com êxito alguns dos grandes papéis que consagraram Eleonora Duse e Sarah Bernhardt. O marasmo em que o teatro brasileiro se encontrava durante o auge de sua carreira, o predomínio de um repertório medíocre, do qual só poucas vezes ela conseguiu fugir, e a virtual ausência de diretores dispostos a abrir caminhos rumo à modernidade cênica impediram-na de concretizar plenamente as potencialidades de excepcional trajetória de intérprete a que a sua privilegiada inteligência, sensibilidade, cultura e abertura para o novo a teriam predestinado numa época mais recente. Mas o seu prestígio de atriz conferiu-lhe uma ascendência sobre seus colegas mais jovens e sobre a opinião pública, de que ela se serviu sistematicamente, através de lúcidos depoimentos públicos, entrevistas, etc., preconizando a necessidade da criação de um teatro diferente daquele que o panorama em que viveu a condicionou, na maioria das vezes, a fazer" MICHALSKI, Yan. Fausta Polloni é o nome de registro da talentosa atriz de família italiana, Itália Fausta. Nascida em São Paulo em 1878, foi uma grande artista tanto por seu trabalho no processo de renovação do teatro brasileiro, quanto por seu papel de militante anarquista e líder sindical da Casa dos Artistas, tendo feito importantes contribuições na luta pelos direitos das mulheres do teatro. Ela começou sua carreira ainda criança como artista amadora em São Paulo, mas ganhou espaço e o gosto do público a ponto de ser reconhecida como uma dama do teatro brasileiro. Contudo, a carreira profissional iniciou efetivamente em 1906 quando excursionou pelo Brasil em companhia de artistas portugueses, inclusive, indo para Lisboa em 1913. Voltou para o Brasil no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1917), da qual o Brasil participou após ter navios mercantes bombardeados. Para driblar os problemas econômicos e as dificuldades de fazer teatro no contexto da pandemia de gripe espanhola em 1918 criou-se o Teatro da Natureza, que consistia na encenação de peças ao ar livre. Eram realizadas no Campo de Santana e criou empregos para os artistas, que viviam momentos difíceis devido à conjuntura histórica. No primeiro quarto do século XX, em parte devido à forte influência italiana, se destacou como atriz em um contexto que se falava em “fundar o teatro nacional”, ao mesmo tempo em que se buscavam referências estrangeiras. Itália Fausta, em um período de pouco financiamento público para a área cultural, protagonizou a importante Companhia Dramática do Estado de São Paulo, com incentivo do Conservatório Dramático de São Paulo. Em 1917, fez uma turnê ao Rio de Janeiro com o drama “Ré Misteriosa”, que de tão exitosa fez com que a atriz permanecesse definitivamente na então capital, com a “Companhia Dramática Nacional”, posteriormente chamada de Companhia Itália Fausta. Itália Fausta também se dedicou ao teatro operário nos anos 1910-1920. De cunho notadamente anarquista, por vezes se confundiu com as revistas, por fazer críticas sociais, explorando a nudez e os temas do cotidiano. Estas peças utilizavam as técnicas habituais do teatro como a apoteose, as danças e as músicas para colocar os temas que desejavam tratar: O teatro foi escolhido para a pregação e difusão de um ideário social de libertação, às vezes anticlerical, que de um lado, pelo caráter político de suas atividades teatrais; e de outro pela simples busca do conhecimento, fez o operariado refletir sobre manifestações populares e descobrir problemas básicos de sua existência de classe (CABRAL, 2008, 77 – 84). No sentido da construção do teatro moderno brasileiro, Itália Fausta participou de iniciativas como o Teatro de Brinquedo, de Eugênia e Álvaro Moreira, nos anos 1920, e do Teatro do Estudante do Brasil (TEB), de Pascoal Carlos Magno, nos anos 1930. Também trabalhou com personalidades reconhecidas do teatro moderno como Maria Della Costa e Ziembinski. Itália Fausta conectou a luta pelo teatro com suas expectativas por uma sociedade mais justa. Ela ocupou o cargo de presidenta da Casa dos Artistas, o sindicato dos artistas, entre 1935 e 1936. A questão da mulher artista foi levantada com muito vigor como ficou registrado no Anuário Teatral da Casa dos Artistas, em 1938. Como ex-presidente ela assinou a matéria “A vida da mulher que trabalha em teatro” tratando sobre a mulher artista, na qual discute os desafios da profissão e as intercessões entre o trabalho doméstico, o teatro e a criação dos filhos. Essa matéria também versava sobre a necessidade de toda a companhia ser equipada com um guarda-roupa que possibilitasse as artistas de não terem gastos incompatíveis com seus cachês na compra de roupas para atuação. A mulher de teatro trabalha mais de oito horas por dia, sempre mais que em qualquer outra profissão. Em geral ensaia de uma às cinco. Volta para o teatro às sete horas, trabalha até meia noite e, muitas vezes, ensaia até a madrugada. Aos domingos e feriados, enquanto os demais profissionais descansam, ela trabalha, e se os diaristas recebem seus honorários dobrados, os artistas trabalham de graça, sem pagamento algum pelas horas extras de serviço. Em teatro ninguém goza das regalias da lei de férias... Por enquanto, as leis trabalhistas têm trazido muito pouco benefício à gente de teatro. Requer, talvez, fiscalização melhor, outra regulamentação. Um dos problemas difíceis para a mulher é seu vestuário. Não se suporta mais uma atriz modestamente vestida. A artista, com encargo de família, não pode representar certas peças por falta de roupas caras. Os contratos deveriam fixar um terço do ordenado para a compra de roupas, correndo o excedente por conta das empresas. Quando existirem em todo Brasil teatros populares, funcionando regularmente com companhias nacionais, estará resolvido o problema do teatro nacional. Então, em todas as classes surgirão elementos artísticos e ser atriz deixará de ser uma profissão singular para tornar-se uma profissão comum, acessível a todas as mulheres que se sentirem atraídas pela mais bela e mais humana de todas as artes. (Itália Fausta, 1938) No final da década de 1940 confrontou o empresário Vital de Castro contra sua intenção de transformar o Teatro Fênix em um cinema. Essa era uma prática comum, tendo em vista as dificuldades de arregimentar o público teatral, mas que afetava diretamente as companhias teatrais e os artistas. Ela convocou os artistas a ocupar os camarins com cama e mesa, o que foi um escândalo, mas garantiu a permanência da companhia em atividade e o funcionamento (como teatro) do Teatro Fênix. Com uma vida de muitas lutas, projetos, sonhos e criatividade, após uma turnê pelo norte do Brasil em 1951, Itália Fausta morreu em sua casa em Santa Teresa no Rio de Janeiro, aos 73 anos, deixando uma contribuição enorme para o estudo da história do teatro no Brasil. Saiba Mais Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1937. “Casa dos Artistas a sua fundação”. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1938. “A vida da mulher que trabalha em teatro” por Itália Fausta. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. CABRAL, Michelle Nascimento. Teatro Anarquista, Futebol e Propaganda: tensões e contradições no âmbito do lazer. Rio de Janeiro, 2008. Dissertação (Mestrado em História) Universidade Federal do Rio de Janeiro. MICHALSKI, Yan. Itália Fausta. In:_________. PEQUENA Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq. Rio de Janeiro, 1989. VERAS, Flavia. Tablado e Palanque – A formação da categoria profissional dos artistas no Rio de Janeiro (1918 – 1945). Saarbrücken: Novas Edições acadêmicas, 2014. VERAS, Flavia. “Fábricas da Alegria”: o mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1918 – 1945). Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2017. Imagem: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349575/italia-fausta *Flavia Veras é editora da Revista MFM, membro do LEHMT-UFRJ e professora de ensino básico.

Respeita Nossa História: Antonieta de Barros
Respeita Nossa História: Antonieta de Barros

Por Ynaê Lopes dos Santos* No dia 15 de outubro comemoramos o Dia do(a) Professor(a). Uma data que deveria trazer inúmeras reflexões, a começar pela insistência que o Estado brasileiro tem em manter essa profissão no limite da precarização. Mas esse dia também fala sobre a presença negra no magistério. Devemos muito à Antonieta de Barros - responsável pela lei que transformou essa data num marco nacional. “A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os tempos”. Antonieta Barros - Revista Terra. Ano 1, nº17, 1920 Nascida em 1901 em Santa Catarina, criada apenas pela mãe (empregada doméstica que havia nascido como escravizada), Antonieta foi uma das mais importantes professoras da sua época. Ensinando Português e Literatura, Antonieta fundou um Curso Particular para a alfabetização de pessoas carentes, e atuou como docente e diretora do atual Instituto de Educação. Antonieta também fundou jornais e publicou crônicas que tratavam de uma série de assuntos. Atuou na política, tendo sido a primeira deputada negra eleita no Brasil. Participou da constituinte de 1935, sendo responsável pelos capítulos Educação, Cultura e Funcionalismo, até o golpe de Getúlio Vargas. Em 1937 publicou o livro “Farrapo de Ideias” e continuou atuando energicamente em prol do poder transformador da educação, voltando à vida política após a restauração democrática. Suas bandeiras pregavam a educação de qualidade para todos, a luta contra o racismo e a igualdade de condições para as mulheres! Faleceu em março de 1952. “Não será a tristeza do deserto presente que nos roube as perspectivas dum futuro melhor (..), onde as conquistas da inteligência não se degenerem, em armas de destruição, de aniquilamento; onde os homens, enfim, se reconheçam fraternalmente. Será, contudo, quando houver bastante cultura e sólida independência entre as mulheres para que se considerem indivíduos. Só então, cremos existir uma civilização melhor.” Antonieta Barros. Jornal República, 13 de maio de 1932 Uma história e tanto! Uma história que é nossa! Uma história que só torna maior a necessidade de comemorarmos o dia de hoje, não nos esquecendo que professor, é para vida toda. *Ynaê Lopes dos Santos é historiadora e Professora Adjunta de História da América da UFF. Instagram: nossos_passos_vem_de_longe Twitter: @ynaelopes Quer saber mais? MOTT, Maria Lúcia de Barros. Escritoras negras resgatando a nossa história. Coleção Papéis Avulsos,1989. ESPINDOLA, Elizabete M. Antonieta de Barros: Educação, Gênero e Mobilidade Social em Florianópolis na primeira metade do século XX. (Tese de Doutorado em História Social) Programa de Pós-Graduação em História Social. Belo Horizonte: UFMG, 2015. ESPÍNDOLA, Elizabete Maria. ANTONIETA DE BARROS: EDUCAÇÃO, CIDADANIA E GÊNERO PELAS PÁGINAS DOS JORNAIS REPÚBLICA E O ESTADO EM FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX. Disponível em <http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos.6/elizabeteespindola.pdf > Acesso em: 18 de fev. de 2021. Veja o vídeo curta-metragem documentário “Antonieta”, sobre Antonieta de Barros: https://www.youtube.com/watch?v=4gTKJabYgKI Ficha técnica Direção: Flávia Person Roteiro: Flávia Person Produtora: Magnolia Produções Culturais e Ombu Arte Montagem: Yannet Briggiler Edição de Som e Trilha Sonora: Diogo de Haro Pesquisa e Consultoria Histórica: Fausto Douglas Corrêa Júnior Assistência de Produção: Gabi Bresola e Matias Eastman Assessoria de Comunicação: Barbara Pettres Edição de Texto: Fábio Brüggemann Preparação Vocal: Barbara Biscaro Mixagem: Diogo de Haro e Paulo Costa Franco (Estúdio Ouié) As dicas e citações desse artigo foram adicionadas pela equipe editorial da Revista MFM

Respeita a nossa história: Leonor Porto
Respeita a nossa história: Leonor Porto

Por Tássia Fernandes Paris* “Como verdadeira traça foi carcomendo, estragando as traves do edifício negro o célebre ‘Club do Cupim’, que foi um grande exército de abnegados. (...) Nem as senhoras ficaram inactivas: para melhor meio de acção fundaram a Sociedade Ave Libertas, que teve em seu seio, entre outras senhoras notáveis, (...); Leonor Porto, [que] sacrifica os seus interesses, põe o seu atelier de costuras e a sua competência profissional ao serviço desta causa; e contam que muitas vezes a sua habilidade disfarçava alentado molecote em veneranda matrona que conduzida pelo braço de algum membro do citado Club chegava ao caes e (...) embarcava, fugindo (...) para a terra da Luz, em busca da liberdade” (Jornal do Recife, ed. 136, 20 maio 1917). No dia 17 de dezembro de 1840, na cidade do Recife, nasceu Leonor Jorge Bastos, filha de Fortunato Pereira da Fonseca Bastos, comerciante recifense, e Carolina Leopoldina Jorge Bastos, comerciante lisboeta moradora do Recife. Leonor foi batizada com o nome de sua avó materna, Leonor Jorge. Não se sabe ao certo o número de irmãos que Leonor teve, sendo cinco os nomes conhecidos: José Fortunato da Fonseca Bastos, Joaquim Jorge da Fonseca Bastos, Gaspar Bastos, D. Adelaide Bastos Gomes Penna e D. Zulmira Bastos de Souza Monteiro. Passou a assinar Leonor Bastos dos Santos Porto, após o casamento com o comerciante portuense Antonio Augusto dos Santos Porto. Não sabemos ao certo a data do matrimônio. No entanto, na primeira referência em periódicos recifenses, D. Leonor Porto já figura com o seu nome de casada. Esta primeira notícia diz respeito à sua participação em uma festividade da Igreja Católica, em 1873 (Diário de Pernambuco, ed. 8, 11 jan. 1873). Leonor foi bastante atuante nos compromissos religiosos, participando de diversas irmandades e celebrações. Antonio e Leonor tiveram, ao todo, nove filhos que chegaram à vida adulta: Carolina Porto de Carvalho, Antonio Augusto dos Santos Porto (homônimo ao pai), João Augusto dos Santos Porto, Albertina Porto de Oliveira, Adelaide Porto da Silveira, Leonor Porto de Castro, Fortunato Augusto dos Santos Porto, Fausto Tancredo dos Santos Porto e Mario Augusto dos Santos Porto. D. Leonor Porto aparece, a partir do ano de 1879, como modista e costureira, em diversos periódicos do Recife, divulgando seus préstimos para meninas, senhoras e crianças. Seu futuro marido e o futuro cunhado, José Fortunato dos Santos Porto, foram citados, em conjunto com seu pai, Fortunato Bastos, em 1854, no mesmo anúncio do Jornal “O Liberal Pernambucano”, como vendedores de bilhete de loteria na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio (O Liberal Pernambucano, ed. 460, 24 abr.1854) A partir de 1880, Antonio Augusto Porto é citado em diversos anúncios de periódicos da mesma cidade como administrador de uma casa de bilhetes de loteria, a Casa Feliz, situada na mesma praça. Portanto, indo ao encontro com o afirmado por Alcileide Cabral do Nascimento e Noemia da Luz (2012, pp. 130-131), Leonor Porto não era proveniente de nenhuma família de posses ou de renome de Pernambuco, sendo todos comerciantes. Ao que parece, a aproximação de Leonor das damas da sociedade recifense se deu pelo seu trabalho como modista e pela devoção católica. Essa aproximação foi fundamental para que ela adentrasse o círculo abolicionista da cidade, já que, de acordo com Silva e Barreto (2014, p. 51) as mulheres abolicionistas, no Brasil, pertenceram preponderantemente à elite econômica e intelectual do país. As primeiras referências a Leonor Porto ligadas ao movimento abolicionista datam de 1884 e surgem no contexto da divulgação das reuniões da Sociedade de Senhoras Abolicionistas 25 de Março (Diário de Pernambuco, ed.104, 6 maio 1884). Fundada em 20 de abril de 1884, a sociedade passa a ser nomeada, já em sua segunda sessão, como Sociedade Abolicionista Ave Libertas, pois já havia uma sociedade registrada com a denominação “25 de março” (Diário de Pernambuco, ed. 104, 6 maio 1884). Durante o primeiro semestre de 1884, Leonor Porto exerceu a função de tesoureira da Sociedade Ave Libertas. Nesse curto período de tempo, são relatados diversos eventos e espetáculos em que a sociedade participou, seja como organizadora principal, seja como participante em eventos de outras sociedades. Desta maneira, a Sociedade Ave Libertas se consolidou como importante membro na rede de liberdade da cidade do Recife, tecendo diversas parcerias com várias organizações abolicionistas. Em 24 de Agosto de 1884, a Ave Libertas procedeu a uma nova eleição, nomeando Leonor Porto como sua presidente, Ernestina Lopes de Barros como vice, Odila Pompílio como 1ª secretária, Carlota Vilela como 2ª secretária e como tesoureira Flora Guedes Alcoforado (Diário de Pernambuco, ed. 196, 26 ago.1884). A primeira sede da Sociedade Ave Libertas foi instalada no primeiro andar do número 31 da Rua do Imperador. Na edição 205 do Jornal do Recife, dia 10 de setembro de 1885, noticiou-se a festa de aniversário da instalação da sede da Sociedade Ave Libertas, que ocorreu nos salões do Club Carlos Gomes. A solenidade foi iniciada com uma sessão magna da sociedade, na qual, após o discurso da presidente reeleita Leonor Porto, a primeira secretária, Odila Pompílio, realizou a leitura do relatório anual do primeiro ano social do grupo. Neste relatório, prestou-se contas de mais de 200 alforrias conseguidas, por pecúlio ou sem indenização, enfatizando os esforços pessoais da presidente da sociedade para tal feito. Com o fim da escravização de pessoas no Brasil, a 13 de maio de 1888, a Sociedade Ave Libertas, assim como as demais sociedades abolicionistas do país, foi dissolvida. Em nota publicada, no Diário de Pernambuco, na edição 111, no dia 17 de maio de 1888, a diretoria da Sociedade Ave Libertas se pronunciou. Na publicação, intitulada “Ave Libertas”, as sócias reconheciam que a questão não estava resolvida, pois apesar de alcançado o principal objetivo da causa, havia ainda uma tarefa, “a de olhar com desvelo para a sorte” dos libertados. No período imediatamente posterior à abolição, Leonor Porto passou a se dedicar novamente às suas atividades mais corriqueiras, como o ofício de modista e costureira e a devoção à Igreja Católica. No entanto, em 1891, a modista interrompe suas atividades, após a morte de seu esposo, Antônio Augusto Porto, vítima de “sofrimentos cardíacos” (Jornal do Recife, ed.102, 7 maio 1891). Leonor retorna ao ofício, publicando seus anúncios com maior frequência apenas no ano seguinte (Jornal do Recife, ed.258, 13 nov. 1892). Apesar do retorno, nos anos que se sucederam, a modista se dividiu entre o seu ofício e as estadas no Rio de Janeiro, aonde residiam alguns de seus filhos e netos. Leonor decide por se mudar de forma definitiva para a capital da República em 1897, constituindo leiloeiro para os seus objetos e mobília (Jornal do Recife, ed.43, 23 fev. 1897). A líder abolicionista embarcou para o Rio de Janeiro, via Bahia, em 15 de abril de 1897 (Jornal do Recife, ed.86, 18 abr.1897). Na edição 32, Jornal do Recife de 8 de fevereiro de 1901, noticiou-se a morte de D. Leonor Porto, ocorrida no dia 6 de fevereiro deste ano. Não é noticiada a causa da sua morte. Para homenageá-la, no âmbito das comemorações pela Abolição, em maio de 1902, renomeou-se uma rua: a Rua da Conquista, no bairro da Soledade, passou a ser denominada rua D. Leonor Porto (Diário de Pernambuco, ed.107, 13 maio 1902). Da mesma forma, uma escola também foi nomeada com sua homenagem, datando a primeira referência a ela em 1919 (Diário de Pernambuco, ed.118, 5 maio 1919). A Escola Leonor Porto situava-se no Recife, na rua Padre Floriano, nº80, mantida pela Liga Pernambucana contra o Analphabetismo (Diário de Pernambuco, ed.17, 20 jan. 1922). Nas edições dos periódicos recifenses de comemorações e homenagens ao dia 13 de maio, Leonor Porto é citada entre os principais líderes do movimento abolicionista do Recife, sendo referida como “à vanguarda da grande campanha” (Jornal do Recife, ed.129, 14 maio 1929), “ilustre abolicionista pernambucana” (Diário de Pernambuco, ed. 209, 1º ago. 1918), “distinta pernambucana, cujo nome se acha ligado (...) à história gloriosa da propaganda abolicionista” (Diário de Pernambuco, ed. 21, 27 jan.1897). Apesar de ter sido fundada em um momento de radicalização do movimento, a Sociedade Ave Libertas tinha em seu estatuto (FERREIRA, 1999, p. 205), logo no artigo 1º, parágrafo 1º Art 1º - Fica criada no Recife uma associação abolicionista com a denominação de Sociedade Ave Libertas, cujos fins são: §1º - Promover a libertação de todos os escravos do município do Recife por todos os meios lícitos e legais ao seu alcance. [grifo nosso]. Portanto, em sua maior diretriz, as sócias do Ave Libertas, no primeiro artigo, deixaram claro que agiriam conforme a lei. Todavia, encontramos relatos que as identificavam como umas das principais articuladoras da luta clandestina contra a escravização no Recife. Contrariando o que foi posto neste estatuto, Leonor e outras sócias teriam participado de diversas ações ilegais realizadas pelo abolicionismo radical recifense, especialmente nas fugas de escravos para a província do Ceará, encabeçadas pela associação clandestina Club do Cupim. A modista teria, por diversas vezes, utilizado seus dotes de costura para disfarçar “molecotes” como “matronas” (Jornal do Recife, ed.136, 20 maio 1917). Os garotos eram conduzidos, disfarçados por Leonor Porto como damas, até o cais do Recife por um membro do Club do Cupim, enquanto José Mariano, político liberal muito popular e um dos líderes abolicionistas mais conhecidos da cidade, distraía as autoridades, puxando conversa. Desta maneira, o rapazola embarcava, rumo à província livre do Ceará. Outra contribuição de Leonor e de suas sócias era esconder escravizados fugidos em suas casas, até que a rede clandestina pudesse estabelecer um plano de fuga seguro (Jornal do Recife, ed.128, 13 maio 1914 e Diário de Pernambuco, ed. 109, 11 maio 1938). Assim, de acordo com esses relatos e com o excerto referenciado na abertura deste ensaio, a Sociedade Ave Libertas foi fundada como um ramo legal das ações abolicionistas de suas associadas. A perseguição aos abolicionistas, engendrada a partir de 1884, com a ascensão do Gabinete Cotegipe, teria sido o mote para a criação desta associação, como um meio de autoproteção e desvinculação destas mulheres das possíveis punições às quais estariam sujeitas, se pegas em atividades ilegais. O fato de estes relatos serem praticamente ignorados e a real dimensão da participação feminina no movimento abolicionista brasileiro ser pouco estudada demonstra a urgência em aprofundar tais investigações. *Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – Pesquisadoras em rede e membra do Grupo de Estudos Feministas Dandara dos Palmares. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro e cinco cachorros, fora os peixes. Referências bibliográficas FERREIRA, Luzilá Gonçalves. Suaves Amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste. Recife: Universitária da UFPE, 1999. NASCIMENTO, Alcileide Cabral do; LUZ, Noemia Maria Queiroz Pereira da. Liberdade, transgressão e trabalho: cotidiano das mulheres na cidade do Recife (1870-1914). Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 5, n. 1, jan-jul., 2012, pp. 126-149. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos; LEANDRO, Jacilene de Lima. As mulheres e o movimento abolicionista: participação e engajamento (Recife, 1880-1888). Gnarus Revista de História, vol. X, n. 10, set 2019, pp. 48-55. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos. O 25 de março de 1884 e a luta pela libertação dos escravos em Pernambuco. Clio Revista de Pesquisa Histórica, vol. 33, n. 2, jul-dez 2015, pp. 158-180. SILVA, Wladimir Barbosa; BARRETO, Maria Renilda N. Mulheres e abolição: protagonismo e ação. Revista da ABPN, vol. 6, n. 14, jul-out 2014, pp. 50-62. Referências da imagem Retrato utilizado como capa do jornal Ave Libertas, publicado em 1885, no Recife, pela Tipografia Mercantil, em homenagem ao primeiro ano de fundação da Sociedade Ave Libertas. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=731935&pesq=%22Ave%20libertas%22&pagfis=

Respeita nossa história: Ruth Klüger
Respeita nossa história: Ruth Klüger

por Maria Eliza Zahner* Ruth Klüger nasceu em Viena, Áustria, em 30 de outubro de 1931. Judia, tinha onze anos quando foi enviada, junto com sua mãe, para os campos de concentração nazistas. Juntas, passaram pelo gueto de Theresienstadt e os campos de Auschwitz-Birkenau e Christianstadt. Durante uma das marchas da morte, características das liberações dos campos, conseguiram fugir. Klüger é mais conhecida na área de História pelo seu livro “Paisagens da Memória”, em que narra suas memórias dos campos e os efeitos da experiência em sua vida. Nele, temas como o luto, o sexismo e sua identidade estão sempre presentes. Vemos em sua obra passagens que nos levam a reconhecê-la como a mulher a quebrar a imagem clássica do sobrevivente - aquele que tem o campo como ponto de partida de sua vida. É, também, forte opositora à cultura museológica em torno dos campos de concentração. Vejamos, aqui: A Auschwitz nunca mais voltei e tampouco tenho intenção de fazê-lo nesta vida. Para mim, Auschwitz não é um lugar de peregrinação, um santuário. Poderia vangloriar-me por ter saído de lá com vida, mas quero dizer que Auschwitz não se tornou um lugar de referência para mim, que passei por ali e esse lugar não conseguiu me reter [...] Não pertenço àquele lugar que vi com os olhos, senti com o nariz e temi como nunca, e que hoje existe apenas como museu, e nunca pertenci a ele. Um lugar para os que querem preservar a área. E, no entanto, esse lugar torna-se para todo aquele que ali sobreviveu uma espécie de lugar de origem. A palavra Auschwitz tem hoje uma grande aura, mesmo que seja negativa, de modo que ela determina em grande medida o que se pensa sobre uma pessoa quando se sabe que ela esteve lá. Também em relação a mim, as pessoas que querem dizer algo importante a meu respeito mencionam que estive em Auschwitz. Mas não é tão simples assim, pois não importa o que vocês possam pensar, não venho de Auschwitz, venho de Viena. Viena não pode ser posta de lado, ela se percebe pela minha linguagem; Auschwitz, porém, era tão estranho para mim quanto a lua. Viena é uma parte de minha estrutura mental e fala através de mim, enquanto Auschwitz foi o lugar mais despropositado onde jamais estive e a lembrança que tenho de lá permanece na alma como um corpo estranho, como um projétil de chumbo que não pode ser extirpado do corpo. Auschwitz foi apenas um acaso monstruoso. (KLÜGER, 2005: 125-126) Ruth Klüger narra sua vida e assume o controle de sua identidade a partir de sua obra. A escrita é cheia de provocações, em especial aos homens que passaram por sua vida, como: Anos depois, eu estava casada com um historiador que lecionava história européia em Berkeley: ele chega à era Hitler e lhe pergunto se gostaria que eu falasse a seus alunos, durante uma hora, sobre os campos de concentração. Algo se transforma em seu rosto, uma grade cai diante de seus olhos, ou melhor, uma ponte levadiça se ergue, ouve-se um murmurejo, lá embaixo tem água parada, amarelo-esverdeada, cheia de algas. Ainda quero acrescentar que não sugeri nenhum strip-tease na classe, mas penso ‘não o censure, é um veterano de guerra; esses veteranos representam a vitória do bem sobre o mal’. Éramos como doentes de câncer que lembram às pessoas saudáveis que estas também são mortais. Freqüentemente conta para mim como sentira frio no inverno de 1944-45. Certa vez, me senti compelida a dizer que eu mesma me lembrava muito bem daquele inverno rigoroso sobre o qual ele discorria; porém, sem os bons cobertores, as roupas quentes e as rações generosas das forças americanas, a lembrança era ainda mais viva. Exaltou-se porque eu lhe impunha recordações que competiam com as dele. Aprendi então que as guerras pertencem aos homens. (KLÜGER, 2005: 208-209) Utilizo suas citações por honra ao que ela pede em “Paisagens da Memória”: poder falar. Durante sua vida, várias vezes recebeu a negação de sua identidade. Era jovem demais para estar nos campos de concentração, era mulher, judia, imigrante... O livro é como se apropria de sua história, através de suas palavras. Após a fuga dos campos, em 1945, Ruth Klüger e sua mãe, Alma Klüger, se refugiam na Alemanha, onde ficam por dois anos e meio, em Bayern. Depois de terminar seus estudos na Alemanha, migram para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, se forma em Literatura Inglesa no Hunter College. A relação complicada com a mãe faz com que Klüger se mude para a Califórnia, onde se casa, tem dois filhos, se divorcia e retoma seus estudos. Na Universidade da Califórnia, Berkeley, faz seu doutorado em Literatura Germânica e se torna professora universitária. Passa por algumas faculdades, e, em 1980, se torna a primeira mulher do departamento de Estudos Germânicos da Universidade de Princeton. Em 1986, se fixa na Universidade de Irvine, Califórnia, onde se torna professora emérita. Dentre suas obras não publicadas no Brasil estão “unterwegs verloren – Erinnerungen”, uma segunda autobiografia lançada em 2010, e “Frauen lesen anders” e “was Frauen schreiben”, duas análises sobre os hábitos femininos na Literatura, além de seus trabalhos sobre o poeta Heinrich von Kleist, a quem dedicou sua pesquisa. Ao longo de sua carreira, Ruth Klüger ganhou diversos prêmios por seu trabalho enquanto autora e crítica, entre eles o Thomas-Mann-Preis, em 1999, e a Goethe Medaille, em 2005, dois importantes prêmios da literatura alemã. Também recebeu, em 2003, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Göttingen, na Alemanha. Ruth Klüger faleceu em sua casa, em Irvine, Califórnia, no dia 6 de outubro de 2020. *Maria Eliza Zahner, graduada em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em 2019. Natural de Petrópolis, se interessa pelas mulheres que querem contar suas histórias. Sua pesquisa, durante a graduação, analisou as identidades de RuthKlüger expostas em seu livro "Paisagens da Memória". Referências: KLÜGER, Ruth. Paisagens da Memória: Autobiografia de uma Sobrevivente do Holocausto. São Paulo: Ed. 34, 2005. KLÜGER, Ruth. unterwegs verloren: Erinnerungen. München: dtv, 2010. Perfil da Dra Ruth Klüger na Universidade de Irvine, Califórnia, disponível em https://www.faculty.uci.edu/profile.cfm?faculty_id=2565 Acessado em 11/10/2020 Obituário de Ruth Klüger publicado no Washington Post, disponível em https://www.washingtonpost.com/local/obituaries/ruth-kluger-author-of-searing-and-celebrated-holocaust-memoir-dies-at-88/2020/10/09/eeee3b16-0a2a-11eb-9be6-cf25fb429f1a_story.html Acessado em 11/10/2020

Respeita nossa história: Maria Montessori
Respeita nossa história: Maria Montessori

por Juliana Guedes Costa Santos* A pedagoga pioneira dos pensamentos inovadores em educação. Maria Tecla Artemisia Montessori, pesquisadora, pedagoga e médica italiana, tinha como lema “Educar para a vida”. Até os dias de hoje, ela é conhecida como uma pioneira na área pedagógica por dar destaque à autoeducação do aluno em detrimento à ideia do professor como fonte de conhecimento. Para ela, a educação era uma conquista da criança, pois percebera que já nascemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos. Como foi a terceira a se formar em Medicina em seu país, sofreu preconceito por ser a única mulher, no meio de muitos homens, exercendo essa profissão. Foi, então, trabalhar como assistente na clínica psiquiátrica da Universidade de Roma. Montessori nasceu na Itália em 31 de agosto de 1870. Aos 28 anos, começou a visitar um hospício em Roma e viu, com espanto, como crianças eram tratadas de forma desumana. Alguns romanos iam ao local para atirar-lhes comida, como faziam com os animais do zoológico. Achando tudo aquilo impossível de continuar, decidiu trabalhar para mudar aquela realidade. Em Turim, num Congresso Médico Nacional, defendeu a tese de que a principal causa do atraso no aprendizado de crianças especiais era a ausência de materiais de estímulo para o desenvolvimento adequado. Logo depois, formou-se em Pedagogia, envolveu-se com a Liga para a Educação de Crianças com Retardo, e foi nomeada codiretora de uma escola especializada. Ela concluiu em suas pesquisas que a educação deve ser uma técnica de amor e respeito. Para ela, encontrar um lugar no mundo, desenvolver um trabalho gratificante, nutrir paz e densidade interiores para ter capacidade de amar eram os objetivos que deveriam guiar toda a criança. A educação e a vida não deveriam se limitar a conquistas materiais. A pesquisadora teve um grande envolvimento em ativismo político e cívico, ajudando na formação de associações de mulheres. Participou de conferências e publicou artigos na imprensa feminista. Filiou-se, também, à Sociedade Teosófica, que valorizava a ação social e a educação das crianças. O Método Montessori une o desenvolvimento biológico e mental do indivíduo, dando destaque ao treinamento dos movimentos musculares necessários para a realização de tarefas cotidianas. Foi um método revolucionário, que se baseava em confiar nas crianças. Montessori dizia que elas não deveriam ser recompensadas, nem punidas, ou corrigidas, mas sim, respeitadas e, sem interferência, liberadas em um ambiente em que tudo (espaço, móveis, objetos) estivesse sob medida. Essas ideias divergem com o preconceito daqueles que pensam que a criança é essencialmente indolente, preguiçosa e incapaz de encontrar desafios que correspondam às suas competências. O método privilegiava uma educação que pusesse as crianças como centro da atenção em um ambiente que estimulasse as habilidades naturais, como cuidados pessoais, ginásticas e jardinagem. Segundo a Associação Internacional Montessori, um ambiente organizado e atraente composto por materiais didáticos e utensílios da vida cotidiana; classes com alunos com diferentes idades; um professor que atua como guia e só interfere se necessário; materiais multissensoriais que permitam o “aprender fazendo”; liberdade de tempo para que os alunos se dediquem aos assuntos que lhe interessam; e flexibilidade para escolherem o local de trabalho e com quem querem trabalhar (se quiserem trabalhar em grupo), eram elementos essenciais para a prática do método inovador e revolucionário. Atualmente, seu método tem sido alvo de um paradoxo entre pedagogos. As escolas montessorianas estão em áreas mais abastadas das cidades, dificultando a entrada de crianças mais pobres. O custo anual dessas escolas, hoje em dia, também é bastante elevado, dificultando a inclusão social. Esse paradoxo não foi o único na vida da pedagoga. Ela passou um estimável tempo de sua vida dedicando-se às crianças, mas não foi responsável por criar seu filho. Ela havia se envolvido com um colega médico, Giuseppe Montesano. Era uma relação livre, sem vínculos, ela não acreditava na instituição do casamento e, naquela época, uma mulher casada não podia trabalhar fora de casa sem a autorização do marido. Montessori descobriu que estava grávida de Montesano. Um filho fora do casamento custaria toda sua vida de trabalho naquele tempo. As duas famílias combinaram que ela daria à luz em segredo. E quando em março de 1898 nasceu um menino, Mário. Eles o registraram como filho de pai e mãe desconhecidos e o entregaram a uma enfermeira para criá-lo. Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância. Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos. Mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época. Seu método obteve mais repercussão no estrangeiro do que em seu país de origem. Esse seria o provável motivo que a levaria a aceitar o patrocínio de Mussolini. Em 1924, ele se reuniria com Montessori para manifestar seu interesse no método educacional em escolas italianas. Ele fora professor durante a juventude e sonhava em fazer das escolas italianas uma fábrica de jovens disciplinados e obedientes. Eles começaram uma estranha colaboração que durou dez anos. Até que, em 1934, decepcionada ao ver que Mussolini não cumpriu suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper qualquer relação com o fascismo. Com seu filho, Mário, Maria Montessori criou a Associação Internacional Montessori para divulgar o trabalho, em 1929. Em 1949, Montessori foi nomeada ao Nobel da Paz. Essa nomeação se repetiu em mais dois anos seguintes. Ela não chegou a ganhar nenhum dos prêmios. Muitos acham que isso se deu ao fato de ela ter tido relações com Mussolini. Ela morreu em 06 de maio 1952, aos 81 anos, deixando seu legado até os dias de hoje. *Juliana Guedes Costa Santos é Cientista social formada pela UFF, cursando licenciatura em sociologia. Apaixonada por tudo que envolva inovação em educação, métodos de ensino e fã do método montessoriano. Pretendo fazer mestrado no próximo ano para pesquisar sobre métodos educacionais utilizados em penitenciárias femininas do estado do Rio de Janeiro. Referências VELASCO, Irene Hernández. “A vida paradoxal de Maria Montessori, criadora do método de ensino para crianças pobres que virou modelo para ricos”. BBC, 2020.  Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53972711 Acesso em: 20 set. 2020. FERRARI, Márcio. “Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno”. Nova Escola, 2020. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno Acesso em: 20 set. 2020. L’ECUYER, Catherine. “Não, o método Montessori não é ‘aprender brincando’”. El País, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/18/actualidad/1552896695_886326.htmlAcesso em: 21 set. 2020. MARASCIULO, Marília. “Quem foi Maria Montessori, pedagoga italiana que revolucionou a educação”. Revista Galileu, 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/03/quem-foi-maria-montessori-pedagoga-italiana-que-revolucionou-educacao.html Acesso em: 21 set. 2020. Imagem disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno