Respeita Nossa História

Respeita nossa História: Armanda Álvaro Alberto
Respeita nossa História: Armanda Álvaro Alberto

Isabelle C. S. Pires* As mulheres presas Entre as mulheres denunciadas ao Tribunal de Segurança, algumas vão defender-se, outras recusam defesa. [...] A Sra. Armanda Álvaro Alberto, uma das directoras da União Feminina, que tinha ligações com a Aliança Libertadora, declarou que quer defender-se, tendo escolhido para seu advogado o Sr. Ed. Miranda Jordão. Esta causídico apresentou ao juiz a defesa prévia e o rol das testemunhas, tendo sido, também, devolvida a folha de qualificação. (Jornal do Brasil. 24/02/1937 p. 7). Em julho de 1937, foram julgados/as os/as suspeitos/as de serem os/as responsáveis pelo movimento conhecido como Intentona Comunista de novembro de 1935. Na relação de réus sentenciados, encontramos os nomes das seguintes mulheres: Valentina Leite Barbosa Bastos, Eneida Costa de Morais, Armanda Álvaro Alberto e Maria Morais Werneck de Castro (Jornal do Brasil. 14/07/1937. p. 39). Dentre as acusadas de envolvimento nesse levante comunista, destaco, neste verbete, a figura de Armanda Álvaro Alberto, que mesmo presa desde 1935, não deixou de se dedicar à educação popular, corrigindo na prisão os cadernos com exercícios de seus/suas alunos/as da Escola Regional de Meriti (MIGNOT, 2010. p. 11). Armanda Álvaro Alberto (1892 – 1974), figura que se destacou no cenário da educação brasileira a partir da década de 1920, foi uma renomada educadora com experiência pedagógica inovadora, defensora da participação da família no ambiente escolar e de uma educação praticada ao ar livre. Teve forte atuação também como defensora da leitura, atuando na construção de bibliotecas populares e infantis e no desenvolvimento de uma política editorial de livros dedicados às crianças. Foi ainda uma altiva militante no movimento feminista, tendo fundado a União Feminina do Brasil. Nascida no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1882, Armanda era filha de Maria Teixeira da Motta e Silva e Álvaro Alberto Silva. Seu pai era médico com foco nas questões sanitárias e na política da zona rural do Rio de Janeiro, em um contexto de intensas reformas urbanas na cidade. A formação de Armanda se deu no espaço doméstico, sendo ministrada por sua mãe e por professores particulares, só tendo frequentado regularmente uma escola quando tinha 14 anos, ao ingressar no Colégio Jacobina, para participar de um curso de literatura inglesa. Nessa mesma escola, Armanda iniciou suas atividades no magistério, alguns anos depois. Juntamente à educação formal a que teve acesso, ela também foi influenciada pelas discussões políticas e pelas preocupações científicas suscitadas no ambiente em que cresceu (MIGNOT, 2010, pp. 22-23). Sua atuação como educadora se dava a partir de sua articulação com iniciativas educacionais que ocorriam no Brasil e pelo mundo afora. Em 1915, participara da Liga Contra o Analfabetismo, no Clube Militar, que proporcionara uma série de discussões e propostas sobre a educação brasileira. Ajudou a fundar e atuou ainda na Associação Brasileira de Educação (ABE), criada em 1924, entidade esta que proporcionou debates com educadores de outros países, convidando-os para palestrar e para trocar proposições sobre o tema. Em 1919, acompanhando seu irmão que foi morar em Angra dos Reis, por servir à Marinha, Armanda fundou uma escola ao ar livre para os filhos de pescadores da região. Dando continuidade ao seu projeto de educação popular, em 1921, Armanda inaugurou a Escola Proletária de Merity, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Na época de sua fundação, a região era uma zona rural constituída unicamente pelo município de Iguaçu. O desmembramento ocorreu baseado na estação ferroviária de Meriti, em que no lado leste foi criado o distrito de Duque de Caxias, em 1931, e que em 1943 se tornou município (BELOCH apud MIGNOT, 1993, p. 625). A Escola Proletária de Merity, apelidada de “mate com angu” por oferecer merenda aos/às alunos/as, propunha-se a ser um ambiente de pedagogia prática, no qual o interesse partia da criança, subvertendo a prática pedagógica focada na atuação do professor, e não se restringia às paredes da sala de aula, sendo suas atividades exercidas ao ar livre e em contato com a natureza. A escola tinha como base fundamental educar crianças do povo e prepará-las para viver e agir em seu meio e em seu tempo (MIGNOT, 1993, p. 621/623). Em 1923, a escola teve seu nome alterado para Escola Regional de Meriti, reforçando seu propósito de integração com a localidade. À Armanda interessava que sua escola fosse muito além de um espaço de educação curricular, era sua preocupação também desenvolver atividades que envolvessem a comunidade e proporcionassem a integração das famílias à escola. Nesse sentido, organizou campanhas de saneamento na região através do Círculo de Mães, criado em 1925. Em 1928, Armanda casou-se com Edgar Süssekind de Mendonça, mas não adotou o sobrenome do marido em sua vida pública. De seu casamento teve um único filho, Álvaro Alberto de Motta e Silva, que veio a se tornar um renomado cientista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciência e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e consagrou-se por seus estudos pioneiros no campo da energia nuclear, impactando a política nacional nesta área (MIGNOT, 2010. p. 23). Ao lado de outras mulheres preocupadas em lutar contra as discriminações de gênero que se expressavam na legislação e defender os interesses das mulheres brasileiras, Armanda criara, em 1935, em meio à efervescência política da época, a União Feminina do Brasil e fora a primeira presidente da entidade. Em virtude da filiação desta associação à Aliança Nacional Libertadora – entidade que agregava partidos políticos, sindicatos, agremiações estudantis e culturais – e da integração na Frente Única Antifascista, Getúlio Vargas determinou o fechamento da União Feminina no mesmo ano em que fora fundada e, por conta da aproximação com a Frente, que fora acusada de “preparar terreno e ambiente para o advento da Revolução Comunista” Armanda fora presa por envolvimento na Intentona Comunista de 1935. Em julho de 1937, foram julgados/as os/as indiciados/as neste caso. Armanda foi uma dos 35 absolvidos nesse julgamento, que condenou 26 corréus do processo. Nesse contexto, a Escola Regional de Meriti representou uma forma de continuar influenciando o mundo, mas no âmbito local. Armanda despediu-se de sua escola, em 1964, quando a transferiu para o Instituto Central do Povo, após tentativa não exitosa de repassá-la para o governo do Estado. Com a transferência, a escola sofreu mais uma mudança de nome por solicitação da educadora, passando a se chamar Escola Dr. Álvaro Alberto, em homenagem a seu pai. Armanda Álvaro Alberto faleceu em 5 de fevereiro de 1974 na cidade do Rio de Janeiro. * Doutoranda em História Social pelo PPGHIS/UFRJ. Bolsista CAPES. Mestre em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/ FGV. Graduada em História pela UFRRJ. Referências do texto A educadora Armanda Álvaro Alberto. TV Brasil. 29/03/2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M2F80cjvwfw Acesso em: 01/07/2020. MATOS, M Izilda S. Maria Prestes Maia: trajetória de vida e lutas. Revista Brasileira de pesquisa (auto)biográfica, v. 3, p. 187-202, 2018. MIGNOT, Ana Crystina Venancio. Armanda Álvaro Alberto. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana. 2010. ­­­__________. Decifrando o Recado do Nome: uma Escola em busca de sua Identidade Pedagógica. R. bras. Est. pedag., Brasília, v.74, n.l78, p.619-638, set./dez. 1993. No Tribunal de Segurança Nacional. Jornal do Brasil. 14/07/1937. p. 39. O processo crime dos acusados comunistas. Jornal do Brasil. 24/02/1937. p. 7. Referências da imagem Núcleo de Estudos Visuais em Periferias Urbanas (NuVISU) / D´ÂNGELO, Helô. Revolucionária da educação, Armanda Álvaro Alberto é tema de documentário biográfico. Revista Cult. 31 de mai. de 2017. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/revolucionaria-da-educacao-armanda-alvaro-alberto-e-tema-de-documentario-biografico/Acesso em: 08 de jul. de 2020.

press to zoom
Respeita nossa história: Marli Pereira Soares
Respeita nossa história: Marli Pereira Soares

Bruna Cássia Nascimento Fonseca* “No dia que aconteceu, se pensasse no que já passei e no que ainda vou passar, acho que teria deixado só por conta da justiça de Deus. Mas senti aquela revolta: ver tirarem meu irmão de dentro de casa dormindo, espancarem na minha frente, na frente dos meus filhos, pouco adiante matar igual a um cachorro! Podia ter ido à delegacia e dizer que não sabia quem matou, mas disse: foi a polícia civil e militar. Agora não penso em desistir. Vou até o fim, só paro no dia que morrer. Vou. Acho que só não crio coragem é pra ter medo de barata!(…) Minha mãe falou: 'Toma vergonha nessa cara! Mulher que é símbolo da coragem no mundo inteiro correndo por causa de barata...' Tenho pavor de barata, de polícia, não" (SILVA, Ano, p.16) Marli: mulher jovem, negra de Belford Roxo, Baixada Fluminense. Trabalhadora de serviços domésticos. Nascida e criada na zona metropolitana do Rio de Janeiro. Juventude difícil, com poucas oportunidades. Mãe, irmã. Separada. Sua vida mudaria completamente na noite de 12 de outubro de 1979, quando, aos 27 anos, presenciou, junto com seus dois filhos menores, o irmão Paulo Pereira Soares ser retirado de casa, sequestrado e, dias depois, encontrado morto próximo dali. Assassinado com três tiros. Segundo relatos, por um grupo de extermínio da região conhecido por ser composto por policiais militares do 20o Batalhão, próximo ao local do assassinato. Ela viu os rostos dos acusados. Diante de tamanha brutalidade precisou ressignificar o luto e enfrentar uma segunda violência. Além de viver a trágica perda do irmão por assassinato, iniciava a partir dali uma grande saga de busca por justiça, em plena ditadura civil-militar, exigindo das autoridades locais a investigação e a punição dos responsáveis dos crimes que o vitimaram. Uma busca que durou meses, anos. Inicialmente exposta a reconhecer dezenas de policiais militares daquela jurisdição todos os dias, olhos nos olhos, sofrendo constrangimentos e resistindo a ameaças constastes para desistir de prosseguir, ou sofrendo coerção para reconhecer quem ela não viu na cena do crime. Caso de grande notoriedade jornalística, praticamente tornou-se uma coluna especial de muitos destes periódicos. Na TV, concedeu dezenas de entrevistas. Muitos foram os registros fotográficos de Marli, ao centro da cena, fazendo reconhecimento diário de policiais. Virou símbolo para movimentos feministas no Brasil (Revista Mulherio) e no exterior (Revista francesa feminina, F Magazine, que publicou a entrevista "Marli, um símbolo de persistência” como referência da luta feminina – fonte: Revista Mulherio) os movimentos negros pelo seu exemplo de perseverança, com o Movimento Negro Unificado. Inspirou de artigo a artistas badalados que interpretavam o momento, como a música “Mulher, coragem”, em 1980, de Ivan Lins e Vitor Martin. “Agora, em setembro, faz um ano que estourou o Caso Marli, no Rio de Janeiro. Depois que um batalhão de policiais matou o seu irmão Paulo P S Filho em Belford Roxo. Crime na Baixada Fluminense não é novidade (mais de 99% dos presuntos são negros), mas acontece que a empregada doméstica Marli resolveu apurar os culpados. Dois ou três policiais foram incriminados e o resto continua impune. Para isto Marli foi obrigada a lutar até contra o promotor público do caso ilegível(mandou suspender o reconhecimento dos assassinos. Os três tiros que seu irmão levou não intimidaram Marli que resiste na acusação e, por isso é considerada como símbolo da resistência à violência policial indiscriminada, assim como propôs o Movimento Negro Unificado.” (SNI, 1481-1982, p. 119) A política de extermínio sobre a população negra traria mais um episódio na vida de Marli. Não seria a única vez que ela sofreria com a morte de um familiar assassinado e presenciado policiais como principais suspeitos. 14 anos depois, ainda sob a sombra da impunidade pelo assassinato do irmão, Marli veria a vida, dessa vez de seu filho de 15 anos, também ser violentamente interrompida. O sonho do menino Sandro de ser militar, havia terminado em 9 de janeiro 1993, também a tiros, quando foi assassinado e seu corpo encontrado num terreno baldio em Jacarepaguá, perto da nova residência da mãe. Marli chorava novamente à frente do corpo de seu descendente. Ela seguiu, mais uma vez prometendo lutar contra a impunidade. Por toda a sua postura, mesmo em vista a uma dor imensurável, Marli foi e é um símbolo de resistência, monstrando a força e a firmeza de uma mulher negra, de origem humilde e da periferia. Ela questionou o Estado, tanto durante a Ditadura Civil Militar, quanto após a abertura, na defesa da sua família, mas não apenas isso, pois seu sofrimento era, e infelizmente ainda é, compartilhado pela população negra e periférica. Em sua batalha ela recorreu aos jornais e fez sua voz ser ouvida na imprensa nacional. Assim, trouxe à luz a realidade de várias pessoas pobres e negras nas periferias das grandes cidades, que diariamente convivem com um cotidiano de violência e medo de se tornarem as próximas vítimas da necropolítica do Estado que sistematicamente segue matando mais homens negros pobres e jovens; pessoas que perdem seus planos, seus sonhos, que fazem falta para tantas outras mulheres negras, por serem seus filhos, irmãos, companheiros e companheiras. Recentemente sua história voltou a ter visibilidade com o lançamento do livro “Heroínas desta História”, em que divide o espaço de representatividade com mais 14 mulheres que lutaram pela manutenção da memória de pessoas queridas assassinadas dentro deste período de repressão política. Marli Pereira Soares sempre é lembrada pelos movimentos sociais por conta da sua luta por justiça. Deve ser lembrada como uma importante personagem na luta contra as violências ocorridas no período da ditadura no Brasil e principalmente representar a insubmissão frente a política de extermínio de negros e pobres que segue atuante na sociedade brasileira até hoje. * Mestranda em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2020-1/2022-1). Licenciada em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2019-1/2024). Bacharel em História pelo Instituto de História da UFRJ (2011). Licenciada em História - FE-UFRJ (2013). É natural do subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, busca em suas  escritas e obras resgates possíveis da sua trajetória e de inspirações históricas, valorizando as africanidades existentes nos afetos e nas lutas. Segue também por uma jornada pelo autoconhecimento, valorizando suas andanças cotidianas e reinterpretando sensações do passado. Do pastel de carne de Vila Isabel, ao toque das ondas de Copacabana nos pés, passando ao teste do acebolado cachorro quente do Méier com os namorados, indo ao Cabernet Sauvignon no Andaraí com a mãe, ao som de Emílio Santiago e Bethânia, chegando ao duplo grito de gol flamenguista das vozes confundidas com o pai, há caminhos, sons e afetos inesgotáveis e que seguem em mistura e investigação. Um pouco dessas traduções também passam pelas experiências como bacharel e licenciada em História pelos bancos do IFCS e corredores da Faculdade de educação da UFRJ. Segue caminhando hoje  pelas salas do 11º  andar  como licencianda e mestranda em Artes Visuais na UERJ. Referências do texto GONZALEZ, Lélia. "Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira". In: SANTANA, Bianca (org.). Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: do século XVIII à primeira década do século XXI. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2019. Disponível em : https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/. Acesso em: 07 Ago. 2020. LINS, Ivan e MARTIN, Vitor. Coragem, Mulher. Álbum: Novo Tempo. 1980. LP Disponível em: https://www.letras.mus.br/ivan-lins/901489/ Acesso: 09 Ago. 2020. SERVIÇO Nacional de Informações (SNI) – Informe 1481-1982/119 – Dossiê Movimento Negro Unificado – Arquivo Nacional – Localização: BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_EEE_82011816_d0001de0001 SILVA, Marli Pereira da. “Marli, um símbolo de resistência. Entrevista concedida a Maria Tereza de Moraes, Revista Mulherio, p. 16. Disponível em: Dossiê pelo Serviço Nacional de Informações - Arquivo Nacional. Localização BR_RJANRIO_TT_0_MCP_AVU_0308,fl 108 Disponível em: https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/ Referência das imagens Imagem de Marli Pereira Soares. Disponível em http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/ JACOB, Alberto. Reconhecimento. A tropa do 20º BPM, enfileirado para Marli reconhecer os assassinos do irmão, 1 fotografia. FO08 Abr. 1980. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/domestica-botou-tropa-em-revista-para-reconhecer-os-assassinos-do-irmao-10561218, Acesso em: 07 jun. 2020. Revista Mulherio. Julho/ Agosto de 1981. p. 16. Disponível em: Acervo Arquivo Nacional - BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_AAA_81018229_d0001de0001

press to zoom
Respeita nossa história: Juana Manso
Respeita nossa história: Juana Manso

por Sheila Lopes Leal Gonçalves* Emancipação moral da mulher - o que vem a ser isto? Ai! que temos revolução; dirão por aí os que pugnando contra Deus e a natureza querem conservar o mundo estacionado. Sossegai. (...) Mas deixemos essas digressões; o que vem a ser essa tal emancipação moral da mulher? Eu vo-lo digo. É o conhecimento verdadeiro da missão da mulher na sociedade; é o justo gozo dos seus direitos, que o brutal egoísmo do homem lhe rouba e dos quais a deserda, porque tem em si a força material, e porque ainda se não se convenceu de que um anjo lhe será mais útil que uma boneca. É um perigoso e terrível inimigo para a realização do nosso desejo, o egoísmo do homem!.. De que serve ilustrar o espírito da mulher, e desampará-lo sob as bases do progresso! De que serve dizer isto tudo ? (...) Sim, a mulher conhece a injustiça com que é tratada, reconhece perfeitamente a tirania do homem; não é a elas a quem temos de convencer da necessidade de sua emancipação moral. Juana Manso - O Jornal das Senhoras, Domingo, 11 de janeiro de 1852. Juana Paula Manso nasceu em 26 de junho de 1819, na cidade de Buenos Aires, filha de Teodora Martínez Cuenca e José María Manso. Chegou a frequentar uma escola, a Monserrat, entretanto, registros apontam que ela não se adaptou a metodologia e passou a estudar em casa, onde aprendeu a ler e depois se dedicou ao estudo de idiomas estrangeiros e à música. Em 1833, traduz um texto francês sob o título “El egoísmo y la amistad o los defectos del orgullo”, o qual seu pai publica com o pseudônimo “Una joven argentina”.[1] Assim como outros intelectuais contemporâneos a ela, em especial, àqueles vinculados à Geração de 1837, Manso nasceu (e viveu) numa época conturbada pelas guerras de independência e por intensa disputa política – marcada em Buenos Aires pelo conflito entre unitários e federalistas. A atuação política de José María Manso junto aos unitários foi um fator determinante para que, em 1839, assim como outras tantas famílias, incluindo a de Mariquita Sánchez[2], partisse para o exílio em Montevidéu. Uma vez exilada na Banda Oriental, Juana Manso estabelece contato com uma rede de intelectuais exilados, dentro os quais José Mármol, figura com quem Juana manterá correspondência por anos, incluindo o período de residência no Brasil. Uma vez lá, provavelmente em 1841, ela abriu o Ateneo de Señoritas (mais tarde, seria convidada pelo Governo para retomá-lo) onde advogou por uma educação gratuita, mista e direcionada a todas as esferas sociais. A criação do Ateneo é destacada pelo governo uruguaio nos Anales de la Universidad. Montevideo (Casa A. Barreiro y Ramos S. A., 1933, p. 52): Entre las escuelas particulares de Montevideo se destacaban la de niñas, que dirigía doña Juana Manso, distinguida educacionista que tuvo más tarde brillante actuación en la Argentina, y la de varones, que dirigía don Juan Manuel Bonifaz, con mucha competencia y notable dedicación. A inauguração dessa escola foi um marco importante, pois, em Montevidéu, não havia um “sistema educacional com respaldo legal” e proporcionou uma fonte de renda para a família que teve seus bens confiscados ao deixar Buenos Aires. Além do sucesso em sua estreia como educadora, nesse primeiro período na Banda Oriental, Manso teve reconhecimento como intelectual e escritora, junto a outros exilados, conforme aponta Florencio Sanchez: Os escritores exilados em Montevidéu, Santiago do Chile e Bolívia, condutores da luta ideológica anti-rosista, deixaram para trás um jornalismo poético, narrativo e militante, sempre superior aos seus exercícios teatrais. As tentativas de Bartolomeu Mitre, Juan Bautista Alberdi, José Mármol e Juana Manso de Noronha, aparecem com um sotaque patriótico muito impregnado de um romantismo cultamente europeizado.[3] Ainda em Montevidéu, Juana Manso colaborou nas folhas El Constitucional e no célebre El Nacional (redigido pela equipe do La Moda[4]), no qual publicou textos como Recuerdos de la infancia, La mujer poeta e A Corrientes vencedoras. Em 1842, a família de Manso teve que partir para novo exílio, dessa vez, no Brasil. Montevidéu se encontrava em delicada posição, devido à iminência de uma invasão Argentina, por parte das tropas rosistas. Do outro lado da fronteira, as tensões no Império do Brasil também geravam insegurança no cenário sul americano. Manso regressa a Montevidéu em 1843. O período de pouco mais de um ano que passa, pela primeira vez, no Rio de Janeiro quase não foi registrado; o que se sabe é que ela publicou um poema, Fragmento sobre una momia egipcia que se halla en Río de Janeiro.[5] Em seu retorno à capital uruguaia, Manso é convidada a dirigir uma escola para meninas e publica o Manual para la educación de niñas. Por motivos ainda desconhecidos, a família Manso volta ao Rio de Janeiro em 1844 e Juana Manso casa-se com o violonista Francisco de Sá Noronha. Em 1846[6], agora Juana Manso de Noronha (nome que consta em algumas biografias) acompanha o marido em turnê e, assim, viaja aos Estados Unidos (Filadélfia e Nova Iorque), onde nasce a primeira filha do casal e, posteriormente a Cuba (Havana), onde nasce a segunda filha. Ao acompanhar o trabalho do esposo, Manso circulou por teatros, cafés e clubes, onde teceu observações que mais tarde seriam publicadas no Álbum de Señoritas; além disso, começou a redação de seu primeiro romance histórico: Los mistérios del Plata. Sua passagem pelos Estados Unidos vem sendo estudada no campo dos estudos literários com ênfase em relatos de viagem. Carrie Bramen comenta: Juana Manso, considerada a primeira feminista radical da Argentina no século XIX, comentou que flertar é um instinto, inerente a todas as mulheres, a tal ponto que ‘não se pode ser mulher sem ser paqueradora’. (...) Em seu próprio relato de viagem para os Estados Unidos, em 1845, Manso descreve os atributos distintos do flerte estadunidense: ‘As mulheres estão todas flertando, amolecidas e sem sentimentos; seu amor é compartilhado entre o dinheiro e a penteadeira’. Em 1848 o casal chega a Cuba, onde permanece pouco mais de um ano. Em seguida, chegam ao Rio de Janeiro. Manso, então, começa a dar aulas particulares e continua a trabalhar em obras que publicaria posteriormente. Em 1852, funda O Jornal das Senhoras, que circulou durante quatro anos (1852-1855), tendo Juana Manso presente como colaboradora e redatora chefe apenas no ano de 1852. Ele teve um total de 213 números, divididos em dois tomos (no total foram oito), somando 1.910 páginas, sendo cada exemplar composto, em média, por 10 páginas, podendo variar de oito a doze. Neste periódico o romance histórico Mistérios del Plata, que aborda um período do governo rosista, e é publicado em forma de folhetim. No ano seguinte, dois acontecimentos desestabilizam a vida de Manso: a morte de seu pai e a separação do esposo, que a deixava com duas filhas para criar. Naquele momento, impulsionada pela derrota de Rosas, decide retornar a Buenos Aires, lança a folha Álbum de Señoritas: periódico de literatura, moda, bellas artes y teatros. Ao contrário d`O Jornal das Senhoras, o periódico fundado por ela em Buenos Aires, Álbum de Señoritas, teve vida curta, contida em oito números publicados nos primeiros meses de 1854. Jeremy Shumway se refere ao Álbum de Señoritas como sendo “o periódico de mulheres mais contundente daquele tempo”. Nesta folha, a autora publica, também em folhetim, a novela La família del Comendador, ambientada no Rio de Janeiro. O fato de ambas as folhas abordarem as mesmas temáticas e serem escritas em tons e estilo narrativo semelhantes, não significa que o segundo seja uma tradução ou mesmo continuação do primeiro. Manso, considerada a primeira mulher a produzir romances históricos, as histórias nacionais em seus romances históricos: publica sobre Buenos Aires no Rio de Janeiro e vice versa. Ainda em 1854, devido a dificuldades financeiras, Manso teria retornado ao Brasil, permanecendo por cinco anos. Mais uma vez, a passagem pelo Rio de Janeiro não se encontra documentada, apenas citada pela literatura do tema. O tempo em que passou no exílio e, em especial no Brasil, é enaltecido pela bibliografia dedicada à Manso. De acordo com Luiza Lobo, seu retorno a Buenos Aires pode ter sido provocado por três motivos: “o término do seu casamento, o fato de ter sido recusada na Escola de Medicina [por ser mulher] e, principalmente, por ter chegado ao fim a ditadura de Juan Manuel de Rosas (1829-1852).” Sendo por um motivo ou por outro, o retorno de Manso não a impediu de ser vista, muitas vezes, como uma “argentina-brasileira”, para usar a expressão cunhada por Adriana Amante. Sobre o período em que viveu no Brasil, Lidia Lewkowicz cita uma fala de Manso que pode ter contribuído para que ela fosse vista como uma “argentina -brasileira”: Sempre que falar de você, Brasil, o farei com entusiasmo, porque foi minha pátria adotiva por muitos anos, e estás ligado ao meu coração e aos meus pensamentos, por um altar e dois túmulos! O altar em que liguei o meu destino ao destino de outro, os túmulos do meu velho pai, morto na emigração e do meu primeiro filho, que morreu antes de nascer! No livro Poéticas y políticas del destierro, Amante analisa os conceitos de “raça” e “escravidão” na novela de Manso La familia del comendador e posiciona a autora de modo tangencial à rede de sociabilidade antirosista que se encontrava (muitas vezes reunida na mesma cidade) no exílio. Manso parece ser argentina e também brasileira em função dos laços familiares que cultivou no Brasil, ao passo que outros intelectuais (homens) exilados aqui, ficaram menos tempo e interagiram de outra maneira com a corte. De acordo com Elisabetta Pagliarulo, Manso retorna definitivamente a Buenos Aires em 1859, ano em que se filia ao Partido Autonomista e quando trava contato com Bartolomeu Mitre. Em 1862, Manso publica o Compendio de la Historia de las Provincias Unidas del Río de la Plata, material didático dedicado à instrução escolar, baseado na História de Belgrano y de la Independência Argentina do General Mitre e no Ensayo Historico de Dean Funes. Em 1864, publicou a peça teatral La revolución de Mayo de 1810, além de colaborar em diversos periódicos e tornar-se fundadora honorária da Revista de Buenos Aires. Em 1869, publicou artigos em defesa do Projeto de Casamento Civil no jornal El Inválido Argentino. No ano seguinte, atende a Primeira Conferência de Professores; é a primeira mulher nomeada membro da Comissão Nacional de Escolas, cargo que ocupou até 1874. Morre em 24 de abril de 1875. Suas obras podem ser acessadas através do site: http://www.juanamanso.org/biblioteca-digital/ * Sheila Lopes Leal Gonçalves é uma das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora e historiadora. Este texto é parte do projeto de pós-doc dela (status: aguardando financiamento) que investiga a obra e a trajetória de Juana Manso sob a perspectiva da História Intelectual. “Eu estudo História da América e História Intelectual desde a graduação; no mestrado, pesquisei o argentino Juan Bautista Alberdi e li bastante coisa sobre a Geração de 1837. Foi somente no meio do meu doutorado, e totalmente por acaso, que “descobri” Juana Manso. A primeira coisa que me perguntei naquela tarde de 2015 foi: “como assim eu nunca tinha parado para pensar sobre as mulheres que escreviam, debatiam, frequentavam os mesmos espaços dos homens da Geração de 1837?!” Até aquele momento eu tinha “aceitado” a ausência (ou apenas menções curtas) de mulheres no material que lia para pesquisa, sem muitos questionamentos. Era tarde demais para mudar o tema da tese, mas não a maneira como eu enxergava a História Intelectual. Apresento a vocês Juana Paula Manso, mulher latino-americana, exilada, intelectual, educadora e redatora.” [1] Título do poema: “O egoísmo e a amizade, ou os defeitos do orgulho”. Pseudônimo: “Uma jovem argentina”. PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura Argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, p.25. [2] María Josepha Petrona de Todos los Santos Sánchez de Velazco y Trillo de Thompson y Mendeville, conhecida como Mariquita Sánchez (1786 –1868), foi uma das figuras mais influentes da primeira metade do século XIX em Buenos Aires. [3] SANCHEZ, Florencio. Teatro. Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas / Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967, p. VIII.” [4] La Moda foi um periódico publicado em Buenos Aires por alguns dos membros da Geração de 1837. Para maiores informações. [5] MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999, p.74. [6] Há divergência sobre a data de embarque para os Estados Unidos. Segundo Elisabetta Pagliarulo, a viagem teria ocorrido logo após o casamento. Já Margarita Pierini cita uma carta que Manso teria escrito a sua filha mais velha e assevera que o fato ocorreu anos depois: ‘En abril de 1846 desembarcan en los Estados Unidos, llevados por la promesa de éxito con que “el cónsul americano en Pernambuco nos había trastornado el juicio…; y nosotros, con esa confiada imprudencia de la mocedad inexperta, nos arrojamos con escasos medios a probar fortuna en país tan extraño y distante’” PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, p. 461. Referências Bibliográficas AMANTE, Adriana. Poéticas y políticas del destierro: Argentinos en Brasil en la época de Rosas. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010. BRAMEN, Carrie Tirado. “Flirting in Yankeeland: rethinking American exceptionalism through Argentine travel writing”. In: LAZO, Rodrigo; ALEMÁN, Jesse (org.). The Latino Nineteenth Century: Archival Encounters in American Literary History. The New York University Press: New York, 2016. LEWKOWICZ, Lidia F. Juana Manso (1819-1875): Una mujer del siglo XXI. Buenos Aires: Corregidor, 2000. LOBO, Luiza. “Juana Manso: uma exilada em três pátrias”. In: Gênero. Niterói, v. 9, n. 2, p. 47-74, 1. sem. 2009, p. 48. MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999. PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, pp. 17-42. PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, pp. 457-488. SANCHEZ, Florencio. Teatro, Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas /Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967. SHUMWAY, Jeremy. The case of the ugly suitor: and other histories of love, gender, and nation in Buenos Aires. Linclon: University of Nebraska Press, 2005.

press to zoom
Respeita nossa história: Maria Montessori
Respeita nossa história: Maria Montessori

por Juliana Guedes Costa Santos* A pedagoga pioneira dos pensamentos inovadores em educação. Maria Tecla Artemisia Montessori, pesquisadora, pedagoga e médica italiana, tinha como lema “Educar para a vida”. Até os dias de hoje, ela é conhecida como uma pioneira na área pedagógica por dar destaque à autoeducação do aluno em detrimento à ideia do professor como fonte de conhecimento. Para ela, a educação era uma conquista da criança, pois percebera que já nascemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos. Como foi a terceira a se formar em Medicina em seu país, sofreu preconceito por ser a única mulher, no meio de muitos homens, exercendo essa profissão. Foi, então, trabalhar como assistente na clínica psiquiátrica da Universidade de Roma. Montessori nasceu na Itália em 31 de agosto de 1870. Aos 28 anos, começou a visitar um hospício em Roma e viu, com espanto, como crianças eram tratadas de forma desumana. Alguns romanos iam ao local para atirar-lhes comida, como faziam com os animais do zoológico. Achando tudo aquilo impossível de continuar, decidiu trabalhar para mudar aquela realidade. Em Turim, num Congresso Médico Nacional, defendeu a tese de que a principal causa do atraso no aprendizado de crianças especiais era a ausência de materiais de estímulo para o desenvolvimento adequado. Logo depois, formou-se em Pedagogia, envolveu-se com a Liga para a Educação de Crianças com Retardo, e foi nomeada codiretora de uma escola especializada. Ela concluiu em suas pesquisas que a educação deve ser uma técnica de amor e respeito. Para ela, encontrar um lugar no mundo, desenvolver um trabalho gratificante, nutrir paz e densidade interiores para ter capacidade de amar eram os objetivos que deveriam guiar toda a criança. A educação e a vida não deveriam se limitar a conquistas materiais. A pesquisadora teve um grande envolvimento em ativismo político e cívico, ajudando na formação de associações de mulheres. Participou de conferências e publicou artigos na imprensa feminista. Filiou-se, também, à Sociedade Teosófica, que valorizava a ação social e a educação das crianças. O Método Montessori une o desenvolvimento biológico e mental do indivíduo, dando destaque ao treinamento dos movimentos musculares necessários para a realização de tarefas cotidianas. Foi um método revolucionário, que se baseava em confiar nas crianças. Montessori dizia que elas não deveriam ser recompensadas, nem punidas, ou corrigidas, mas sim, respeitadas e, sem interferência, liberadas em um ambiente em que tudo (espaço, móveis, objetos) estivesse sob medida. Essas ideias divergem com o preconceito daqueles que pensam que a criança é essencialmente indolente, preguiçosa e incapaz de encontrar desafios que correspondam às suas competências. O método privilegiava uma educação que pusesse as crianças como centro da atenção em um ambiente que estimulasse as habilidades naturais, como cuidados pessoais, ginásticas e jardinagem. Segundo a Associação Internacional Montessori, um ambiente organizado e atraente composto por materiais didáticos e utensílios da vida cotidiana; classes com alunos com diferentes idades; um professor que atua como guia e só interfere se necessário; materiais multissensoriais que permitam o “aprender fazendo”; liberdade de tempo para que os alunos se dediquem aos assuntos que lhe interessam; e flexibilidade para escolherem o local de trabalho e com quem querem trabalhar (se quiserem trabalhar em grupo), eram elementos essenciais para a prática do método inovador e revolucionário. Atualmente, seu método tem sido alvo de um paradoxo entre pedagogos. As escolas montessorianas estão em áreas mais abastadas das cidades, dificultando a entrada de crianças mais pobres. O custo anual dessas escolas, hoje em dia, também é bastante elevado, dificultando a inclusão social. Esse paradoxo não foi o único na vida da pedagoga. Ela passou um estimável tempo de sua vida dedicando-se às crianças, mas não foi responsável por criar seu filho. Ela havia se envolvido com um colega médico, Giuseppe Montesano. Era uma relação livre, sem vínculos, ela não acreditava na instituição do casamento e, naquela época, uma mulher casada não podia trabalhar fora de casa sem a autorização do marido. Montessori descobriu que estava grávida de Montesano. Um filho fora do casamento custaria toda sua vida de trabalho naquele tempo. As duas famílias combinaram que ela daria à luz em segredo. E quando em março de 1898 nasceu um menino, Mário. Eles o registraram como filho de pai e mãe desconhecidos e o entregaram a uma enfermeira para criá-lo. Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância. Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos. Mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época. Seu método obteve mais repercussão no estrangeiro do que em seu país de origem. Esse seria o provável motivo que a levaria a aceitar o patrocínio de Mussolini. Em 1924, ele se reuniria com Montessori para manifestar seu interesse no método educacional em escolas italianas. Ele fora professor durante a juventude e sonhava em fazer das escolas italianas uma fábrica de jovens disciplinados e obedientes. Eles começaram uma estranha colaboração que durou dez anos. Até que, em 1934, decepcionada ao ver que Mussolini não cumpriu suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper qualquer relação com o fascismo. Com seu filho, Mário, Maria Montessori criou a Associação Internacional Montessori para divulgar o trabalho, em 1929. Em 1949, Montessori foi nomeada ao Nobel da Paz. Essa nomeação se repetiu em mais dois anos seguintes. Ela não chegou a ganhar nenhum dos prêmios. Muitos acham que isso se deu ao fato de ela ter tido relações com Mussolini. Ela morreu em 06 de maio 1952, aos 81 anos, deixando seu legado até os dias de hoje. *Juliana Guedes Costa Santos é Cientista social formada pela UFF, cursando licenciatura em sociologia. Apaixonada por tudo que envolva inovação em educação, métodos de ensino e fã do método montessoriano. Pretendo fazer mestrado no próximo ano para pesquisar sobre métodos educacionais utilizados em penitenciárias femininas do estado do Rio de Janeiro. Referências VELASCO, Irene Hernández. “A vida paradoxal de Maria Montessori, criadora do método de ensino para crianças pobres que virou modelo para ricos”. BBC, 2020.  Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53972711 Acesso em: 20 set. 2020. FERRARI, Márcio. “Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno”. Nova Escola, 2020. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno Acesso em: 20 set. 2020. L’ECUYER, Catherine. “Não, o método Montessori não é ‘aprender brincando’”. El País, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/18/actualidad/1552896695_886326.htmlAcesso em: 21 set. 2020. MARASCIULO, Marília. “Quem foi Maria Montessori, pedagoga italiana que revolucionou a educação”. Revista Galileu, 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/03/quem-foi-maria-montessori-pedagoga-italiana-que-revolucionou-educacao.html Acesso em: 21 set. 2020. Imagem disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno

press to zoom
Respeita nossa história: Ruth Klüger
Respeita nossa história: Ruth Klüger

por Maria Eliza Zahner* Ruth Klüger nasceu em Viena, Áustria, em 30 de outubro de 1931. Judia, tinha onze anos quando foi enviada, junto com sua mãe, para os campos de concentração nazistas. Juntas, passaram pelo gueto de Theresienstadt e os campos de Auschwitz-Birkenau e Christianstadt. Durante uma das marchas da morte, características das liberações dos campos, conseguiram fugir. Klüger é mais conhecida na área de História pelo seu livro “Paisagens da Memória”, em que narra suas memórias dos campos e os efeitos da experiência em sua vida. Nele, temas como o luto, o sexismo e sua identidade estão sempre presentes. Vemos em sua obra passagens que nos levam a reconhecê-la como a mulher a quebrar a imagem clássica do sobrevivente - aquele que tem o campo como ponto de partida de sua vida. É, também, forte opositora à cultura museológica em torno dos campos de concentração. Vejamos, aqui: A Auschwitz nunca mais voltei e tampouco tenho intenção de fazê-lo nesta vida. Para mim, Auschwitz não é um lugar de peregrinação, um santuário. Poderia vangloriar-me por ter saído de lá com vida, mas quero dizer que Auschwitz não se tornou um lugar de referência para mim, que passei por ali e esse lugar não conseguiu me reter [...] Não pertenço àquele lugar que vi com os olhos, senti com o nariz e temi como nunca, e que hoje existe apenas como museu, e nunca pertenci a ele. Um lugar para os que querem preservar a área. E, no entanto, esse lugar torna-se para todo aquele que ali sobreviveu uma espécie de lugar de origem. A palavra Auschwitz tem hoje uma grande aura, mesmo que seja negativa, de modo que ela determina em grande medida o que se pensa sobre uma pessoa quando se sabe que ela esteve lá. Também em relação a mim, as pessoas que querem dizer algo importante a meu respeito mencionam que estive em Auschwitz. Mas não é tão simples assim, pois não importa o que vocês possam pensar, não venho de Auschwitz, venho de Viena. Viena não pode ser posta de lado, ela se percebe pela minha linguagem; Auschwitz, porém, era tão estranho para mim quanto a lua. Viena é uma parte de minha estrutura mental e fala através de mim, enquanto Auschwitz foi o lugar mais despropositado onde jamais estive e a lembrança que tenho de lá permanece na alma como um corpo estranho, como um projétil de chumbo que não pode ser extirpado do corpo. Auschwitz foi apenas um acaso monstruoso. (KLÜGER, 2005: 125-126) Ruth Klüger narra sua vida e assume o controle de sua identidade a partir de sua obra. A escrita é cheia de provocações, em especial aos homens que passaram por sua vida, como: Anos depois, eu estava casada com um historiador que lecionava história européia em Berkeley: ele chega à era Hitler e lhe pergunto se gostaria que eu falasse a seus alunos, durante uma hora, sobre os campos de concentração. Algo se transforma em seu rosto, uma grade cai diante de seus olhos, ou melhor, uma ponte levadiça se ergue, ouve-se um murmurejo, lá embaixo tem água parada, amarelo-esverdeada, cheia de algas. Ainda quero acrescentar que não sugeri nenhum strip-tease na classe, mas penso ‘não o censure, é um veterano de guerra; esses veteranos representam a vitória do bem sobre o mal’. Éramos como doentes de câncer que lembram às pessoas saudáveis que estas também são mortais. Freqüentemente conta para mim como sentira frio no inverno de 1944-45. Certa vez, me senti compelida a dizer que eu mesma me lembrava muito bem daquele inverno rigoroso sobre o qual ele discorria; porém, sem os bons cobertores, as roupas quentes e as rações generosas das forças americanas, a lembrança era ainda mais viva. Exaltou-se porque eu lhe impunha recordações que competiam com as dele. Aprendi então que as guerras pertencem aos homens. (KLÜGER, 2005: 208-209) Utilizo suas citações por honra ao que ela pede em “Paisagens da Memória”: poder falar. Durante sua vida, várias vezes recebeu a negação de sua identidade. Era jovem demais para estar nos campos de concentração, era mulher, judia, imigrante... O livro é como se apropria de sua história, através de suas palavras. Após a fuga dos campos, em 1945, Ruth Klüger e sua mãe, Alma Klüger, se refugiam na Alemanha, onde ficam por dois anos e meio, em Bayern. Depois de terminar seus estudos na Alemanha, migram para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, se forma em Literatura Inglesa no Hunter College. A relação complicada com a mãe faz com que Klüger se mude para a Califórnia, onde se casa, tem dois filhos, se divorcia e retoma seus estudos. Na Universidade da Califórnia, Berkeley, faz seu doutorado em Literatura Germânica e se torna professora universitária. Passa por algumas faculdades, e, em 1980, se torna a primeira mulher do departamento de Estudos Germânicos da Universidade de Princeton. Em 1986, se fixa na Universidade de Irvine, Califórnia, onde se torna professora emérita. Dentre suas obras não publicadas no Brasil estão “unterwegs verloren – Erinnerungen”, uma segunda autobiografia lançada em 2010, e “Frauen lesen anders” e “was Frauen schreiben”, duas análises sobre os hábitos femininos na Literatura, além de seus trabalhos sobre o poeta Heinrich von Kleist, a quem dedicou sua pesquisa. Ao longo de sua carreira, Ruth Klüger ganhou diversos prêmios por seu trabalho enquanto autora e crítica, entre eles o Thomas-Mann-Preis, em 1999, e a Goethe Medaille, em 2005, dois importantes prêmios da literatura alemã. Também recebeu, em 2003, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Göttingen, na Alemanha. Ruth Klüger faleceu em sua casa, em Irvine, Califórnia, no dia 6 de outubro de 2020. *Maria Eliza Zahner, graduada em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em 2019. Natural de Petrópolis, se interessa pelas mulheres que querem contar suas histórias. Sua pesquisa, durante a graduação, analisou as identidades de RuthKlüger expostas em seu livro "Paisagens da Memória". Referências: KLÜGER, Ruth. Paisagens da Memória: Autobiografia de uma Sobrevivente do Holocausto. São Paulo: Ed. 34, 2005. KLÜGER, Ruth. unterwegs verloren: Erinnerungen. München: dtv, 2010. Perfil da Dra Ruth Klüger na Universidade de Irvine, Califórnia, disponível em https://www.faculty.uci.edu/profile.cfm?faculty_id=2565 Acessado em 11/10/2020 Obituário de Ruth Klüger publicado no Washington Post, disponível em https://www.washingtonpost.com/local/obituaries/ruth-kluger-author-of-searing-and-celebrated-holocaust-memoir-dies-at-88/2020/10/09/eeee3b16-0a2a-11eb-9be6-cf25fb429f1a_story.html Acessado em 11/10/2020

press to zoom
Respeita a nossa história: Leonor Porto
Respeita a nossa história: Leonor Porto

Por Tássia Fernandes Paris* “Como verdadeira traça foi carcomendo, estragando as traves do edifício negro o célebre ‘Club do Cupim’, que foi um grande exército de abnegados. (...) Nem as senhoras ficaram inactivas: para melhor meio de acção fundaram a Sociedade Ave Libertas, que teve em seu seio, entre outras senhoras notáveis, (...); Leonor Porto, [que] sacrifica os seus interesses, põe o seu atelier de costuras e a sua competência profissional ao serviço desta causa; e contam que muitas vezes a sua habilidade disfarçava alentado molecote em veneranda matrona que conduzida pelo braço de algum membro do citado Club chegava ao caes e (...) embarcava, fugindo (...) para a terra da Luz, em busca da liberdade” (Jornal do Recife, ed. 136, 20 maio 1917). No dia 17 de dezembro de 1840, na cidade do Recife, nasceu Leonor Jorge Bastos, filha de Fortunato Pereira da Fonseca Bastos, comerciante recifense, e Carolina Leopoldina Jorge Bastos, comerciante lisboeta moradora do Recife. Leonor foi batizada com o nome de sua avó materna, Leonor Jorge. Não se sabe ao certo o número de irmãos que Leonor teve, sendo cinco os nomes conhecidos: José Fortunato da Fonseca Bastos, Joaquim Jorge da Fonseca Bastos, Gaspar Bastos, D. Adelaide Bastos Gomes Penna e D. Zulmira Bastos de Souza Monteiro. Passou a assinar Leonor Bastos dos Santos Porto, após o casamento com o comerciante portuense Antonio Augusto dos Santos Porto. Não sabemos ao certo a data do matrimônio. No entanto, na primeira referência em periódicos recifenses, D. Leonor Porto já figura com o seu nome de casada. Esta primeira notícia diz respeito à sua participação em uma festividade da Igreja Católica, em 1873 (Diário de Pernambuco, ed. 8, 11 jan. 1873). Leonor foi bastante atuante nos compromissos religiosos, participando de diversas irmandades e celebrações. Antonio e Leonor tiveram, ao todo, nove filhos que chegaram à vida adulta: Carolina Porto de Carvalho, Antonio Augusto dos Santos Porto (homônimo ao pai), João Augusto dos Santos Porto, Albertina Porto de Oliveira, Adelaide Porto da Silveira, Leonor Porto de Castro, Fortunato Augusto dos Santos Porto, Fausto Tancredo dos Santos Porto e Mario Augusto dos Santos Porto. D. Leonor Porto aparece, a partir do ano de 1879, como modista e costureira, em diversos periódicos do Recife, divulgando seus préstimos para meninas, senhoras e crianças. Seu futuro marido e o futuro cunhado, José Fortunato dos Santos Porto, foram citados, em conjunto com seu pai, Fortunato Bastos, em 1854, no mesmo anúncio do Jornal “O Liberal Pernambucano”, como vendedores de bilhete de loteria na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio (O Liberal Pernambucano, ed. 460, 24 abr.1854) A partir de 1880, Antonio Augusto Porto é citado em diversos anúncios de periódicos da mesma cidade como administrador de uma casa de bilhetes de loteria, a Casa Feliz, situada na mesma praça. Portanto, indo ao encontro com o afirmado por Alcileide Cabral do Nascimento e Noemia da Luz (2012, pp. 130-131), Leonor Porto não era proveniente de nenhuma família de posses ou de renome de Pernambuco, sendo todos comerciantes. Ao que parece, a aproximação de Leonor das damas da sociedade recifense se deu pelo seu trabalho como modista e pela devoção católica. Essa aproximação foi fundamental para que ela adentrasse o círculo abolicionista da cidade, já que, de acordo com Silva e Barreto (2014, p. 51) as mulheres abolicionistas, no Brasil, pertenceram preponderantemente à elite econômica e intelectual do país. As primeiras referências a Leonor Porto ligadas ao movimento abolicionista datam de 1884 e surgem no contexto da divulgação das reuniões da Sociedade de Senhoras Abolicionistas 25 de Março (Diário de Pernambuco, ed.104, 6 maio 1884). Fundada em 20 de abril de 1884, a sociedade passa a ser nomeada, já em sua segunda sessão, como Sociedade Abolicionista Ave Libertas, pois já havia uma sociedade registrada com a denominação “25 de março” (Diário de Pernambuco, ed. 104, 6 maio 1884). Durante o primeiro semestre de 1884, Leonor Porto exerceu a função de tesoureira da Sociedade Ave Libertas. Nesse curto período de tempo, são relatados diversos eventos e espetáculos em que a sociedade participou, seja como organizadora principal, seja como participante em eventos de outras sociedades. Desta maneira, a Sociedade Ave Libertas se consolidou como importante membro na rede de liberdade da cidade do Recife, tecendo diversas parcerias com várias organizações abolicionistas. Em 24 de Agosto de 1884, a Ave Libertas procedeu a uma nova eleição, nomeando Leonor Porto como sua presidente, Ernestina Lopes de Barros como vice, Odila Pompílio como 1ª secretária, Carlota Vilela como 2ª secretária e como tesoureira Flora Guedes Alcoforado (Diário de Pernambuco, ed. 196, 26 ago.1884). A primeira sede da Sociedade Ave Libertas foi instalada no primeiro andar do número 31 da Rua do Imperador. Na edição 205 do Jornal do Recife, dia 10 de setembro de 1885, noticiou-se a festa de aniversário da instalação da sede da Sociedade Ave Libertas, que ocorreu nos salões do Club Carlos Gomes. A solenidade foi iniciada com uma sessão magna da sociedade, na qual, após o discurso da presidente reeleita Leonor Porto, a primeira secretária, Odila Pompílio, realizou a leitura do relatório anual do primeiro ano social do grupo. Neste relatório, prestou-se contas de mais de 200 alforrias conseguidas, por pecúlio ou sem indenização, enfatizando os esforços pessoais da presidente da sociedade para tal feito. Com o fim da escravização de pessoas no Brasil, a 13 de maio de 1888, a Sociedade Ave Libertas, assim como as demais sociedades abolicionistas do país, foi dissolvida. Em nota publicada, no Diário de Pernambuco, na edição 111, no dia 17 de maio de 1888, a diretoria da Sociedade Ave Libertas se pronunciou. Na publicação, intitulada “Ave Libertas”, as sócias reconheciam que a questão não estava resolvida, pois apesar de alcançado o principal objetivo da causa, havia ainda uma tarefa, “a de olhar com desvelo para a sorte” dos libertados. No período imediatamente posterior à abolição, Leonor Porto passou a se dedicar novamente às suas atividades mais corriqueiras, como o ofício de modista e costureira e a devoção à Igreja Católica. No entanto, em 1891, a modista interrompe suas atividades, após a morte de seu esposo, Antônio Augusto Porto, vítima de “sofrimentos cardíacos” (Jornal do Recife, ed.102, 7 maio 1891). Leonor retorna ao ofício, publicando seus anúncios com maior frequência apenas no ano seguinte (Jornal do Recife, ed.258, 13 nov. 1892). Apesar do retorno, nos anos que se sucederam, a modista se dividiu entre o seu ofício e as estadas no Rio de Janeiro, aonde residiam alguns de seus filhos e netos. Leonor decide por se mudar de forma definitiva para a capital da República em 1897, constituindo leiloeiro para os seus objetos e mobília (Jornal do Recife, ed.43, 23 fev. 1897). A líder abolicionista embarcou para o Rio de Janeiro, via Bahia, em 15 de abril de 1897 (Jornal do Recife, ed.86, 18 abr.1897). Na edição 32, Jornal do Recife de 8 de fevereiro de 1901, noticiou-se a morte de D. Leonor Porto, ocorrida no dia 6 de fevereiro deste ano. Não é noticiada a causa da sua morte. Para homenageá-la, no âmbito das comemorações pela Abolição, em maio de 1902, renomeou-se uma rua: a Rua da Conquista, no bairro da Soledade, passou a ser denominada rua D. Leonor Porto (Diário de Pernambuco, ed.107, 13 maio 1902). Da mesma forma, uma escola também foi nomeada com sua homenagem, datando a primeira referência a ela em 1919 (Diário de Pernambuco, ed.118, 5 maio 1919). A Escola Leonor Porto situava-se no Recife, na rua Padre Floriano, nº80, mantida pela Liga Pernambucana contra o Analphabetismo (Diário de Pernambuco, ed.17, 20 jan. 1922). Nas edições dos periódicos recifenses de comemorações e homenagens ao dia 13 de maio, Leonor Porto é citada entre os principais líderes do movimento abolicionista do Recife, sendo referida como “à vanguarda da grande campanha” (Jornal do Recife, ed.129, 14 maio 1929), “ilustre abolicionista pernambucana” (Diário de Pernambuco, ed. 209, 1º ago. 1918), “distinta pernambucana, cujo nome se acha ligado (...) à história gloriosa da propaganda abolicionista” (Diário de Pernambuco, ed. 21, 27 jan.1897). Apesar de ter sido fundada em um momento de radicalização do movimento, a Sociedade Ave Libertas tinha em seu estatuto (FERREIRA, 1999, p. 205), logo no artigo 1º, parágrafo 1º Art 1º - Fica criada no Recife uma associação abolicionista com a denominação de Sociedade Ave Libertas, cujos fins são: §1º - Promover a libertação de todos os escravos do município do Recife por todos os meios lícitos e legais ao seu alcance. [grifo nosso]. Portanto, em sua maior diretriz, as sócias do Ave Libertas, no primeiro artigo, deixaram claro que agiriam conforme a lei. Todavia, encontramos relatos que as identificavam como umas das principais articuladoras da luta clandestina contra a escravização no Recife. Contrariando o que foi posto neste estatuto, Leonor e outras sócias teriam participado de diversas ações ilegais realizadas pelo abolicionismo radical recifense, especialmente nas fugas de escravos para a província do Ceará, encabeçadas pela associação clandestina Club do Cupim. A modista teria, por diversas vezes, utilizado seus dotes de costura para disfarçar “molecotes” como “matronas” (Jornal do Recife, ed.136, 20 maio 1917). Os garotos eram conduzidos, disfarçados por Leonor Porto como damas, até o cais do Recife por um membro do Club do Cupim, enquanto José Mariano, político liberal muito popular e um dos líderes abolicionistas mais conhecidos da cidade, distraía as autoridades, puxando conversa. Desta maneira, o rapazola embarcava, rumo à província livre do Ceará. Outra contribuição de Leonor e de suas sócias era esconder escravizados fugidos em suas casas, até que a rede clandestina pudesse estabelecer um plano de fuga seguro (Jornal do Recife, ed.128, 13 maio 1914 e Diário de Pernambuco, ed. 109, 11 maio 1938). Assim, de acordo com esses relatos e com o excerto referenciado na abertura deste ensaio, a Sociedade Ave Libertas foi fundada como um ramo legal das ações abolicionistas de suas associadas. A perseguição aos abolicionistas, engendrada a partir de 1884, com a ascensão do Gabinete Cotegipe, teria sido o mote para a criação desta associação, como um meio de autoproteção e desvinculação destas mulheres das possíveis punições às quais estariam sujeitas, se pegas em atividades ilegais. O fato de estes relatos serem praticamente ignorados e a real dimensão da participação feminina no movimento abolicionista brasileiro ser pouco estudada demonstra a urgência em aprofundar tais investigações. *Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – Pesquisadoras em rede e membra do Grupo de Estudos Feministas Dandara dos Palmares. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro e cinco cachorros, fora os peixes. Referências bibliográficas FERREIRA, Luzilá Gonçalves. Suaves Amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste. Recife: Universitária da UFPE, 1999. NASCIMENTO, Alcileide Cabral do; LUZ, Noemia Maria Queiroz Pereira da. Liberdade, transgressão e trabalho: cotidiano das mulheres na cidade do Recife (1870-1914). Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 5, n. 1, jan-jul., 2012, pp. 126-149. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos; LEANDRO, Jacilene de Lima. As mulheres e o movimento abolicionista: participação e engajamento (Recife, 1880-1888). Gnarus Revista de História, vol. X, n. 10, set 2019, pp. 48-55. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos. O 25 de março de 1884 e a luta pela libertação dos escravos em Pernambuco. Clio Revista de Pesquisa Histórica, vol. 33, n. 2, jul-dez 2015, pp. 158-180. SILVA, Wladimir Barbosa; BARRETO, Maria Renilda N. Mulheres e abolição: protagonismo e ação. Revista da ABPN, vol. 6, n. 14, jul-out 2014, pp. 50-62. Referências da imagem Retrato utilizado como capa do jornal Ave Libertas, publicado em 1885, no Recife, pela Tipografia Mercantil, em homenagem ao primeiro ano de fundação da Sociedade Ave Libertas. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=731935&pesq=%22Ave%20libertas%22&pagfis=

press to zoom
Respeita Nossa História: Antonieta de Barros
Respeita Nossa História: Antonieta de Barros

Por Ynaê Lopes dos Santos* No dia 15 de outubro comemoramos o Dia do(a) Professor(a). Uma data que deveria trazer inúmeras reflexões, a começar pela insistência que o Estado brasileiro tem em manter essa profissão no limite da precarização. Mas esse dia também fala sobre a presença negra no magistério. Devemos muito à Antonieta de Barros - responsável pela lei que transformou essa data num marco nacional. “A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os tempos”. Antonieta Barros - Revista Terra. Ano 1, nº17, 1920 Nascida em 1901 em Santa Catarina, criada apenas pela mãe (empregada doméstica que havia nascido como escravizada), Antonieta foi uma das mais importantes professoras da sua época. Ensinando Português e Literatura, Antonieta fundou um Curso Particular para a alfabetização de pessoas carentes, e atuou como docente e diretora do atual Instituto de Educação. Antonieta também fundou jornais e publicou crônicas que tratavam de uma série de assuntos. Atuou na política, tendo sido a primeira deputada negra eleita no Brasil. Participou da constituinte de 1935, sendo responsável pelos capítulos Educação, Cultura e Funcionalismo, até o golpe de Getúlio Vargas. Em 1937 publicou o livro “Farrapo de Ideias” e continuou atuando energicamente em prol do poder transformador da educação, voltando à vida política após a restauração democrática. Suas bandeiras pregavam a educação de qualidade para todos, a luta contra o racismo e a igualdade de condições para as mulheres! Faleceu em março de 1952. “Não será a tristeza do deserto presente que nos roube as perspectivas dum futuro melhor (..), onde as conquistas da inteligência não se degenerem, em armas de destruição, de aniquilamento; onde os homens, enfim, se reconheçam fraternalmente. Será, contudo, quando houver bastante cultura e sólida independência entre as mulheres para que se considerem indivíduos. Só então, cremos existir uma civilização melhor.” Antonieta Barros. Jornal República, 13 de maio de 1932 Uma história e tanto! Uma história que é nossa! Uma história que só torna maior a necessidade de comemorarmos o dia de hoje, não nos esquecendo que professor, é para vida toda. *Ynaê Lopes dos Santos é historiadora e Professora Adjunta de História da América da UFF. Instagram: nossos_passos_vem_de_longe Twitter: @ynaelopes Quer saber mais? MOTT, Maria Lúcia de Barros. Escritoras negras resgatando a nossa história. Coleção Papéis Avulsos,1989. ESPINDOLA, Elizabete M. Antonieta de Barros: Educação, Gênero e Mobilidade Social em Florianópolis na primeira metade do século XX. (Tese de Doutorado em História Social) Programa de Pós-Graduação em História Social. Belo Horizonte: UFMG, 2015. ESPÍNDOLA, Elizabete Maria. ANTONIETA DE BARROS: EDUCAÇÃO, CIDADANIA E GÊNERO PELAS PÁGINAS DOS JORNAIS REPÚBLICA E O ESTADO EM FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX. Disponível em <http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos.6/elizabeteespindola.pdf > Acesso em: 18 de fev. de 2021. Veja o vídeo curta-metragem documentário “Antonieta”, sobre Antonieta de Barros: https://www.youtube.com/watch?v=4gTKJabYgKI Ficha técnica Direção: Flávia Person Roteiro: Flávia Person Produtora: Magnolia Produções Culturais e Ombu Arte Montagem: Yannet Briggiler Edição de Som e Trilha Sonora: Diogo de Haro Pesquisa e Consultoria Histórica: Fausto Douglas Corrêa Júnior Assistência de Produção: Gabi Bresola e Matias Eastman Assessoria de Comunicação: Barbara Pettres Edição de Texto: Fábio Brüggemann Preparação Vocal: Barbara Biscaro Mixagem: Diogo de Haro e Paulo Costa Franco (Estúdio Ouié) As dicas e citações desse artigo foram adicionadas pela equipe editorial da Revista MFM

press to zoom
Respeita Nossa História: Itália Fausta
Respeita Nossa História: Itália Fausta

Por Flavia Veras* "Para a maioria dos comentaristas da época, Itália Fausta foi a grande dama do teatro brasileiro da sua época, e um dos mais generosos temperamentos trágicos que o nosso teatro já teve, capaz de interpretar com êxito alguns dos grandes papéis que consagraram Eleonora Duse e Sarah Bernhardt. O marasmo em que o teatro brasileiro se encontrava durante o auge de sua carreira, o predomínio de um repertório medíocre, do qual só poucas vezes ela conseguiu fugir, e a virtual ausência de diretores dispostos a abrir caminhos rumo à modernidade cênica impediram-na de concretizar plenamente as potencialidades de excepcional trajetória de intérprete a que a sua privilegiada inteligência, sensibilidade, cultura e abertura para o novo a teriam predestinado numa época mais recente. Mas o seu prestígio de atriz conferiu-lhe uma ascendência sobre seus colegas mais jovens e sobre a opinião pública, de que ela se serviu sistematicamente, através de lúcidos depoimentos públicos, entrevistas, etc., preconizando a necessidade da criação de um teatro diferente daquele que o panorama em que viveu a condicionou, na maioria das vezes, a fazer" MICHALSKI, Yan. Fausta Polloni é o nome de registro da talentosa atriz de família italiana, Itália Fausta. Nascida em São Paulo em 1878, foi uma grande artista tanto por seu trabalho no processo de renovação do teatro brasileiro, quanto por seu papel de militante anarquista e líder sindical da Casa dos Artistas, tendo feito importantes contribuições na luta pelos direitos das mulheres do teatro. Ela começou sua carreira ainda criança como artista amadora em São Paulo, mas ganhou espaço e o gosto do público a ponto de ser reconhecida como uma dama do teatro brasileiro. Contudo, a carreira profissional iniciou efetivamente em 1906 quando excursionou pelo Brasil em companhia de artistas portugueses, inclusive, indo para Lisboa em 1913. Voltou para o Brasil no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1917), da qual o Brasil participou após ter navios mercantes bombardeados. Para driblar os problemas econômicos e as dificuldades de fazer teatro no contexto da pandemia de gripe espanhola em 1918 criou-se o Teatro da Natureza, que consistia na encenação de peças ao ar livre. Eram realizadas no Campo de Santana e criou empregos para os artistas, que viviam momentos difíceis devido à conjuntura histórica. No primeiro quarto do século XX, em parte devido à forte influência italiana, se destacou como atriz em um contexto que se falava em “fundar o teatro nacional”, ao mesmo tempo em que se buscavam referências estrangeiras. Itália Fausta, em um período de pouco financiamento público para a área cultural, protagonizou a importante Companhia Dramática do Estado de São Paulo, com incentivo do Conservatório Dramático de São Paulo. Em 1917, fez uma turnê ao Rio de Janeiro com o drama “Ré Misteriosa”, que de tão exitosa fez com que a atriz permanecesse definitivamente na então capital, com a “Companhia Dramática Nacional”, posteriormente chamada de Companhia Itália Fausta. Itália Fausta também se dedicou ao teatro operário nos anos 1910-1920. De cunho notadamente anarquista, por vezes se confundiu com as revistas, por fazer críticas sociais, explorando a nudez e os temas do cotidiano. Estas peças utilizavam as técnicas habituais do teatro como a apoteose, as danças e as músicas para colocar os temas que desejavam tratar: O teatro foi escolhido para a pregação e difusão de um ideário social de libertação, às vezes anticlerical, que de um lado, pelo caráter político de suas atividades teatrais; e de outro pela simples busca do conhecimento, fez o operariado refletir sobre manifestações populares e descobrir problemas básicos de sua existência de classe (CABRAL, 2008, 77 – 84). No sentido da construção do teatro moderno brasileiro, Itália Fausta participou de iniciativas como o Teatro de Brinquedo, de Eugênia e Álvaro Moreira, nos anos 1920, e do Teatro do Estudante do Brasil (TEB), de Pascoal Carlos Magno, nos anos 1930. Também trabalhou com personalidades reconhecidas do teatro moderno como Maria Della Costa e Ziembinski. Itália Fausta conectou a luta pelo teatro com suas expectativas por uma sociedade mais justa. Ela ocupou o cargo de presidenta da Casa dos Artistas, o sindicato dos artistas, entre 1935 e 1936. A questão da mulher artista foi levantada com muito vigor como ficou registrado no Anuário Teatral da Casa dos Artistas, em 1938. Como ex-presidente ela assinou a matéria “A vida da mulher que trabalha em teatro” tratando sobre a mulher artista, na qual discute os desafios da profissão e as intercessões entre o trabalho doméstico, o teatro e a criação dos filhos. Essa matéria também versava sobre a necessidade de toda a companhia ser equipada com um guarda-roupa que possibilitasse as artistas de não terem gastos incompatíveis com seus cachês na compra de roupas para atuação. A mulher de teatro trabalha mais de oito horas por dia, sempre mais que em qualquer outra profissão. Em geral ensaia de uma às cinco. Volta para o teatro às sete horas, trabalha até meia noite e, muitas vezes, ensaia até a madrugada. Aos domingos e feriados, enquanto os demais profissionais descansam, ela trabalha, e se os diaristas recebem seus honorários dobrados, os artistas trabalham de graça, sem pagamento algum pelas horas extras de serviço. Em teatro ninguém goza das regalias da lei de férias... Por enquanto, as leis trabalhistas têm trazido muito pouco benefício à gente de teatro. Requer, talvez, fiscalização melhor, outra regulamentação. Um dos problemas difíceis para a mulher é seu vestuário. Não se suporta mais uma atriz modestamente vestida. A artista, com encargo de família, não pode representar certas peças por falta de roupas caras. Os contratos deveriam fixar um terço do ordenado para a compra de roupas, correndo o excedente por conta das empresas. Quando existirem em todo Brasil teatros populares, funcionando regularmente com companhias nacionais, estará resolvido o problema do teatro nacional. Então, em todas as classes surgirão elementos artísticos e ser atriz deixará de ser uma profissão singular para tornar-se uma profissão comum, acessível a todas as mulheres que se sentirem atraídas pela mais bela e mais humana de todas as artes. (Itália Fausta, 1938) No final da década de 1940 confrontou o empresário Vital de Castro contra sua intenção de transformar o Teatro Fênix em um cinema. Essa era uma prática comum, tendo em vista as dificuldades de arregimentar o público teatral, mas que afetava diretamente as companhias teatrais e os artistas. Ela convocou os artistas a ocupar os camarins com cama e mesa, o que foi um escândalo, mas garantiu a permanência da companhia em atividade e o funcionamento (como teatro) do Teatro Fênix. Com uma vida de muitas lutas, projetos, sonhos e criatividade, após uma turnê pelo norte do Brasil em 1951, Itália Fausta morreu em sua casa em Santa Teresa no Rio de Janeiro, aos 73 anos, deixando uma contribuição enorme para o estudo da história do teatro no Brasil. Saiba Mais Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1937. “Casa dos Artistas a sua fundação”. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1938. “A vida da mulher que trabalha em teatro” por Itália Fausta. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. CABRAL, Michelle Nascimento. Teatro Anarquista, Futebol e Propaganda: tensões e contradições no âmbito do lazer. Rio de Janeiro, 2008. Dissertação (Mestrado em História) Universidade Federal do Rio de Janeiro. MICHALSKI, Yan. Itália Fausta. In:_________. PEQUENA Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq. Rio de Janeiro, 1989. VERAS, Flavia. Tablado e Palanque – A formação da categoria profissional dos artistas no Rio de Janeiro (1918 – 1945). Saarbrücken: Novas Edições acadêmicas, 2014. VERAS, Flavia. “Fábricas da Alegria”: o mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1918 – 1945). Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2017. Imagem: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349575/italia-fausta *Flavia Veras é editora da Revista MFM, membro do LEHMT-UFRJ e professora de ensino básico.

press to zoom