Mãos Livres

Mãos livres (11ª Edição)
Mãos livres (11ª Edição)

A MORTE DA FELICIDADE Jeovânia P. A felicidade pegou a estrada vida Chegou admirando-se do céu Das belezas que pelo caminho encontrava Como há de tudo E umas tantas coisas muito mais A felicidade começou a ver tanta coisa ruim Quem foi ficando cabisbaixa Um dia deu para examinar seu nome Felicidade Escrito com F como feio como falso como fedido como filho da puta a partir daí não deu mais para manter o riso no rosto uma áurea. Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial; e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte II A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823. Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia: Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria. Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar. Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções. Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho. Queria não me sentir estranha... e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo (...) vida q segue. Desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e, então, só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo. Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás. Porém, aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querida da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão. Novamente, Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajudá-la a terminar a história. No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo TV com elas. Compreensiva ela, mas Marisa não podia calar. “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito, muito distante, e muito, muito esquisito, chamado Copa...” *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | Twitter: @sheilalopesleal (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Vamos caminhando... Contra o tempo (inimigo) E contra os inimigos do nosso tempo Vamos caminhando apesar de mas, apesar de tudo com esperança (ela não pode acabar) Vamos caminhando E sempre lutando E sempre buscando E vamos vivendo (de olhos bem abertos) e, assim, crescendo E vamos sonhando Por que não? Às vezes faz bem Ajuda a descansar da realidade (pequenas doses para temperar o dia) “Vamos levando esse barco Buscando essa tal de felicidade” E sempre que possível, vamos caminhando de mãos dadas Quem sabe no fim do caminho, possamos dizer que valeu a pena. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAUSOS DO TINDER (CRÔNICA 1) Maiara Juliana Gonçalves da Silva* Esse tal de Tinder é uma experiência bem engraçada, né? Hoje conversava com uma amiga sobre o uso e as experiências que tive no aplicativo durante um certo tempo. Tem uma amiga minha (Outra amiga. Não a do diálogo de hoje.) que combinamos de, quem sabe um dia, escrever um livro sobre os "Causos do Tinder" narrando nossas (des)aventuras em certas vezes que recorremos ao aplicativo. Hoje, decidi narrar sobre uma delas, que ocorreu no ano passado... * Eu nunca dou like em homens policiais no app. Sempre achei algo bem estranho como, a maioria deles, se "promovem" nas fotos do "catálogo" da vitrine virtual do aplicativo de relacionamento. É sempre exibindo suas armas e, em outros casos, as fotos com armas adicionam a fotos na viatura, distintivos, coletes a prova de bala etc. Um fetiche construído em resposta a relação que se faz entre farda, poder e virilidade. Pois bem. Um certo perfil do catálogo se apresentava com fotos bonitas (com ausência de símbolos que fizessem alusão a). Na descrição, poucas informações. Entre elas, constava "servidor público". Resolvi pagar pra ver. A conversa iniciou com cumprimentos e elogios de protocolo. Ao seu desenrolar, identificamos pontos em comum: naturalidade carioca, mudança do Errejota para Natal no mesmo ano, moradia atual no mesmo bairro. Os poucos pontos em comum, que se resumiam a trajetórias de deslocamento, terminaram quando começamos a falar sobre nossas profissões. Eu fiz a seguinte pergunta: "- E você é bolsominion?". A primeira resposta foi: "- Não costumo falar de política logo assim de cara". Expliquei que, no atual momento, era algo importante a se saber, afinal de contas "diga-me em quem tu votas (votou) e eu vos direi quem és". A preliminar (política), então, se tornou um debate... Ele disse que não era bolsominion, "MAS...". Penso que boa parte das frases que vem em complemento após esse uso do "mas" como conjunção coordenativa de adversidade deveriam encerrar antes mesmo dele. Em menos de dez minutos, o perfil tinha dito que antes o país sofria com a corrupção PTista, que era "uma escolha muito difícil" e que o PT era de extrema esquerda. Ali foi demais para mim. Extrapolou toda tentativa de um saudável debate que estávamos a fazer. Após o desnudamento das preferências políticas, ele pediu o meu instagram. Foi quando eu disse que não o forneceria. Então, foi a vez dele: "- No seu perfil deve ter aquelas fotos mostrando os peitos, de legenda 'meu corpo, minhas regras' e fumando maconha". Na resposta, ativei o tom de um certo deboche "- Praticamente isso...". Depois foi só ladeira abaixo, e como sempre dá para cavar mais em fundos de poços (vide o Brasil atual), então veio a cereja do bolo. Não satisfeito com a recusa em fornecer o perfil do instagram, o cidadão soltou em breves palavras: "- Para sair comigo é preciso fazer exame toxicológico". Foi, então, que eu respondi: "- Relaxe, meu bem. Não estou te convidando para sair". A conversa encerrou com ele desfazendo o "match". * A experiência requer um apelo: por fineza, quem souber onde vende ego de homem, por favor me avisar porque eu quero comprar de quilo. Ou, como diria por essas bandas de cá, eu compro "de ruma". Não à toa, a premissa segue inabalável: "diga-me em quem tu votas (ou votou), e eu vos direi, não só quem és, como também se ando com você." * Ainda em tempo (e pré dia 19 de junho #19J): Fora, Bolsonaro genocida. * Maiara Juliana Gonçalves da Silva - é uma mulher preta, é uma mulher livre e é uma mulher mãe da Sofia Valentina. Nas horas vagas, ela é intelectual, historiadora, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Escola Agrícola de Jundiaí - EAJ) e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Instagram: @maiarajulianags ILUSTRAÇÕES Juliana Fernandes* Meu nome é Juliana, mas todo mundo me chama de Ju. Sou formada em publicidade e tenho mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Ao longo dos meus quase 20 anos de carreira no mundo corporativo, sempre tive a sensação de que não me encaixava. Mesmo quando trabalhei com Patrocínio e Incentivo de Projetos Culturais, ainda assim, sentia que faltava algo. Queria mudar de carreira, mas não sabia o que eu gostaria de fazer. Em fevereiro de 2017, minha filha Morena nasceu e virou meu mundo de cabeça pra baixo (ou pra cima, na verdade…). Assim como acontece com muitas mulheres, eu não conseguia mais conciliar a vida que eu tinha com a maternidade que eu queria exercer. Quando, após 7 meses em casa com ela, tive que voltar a trabalhar, simplesmente não conseguia mais. Chorei todas as manhãs ao sair de casa, durante 6 meses. Até que veio a coragem que me faltava para dar o grande passo: pedi demissão. Decidi então que iria começar algum projeto pessoal. No caso, eu havia composto uma canção de ninar para Morena e tinha imaginado que poderia transformar esta canção em um livro. Com essa ideia na cabeça comecei a fazer aulas de desenho e descobri que simplesmente amo desenhar! Uma amiga me incentivou a postar meus desenhos no Instagram e, com isso, surgiram as primeiras encomendas. De lá pra cá, venho retratando famílias, histórias, amores... Ano passado lancei finalmente o livro que deu origem a isso tudo: A Valsa da Bailarina, meu segundo filho. E assim, quando dei por mim, havia encontrado minha nova carreira, meu propósito de vida: trazer mais amor e beleza para o mundo e para as relações, através da arte. Assim, nasceu o JuPocket Studio, projeto que oferece ilustrações personalizadas e produtos autorais. Confiram mais no instagram: @JuPocket Studio *Juliana Fernandes é publicitária e possui mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Natural de Aracaju, rodou o mundo e, há 10 anos, escolheu Natal para fincar suas raízes. Mãe de Morena, ilustradora, designer, empreendedora, aprendiz de violeira e autora do livro A Valsa da Bailarina.

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#literatura #contos #poesia #arte PARA CRIANÇA QUE VOCÊ FOI! Lucilene Soares* Me cortou o coração a infância que você teve, ou não teve, e a menina que você não pode ser! Tive vontade de te acolher e te proteger de toda dor que te abateu. Busquei na minha resistência de mulher negra um aconchego para você descansar, um lugar de sonho e lembrança, ainda que de “lembranças desejos” de um ontem mais doce e um por vir de abundância. Receba estas singelas palavras que remetem à infância e acolhida à menina que ainda te habita. Vamos juntas acolhê-la e nutri-la, pois ela é divina! Gratidão por você existir, gratidão por você resistir! Acorda Letícia Sonhei com você Estava calor e você a girar Sua saia voava Tra Trav Travessa Traquina Sonhei com você ainda menina Levanta Letícia Descortina os horizontes Voa bem alto Semeia seu ser Porque Você é Tra Trave Travesti Vestida de mundo Vestindo este mundo De beleza e presença Subverte o vigente Nos ensina a ser Ainda mais gente Desperta Letícia Receba a infância que Dolorosamente revelou que não teve Te vejo menina E ouso sonhar Um mundo mais lindo pra você habitar Desejo a você Bordado Batom Beijo na boca Amigos Amor e Axé Levanta minha pequena ancestral Abre caminhos Que outras virão Transformando este mundo Num lar para todas Afinal. *Lucilene Soares - Mãe de Arthur e Luna, professora da rede pública estadual de Curitiba/PR, com mestrado em Educação. É atriz, poetisa, terapeuta integrativa do Espaço Terapêutico Metamorfose, militante antirracista, do feminismo negro e da cultura popular. Instagram: @lu.soares.100 DAN’AMOR Célia Regina da Silva* Maira acordou assustada, um pouco ofegante. Tinha ido dormir altas horas da noite. Teve noite de sono agitada, sonhou muito. Eram sonhos que se repetiam, com frequência, recorrentes. Ao acordar, sentia muitas sensações diferentes, sem saber direito o que era. Ela que, às vezes, demorava para lembrar dos sonhos, nesta manhã, se recordava plenamente de todos os detalhes. A cobra era enorme. De pele azul cintilante, adornada por grossas escamas, de tamanho nunca visto, tomava vários degraus da escada. Não sentiu medo, senão fascínio, vontade de se enrolar com ela, se arrastar, se envolver, acompanhando o movimento contínuo e frenético da cabeça e língua. Ela morava com avó, foi criada por ela, mas evitava falar sobre seus sonhos com Dona Gabriela. Nas primeiras vezes, chegou a contar para a avó que, muito católica, fez alusão imediata à cobra mítica, a serpente falante do Jardim do Éden. - Minha filha, quando moça eu também tinha esses sonhos. - Sonhava com cobra grande, pequena. Enrolada no meu corpo, mas a que mais gostava é que se transformava em arco-íris. Essa era a que tinha mais medo. Como pode? Não à toa, ela enganou Eva, a fez comer do fruto proibido. Foi o suficiente para Maira entender que não poderia falar mais sobre seus sonhos com a vómãe. Logo ela que recentemente tinha se descoberto preta, em família nordestina miscigenada. Estava lendo tudo sobre África, sobre os deuses que foram trazidos para o Brasil, por escravizados no chão dos navios negreiros. De homens e mulheres que trouxeram na memória e no coração os ensinamentos das divindades milenares africanas. Pensativa, resolveu não trabalhar pela manhã. Aproveitou que estava sozinha em casa. A avó tinha saído para visitar uma amiga. Fez café. Voltou para o quarto e resolveu ler livro comprado recentemente. Na primeira página aberta, linda imagem de Oxumarê. O orixá representado pela cobra arco – íris, símbolo do movimento, da transformação, da riqueza e da fortuna. Uma força imensa toma conta do seu corpo, sem controle. Ouve barulho de chuva. Corre e abre a janela. Após chuva forte e rápida, o arco colorido desponta no céu. Sente refletidas em seu corpo todas aquelas cores. Elas penetram em seus poros, em seus pelos, na sua cabeça, pelo seu corpo, em seu coração. O amor estava ali, pulsante, transcendente, magnânimo. Deu-se o encontro de si, encontro encantado com o eu. "Célia Regina da Silva – Jornalista carioca, professora e pesquisadora da UFSB. Feminista negra, acredita na potencialidade do diálogo intercultural entre as várias vertentes artísticas e literárias. Vislumbra a escrita como libertação. Coordena o Grupo de Pesquisas e Estudos em Negritude, Gênero e Mídia - GEMINA/ UFSB – CNPq. Fez parte do Processo Formativo - FLUP Pensa - Narrativas Curtas "Uma Revolução Chamada Carolina", iniciativa da Festa Literária das Periferias/2020, que resultou no livro Carolinas, Ed. Bazar do Tempo, 2021. Com o Conto "Do Lixo a Ressurreição” foi contemplada com quinto lugar, no Concurso do Movimento Literário Digital - Motus, Projeto de Extensão da Universidade Federal do Pampa, 2020. Instagram: @celregins (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Quero a criança Não o adulto que cansa, sufoca. Quero a criança Não a miniatura de adulto Sem o mínimo contágio com o vírus O maldito vírus da maturidade. Quero a criança livre E só quero a criança. Que não me procurem os grandes E que as crianças venham sozinhas. A elas prometo, Despindo-me de tudo que é “grande” Ser criança também. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte I Na Ritz Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá - conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imaginá-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, ou melhor dizendo, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bem, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha noção do que era isso, que ninguém entendia nada do que ela sentia ali naquele cotidiano de sobrevivência, e disso se queixava aos montes - em silêncio. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?! Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, entendeu?, sem mimimi, sem ninguém para te bancar, e aí não podem manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse. Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento. Lamento esse que frequentemente vem com um traço de culpa: como falar mal de um sistema que salva vidas? Como reclamar do direito ao acesso gratuito à saúde? Será que quem passa 12 ou 15 horas numa sala escura e fria, sofrendo com dor, sem saber quando será atendida, pode reclamar sem parecer ingrata? Mas enfim… Em parte, grande parte, não cabe narrar simplesmente porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida da narradora, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxergá-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça. O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares. A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atém à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados. Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pelos seres humanos (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok. (Continua na próxima edição) * Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal MITOS DE GUARDA-CHUVA Letícia Pereira* Fotografei Um morro E sua história¹ De negro, de luta Uma prova de amor Suave salto mortal. A história do morro A minha Na cruz de Inácio Trovas de amor Por de soís Nascer de luas Um despencar lá de cima. Histórias, imagens, lembranças... Ais (quase mortais). ¹ Referência ao mito do Pai Inácio, um escravizado, que, no séc. XIX, se apaixonou pela filha de um poderoso fazendeiro, sem aprovação da família, ele passa a ser perseguido e escapa da morte pulando do morro com o guarda-chuva dado pela amante. Reza a lenda que ele passou a viver escondido entre as pedras do Morro, que leva o seu nome, na Chapada Diamantina/BA. *Letícia Pereira – É soteropolitana, editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora, doutora em Literatura e Cultura pela UFBA, com pesquisa na área de Literatura Afro-brasileira e Cinema Negro, realiza (e participa) de Oficinas de Criação Literárias em espaços alternativos de aprendizagem em Salvador/BA. Instagram: @leticiapereira_ba *Arissana Pataxó - É artista plástica formada pela Escola de Belas Artes e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. É natural de Porto Seguro/BA, pertence a etnia Pataxó e reside em Coroa Vermelha, onde atua como professora de Arte no Colégio Estadual Indígena. Desenvolve uma poética sobre povos indígenas e a contemporaneidade, utilizando de diversas técnicas artísticas, desde pintura à fotografia. Instagram: @arissanapataxoportfolio | arissanapataxo.blogspot.com

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TODO MUNDO TEM UM KINDLE, MENOS EU E MEG RYAN Lorena Grisi* A COVID-19 deu origem a um novo tipo social: a louca dos cursos on-line. Aqui estou, louca dos cursos, aprendendo sobre literatura, arquitetura e cozinha vegana. E depois de muitas horas-aula, tenho algumas conclusões sobre o que une as loucas dos cursos on-line: todo mundo tem um Kindle. Todo mundo, menos eu. Eu cogitei comprar um Kindle e, para isso, consultei os amigos que já se renderam a ele. O primeiro que procurei foi um professor de literatura moderninho e viciado em gadgets. Ele me explicou que o produto tem lá suas vantagens, mas que a compradora fica refém de adquirir livros no Amazon. Parei por aí a primeira fase da pesquisa. Refém do Amazon, não dá. A segunda amiga que busquei, também professora de literatura, falou que o Kindle é excelente, porque se pode comprar o livro digital pela internet sem precisar esperar que ele seja entregue dias depois, pelos Correios. Esse argumento achei muito bom. Veio, então, a terceira amiga, profissional da economia criativa, descolada, que disse: você pode comprar só o Kindle no Amazon. Os livros que você não conseguir em livrarias pequenas, você consegue tudo pirata. Ainda não comprei, mas não posso negar que esse é um motivo convincente. Eu não tenho fetiche com livro físico. Quem tem apego a livro físico é quem nunca se mudou de casa vinte vezes ou nunca morou em apartamento de vinte metros quadrados onde não cabia mais nenhuma prateleira. Eu não tenho Kindle porque foi o jeito que encontrei de me vingar de Jeff Bezos por ter contribuído para a falência das pequenas livrarias. É minha forma de militância. Há poucos meses, ouvi uma notícia que aqueceu meu coração: um rapaz chamado Elon Musk, dono da Tesla, ultrapassou Bill Gates na riqueza e agora é o segundo maior bilionário do mundo. Eu sabia o que era Tesla? Não. Precisei ir ao Google para aprender que é uma indústria sul-africana de carros elétricos. O coração ficou quentinho porque agora vejo chances de Musk ultrapassar Bezos, primeiro colocado da lista dos bilhões. Comemorei em silêncio essa vitória de Elon, com o espírito de uma líder de torcida. Em 1998, a diretora Nora Ephron lançou um filme chamado Mensagem para você, em que Meg Ryan interpreta a dona de uma livraria de bairro ameaçada pela inauguração, em frente à sua, de uma mega livraria pertencente ao personagem de Tom Hanks. A discussão do filme era sobre como as grandes livrarias estavam devorando as livrarias pequenas. Mentira, era sobre Tom Hanks se apaixonando por Meg Ryan, mas no fundo havia uma conversa sobre livreiros opressores e livreiros oprimidos. Que saudade do marxismo cultural dos anos 90. Data dessa época, portanto, meu dilema com o Kindle, que só seria inventado em 2007. Já são treze anos de dúvida entre manter meu compromisso com a lojinha de Meg Ryan, essa heroína do campo literário, e deixar Tom Hanks, ops, Jeff Bezos, na frente de Elon Musk na lista da Bloomberg. Por enquanto, e considerando que não tenho perspectiva de mudança deste apartamento onde ainda cabem prateleiras, eu, sem Kindle, vou contribuindo só com a fortuna de bilionários da indústria de papel. *Lorena Grisi - nasceu em Salvador, em 9 de outubro de 1981. Exercícios físicos (2021) é seu primeiro livro, parte do projeto Bahia na poesia, publicado pela Paralelo 13s (Lei Aldir Blanc). Tem textos publicados na coleção Literatura de circunstância (EdUFRR), no caderno digital onde caber (Itaú Cultural), nas coletâneas Hilstianas vol. 1 (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst), Antologia Ruínas (Editora Patuá), Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica (Edufba), Mulherio das Letras Portugal (Editora In-Finita) e Parem as máquinas! (Selo Off Flip). SOLIDÃO TEM HORA Maria Helena Miranda* Por volta das 9 da noite Cai, brutalmente, e com todo seu peso, a solidão. E é o deserto, o abandono. Vontade de acordar o filho E pedir colo. Não posso... Vontade de despertar (para a vida). Não sei... E é a morte. E é o ressuscitar às 6 da manhã Para um novo dia Até que cheguem às 9 da noite. Setembro de 1993 *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. O PENSAR Meire Martins* O mundo todo é um belo pensamento! O mundo todo é um triste pensamento, O mundo belo só existe se existir em pensamento O pensamento cria, recria, constrói ou destrói O pensamento dá sentido à todas as coisas, O pensamento tira o sentido de todas as coisas O mundo todo é encantado aos olhos de quem ver, O mundo todo é um desencanto pra quem assim o ver O pensamento constrói um mundo feliz, O pensamento destrói o mundo feliz, O pensamento vai e reconstrói o mundo destruído O paraíso é triste e frio pra quem assim o ver O deserto pode ser um lindo paraíso aos olhos de quem ver O pensamento constrói a felicidade O pensamento cria a tristeza O pensamento vai, destrói a tristeza e recria a felicidade Tudo é possível no pensar Tudo é impossível pra quem não acreditar O mundo todo é um lindo pensamento divino Perceba de forma positiva o mundo ao seu redor, Tenha planos e metas que o seu pensamento deseje o bastante para realizá-los Pense positivo e aja Construa o seu mundo feliz. *Meire Martins - nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005, concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada, desde 2007, com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. ABORTAR Jeovânia P.* Abortar a si mesmo Sangrar por dentro Morrer e si enterrar Aborto d'Eu De mim Mortinho da Silva Me vendo no espelho E os vermes todos batendo palma É carne fresca! *Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”.

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ADORMECIDA ( A DOR MERECIDA ) Lângela Monteiro* Coloco o dedo na ferida E envergonhada pergunto: Essa dor é merecida? Eles dizem: é culpa da bebida! Mas ela não estava lá nos primeiros anos de minha vida Quando o olhar malicioso percorreu todo meu corpo Aquele corpo de menina E eu tremi ouvindo “tudo bem, é uma menina libertina!” Lângela Monteiro - Mulher piauiense, apaixonada pelos livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí.Com medo toda vida. SEM TÍTULO Maria Helena Miranda* Não preciso de nada nem ninguém para aumentar minha solidão. Fico sozinha a sós. Não aguento mais. Dói muito viver não viver. 25 de março de 1983 Maria Helena Miranda – Quase 66anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAMINHADA Jeovânia P.* Ando com o coração em uma cesta de palha amarrada com um laço de fita vermelho muito bonita como caixa de presente Ando sem saber bem quando ou onde encontrarei o dono desse agrado Ando bem ciente de quem ele é só que por um motivo ou por outro meu passo anda o dele anda e ainda não nos alcançamos Ando com ele em mim ele anda comigo em si mesmo assim afastados mesmo assim unidos Ando com o coração em uma cesta de palha mesmo assim não sangra. Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionara pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. COMO HOJE Maria Cristina Martins* Quando minha avó fez catorze anos teria de viver em outra cidade sozinha se quisesse continuar os estudos Sua mãe, minha bisavó não permitiu Tantos anos depois entendo como se fosse hoje fico triste como se fosse o dia em que tentei inscrevê-la num curso de português para terceira idade Ela pediu “minha filha, queria voltar a estudar” Só tinha vaga para culinária mas cozinhar era o que ela mais fazia nessa vida. Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. VONTADE Meire Martins* Uma vontade danada De te dar um abraço Desses que transpassa a pele e toca na alma. Uma vontade doida De te tascar um beijo Desses que tira o fôlego e inebria o coração. Uma vontade arretada De me atirar no teu colo e me deixar ficar o dia inteiro Desses que a gente quer que nunca mais termine. Uma vontade insana De sentir o calor do teu corpo Desses que se irradia em meu ser e aquece o meu desejo. Uma vontade imensa de estar com você Sentir teu afago e ser tua Completamente tua. Meire Martins nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas.

Mãos Livres
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A caixa Meire Martins * Você nasceu! Ainda no primeiro dia, te encaixaram em um nome, Fabricaram pra você uma identidade. Ao observarem seu corpo, te encaixaram em um gênero e de acordo com esse gênero te instruíram como deveria se comportar, brincar, andar. Você foi crescendo Te encaixaram em uma religião Te disseram quem é Deus ou quem são os Deuses os quais você deveria adorar. Você foi à escola E lá, em razão da idade te encaixaram em uma série decidiram o que você deveria estudar, produzir, realizar. Você cresceu E não se sentiu encaixado, Não conseguiu se ajustar na caixinha que te colocaram. Não se culpe por isso Afinal, não foi você quem escolheu essa caixa Agora que está crescido(a) Pode fazer suas escolhas Encaixar-se onde se sentir bem E você também pode Não se encaixar E tudo bem, Não se penitencie por isso Viva! Viva assim Desencaixadamente feliz! Você é um ser único Tem suas potencialidades Seu próprio ritmo Dance a dança da vida. Peixes não conseguem voar Pássaros não sabem nadar E tudo bem, Imagine como seria entediante o mundo Se a diversidade não existisse. Imagine se o Sol cismasse de se encaixar E se tornasse do tamanho dos planetas que o circunda, Se resolvesse parar de brilhar Não espalharia mais sua luz a todos os seres, Não aqueceria mais a vida. Assim como o Sol você também tem luz própria E aquece corações Encaixado ou desencaixado Viva! Brilhe para o mundo. * Meire Martins nasceu em 03 de junho de 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. Acorrentada Jeovânia P.* Sentada na cadeira da ilusão De quando em quando Mastigando com os pés Os dias Lá vai ela acorrentada Segue olhando pro chão Pedindo desculpas Por incomodar passando ali Em qualquer lugar Lá vai ela acorrentada Nem saber os laços que lhe amarram sabe Nem as grades que lhe cercam Nem a escravidão em que vive Lá vai ela acorrentada Imune à dor da consciência Imune à certeza de si Protegida da realidade Envolta a tudo que lhe definem como sendo certo Bom Verdadeiro Embriagada de opiniões alheias Lá vai ela acorrentada Se soubesse Se visse Se descobrisse Se Ah, se! Se um dia acordasse Se libertaria Mas enquanto não acorda Lá vai ela acorrentada. * JeovâniaP. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. s/ título Maria Helena Miranda* Gostaria imenso de escrever algo de positivo Alguma coisa que desse, a alguém, uma esperança Gostaria, enfim, de ter essa esperança De acreditar que haverá vida daqui pra frente Vida de verdade, vida vivida. Gostaria de poder me imaginar feliz Gostaria de pensar que não é pura alienação Quando vejo pessoas “felizes” Gostaria de acreditar que alguém é ou foi feliz. Gostaria de não ter tantas dúvidas E de, não podendo viver melhor, Deixar-me passar sem grandes questionamentos E acabar... (14 de março de 1983) * Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A louça Maria Cristina Martins * organizo a louça quando todos dormem guardo o que não é utilizado no dia a dia deixo à mão apenas o necessário minha avó sempre lavava e enxugava a louça antes de guardar toda a louça no armário minha mãe enxuga só o que vai para o armário eu não enxugo nada espero secar naturalmente o tempo certo de secar é o que vai do fim do jantar à hora em que todos dormem * Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. Enola Holmes: uma detetive nada feminista Tássia Veríssimo* Meu primeiro contato com histórias de detetive foi através de Agatha Christie, seus livros vendidos a preço baixo nas Lojas Americanas do bairro suburbano em que eu morava na infância, já que não tínhamos livrarias por lá à época. Depois passei a Sherlock Holmes, com seus desdobramentos em séries e filmes e outras produções do gênero. Digo isto para situar à leitora que não foi sem empolgação que fiquei sabendo de Enola Holmes, o novo filme queridinho da Netflix. Pelo contrário! Quando ouvi falar de uma nova história de detetive tendo como protagonista a irmã mais nova de Sherlock me empolguei. O fato de não ser cânone não é um problema para mim, muito menos de se tratar de uma história para adolescentes, apesar de não ser tão ligada a este universo. Fui assistir de coração aberto ao filme sobre o qual tantas conhecidas estavam falando muito bem, afinal parecia uma grande aventura feminista! A expectativa é a mãe da decepção, eu sei, mas nada havia me preparado para aquela bomba em forma de filme! A história começa com Enola Holmes (Millie Bobby Brown) se apresentando ao espectador, num já clássico caso de quebra de quarta parede. Esse recurso, quando bem empregado, é muito bom para gerar conexão com o espectador, mas nesse filme ele é tão explorado que se esvazia de sentido. Enola fala com a gente o tempo todo e explica cada cena que está acontecendo, o que fica ainda mais didático com os flashbacks de reforço de explicação que cismam em tomar a cena. É como se o espectador não fosse capaz de entender algo que não lhe fosse mostrado ao menos de três maneiras diferentes ao mesmo tempo. Eu acredito que os adolescentes – público-alvo da produção – tenham total capacidade de entender uma história sem tanta mastigação. Enola interage com a gente até no clímax do filme, tirando qualquer possibilidade de nos emocionarmos com a cena. A produção também consegue a proeza de ser muito agitada – num sentido ruim de os fatos se atropelarem sem desenvolvimento – ao mesmo tempo em parece que suas duas horas de duração se arrastam pela tela. Também não espere desenvolvimento das personagens ou uma história de detetive de fato. Praticamente todas as personagens parecem ter motivos fúteis ou mal explicados para suas ações e nem a tentativa de transformar a mãe da protagonista em rebelde funciona. Sem uma boa trama ela soa muito mais como uma mãe relapsa e egoísta do que como uma feminista que quer um mundo melhor para a filha. Aliás, o que mais me incomoda nesta obra é ter sido alçada como feminista nas resenhas que pipocam no Instagram. Não fosse isso seria apenas um filme ruim, como tantos outros. Mas se vender como “girl power” foi abuso! As personagens femininas são pouco interessantes, não há quase conexão ou diálogo entre elas e quando existe alguma oportunidade de união é descartada em prol de um “algo maior” que nunca se concretiza. Que mulher adulta fala para a filha da amiga desaparecida se virar sozinha aos 16 anos em Londres enquanto foge dos irmãos? E é exatamente essa personagem, chamada Edith (Susie Wokoma), que tem sido usada como símbolo feminista por uma cena em que escancara os privilégios de gênero de Sherlock. Sinceramente? Achei que já tínhamos entendido que lacração não muda o mundo e muito mais válidos são os gestos que as palavras. Enola parte em sua aventura ao fugir do irmão mais velho que a quer em um internato uma vez que a mãe deles achou de bom tom sumir no aniversário da menina e deixar apenas uns recados cifrados. Apesar da premissa fraca – a mãe é pintada como maravilhosa e do nada vai embora? – a história poderia ter se desenvolvido de maneira interessante, com Enola tendo contato com outras mulheres e com o movimento sufragista e a luta operária. Poderia ser sobre se descobrir uma mulher num mundo de homens e as implicações disso, mas optaram pelo caminho fácil de colocá-la para se fantasiar de menino – sem necessidade -, para não interagir com mulheres de forma solidária, para abrir mão de sua fuga por causa de um interesse romântico e por aí vai. Enola é supostamente independente, mas suas ações são quase todas realizadas ou em oposição ou por meio de autorização masculina. A cena da fuga do internato, por exemplo, poderia ter sido realizada por ela sozinha, mas só se deu após a visita do irmão e do par romântico. A busca pela mãe ficou em segundo plano, com ela retornando ao final, com uma desculpa mais esfarrapada que pano de chão após meses de uso em faxina pesada. A verdade é que nem a mais feminista das espectadoras consegue se conectar emocionalmente à mãe de Enola e suas motivações. O filme pode até ser bem intencionado em sua vontade de mostrar que mulheres devem ser livres, mas nossas meninas merecem uma obra que as apresentem a um feminismo que vai além de tiradas de efeito e golpes de Jiu-Jitsu. O feminismo liberal de Enola Holmes é tão bom quanto qualquer propaganda de empoderamento usada para vender batom. O mercado agradece. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas).

Mãos livres
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HERANÇA Maria Cristina Martins* Na aldeia em que meu pai nasceu em Portugal os homens podiam bater nas mulheres Depois soube que em mais lugares os homens podem bater nas mulheres Depois soube que o corpo de Carmem sangrou pelo amor de José e Capitu é um tabu e que Luísa, Gabriela, Madalena, Solange Ana, Karenina e de Assis Desdêmona, Eurídice, Emma, Constance quase todas irreais e tão reais eram culpadas mesmo quando inocentes. Culpadas de quê exatamente? Depois soube que era pior com as mulheres mais pobres com as mulheres negras com as mulheres cujos corpos nasciam para servir um país inteiro. Depois soube que não era amor, que as mulheres eram alienadas do seu próprio corpo, que a culpa era uma roupa feminina costurada por homens. *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora, protomilitante de esquerda e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. Formou-se também em história e fez pós-graduação lato senso a distância pela UnB em Políticas Públicas de Cultura - Patrimônio. Participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas em 2005 e publicou o (ainda) único livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. NO RASTRO DE UM PÁSSARO Bianca Vilhena* O corpo mente. Sinto aproximar a data em que a irrealidade deste ar terá que ganhar corpo. Agora é apenas desânimo, mas a vida não espera, e eu finjo que não espero nada dela. Meu sangue desce forte, e este parto mal feito de que sofro por não conseguir fazer. Ando sofrendo porque ando não fazendo, não conseguindo fazer. Parece que ao invés do parto necessário, o luto desnecessário, para não dizer impossível, tomou conta de tudo. Sangue negro que não deixa mais que as janelas se abram. Mas até que me sinto bem dentro das minhas quatro paredes. Mudei-me para uma rua chamada Mundo Novo. Mesmo que este mundo novo não nasça, peço para que apenas não morra. E mantenho-me firme, apesar de às vezes manca, em olhar apenas de esguelha da janela. Memórias são como pássaros velozes, que se chocam entre si. E eu só vejo as sombras projetadas na parede em frente. Gostaria de poder chamá-los para a minha gaiola, amansá-los, mostrar que também sangro. Por um instante esqueço que eles são apenas sombras. Enquanto as sombras dançam, o meu corpo mente. Não pode abraçar o mundo, mal abro a portinhola da gaiola. Uma hora dessas, esse parto imenso sairá voando por aí e poderei abraçar meu pranto, mostrar para todos os sorrisos que amo o meu pássaro novo, que nasceu hoje. E que um dia irá morrer. *Bianca Vilhena é carioca, urbana, mas amante do contato com a natureza e tudo o que é mais primordial. Fez geografia como primeira graduação e depois seguiu academicamente com a filosofia. Escreveu uma tese sobre os sonhos em Platão, ama poesia, música e as artes em geral. REUNIÃO Tássia Veríssimo* Na biografia de Rosa Luxemburgo Paul Frölich fala que aqueles homens velhos não conseguiam tolerar a fala firme de uma mulher Mais de século depois homens velhos (ou não) seguem não tolerando mulheres que falam forte Bocas e pernas abertas apenas se for para o prazer (deles) Nos querem submissas As que se posicionam são como moscas que incomodam na sopa dos privilégios Pinschers nos calcanhares do patriarcado Indóceis Sejamos. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas). COISAS DE MENINO E COISAS DE MENINA Ana Lima* Uma vez por semana faço terapia. Psicanálise. Recomendo. Só acho que o nome poderia ser “Redescobrimento de si”, acho mais apropriado. Como não podemos nos arriscar nesta pandemia, já que tenho que pegar trem e metrô até chegar lá, fazer minhas pobres orelhas aguentarem vários elásticos, trocados assim que as duas máscaras suam, não posso ser insensível com minhas orelhas (daqui a pouco estarão tortas) e não lhes dar uns momentos de diversão e prazer. Então, depois da sessão, fui fazer o que me era proibido por não ser “algo de menina”: andar de bicicleta. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. Maldito machismo que não perdoa nem as meninas de pouca idade... Infelizmente, sempre fui muito obediente, mas me orgulho dos meus poucos atos de “rebeldia” e, um deles, foi aprender a andar de bicicleta escondido quando criança. Depois parei de andar. Fui reaprender ano passado, aos 32. Aqui no Rio, tem uma organização voluntária maravilhosa chamada Bike Anjo Rio. O meu anjo foi o Moisés. Em cerca de 30 minutos, reaprendi. Acho que o tempo voltou e me senti com uns 5 anos de novo. Depois das maravilhosas voltas prazerosas, tomei uma água e polpa de coco, sentei no deque da Lagoa, olhando a contradição da água suja e transparente ao mesmo tempo, olhando as algas, enquanto parecia que o deque se movia. Que sensação maravilhosa... Sentei numa poltrona maravilhosa de madeira e fui ler Drummond de frente pra aquela vista linda, entre gargalhadas solitárias e sustos de uma ave – que suponho que se tivesse que torcer para um time, ela seria flamenguista: era toda preta e a cabeça, vermelha. Bonita. Ganhou um “tchau” de uma criança quando ele foi embora. Mas eu queria discordar de Drummond (com todo respeito, de verdade, não aquele respeito que se diz antes de se dizer algo totalmente desprovido de respeito). Juro que não é despeito por eu não ter podido sentar na cadeira 04 (acho), que Drummond usava na Biblioteca Nacional..., mas de que vale jurar?... Ele disse: “Pois namorar é destino dos humanos, destino que regula nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso. E quem vive, atenção: cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência.” Discordo, pois entendi que não se precisa do “outro” para ser feliz. Não é uma obrigação. Acho que primeiro temos que aprender a “namorar” a nós mesmos, a saber curtir nossa companhia, estar feliz consigo, sem “necessidade” do outro. Que venha como complemento, não como necessidade. Quem acha que precisa de alguém pra ser feliz, pobre dessa pessoa... E voltando à psicanálise, digo, ao redescobrimento de si, concordo com Drummond em seu outro poema, quando diz que, em suas viagens, nós, em nossa necessidade de quer algo novo e explorar e conhecer novos espaços, fala de uns astronautas que, entediados da Terra, decidiram humanizar a Lua, mas se entediaram depois de um tempo lá. Foram à Marte, idem. O mesmo com Vênus, Júpiter, os outros planetas e até com o Sol se entediaram. Depois foram colonizar outros sistemas fora do solar. Acabaram as viagens. Restava apenas “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver.” Redescobrir a si é libertador... Suponho que esses astronautas fugiam de si... Tomara que tenham se encontrado... *Ana Paula Gomes de Lima é assistente social trabalhando na UFRJ, faço doutorado em Serviço Social na UFRJ, tenho 33 anos, divorciada, solteira, sem filhos, amo poesia, trilhas e rir de coisas idiotas kkk, moro em Duque de Caxias .

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#literatura #contos #poesia #desabafos PARTIDA Meire Martins de Souza* Vai, segue o teu destino. Relutei tanto pra que tu ficasse, Eu me refiz, eu me atirei, Eu tentei ser o teu mundo, Mas tudo que posso te proporcionar, é pouco pra ti. Vai, segue o teu destino. Lembrarei de ti como uma estrela Que um certo dia apareceu no meu céu, E trouxe brilho para a minha noite que estava ofuscada. Vai, segue o teu destino. Foi lindo te ver, foi gostoso te ter, Mas se precisas agora brilhar em outro céu, Vai, segue o teu destino. Porque o amor não prende, o amor liberta. Te darei então a liberdade de me deixar. Te matarei dentro de mim, não por maldade, não por rebeldia, Mas sim, para que possas renascer em outro céu. Vai, segue o teu destino. E o brilho que tu trouxeste para a minha vida, permanecerá para sempre. E quando eu pensar em ti, tua luz refletirá em meus olhos, E um sorriso resplandecerá em meus lábios, Porque quando uma estrela morre, o brilho dela permanece no céu. Vai, segue o teu destino. Tu de repente apareceu, Tu de repente se vai, E eu fico aqui a contemplar esse céu, na esperança de que de repente tu vai voltar. Vai, segue o teu destino. *Antonia Luzimeire de M. M. de Sousa nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. RASCUNHO [quarto texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Os anos passam E a vida tem sido Como aquele livro. Páginas e páginas escritas Em rascunho... O texto ideal não foi escrito A inspiração ainda não aconteceu, inteira... Angustia-me a ideia de não saber quanto tempo ainda levará para que ele seja passado a limpo. 10 de outubro de 1982. *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. “O DESENCANTO DE UMA PAISAGEM” Isabella Poppe* Foi no outono de 2013, estávamos eu e Ângela fumando um baseado atrás dos imensos galpões do cais do porto na cidade do Rio de Janeiro. Num horizonte pouco distante, a paisagem portuária composta de uma flora estupenda, artificial e insaciável saltava aos olhos. Era a primeira vez que sentia o impacto visual causado por aquele maquinário em fúria, onde trópicos humanos de ferro e força erguiam-se nos planos inclinados de costas para a cidade. Ângela me passou o baseado, dei um tapa caprichado, prendi a respiração e, ao soltar a fumaça, tossi incessantemente, sentindo a garganta arranhar. Ela pediu desculpas pela falta de qualidade da erva, justificando que eram tempos difíceis de escassez. Eu estava compenetrada naquela paisagem metálica, atenta aos contrastes de suas cores amarela, vermelha, azul e branca, das tantas pilhas de containers retangulares que amontoavam-se uns sobre os outros, numa espécie de jogo de empilhar gigante, não fossem os nomes das empresas estampados em suas laterais – que revelavam a função comercial de toda aquela estrutura globalizada. Até que me dei conta de que não havia movimento algum ali. Nenhum sinal de atividade humana. Os trabalhadores eram invisíveis no universo portuário. Não fosse a brisa, talvez desconfiasse de que estivéssemos diante de uma miragem. Indaguei à Ângela se ela alguma vez havia visto um porto em atividade, mostrando algo para além de uma exibição estética. “Desce ruim na garganta, mas até que sobe legal na mente”, foi o que Ângela respondeu, me dando uma gastada. Passei o beck de volta para ela e me surpreendi ao vê-la fechar um dos olhos, enquanto fazia um gesto com os dedos polegar e indicador, como se imitasse um guindaste erguendo um daqueles infinitos retângulos coloridos. “É tipo aquelas máquinas de shopping em que a gente tenta pegar um bichinho de pelúcia. Nunca consegui fisgar um desgraçado desses.” Durante algumas horas, ficamos as duas assim, curtindo a leveza daquele momento, aliviadas por ao menos conseguirmos abstrair de todas as desgraças da humanidade. Mas o impacto que eu havia experimentado, um misto de adrenalina e desencanto, essa sensação não iria passar da mesma maneira que a onda daquele bagulho de qualidade duvidosa. Eu havia sentido um misto de “Entusiasmo” – em que os planos detalhes de Vertov pulsam triunfantes em sua saudação ao progresso no seu maior esplendor – com o “Arábia”, de Uchoa e Dumans – onde a imagem imobiliza o tempo e, a abstração sonora da última cena de um navio em erupção, é um gesto de admiração do mundo em sua majestade e horror. Não compartilhei esses pensamentos com Ângela, receosa de que ela pudesse achá-los pedantes – ou totalmente vazios de sentido. Reparei então em um dos imensos navios atracados no cais. Tinha o casco amarelo, onde estava escrito Grande América. Encarei-o por longos minutos na esperança de conseguir flagrar o momento em que o imenso guindaste vermelho se inclinaria até ele, para finalmente erguer um dos containers que aguardavam pacientemente a hora de ser descarregado. Mas nada. Tudo permanecia estático como de costume. Comecei a ansiar pelo dia em que veria aqueles imensos guindastes em pleno movimento. Se não para erguer containers, quem sabe para se desgarrarem de uma vez do chão, num ato feroz de rebeldia. Por fim, eles encarariam a cidade de frente e a invadiriam, alertando-a de seu progresso desenfreado. Anos depois, eu viria saber que o mesmo navio Grande América havia pegado fogo e afundado, levando para o fundo do oceano cerca de dois mil automóveis. Dentre eles, estavam duzentos Porshes, carros de luxo destinados ao 1% da população grandeamericana, que agora se encontravam perdidos a mais de quatro mil metros de profundidade. Ao contrário das caravelas que invadiram nuestro território no passado, a viagem do navio de carga Grande América fora interrompida, impossibilitada de chegar ao seu destino final. Naquele tempo, eu e Ângela havíamos tomado rumos diferentes na vida, como acontecem com muitas das amizades de infância, e já não éramos mais o silêncio cômodo uma da outra. Assim como o porto e a cidade, após tanto tempo rumando por caminhos paralelos e sem contato, com objetivos diferentes e até opostos em relação ao mesmo espaço, a ausência de diálogo entre nós tornou-se o indício de um confronto velado. Ela havia se formado em design, trabalhava em uma agência de marketing, e expunha o que havia aprendido de arte em NY em sua conta do instagram. Ângela conseguia ser feliz, pois encarava a vida como uma eterna distração. Já eu me sentia impotente diante de tudo que acontecia ao meu redor. Determinada a nunca ferir minhas convicções, estagnei-me numa inércia que se justificava pelo medo de tornar-me uma hipócrita. No dia do naufrágio do Grande América, rompi nosso silêncio e mandei uma mensagem à Ângela com a notícia. Ela me respondeu amável, dizendo que apesar da tragédia, aquele dia lhe trazia boas lembranças, e finalizou com um “Saudades”. Não respondi sua mensagem de imediato. Depois de certo tempo, tudo que pude dizer acabou se resumindo num “Eu também” previsível. Não sei por que hesitei tanto em respondê-la. Talvez fosse pelo simples fato que, para mim, aquele navio cheio de carga afundado era, na realidade, um símbolo do que havia acontecido com a nossa amizade. *Isabella Poppe é formada em História pela UNIRIO, mestranda em História, Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV-RJ e roteirista de projetos audiovisuais. É esquerdista, indecisa e doida pela América Latina. Curte ironia e toca mal vários instrumentos. Já foi livreira no Rio e em Buenos Aires. Colabora no site Women's Media Center.

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Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos Sem título [terceiro texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Eu não queria essa boca que não sorri Esse ouvido que sempre ouve Essa mente que tudo registra... Eu não queria esse olhar que entrega Que não disfarça uma dor, uma alegria, uma revolta Que se mostra e me mostra... indefesa Eu não queria esses pés que hesitam em caminhar Que pisam, muitas vezes, temerosos Quando o caminho não é, de todo, conhecido Eu não queria essas mãos Que se oferecem sempre e no “escuro” E, por isso, muitas vezes permanecem no ar... Eu não queria essa compreensão que me ultrapassa Essa dor que sufoca Esses olhos tão abertos pro mundo Eu não queria o rosto, os olhos, o sorrir – tristes Eu não queria essa vida Eu não me queria assim... 21 de agosto de 1979 *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. RESTOS Jeovânia P.* O que resta de você cabe em uma caixa [de papelão ou madeira] em um saco em um pote em uma urna O que resta de você cabe em uma página em um livro O que resta de você Passa uma vida inteira impregnado na pele na mente no Eu * Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da FPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. O rio da memória [alerta gatilho / suicídio, estupro, violência] Simeia Dos Santos* A vida é como o rio: nasce, segue o seu curso e morre, se esgota no mar. A vida é o sangue despejado do meu pulso e que desliza pelo chão do meu quarto. Vivi trinta e três anos, agora já não sei quanto tempo me resta. A vida em mim, se dissipa. O tempo tornará o sangue seco assim como me endureceu por longos dias. O Tempo é o Senhor de Todas as Coisas. Fecho os olhos. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dez anos. A televisão ligada no telejornal. Tomo conta da minha prima de cinco anos enquanto os seus pais estão na igreja. Este tio - o mais novo dos seus irmãos.. Quanto anos ele tinha? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três? Não lembro. Isso faz tanto tempo. Este tio chegou dizendo que queria assistir o jornal da noite. Qual o ano? Também não lembro. Era ano de eleição. Na TV uma propaganda mostrava que era possível fazer um bolo com um Real. Um bolo… que fome! Este tio chamou-me para ir com ela até a cozinha. Aposto que ele vai dar biscoito recheado para nós. Um quarto escuro. Agora sinto-me abatida, uma sensação de fraqueza no corpo, a cabeça pesa. Sinto um formigamento no braço esquerdo. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dezessete anos. A família está reunida na sala da vovó. Este tio encontra-se em pé na porta. A filha dele aparece — deve ter uns cinco anos — uma criança linda e fofa. Ela senta-se no meu colo. É primeira vez que a vejo, pois, estive morando em outra cidade. Ela pula do meu colo e vejo que este tio está olhando em minha direção. Rapidamente fechei as pernas. Tenho dezessete anos, mas me lembro. Agora eu me lembro. Naquele dia, eu também usava saia. Eu também estava sentada de frente para este tio. Ou ele que escolheu ficar de frente para mim? É como se tudo estivesse acontecendo novamente, aos dez, aos dezesseis, aos trinta e três, todos os dias, todas as noites antes de dormir, basta o fechar dos olhos e tudo se repete. Noites insones. Remédios para me controlar. Remédios para desentristecer. O tempo não cura tudo. Deixo o meu corpo deslizar inteiro para o chão. Estou exausta. Fixo meu olhar na larga estante de livros que acumulei durante esses trinta e três anos. Queria poder ter lido mais, ter conhecido mais histórias, outras possibilidades — trágicas, felizes, dramáticas, leves — onde o bem sempre vence — nas piores condições, mas vence. Eu queria ter vencido hoje. Sorrio. Sinto-me em paz, finalmente esquecerei tudo. E esse era o meu único desejo em vida: esquecer. Este tio não leva à cozinha. Este tio me levou para um quarto que tinha uma cama de solteiro. Este tio pede para eu abaixar a saia. Acho que vou apanhar, mas não sei o que eu fiz de errado. Será que é porque reclamei que não queria assistir o telejornal, mas, sim, a novela Chiquititas? “Você está de calcinha, que droga”. Este tio pede para eu deitar e abaixa minha calcinha. Ele me observa enquanto um dos seus braços estão agitados, para cima e para baixo. Este tio segura algo e pede para que aquela menina beijasse aquilo. Ela beija a ponta. Eu não teria feito isso se soubesse. Eu teria me recusado. Eu teria gritado. Pegaria a minha prima pela mão e sairia correndo até o fim do mundo. Eu correria até não ter mais pernas. Eu não olharia para trás. Minha prima iria chorar ou de fome ou, porque suas pequeninas pernas não aguentariam, mas eu a pegaria no colo e continuaria a correr. Minhas pernas se movimentam como se estivessem correndo. Pouso minha mão direita sobre uma delas. É impossível correr deitada no chão, as consolo. Já não posso correr agora, como nunca consegui correr. Aquela menina está deitada sobre a cama, não totalmente, suas pernas balançam penduradas, passam um pouco da barra da cama, mas não alcançam o chão. Este tio diz: “É muito grande, não vai caber”. Um líquido sai da minha boca, não sinto o gosto, mas arrependo-me de ter bebido tanto vinho antes. Sinto o cheiro do sangue misturado com o vômito do vinho barato. O álcool não tirou a dor da fisgada da lâmina sobre a minha pele. Mas já não importa. Não sinto qualquer dor mais. * Simeia Dos Santos Historiadora formada pela Universidade Federal de Ouro Preto. Apaixonada pelo cinema nigeriano. I l♡ve Nollywood. Mãe solo. 33 anos. Tenho um perfil no Instagram dedicado aos livros, filmes, séries e também, entrevistas com amigos sobre diversas áreas do conehcimento: arte, cultura, trabalho, política, etc...: @a.meninna.grapiuna