Mãos Livres

Mãos Livres (13ª Edição)
Mãos Livres (13ª Edição)

A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte Final Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pra minhas dúvidas; queria não ser humana. Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior, enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava! Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi, então, que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados, ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava, e desviava o olhar pro chão, e me olhava de novo, e gaguejava, e suspirava, e derretia sob o sol de inverno, e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros. “Não é fácil pra mim te dizer isso...”. Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...” “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...” “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não se encontra homem que preste, nem pruma transa... te contar que a vida não tá fácil... hahahahaha. O que foi?!! Que cara é essa?!” “Só achei que sua reação seria outra...” “Mas me conta, você tá comendo alguém?” “(...)” “Fala! (risos)” “Não.” “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!” Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha. Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir por ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele... Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade, acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados? Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria. Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar. Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções. Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho. Queria não me sentir estranha... e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo (...) vida q segue. *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal DE QUANDO FUI UMA JOVEM BRINCANTE Aline Sampin* Se eu fosse mais jovem Amava o domador Do circo da cidade. Não tenho mais amor Nem tenho mais idade. Pudesse eu ser criança. Me enamorar pelo palhaço Que toda vida não se cansa De brincar com seu fracasso. O passado vinha devagar, Espiando, sorrateiro que só, Cada passo que dei de amar. Toda pisada errada era um ai de dó. E mais um ponto para o azar. Mais um tropeço para o amor. Agora digo, sem mais delongas, Tanta coisa, tenho visto. De trato tão pobre e tão rico. Que não me faltam ditas lonas Nem mesmo lembro do meu/circo. *Aline Sampin, 38 anos, é atriz, com 20 anos de carreira no teatro e já foi premiada em festivais no Rio de Janeiro e em outras cidades pelo Brasil. Possui bacharelado e licenciatura em teatro pela UNIRIO e é mestra em história do teatro pela mesma instituição. É professora de artes cênicas da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 10 anos. Aline também é poetisa e artista plástica autodidata: trabalha com técnicas como desenho em grafite, carvão e pinturas em aquarela e giz pastel. Casada há 4 anos, tem uma filha de dois anos, que passa boa parte dos seus dias a rabiscar. Site (em construção): www.alinesampin.com PROFANAÇÃO Gabriela Mitidieri* aprendi que sou duro (ao mesmo tempo delicado) discreto, cruzado, concentrado o ideal é que eu quase suma (disseram) magro, não forte regrado, limitado, enclausurado letrado (minto, não muito) sob medida o chá de revelação é todo dia marcado na pele do corpo da menina disseram que sou sagrado me deram modelos vários vai, Maria, ser santa na vida reaprendi que sou dádiva, matéria em expansão puro gasto jogo a beleza do inútil o contrário da angústia dança que ocupa e enreda com tecidos, tendão, torção conjunto de células vivas irrigadas, agitadas pipa voada puro suco de contravenção (deixa eu dançar). *Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia e experiência nos ensinos básico, superior e de línguas. Professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Aprendiz de acrobata e praticante da esperança equilibrista. Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri SOCIEDADE DOS POETAS METALINGUÍSTICOS Lya* a partir de "Carta ao Zezim", de Caio Fernando Abreu Querido Caio, Eu não quero escrever. Invento desculpas, busco ocupações, consumo distrações, colho insônias, testo receitas, repito filmes, viro sommelier de séries, fiscal da natureza e testemunha ocular do tédio. Escrevo. A contragosto, pois a escrita é espelho com eco: a lágrima, o vômito, a verdade incômoda, o medo da falha, a vergonha do aplauso, a fuga, o encontro, a construção, a melancolia, a erupção, a ruína, a catarse. É minha latrina. Meu melhor e meu pior. Ventre, fluxo, gozo, escarro, esgoto, velório. Exorcismo das emoções que joguei pra debaixo do tapete do miocárdio. A usurpação gráfica dos meus sentimentos. Tenho medo de ir na cozinha de madrugada e me deparar com um poema falando coisas de amor. É deitar-se nua no divã com o carrasco. Fazer uma entrevista de emprego com a mulher perfeita, bem-sucedida-comida-amada que eu seria aos 30. Andar de mãos dadas com o espectro dos meus fracassos. Abraçar o chorume da lembrança. Tentar explicar para a minha criança de estimação como falhamos até aqui. É o caminhão das derrotas passando na sua rua! Um convite ao passado pra passar tempo com o presente enquanto fofocam sobre o futuro. Tempo, futuro, legado. Meio milhão de mortes te fazem questionar a vida. 34 anos na cara e ainda perdida. É foda! Quem diria, aquela menina prodígio, aluna nota dez, com tamanho potencial para mudar o mundo, agora não passa de um peso morto prestes a virar poeira cósmica. Um total de zero feitos para ostentar na lápide. Que morte horrível! Um desperdício! Aquele passado tinha tanto futuro! Vai fazer a passagem sem fazer diferença, falta ou alarde. Menos um nome na Wikipedia. "Esperávamos mais de você." Eu também, Caio. Eu também... O que você quer ser quando morrer? Isolada em meu casulo, lagarta estagnei. Pérola em ostra não gerei. Farta de ser farsa, meus dedos niilistas calei. O sol tá em câncer e eu, só eclipse. Mas o pássaro azul cantarola dentro do eu-gaiola em plena madrugada querendo sair. Minha voz desenhada ele deseja ouvir. Malditos sejam os versos que não me deixam dormir! Ok, Caio. Você venceu. Eu me rendo! Satisfeito? Meu poema parido não é mais meu. É cidadão do mundo. Assim como ninguém pode entrar novamente no mesmo rio, nenhum poema é lido duas vezes. A cada dose, nasce um novo poema. Fruto da fecundação do seu olhar-sêmen no meu óvulo-verso. Quando você me lê, você também me escreve. Ler é a última etapa da cadeia de produção poética. A leitura é uma bolsa estourando a caminho da maternidade. Formamos família. Será que esses versos vão envelhecer bem? Seria a poesia cringe? Escrever está ultrapassado para a geração Z? Perceba Caio, estou redigindo a presente carta num aplicativo de notas do celular, enquanto a máquina de escrever empoeira esquecida na estante. Note, nem papel, guardanapo, notebook ou diário: notas virtuais armazenadas numa nuvem cibernética. Poesia imortalizada no Instagram, disputando algoritmos com memes, barrigas tanquinho e dancinhas de TikTok. Número de seguidores, curtidas, comentários e stories selam meu destino literário. Números, não letras. Seria eu uma aplicada poetisa de aplicativo? Uma futura membra da Academia Brasileira de Influencers? Ou apenas uma fraude que se diz escritora para provar que não é só uma bunda? Oi, sumida! Aqui quem fala é a síndrome da impostora. Tá passada? Aliás, seria eu poetisa ou poeta? Porque veja bem, você como homem há de convir que nós mulheres somos histórica e constantemente silenciadas e subestimadas. Mary Shelley, Sylvia Plath, Mary Ann Evans, Virgínia Woolf, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus. Seria poetisa uma mulher que escreve poesia, ou um poeta de marca menor por ser mulher? Pertencemos à categoria da literatura genérica? Tal qual uma mulher necessitada do companheiro para evitar assédio, visto que homens só respeitam os seus semelhantes, precisamos usar pseudônimos masculinos para sermos validadas? Ou apenas nos conformamos com a condição de sermos uma escritora inferior? Pois, eu, do alto de meu um metro e cinquenta e dois centímetros, decreto: sou POETA de grande porte e mão cheia, em capslock! Serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Deixo os escritos de sangue como legado. Até o meu último suspiro, ou canto do pássaro. Abraços, meu amigo! Viva a Sociedade dos poetas metalinguísticos! *Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca A FOTO QUE ME NARRA Lívia Vargas-González* Para Daniel Ramírez, o autor da fotografia que, tirada o dia do meu aniversário, no ano 2016, inspirou estas paisagens. Reconheço-me na gordura destas pernas que abraçam que sustentam que seguem o balanço da minha medida na fenda das estrias que descubro entre os cinzas desta imagem Ando a linha que cruza e divide um abdômen definido pelo arrulho de uma vida prestes entre cantos dores em prazeres contrações vigia da vertigem o riso abdômen que filtra espasmos e espantos do umbigo discreto que marca o grito de uma ruptura Vejo a linha que me corta em metades e inflexões riso pélvico entre costura e cicatriz quebra de um útero ameaçado fissura inaugural de uma alvorada Na foto do meu corpo vejo rachas marcas manchas pegadas escrita do rejeito o estupor vergonha da humilhada revide da descontente desafio ao mórbido escrutínio dos olhos Corpo que habito que secreta que orgasma que despecha que tristeia e felizeia Abençoado seja este corpo que ri comigo no preto e branco imortal de uma foto que me narra. Ouro Preto-MG, 15 de agosto de 2021 *Lívia Esmeralda Vargas-González (Carracas - Venezuela, 1977): Mãe de Aquiles e migrante, compartilho as horas de meus dias entre a atividade acadêmica e a criação poética, reservando tempo e vontade para o cultivo permanente dos afetos que me sustentam, os daqui e os de lá, esses que rego na terra, no ar, na água, no fogo e na virtualidade indomável das telas e das redes. Sou escritora, poeta, pesquisadora, professora universitária, e hoje estou no Brasil, fazendo um doutorado em História, e mais um em Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), habitando as ruas que resguardam o barroco brasileiro e que ecoam as memórias da escravidão e da conquista. Publicaram-me: os livros Entre libertad e historicidad. Sartre y el compromiso literario (Caracas, 2008), Trânsitos Cotidianos. Passagens de uma Venezuela convulsa (Rio de Janeiro, 2020) e Fantasmagorias da trama (em imprenta); publiquei artigos de pesquisa em revistas acadêmicas de distintos países da América Latina e participei de várias antologias poéticas. Junto com Patrícia Parra Hurtado, Nideska Suárez e Tánia Alemán, faço parte da coletiva poética venezuelana Querencias & Saudades. E-mail: liviasartre@gmail.com | Insta: @liviavargasgonzalez

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Mãos Livres (12ª Edição)
Mãos Livres (12ª Edição)

#Literatura #Poesia #Conto #Fotografia A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte III Na terapia É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos. Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... Eu só fiz um plano... Todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim, eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando. É... Eu... Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E por que te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá. Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H. É sério. Tá. Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo?... Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer.... de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá. Parte final na próxima edição... *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal À BORDA DO COGITO Gabriela Mitidieri* Inominável Sou rosto em construção, Penso, logo me desloco (de mim) El placer de vivir en déplacement Criatura das margens Atraída pelos cantos e vozes de es-quinas Dança de serpente Deslizo pelas beiras Desprovida de centro protocolo&disciplina sou jazz do coração pela estrada à toda Não gosto do bom gosto dos bons modos nem das grandes religiões Gosto dos que têm fome e comem tabus à boca pequena traça de papéis sociais Criatura de mar y viento raiz submarina Evadi-me na nau das loucas, com Judiths, Genis e Sherazades (por todas que não têm nome) Pai, Pátria, Família, Propriedade Maiúsculos não cabem na minha bagagem Meio, jamais fim Sendo, jamais sou margem da palavra F(r)esta você não me pega você nem chega a me ver. *Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia, professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Mambembe, gosta de blues, de circo e de Caetano. Como ele (com trocadilho) também gosta de paçoca, mas nunca estacionou no Leblon (nada contra, tem até amigxs que). Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri (SEM TÍTULO) Lya* Em pele cor de terra Curvas férteis, precipícios, Rachaduras e cicatrizes Desenham meu r-existir Faça um mapa pra me decifrar Desbrave matas pra me descobrir Suba montanhas pra me alcançar Pois não vou me apequenar Pra te manter aqui Me poupe da sua posse Meu decote não é convite Meu colo não é colônia Meu corpo é terra de ninguém Minha alma é de alforria Das memórias ancestrais sou moradia. *Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* E fiquei eu Naquele canto, só, Esperando o momento (o teto estava por desabar) Caíam algumas telhas Caíam algumas madeiras Mas a estrutura ainda se mantinha e me mantinha (aos pedaços) Até que, de repente, tudo ruiu. E, junto aos escombros, Sem nada que nos cobrisse, sem proteção Levantamos, eu e a minha história, Com a sensação ímpar de liberdade plena. E fui... *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. *Taiane Cerqueira - Fotógrafa, poetisa, comunicóloga em formação e criadora da Olhos da Preta. Ela conta a história da singularidade do ser através da fotografia e de poemas que são escritos partindo do que ela sente durante o processo criativo de cada imagem. É o que faz o seu coração vibrar. São experiências lindas de muita conexão e cuidado, para que você se veja e se sinta na sua melhor versão. Apaixonada pela arte de comunicar, ela traz e ensina a importância do autorretrato como mergulho, autoconhecimento e narrativa de si. Instagram: @olhosdapreta

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Mãos livres (11ª Edição)
Mãos livres (11ª Edição)

A MORTE DA FELICIDADE Jeovânia P. A felicidade pegou a estrada vida Chegou admirando-se do céu Das belezas que pelo caminho encontrava Como há de tudo E umas tantas coisas muito mais A felicidade começou a ver tanta coisa ruim Quem foi ficando cabisbaixa Um dia deu para examinar seu nome Felicidade Escrito com F como feio como falso como fedido como filho da puta a partir daí não deu mais para manter o riso no rosto uma áurea. Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial; e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte II A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823. Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia: Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria. Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar. Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções. Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho. Queria não me sentir estranha... e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo (...) vida q segue. Desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e, então, só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo. Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás. Porém, aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querida da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão. Novamente, Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajudá-la a terminar a história. No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo TV com elas. Compreensiva ela, mas Marisa não podia calar. “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito, muito distante, e muito, muito esquisito, chamado Copa...” *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | Twitter: @sheilalopesleal (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Vamos caminhando... Contra o tempo (inimigo) E contra os inimigos do nosso tempo Vamos caminhando apesar de mas, apesar de tudo com esperança (ela não pode acabar) Vamos caminhando E sempre lutando E sempre buscando E vamos vivendo (de olhos bem abertos) e, assim, crescendo E vamos sonhando Por que não? Às vezes faz bem Ajuda a descansar da realidade (pequenas doses para temperar o dia) “Vamos levando esse barco Buscando essa tal de felicidade” E sempre que possível, vamos caminhando de mãos dadas Quem sabe no fim do caminho, possamos dizer que valeu a pena. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAUSOS DO TINDER (CRÔNICA 1) Maiara Juliana Gonçalves da Silva* Esse tal de Tinder é uma experiência bem engraçada, né? Hoje conversava com uma amiga sobre o uso e as experiências que tive no aplicativo durante um certo tempo. Tem uma amiga minha (Outra amiga. Não a do diálogo de hoje.) que combinamos de, quem sabe um dia, escrever um livro sobre os "Causos do Tinder" narrando nossas (des)aventuras em certas vezes que recorremos ao aplicativo. Hoje, decidi narrar sobre uma delas, que ocorreu no ano passado... * Eu nunca dou like em homens policiais no app. Sempre achei algo bem estranho como, a maioria deles, se "promovem" nas fotos do "catálogo" da vitrine virtual do aplicativo de relacionamento. É sempre exibindo suas armas e, em outros casos, as fotos com armas adicionam a fotos na viatura, distintivos, coletes a prova de bala etc. Um fetiche construído em resposta a relação que se faz entre farda, poder e virilidade. Pois bem. Um certo perfil do catálogo se apresentava com fotos bonitas (com ausência de símbolos que fizessem alusão a). Na descrição, poucas informações. Entre elas, constava "servidor público". Resolvi pagar pra ver. A conversa iniciou com cumprimentos e elogios de protocolo. Ao seu desenrolar, identificamos pontos em comum: naturalidade carioca, mudança do Errejota para Natal no mesmo ano, moradia atual no mesmo bairro. Os poucos pontos em comum, que se resumiam a trajetórias de deslocamento, terminaram quando começamos a falar sobre nossas profissões. Eu fiz a seguinte pergunta: "- E você é bolsominion?". A primeira resposta foi: "- Não costumo falar de política logo assim de cara". Expliquei que, no atual momento, era algo importante a se saber, afinal de contas "diga-me em quem tu votas (votou) e eu vos direi quem és". A preliminar (política), então, se tornou um debate... Ele disse que não era bolsominion, "MAS...". Penso que boa parte das frases que vem em complemento após esse uso do "mas" como conjunção coordenativa de adversidade deveriam encerrar antes mesmo dele. Em menos de dez minutos, o perfil tinha dito que antes o país sofria com a corrupção PTista, que era "uma escolha muito difícil" e que o PT era de extrema esquerda. Ali foi demais para mim. Extrapolou toda tentativa de um saudável debate que estávamos a fazer. Após o desnudamento das preferências políticas, ele pediu o meu instagram. Foi quando eu disse que não o forneceria. Então, foi a vez dele: "- No seu perfil deve ter aquelas fotos mostrando os peitos, de legenda 'meu corpo, minhas regras' e fumando maconha". Na resposta, ativei o tom de um certo deboche "- Praticamente isso...". Depois foi só ladeira abaixo, e como sempre dá para cavar mais em fundos de poços (vide o Brasil atual), então veio a cereja do bolo. Não satisfeito com a recusa em fornecer o perfil do instagram, o cidadão soltou em breves palavras: "- Para sair comigo é preciso fazer exame toxicológico". Foi, então, que eu respondi: "- Relaxe, meu bem. Não estou te convidando para sair". A conversa encerrou com ele desfazendo o "match". * A experiência requer um apelo: por fineza, quem souber onde vende ego de homem, por favor me avisar porque eu quero comprar de quilo. Ou, como diria por essas bandas de cá, eu compro "de ruma". Não à toa, a premissa segue inabalável: "diga-me em quem tu votas (ou votou), e eu vos direi, não só quem és, como também se ando com você." * Ainda em tempo (e pré dia 19 de junho #19J): Fora, Bolsonaro genocida. * Maiara Juliana Gonçalves da Silva - é uma mulher preta, é uma mulher livre e é uma mulher mãe da Sofia Valentina. Nas horas vagas, ela é intelectual, historiadora, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Escola Agrícola de Jundiaí - EAJ) e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Instagram: @maiarajulianags ILUSTRAÇÕES Juliana Fernandes* Meu nome é Juliana, mas todo mundo me chama de Ju. Sou formada em publicidade e tenho mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Ao longo dos meus quase 20 anos de carreira no mundo corporativo, sempre tive a sensação de que não me encaixava. Mesmo quando trabalhei com Patrocínio e Incentivo de Projetos Culturais, ainda assim, sentia que faltava algo. Queria mudar de carreira, mas não sabia o que eu gostaria de fazer. Em fevereiro de 2017, minha filha Morena nasceu e virou meu mundo de cabeça pra baixo (ou pra cima, na verdade…). Assim como acontece com muitas mulheres, eu não conseguia mais conciliar a vida que eu tinha com a maternidade que eu queria exercer. Quando, após 7 meses em casa com ela, tive que voltar a trabalhar, simplesmente não conseguia mais. Chorei todas as manhãs ao sair de casa, durante 6 meses. Até que veio a coragem que me faltava para dar o grande passo: pedi demissão. Decidi então que iria começar algum projeto pessoal. No caso, eu havia composto uma canção de ninar para Morena e tinha imaginado que poderia transformar esta canção em um livro. Com essa ideia na cabeça comecei a fazer aulas de desenho e descobri que simplesmente amo desenhar! Uma amiga me incentivou a postar meus desenhos no Instagram e, com isso, surgiram as primeiras encomendas. De lá pra cá, venho retratando famílias, histórias, amores... Ano passado lancei finalmente o livro que deu origem a isso tudo: A Valsa da Bailarina, meu segundo filho. E assim, quando dei por mim, havia encontrado minha nova carreira, meu propósito de vida: trazer mais amor e beleza para o mundo e para as relações, através da arte. Assim, nasceu o JuPocket Studio, projeto que oferece ilustrações personalizadas e produtos autorais. Confiram mais no instagram: @JuPocket Studio *Juliana Fernandes é publicitária e possui mestrados nas áreas de Gestão Cultural e Ciências Sociais. Natural de Aracaju, rodou o mundo e, há 10 anos, escolheu Natal para fincar suas raízes. Mãe de Morena, ilustradora, designer, empreendedora, aprendiz de violeira e autora do livro A Valsa da Bailarina.

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Mãos Livres
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#literatura #contos #poesia #arte PARA CRIANÇA QUE VOCÊ FOI! Lucilene Soares* Me cortou o coração a infância que você teve, ou não teve, e a menina que você não pode ser! Tive vontade de te acolher e te proteger de toda dor que te abateu. Busquei na minha resistência de mulher negra um aconchego para você descansar, um lugar de sonho e lembrança, ainda que de “lembranças desejos” de um ontem mais doce e um por vir de abundância. Receba estas singelas palavras que remetem à infância e acolhida à menina que ainda te habita. Vamos juntas acolhê-la e nutri-la, pois ela é divina! Gratidão por você existir, gratidão por você resistir! Acorda Letícia Sonhei com você Estava calor e você a girar Sua saia voava Tra Trav Travessa Traquina Sonhei com você ainda menina Levanta Letícia Descortina os horizontes Voa bem alto Semeia seu ser Porque Você é Tra Trave Travesti Vestida de mundo Vestindo este mundo De beleza e presença Subverte o vigente Nos ensina a ser Ainda mais gente Desperta Letícia Receba a infância que Dolorosamente revelou que não teve Te vejo menina E ouso sonhar Um mundo mais lindo pra você habitar Desejo a você Bordado Batom Beijo na boca Amigos Amor e Axé Levanta minha pequena ancestral Abre caminhos Que outras virão Transformando este mundo Num lar para todas Afinal. *Lucilene Soares - Mãe de Arthur e Luna, professora da rede pública estadual de Curitiba/PR, com mestrado em Educação. É atriz, poetisa, terapeuta integrativa do Espaço Terapêutico Metamorfose, militante antirracista, do feminismo negro e da cultura popular. Instagram: @lu.soares.100 DAN’AMOR Célia Regina da Silva* Maira acordou assustada, um pouco ofegante. Tinha ido dormir altas horas da noite. Teve noite de sono agitada, sonhou muito. Eram sonhos que se repetiam, com frequência, recorrentes. Ao acordar, sentia muitas sensações diferentes, sem saber direito o que era. Ela que, às vezes, demorava para lembrar dos sonhos, nesta manhã, se recordava plenamente de todos os detalhes. A cobra era enorme. De pele azul cintilante, adornada por grossas escamas, de tamanho nunca visto, tomava vários degraus da escada. Não sentiu medo, senão fascínio, vontade de se enrolar com ela, se arrastar, se envolver, acompanhando o movimento contínuo e frenético da cabeça e língua. Ela morava com avó, foi criada por ela, mas evitava falar sobre seus sonhos com Dona Gabriela. Nas primeiras vezes, chegou a contar para a avó que, muito católica, fez alusão imediata à cobra mítica, a serpente falante do Jardim do Éden. - Minha filha, quando moça eu também tinha esses sonhos. - Sonhava com cobra grande, pequena. Enrolada no meu corpo, mas a que mais gostava é que se transformava em arco-íris. Essa era a que tinha mais medo. Como pode? Não à toa, ela enganou Eva, a fez comer do fruto proibido. Foi o suficiente para Maira entender que não poderia falar mais sobre seus sonhos com a vómãe. Logo ela que recentemente tinha se descoberto preta, em família nordestina miscigenada. Estava lendo tudo sobre África, sobre os deuses que foram trazidos para o Brasil, por escravizados no chão dos navios negreiros. De homens e mulheres que trouxeram na memória e no coração os ensinamentos das divindades milenares africanas. Pensativa, resolveu não trabalhar pela manhã. Aproveitou que estava sozinha em casa. A avó tinha saído para visitar uma amiga. Fez café. Voltou para o quarto e resolveu ler livro comprado recentemente. Na primeira página aberta, linda imagem de Oxumarê. O orixá representado pela cobra arco – íris, símbolo do movimento, da transformação, da riqueza e da fortuna. Uma força imensa toma conta do seu corpo, sem controle. Ouve barulho de chuva. Corre e abre a janela. Após chuva forte e rápida, o arco colorido desponta no céu. Sente refletidas em seu corpo todas aquelas cores. Elas penetram em seus poros, em seus pelos, na sua cabeça, pelo seu corpo, em seu coração. O amor estava ali, pulsante, transcendente, magnânimo. Deu-se o encontro de si, encontro encantado com o eu. "Célia Regina da Silva – Jornalista carioca, professora e pesquisadora da UFSB. Feminista negra, acredita na potencialidade do diálogo intercultural entre as várias vertentes artísticas e literárias. Vislumbra a escrita como libertação. Coordena o Grupo de Pesquisas e Estudos em Negritude, Gênero e Mídia - GEMINA/ UFSB – CNPq. Fez parte do Processo Formativo - FLUP Pensa - Narrativas Curtas "Uma Revolução Chamada Carolina", iniciativa da Festa Literária das Periferias/2020, que resultou no livro Carolinas, Ed. Bazar do Tempo, 2021. Com o Conto "Do Lixo a Ressurreição” foi contemplada com quinto lugar, no Concurso do Movimento Literário Digital - Motus, Projeto de Extensão da Universidade Federal do Pampa, 2020. Instagram: @celregins (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Quero a criança Não o adulto que cansa, sufoca. Quero a criança Não a miniatura de adulto Sem o mínimo contágio com o vírus O maldito vírus da maturidade. Quero a criança livre E só quero a criança. Que não me procurem os grandes E que as crianças venham sozinhas. A elas prometo, Despindo-me de tudo que é “grande” Ser criança também. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte I Na Ritz Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá - conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imaginá-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, ou melhor dizendo, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bem, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha noção do que era isso, que ninguém entendia nada do que ela sentia ali naquele cotidiano de sobrevivência, e disso se queixava aos montes - em silêncio. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?! Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, entendeu?, sem mimimi, sem ninguém para te bancar, e aí não podem manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse. Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento. Lamento esse que frequentemente vem com um traço de culpa: como falar mal de um sistema que salva vidas? Como reclamar do direito ao acesso gratuito à saúde? Será que quem passa 12 ou 15 horas numa sala escura e fria, sofrendo com dor, sem saber quando será atendida, pode reclamar sem parecer ingrata? Mas enfim… Em parte, grande parte, não cabe narrar simplesmente porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida da narradora, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxergá-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça. O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares. A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atém à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados. Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pelos seres humanos (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok. (Continua na próxima edição) * Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal MITOS DE GUARDA-CHUVA Letícia Pereira* Fotografei Um morro E sua história¹ De negro, de luta Uma prova de amor Suave salto mortal. A história do morro A minha Na cruz de Inácio Trovas de amor Por de soís Nascer de luas Um despencar lá de cima. Histórias, imagens, lembranças... Ais (quase mortais). ¹ Referência ao mito do Pai Inácio, um escravizado, que, no séc. XIX, se apaixonou pela filha de um poderoso fazendeiro, sem aprovação da família, ele passa a ser perseguido e escapa da morte pulando do morro com o guarda-chuva dado pela amante. Reza a lenda que ele passou a viver escondido entre as pedras do Morro, que leva o seu nome, na Chapada Diamantina/BA. *Letícia Pereira – É soteropolitana, editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora, doutora em Literatura e Cultura pela UFBA, com pesquisa na área de Literatura Afro-brasileira e Cinema Negro, realiza (e participa) de Oficinas de Criação Literárias em espaços alternativos de aprendizagem em Salvador/BA. Instagram: @leticiapereira_ba *Arissana Pataxó - É artista plástica formada pela Escola de Belas Artes e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. É natural de Porto Seguro/BA, pertence a etnia Pataxó e reside em Coroa Vermelha, onde atua como professora de Arte no Colégio Estadual Indígena. Desenvolve uma poética sobre povos indígenas e a contemporaneidade, utilizando de diversas técnicas artísticas, desde pintura à fotografia. Instagram: @arissanapataxoportfolio | arissanapataxo.blogspot.com

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Mãos Livres
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TODO MUNDO TEM UM KINDLE, MENOS EU E MEG RYAN Lorena Grisi* A COVID-19 deu origem a um novo tipo social: a louca dos cursos on-line. Aqui estou, louca dos cursos, aprendendo sobre literatura, arquitetura e cozinha vegana. E depois de muitas horas-aula, tenho algumas conclusões sobre o que une as loucas dos cursos on-line: todo mundo tem um Kindle. Todo mundo, menos eu. Eu cogitei comprar um Kindle e, para isso, consultei os amigos que já se renderam a ele. O primeiro que procurei foi um professor de literatura moderninho e viciado em gadgets. Ele me explicou que o produto tem lá suas vantagens, mas que a compradora fica refém de adquirir livros no Amazon. Parei por aí a primeira fase da pesquisa. Refém do Amazon, não dá. A segunda amiga que busquei, também professora de literatura, falou que o Kindle é excelente, porque se pode comprar o livro digital pela internet sem precisar esperar que ele seja entregue dias depois, pelos Correios. Esse argumento achei muito bom. Veio, então, a terceira amiga, profissional da economia criativa, descolada, que disse: você pode comprar só o Kindle no Amazon. Os livros que você não conseguir em livrarias pequenas, você consegue tudo pirata. Ainda não comprei, mas não posso negar que esse é um motivo convincente. Eu não tenho fetiche com livro físico. Quem tem apego a livro físico é quem nunca se mudou de casa vinte vezes ou nunca morou em apartamento de vinte metros quadrados onde não cabia mais nenhuma prateleira. Eu não tenho Kindle porque foi o jeito que encontrei de me vingar de Jeff Bezos por ter contribuído para a falência das pequenas livrarias. É minha forma de militância. Há poucos meses, ouvi uma notícia que aqueceu meu coração: um rapaz chamado Elon Musk, dono da Tesla, ultrapassou Bill Gates na riqueza e agora é o segundo maior bilionário do mundo. Eu sabia o que era Tesla? Não. Precisei ir ao Google para aprender que é uma indústria sul-africana de carros elétricos. O coração ficou quentinho porque agora vejo chances de Musk ultrapassar Bezos, primeiro colocado da lista dos bilhões. Comemorei em silêncio essa vitória de Elon, com o espírito de uma líder de torcida. Em 1998, a diretora Nora Ephron lançou um filme chamado Mensagem para você, em que Meg Ryan interpreta a dona de uma livraria de bairro ameaçada pela inauguração, em frente à sua, de uma mega livraria pertencente ao personagem de Tom Hanks. A discussão do filme era sobre como as grandes livrarias estavam devorando as livrarias pequenas. Mentira, era sobre Tom Hanks se apaixonando por Meg Ryan, mas no fundo havia uma conversa sobre livreiros opressores e livreiros oprimidos. Que saudade do marxismo cultural dos anos 90. Data dessa época, portanto, meu dilema com o Kindle, que só seria inventado em 2007. Já são treze anos de dúvida entre manter meu compromisso com a lojinha de Meg Ryan, essa heroína do campo literário, e deixar Tom Hanks, ops, Jeff Bezos, na frente de Elon Musk na lista da Bloomberg. Por enquanto, e considerando que não tenho perspectiva de mudança deste apartamento onde ainda cabem prateleiras, eu, sem Kindle, vou contribuindo só com a fortuna de bilionários da indústria de papel. *Lorena Grisi - nasceu em Salvador, em 9 de outubro de 1981. Exercícios físicos (2021) é seu primeiro livro, parte do projeto Bahia na poesia, publicado pela Paralelo 13s (Lei Aldir Blanc). Tem textos publicados na coleção Literatura de circunstância (EdUFRR), no caderno digital onde caber (Itaú Cultural), nas coletâneas Hilstianas vol. 1 (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst), Antologia Ruínas (Editora Patuá), Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica (Edufba), Mulherio das Letras Portugal (Editora In-Finita) e Parem as máquinas! (Selo Off Flip). SOLIDÃO TEM HORA Maria Helena Miranda* Por volta das 9 da noite Cai, brutalmente, e com todo seu peso, a solidão. E é o deserto, o abandono. Vontade de acordar o filho E pedir colo. Não posso... Vontade de despertar (para a vida). Não sei... E é a morte. E é o ressuscitar às 6 da manhã Para um novo dia Até que cheguem às 9 da noite. Setembro de 1993 *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. O PENSAR Meire Martins* O mundo todo é um belo pensamento! O mundo todo é um triste pensamento, O mundo belo só existe se existir em pensamento O pensamento cria, recria, constrói ou destrói O pensamento dá sentido à todas as coisas, O pensamento tira o sentido de todas as coisas O mundo todo é encantado aos olhos de quem ver, O mundo todo é um desencanto pra quem assim o ver O pensamento constrói um mundo feliz, O pensamento destrói o mundo feliz, O pensamento vai e reconstrói o mundo destruído O paraíso é triste e frio pra quem assim o ver O deserto pode ser um lindo paraíso aos olhos de quem ver O pensamento constrói a felicidade O pensamento cria a tristeza O pensamento vai, destrói a tristeza e recria a felicidade Tudo é possível no pensar Tudo é impossível pra quem não acreditar O mundo todo é um lindo pensamento divino Perceba de forma positiva o mundo ao seu redor, Tenha planos e metas que o seu pensamento deseje o bastante para realizá-los Pense positivo e aja Construa o seu mundo feliz. *Meire Martins - nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005, concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada, desde 2007, com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. ABORTAR Jeovânia P.* Abortar a si mesmo Sangrar por dentro Morrer e si enterrar Aborto d'Eu De mim Mortinho da Silva Me vendo no espelho E os vermes todos batendo palma É carne fresca! *Jeovânia P. - é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”.

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Mãos livres
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ADORMECIDA ( A DOR MERECIDA ) Lângela Monteiro* Coloco o dedo na ferida E envergonhada pergunto: Essa dor é merecida? Eles dizem: é culpa da bebida! Mas ela não estava lá nos primeiros anos de minha vida Quando o olhar malicioso percorreu todo meu corpo Aquele corpo de menina E eu tremi ouvindo “tudo bem, é uma menina libertina!” Lângela Monteiro - Mulher piauiense, apaixonada pelos livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí.Com medo toda vida. SEM TÍTULO Maria Helena Miranda* Não preciso de nada nem ninguém para aumentar minha solidão. Fico sozinha a sós. Não aguento mais. Dói muito viver não viver. 25 de março de 1983 Maria Helena Miranda – Quase 66anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAMINHADA Jeovânia P.* Ando com o coração em uma cesta de palha amarrada com um laço de fita vermelho muito bonita como caixa de presente Ando sem saber bem quando ou onde encontrarei o dono desse agrado Ando bem ciente de quem ele é só que por um motivo ou por outro meu passo anda o dele anda e ainda não nos alcançamos Ando com ele em mim ele anda comigo em si mesmo assim afastados mesmo assim unidos Ando com o coração em uma cesta de palha mesmo assim não sangra. Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionara pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. COMO HOJE Maria Cristina Martins* Quando minha avó fez catorze anos teria de viver em outra cidade sozinha se quisesse continuar os estudos Sua mãe, minha bisavó não permitiu Tantos anos depois entendo como se fosse hoje fico triste como se fosse o dia em que tentei inscrevê-la num curso de português para terceira idade Ela pediu “minha filha, queria voltar a estudar” Só tinha vaga para culinária mas cozinhar era o que ela mais fazia nessa vida. Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. VONTADE Meire Martins* Uma vontade danada De te dar um abraço Desses que transpassa a pele e toca na alma. Uma vontade doida De te tascar um beijo Desses que tira o fôlego e inebria o coração. Uma vontade arretada De me atirar no teu colo e me deixar ficar o dia inteiro Desses que a gente quer que nunca mais termine. Uma vontade insana De sentir o calor do teu corpo Desses que se irradia em meu ser e aquece o meu desejo. Uma vontade imensa de estar com você Sentir teu afago e ser tua Completamente tua. Meire Martins nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas.

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Mãos Livres
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A caixa Meire Martins * Você nasceu! Ainda no primeiro dia, te encaixaram em um nome, Fabricaram pra você uma identidade. Ao observarem seu corpo, te encaixaram em um gênero e de acordo com esse gênero te instruíram como deveria se comportar, brincar, andar. Você foi crescendo Te encaixaram em uma religião Te disseram quem é Deus ou quem são os Deuses os quais você deveria adorar. Você foi à escola E lá, em razão da idade te encaixaram em uma série decidiram o que você deveria estudar, produzir, realizar. Você cresceu E não se sentiu encaixado, Não conseguiu se ajustar na caixinha que te colocaram. Não se culpe por isso Afinal, não foi você quem escolheu essa caixa Agora que está crescido(a) Pode fazer suas escolhas Encaixar-se onde se sentir bem E você também pode Não se encaixar E tudo bem, Não se penitencie por isso Viva! Viva assim Desencaixadamente feliz! Você é um ser único Tem suas potencialidades Seu próprio ritmo Dance a dança da vida. Peixes não conseguem voar Pássaros não sabem nadar E tudo bem, Imagine como seria entediante o mundo Se a diversidade não existisse. Imagine se o Sol cismasse de se encaixar E se tornasse do tamanho dos planetas que o circunda, Se resolvesse parar de brilhar Não espalharia mais sua luz a todos os seres, Não aqueceria mais a vida. Assim como o Sol você também tem luz própria E aquece corações Encaixado ou desencaixado Viva! Brilhe para o mundo. * Meire Martins nasceu em 03 de junho de 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. Acorrentada Jeovânia P.* Sentada na cadeira da ilusão De quando em quando Mastigando com os pés Os dias Lá vai ela acorrentada Segue olhando pro chão Pedindo desculpas Por incomodar passando ali Em qualquer lugar Lá vai ela acorrentada Nem saber os laços que lhe amarram sabe Nem as grades que lhe cercam Nem a escravidão em que vive Lá vai ela acorrentada Imune à dor da consciência Imune à certeza de si Protegida da realidade Envolta a tudo que lhe definem como sendo certo Bom Verdadeiro Embriagada de opiniões alheias Lá vai ela acorrentada Se soubesse Se visse Se descobrisse Se Ah, se! Se um dia acordasse Se libertaria Mas enquanto não acorda Lá vai ela acorrentada. * JeovâniaP. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. s/ título Maria Helena Miranda* Gostaria imenso de escrever algo de positivo Alguma coisa que desse, a alguém, uma esperança Gostaria, enfim, de ter essa esperança De acreditar que haverá vida daqui pra frente Vida de verdade, vida vivida. Gostaria de poder me imaginar feliz Gostaria de pensar que não é pura alienação Quando vejo pessoas “felizes” Gostaria de acreditar que alguém é ou foi feliz. Gostaria de não ter tantas dúvidas E de, não podendo viver melhor, Deixar-me passar sem grandes questionamentos E acabar... (14 de março de 1983) * Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A louça Maria Cristina Martins * organizo a louça quando todos dormem guardo o que não é utilizado no dia a dia deixo à mão apenas o necessário minha avó sempre lavava e enxugava a louça antes de guardar toda a louça no armário minha mãe enxuga só o que vai para o armário eu não enxugo nada espero secar naturalmente o tempo certo de secar é o que vai do fim do jantar à hora em que todos dormem * Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. Enola Holmes: uma detetive nada feminista Tássia Veríssimo* Meu primeiro contato com histórias de detetive foi através de Agatha Christie, seus livros vendidos a preço baixo nas Lojas Americanas do bairro suburbano em que eu morava na infância, já que não tínhamos livrarias por lá à época. Depois passei a Sherlock Holmes, com seus desdobramentos em séries e filmes e outras produções do gênero. Digo isto para situar à leitora que não foi sem empolgação que fiquei sabendo de Enola Holmes, o novo filme queridinho da Netflix. Pelo contrário! Quando ouvi falar de uma nova história de detetive tendo como protagonista a irmã mais nova de Sherlock me empolguei. O fato de não ser cânone não é um problema para mim, muito menos de se tratar de uma história para adolescentes, apesar de não ser tão ligada a este universo. Fui assistir de coração aberto ao filme sobre o qual tantas conhecidas estavam falando muito bem, afinal parecia uma grande aventura feminista! A expectativa é a mãe da decepção, eu sei, mas nada havia me preparado para aquela bomba em forma de filme! A história começa com Enola Holmes (Millie Bobby Brown) se apresentando ao espectador, num já clássico caso de quebra de quarta parede. Esse recurso, quando bem empregado, é muito bom para gerar conexão com o espectador, mas nesse filme ele é tão explorado que se esvazia de sentido. Enola fala com a gente o tempo todo e explica cada cena que está acontecendo, o que fica ainda mais didático com os flashbacks de reforço de explicação que cismam em tomar a cena. É como se o espectador não fosse capaz de entender algo que não lhe fosse mostrado ao menos de três maneiras diferentes ao mesmo tempo. Eu acredito que os adolescentes – público-alvo da produção – tenham total capacidade de entender uma história sem tanta mastigação. Enola interage com a gente até no clímax do filme, tirando qualquer possibilidade de nos emocionarmos com a cena. A produção também consegue a proeza de ser muito agitada – num sentido ruim de os fatos se atropelarem sem desenvolvimento – ao mesmo tempo em parece que suas duas horas de duração se arrastam pela tela. Também não espere desenvolvimento das personagens ou uma história de detetive de fato. Praticamente todas as personagens parecem ter motivos fúteis ou mal explicados para suas ações e nem a tentativa de transformar a mãe da protagonista em rebelde funciona. Sem uma boa trama ela soa muito mais como uma mãe relapsa e egoísta do que como uma feminista que quer um mundo melhor para a filha. Aliás, o que mais me incomoda nesta obra é ter sido alçada como feminista nas resenhas que pipocam no Instagram. Não fosse isso seria apenas um filme ruim, como tantos outros. Mas se vender como “girl power” foi abuso! As personagens femininas são pouco interessantes, não há quase conexão ou diálogo entre elas e quando existe alguma oportunidade de união é descartada em prol de um “algo maior” que nunca se concretiza. Que mulher adulta fala para a filha da amiga desaparecida se virar sozinha aos 16 anos em Londres enquanto foge dos irmãos? E é exatamente essa personagem, chamada Edith (Susie Wokoma), que tem sido usada como símbolo feminista por uma cena em que escancara os privilégios de gênero de Sherlock. Sinceramente? Achei que já tínhamos entendido que lacração não muda o mundo e muito mais válidos são os gestos que as palavras. Enola parte em sua aventura ao fugir do irmão mais velho que a quer em um internato uma vez que a mãe deles achou de bom tom sumir no aniversário da menina e deixar apenas uns recados cifrados. Apesar da premissa fraca – a mãe é pintada como maravilhosa e do nada vai embora? – a história poderia ter se desenvolvido de maneira interessante, com Enola tendo contato com outras mulheres e com o movimento sufragista e a luta operária. Poderia ser sobre se descobrir uma mulher num mundo de homens e as implicações disso, mas optaram pelo caminho fácil de colocá-la para se fantasiar de menino – sem necessidade -, para não interagir com mulheres de forma solidária, para abrir mão de sua fuga por causa de um interesse romântico e por aí vai. Enola é supostamente independente, mas suas ações são quase todas realizadas ou em oposição ou por meio de autorização masculina. A cena da fuga do internato, por exemplo, poderia ter sido realizada por ela sozinha, mas só se deu após a visita do irmão e do par romântico. A busca pela mãe ficou em segundo plano, com ela retornando ao final, com uma desculpa mais esfarrapada que pano de chão após meses de uso em faxina pesada. A verdade é que nem a mais feminista das espectadoras consegue se conectar emocionalmente à mãe de Enola e suas motivações. O filme pode até ser bem intencionado em sua vontade de mostrar que mulheres devem ser livres, mas nossas meninas merecem uma obra que as apresentem a um feminismo que vai além de tiradas de efeito e golpes de Jiu-Jitsu. O feminismo liberal de Enola Holmes é tão bom quanto qualquer propaganda de empoderamento usada para vender batom. O mercado agradece. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas).

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Mãos livres
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HERANÇA Maria Cristina Martins* Na aldeia em que meu pai nasceu em Portugal os homens podiam bater nas mulheres Depois soube que em mais lugares os homens podem bater nas mulheres Depois soube que o corpo de Carmem sangrou pelo amor de José e Capitu é um tabu e que Luísa, Gabriela, Madalena, Solange Ana, Karenina e de Assis Desdêmona, Eurídice, Emma, Constance quase todas irreais e tão reais eram culpadas mesmo quando inocentes. Culpadas de quê exatamente? Depois soube que era pior com as mulheres mais pobres com as mulheres negras com as mulheres cujos corpos nasciam para servir um país inteiro. Depois soube que não era amor, que as mulheres eram alienadas do seu próprio corpo, que a culpa era uma roupa feminina costurada por homens. *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora, protomilitante de esquerda e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. Formou-se também em história e fez pós-graduação lato senso a distância pela UnB em Políticas Públicas de Cultura - Patrimônio. Participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas em 2005 e publicou o (ainda) único livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. NO RASTRO DE UM PÁSSARO Bianca Vilhena* O corpo mente. Sinto aproximar a data em que a irrealidade deste ar terá que ganhar corpo. Agora é apenas desânimo, mas a vida não espera, e eu finjo que não espero nada dela. Meu sangue desce forte, e este parto mal feito de que sofro por não conseguir fazer. Ando sofrendo porque ando não fazendo, não conseguindo fazer. Parece que ao invés do parto necessário, o luto desnecessário, para não dizer impossível, tomou conta de tudo. Sangue negro que não deixa mais que as janelas se abram. Mas até que me sinto bem dentro das minhas quatro paredes. Mudei-me para uma rua chamada Mundo Novo. Mesmo que este mundo novo não nasça, peço para que apenas não morra. E mantenho-me firme, apesar de às vezes manca, em olhar apenas de esguelha da janela. Memórias são como pássaros velozes, que se chocam entre si. E eu só vejo as sombras projetadas na parede em frente. Gostaria de poder chamá-los para a minha gaiola, amansá-los, mostrar que também sangro. Por um instante esqueço que eles são apenas sombras. Enquanto as sombras dançam, o meu corpo mente. Não pode abraçar o mundo, mal abro a portinhola da gaiola. Uma hora dessas, esse parto imenso sairá voando por aí e poderei abraçar meu pranto, mostrar para todos os sorrisos que amo o meu pássaro novo, que nasceu hoje. E que um dia irá morrer. *Bianca Vilhena é carioca, urbana, mas amante do contato com a natureza e tudo o que é mais primordial. Fez geografia como primeira graduação e depois seguiu academicamente com a filosofia. Escreveu uma tese sobre os sonhos em Platão, ama poesia, música e as artes em geral. REUNIÃO Tássia Veríssimo* Na biografia de Rosa Luxemburgo Paul Frölich fala que aqueles homens velhos não conseguiam tolerar a fala firme de uma mulher Mais de século depois homens velhos (ou não) seguem não tolerando mulheres que falam forte Bocas e pernas abertas apenas se for para o prazer (deles) Nos querem submissas As que se posicionam são como moscas que incomodam na sopa dos privilégios Pinschers nos calcanhares do patriarcado Indóceis Sejamos. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas). COISAS DE MENINO E COISAS DE MENINA Ana Lima* Uma vez por semana faço terapia. Psicanálise. Recomendo. Só acho que o nome poderia ser “Redescobrimento de si”, acho mais apropriado. Como não podemos nos arriscar nesta pandemia, já que tenho que pegar trem e metrô até chegar lá, fazer minhas pobres orelhas aguentarem vários elásticos, trocados assim que as duas máscaras suam, não posso ser insensível com minhas orelhas (daqui a pouco estarão tortas) e não lhes dar uns momentos de diversão e prazer. Então, depois da sessão, fui fazer o que me era proibido por não ser “algo de menina”: andar de bicicleta. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. Maldito machismo que não perdoa nem as meninas de pouca idade... Infelizmente, sempre fui muito obediente, mas me orgulho dos meus poucos atos de “rebeldia” e, um deles, foi aprender a andar de bicicleta escondido quando criança. Depois parei de andar. Fui reaprender ano passado, aos 32. Aqui no Rio, tem uma organização voluntária maravilhosa chamada Bike Anjo Rio. O meu anjo foi o Moisés. Em cerca de 30 minutos, reaprendi. Acho que o tempo voltou e me senti com uns 5 anos de novo. Depois das maravilhosas voltas prazerosas, tomei uma água e polpa de coco, sentei no deque da Lagoa, olhando a contradição da água suja e transparente ao mesmo tempo, olhando as algas, enquanto parecia que o deque se movia. Que sensação maravilhosa... Sentei numa poltrona maravilhosa de madeira e fui ler Drummond de frente pra aquela vista linda, entre gargalhadas solitárias e sustos de uma ave – que suponho que se tivesse que torcer para um time, ela seria flamenguista: era toda preta e a cabeça, vermelha. Bonita. Ganhou um “tchau” de uma criança quando ele foi embora. Mas eu queria discordar de Drummond (com todo respeito, de verdade, não aquele respeito que se diz antes de se dizer algo totalmente desprovido de respeito). Juro que não é despeito por eu não ter podido sentar na cadeira 04 (acho), que Drummond usava na Biblioteca Nacional..., mas de que vale jurar?... Ele disse: “Pois namorar é destino dos humanos, destino que regula nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso. E quem vive, atenção: cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência.” Discordo, pois entendi que não se precisa do “outro” para ser feliz. Não é uma obrigação. Acho que primeiro temos que aprender a “namorar” a nós mesmos, a saber curtir nossa companhia, estar feliz consigo, sem “necessidade” do outro. Que venha como complemento, não como necessidade. Quem acha que precisa de alguém pra ser feliz, pobre dessa pessoa... E voltando à psicanálise, digo, ao redescobrimento de si, concordo com Drummond em seu outro poema, quando diz que, em suas viagens, nós, em nossa necessidade de quer algo novo e explorar e conhecer novos espaços, fala de uns astronautas que, entediados da Terra, decidiram humanizar a Lua, mas se entediaram depois de um tempo lá. Foram à Marte, idem. O mesmo com Vênus, Júpiter, os outros planetas e até com o Sol se entediaram. Depois foram colonizar outros sistemas fora do solar. Acabaram as viagens. Restava apenas “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver.” Redescobrir a si é libertador... Suponho que esses astronautas fugiam de si... Tomara que tenham se encontrado... *Ana Paula Gomes de Lima é assistente social trabalhando na UFRJ, faço doutorado em Serviço Social na UFRJ, tenho 33 anos, divorciada, solteira, sem filhos, amo poesia, trilhas e rir de coisas idiotas kkk, moro em Duque de Caxias .

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