Mãos Livres

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#literatura #contos #poesia #desabafos CPF Por Ana Beatriz Nogueira* “And I was part of that pact of silence, in a way; it was a condition of the treaty that gave me my equality, that I would not invoke the primitivism of my mother, her innate superiority, that voodoo in the face of which the mechanism of equal rights breaks down” (Rachel Cusk, Aftermath) Quando meu avô morreu, descobrimos que minha avó não tinha CPF. CPF, este documento necessário a qualquer transação elementar. Sem o qual não se pode comprar um eletrodoméstico. Abrir uma conta no banco. Minha avó não o tinha. Porque tudo, tudo, era meu avô quem fazia. Todas as providências práticas da vida civil. Vovó, recém viúva, não sabia preencher um cheque – nunca havia assinado um. A ela era reservado o reino - igualmente prático, mas de uma maneira distinta - do doméstico. Onde sua assinatura estava nos temperos, nos carinhos. Não nos contratos. Não é que eu recorde o momento em que algum trâmite exigiu o CPF inexistente de minha avó. Eu era uma criança quando meu avô morreu. Lembro de entreouvir minha mãe comentar sobre a ausência do documento. Mamãe, com sua voz firme, sempre atrelada às necessidades da vida. Necessidades como, finalmente, providenciar um CPF para minha avó. O método favorito de minha mãe para navegar as tempestades emocionais é se ocupar das coisas práticas. A pragmática capitã autoproclamada de qualquer navio a adernar no oceano familiar. Talvez, mais que um mecanismo de defesa, se trate também de uma maneira inconsciente de se distanciar do modelo de sua mãe, uma mulher que não tinha sequer um CPF. (Referência da imagem: https://www.sympla.com.br/resgate-e-cura-da-ancestralidade---bairro-tatuape-sp-florescer-bento__408429#info) Minha memória do CPF ausente, símbolo eloquente do papel social reservado à minha avó, não é de percebê-la como dependente - eu, criança, não era capaz de me sentir chocada por uma mulher adulta não ter um CPF. Tenho a memória do estupor de minha mãe ao relatar o fato. E de ter percebido, pelo tom de voz de mamãe, que ser uma mulher sem CPF era um estado indesejável. Guardo uma memória auditiva, vagamente misturada com a lembrança visual da mesa de jantar do apartamento de minha avó. O marrom da madeira. O frio dos braços de metal da cadeira. Um sentimento opressivo meio difuso - como se o ar estivesse abafado dentro daquela casa em luto. E as conversas dos adultos sobre a falta do CPF. Tenho a memória de outros momentos em que minha mãe repetiu a história do CPF. Dessa feita, já em tom educativo, de forma a incutir em mim e em minha irmã a necessidade de virmos a ser mulheres que não dependeríamos da boa vontade de nossos maridos para retirar um CPF. (Contraditoriamente, nessas mesmas conversas em que se insistia na independência simbolizada pelo CPF, a presença futura de um marido aparecia tratada como uma certeza, não como uma possibilidade.) Outras vezes, a história era recontada em uma chave diferente, onde ficava claro o anseio da narradora por ressignificar a narrativa. Era patente o esforço de mamãe, mulher independente, em reconciliar a figura do homem que achava que a esposa não precisava ter CPF com o pai amoroso e dedicado que minha mãe amara. “Papai morreu tão jovem por causa do muito que trabalhava”, minha mãe dizia; “cansei de vê-lo sair do quarto de manhã cedo, na ponta dos pés, para não acordar sua avó.” E completava: “sua vó teve uma vida boa, sem  preocupações. Foi sempre poupada.” O que é verdade. Mas igualmente é verdade que um pedestal também é um espaço confinado, como diz uma famosa feminista. E minha mãe sabe disso. Tanto que forjou outro destino para si. Mamãe me ensinou muitas coisas. Algumas involuntariamente. Uma delas, que o orgulho de ter um CPF se mistura a uma nostalgia por ser cuidada. Outra, que muito desculpamos às figuras masculinas. ________________________ Minha avó sempre foi uma mulher inteligente. Lia muito, gostava de cinema. Era “professora formada” – o máximo de ambição intelectual socialmente permitida às mulheres de sua geração. Aos 95 anos, seu vocabulário de leitora voraz faz com que siga imbatível no jogo de palavras cruzadas. Nenhuma das netas é páreo para ela. Dizem ter sido também uma mulher bonita. Nas fotos antigas, vejo um sorriso meigo e um olhar confiante, em um rosto que, para os estreitos padrões estéticos de hoje, seria considerado um tanto bochechudo. A pele alvíssima empresta a estas fotografias uma dimensão quase tátil. ________________________ Nossa memória é formada pelo que se viu e pelo que se viveu. Mas também pela mitologia familiar. Pelas histórias que nos foram contadas e que, de alguma forma, se incorporam ao tecido de nossa vida, à narrativa de nossa família, de nossos ancestrais. Outra das histórias que lembro sobre minha avó também tem minha mãe como narradora. Mamãe contava que vovó atravessou uma menopausa terrível, com mudanças de humor repentinas e abrumadoras, uma ferocidade bastante assustadora para toda a família, acostumada ao temperamento cordato de minha avó. Mamãe creditava esse furacão hormonal, com certo orgulho, ao fato de vovó ter sido a primeira usuária de anticoncepcionais de que tinha notícia. Meu avô trabalhava com importações e exportações e, tão logo surgiu a pílula, antes de tal medicamento estar disponível no Brasil, minha avó o convenceu a trazê-la para ela do exterior. O desejo, inarticulado, de ditar as regras do seu corpo, mesmo sem ter sequer um CPF. _________________________ Uma vez, não sei se por ocasião de alguma mudança ou de simples arrumação da casa, tive acesso a uma caixa de recordações de minha avó. Fotos antigas: dela, de familiares, de meus tios, do casal. Fotos amareladas, com dedicatórias escritas no verso em tinta preta. Cartões postais, lembranças de um tempo em que toda viagem era um acontecimento. Cartas. Pequenos objetos. E, no meio desses pequenos objetos, um caderninho de capa preta. Neste caderninho, com a caligrafia floreada das avós, anotações sobre cinema. Nomes de filmes, ano, diretor, atores principais, e algumas impressões depois de cada título. - Vó, o que é esse caderninho? É sua letra, não é? - Ah, bobagem, Aninha. São umas coisinhas que eu anotava sobre os filmes que via. Eu e seu avô íamos ao cinema toda semana, sabia? A maioria dos filmes do caderno da Vovó são hoje considerados clássicos das décadas de 40 e 50. Eram bastante interessantes os comentários, apesar de claramente amadores. Bons resumos das tramas, textos bem escritos, comentários divertidos sobre atores e atrizes. Com um mínimo de treinamento e edição, seria fácil ter convertido este material em crítica de cinema para alguma revista da época. Nem sei se esse caderninho ainda existe. O desinteresse típico dos jovens para com tudo que diz respeito à memória fez com que não o tenha guardado. __________________________ Hoje eu me pergunto quem era essa mulher. A mulher de verdade, escondida por trás da minha avó que fazia milanesas inesquecíveis. Quem era essa mulher que não se rebelava por pelo direito a ter um CPF, mas que sabia fazer crítica de cinema? Essa mulher que intuitivamente entendia que ter dez filhos era uma opressão a ser evitada. Essa mulher de quem era cobrada uma cordialidade implacável, que resistisse impávida às intempéries da idade, às flutuações hormonais e aos sonhos sufocados, a fim de não alarmar a família. Quem essa mulher poderia ter sido? ___________________________ Um dia cheguei na casa de meus avós e encontrei vovó em meio a um pranto desconsolado. Meus avós, então, moravam em uma casa linda, com um jardim na frente, uma escadinha pela qual se entrava na sala espaçosa, de cores claras e pé-direito altíssimo – uma arquitetura utilitária, pensada para minimizar o calor do Nordeste em tempos pré-refrigeração, mas de grande efeito estético. Vovó estava sentada na varanda e chorava como se tivesse perdido um ente querido. E, de fato, perdera: a TV acabara de exibir uma reportagem em homenagem ao aniversário de morte de Tyrone Powell, o ator. Foi um choque ver vovó chorando. Lembro de perguntar quem era o tal “Tairone” que vovó pranteava. Que mundos imaginários minha avó deve ter habitado, em paralelo à sua vida real – à vida em que não lhe era conferido o direito de ter um CPF? Será que nesse mundo imaginário Tyrone seria um marido alternativo – ou mesmo um amante, será que minha avó se permitia sonhar com um amante? Que fantasias essa mulher habitou, que vida mental desenvolveu para se compensar por esse destino estreito de mulher, por esse roteiro repetido e já traçado de antemão? _________ A avó que eu conheci era uma mulher doce, sempre alegre, que me levava pela mão para comprar revistas em quadrinhos na banca da esquina, que costurava vestidos para minhas bonecas, que cozinhava refeições cujos sabores ainda posso evocar. Parecia feliz, inofensiva e sem maiores complexidades. Que profundezas ela escondia? Quem era a mulher cujos paliativos à sua vida de pequenas alegrias domésticas pareciam reais a ponto de fazê-la chorar? Será que esta estranha, esta pioneira da contracepção, que conheci brevemente no dia do aniversário de morte de Tyrone e cujas anotações encontrei, ainda existe dentro da senhora de 95 anos, sempre bem penteada e bem vestida, ainda lúcida e bem informada, campeã de scrabble? Será que é justo querer saber dessa mulher alternativa? Do que minha avó poderia ter sido se mais lhe houvesse sido permitido, se o ambiente social fosse menos sufocante? Será um exercício de curiosidade? De resgate? De revalorização de um potencial suprimido, sufocado? Ou será uma involuntária crueldade? Será meu interesse na mulher alternativa uma recusa dogmática, em que eu, empunhando a bandeira do meu feminismo, reluto em reconhecer o valor de cada história? Uma recusa em reconhecer a bravura necessária para encontrar a felicidade possível, mesmo em circunstâncias injustas, reduzidas? --------------- Não há respostas fáceis. *Ana Nogueira é mulher, feminista, nordestina, neta da Dona Anália e autora de “Cartas de Beirute – Reflexões de uma mãe e feminista sobre autismo, identidade e os desafios da inclusão” O meu amor é proibido! Langela Monteiro* O meu amor é proibido Eu não posso gritar a minha líbido Tem que ser escondido! O meu amor é proibido Eu não posso dizer que é ela O amor da minha vida O meu amor é proibido Então eu sigo o padrão Vivendo um eterno orgasmo fingido Langela Monteiro - Parnaíba (PI) * Langela Monteiro é mulher piauiense, apaixonada por livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí. Para dizer Cláudia Nascimento* Para lançar conotações Não desejo só estar em salas quase abertas Com luzes mornas Escondida nos cantinhos de algum lugar Para simbolizar Prefiro ouvir musica acesa Ou a plenitude do silêncio Envolvendo-me os castanhos olhos Aguçando-me os sonhos e memórias Na hora pensada, mover-me como borboletas Por entre caminhos desenhados Com minhas próprias cansadas mãos Trilho o que ainda me aquece Afinando-me com perfumadas folhas Só quero dizer sem amarras Não busco celebrações dos meus feitos Nem perfumo ninguém para trocar pelos meus versos Meus poemas não nascerão enclausurados Meus ventos são cantados no Tempo Recitados em qualquer lua Sentidos por quem desejá-los Se amansá-los ou guardá-los em potes Estrelamente retornarão ao sagrado Ao libertário repouso Ao imprevisível mar Ao Si-poético Cláudia Nascimento 10-06-2020 * Cláudia Nascimento é formada em Letras- UERJ, Especialização em Literatura Brasileira -UFF, Especialização UFF, Leitura e Produção de Textos- UFF. Graduanda em Produção Cultural - UFF. Professora da  Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro.Professora e Escritora. Uma das vencedoras do Prêmio Paulo Freire de Educação(ALERJ)  em 2019.

Mãos livres
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#literatura #contos #poesia #desabafos Diários de quarentena - Semana 16 – de 29 de junho a 05 de julho (A pandemia nos une, a classe nos divide) Amanda Moreira* Cheguei à triste conclusão que esta pandemia está despertando o que há de pior nas pessoas. Embora eu siga alternando o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, isso tem se convertido, com frequência, em otimismo ingênuo e pessimismo engajado. Nem mesmo esta tragédia humanitária, que dilacera vidas ao redor do mundo inteiro, tem sido capaz de fazer as pessoas pensarem mais no outro, no bem comum. Infelizmente o coronavírus só veio para acentuar o cada um por si e ninguém por todos, num mundo cada vez mais sem horizonte coletivo e com pessoas cada vez mais individualistas. Neste domingo atingimos a marca oficial de 1 milhão e 580 mil infectados pela Covid e 64 mil mortos. Já passamos do dobro da meta do Jair, e ele não se contenta. Atinge a meta e quer dobrar a meta, mesmo que para isso se valha de medidas estapafúrdias como vetar na lei de uso de máscara a obrigação do seu uso em igrejas, estabelecimentos comerciais, escolas e locais fechados. Nada, absolutamente nada, explica alguém fazer isso em plena pandemia. E ainda tem gente que não entende porque ele merece o título de genocida. Seguimos aprendendo tudo que não presta com quem dá mau exemplo e, neste caso, a população segue os passos do presidente e o presidente segue os passos do único país que nos supera no número de casos no mundo. Assim, EUA e BR seguem liderando o morticínio com duas figuras que dispensam comentários. Com toda a liberação promovida, não deu outra. Farra do boi! O gado bolsonarista saiu de sua cerca de arame liso e logo ocupou as ruas sem máscara, lotando todos os espaços possíveis, felizes, gravando vídeos, debochando, dizendo que a vida voltou ao normal. Normal é parar de morrer gente, estúpido! Mas, para essa gente é a oportunidade de tomar uma cerveja e voltar a “pegar as mina”. Vou repetir: 60 MIL MORTES, e como prêmio: praia cheia, shopping cheio, ruas lotadas, academias, bares e restaurantes voltando a funcionar. Deste modo, o isolamento social se tornou uma escolha individual, bem no pico da pandemia. Esta semana o Rio de Janeiro registrou 168 mortes em 24h. Só na capital temos mais de 7 mil óbitos e quase 11 mil em todo estado. E a galera segue vivendo numa realidade paralela... Não existe amor em SP, no RJ, nem em lugar nenhum. Leblon e Barra da Tijuca com seus bares cheios de almas tão vazias, onde a ganância vibra e a vaidade excita, nos deram a certeza da profecia criolê, ali ninguém vai pro céu. No Brasil a vacina para Covid-19 será muito bem vinda, mas a vacina contra estupidez é a mais urgente. Que asco eu tenho dessa gente egoísta, de enorme umbigo, tudo eu-eu-eu, desrespeitadores, covardes... Tudo isso me faz cerrar os dentes, apertar os lábios. Mas, individualismos à parte, hoje eu vou falar de classe, porque embora muitos não façam isso, pensar na coletividade e nos entender como classe trabalhadora é fundamental. Ficou claro para todo mundo, durante esta pandemia, que são os trabalhadores que fazem a economia girar, que sem o trabalho humano não há saída para a vida em sociedade, que o trabalho gera a riqueza do mundo e que o capital financeiro é parasitário e não serve para nada. Nos últimos três meses e meio, aqueles que nunca foram valorizados mostraram que existem, que fazem falta. O trabalho doméstico relegado às mulheres, vistas como criadas, passou a ser visibilizado. O trabalho dos mais precários são os mais essenciais e todo mundo entendeu que não podemos viver sem garis, sem motoristas de ônibus, sem entregadores, sem trabalhadores da limpeza, sem os trabalhadores da saúde, em sua maior parte enfermeiras e auxiliares. Esta pandemia exasperou as contradições sociais. O vírus, que chegou de avião para matar quem pega o busão, segue escancarando os retratos da sociedade de classes com a reabertura. Esta semana, vimos uma cena aterrorizante: trabalhadores balançando nos andaimes em meio a um ciclone no Sul, num prédio em construção. Havia alerta e mesmo assim eles estavam lá no meio do temporal. Assim como a Covid, desastres naturais seguem matando mais os pobres que, com Corona ou sem Corona acabam morrendo na contramão atrapalhando o público. Nesta pandemia aprendemos também que a solidariedade de classe é fundamental e que se a vida não é garantida pelo Estado, o povo da perifa vai lá e garante (e não deixa de cobrar do Estado!). Assim, tomando o problema nas próprias mãos, preservaram a vida de muita gente. A experiência de Paraisópolis em SP, a quinta maior favela do país, nos faz refletir muito. Os presidentes de rua – lideranças locais que acompanham os casos de Covid na comunidade – têm feito muito mais do que o presidente ou o governador. Se dependesse do governo seria mortandade em massa nas favelas, foram iniciativas como esta, que ocorreram pelo país todo, que permitiram que as pessoas pudessem ficar acolhidas, seguras e vivas. Isso acalenta a gente. Com este caos social instaurado, entendemos que é necessário ampliar as políticas sociais. O auxílio emergencial, implantado com a luta do setor democrático popular, é essencial, e continuaremos lutando pela sua permanência e ampliação, ao contrário do que querem Bozo e Guedes. Lutaremos também para que essa renda chegue à classe trabalhadora e atenda aqueles que mais precisam, pois é uma chacota o que tem sido feito com o programa. Sem coordenação do poder público ele beneficiou mais pessoas do que deveria e está custando mais do que o necessário. O IBGE nos mostrou que 5 milhões de brasileiros e brasileiras em extrema pobreza, com renda mensal até R$ 56,62 (isso mesmo!), não receberam o auxílio, ao mesmo tempo 461 residências com renda acima de 10 mil reais receberam. Um total descontrole do dinheiro público! É um escárnio o perfil de algumas pessoas que conseguiram o auxílio-emergencial destinado à população mais vulnerável. Teve madame com casamento marcado no Caribe que recebeu, gente que frequentemente faz viagens caríssimas pelo mundo que também recebeu. Houve quem gastasse com churrasco pró-Covid e outros que utilizaram o dinheiro para ir ao salão de beleza, enquanto milhões de pessoas que necessitam desta renda para seu sustento tiveram o auxílio recusado. Não há dúvidas, a classe mérdia aprendeu a feder tanto quanto a burguesia, esta que sempre cheirou muito mal, como já dizia Cazuza. O medo da contaminação levou os super ricos a finalmente descobrirem que há brasileiros que não tem água e não conseguem comprar sabonetes. Também descobriram que existem os invisíveis moradores de rua. A mulher do Dória (sim, não sei o nome e não tenho problema algum em me referir a ela assim, porque é só uma parasita mesmo), com aquela boca cheia de botox, falou que as pessoas vivem nas ruas porque querem e porque são preguiçosas. Disse isso sentada ao lado de outra parasita, em ambiente luxuoso, ambas cheias de pose e mexendo naquelas perucas de boneca. A burguesia não tem charme nem é discreta. Não tem nada mais repugnante que essa gente que se sente elevada, que parece não se constipar ou que, constipando-se, não espirra. Eu não consigo descrever o sentimento que possuo dessa gente podre que só quer manter os seus privilégios em qualquer circunstância da vida. Certamente eu colocaria a mão do nariz ao passar ao lado de uma madame daquela só pra não sentir o odor da mesquinhez abafada com perfume francês. “Ainn, mas elas são mulheres, você vai se referir a elas assim mesmo, você não é feminista? Cadê a sororidade?” Sim, sou feminista e não tenho nenhuma sororidade com esse tipo de gente. Eu nunca vou defender essas mulheres burguesas que humilham e exploram a classe trabalhadora. O gênero nos une, a classe nos divide. Para mim não existe luta feminista sem luta classista, assim como não há luta antirracista sem luta anticapitalista. A questão racial nos une, a classe nos divide. A despropósito, esta semana rolou uma polêmica envolvendo o ex-ministro da educação. Não falo do Weintraub, este continua fugido do país. Falo do seu sucessor, o Decotelli, que não durou cinco dias no ministério porque não se segurou diante dos fatos. Falsificou o currículo na cara dura. O cara é a fraude em pessoa. Inclusive, quando foi dispensado correu para colocar no currículo que foi ministro durante cinco dias, o que não considerei mais falsidade e sim patologia. Teve gente na esquerda que passou pano, tolerou a mentira, a fraude. Disseram que por ele ser negro a pressão foi maior, a queda foi mais rápida. Não desconsidero este elemento, considerando o racismo estrutural, mas achei meio rasa esta análise e não acho que caiba defesa de alguém que aceita cargo em governo fascista. De qualquer forma, refleti bastante sobre isso, pois sempre que alguém acusa um assunto de conter racismo, eu paro para pensar e acho que todos que se colocam no campo do antirracismo deveriam fazer o mesmo, especialmente se não são negros ou negras. Neste caso a questão foi política. Embora o governo Bolsonaro seja a expressão do racismo em seu grau mais extremo, o motivo de Decotelli ter rodado teve muito mais a ver com a crise que o governo enfrenta do que com a questão racial, como foi apresentado nas polêmicas de redes sociais. Esse senhor chegou ao governo pelo currículo, não tinha relação forte com o governo, não tinha laços, não tinha o perfil ideológico desejado pelo Bozo. O currículo era única coisa que o segurava, era a seu cartão de visitas. Tanto que a primeira coisa que o tosco do presidente fez foi vomitar o suposto currículo do cara aos quatro ventos. Logo depois veio a fraude, isso ficou mal, péssimo, desgastou. O governo Bolsonaro agora não está podendo comprar barulho, diferente de momentos anteriores que seguram as bizarrices do mestrado bíblico da Damares, do falso mestrado em Yale do Salles e das pirotecnias de Weintraub. O governo está vivendo na base de concessão do centrão e isso está a definir o jogo no tabuleiro. A proximidade com o centrão e com os militares mais milicianos busca uma estabilidade para a corja insana. O velho Bozo, o palhaço antissistêmico, que vocifera contra a globolixo e a Foice de São Paulo, de dentro do seu chiqueirinho no Picadeiro do Planalto, agora está sendo contido. Ele não usa focinheira contra a Covid, mas está sendo guiado na coleira. Entre Decotellis e Damares, eu jamais defenderei um inimigo de classe só pela condição de ser uma mulher, um negro ou um homossexual. Sei que isso é polêmico, já perdi amigos na militância por conta desse debate, porque em geral ele é mal feito, é vazio, liberal. É inegável que há um esvaziamento do debate de classe social e um superdimensionamento do debate identitário. Eita, fui polêmica agora, até nos termos, mas precisava falar sobre isso, mesmo com o risco de ser criticada. Aliás, crítica é uma coisa que a galera tem feito muito bem, o problema é a direção equivocada que faz atingir o lado errado. Tem gente, trabalhadores como nós, da esquerda, que faz a gente se sentir uma opressora identitária. Quando dei uma zoada no ministro postando um diploma verdadeiro (cabe dizer que achincalhar ministros é o meu esporte favorito), quase me disseram assim “não pode postar diploma, sua branca sinhazinha!”. A gente está muito perdido mesmo. A quarentena enlouqueceu mais o que já estava enlouquecido. Há uma inversão doida. Os inimigos de classe passam a ser defendidos e os trabalhadores tornam-se inimigos por terem um suado diploma. E segue a lei do valor e o fluxo. Enquanto a gente se esbofeteou discutindo entre nós se o candidato a ministro da educação mereceu ou não escracho público por ser um fraudador, a gente perde a grana do Fundeb e a educação segue em risco. A falta do debate de classe está levando muita gente a confundir privilégios com direitos, a pensar que não tomar tiro da polícia e poder ficar em casa durante uma pandemia é um privilégio. A gente precisa combater esse discurso dentro da esquerda. Não existe privilégio no seio da classe trabalhadora. Não existe! Só burgueses são privilegiados, parasitas, vacas gordas, que vivem das grandes fortunas, que nunca precisaram mover uma palha e vivem às custas do nosso trabalho. Este tempo poderia nos ajudar a melhorar essas reflexões, que tem a ver com a nossa humanidade, mas isso não vai acontecer se não qualificarmos o debate e melhoramos as nossas organizações. Precisamos de mais solidariedade de classe com os trabalhadores e trabalhadoras e não com a burguesia. Eu queria gritar: Gente, somos uma classe lutando contra a outra! Apesar do patriarcado e do racismo estrutural, existem mulheres burguesas e negros burgueses que não estão do nosso lado! Vamos falar da nossa classe e parar de defender burgueses exclusivamente por seu pertencimento de raça ou gênero? É que em vez de fazer a análise política tem gente, partido e movimentos que gastam um tempo tentando convencer que são de esquerda, mas acabam fazendo a opção e o caminho da burguesia. Acreditam na justiça burguesa, na mídia burguesa, apostam todas as fichas na institucionalidade burguesa e jogam o jogo do capital. Para mim não tem essa, me desculpem. Sair em defesa da Damares, da mulher do Dória, do ex-ministro Decotelli, daquele sujeito que está a frente da Fundação Palmares e de outras mulheres, e de outros negros que estão com esse governo é ir na contramão da luta de classes, é dar apoio àqueles/as que desejam arrancar as nossas unhas a alicate, apagar cigarros na nossa testa e outras lisonjas dos fascistas. Mas, o debate que tem rolado por aí está fugindo muito dessa vibe. Falar de classe é quase old, fora de moda. O tribunal da internet não gosta muito e sempre parte de julgamentos vazios. Se você postar uma frase com uma vírgula a menos vão dizer que você falou uma atrocidade. Se você disser “Vou comer, gente!” e esquecer da vírgula, vão te acusar de canibalismo. E parece que para quem é de esquerda a cobrança só aumentou. Tudo tem que ser milimetricamente certo, não pode ter erros e quando se erra os "companheiros", militantes, estão ali, como abutres, para tentar acabar com você. Nesse jogo da política, as forças continuam a ter como prioridade, a sua autoconstrução, os ataques são a prática cotidiana. Solidariedade? Empatia? Conversa? Imagina... Muitas vezes dentro da esquerda o que há é cobrança e grosseria. Como sempre as pessoas deduzem mais do que conversam. É na luta que a classe se faz classe. Não é na segregação. A gente precisa se aprumar. Pegar o rumo do barco porque ele está afundando e levando todo mundo. A luta de classes é como um jogo de futebol. Precisamos entender o lance, olhar o jogo com estratégia para não continuar colecionando mais derrotas no placar. A rejeição de Jair tem o nível mais alto desde que ele assumiu. São diversas ameaças de impeachment, inclusive pela via do TSE, e os filhotes estão todos indiciados. Resumindo, Jair está todo cagado. Mas ele tenta se manter em jogo e faz de tudo para impedir que o povo vença no final. Jair anda desesperado para se manter em campo. No mesmo dia que divulgou a prorrogação do auxílio-emergencial (mesmo que não chegue no bolso das pessoas devidamente) promoveu o Mengão “de graça” no YouTube. Foram 4 milhões de pessoas assistindo um jogo de futebol de um time que hoje tenho vergonha de torcer. Nos comentários enxurradas de agradecimentos feitos por um povo que ignora a promiscuidade entre os presidentes do Flamengo e da República. A fórmula é: Duas parcelas de auxílio emergencial + jogo do Flamengo por Streaming = carta branca para o governo genocida seguir matando pobre. Nesse governo a política do pão e circo é temperada com ódio e resulta em morte. E assim voltou a ter jogador em campo, comemorando gol no Maracanã, no patético campeonato carioca, enquanto pessoas morrem no hospital de campanha ao lado, em só mais uma revelação da miséria humana a que chegamos. O Brasil sempre foi de mal a pior. Digamos que quem é trabalhador aqui luta todos os dias para permanecer vivo. Só que hoje está ainda mais difícil viver por aqui com a política da morte funcionando a todo vapor. Resta saber quantos sobreviverão ao covarde genocídio em curso em nosso país. Mas, há resistência! Um novo semestre se inicia e ele começou muito bem! 1 de julho foi um dia histórico nas lutas da classe trabalhadora. Quem pensou em ver uma greve de motoboys? O #BrequeDosApps mostrou a que veio, os jovens das periferias, que carregam comida nas costas sem ter o que comer, deram aula, não só no Brasil, mas na América Latina. Uma verdadeira lição de internacionalismo proletário. Em poucos dias de articulação materializaram o ideal de união latino-americana que defendemos há séculos e pouco fazemos. Mostraram que a luta é uma só, que a classe trabalhadora deve lutar sem fronteiras por direitos, contra o Estado e o Capital. Foi um verdadeiro marco na luta de classes no que diz respeito à uberização do trabalho. Parar a produção agora é “não peça nada” e assim frear a circulação do capital. O motor das motocas poderá ser um capítulo central no motor da história. O precariado está nos ensinando como se faz a luta. Precisamos aprender com eles, reinventar os nossos sindicatos, saber utilizar as redes sociais e centrar o fogo para o lugar certo. O velho está morrendo e o novo sempre vem. Esses movimentos nos dão força. A vacina contra a Covid é a nossa esperança para voltarmos à vida normal e os trabalhadores precarizados são a nossa injeção de ânimo para derrubarmos o capital. O Galo cantou “Se você entrega a sua força de trabalho você é entregador. Somos todos entregadores!”. É verdade. Precisamos de solidariedade, organização coletiva. E assim como os entregadores, os professores também estão dando a lição. Não vão voltar a trabalhar na próxima semana como querem os donos das escolas privadas. É greve pela vida! Educadores mais entregadores juntos numa só classe. A luta é uma só contra a uberização do trabalho e da vida que atinge a todos nós. Trabalhador unido, jamais será vencido! Tudo isso dá uma injeção de ânimo na gente. Faremos de nossas lutas dispersas uma revolução? Não tenho dúvidas! Quando? Não sei. Precisamos de líderes, estratégias, programas. Ainda estamos muito longe de ser uma oposição de verdade. Somos só umas pessoas legais, de punhos erguidos e cerrados, cheios de ideias, humanos pra caramba, dotados de algum voluntarismo e mais nada, por enquanto. Ainda somos só umas crianças ingênuas protestando porque os pais não deixaram descer pro play, quando está claro que deveríamos era estar tocando fogo no parquinho todo. Mas, um dia a gente chega lá. Nos inflamaremos e não sucumbiremos à desgraça de um vírus oportunista e um verme inoportuno. Eles terão o que merecem: a nossa resistência, implacável, sempre. Vamos pra cima desses féla! * Amanda Moreira é professora da Uerj, Doutora em Educação e Cronista pandêmica de fim de semana. Metrópole Rô Carmo* O ano era 1983, me lembro bem. Estudávamos, as quatro irmãs, em um colégio no centro da cidade, e tínhamos que subir a imensa e famigerada rua da Bahia diariamente, pra chegar à escola. Minha irmã Meirinha, alguns anos mais velha, segurava minha mão; e isso me conferia uma soberba liberdade: presa assim, elevava os olhos acima dos imensos edifícios...abria as asas. À iminência de qualquer perigo, ela apertava minha mão e eu aterrissava em terra firme. Acontecia largas vezes ao longo do trajeto. Entanto, no meio do caminho, havia O cinema. Sim, “O”: não conhecia nenhum outro, por dentro ou por fora. Ganhava meu olhar de pronto! Os cartazes eram janelas pra um mundo que nunca soubera, mas já amava. Era uma sugestão diária, que se insinuava na ida pra escola e se concretizava na volta. Nomes de filmes dançavam na minha cabeça, cartazes suscitavam histórias e o resto eu resolvia só, imaginando. Enquanto desenrolava a tarde, em meio às aulas, construía, a partir do pouco que capturara dos cartazes com meus olhares oblíquos, todo o resto necessário: cenário, roteiro, música. Certo dia do ano de 83, outono/inverno, por certo_ ainda sinto a mão fria de minha irmã a guiar-me_ meu olhar procura, como de hábito, o refúgio de sempre. Nesse átimo de segundo, já eu antecipava o sorriso, sabendo que veria os cartazes de “Tootsie” estampados nos dois batentes das janelas do cinema, bem como o nome “Dustin Hoffman” em letras grandes acima da porta principal. Não...não foi isso que vi. E, pela primeira vez, quem guiava a caminhada era eu, puxando veementemente a mão de minha irmã, forçando-a a atravessar a rua pra ver de perto o que seria o fim de meus sonhos? O prédio do cinema estava em frangalhos: tapumes pra todo lado, escombros aqui e ali...passantes. Como podiam passar sem perceber que “O” cinema_ e isso abarcava, na minha meninice, todos os cinemas do mundo_ vinha abaixo? E pensava: Não tive a chance! Imaginei incontáveis vezes minha entrada triunfal pela porta da frente, supondo seguramente que veria o melhor filme de todos os tempos; mas não tive a chance. Mais que isso: roubaram-na de mim. Como poderia, depois desse desacontecimento, seguir Bahia até a escola? O que me esperaria na volta? Naquele dia, como nos próximos que se sucederam, testemunhei a vagarosa demolição do Cine Metrópole. Nenhum cartaz pra instigar minhas histórias, nenhuma música pairando sobre a cena inventada. Cena? Que cena? E a cada olhar lançado para os lados do prédio (art déco), cada dia menor; me assaltava uma tristeza funda, e uma dúvida incessante tamborilava em mim: Seria o cinema só ilusão? * Rô Carmo é graduada em Língua e Literatura brasileiras e pós graduada em Educação Musical. Professora na rede municipal de ensino de BH há 26 anos, sempre pautando sua docência na crença de que a leitura é uma experiência de descoberta e libertação. Militante da literatura, possui um blog de divulgação de crônicas em língua portuguesa desde 2019. Amanheceu... [primeiro texto da série de mesmo nome] Maria Helena Miranda* Amanhece na cidade Tanto movimento... Gente apressada, Lojas abrindo, Sol, muito sol Correria... Pra quê? Crianças caminham para as escolas Homens pro trabalho Alguns para o fim. Livraria abrindo, Livro na vitrina “Cem anos de solidão” Cem anos? Não, apenas dezesseis. Rapazes vazios em bares cheios. Gente alegre, gente triste, Gente, apenas. Eu também. Assalto à luz do dia Nervosismo da pessoa assaltada Calma dos outros. Livrarias vazias Boutiques cheias Importância da embalagem. Casa de discos Vitrolas berrando Gente procurando A música que já não quer ouvir. Casa de flores Gente que olha as rosas indagando o preço É, sempre o preço... Carros luxuosos Com gente triste. Crianças famintas Que ainda sorriem. É... amanheceu. [21 de novembro de 1970 Colégio Estadual Brigadeiro Schorcht] *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. (anti)Freud Tássia Veríssimo* Que medo é esse que os homens têm das fêmeas que falam? Medo desse sangue que escorre por entre as pernas e medo das pernas abertas que parem o mundo Verdadeiro pavor nutrem os homens dessa potência nas filha de Eva Medo da fêmea que goza apenas porque quer Se a deusa nos deu hímen foi apenas como proteção não como selo de valia A deusa nos deu clitóris A eles? Sobrou apenas inveja. *Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Formada em Produção Editorial pela UFRJ e mestra em Literatura Brasileira pela UERJ, está lançando a marca Insones Poemas (@insonespoemas) na qual transforma frases-poemas em vestuário e acessórios de moda. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados.

Mãos Livres
Mãos Livres

#literatura #contos #poesia #desabafos Em Meio à Névoa Ana Paula Maciel Vilela* Quando o carro estacionou em frente ao número seiscentos e trinta e oito, sentia-me com a boca seca, o coração em sobressalto. Ela havia sido uma mulher independente, trabalhava e estudava à noite quando os filhos eram pequenos e algo que não suportava era a preguiça e má vontade de algumas pessoas. Incentivava as mulheres conhecidas e as filhas a serem independentes, terem seu próprio sustento e não dependerem de homem algum. Em mim a baixa autoestima e excesso de cobrança foram crescendo na proporção de sua falta de paciência quando, no final da noite, ao chegar cansada da faculdade, lá estava eu aguardando, com o caderno de matemática nas mãos suadas, já no prenúncio do que aconteceria. Paguei o motorista do táxi, atravessei a mureta baixa e alcancei o pequeno alpendre ladeado por um jardim que há muito perdera seu encanto. Sentada em frente à televisão, minha mãe não se virou quando entrei, apenas fez um sinal com a mão pedindo silêncio quando lhe desejei bom dia. A doença chegou sorrateira e muito camuflada com a falta de atenção que lhe era peculiar e por um período me agarrei a essa esperança de que os sinais que presenciávamos não seriam nada sério. Em cada aposento da velha casa, memórias cravadas nas paredes, no piso, nas telhas. A água fresca do filtro de barro parecia evaporar em contato com a sequidão na qual me transformara. Quando me sentei a seu lado durante o café da tarde, alisava o crochê largo que enfeitava a toalha estampada e elogiava a amiga que a havia presenteado e que falecera há alguns anos. Disse que encomendaria uma para mim. Em instantes foi envolvida em um silêncio profundo. Quando a convidei para caminharmos no quintal, com o cenho franzido, me perguntou quem eu era. Procurando abstrair da dor que me machucava quando a percebia tão longe e envolta naquela densa névoa, caminhei pelas trilhas e lembranças de cheiros, risadas e cores invadiram o entardecer. Sentei-me no banco. Esperei. Ao retornar para a casa e entrar pela porta da cozinha, a encontrei: surpreendida pelo sorriso largo e olhos brilhantes, me chamou pelo apelido carinhoso da infância, estendendo para mim os braços abertos. A névoa dissipou-se por alguns momentos. Me perdi e quis ficar indefinidamente dentro daquele abraço. *Ana Paula Maciel Vilela nasceu em Ituiutaba, Triângulo Mineiro, e foi moldada com finais de semana na fazenda até sua adolescência, andando pelo mato, conversando com plantas e bichos; hábito enraizado que persiste ainda hoje. Com um amor de companheiro há 40 anos, tem um casal de filhos, Carolina e Gabriel, mora em Belo Horizonte e escolheu ser fisioterapeuta para cuidar de pessoas, mas bem que poderia ser bióloga, agrônoma, psicóloga, nutricionista e mais alguma coisa. Adora ficar em casa, cozinhar, ler, escrever, bordar, cuidar das plantas, deitar na rede e conversar com Lucky, o cachorro que adotou a família. Acontece… [Segundo texto da série "Amanheceu"] Maria Helena Miranda* Já estou acostumada a ser ignorada... Nas ruas, por onde quer que passemos, pessoas vão apressadas, sem perceber presenças a seu lado. Algumas vezes acontece de sermos olhados de uma maneira inexplicável, isto é, sem nenhum motivo evidente, pessoas lançam-nos um certo olhar de raiva, revolta, sei lá... É terrível, mas a gente se acostuma também com isso: “a gente se acostuma com tudo”... Ontem, porém, algo de diferente aconteceu. Ao sair do cinema (e lamentavelmente não estava sozinha – poderei depois justificar esta observação) fui parada por um homem descalço, roupas rasgadas, um mendigo. Pediu-me um cigarro, até aí nada de novo. Mas e o olhar? Há quanto tempo não sinto tanto carinho no olhar de um estranho? Observei-o por alguns minutos enquanto acendia o seu cigarro (e o fiz lentamente). Ele nada disse, limitou-se a um gesto com a mão e novamente o olhar... Estranho, mas senti vontade de permanecer um pouco mais ali, senti uma vontade louca (louca?) de conversar, de saber o que era a vida para aquele homem, de entender o porquê daquele olhar carinhoso quando sua vida... Mas não estava sozinha, assim sendo não poderia levar adiante a ideia que me veio à cabeça. Mas levaria adiante essa ideia, se estivesse só? Não sei, a gente se reprime tanto... A gente se conserva ainda tão presa a tantas coisas bobas. O fato é que ainda hoje penso nesse homem, penso sem entender bem. Não lembro direito do seu rosto; mas sua maneira de olhar, dessa eu me recordo perfeitamente. O sábado não foi vazio... Novembro de 1978 *Maria Helena, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. Puerpério Maria Cristina Martins* comprou uma caneta preta com uma borracha na ponta borracha que apaga tinta de caneta apaga e não borra nada nem destrói o papel diferente daquela da infância mas essa que apaga mesmo e não borra nada só apaga a tinta da caneta específica fez um teste escreveu teste apagou sorriu e sorriu por ter sorrido uma coisa boba assim fazê-la sorrir escreveu meu corpo todo apartado de mim e nunca antes tão meu *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. O eterno feminino em tempos imemoriais Emilly Martins Alves* Um "gritinho" de nada Foi o começo de tudo Ela, por fim, assustada Calada, assente, contudo Culpada sem culpa Pelo masculino sem escrúpulo Um "empurrãozinho" de nada Era o seguimento Ela não percebia, mas seguia se prendendo "Desculpas", ele disse Talvez, uma flor se seguisse E o emaranhado ia se estendendo Um "soquinho" de nada Ah, ela sentiu Mas fingiu Seria aquilo amor? "Esconda isso, por favor!" As marcas, as lágrimas, a dor Precisava fugir daquilo Mas estava amarrada Sozinha, sem auxílio Umas "facadinhas" de nada Seu último suspiro, um grito de horror E no escárnio de seu assassino, seu sangue escorria, sem nenhum pudor Junto com o de suas ancestrais Abusadas, mitificadas, assassinadas O eterno feminino em tempos imemoriais E "eles" seguem Nos estigmatizando Nos emaranhando Nos matando E nos dizendo Que a nós não pertencemos Até quando? 2020 [Baseado na obra "Unos cuantos piquetitos" (KAHLO, 1935)] *Emilly Martins Alves é discente de História pela UERN e aspirante à escritora nas horas vagas. Fascinada por arte, política, sua fusão e sua História, o que dá sempre inspiração para escrever, principalmente pela atemporalidade dos temas e por como podemos observar processos por meio de obras da forma mais autêntica possível.

Mãos livres
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#literatura #contos #poesia #desabafos Sem título [terceiro texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Eu não queria essa boca que não sorri Esse ouvido que sempre ouve Essa mente que tudo registra... Eu não queria esse olhar que entrega Que não disfarça uma dor, uma alegria, uma revolta Que se mostra e me mostra... indefesa Eu não queria esses pés que hesitam em caminhar Que pisam, muitas vezes, temerosos Quando o caminho não é, de todo, conhecido Eu não queria essas mãos Que se oferecem sempre e no “escuro” E, por isso, muitas vezes permanecem no ar... Eu não queria essa compreensão que me ultrapassa Essa dor que sufoca Esses olhos tão abertos pro mundo Eu não queria o rosto, os olhos, o sorrir – tristes Eu não queria essa vida Eu não me queria assim... 21 de agosto de 1979 *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. RESTOS Jeovânia P.* O que resta de você cabe em uma caixa [de papelão ou madeira] em um saco em um pote em uma urna O que resta de você cabe em uma página em um livro O que resta de você Passa uma vida inteira impregnado na pele na mente no Eu * Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da FPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. O rio da memória [alerta gatilho / suicídio, estupro, violência] Simeia Dos Santos* A vida é como o rio: nasce, segue o seu curso e morre, se esgota no mar. A vida é o sangue despejado do meu pulso e que desliza pelo chão do meu quarto. Vivi trinta e três anos, agora já não sei quanto tempo me resta. A vida em mim, se dissipa. O tempo tornará o sangue seco assim como me endureceu por longos dias. O Tempo é o Senhor de Todas as Coisas. Fecho os olhos. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dez anos. A televisão ligada no telejornal. Tomo conta da minha prima de cinco anos enquanto os seus pais estão na igreja. Este tio - o mais novo dos seus irmãos.. Quanto anos ele tinha? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três? Não lembro. Isso faz tanto tempo. Este tio chegou dizendo que queria assistir o jornal da noite. Qual o ano? Também não lembro. Era ano de eleição. Na TV uma propaganda mostrava que era possível fazer um bolo com um Real. Um bolo… que fome! Este tio chamou-me para ir com ela até a cozinha. Aposto que ele vai dar biscoito recheado para nós. Um quarto escuro. Agora sinto-me abatida, uma sensação de fraqueza no corpo, a cabeça pesa. Sinto um formigamento no braço esquerdo. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dezessete anos. A família está reunida na sala da vovó. Este tio encontra-se em pé na porta. A filha dele aparece — deve ter uns cinco anos — uma criança linda e fofa. Ela senta-se no meu colo. É primeira vez que a vejo, pois, estive morando em outra cidade. Ela pula do meu colo e vejo que este tio está olhando em minha direção. Rapidamente fechei as pernas. Tenho dezessete anos, mas me lembro. Agora eu me lembro. Naquele dia, eu também usava saia. Eu também estava sentada de frente para este tio. Ou ele que escolheu ficar de frente para mim? É como se tudo estivesse acontecendo novamente, aos dez, aos dezesseis, aos trinta e três, todos os dias, todas as noites antes de dormir, basta o fechar dos olhos e tudo se repete. Noites insones. Remédios para me controlar. Remédios para desentristecer. O tempo não cura tudo. Deixo o meu corpo deslizar inteiro para o chão. Estou exausta. Fixo meu olhar na larga estante de livros que acumulei durante esses trinta e três anos. Queria poder ter lido mais, ter conhecido mais histórias, outras possibilidades — trágicas, felizes, dramáticas, leves — onde o bem sempre vence — nas piores condições, mas vence. Eu queria ter vencido hoje. Sorrio. Sinto-me em paz, finalmente esquecerei tudo. E esse era o meu único desejo em vida: esquecer. Este tio não leva à cozinha. Este tio me levou para um quarto que tinha uma cama de solteiro. Este tio pede para eu abaixar a saia. Acho que vou apanhar, mas não sei o que eu fiz de errado. Será que é porque reclamei que não queria assistir o telejornal, mas, sim, a novela Chiquititas? “Você está de calcinha, que droga”. Este tio pede para eu deitar e abaixa minha calcinha. Ele me observa enquanto um dos seus braços estão agitados, para cima e para baixo. Este tio segura algo e pede para que aquela menina beijasse aquilo. Ela beija a ponta. Eu não teria feito isso se soubesse. Eu teria me recusado. Eu teria gritado. Pegaria a minha prima pela mão e sairia correndo até o fim do mundo. Eu correria até não ter mais pernas. Eu não olharia para trás. Minha prima iria chorar ou de fome ou, porque suas pequeninas pernas não aguentariam, mas eu a pegaria no colo e continuaria a correr. Minhas pernas se movimentam como se estivessem correndo. Pouso minha mão direita sobre uma delas. É impossível correr deitada no chão, as consolo. Já não posso correr agora, como nunca consegui correr. Aquela menina está deitada sobre a cama, não totalmente, suas pernas balançam penduradas, passam um pouco da barra da cama, mas não alcançam o chão. Este tio diz: “É muito grande, não vai caber”. Um líquido sai da minha boca, não sinto o gosto, mas arrependo-me de ter bebido tanto vinho antes. Sinto o cheiro do sangue misturado com o vômito do vinho barato. O álcool não tirou a dor da fisgada da lâmina sobre a minha pele. Mas já não importa. Não sinto qualquer dor mais. * Simeia Dos Santos Historiadora formada pela Universidade Federal de Ouro Preto. Apaixonada pelo cinema nigeriano. I l♡ve Nollywood. Mãe solo. 33 anos. Tenho um perfil no Instagram dedicado aos livros, filmes, séries e também, entrevistas com amigos sobre diversas áreas do conehcimento: arte, cultura, trabalho, política, etc...: @a.meninna.grapiuna

Mãos livres
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#literatura #contos #poesia #desabafos PARTIDA Meire Martins de Souza* Vai, segue o teu destino. Relutei tanto pra que tu ficasse, Eu me refiz, eu me atirei, Eu tentei ser o teu mundo, Mas tudo que posso te proporcionar, é pouco pra ti. Vai, segue o teu destino. Lembrarei de ti como uma estrela Que um certo dia apareceu no meu céu, E trouxe brilho para a minha noite que estava ofuscada. Vai, segue o teu destino. Foi lindo te ver, foi gostoso te ter, Mas se precisas agora brilhar em outro céu, Vai, segue o teu destino. Porque o amor não prende, o amor liberta. Te darei então a liberdade de me deixar. Te matarei dentro de mim, não por maldade, não por rebeldia, Mas sim, para que possas renascer em outro céu. Vai, segue o teu destino. E o brilho que tu trouxeste para a minha vida, permanecerá para sempre. E quando eu pensar em ti, tua luz refletirá em meus olhos, E um sorriso resplandecerá em meus lábios, Porque quando uma estrela morre, o brilho dela permanece no céu. Vai, segue o teu destino. Tu de repente apareceu, Tu de repente se vai, E eu fico aqui a contemplar esse céu, na esperança de que de repente tu vai voltar. Vai, segue o teu destino. *Antonia Luzimeire de M. M. de Sousa nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. RASCUNHO [quarto texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Os anos passam E a vida tem sido Como aquele livro. Páginas e páginas escritas Em rascunho... O texto ideal não foi escrito A inspiração ainda não aconteceu, inteira... Angustia-me a ideia de não saber quanto tempo ainda levará para que ele seja passado a limpo. 10 de outubro de 1982. *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. “O DESENCANTO DE UMA PAISAGEM” Isabella Poppe* Foi no outono de 2013, estávamos eu e Ângela fumando um baseado atrás dos imensos galpões do cais do porto na cidade do Rio de Janeiro. Num horizonte pouco distante, a paisagem portuária composta de uma flora estupenda, artificial e insaciável saltava aos olhos. Era a primeira vez que sentia o impacto visual causado por aquele maquinário em fúria, onde trópicos humanos de ferro e força erguiam-se nos planos inclinados de costas para a cidade. Ângela me passou o baseado, dei um tapa caprichado, prendi a respiração e, ao soltar a fumaça, tossi incessantemente, sentindo a garganta arranhar. Ela pediu desculpas pela falta de qualidade da erva, justificando que eram tempos difíceis de escassez. Eu estava compenetrada naquela paisagem metálica, atenta aos contrastes de suas cores amarela, vermelha, azul e branca, das tantas pilhas de containers retangulares que amontoavam-se uns sobre os outros, numa espécie de jogo de empilhar gigante, não fossem os nomes das empresas estampados em suas laterais – que revelavam a função comercial de toda aquela estrutura globalizada. Até que me dei conta de que não havia movimento algum ali. Nenhum sinal de atividade humana. Os trabalhadores eram invisíveis no universo portuário. Não fosse a brisa, talvez desconfiasse de que estivéssemos diante de uma miragem. Indaguei à Ângela se ela alguma vez havia visto um porto em atividade, mostrando algo para além de uma exibição estética. “Desce ruim na garganta, mas até que sobe legal na mente”, foi o que Ângela respondeu, me dando uma gastada. Passei o beck de volta para ela e me surpreendi ao vê-la fechar um dos olhos, enquanto fazia um gesto com os dedos polegar e indicador, como se imitasse um guindaste erguendo um daqueles infinitos retângulos coloridos. “É tipo aquelas máquinas de shopping em que a gente tenta pegar um bichinho de pelúcia. Nunca consegui fisgar um desgraçado desses.” Durante algumas horas, ficamos as duas assim, curtindo a leveza daquele momento, aliviadas por ao menos conseguirmos abstrair de todas as desgraças da humanidade. Mas o impacto que eu havia experimentado, um misto de adrenalina e desencanto, essa sensação não iria passar da mesma maneira que a onda daquele bagulho de qualidade duvidosa. Eu havia sentido um misto de “Entusiasmo” – em que os planos detalhes de Vertov pulsam triunfantes em sua saudação ao progresso no seu maior esplendor – com o “Arábia”, de Uchoa e Dumans – onde a imagem imobiliza o tempo e, a abstração sonora da última cena de um navio em erupção, é um gesto de admiração do mundo em sua majestade e horror. Não compartilhei esses pensamentos com Ângela, receosa de que ela pudesse achá-los pedantes – ou totalmente vazios de sentido. Reparei então em um dos imensos navios atracados no cais. Tinha o casco amarelo, onde estava escrito Grande América. Encarei-o por longos minutos na esperança de conseguir flagrar o momento em que o imenso guindaste vermelho se inclinaria até ele, para finalmente erguer um dos containers que aguardavam pacientemente a hora de ser descarregado. Mas nada. Tudo permanecia estático como de costume. Comecei a ansiar pelo dia em que veria aqueles imensos guindastes em pleno movimento. Se não para erguer containers, quem sabe para se desgarrarem de uma vez do chão, num ato feroz de rebeldia. Por fim, eles encarariam a cidade de frente e a invadiriam, alertando-a de seu progresso desenfreado. Anos depois, eu viria saber que o mesmo navio Grande América havia pegado fogo e afundado, levando para o fundo do oceano cerca de dois mil automóveis. Dentre eles, estavam duzentos Porshes, carros de luxo destinados ao 1% da população grandeamericana, que agora se encontravam perdidos a mais de quatro mil metros de profundidade. Ao contrário das caravelas que invadiram nuestro território no passado, a viagem do navio de carga Grande América fora interrompida, impossibilitada de chegar ao seu destino final. Naquele tempo, eu e Ângela havíamos tomado rumos diferentes na vida, como acontecem com muitas das amizades de infância, e já não éramos mais o silêncio cômodo uma da outra. Assim como o porto e a cidade, após tanto tempo rumando por caminhos paralelos e sem contato, com objetivos diferentes e até opostos em relação ao mesmo espaço, a ausência de diálogo entre nós tornou-se o indício de um confronto velado. Ela havia se formado em design, trabalhava em uma agência de marketing, e expunha o que havia aprendido de arte em NY em sua conta do instagram. Ângela conseguia ser feliz, pois encarava a vida como uma eterna distração. Já eu me sentia impotente diante de tudo que acontecia ao meu redor. Determinada a nunca ferir minhas convicções, estagnei-me numa inércia que se justificava pelo medo de tornar-me uma hipócrita. No dia do naufrágio do Grande América, rompi nosso silêncio e mandei uma mensagem à Ângela com a notícia. Ela me respondeu amável, dizendo que apesar da tragédia, aquele dia lhe trazia boas lembranças, e finalizou com um “Saudades”. Não respondi sua mensagem de imediato. Depois de certo tempo, tudo que pude dizer acabou se resumindo num “Eu também” previsível. Não sei por que hesitei tanto em respondê-la. Talvez fosse pelo simples fato que, para mim, aquele navio cheio de carga afundado era, na realidade, um símbolo do que havia acontecido com a nossa amizade. *Isabella Poppe é formada em História pela UNIRIO, mestranda em História, Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV-RJ e roteirista de projetos audiovisuais. É esquerdista, indecisa e doida pela América Latina. Curte ironia e toca mal vários instrumentos. Já foi livreira no Rio e em Buenos Aires. Colabora no site Women's Media Center.

Mãos livres
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HERANÇA Maria Cristina Martins* Na aldeia em que meu pai nasceu em Portugal os homens podiam bater nas mulheres Depois soube que em mais lugares os homens podem bater nas mulheres Depois soube que o corpo de Carmem sangrou pelo amor de José e Capitu é um tabu e que Luísa, Gabriela, Madalena, Solange Ana, Karenina e de Assis Desdêmona, Eurídice, Emma, Constance quase todas irreais e tão reais eram culpadas mesmo quando inocentes. Culpadas de quê exatamente? Depois soube que era pior com as mulheres mais pobres com as mulheres negras com as mulheres cujos corpos nasciam para servir um país inteiro. Depois soube que não era amor, que as mulheres eram alienadas do seu próprio corpo, que a culpa era uma roupa feminina costurada por homens. *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora, protomilitante de esquerda e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. Formou-se também em história e fez pós-graduação lato senso a distância pela UnB em Políticas Públicas de Cultura - Patrimônio. Participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas em 2005 e publicou o (ainda) único livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. NO RASTRO DE UM PÁSSARO Bianca Vilhena* O corpo mente. Sinto aproximar a data em que a irrealidade deste ar terá que ganhar corpo. Agora é apenas desânimo, mas a vida não espera, e eu finjo que não espero nada dela. Meu sangue desce forte, e este parto mal feito de que sofro por não conseguir fazer. Ando sofrendo porque ando não fazendo, não conseguindo fazer. Parece que ao invés do parto necessário, o luto desnecessário, para não dizer impossível, tomou conta de tudo. Sangue negro que não deixa mais que as janelas se abram. Mas até que me sinto bem dentro das minhas quatro paredes. Mudei-me para uma rua chamada Mundo Novo. Mesmo que este mundo novo não nasça, peço para que apenas não morra. E mantenho-me firme, apesar de às vezes manca, em olhar apenas de esguelha da janela. Memórias são como pássaros velozes, que se chocam entre si. E eu só vejo as sombras projetadas na parede em frente. Gostaria de poder chamá-los para a minha gaiola, amansá-los, mostrar que também sangro. Por um instante esqueço que eles são apenas sombras. Enquanto as sombras dançam, o meu corpo mente. Não pode abraçar o mundo, mal abro a portinhola da gaiola. Uma hora dessas, esse parto imenso sairá voando por aí e poderei abraçar meu pranto, mostrar para todos os sorrisos que amo o meu pássaro novo, que nasceu hoje. E que um dia irá morrer. *Bianca Vilhena é carioca, urbana, mas amante do contato com a natureza e tudo o que é mais primordial. Fez geografia como primeira graduação e depois seguiu academicamente com a filosofia. Escreveu uma tese sobre os sonhos em Platão, ama poesia, música e as artes em geral. REUNIÃO Tássia Veríssimo* Na biografia de Rosa Luxemburgo Paul Frölich fala que aqueles homens velhos não conseguiam tolerar a fala firme de uma mulher Mais de século depois homens velhos (ou não) seguem não tolerando mulheres que falam forte Bocas e pernas abertas apenas se for para o prazer (deles) Nos querem submissas As que se posicionam são como moscas que incomodam na sopa dos privilégios Pinschers nos calcanhares do patriarcado Indóceis Sejamos. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas). COISAS DE MENINO E COISAS DE MENINA Ana Lima* Uma vez por semana faço terapia. Psicanálise. Recomendo. Só acho que o nome poderia ser “Redescobrimento de si”, acho mais apropriado. Como não podemos nos arriscar nesta pandemia, já que tenho que pegar trem e metrô até chegar lá, fazer minhas pobres orelhas aguentarem vários elásticos, trocados assim que as duas máscaras suam, não posso ser insensível com minhas orelhas (daqui a pouco estarão tortas) e não lhes dar uns momentos de diversão e prazer. Então, depois da sessão, fui fazer o que me era proibido por não ser “algo de menina”: andar de bicicleta. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. Maldito machismo que não perdoa nem as meninas de pouca idade... Infelizmente, sempre fui muito obediente, mas me orgulho dos meus poucos atos de “rebeldia” e, um deles, foi aprender a andar de bicicleta escondido quando criança. Depois parei de andar. Fui reaprender ano passado, aos 32. Aqui no Rio, tem uma organização voluntária maravilhosa chamada Bike Anjo Rio. O meu anjo foi o Moisés. Em cerca de 30 minutos, reaprendi. Acho que o tempo voltou e me senti com uns 5 anos de novo. Depois das maravilhosas voltas prazerosas, tomei uma água e polpa de coco, sentei no deque da Lagoa, olhando a contradição da água suja e transparente ao mesmo tempo, olhando as algas, enquanto parecia que o deque se movia. Que sensação maravilhosa... Sentei numa poltrona maravilhosa de madeira e fui ler Drummond de frente pra aquela vista linda, entre gargalhadas solitárias e sustos de uma ave – que suponho que se tivesse que torcer para um time, ela seria flamenguista: era toda preta e a cabeça, vermelha. Bonita. Ganhou um “tchau” de uma criança quando ele foi embora. Mas eu queria discordar de Drummond (com todo respeito, de verdade, não aquele respeito que se diz antes de se dizer algo totalmente desprovido de respeito). Juro que não é despeito por eu não ter podido sentar na cadeira 04 (acho), que Drummond usava na Biblioteca Nacional..., mas de que vale jurar?... Ele disse: “Pois namorar é destino dos humanos, destino que regula nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso. E quem vive, atenção: cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência.” Discordo, pois entendi que não se precisa do “outro” para ser feliz. Não é uma obrigação. Acho que primeiro temos que aprender a “namorar” a nós mesmos, a saber curtir nossa companhia, estar feliz consigo, sem “necessidade” do outro. Que venha como complemento, não como necessidade. Quem acha que precisa de alguém pra ser feliz, pobre dessa pessoa... E voltando à psicanálise, digo, ao redescobrimento de si, concordo com Drummond em seu outro poema, quando diz que, em suas viagens, nós, em nossa necessidade de quer algo novo e explorar e conhecer novos espaços, fala de uns astronautas que, entediados da Terra, decidiram humanizar a Lua, mas se entediaram depois de um tempo lá. Foram à Marte, idem. O mesmo com Vênus, Júpiter, os outros planetas e até com o Sol se entediaram. Depois foram colonizar outros sistemas fora do solar. Acabaram as viagens. Restava apenas “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver.” Redescobrir a si é libertador... Suponho que esses astronautas fugiam de si... Tomara que tenham se encontrado... *Ana Paula Gomes de Lima é assistente social trabalhando na UFRJ, faço doutorado em Serviço Social na UFRJ, tenho 33 anos, divorciada, solteira, sem filhos, amo poesia, trilhas e rir de coisas idiotas kkk, moro em Duque de Caxias .

Mãos Livres
Mãos Livres

A caixa Meire Martins * Você nasceu! Ainda no primeiro dia, te encaixaram em um nome, Fabricaram pra você uma identidade. Ao observarem seu corpo, te encaixaram em um gênero e de acordo com esse gênero te instruíram como deveria se comportar, brincar, andar. Você foi crescendo Te encaixaram em uma religião Te disseram quem é Deus ou quem são os Deuses os quais você deveria adorar. Você foi à escola E lá, em razão da idade te encaixaram em uma série decidiram o que você deveria estudar, produzir, realizar. Você cresceu E não se sentiu encaixado, Não conseguiu se ajustar na caixinha que te colocaram. Não se culpe por isso Afinal, não foi você quem escolheu essa caixa Agora que está crescido(a) Pode fazer suas escolhas Encaixar-se onde se sentir bem E você também pode Não se encaixar E tudo bem, Não se penitencie por isso Viva! Viva assim Desencaixadamente feliz! Você é um ser único Tem suas potencialidades Seu próprio ritmo Dance a dança da vida. Peixes não conseguem voar Pássaros não sabem nadar E tudo bem, Imagine como seria entediante o mundo Se a diversidade não existisse. Imagine se o Sol cismasse de se encaixar E se tornasse do tamanho dos planetas que o circunda, Se resolvesse parar de brilhar Não espalharia mais sua luz a todos os seres, Não aqueceria mais a vida. Assim como o Sol você também tem luz própria E aquece corações Encaixado ou desencaixado Viva! Brilhe para o mundo. * Meire Martins nasceu em 03 de junho de 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. Acorrentada Jeovânia P.* Sentada na cadeira da ilusão De quando em quando Mastigando com os pés Os dias Lá vai ela acorrentada Segue olhando pro chão Pedindo desculpas Por incomodar passando ali Em qualquer lugar Lá vai ela acorrentada Nem saber os laços que lhe amarram sabe Nem as grades que lhe cercam Nem a escravidão em que vive Lá vai ela acorrentada Imune à dor da consciência Imune à certeza de si Protegida da realidade Envolta a tudo que lhe definem como sendo certo Bom Verdadeiro Embriagada de opiniões alheias Lá vai ela acorrentada Se soubesse Se visse Se descobrisse Se Ah, se! Se um dia acordasse Se libertaria Mas enquanto não acorda Lá vai ela acorrentada. * JeovâniaP. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. s/ título Maria Helena Miranda* Gostaria imenso de escrever algo de positivo Alguma coisa que desse, a alguém, uma esperança Gostaria, enfim, de ter essa esperança De acreditar que haverá vida daqui pra frente Vida de verdade, vida vivida. Gostaria de poder me imaginar feliz Gostaria de pensar que não é pura alienação Quando vejo pessoas “felizes” Gostaria de acreditar que alguém é ou foi feliz. Gostaria de não ter tantas dúvidas E de, não podendo viver melhor, Deixar-me passar sem grandes questionamentos E acabar... (14 de março de 1983) * Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A louça Maria Cristina Martins * organizo a louça quando todos dormem guardo o que não é utilizado no dia a dia deixo à mão apenas o necessário minha avó sempre lavava e enxugava a louça antes de guardar toda a louça no armário minha mãe enxuga só o que vai para o armário eu não enxugo nada espero secar naturalmente o tempo certo de secar é o que vai do fim do jantar à hora em que todos dormem * Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. Enola Holmes: uma detetive nada feminista Tássia Veríssimo* Meu primeiro contato com histórias de detetive foi através de Agatha Christie, seus livros vendidos a preço baixo nas Lojas Americanas do bairro suburbano em que eu morava na infância, já que não tínhamos livrarias por lá à época. Depois passei a Sherlock Holmes, com seus desdobramentos em séries e filmes e outras produções do gênero. Digo isto para situar à leitora que não foi sem empolgação que fiquei sabendo de Enola Holmes, o novo filme queridinho da Netflix. Pelo contrário! Quando ouvi falar de uma nova história de detetive tendo como protagonista a irmã mais nova de Sherlock me empolguei. O fato de não ser cânone não é um problema para mim, muito menos de se tratar de uma história para adolescentes, apesar de não ser tão ligada a este universo. Fui assistir de coração aberto ao filme sobre o qual tantas conhecidas estavam falando muito bem, afinal parecia uma grande aventura feminista! A expectativa é a mãe da decepção, eu sei, mas nada havia me preparado para aquela bomba em forma de filme! A história começa com Enola Holmes (Millie Bobby Brown) se apresentando ao espectador, num já clássico caso de quebra de quarta parede. Esse recurso, quando bem empregado, é muito bom para gerar conexão com o espectador, mas nesse filme ele é tão explorado que se esvazia de sentido. Enola fala com a gente o tempo todo e explica cada cena que está acontecendo, o que fica ainda mais didático com os flashbacks de reforço de explicação que cismam em tomar a cena. É como se o espectador não fosse capaz de entender algo que não lhe fosse mostrado ao menos de três maneiras diferentes ao mesmo tempo. Eu acredito que os adolescentes – público-alvo da produção – tenham total capacidade de entender uma história sem tanta mastigação. Enola interage com a gente até no clímax do filme, tirando qualquer possibilidade de nos emocionarmos com a cena. A produção também consegue a proeza de ser muito agitada – num sentido ruim de os fatos se atropelarem sem desenvolvimento – ao mesmo tempo em parece que suas duas horas de duração se arrastam pela tela. Também não espere desenvolvimento das personagens ou uma história de detetive de fato. Praticamente todas as personagens parecem ter motivos fúteis ou mal explicados para suas ações e nem a tentativa de transformar a mãe da protagonista em rebelde funciona. Sem uma boa trama ela soa muito mais como uma mãe relapsa e egoísta do que como uma feminista que quer um mundo melhor para a filha. Aliás, o que mais me incomoda nesta obra é ter sido alçada como feminista nas resenhas que pipocam no Instagram. Não fosse isso seria apenas um filme ruim, como tantos outros. Mas se vender como “girl power” foi abuso! As personagens femininas são pouco interessantes, não há quase conexão ou diálogo entre elas e quando existe alguma oportunidade de união é descartada em prol de um “algo maior” que nunca se concretiza. Que mulher adulta fala para a filha da amiga desaparecida se virar sozinha aos 16 anos em Londres enquanto foge dos irmãos? E é exatamente essa personagem, chamada Edith (Susie Wokoma), que tem sido usada como símbolo feminista por uma cena em que escancara os privilégios de gênero de Sherlock. Sinceramente? Achei que já tínhamos entendido que lacração não muda o mundo e muito mais válidos são os gestos que as palavras. Enola parte em sua aventura ao fugir do irmão mais velho que a quer em um internato uma vez que a mãe deles achou de bom tom sumir no aniversário da menina e deixar apenas uns recados cifrados. Apesar da premissa fraca – a mãe é pintada como maravilhosa e do nada vai embora? – a história poderia ter se desenvolvido de maneira interessante, com Enola tendo contato com outras mulheres e com o movimento sufragista e a luta operária. Poderia ser sobre se descobrir uma mulher num mundo de homens e as implicações disso, mas optaram pelo caminho fácil de colocá-la para se fantasiar de menino – sem necessidade -, para não interagir com mulheres de forma solidária, para abrir mão de sua fuga por causa de um interesse romântico e por aí vai. Enola é supostamente independente, mas suas ações são quase todas realizadas ou em oposição ou por meio de autorização masculina. A cena da fuga do internato, por exemplo, poderia ter sido realizada por ela sozinha, mas só se deu após a visita do irmão e do par romântico. A busca pela mãe ficou em segundo plano, com ela retornando ao final, com uma desculpa mais esfarrapada que pano de chão após meses de uso em faxina pesada. A verdade é que nem a mais feminista das espectadoras consegue se conectar emocionalmente à mãe de Enola e suas motivações. O filme pode até ser bem intencionado em sua vontade de mostrar que mulheres devem ser livres, mas nossas meninas merecem uma obra que as apresentem a um feminismo que vai além de tiradas de efeito e golpes de Jiu-Jitsu. O feminismo liberal de Enola Holmes é tão bom quanto qualquer propaganda de empoderamento usada para vender batom. O mercado agradece. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas).

Mãos livres
Mãos livres

ADORMECIDA ( A DOR MERECIDA ) Lângela Monteiro* Coloco o dedo na ferida E envergonhada pergunto: Essa dor é merecida? Eles dizem: é culpa da bebida! Mas ela não estava lá nos primeiros anos de minha vida Quando o olhar malicioso percorreu todo meu corpo Aquele corpo de menina E eu tremi ouvindo “tudo bem, é uma menina libertina!” Lângela Monteiro - Mulher piauiense, apaixonada pelos livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí.Com medo toda vida. SEM TÍTULO Maria Helena Miranda* Não preciso de nada nem ninguém para aumentar minha solidão. Fico sozinha a sós. Não aguento mais. Dói muito viver não viver. 25 de março de 1983 Maria Helena Miranda – Quase 66anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAMINHADA Jeovânia P.* Ando com o coração em uma cesta de palha amarrada com um laço de fita vermelho muito bonita como caixa de presente Ando sem saber bem quando ou onde encontrarei o dono desse agrado Ando bem ciente de quem ele é só que por um motivo ou por outro meu passo anda o dele anda e ainda não nos alcançamos Ando com ele em mim ele anda comigo em si mesmo assim afastados mesmo assim unidos Ando com o coração em uma cesta de palha mesmo assim não sangra. Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionara pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. COMO HOJE Maria Cristina Martins* Quando minha avó fez catorze anos teria de viver em outra cidade sozinha se quisesse continuar os estudos Sua mãe, minha bisavó não permitiu Tantos anos depois entendo como se fosse hoje fico triste como se fosse o dia em que tentei inscrevê-la num curso de português para terceira idade Ela pediu “minha filha, queria voltar a estudar” Só tinha vaga para culinária mas cozinhar era o que ela mais fazia nessa vida. Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. VONTADE Meire Martins* Uma vontade danada De te dar um abraço Desses que transpassa a pele e toca na alma. Uma vontade doida De te tascar um beijo Desses que tira o fôlego e inebria o coração. Uma vontade arretada De me atirar no teu colo e me deixar ficar o dia inteiro Desses que a gente quer que nunca mais termine. Uma vontade insana De sentir o calor do teu corpo Desses que se irradia em meu ser e aquece o meu desejo. Uma vontade imensa de estar com você Sentir teu afago e ser tua Completamente tua. Meire Martins nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas.