Entrevistas

Entrevista com a Elza Soares
Entrevista com a Elza Soares

(Foto de Stephane Munnier, disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/10/13/noticias-musica,172888/elza-soares-transforma-dor-em-canto-em-seu-primeiro-album-de-ineditas.shtml) Nessa primeira edição, divulgamos a entrevista feita com a artista Elza Soares. O “Mulheres do fim do mundo” dá nome ao nosso site e faz parte de um total de 105 lançamentos feitos pela Elza Soares, contabilizando discos e compactos. Além disso são 9 singles e cerca de 180 participações especiais em projetos de outros artistas. Elza Soares é inspiração para muitas mulheres. O álbum conta a história da própria cantora que passou por dores, perdas, episódios de violências domésticas e de racismo e que, hoje, pode cantar a sua própria voz. Mulheres do fim do mundo são aquelas que, em contextos de pandemônio, dançam em meios aos destroços e continuam em pé, cantando até o último momento. Confiram a nossa entrevista! Revista MFM: Elza, em primeiro lugar, agradecemos muito sua disponibilidade para essa entrevista. Estamos nos dedicando com enorme carinho ao projeto do site Mulheres do fim do mundo e será maravilhoso inaugurá-lo com as palavras de quem nos inspirou. Pensamos em algumas perguntas relacionando sua biografia, carreira e atuação pública com o contexto atual do Brasil. Revista MFM: Em entrevista ao Estadão, em 2018, você disse que encontrou seu propósito musical: “Foi quando percebi o que eu deveria fazer. Entendi que esse seria o caminho. Mudou tudo. Encontrei uma brecha para dizer aquilo que eu sentia". Em mais de 60 anos de carreira, com uma coleção de prêmios, foi com o lançamento do Mulher do Fim do Mundo e também do álbum Deus É Mulher que você afirmou poder dizer o que sente. Gostaria que você falasse um pouco sobre como você enxerga essa mudança, a possibilidade de finalmente se expressar? O que ocasionou isso? Quando você, Elza Soares, consegue se expressar, consegue dizer o que você sente, consegue falar de temas "proibidos", você dá voz a uma multidão de mulheres que são diariamente silenciadas pelo machismo e misoginia que permeia nossa sociedade de modo estrutural. Como você vê os veículos que dão voz às mulheres nos dias de hoje? Elza Soares: acho que o encontro comigo mesma, entendeu? Eu vi, me vi livre de seus grilhões...me vi livre sem a mordaça... me vi livre. Iguais a liberdade! E também o que sou. Revista MFM: O nome “Elza Soares” se transformou em um símbolo de luta e resistência para as mulheres brasileiras, sobretudo nos núcleos do feminismo negro. Nos últimos anos, sua trajetória tem se conectado a de muitas mulheres das periferias do Brasil que entraram nas universidades, fizeram pós-graduação e lutam por melhores colocações no mercado de trabalho. Como inspiração para elas, a sua vida profissional está em ótima fase. Em 2016 o álbum “Mulher do Fim do Mundo” esteve entre os dez melhores do ano pelo New York Times, em 2017 seu show no Central Park teve grande sucesso, em 2018 fez apresentações em museus como o CCBB e o Museu de Arte do Rio, em 2019 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela UFRGS em uma cerimônia emocionante e, nesse mesmo ano, o musical “Elza” foi muito elogiado, tendo também recebido prêmios. Como você interpreta seu reconhecimento nesses espaços tradicionalmente elitistas e com forte recorte racial? Seria possível fazer um balanço de avanços e retrocessos sobre a questão da mulher em meio ao crescimento do conservadorismo no cenário político atual? Elza Soares: É tão difícil responder porque a gente fica em uma encruzilhada sem saber o que dizer, né? Crescemos tão pouquinho, tão pouquinho, quase nada. E esse quase nada é tão grande. Pra quem não tinha nada, foi um avanço muito grande, né? Então eu vejo assim, dando passadas curtas e prolongadas. Mediação da Vanessa* (*assistente da Elza): Como você interpreta seu reconhecimento nesse espaço tradicionalmente elitistas e com tão forte no recorte social? Como você interpreta isso? Elza Soares: Eu não sei Vanessa, é difícil! Vanessa: Você chegou a sentir todo esse recorte racial? Elza Soares: Lógico! Estou viva, né? Emocionalmente falando mais viva que nunca. Lógico! Vanessa: Mas mostrou quem era Elza! Elza: Mostrei quem era Elza, né? Tive que mostrar, com toda a ferida aberta, mostrando quem era Elza. Revista MFM: Elza, sua biografia, seu trabalho e sua atuação pública têm se tornado uma referência muito forte para milhares de brasileiras, que também passaram (ou passam) por privações alimentares, pobreza, além de vivências cotidianas de machismo, violência e racismo. Um episódio notável de sua trajetória artística é o momento em que você diz para Ary Barroso, em sua primeira apresentação como cantora, que vem do “planeta fome”. No ano passado, você lançou o álbum “Planeta Fome”, com músicas que, em seu conjunto, contam a história de um Brasil desigual, mas resistente. Como diz uma das canções, “são histórias que a história qualquer dia contará”. Pesquisas mostram que, desde 2014, os índices de desigualdade de renda no país aumentam sem parar. Em 2017 e 2018, os relatórios de segurança alimentar da ONU e ‘Luz da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável’, mostraram que, em função do congelamento de investimentos sociais por 20 anos, aumento do desemprego e cortes no Bolsa Família, o Brasil pode vir a ser reinserido no mapa do fome. A construção de seu último álbum, para além de ser um balanço de sua própria trajetória, também foi motivada pela situação que vivemos agora no país? Como você vê, ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento no país (que, como sabemos, recai com mais força sobre mulheres negras?) Elza Soares: Como me assusta! Um país que tudo que se planta dá, até o que não presta. Mediação da Vanessa: Como você vê ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento do país? Elza Soares: Como assim... graças a Deus tem os negros o que sabem plantar, que sabem acolher. Graças a Deus estamos vivos, gente! Vivos! Estamos vivos, graças a Deus! As mãos ainda plantam, as mãos ainda colhem. Revista MFM: Durante o período da Ditadura militar no Brasil, devido às ameaças que recebeu, você e sua família se exilaram na Itália. A música e as variadas produções artísticas da época também sofreram uma dura censura. Em 2020, 56 anos depois do início do regime autoritário brasileiro, ainda nos deparamos com alguns grupos diminuindo negando os crimes de perseguições, torturas e assassinatos que ocorreram na Ditadura Militar, bem como pedindo uma intervenção militar. Como você se sente diante dessas atuais manifestações e declarações antidemocráticas? Elza Soares: Quem tem fé consegue. Eu tenho muita fé, sempre consegui tudo através da minha grande fé, que eu tenho. Acredito muito em Deus, acredito que a gente possa crescer mais ainda, entendeu? Com essa fé que a gente carrega, que é um poder grande, que é a fé, minha gente, fé, muita fé. Revista MFM: De acordo com a ONU mulheres, o contexto de emergência aumenta os riscos de violência contra mulheres e crianças, especialmente em razão do isolamento das mulheres e da sua permanência no lar em tempo integral junto ao seu agressor. Durante a pandemia Covid19, observamos um aumento considerável do número de casos de violências domésticas no Brasil, sobretudo contra mulheres negras. Se você pudesse deixar um recado para essas vítimas, o que você diria para elas nesse atual contexto? Elza Soares: Denunciem. Gritem muito, por favor. Gritar, gritar, gritar! Cantar, cantar, cantar! Porque muitos… tá aí, na frente de todo mundo. É só gritar. Pedir socorro. Não se calar. Por favor! Revista MFM: Elza, sua história é de muitas batalhas. Você passou pela fome, racismo e violência, numa trajetória única de resistência e coragem. Diante de tanta luta e experiência, o que você teria a dizer para as mulheres que hoje enfrentam a pandemia em meio aos mesmo desafios? Elza Soares: Acredite. Por favor, vai em frente! Vá à luta! Não desista! Sem desistência, acreditando sempre que é capaz. Revista MFM: Em novembro de 2015 você concedeu uma entrevista ao Cultura Livre (canal do YouTube) para falar sobre o lançamento do álbum Mulher do Fim do Mundo. Ao ser questionada sobre quem seria aquela mulher do fim do mundo, respondeu: "não sei que mulher é essa não… é uma mulher forte, uma mulher guerreira, uma mulher que luta, que busca, que bate, apanha.. enfim.. é uma mulher. (...) parece com uma pessoa que eu conheço... parece muito." A mulher do fim do mundo de hoje é a mesma de 2015? Quem é a mulher que você citou na entrevista, aquela que se parece com a pŕopria descrição que você deu? Levando em conta a pandemia da Covid-19, bem como nossa crise política, o que é o fim do mundo para você? E qual é o papel da mulher nele? Mediação da Vanessa: Quem é a mulher que você citou na entrevista? Aquela que se parece com a própria descrição que você deu? Elza Soares: É ela mesma, ela só muda um bocadinho…. Porque… 5 anos dá pra dar mais 5 passadas… Já dei cinco passadas, mas é ela mesma, ela não muda não, ela só cresce um bocadinho mais. É tudo isso aí… Um bela feijoada né… Mediação da Vanessa: Uma pizza, como se torna tudo no Brasil… Elza Soares: Continuar caminhando sem se deixar derrotar. Tudo isso vai passar, tudo passa, já vi tanta coisa passar… É mais uma que vai passar. Tenho fé. Acredito!

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Entrevista com a Duda Salabert
Entrevista com a Duda Salabert

Revista Mulheres do Fim do Mundo - Muito obrigada pela disponibilidade em conceder essa entrevista! Você é professora de Literatura e trabalha no mesmo colégio desde 2007; gostaríamos que você falasse um pouco sobre sua trajetória profissional. Duda Salabert - Eu sou professora de literatura. Dou aula há 20 anos. Nos últimos treze anos eu trabalho no colégio e pré vestibular Bernoulli, que é considerado um dos melhores os colégios do Brasil, e também atuo na educação popular, onde criei aqui em Belo Horizonte o Transvest, que é uma ONG que oferece educação gratuita para travestis e transexuais da capital. Em 2006 nós criamos por essa ONG a primeira casa de acolhimento de pessoas transexuais em situação de rua. A ideia é justamente oferecer educação como ferramenta de transformação de vida e inserção de pessoas transexuais em espaços de poder, especificamente a universidade. Revista MFM - Em 2018 você se candidatou ao Senado por Minas Gerais e obteve mais de 350.000 votos. Você optou por não se afastar de suas atividades docentes durante o período de campanha. Gostaríamos que você falasse um pouco sobre esse período e essa decisão. O que te motivou? Duda Salabert - Eu não me afastei do emprego para evidenciar, deixar claro que sou professora. Mesmo que um dia eu ocupe algum cargo político, não deixarei de dar aula, porque minha profissão é a docência. Sobre o período referido, minha candidatura foi bastante complicada porque, quando eu lancei minha pré-candidatura, menos de 24h depois aconteceu a execução da Marielle Franco, que me fez questionar se eu deveria continuar, ou não, na vida política. Mas, depois de uma reflexão, eu concluí que, por ela, Marielle, e pelo grupo de que faço parte, que é um grupo extremamente vulnerável, é necessário que eu mantenha meu corpo na frente dessa luta política. Quando eu oficializei a candidatura, publiquei nas minhas redes sociais uma foto em que eu estava com uma blusa com quatro palavras que incomodam muitos setores da sociedade. Estava escrito: professora, travesti, lésbica e vegana. Quando lancei essa foto, recebi inúmeros discursos de ódio, porque parte da família Bolsonaro compartilhou essa minha publicação e então meu instagram recebeu, em menos de uma hora, mais de 5 mil mensagens de ódio. O próprio instagram bloqueou minha conta no periodo, de tantas mensagens de ódio que eu recebi. Não satisfeitos com essas mensagens que eu recebia, esses grupos bolsonaristas começaram a avaliar negativamente a página do facebook do colégio em que eu trabalho, começaram a mandar email pro colégio pedindo minha demissão, começaram a querer organizar manifestações na porta da escola para que eu fosse demitida. Eu continuei na luta e os alunos, na época, compraram essa briga pela minha defesa. Eu sabia que a chance de eu ser demitida era muito alta e sabia também que, sendo demitida, dificilmente um colégio me recontrataria, porque 90% das transsexuais do país está na prostituição. Isso derruba essa narrativa mentirosa e falaciosa da meritocracia, porque, se existisse meritocracia, eu estaria no apogeu da minha profissão e, sendo demitida, iria chover propostas de emprego. Fiz letras, cursei um pouco de antropologia, estou fazendo gestão pública, dou aula há vinte anos, estaria no apogeu da minha profissão. Mas, tenho certeza que, dificilmente, um colégio chamaria uma travesti para dar aulas. Há vinte anos, antes de iniciar minha transição, teria mais chances de trabalho do que hoje. Mesmo recebendo essa quantidade de discurso de ódio, fazendo a campanha e dando 55 horas de aulas por semana, fiz uma campanha com poucos recursos financeiros – foram R$15.690. É importante lembrar que as campanhas para Senado normalmente são campanhas milionárias. Por exemplo, a campanha da Dilma Rousseff foi 4 milhões de reais, a de Senadores eleitos também foram campanhas milionárias. Eu consegui ser votada em todos os municípios de Minas Gerais, que são 853, me tornei a pessoa mais votada na história do PSOL em Minas Gerais, como também a quarta mulher mais votada da história das eleições nos último 40 anos em Minas Gerais. Revista MFM - Em abril de 2020, quando começamos a trabalhar nos primeiros esboços para a construção da Revista, não tínhamos noção de que ainda estaríamos convivendo com as dificuldades, limitações, inseguranças e os surtos desencadeados pela pandemia e o distanciamento social. Gostaríamos que você falasse sobre sua rotina como mãe, professora e ativista nesse período tão crítico. Duda Salabert - Eu ando bastante exausta porque além de ter que tomar conta da minha filha, dar faxina, cozinhar, cuidar dos animais aqui de casa, há ainda o trabalho como professora e as escolas nesse contexto de pandemia estão ou querem transformar professoras e professores em youtubers, cuja linguagem é completamente diferente duma linguagem em ambiente escolar. Então nós temos que aprender sobre iluminação, sobre edição de vídeo, sobre sonoplastia, sobre cenário e nós temos que criar isso sem apoio nenhum das escolas. Vários professores estão se endividando, como eu também: tive que comprar uma câmera melhor, tive que comprar jogo de iluminação. Isso num contexto em que deveríamos estar juntando dinheiro, porque é uma crise econômica nunca antes vista na história e nós estamos nos endividando. Pra mim ainda assume um contorno mais complexo porque eu tenho que conseguir energia pra fazer e organizar minha candidatura. Eu estava pré candidata a prefeita da cidade e agora só estou pré candidata a vereança, então é bastante difícil. Revista MFM - Dados anuais divulgados pela ANTRA e pelo IBIT nos traz números alarmantes sobre a precariedade e violência vivenciadas por pessoas trans e travestis, sobretudo por mulheres trans no contexto da prostituição de rua. A transfobia, como um elemento estrutural, produz vulnerabilidades desde a idade escolar, mas na idade adulta, com a ausência de emprego formal, aprofunda-se substancialmente. Você é presidenta da ONG Transvest, que oferta cursos a pessoas transgênero e travesti. Você pode falar um pouco sobre como funciona esse projeto? Duda Salabert - Segundo pesquisa da UFMG, 91% das travestis e transexuais de Belo Horizonte não concluíram o segundo grau, não concluíram o ensino médio, o que mostra que a escola tradicional muitas vezes é um espaço de reprodução de ódio, violência e intolerância contra as pessoas trans. A Transvest surge para tentar mitigar ou minimizar em âmbito local esse problema que é estruturante no país, que é o fato de a escola não ser aberta à diversidade. Então o que existe em Minas Gerais e no Brasil não é uma evasão escolar de pessoas transexuais, é uma expulsão escolar, já que o nosso projeto pedagógico, nosso projeto educacional acaba manifestando esse apagamento da diversidade em âmbito escolar. Então a Transvest é um projeto pedagógico que oferece educação gratuita para travestis e transexuais da cidade. Além da educação, nós também temos aulas de defesa pessoal, aulas de idiomas, teatro, libras. Criamos em 2016 uma casa de acolhimento de pessoas transexuais em situação de rua. E agora no contexto de pandemia, em que não há como a gente manter nossas aulas, porque na verdade com a pandemia não tem como dar aula virtual para as pessoas trans, porque a maioria delas nem celular tem, devido à situação de extrema vulnerabilidade, então o que nós fizemos foi criar a renda mínima trans. Nós estamos ajudando 120 pessoas travestis com o valor de 100 reais mensais, vamos manter isso até o final da pandemia, e 20 travestis com o valor de 200 reais mensais, essas 20 travestis são as travestis idosas. Nós consideramos travestis idosas aquelas que têm acima de 35 anos, porque a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil não supera 35 anos. Revista MFM - Ainda sobre a questão do trabalho, mas fazendo uma conexão com o campo da cultura. Em 2016 o espetáculo Gisberta trouxe à público uma ampla discussão sobre transfake, inclusive com a ação de grupos organizados, como Coletivo T e o Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans). Na chave da reivindicação por real visibilidade e empregabilidade nos meios artísticos e culturais, foi feito o Manifesto Representatividade Trans em 2018. Você poderia fazer uma análise sobre esse debate hoje, considerando os avanços resultantes da luta social organizada e os impactos reais nos contratos e na recepção do público? Duda Salabert - Eu fui uma das fundadoras do Monarte e aqui em Belo Horizonte eu debati publicamente com o Luís Lo Bianco, o ator que interpretou Gilberta, e mostrei para ele as críticas que o movimento trans tem em relação ao transfake e ao fato de que peças como a dele, assim como outros filmes tematizam as nossas histórias, mas não empregam nenhuma pessoa trans desde a faxina até ao elenco. Essas peças reproduzem o tanto da transfobia que existe na sociedade, porque viram as costas para o fato de que 90% das travestis transexuais do país estão na prostituição e que a arte é um espaço de empregabilidade, mas cujas portas estão fechadas para nós e privilegiando aqueles que já são privilegiados. É um debate que não avançou em âmbito nacional, porque com a conjuntura da vitória do governo Bolsonaro e a ascensão dos movimentos ultra reacionários, junto à direita no país, hoje eu acredito que é difícil levantar esse debate com a sociedade. Nós temos que debater hoje, estamos debatendo hoje, ainda “escola sem partido”, estamos debatendo a questão de não censurar a arte, manifestações artísticas que tematizem questões LGBT. Então acredito que os próximos anos vai ser difícil a gente avançar esse debate, porque houve, de certo modo, um retrocesso de consciência no âmbito público, na esfera pública, devido à ascensão desses movimentos de direita que reproduzem o discurso de intolerância e ódio contra as pessoas trans. Então hoje a nossa luta é para nos manter vivas no plano concreto. Eu acho que o debate no espaço da arte ainda é muito distante da realidade que nós estamos. Revista MFM - Em entrevista à Revista Veja, em agosto de 2018, você disse que escolheu se candidatar ao Senado como “provocação” por conta do “caráter simbólico” já que “Senado, na sua etimologia significa ‘senhores’”. Essa provocação surtiu o efeito que você esperava? Qual sua avaliação sobre a organização das lutas sociais no contexto da pandemia, em especial aquelas que dizem respeito a mulheres e pessoas transgênero? O que podemos esperar, nesse sentido, para os próximos anos? Ainda: quais os limites e possibilidades para as lutas das mulheres e das pessoas trans nesse contexto de autoritarismo crescente e de aumento da polarização política? Duda Salabert - Em 2018, o PSOL de Belo Horizonte me convidou para disputar o governo do Estado, eu rejeitei. Me convidou para disputar para Deputado Estadual e Federal, eu também rejeitei. Se eu tivesse disputado, possivelmente, eu teria ganho. Eu fiz três vezes mais votos que o Deputado Federal eleito Aécio Neves. Mas aceitei disputar o Senado, por entender que a minha candidatura assumiria um contorno simbólico. E nesse contexto de crise, é importante a gente disputar o simbólico. É no simbólico que mora tudo aquilo que não é concreto, tudo aquilo que nos humaniza. É no simbólico que está a fé, os sonhos, as utopias, as paixões, o amor, que são elementos essenciais para ampliar a nossa humanidade. Se a palavra senado significa senhores, na sua etimologia, ter uma travesti querendo disputar o cargo de senhores, seria extremamente simbólico. A idade mínima para disputar esse cargo, até a última eleição, era 35 anos. 35 anos é a expectativa de vida de uma pessoa transexual no Brasil. E, além disso, o Senado desde a sua origem, sempre foi ocupado por pessoas moralistas. E como meu corpo que é lido como um corpo imoral, rivalizar esse espaço é mais do que rivalizar um cargo político, é rivalizar também o conceito de moralidade. Por isso aceitei disputar e tive este resultado positivo. Um deles foi saber que em qualquer lugar, em qualquer cidade ou município de Minas Gerais, que eu for, eu sei que naquele espaço pelo menos 2% daquele município ou cidade votaram e se permitiram ser representada por uma pessoa transexual. Essa é uma vitória de consciência, porque o que muda o mundo é a construção de novas consciências. Muitas pessoas me dizem: “Duda, meu pai não me aceita, não; mas votou em você”. E eu respondo: “Seu pai te aceita sim, o que ele tem dificuldade é de aceitar os próprios preconceitos. E seu pai não votou em mim, não; votou nele mesmo, dizendo que partir daquele dia, ele iria olhar a diversidade de outra forma”. E é isso que nós temos como resultado positivo, saber que pelo menos 2% de qualquer cidade de Minas Gerais ampliou a consciência. E foi uma candidatura em que eu estava disputando não eram votos, mas sim consciências. Porque nossos sonhos não cabem nas urnas. Nesse contexto de pandemia atual, fica bastante difícil à gente mobilizar e organizar a luta. As lutas políticas. Porque nossa maior luta hoje, eh por sobrevivência. Sobretudo, porque a maioria das pessoas transexuais no Brasil não conseguiu ter acesso ao auxílio emergencial, por causa da burocracia do governo federal. Muitas transexuais não têm documentos, muitas não têm celular, outras não sabem ler. Então, é uma luta por sobrevivência. E pós-pandemia, eu acredito que esse cenário será agravado, porque se espera que nosso PIB, neste ano, no melhor dos cenários, fique - 10. Seria o pior momento econômico da história do Brasil, nunca antes visto. O pior momento da história do sistema capitalista. Nesse contexto de crise aguda do capitalismo, a gente sabe que é a população que mais sofre é a população mais vulnerável, que é justamente a população de travesti e transexual do país. Cuja expectativa de vida já não superava 35 anos, isso num contexto que em que economia estava melhor, imagina agora pós-pandemia. Então, sabemos que não vão ter políticas públicas para as pessoas trans. Os governos vão tentar retirar e desmontar estruturas que buscam dar suporte à população LGBT. Então, acredito que o pós-pandemia, a melhor ferramenta que nós temos é a solidariedade colocar em prática o aforismo “ninguém solta à mão de ninguém”. Revista MFM - O transfeminicídio é um termo relativamente novo nas lutas sociais e, entre outras coisas, contribui para articular duas pautas importantes: a dos feminismos e as do movimento LGBTQIA+. Você poderia comentar um pouco sobre esse termo? Duda Salabert - É importante a gente dá visibilidade ao termo transfeminicídio por diversos fatores. O principal deles é mostrar que há uma especificidade no crime contra as mulheres transsexuais. Não podemos enquadrar e colocar o crime contra pessoas transsexuais no mesmo patamar do feminicídio, porque há diferenças. Por exemplo 80% dos assassinatos contra pessoas transsexuais no Brasil ocorrem com uma violência exagerada, uma violência hiperbolizada, que significa corpos esquartejados, paus enfiados no ânus, o que difere do feminicídio. Além disso, mais do que a metade dos assasinatos contras pessoas transsexuais ocorrem no espaço público, o que difere também do feminicídio, e há outras diferenças também. O importante de mostrar é que dentro do próprio feminino há uma hierarquia em que as mulheres transsexuais e travestis estão em situação de maior vulnerabilidade e mais expostas a violência do que as mulheres cisgênera. Daí a importância de mostrar e dar visibilidade ao transfeminicídio, mostrando que, no Brasil, o crime contra mulheres transsexuais, a maior motivação é o ódio contra a população transsexual. Tanto é que esses crimes em sua maioria ocorre com requintes de crueldade. Revista MFM - A disponibilidade de tempo para os cuidados com os filhos é um tema abordado por você quando defende a ampliação da licença-maternidade no Brasil, que é restrito se comparado a outros contextos em relação à duração e às diversas configurações familiares. Quais reflexões esse contexto suscita em você sobre esse tema? Duda Salabert - Até onde eu sei, eu fui a sua primeira mulher transexual do Brasil a efetivar a licença maternidade por 120 dias. Não foi fácil conquistar e garantir esse direito. Eu precisei de um advogado intervir, então eu trago já na minha experiência pessoal, na minha luta existencial uma defesa sobre a licença maternidade. Nós que somos mães sabemos que os 4 meses, ou seja, os 120 dias não são suficientes para o desenvolvimento pleno da criança. Então urge ampliar a licença maternidade no Brasil para que nossa legislação se aproxime a de outros países que são mais avançados nesse tema, que é importante para a família brasileira e, sobretudo, para a criança. Temos que pensar não somente na maternidade, mas também em legislações que garantam a manutenção e permanência das mulheres no mercado de trabalho após o fim da licença maternidade, porque 51% das mulheres no Brasil que trabalham deixam o mercado de trabalho após o fim da licença maternidade. Os motivos são vários. Desde a demissão, já que muitas empresas são administradas por pessoas machistas que vem a maternidade como um problema, mas também essas mulheres acabam deixando o mercado de trabalho por entender a importância da amamentação ou, até mesmo, por falta de creches no Brasil. Segundo o IBGE um terço das crianças de zero a 3 anos estão fora da creche por falta de vagas. Então, é um problema estruturante no país no que se refere à questão ligada à maternidade e cabe aos políticos debaterem essas questões, mas como Congresso Nacional é ocupado em sua maioria por homens ,eles não entendem a relevância dessa questão. No nosso congresso apenas 14%, se não me engano, dos cargos são ocupados por mulheres. E vamos lembrar que tivemos aqui em Minas Gerais uma deputada estadual eleita que ao ter um filho descobriu que não havia licença maternidade para deputadas aqui no Minas Gerais e isso se repete, se reproduz em várias câmaras legislativas no país, o que mostra todo o machismo estruturante que há na nossa sociedade. Imagem da capa: foto de perfil no Twitter @DudaSalabert

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Entrevista com Mariana Monni
Entrevista com Mariana Monni

Escritora Mariana Monni Nesta edição entrevistamos a escritora Mariana Monni, autora de romances sexies com alta vendagem em plataformas como Amazon e também nas livrarias. A carioca Mari Monni sempre foi apaixonada por Literatura. Hoje, não é diferente, desde que resolveu começar a publicar, já lançou vinte títulos, todos eles com um toque de humor, sensualidade e finais felizes garantidos. Mari ingressou nas faculdades de História, Letras e Marketing, além de ser tradutora certificada. Nenhuma de suas tentativas profissionais foi capaz de fazer com que ela se sentisse realizada. Pelo menos, até começar a escrever sobre os inúmeros personagens que estão sempre em sua mente. Mãe solo de uma menina linda e de um cachorro carente, ela mora no interior do Rio e passa seus dias criando histórias cheias de humor e que fazem você sentir “coisinhas gostosas lá embaixo”. Hoje, além de publicar comédias românticas, também investe na literatura Jovem Adulto, assinando como M. Monni. Muito obrigada por conversar conosco, Mariana Monni. Mariana Monni: Eu que agradeço por poder estar aqui. É muito bom ter esse espaço para compartilhar minhas experiências com outras mulheres. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Primeiramente, gostaríamos de saber como foi sua trajetória até você se entender como uma escritora profissional. Como isso aconteceu? Mariana Monni: Juro que ainda tento entender. Às vezes paro e penso: “Caramba, não é que consegui mesmo?!”. Eu sempre escrevi. Outro dia, estava arrumando um armário aqui em casa e encontrei o meu primeiro livro. Eu tinha 9 anos e contei a história de uma bruxinha levada. Só que o caminho para ser escritor é bem complicado. Primeiro, porque você dificilmente acredita que vai conseguir. Depois, são todas as dificuldades de publicação. Eu era professora de Inglês e não conseguia parar de ter ideias para livros novos. Sempre começava a escrever, só que nunca tinha tempo para concluir o livro. Afinal, minhas prioridades eram outras. Mãe-solo com um emprego? Impossível ter tempo para escrever. Mas eu insisti. E foi então que terminei o primeiro, “Uma Chance Para Amar”, que conta a história de Laura, uma mãe-solo. Usei muito da minha experiência, apesar de não ser uma biografia (muito longe disso, inclusive). Fui convencida por uma amiga a postar no Wattpad (1), e foi um sucesso logo de cara! Isso me deu coragem para continuar... Digo que precisei sair do armário literário. No início, tinha muita vergonha do que as pessoas iriam achar do meu livro. Pouco a pouco, fui me acostumando, tanto às críticas quanto aos elogios, e deu certo. Comecei a publicar de forma independente na Amazon, até que fui demitida do curso de Inglês. Em vez de buscar outro emprego, decidi focar na minha carreira de escritora. Hoje, além de ser independente, também tenho uma série lançada pela Pitangus Editorial. E agora estou aqui, dando até entrevista para vocês. Não é louco? Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você poderia nos falar um pouco a respeito da sua rotina de trabalho? Também gostaríamos que nos contasse sobre o funcionamento do mercado editorial, de modo geral, e também do mercado de literatura erótica, em particular. Mariana Monni: Durante este período de responsabilidade social, muitas pessoas estão entendendo que trabalhar em casa tem seus prós e contras. A minha rotina em si não mudou muito. Sempre fui mais eficiente pela manhã. Então, acordo cedo e, por volta das 7h, começo a escrever. Tento ir até às 11h. À tarde, foco mais em coisas burocráticas e no marketing. Cada autor tem seu próprio método. Eu, particularmente, gosto de estipular um número mínimo de palavras por dia – 2 mil, ou um capítulo. Também gosto de ter algum estímulo sensorial, que me ajuda a relaxar enquanto escrevo. Algumas pessoas escutam música. Eu prefiro coisas cheirosas. Incenso, velas aromáticas… Sempre fui daquelas que deixava o personagem contar a história, mas quanto mais a gente se profissionaliza, mais técnicas usamos. Hoje em dia, gosto de fazer um roteiro, isso tem me ajudado bastante. Não crio um cronograma fechado para a história, apenas coloco os pontos principais que irão acontecer e depois vou criando um pequeno roteiro de capítulos – de 10 em 10 –, para que eu ainda tenha espaço para fazer mudanças no plot(2) e ser criativa. Mas escrever um livro, por incrível que pareça, não é a parte mais difícil da publicação. Vocês perguntaram sobre o mercado editorial. Eu poderia escrever um livro sobre isso, mas vou deixar aqui alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, é preciso entender que existe a publicação com editoras, que pode ser de modo tradicional – quando a editora arca com todos os custos da publicação – ou com coparticipação – o autor paga um valor x (depende da editora) e a empresa realiza todos os trabalhos. Durante a escrita de um livro, sempre recomendo ter alguns leitores betas. São pessoas críticas e cheias de amor no coração, que estão dispostas a ler seu trabalho e apontar as falhas da história, em especial as de continuidade. Após o leitor beta terminar de ler e você ajustar o que for preciso, é hora da edição. Editar um livro significa eliminar o que é desnecessário (a boa e velha “encheção de linguiça”) e acrescentar o que falta. Pense que um capítulo precisa ter emoção, sensações, fluidez e ação. Fora que precisa terminar em um pequeno gancho para fazer com que dê vontade de continuar a leitura. O leitor precisa enxergar o que está acontecendo, entender como o personagem reage à determinada situação. O processo de edição ajuda nisso. Feito isso, partimos para a preparação de texto. Mudanças de frases, de estruturas, valorizando a fluidez do texto. Em seguida, é a vez da revisão. É o pente fino, que elimina os erros de gramática e ortografia. Entre todas essas etapas é importante que o autor leia o texto. Sim, ele precisa ler o próprio livro várias vezes antes de dizer o tão sonhado: “está pronto”. Texto concluído e bem trabalhado, vamos à parte gráfica, que constitui na capa e na diagramação. A capa pode ser frontal (para e-book) ou aberta (para livro impresso). A diagramação faz com que um texto de Word, por exemplo, esteja ajustado para a impressão ou para a versão digital. Algumas diagramações são mais elaboradas, e incluem imagens, seja para ilustrar aberturas de capítulos ou o texto em si. Deixo aqui meu apelo, caso você tenha como objetivo publicar um livro de forma independente: contrate profissionais sérios para todas essas etapas. Nada de pedir ao amigo que é ótimo em português para revisar seu livro. Mas se você acha que acabou, está errado. Livro pronto, impresso ou nas plataformas de leitura digital, agora que vem o problema: divulgação. Em 2019, foram lançados mais de 350 mil livros no Brasil. Como fazer com que seu livro seja lido? O Marketing é peça essencial na publicação. Não adianta nada gastar milhares de reais com tudo isso que falei acima e não investir na divulgação. Tanto editoras quanto autores independentes estabelecem parcerias. Blogs, canais no YouTube, Instagrams… todos voltados para o público leitor. Eles leem os livros, fazem resenhas, postam comentários e ajudam a promover seu lançamento. Fora isso, existe o que chamamos de publieditorial. As parcerias são gratuitas; ou melhor, você envia o livro para o parceiro e ele trabalha em cima do produto. Já o publieditorial é quando você paga para um influencer ler e divulgar. A grande diferença aqui é que, com editoras, a verba é muito maior. Por isso, conseguem fazer tudo que falei acima. Já um autor independente não consegue arcar com este peso. Por isso, na maioria das vezes, limita-se a uma revisão, diagramação, capa e parcerias. Então, peço a vocês: não deixem de ler autores independentes. Você me perguntou do mercado erótico. Confesso que, apesar de meus livros conterem algumas cenas de sexo, eles não se encaixam nessa categoria. Por isso digo que são “sexy e com muito humor”. Mais próximos de serem comédias românticas do que eróticos. A Amazon tem um catálogo gigantesco de livro erótico. Ela foi essencial para a promoção de livros voltados para o público feminino, em especial os eróticos. Nem toda mulher tem coragem de carregar um livro com capa e título sugestivo. Há o medo de ser julgada pelo que está lendo. Porque, nós sabemos, qualquer coisa pode ser usada como justificativa para o assédio: “Olha o livro que ela está lendo. Precisa de uma boa p***!”. Acredite ou não, já fui muito assediada pelos livros que escrevo. Recebo nudes, propostas sexuais e ofensas nas redes sociais. Uma vez um homem me chamou para um “daddy kink”(3). Tive que pesquisar o que era. Foi tenebroso. Livros digitais ajudaram muito as mulheres a consumirem conteúdo erótico. É difícil superar o preconceito, entrar em uma livraria e comprar livros “hot”. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Vivemos um período no Brasil no qual, ao mesmo tempo em que a pauta dos Direitos das Mulheres entra em evidência, há um movimento de certos setores da sociedade para condenar a vivência e a satisfação sexual da mulher. Como você entende o sucesso dos seus livros nesse contexto? Você poderia nos falar um pouco sobre seu público leitor? Mariana Monni: É bem isso. Mulher que sente prazer é puta. Pelo menos, aos olhos de muitos. Seria engraçado se não fosse trágico. Meus livros são voltados, sim, para mulheres adultas. Também tenho vários leitores que são homens homossexuais. A proposta do meu trabalho é diversão, não apenas erotismo. Não escrevo dramas, nem abordo assuntos pesados. Quero que um leitor chegue em casa cansado, pegue meu livro e relaxe. Solte gargalhadas e sinta coisinhas gostosas lá embaixo. Eu valorizo a leveza na minha escrita. E meu público alvo chega a mim justamente por isso. “Gosto tanto dos seus livros. Eles me ajudam a sair da realidade. Me divirto muito”, é a frase que mais escuto. Por outro lado, minhas personagens, em sua esmagadora maioria, são mulheres bem resolvidas sexualmente. Algumas, inclusive, se masturbam em cena. A ideia é justamente romper com a lógica de que mulheres não podem sentir prazer. Em todas as cenas de sexo que escrevo, elas chegam ao orgasmo. Porque mulheres não podem aceitar que o prazer seja limitado ao homem. Confesso que crio um ideal masculino no livro. Faço isso porque, ao longo da minha vida, encontrei muito mais sapos do que príncipes encantados. E não podemos ficar com alguém que pouco se importa com nosso prazer. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Muitos dos seus livros trazem um modelo masculino idealizado: "Meu virgem inesperado", "Vizinho indiscreto", "Professor insaciável" e "Mecânico indecente". Essa nomeação vem subverter certo ideal conservador que atribui aos homens à autoria das fantasias sexuais e fetiches na representação de mulheres. Seus títulos mostram que as mulheres também se animam em fantasiar na busca do prazer. Como essas representações do masculino são recebidas pelo público leitor? Mariana Monni: É, exatamente, o que comecei a falar na resposta acima. A idealização principal do homem nos meus livros está direcionada ao prazer. São homens que querem dar prazer às suas mulheres. Tenho personagens variados, e tento romper com o clichê do CEO(4) bilionário. A maioria dos meus mocinhos é assalariado, justamente para que sejam, de certa forma, “atingíveis”. Reais. Em “Meu Professor Insaciável”, por exemplo, trabalho muito com fetiches. Alexandre adora role play(5). Eu tenho um grupo de leitoras no WhatsApp e é incrível como elas sonham com determinados homens. Um professor safado, um peão suado, até mesmo um mecânico cheio de graxa. Acho muito importante dar voz a esses fetiches. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Uma das coisas que você promete nos seus livros é o "Final Feliz". Porém, entre ele e o conflito inicial, ao invés de dor e sofrimento, temos cenas românticas muito apimentadas. Como você lida com os ruídos entre "amor romântico" e o "empoderamento feminino" na escrita dos seus livros? Mariana Monni: Histórias cheias de dramas e vilões não são muito realistas. O conflito principal nos meus livros são os próprios personagens. Trabalho, ao longo da história, o amadurecimento pessoal e emocional deles. A maioria das minhas personagens transa porque está com vontade. Porque sente tesão. E é isso que precisamos mostrar! Mulheres não precisam ser as “recatadas do lar”, que apenas sentem prazer com o marido. Ou melhor, deixam que o marido sinta prazer e são esquecidas. Eu valorizo o amor romântico, mas sem deixar de lado o empoderamento feminino. As mulheres nas minhas histórias têm uma vida longe dos mocinhos. Elas trabalham, seguem seus sonhos e valorizam sua independência. O relacionamento – idealizado, porque sou extremamente contra publicar livros que romantizam abuso moral e sexual – é só mais uma conquista delas. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Na última bienal do livro no Rio de Janeiro, você trabalhou intensamente no evento e certamente assistiu as medidas lamentáveis da prefeitura do Rio de Janeiro, na tentativa de censurar uma HQ que retratava um beijo entre homens, seguido da reação inesperada do YouTuber Felipe Neto. Como escritora de tema adulto, como você percebe esse policiamento moral? Mariana Monni: Alguns dos meus livros, naquele dia tenebroso, tiveram que ficar escondidos. Eles tinham um homem sem camisa na capa, logo, eram considerados eróticos. A fiscalização não permitiu. Tenho vários amigos que sofreram muito mais do que eu. Livros LGBT+ foram muito atacados. Eu chorei muito naquele dia. É muito triste ver a literatura censurada. Tanto os meus livros quanto os dos meus amigos trazem a realidade. Devemos censurar a realidade? Temos que esconder o fato de que mulheres fazem sexo fora do casamento e sem o objetivo de procriar? Temos que ignorar que existem gays, trans, bi e todos os outros que não seguem o padrãozinho? Eu chorei de raiva. Chorei de desespero. Chorei porque é impensável um representante da democracia diminuir o valor das mulheres e dos LGBTs. Ao mesmo tempo, marchei contra essa atitude imoral. Porque não são nossos livros que devem ser censurados, e sim esse comportamento preconceituoso. Para a minha felicidade, o estande em que estava ficava ao lado da Faro Editorial. O Pedro Almeida, querido amigo e editor, transformou a vitrine dele em protesto. Havia uma placa “Livros proibidos pelo prefeito” e todos os títulos de terror que haviam sido censurados. Aquele dia vai estar para sempre na minha memória como um dos mais tristes. Ao mesmo tempo, um dos mais fortes, porque ninguém abaixou a cabeça. O mercado editorial se uniu contra o absurdo, e foi lindo ver como o povo tem força. A postura do Felipe Neto foi louvável, mas a marcha de leitores, bradando contra a censura, foi ainda melhor. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Há algumas décadas, vem se constituindo um campo de filmes pornô dirigido por mulheres. Essas diretoras (muitas vezes também produtoras e atrizes) costumam mencionar a importância de um outro ponto de vista, que não seja o da masculinidade, para a construção de roteiros e, claro, para a filmagem das cenas. Trata-se de humanizar o(a)s personagens e representar a mulher como agente do próprio prazer, e não apenas como objeto de realização de fantasias masculinas. O pornô “tradicional” sempre foi muito criticado dentro dos debates feministas, por incentivar violência contra mulheres e por violentar as próprias atrizes. Uma frase da escritora americana, Robin Morgan, resume esse ponto de vista: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”. Esse debate também acontece no interior do campo da literatura erótica? Mariana Monni: Muito. Assim como eu, muitas autoras, blogueiras e mulheres que trabalham no mercado editorial criticam com força a romantização do abuso na literatura. Infelizmente, é muito comum ver homens “possessivos” sendo idealizados. São aqueles que dizem o que as mulheres podem usar. Brigam com elas por ciúmes. Soltam a frase “você é minha”. Não me refiro apenas a Cinquenta Tons de Cinza, porque a única coisa não abusiva naquele livro é o relacionamento BDSM(6) consensual. Há pouco tempo, foi lançado na Netflix o filme “365 DNI”, baseado em um romance polonês. Eu nunca vi nada tão preocupante na minha vida. O mafioso sequestra a mulher e diz que, em até 365 dias, ela irá se apaixonar por ele. Romântico? Não, louco. Perigoso. Ele a estupra diversas vezes, com a justificativa de que ela também quer. Pior do que isso, foram os comentários que li de algumas mulheres após terem assistido ao filme: “Queria eu ser sequestrada por um homem desse”, “Se ele me estuprasse, gozaria muito”... Eu fiquei chocada. E triste de uma forma tão intensa que não consigo sequer verbalizar. Quando trabalhava com revisões, no início da minha carreira como escritora, cheguei a pegar alguns trabalhos assim. E, em todos eles, me recusava a continuar revisando caso a autora não mudasse a cena. Um simples “não quero” seguido de ato sexual é estupro. Uma cena de uma mulher completamente bêbada seguida de ato sexual é estupro. Não podemos deixar que isso seja o normal. Tais comportamentos possessivos e abusivos devem ser recriminados. Principalmente porque vemos que algumas mulheres enxergam isso como uma característica positiva nos personagens. “Ele a ama tanto que não deixa nenhum outro homem chegar perto.” Pensamentos como esse devem ser desconstruídos. E já! Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você usa “book trailers”(7) como uma de suas estratégias de divulgação. Poderia nos falar um pouco sobre isso, especialmente, visando quem ainda não conhece esse tipo de vídeo? Gostaríamos também que falasse sobre a produção desse material e de onde surgiu essa ideia. Isso tem a ver com algum projeto editorial específico do formato e-book? Como você avalia o impacto desse tipo de divulgação? Em que medida isso amplia seu público leitor? Mariana Monni: Eu usei book trailers no passado. Não uso mais, porque é uso indevido de direitos autorais. Não critico quem usa, de jeito nenhum. Cada um sabe a melhor forma de divulgar seu trabalho. Porém, assim como detesto ver meus livros serem distribuídos sem meu consentimento, tento não fazer o mesmo com o trabalho alheio. Às vezes, acabo cedendo, confesso. Mesmo assim, sei que o público leitor adora ver a cena. É como se estivessem assistindo ao filme do livro – sonho de qualquer leitor voraz. Na época, uma amiga minha, também autora, indicou um canal no YouTube que produzia os vídeos. A mulher que realizou os meus book trailers fez um trabalho incrível! De fato, as vendas aumentaram bastante. Hoje em dia, sempre que faço leitura coletiva dos meus livros, as leitoras pedem os avatares – artistas que, fisicamente, representam os personagens. São essas imagens de artistas, representando os personagens, que acabo usando ocasionalmente. Acho muito interessante essa ideia de visualizar também. É trazer para o real aquilo que estava no abstrato. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Por fim, sabemos que está no forno uma nova série de livros chamada "YA". Você poderia nos falar um pouquinho sobre ela e explicar como as questões identitárias aparecem nesse trabalho? Mariana Monni: Eu sempre escrevi livros adultos. Agora, durante o período de responsabilidade social, me veio à mente uma história jovem e bastante crítica. O livro se chama “A Imperatriz” e será lançado na Amazon no dia 23 de setembro. Inclusive, já está na pré-venda. Essa história é diferente de tudo que já escrevi, estou muito feliz com a receptividade que está tendo pelos blogueiros que estão participando da leitura antecipada. Por mais que a história seja classificada como Jovem Adulto e Fantasia Urbana, ela traz uma intensidade muito grande. A personagem principal é uma carioca suburbana que se muda para São Paulo e consegue uma bolsa de estudos em uma escola de elite. Dentro dessa escola, existe um sistema chamado Dinastia. Porém, a Dinastia é dividida em dois segmentos: a Nobreza e os Servos. O sistema é, teoricamente, meritocrático, e diz que, se o aluno se destacar nas cinco provas estabelecidas, ele fará parte da classe nobre. Caso não consiga, deverá servir aos demais alunos. Na escola, os nobres fazem o que querem, sem se importarem com as consequências e com a aquiescência dos docentes. A protagonista, que é constantemente ridicularizada por sua classe social, tem como objetivo lutar contra esse sistema. Aos poucos, ela percebe que, para fazer parte da Nobreza, é preciso seguir um padrão: branco, bonito, rico, magro e heterossexual. É em torno dessa ideia de discriminação e de falsa meritocracia que gira o livro. Como a personagem principal lida com o bullying e luta contra os preconceitos. Fiquei muito feliz quando os blogueiros vieram elogiar a maturidade da história. Principalmente quando enxergaram o simbolismo relacionado à Dinastia. Há muito tempo quero abordar alguns assuntos mais socialmente relevantes nos meus livros. Nos meus chick lits (8), tenho personagens gordos, gays e negros, mas nunca problematizados. Com “A Imperatriz”, espero conseguir mostrar um pouco do meu senso crítico. Estou louca para saber como ele será recebido pelo público. Inclusive, faço um apelo: comprem meu livro! Ele está na pré-venda, pelo precinho lindo de R$2,99 (Disponível em: http://bit.ly/AImperatriz). Um livrão de 500 páginas! Sou escritora independente, mãe-solo e tenho boletos! Ajudem a escritora nacional. De qualquer forma, peço de todo coração, que vocês leiam mais livros brasileiros. Nós sofremos muito preconceito. Vejo muita gente dizer que prefere livros internacionais, que não gostam de histórias que se passam no Brasil. Que a qualidade dos nossos livros é muito inferior. Um livro estrangeiro, além de passar por todo aquele processo de publicação que expliquei mais cedo, na verdade, passa por ele duas vezes. O livro é trabalhado novamente após a tradução. Por favor, vamos mudar esse pensamento! A literatura brasileira contemporânea é riquíssima. Tem muito autor que merece ser lido. Quem quiser me pedir indicações, minhas redes sociais estão sempre abertas para conversarmos. Redes sociais: Instagram @marianamonni Facebook Livros da Mari Monni Twitter @marimonni. YouTube - http://bit.ly/MariMonni Notas (1) watpad: é uma plataforma digital que permite compartilhar livros e contos gratuitos a uma comunidade virtual de leitores e escritores do mundo inteiro. (2) plot: é o enredo da narrativa, o encadeamento das ações a serem realizadas pelos personagens na ficção. (3) daddy kink: é um fetiche envolvendo o daddy/mommy (adulto/ativo) e o baby (jovem/passivo). Os limites físicos e sexuais são estipulados entre as partes previamente, abrange relações de poder, com destaque para o contexto infantilizado, com expressões, acessórios e, por vezes, roupas de bêbes. (4) CEO: a sigla significa Chief Executive Office. No Brasil, é o Diretor Executivo de uma empresa. Nos romances, são sempre os homens mais importantes da empresa, normalmente os donos. (5) role play: é uma encenação. Realizar a simulação de uma situação real. (6) BDSM: é um conjunto de práticas consensuais envolvendo Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadomasoquismo e outros padrões de comportamento sexual. (7) book traillers: é uma estratégia de divulgação de e-books. É, basicamente, um videoclipe criado para anunciar um o livro digital. (8) chick lits: é um gênero de ficção dentro da narrativa feminina que aborda questões das mulheres modernas.

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Entrevista com Dani Balbi
Entrevista com Dani Balbi

Esta entrevista foi realizada pela nossa editora Flavia Veras em dezembro de 2018 no Instituto de História (IH) da UFRJ com o objetivo de ser a base do artigo “travestis e transexuais: a busca pela cidadania antes do fim do arco-íris”, que compõe a coletânea “História Oral e direito à cidade: Paisagens urbanas, narrativas e memória social” organizado pela professora Andrea Casa Nova Maia. Grande parte dessa entrevista não está publicada no artigo e seria uma pena se ela se perdesse. Trata de temas como trabalho, educação, política, preconceito, os impactos do golpe de 2016, organização social, judicialização da política e a possibilidade de ser buscar a felicidade. Vimos aqui uma oportunidade de compartilhá-la com vocês. A entrevista acabou se tornando uma grande conversa entre mulheres progressistas e, por isso, foi preciso adaptar as perguntas e organizar as respostas. Esperamos que desfrutem das questões tão instigantes trazidas pela professora Dani Balbi e aproveitamos também para agradecê-la pela autorização para publicarmos este material. Dani Balbi concorreu à vaga de deputada estadual no Rio de Janeiro no pleito de 2018. Em sua campanha buscou ser reconhecida como mulher trans, negra e da periferia, uma vez que nasceu e passou sua adolescência no bairro do Engenho da Rainha, localizado na zona norte do Rio de Janeiro e marcado pela presença de comunidades. Além de militante pelo PCdoB há muitos anos, Dani também é ativista em grupos LGBT+. Cursou Faculdade de Letras, e atualmente é professora da rede pública e doutoranda em Letras na UFRJ. Flavia Veras (FV) – Dani, você poderia traçar um panorama da questão da visibilidade trans e as interdições e usos dos equipamentos urbanos e dos serviços públicos para pessoas trans e travestis? Dani Balbi (DB)- Atualmente está sendo muito o processo higienizante da transexualidade. No Brasil, por muitos anos esteve vinculada a uma tradição ligada ao reconhecimento da identidade travesti, que era claramente interditada com relação, por exemplo, ao uso de banheiros públicos, a expressão dessa identidade no ambiente escolar, no mundo do trabalho. E a gente sabe no que deu: subemprego, marginalização, prostituição compulsória, exploração da imagem de uma forma muito grotesca. Nos últimos 30 anos surgiram alguns ícones que podem traçar um pouco uma linha de continuidade nesse sentido. A transexualidade passa, então, a se descolar da travestilidade por uma série de agenciamentos - seja porque algumas pessoas da classe média e da classe alta começam a apresentar desfloria de gênero e era preciso dar uma resposta para essas pessoas que não fosse a travestilidade, que está muito ligada à marginalidade, à marginalização da vida, das atividades enquanto cidadã. Então começaram a ser criados expedientes de separação entre a travestilidade e a transexualidade. Figuras como Roberta Close e tantas outras mulheres transexuais são emblemáticas nesse sentido. A origem social dessas personalidades não era a classe trabalhadora ou classe média baixa, elas vieram de famílias mais abastadas e começaram a afirmar a transexualidade em um lugar que é muito perigoso, o da higienização. Nessa pegada começou um processo de construir caminhos possíveis para sancionar o acesso delas a determinados espaços, seja escolas, universidades, ainda que com muita dificuldade. No meu caso, eu sinto que à medida que eu fui apresentando a transexualidade nos marcadores prototípicos eu fui tendo mais facilidade para acessar determinados lugares. Na universidade, que foi o ambiente onde eu afirmei essa minha identidade transexual, mesmo não passando pelo processo[1], por ser um ambiente mais oxigenado, mesmo que houvesse muitos atravessamentos, muitas disjunções, existia o esforço. Eu fiz um curso de humanas, fiz Letras. Existia um esforço por parte da comunidade acadêmica, dos docentes, dos técnicos em entender e traçar a transexualidade da devida forma, mas depois disso vem o mercado de trabalho... Eu lembro que quando saí da universidade foi um choque enorme. Eu lembro de ter receio de entrar no banheiro feminino, tenho receio de apresentar a transexualidade na sala de aula, de me apresentar como mulher trans - e isso vai criando aquela situação de androgenia. E como meu caso era um caso agudo de desfloria de gênero, me fez chegar a um quadro de depressão tão forte que eu precisei me ausentar do mercado de trabalho e de atividades sociais mais gerais para poder passar pela transição higienizante e me sentir, de certa maneira, pronta, em uma perspectiva de aceitação e acolhimento social do senso comum, para me reconduzir às atividades sociais. Isso foi há cinco, seis anos atrás, como uma mulher que observou os processos, os protocolos dessa transexualidade pautado na ótica performática binária. FV – Como essa questão se tornou formalmente uma pauta política na sua vida? DB - E veja, eu sou atuante no PCdoB desde os 15 anos, passando por vários movimentos, e o movimento LGBT+ é muito recente dentro do partido comunista. Então quando a minha transição estava bastante encaminhada é que a gente - eu e outros articuladores no Brasil - começamos a pensar a transexualidade, o movimento LGBT+ no partido. E a gente já vinha, de certa maneira, com bastante atraso nesses debates. E eu me desafio dentro de tantos outros movimentos, movimento de mulheres, movimento de negros, movimento de professores (que eu estava entrando também), entrar no movimento LGBT+ pensando as pautas de uma lutante classista. E eu vi que aquelas meninas travestis/transexuais começavam a demandar a aceitação delas, e eu acho que é esse o momento que a gente vive nos últimos anos. Um movimento de aceitação de corpos não conformados, não performados plenamente (ou “satisfatoriamente”) entre aspas, dentro desse binarismo de gênero, dessas performances e expressões marcadas, socialmente aceitas, para que pudessem dar largas à sua forma de travestis, transexuais, transgênero que seja, sem que seja reprimida. Nesse sentido, o avanço das lutas, no aspecto da garantia do uso do banheiro, resultado daquela manobra jurídica muito feliz que garantiu, além do uso do banheiro, a auto determinação de gênero e a qualificação civil, que resultou na adoção nome social, são importantes. São perspectivas de apresentação de uma identidade que não passa mais pelo senso comum, mas passa pelo indivíduo se reportar e se afirmar enquanto pessoa, sem que qualquer gênero que seja isso ou aquilo compulsoriamente – e que seja respeitado. O direito do indivíduo se autodeterminar passa a ser debatido. No meu tempo... Eu sinto esse recorte muito claro... O estabelecimento de normas e padrões do que é gênero e sexo, feminino – masculino, que você deveria se adequar aquilo ou não. Eu acho que existe uma mudança de mentalidade, inclusive eu acho que o próprio julgamento muda isso. Nesse sentido, o acesso de pessoas transexuais à universidade, à escola, ao mercado de trabalho formal, são pautas que caminham junto dessa necessidade, talvez, potência de apresentar a autodeterminação de gênero como um problema, na verdade, como uma solução de indivíduo para indivíduo na esfera privada que precisa ser respeitada na esfera pública. E não ao contrário. E aí eu começo a perceber o grau também de dificuldades que eu teria, mas que talvez por buscar uma perspectiva muito enquadrante eu me furtei de ter. Óbvio que tive alguns embates no colégio particular que eu dava aula no início da transição. Óbvio que na rua eu percebi que as pessoas me olhavam quando eu ainda estava em uma transição muito andrógena, mas eu sempre me furtei desses debates e nesse momento eu não atuava tanto no movimento LGBT. E a perspectiva é essa, quanto mais a gente afirma a autodeterminação de identidade enquanto direito do indivíduo, do sujeito, do cidadão, mais a gente deixa de pensar na conformação binária de padrões de entendimento do que é masculino e feminino, ou sexo, no sentido mais estrito e conservador, e começa a naturalizar ou forçar que as instituições ou as estruturas sejam ocupadas por pessoas transgênico. FV - Como você entende a participação de políticas públicas e ONGs na integração de grupos LGBT+, sobretudo travestis e pessoas trans, no todo social? DB - É crucial. Eu tenho plena convicção que o acesso ao trabalho nas relações capitalistas do mundo contemporâneo é primordial para que nós tenhamos a garantia de nossa cidadania. A construção do sujeito trabalhador e a garantia do trabalho é aquilo que faz a gente se construir socialmente sem vulnerabilidade. Óbvio que o trabalho precisa ser pensado nesses termos. Então, eu acho que garantir que pessoas transexuais possam estar em um ambiente escolar sem ser expulsos é a primeira medida que você precisa tomar para a integração efetiva dessas pessoas. Daí o nome social é importantíssimo no ensino básico. Eu não sei dizer agora, mas tinha uma portaria, eu não sei se a validade caiu ou se ela está válida. Foi uma portaria assinada pela Dilma que garantia a adoção do nome social nas instituições públicas e no ensino básico e eu não sei em que pé anda. Eu espero que ainda esteja em vigor[2]. Depois veio uma série de leis estaduais que vão replicar e normatizar, como no estado do Rio de Janeiro, e orientar o uso do nome social. Existe uma lei para aplicação do nome social nas repartições públicas no ensino médio. Existe toda uma autonomia do sujeito quando vai procurar emprego, quando vai se matricular em alguma instituição de ensino e no âmbito da universidade também. E, obviamente, a atuação de entidades como a ANTRA, o Grupo Gay da Bahia, foram importantíssimas, na articulação do diálogo com governos progressistas e conseguir implementar pautas avançadas. Agora, por exemplo, eu vim de uma formação no Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) - é bom divulgar - que a UBER solicitou ao CIEE jovens transexuais para ocupar uma quantidade grande de vagas para trabalhar no escritório da UBER. E pediu jovens transexuais. É uma série de iniciativas que, por conta do esforço militante de algumas entidades, alguns segmentos, são iniciativas que acolhem a diversidade e as pessoas transexuais. Então é importantíssimo! [Sobre o nome social] depois teve a súmula, no final do ano passado, foi normatizada agora nesse ano, que orientava a requalificação sem a necessidade de pleitear um judiciário na primeira instância. Ou seja, você vai direto ao cartório, isso é um avanço enorme. Infelizmente esses projetos são também retrato da contradição do Brasil moderno. Congressos que deveriam ser a voz do povo, cada vez mais diversos em sociedades mais complexas, são cada vez mais conservadores, como é o caso do Brasil e de outros países onde a contradição capital/trabalho se acirra demais. Nesse sentido, tem cabido ao judiciário progressista e às outras instituições de poder, que atuam na arena do tecido institucional do Brasil, por exemplo, garantir direitos de populações historicamente marginalizadas, vulnerabilizadas, com a cidadania à deriva. Foi o que aconteceu através da judicialização da política, os últimos anos foram anos de judicialização da política. FV – Como você colocou, nós temos um avanço conservador, ao mesmo tempo que existe um avanço organizativo. Sabemos por dados recentes que, há alguns anos o Brasil tem sido o país que mais mata pessoas trans no mundo e isso tem vindo a público hoje, mas por que não veio antes? A gente deve ficar pessimista ou otimista? DB - Eu estava falando sobre isso com umas amigas do PCdoB e de outros partidos. Estávamos fazendo essa reflexão, algumas foram eleitas. Nós vivemos um período privilegiado no que se refere a observar a história. Em um processo que a gente chama de ranhura. Eu acho que os movimentos sociais avançaram, e muito! Organizaram-se! Isso porque houve abertura democrática para que eles se organizassem, para que nós nos organizássemos. Obviamente, havia uma pressão conservadora, mas no ambiente de respiro a gente consegue se organizar, dialogar com agentes da institucionalidade e consegue vitórias. Nós nos organizamos com as vicissitudes do próprio movimento. Mas eu acho que a força dos movimentos sociais tem a ver com a abertura democrática. Com esse alargamento dos governos progressistas, isso gerou uma onda reacionária, pessoas que reagem ao avanço progressista e vão se organizando também. Acho que isso é da política. A derrota ou a vitória dos setores conservadores ou progressistas dependem em larga medida da capacidade de mobilização dos agentes políticos da rua - que não estão na estrutura de poder - dos movimentos sociais e, também, do contexto e da conjuntura política. Então, eu acho que a gente avançou muito, a gente se fortaleceu muito. Houve uma onda reacionária, conservadora, como resposta a esse fortalecimento, forçando de certa maneira os entraves de uma estrutura que é extremamente LGBTfóbica, racista, misógina, enfim, elitista. E eles respondem com violência, com recrudescimento. Claro que há alguns consensos. Porque a arena da política no campo do legislativo é muito amorfa. A arena de outras instituições mais consolidadas, mesmo que sejam conservadoras, são mais sólidas e tendem a avançar com mais continuidade ao longo da história. Eu tenho essa impressão. Por isso que a gente consegue dialogar com alguns magistrados mais progressistas, principalmente no que se refere ao direito privado, às pautas subjetivas. A questão do esclarecimento ainda é muito presente nesses juristas. Acho que nos últimos anos esse movimento de ascensão e dissenso vinha com força, enquanto a gente elegia congressos cada vez mais conservadores, mas por outro lado as ruas respondiam e o judiciário sempre estava a favor. Embora o legislativo devesse ser a voz do povo e refletir essa diversidade, como isso não acontecia, o judiciário tomava a vez de ser, também com todas as aspas, a “força ilustrada e progressista”. Nos últimos dois anos, acho que com o golpe[3]- que foi jurídico, midiático, político - ficou evidente que o judiciário também de certa maneira se corrompe. Porque no frigir dos ovos o que interessa é garantir privilégios de alguns segmentos. Mesmo que tenha avançado em pautas importantes, como os direitos da população LGBT+, o judiciário está pronto inclusive para derrotar ou se omitir, isso para mim fica bem claro, em momentos de confronto mais agudo que a gente pode viver no próximo ano. FV – Dani, fale um pouco sobre a questão da violência policial e o cumprimento dessa legislação que tem se mostrado mais progressista. DB - A Jandira [Feghali] fez uma emenda explicitando a necessidade das mulheres transexuais serem atendidas pela Lei Maria da Penha. Existem casos são bizarros, porque às vezes se dá medida protetiva, às vezes não. Mesmo com a requalificação civil já houve casos que mulheres requalificadas, com o gênero feminino na certidão de nascimento, não terem a medida protetiva sabe-se lá porque razão. Mas há avanços importantes, que eu acho que vêm para envernizar essas instituições que são violentas com um caráter ilustrado, um caráter de progresso, um caráter de caminhar rumo à história da inclusão, da diversidade e, talvez, esconder mesmo a sua violência estrutural, a forma como cotidianamente se inviabiliza a vida e o trânsito das pessoas trans e travestis na cidade, no espaço público. Principalmente aquelas, não só, mas principalmente, aquelas que estão cada vez mais distantes dos espaços institucionais, que não têm a quem recorrer, que não têm essas seguranças estruturais. De certa maneira - não sempre - a polícia é truculenta, é transfóbica, mas em algum momento também garantem o tratamento menos violento. Quanto menos segurança institucional você tem, no caso de mulheres transexuais pela prostituição compulsória ou enfim qualquer outra situação de extrema vulnerabilidade, a polícia é violenta. Isso cria, de certa maneira um código de conduta. Acho que enquadra muito. Claro que é importante você ter o avanço do reconhecimento da autodeterminação de gênero. É claro que é importante você ter o espaço da polícia como um espaço de proteção para pessoas LGBT+ de forma clara. Mas isso cria um consenso sobre como a gente precisa lidar com nossos corpos, né? Acho que todo movimento de inclusão em sociedades não revolucionadas, em sociedades capitalistas, de classe, eles tendem a orientar um comportamento geral da classe trabalhadora e aí é uma barganha. Se você é uma pessoa transexual ou homossexual, para ganhar esses direitos você precisa se enquadrar em determinados paradigmas. É sempre um pouco isso... Eu sinto sempre um pouco isso. É claro que eu posso sofrer transfobia, eu posso sofrer violência, porque eu sou uma mulher negra transexual andando na rua. Mas, como eu estou de certa maneira, como outras amigas, enquadradas, seguras em determinadas estruturas, instituições, mesmo que seja documental, tenho certa segurança. Não profunda, porque a polícia vai ser violenta comigo, vai até me dar um tratamento diferente, e na universidade também, mas essa segurança existe à espreita, porque eu estou enquadrada. Porque eu fui me enquadrando nesse processo. “Dar” direitos nessa sociedade de classe é um movimento forçoso de enquadramento. Você precisa trabalhar, você precisa produzir mais-valia. Você precisa, enfim, acatar o código civil, senão você incorre em crimes. Tem uma série de condutas que você precisa ter para ter acesso a esses direitos. Você precisa não estar com outras vulnerabilidades acumuladas, no caso de pessoas transexuais. Por que senão você não vai ganhar esse direito ao tratamento como cidadã de direito. Eu vejo muitas meninas que, porventura, se prostituem, que já tiveram envolvimento com o tráfico de drogas, de alguma maneira, de alguma forma, por alguma ponta. Algumas meninas que cometem pequenos delitos, porque é tudo que lhes é entregue. Muitas meninas negras, e quanto mais negras são as transexuais, maior a incidência de passagens pela polícia ou mesmo de encarceramento, desrespeito à identidade de gênero. E aí é isso, se elas estão enquadradas, não conseguem na sua situação de classe, na sua situação de negras no Brasil, acessar qualquer tipo de estrutura mínima. Elas estão mais vulneráveis. É aí que a transfobia aparece mais claramente. Não é apenas porque elas são vulneráveis. É porque elas são MULHERES TRANS VULNERÁVEIS. Então desrespeitam a identidade de gênero delas na primeira hora. E os direitos dela com o Estado de mulher transexual desaparecem instantaneamente. Porque ela não cumpriu os enquadramentos para ser uma “cidadã de bem” aos olhos da ordem e do capital, ela não tem mais o direito de ser entendida enquanto mulher, pessoas trans, de ter acesso a esses espaços. É um mecanismo de adequação, um mecanismo de coerção dentro dessa estrutura. FV – Como você percebe pessoalmente esta cansativa necessidade de a todo instante se autorregular em sua vida? DB - Eu acho que a sociedade está pronta para não respeitar. Ela não respeita a transexualidade. Vamos pensar nas estruturas. As estruturas existem para impedir gente como eu, por exemplo, até pouco tempo, até pouquíssimo tempo. Isso é escandaloso! Quando eu tirei os meus diplomas eu não podia retificá-los. Tem sete anos que eu tirei meus diplomas. Só que essas medidas têm no máximo três anos; minha requalificação civil saiu no final de 2015, tem agora três anos, e saiu só do nome, do gênero saiu há duas semanas. A juíza condicionou uma série de questões, e aí sim, eu posso mudar a documentação... As estruturas são feitas para que eu não exista, para que eu não seja a Danieli Balbi. Agora eu posso ser Danieli Balbi, mas se eu estou muito enquadrada não é que a transfobia desapareça, ou que ela não exista, é que ela é um instrumento a serviço da manipulação das estruturas para entrega de direitos. E aí quando você não se enquadra, e o cidadão que pleiteia direitos precisa se enquadrar, perde imediatamente os direitos e isso fica flagrante. A entrega da cidadania é embargada pelas estruturas! É o medo de algumas meninas... FV – Seus alunos do CAP-UFRJ protagonizaram um movimento muito carinhoso que chegou a sair nos jornais. Eles fizeram uma vaquinha para custear sua cirurgia[4]. Como é sua vivência como professora? Foi lindo!! Eu até falei: “gente, eu não posso exigir presente dos dias dos professores nunca mais”. Por conta dessa insegurança que já falei para você, eu sou professora, eu sou extremamente séria na sala de aula. Em poucos momentos eu me dou o direito à descontração. Há algum tempo eu tento lidar melhor com isso. Mas por que eu sou extremamente séria? Porque no momento que eu não for séria tem uma probabilidade enorme de alguém querer me tirar daquele ambiente, porque eu sou trans. Ou alguém dizer alguma coisa que tem não tem nada a ver com transexualidade, mas que está ligada à transexualidade no inconsciente coletivo, que é transfóbico ou no senso comum, quando forem julgar um processo, por exemplo, de desrespeito a um aluno, vão julgar não favorável a mim porque eu sou trans. Isso não vai estar dito nos autos do processo, mas essa transfobia está ali. Então eu preciso ser extremamente coagida, inserida, formatada; é uma vigília constante. É isso que você falou, é cansativo! É uma vigília constante! Eu preciso ser absolutamente correta, eu preciso entregar os trabalhos em dia, preciso preencher os diários. Preciso ser a primeira professora e ter um espaço seguro de relação com os alunos. Enquanto outros professores conseguem ser mais. Eventualmente em uma festinha da escola eles dançam funk. Eu não me permito dançar funk na festinha da escola. Porque imediatamente aquilo pode gerar alguma coisa. E por qualquer movimento de saída de uma linha estabelecida eu posso perder direitos, ou pode ocasionar alguma coisa que no fundo vai me retirar direitos, me tirar do espaço, porque quando os agentes do poder forem analisar eles vão estar imbuídos de transfobia. Depois de dez anos de magistério os alunos me respeitam mais. Na verdade, não é que me respeitam mais... Melhor... Eles não se importam com a minha sexualidade, eles naturalizam. O problema deles é se eu dei trabalho ou se eu não dei trabalho. Se tem prova ou se não tem prova, se está fácil ou está difícil. Se eu abonei a falta... A dinâmica da escola. Isso é o que é importante. Se fosse há dez anos, eu acho que na escola que eu estudei, que era uma escola pública mais progressista, os alunos não seriam transfóbicos, ou não totalmente transfóbicos, mas seria um burburinho. Na melhor das hipóteses seria um grande burburinho na escola: “a professora trans”... Hoje em dia nem isso tem. É pontual, ali ou aqui, pelo menos comigo. FV – Atualmente estão muito em voga as abordagens inspiradas no conceito da interssecionalidade. Dentre aqueles que pesquisam trabalho ainda é um terreno bastante movediço e uma das questões colocada é: qual é o lugar da classe no conjunto do gênero e da raça? Como você lê esse debate? DB – Eu acho que não tem jeito, a gente vive em uma sociedade capitalista. Até a construção da diferença serve ao capital, não é que antes de tudo venha a classe - seria uma compreensão pobre dos movimentos do capital, e, por conseguinte de uma luta classista - mas é que a classe está em tudo, mesmo na transexualidade, mesmo no racismo. Claro que uma pessoa rica, burguesa, vai sofrer racismo; como uma transexual rica vai sofrer transfobia, mas de forma bastante diferenciada em relação a mim ou outras meninas em uma ponta mais vulnerável ainda. Por exemplo, onde você não consegue estudar, onde chega pouco debate? Nas periferias, nos subúrbios do Rio! E não pára por aí, quanto mais vulnerável, mais exposta a ISTs, o que não é uma regra, mas com debates menos calorosos, algumas coisas chegam pouco. A própria ideia de acessar o transporte público e ser respeitada, dependendo do lugar geográfico que você está, tem mais receio. E não à toa eu fui migrando. E não foi só comigo, mas com outras pessoas que têm outros atravessamentos, pessoas negras, pessoas trans, pessoas LGBTs em geral, mas que são pessoas que vieram de bairros ocupados majoritariamente pelas classes trabalhadoras foram migrando mais para o centro da cidade, que é um lugar que você tem uma classe média que acessou a alguns debates e é coagida a respeitar algumas lógicas do espaço público. É uma outra lógica de coação. Ou seja, é uma questão de classe também: à medida que a gente vai mudando, vai se reposicionando na cadeia de trabalho e consequentemente na posição geográfica da cidade, a coisa vai se diferenciando. É óbvio! E a campanha[5] foi ótima [e um momento importante para perceber algumas coisas]. Eu confesso para você que eu ia muito ao Engenho da Rainha, mas eu fui cortando laços com algumas pessoas, não porque eu quis, mas porque eu segui caminhos diferentes e quando a gente toma caminhos diferentes, a gente acaba não mantendo alguns laços, perde o contato. Eu ia muito falar com alguns familiares, mas com muito medo, porque era uma comunidade muito transfóbica. Eu sofri muita violência no Engenho da Rainha. Isso porque a sociedade é transfóbica e as pessoas acabam recebendo a transexualidade pelo que a mídia hegemônica veicula - em uma perspectiva grotesca, ironizante. Assim, acabam reproduzindo esse tratamento com pessoas transexuais. Muito machista. A forma como se expressa o machismo e a misoginia na burguesia é através das relações simbólicas, obviamente que há violência física, violência psicológica, mas a violência patrimonial, por exemplo, é muito mais desenvolvida nas classes mais abastadas – na classe média e na burguesia. O expediente da violência patrimonial não é tão exercido, por exemplo, nas classes trabalhadoras, em contrapartida o machismo se apresenta de uma forma mais brutal, no geral. Não porque aquelas pessoas sejam brutais, ou que seja sempre assim, é muito mais complexo que isso. Mas isso indica como essas relações de classe são sempre vetores dos quais a gente não pode se afastar. Eu tinha, por exemplo, me afastado daquela comunidade, mas eu voltei. Eu lembro [olha como as coisas são interessantes] que as pessoas ficavam impactadas, claro, pelo fato de eu ser transexual, mas mais pelo fato de eu ser professora. Existia um tratamento diferente, porque eu estou em uma estrutura, porque eu atuo diretamente em um aparelho ideológico do Estado, então tem essa ideia para as pessoas de alguém que deu certo [sobretudo em um lugar que tem menos professores...]. Então, você se torna uma figura mais mítica, em um lugar distante, sobretudo, quando a maioria das pessoas, ou parte grande, não tem acesso ao ensino superior. Mas eu sou trans, e as pessoas sabem muito bem que eu sou trans. Elas me viram antes da transição. Eu me senti uma pessoa meio, meio.... é um respeito diferenciado. Parece que eu tenho alguma coisa que é muito peculiar. Nos debates que a gente fez na comunidade falávamos muito de educação, respeito... Foi o 3º lugar que eu fui mais votada. Eu tenho muito orgulho disso! De ter sido a mais votada no Engenho da Rainha. Primeiro foi Santa Teresa, depois Vila Isabel.... 7 – Mas de uma forma mais geral, como você entende a relação das pessoas trans com a periferia? DB - É um espaço muito curioso. Pode existir certa dificuldade de entender a pessoa trans plenamente como mulher. Tem uma questão que é a cirurgia. Na cabeça da maioria das pessoas a cirurgia é determinante. Na periferia tem a travesti. Eu acho que eu sou a primeira trans operada que muitas pessoas conheceram na periferia, ou pelo menos no meu espaço de periferia. Existe um lugar da travesti, que é da mulher trans, que também é marginalizado dentro daquela comunidade, mas que é um lugar também a depender. Lembro de figuras que eram cabeleireiras, super cabeleireiras de bairro, que tinham seus casos com alguns homens e as pessoas comentavam, que respondiam com muita veemência à violência, porque era a forma que aprenderam a responder à violência. Eu lembro muito dessas figuras, lembro de algumas mortas por uma série de razões. E lembro de algumas que tinham um certo - não sei se posso dizer prestígio - mas tinham um lugar estável na dinâmica daquela comunidade que você não podia mexer. E tinham outras que não tinham tanto prestígio assim, que não galgaram esse lugar estável e foram mais violentadas. Mas ainda é tão marcado de estereótipos quanto é aqui... A transfobia é do sistema capitalista, é do não-binário. FV - Mas e essa questão da cirurgia? DB - É porque a maioria das mulheres transexuais não passam pela cirurgia na vida adulta, ou passam muito cedo, em geral muitas que adquirem o que a gente chama de “grau de passabilidade”, e elas não revelam. Como é o caso da Ariadna, mulher ligada a uma comunidade, ela teve um destino que também é um destino prototípico para algumas meninas. Foi aliciada por uma rede que eu chamo de “rede internacional de tráfico de mulheres”, porque se você é aliciada você tem que trabalhar. Tudo bem que ela não foi violentada, ela não teve assim, graus absurdos de privação, mas para mim ela foi aliciada por uma rede de tráfico de mulheres como muitas transexuais são. Ela foi para fora do Brasil, conseguiu mesmo dentro dessa rede guardar uma renda para passar pela transição, mesmo muito nova, uma hormonioterapia muito avançada e ela mudou completamente. Então a leitura social que se faz dela desde muito nova é de mulher. E quando ela volta para o Brasil ela vai para outra comunidade, e ela tem alguns relacionamentos e ninguém percebe. Poucas pessoas percebem a transexualidade dela, então ela está menos exposta à transfobia. Mas, no geral, algumas mulheres passam por isso mais velhas ou porque é pelo SUS ou porque tem que juntar dinheiro por muito tempo. Faz pouco tempo que se tem no Brasil o protocolo transexualizador; a lei é muito rígida. Agora não mais tanto. A gente tinha que atuar nas brechas da portaria. Até 2008 era proibido! Era proibido fazer em hospitais que não fossem universitários. Isso era uma loucura, imagina só! E alguns hospitais puderam fazer, e alguns hospitais podiam pedir para fazer. Diante do protocolo, que ainda não mudou, são dois anos de terapia, dois anos de hormonioterapia, dois anos de tratamento com equipe multidisciplinar. Claro que é importante passar por esse processo, mas lei é muito rígida, cria uma desconfiança quanto à transexualidade, ainda de certa maneira um olhar aberrante com relação à transexualidade, então a cirurgia ainda é para a maioria das pessoas um negócio assim... As pessoas ficam, falam... Tem amigas que enfim... (risos)... Mas não é comum. Mas lá é uma coisa muito... (como vou dizer?) Passar por um procedimento estético é muito chocante, principalmente esse, a ideia de transicionar o gênero cria um impacto, uma curiosidade, um olhar de ... As pessoas querem inquirir quem é você. Parece que você mudou, é uma coisa meio estranha. Mas com muito respeito. Eu sinto muito respeito da maioria das pessoas com quem eu convivo lá no Engenho da Rainha. Muito respeito! Admiração, também como eu sinto por outras pessoas que não acompanharam, que não vêm de ambiente periférico. De forma diferente e a cirurgia tem isso. Mas eu acho que é impactante para muita gente. [Mas sobre isso] Não tem mudar de ideia! Eu nem lembro mais, eu não lembro mais como era, eu não reconheço o meu corpo. Óbvio que eu gostei do resultado, eu fiquei feliz. Foi um procedimento exitoso, mas não está ligado a isso. Era impossível viver daquele jeito, porque o meu grau de desfloria era enorme. Tem transexuais que têm certos graus de desfloria que preferem não fazer a cirurgia, ou podem pensar mais um pouco - e não são menos mulheres que nenhuma outra mulher! Mas no meu caso não. Meu grau de desfloria era aberrante, era... Nossa, não gosto nem de lembrar! Foram os dois anos mais difíceis da minha vida. FV - Discutindo sobre a cidade, eu gostaria de tratar sobre a questão da visibilidade e do lazer. De uma forma geral, lazer está ligado a ir à praia, ao shopping, ao parque, e esses são, muitas vezes, espaços hostis para a população trans e travesti. Então eu gostaria que você falasse um pouco sobre essa relação entre militar - porque fazer-se presente nesses lugares é importante - e também ver um filme, o pôr do sol, enfim, usufruir de um tempo de lazer e relaxamento. DB - Eu não sei como está, eu acho que ficou para o ano que vem a votação da equiparação da LGBTfobia a outros crimes, não sei se ia ficar como crime hediondo, ou agravante[6]. Eu fiquei assim: mais uma vez, o judiciário tentando garantir a vida das pessoas trans e que fatura vai vir depois? Sempre pela via da violência, ou melhor da formatação do comportamento. Mas o acúmulo do movimento LGBT é o que neste momento a gente precisa pensar em criminalizar. A pauta da criminalização, principalmente para quem lida com o debate da negritude é muito perigosa, é muito cara. Porque todo movimento de criminalização vai ser refletido em uma sociedade racista na negritude, que é quem mais morre no Brasil, a gente tem um projeto de genocídio da juventude negra, de criminalização da pobreza negra, mas por outro lado você precisa garantir que as pessoas tenham acesso ao pôr do sol, ao shopping... O medo que a gente tem as vezes, eu ainda hoje tenho pavor de ser agredida nesses espaços. Vou a todos eles, vou ao cinema, vou ao teatro, mas eu tenho medo de ser agredida. Eu tenho medo de ser destratada. Eu tenho medo de não ser tratada no meu gênero, o feminino. O que para algumas pessoas é impeditivo. Então esse movimentos, de primeiro garantir a não violência a pessoas LGBT+ e depois uma série de protocolos de tratamento para pessoas LGBT+, sobretudo transexuais, em ambientes públicos vão garantir - eles tendem - e eu espero, que garanta o nosso acesso ao lazer, a ir à praia sem medo, usar um biquíni, e ir com seu companheiro ou companheira ao cinema e se beijar como qualquer casal, sem ser agredida por alguém. Enfim, e ter uma vida plena, que não seja uma vida sugada pela dinâmica do trabalho, mas que seja uma vida para a plenitude humana, das relações sociais que vão além das relações reduzidas ao mundo do trabalho. É isso! A plenitude de todos esses lugares, sobretudo o lazer, precisam ser garantidos. Inclusive você me provocou muito bem, porque eu sempre digo: cidadania é trabalho! Mas é mais que trabalho, passa diretamente pelo trabalho, mas passa também pela condição de existir, que em uma perspectiva ampla de cidadania ela vai muito além das relações de trabalho, e é necessário que se proteja as pessoas LGBT+ para que além de garantir a inserção de pessoas travestis, transexuais, LGBT+ no mercado de trabalho é preciso que se proteja o direito dessas pessoas de ir e vir, de ser felizes, de fruir o espaço público. Aí não tem jeito, seja pela educação dos agentes desses ambientes públicos, seja pela coação a qualquer tipo de violência a pessoas transexuais. [1] Cirurgia de redesignação de gênero. [2] Resolução homologada em 17/01/2018. Ver: http://portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/211-218175739/59221-resolucao-que-autoriza-uso-de-nome-social-de-travestis-e-transexuais-e-homologada-pelo-mec [3] Golpe parlamentar de 2016 que retirou Dilma Rousseff da presidência. [4]https://catracalivre.com.br/educacao/professora-tras-faz-cirurgia-com-ajuda-de-vaquinha/ [5] Dani Balbi foi candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro pelo PCdoB nas eleições de 2018. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=KNyMCUVF48Y&feature=emb_logo [6]Ver:https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/stf-conclui-julgamento-e-enquadra-homofobia-na-lei-dos-crimes-de-racismo.shtml

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Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira
Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira

#mulhereseditoras Hoje se inicia a série de entrevistas “Mulheres Editoras” realizadas pela Revista Mulheres do Fim do Mundo. Editada por seis mulheres, a MFM, contudo, não nasce sozinha. Entrevistaremos mulheres que trabalham na editoração de textos há muitos ou poucos anos, refletindo um espelho que lembra que nunca andamos sós: um lugar está infinitamente conectado a muitos outros - e outras, nas quais buscamos nos inspirar. Nesta edição entrevistamos a Maria Carolina Fenati, editora da Chão da Feira e professora. Formada em História pela UFMG, estudou literatura portuguesa contemporânea em Lisboa em seu mestrado e doutorado. Fundou a Chão da Feira em 2011, organizando a coleção Caderno de Leituras, a revista Gratuita e a publicação de livros junto a outras três mulheres. Mulheres do Fim do Mundo (MFM) - Você é uma das editoras responsáveis pelas Edições Chão da feira, um projeto gestado e gerido por mulheres. Conte-nos um pouco sobre como surgiu esse projeto e como ele vem sendo desenvolvido até agora por você e por outras mulheres. Maria Carolina Fenati (MCF) - A Chão da Feira começou com o primeiro número do Caderno de Leituras, em dezembro de 2011. Ou ainda, talvez tenha começado bem antes, quando comecei a imaginar modos de ler e escrever junto, de formar equipe ao redor da escrita. Quando fazia doutorado na Universidade Nova de Lisboa, vivia boa parte dos meus dias sozinha com os livros na biblioteca, o que continuo a adorar fazer. Mas queria fazer isso junto, conversar, praticar, enfim, era uma intuição de não ficar sempre só com aquilo que eu amava. Começou então esta ideia de publicar gratuitamente ensaios breves, e o nome da editora era o nome da minha rua em Lisboa, Chão da Feira. Fiz o caderno 1, e já no segundo número senti que algumas pessoas se aproximaram, tanto leitores como amigas que se tornaram editoras junto comigo. Quando publicamos nossos primeiros livros e o número 1 da revista Gratuita, já éramos uma equipe que, em grande parte, está presente hoje. Luísa Rabello e Júlia de Carvalho são amigas que adoro e editoras incríveis com as quais tenho a alegria de partilhar a editora, e a vida também. MFM - Na edição 100 dos Cadernos de leitura você compartilha um pouco da história dessa coleção, que veio de uma necessidade de escuta, da leitura e também da palavra como forma de estar junto. Você pode nos falar um pouco sobre essas diversas formas de partilhar a leitura? MCF - Só muito recentemente – na Idade Moderna – a leitura se tornou um gesto solitário. Líamos em público, e antes, as histórias eram ouvidas. Isso, digamos, na tradição ocidental do conhecimento, porque sabemos que há tantas e tantas culturas, inclusive no Brasil, em que a partilha das histórias é feita oralmente. A escuta é um dos sentidos profundamente ligados ao imaginário, é um dos sentidos ligados à uma postura ética de respeito ao outro, ao desconhecido. Por outro lado, há uma solidão da escrita que é inegável e de algum modo essencial; e há também a solidão do autor, a solidão da pessoa que escreve, o que não precisa ser necessariamente assim. Aprendo muito conversando com os autores dos textos que publicamos, aprendo muito com o processo de edição, esta espécie de laboratório das palavras. Há ainda qualquer coisa que tem a ver com participar na democratização do acesso ao livro, à escrita e à leitura, um posicionamento público e político que a paixão pelos livros me faz desejar. Isso, por um lado, implica em publicar textos cujo acesso é gratuito, e outros com um valor acessível. Por outro lado, também implica a abertura para formas de pensamento variadas, que observem o que imaginamos estar a espera de ser pensado, isto é, o que não sabemos mas de algum modo está aqui, ou ainda, como escreveu Agamben, os escuros do contemporâneo. MFM - Você conta, também na edição 100 dos Cadernos, como a experiência de deslocamento geográfico operou igualmente um deslocamento nos textos lidos e publicados; a atenção se voltando às distintas epistemologias ameríndias do sul, na investigação sobre a sabedoria das plantas... Você pode nos contar um pouco sobre esses diferentes deslocamentos e como eles se relacionam? MCF - Este caderno 100 foi uma edição comemorativa no qual decidi contar um pouco a história da coleção. Não havia entendido esta história, ou melhor, não havia tentado traça-la antes com tanta clareza quanto fiz quando escrevi o caderno. É engraçado como, às regiões geográficas, corresponde um certa região bibliográfica e do imaginário. O cardápio de autores e mesmo de questões que circulavam na universidade em Lisboa era fantástica, e muito centrada nos autores europeus. Aprendi imenso ali, e sou muito grata. Quando vim para o Brasil, outros autores surgiram, e também outras questões. Não há que negar que aquilo que pensamos está muito ligado aos outros sentidos, quer dizer, ao que vemos e ouvimos, ao que cheiramos, ao que está ao nosso redor. O cheiro de queimada, para dizer algo que perturba o nosso pensamento hoje, deve ser sentido por todo o mundo, mas ele é mais intenso aqui. Por outro lado, a certeza de uma espécie de limite civilizatório, ou ainda, a sensação de que estamos presos num labirinto cultural foi, para mim, mais evidente diante da multiplicidade de culturas e cosmogonias ameríndias vivas no Brasil. Talvez seja a questão das vizinhanças, talvez seja uma espécie de reencontro que vivi, ou as duas coisas – de todo modo, pensar é também estar lado a lado com os outros. MFM - No Brasil, ainda nos deparamos com a pouca visibilidade de mulheres no mercado editorial, considerando que grande parte dos livros publicados pelas grandes editoras ainda são escritos por homens cis, brancos e héterossexuais. Todavia, observamos, atualmente, o surgimento de projetos como o “Leia mulheres”, desenvolvido em vários estados no país e que incentiva a leitura de livros escritos exclusivamente por mulheres. Vemos, também, a emergência de editoras independentes que divulgam as produções dos grupos minoritários brasileiros (mulheres, negros, lgbt+). Nesse sentido, você poderia nos relatar sobre a experiência de ser mulher, editora, inserida nesse mercado editorial brasileiro? MCF - É uma pergunta difícil de responder não porque não saberia o que dizer, e sim porque tudo o que eu faço é inseparável de ser mulher, das alegrias e dos desafios que isso me traz. Adoro ser mulher, o que, longe de ser algo pacificado, é uma luta e uma invenção. As questões que me proponho pensar na editora, desde as temáticas dos textos até o tempo do trabalho, tudo isso de algum modo é inspirado na mulher que vou me tornando e que tenho tentado que se desvie dos destinos da frustração e da amargura que tantas vezes me parece estarem à nossa espera no futuro. É engraçado que uma vez li num livro da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol que uma mulher dizia aos seus visitantes: “não é tu que me importa, é o seguinte”. Demorei anos para entender alguma coisa nesta frase, e outro dia imaginei que nela está uma das linhas de forças femininas que atuam em mim: importa a continuidade, não do mesmo, mas a continuidade variada da vida, o seu devir, os muitos modos como tudo continua. Esta confiança na vida, como vejo, é qualquer coisa de muito feminino e também infantil. Lembra da Ana Cristina César no poema “Cartilha da cura”? “As mulheres e as crianças são as primeiras que/ desistem de afundar navios”. MFM - Na reportagem Maternidade e criatividade, de 05 de maio de 2020, realizada pela Gianni Paula de Melo, você diz que “desde que você foi mãe, tudo está noutro lugar, e para onde olho encontro questões que a maternidade trouxe para o meu trabalho”. Como a maternidade foi capaz de transformar o seu processo criativo de escrita? Conte-nos um pouco sobre a ideia e a experiência da oficina Maternidade e escrita? MCF - A maternidade instaurou uma gagueira na minha voz. Não é a primeira vez que isso me acontece, ainda que nunca tenha sido tão forte como agora. Quero dizer com isso que perdi boa parte do que imaginava saber sobre o mundo e sobre mim, minhas narrativas caíram por terra e como um torrão se espatifaram. Tenho me exercitado por encontrar outras vozes, outros modos de dizer, mirando um pouco sem saber. É como se eu não soubesse o que dizer e ao mesmo tempo não pudesse me desviar de dizer. E isso, claro, no tempo que me resta para outras coisas que não cuidar das meninas, do trabalho, da casa, etc. Ainda assim, tem sido angustiante e divertido, maravilhoso e sofrido. A ideia da oficina de escrita e maternidade é, de novo, apostar em fazer isso – pensar, ler, escrever – juntas. Já houve algumas edições e em todas me emocionei muito com o que as mulheres têm a dizer. Dizer de si, estar à escuta umas das outras, escrever – é isso o que fazemos na oficina, e tem imenso sentido para mim. MFM - Nesse ano de 2020, lemos alguns artigos que demonstravam como a pandemia de coronavírus no Brasil afetou (e tem afetado) fortemente a produção científica das mulheres, gerando um cenário em que mais da metade das mulheres com filhos deixou de entregar artigos, enquanto apenas 38% dos homens com filhos (aproximadamente) apresentou a mesma queda de produção. Você poderia compartilhar conosco sua experiência relacionada à maternidade e às suas atuações profissionais em tempos de pandemia? MCF - Talvez não haja outra espécie no mundo que tenha tanta certeza de que vai continuar apesar de tudo (da destruição do planeta inclusive) e tão pouco cuidado e amparo com as crianças. Ninguém está nem aí para o perrengue que as mães vivem, digo isso do ponto de vista das instituições e do mercado, dos ambientes de trabalho, etc. Imagina que há gente que protesta por ver uma mulher amamentando em público! É inacreditável como esse começo precário, mágico, fabuloso e terrível da gestação e nascimento das crianças é denegado. Por aqui, tenho me desdobrado em muitas, e quase sucumbido muitas vezes. Arranco alguns minutos para mim, e isto tem sido fundamental. Confio muito na minha rede de apoio, e nas mulheres com quem luto. Outro dia li: “Todos os nossos filhos são a vanguarda de um reinado de mulheres que ainda não foi estabelecido” – Audre Lorde. MFM - Por fim, há algum texto, alguma proposta de escuta possível nestes tempos, que você indica para as leitoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo? MCF - Há pouco tempo ganhei de uma amiga, que também é editora na Chão da Feira, a Júlia de Carvalho Hansen, um livro incrível: Irmã outsider, de Audre Lorde (Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020).

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Entrevistas: Laura Erber, Zazie edições
Entrevistas: Laura Erber, Zazie edições

Hoje apresentamos a segunda entrevista da série “Mulheres editoras”. Editada por seis mulheres, a MFM, contudo, não nasce sozinha. Entrevistaremos mulheres que trabalham na editoração de textos há muitos ou poucos anos, refletindo um espelho que lembra que nunca andamos sós: um lugar está infinitamente conectado a muitos outros - e outras, nas quais buscamos nos inspirar. Laura*, antes de começarmos, gostaríamos de agradecer a disponibilidade para essa conversa. Nós, Revista Mulheres do Fim do Mundo, estamos produzindo uma série de entrevistas com mulheres, ou grupos de mulheres, que estão à frente de projetos editoriais, e a Zazie não poderia faltar. Pois, trata-se de uma proposta que admiramos muito. Por outro lado, como você mesma já falou em entrevistas anteriores, a Zazie é fruto de um trabalho quase artesanal, com uma estrutura pequena, inclusive de divulgação. Nossa revista tem um público, em grande parte, formado por mulheres estudantes de graduação e pós-graduação em todo o Brasil. A intenção é que possamos apresentá-la às nossas leitoras. 1 - Em conversa com a revista Bravo! você relatou que o projeto da Zazie, elaborado com Karl Erik Schøllhammer (como você, também pesquisador e professor), objetivava “criar bibliografia num sistema de acesso gratuito (open access) para democratizar a circulação de textos que intervêm de maneira contundente num determinado campo de conhecimento ou contexto de discussão”. Gostaríamos que você fizesse um balanço da experiência com essa forma de trabalho editorial, considerando-se que a editora está completando, agora, seu aniversário de 5 anos (12-12-2020). Mais especificamente: Como você analisa o impacto da Zazie em meio a um mercado editorial ainda tão monopolizado como o brasileiro? O acesso aos ensaios tem crescido? Vocês já conseguem delinear o principal público dos livros que publicam? É preciso dizer que somos realmente uma pequena editora, com uma equipe muito enxuta mas à qual sou extremamente grata, são profissionais excelentes, Maria Cristaldi é a designer, Angela Vianna e Denise Pessoa têm trabalhado comigo na preparação, e Cecília Andreo nas revisões. Eu atuo tanto na concepção das coleções e seleção dos textos, quanto na editoração, mas também na lida com editores para obter os direitos de tradução e publicação gratuitamente. Muitos autores me ajudam nessa etapa, mas sou, digamos, a editora e a minha própria secretária, além de faz tudo. Venho cuidando da divulgação e das campanhas de financiamento coletivo. Não me pergunte como consigo tempo pra isso, esse tempo, a rigor, não existe na minha vida, já que sou professora e pesquisadora, e escrevo também para jornais e revistas. Porém, a Zazie Edições é um projeto que me mobiliza a sério, pois nele posso fazer convergir minha paixão de leitora, minha curiosidade bibliográfica para além da minha própria área de pesquisa e docência, e também minha paixão crítica, intervindo ainda que indiretamente, através dos textos publicados, no debate contemporâneo. É muito bacana dar forma às reflexões tornando-as consultáveis, passíveis de serem retomadas e repensadas em outros trabalhos, por outros autores. Quando digo intervir, penso que nos interessa publicar livros que circulem facilmente e que podem, em alguma medida, fomentar discussões indo além da futilidade da opinião ou da esterilidade da polêmica que predominam em diversos espaços. O acesso aos ensaios tem crescido sim, os livros têm sido incorporados à bibliografia de diversos cursos de graduação e pós-graduação em universidades públicas e privadas no Brasil. Começamos a ter mais acessos de Portugal e leitores dos países da África lusófona. Alguns ensaios foram incluídos na bibliografia de concursos de Mestrado e Doutorado, onde cada vez mais há exigência por textos que estejam disponíveis na internet de forma gratuita. Recebo às vezes mensagens de agradecimento – algumas muito divertidas – de estudantes de todo o Brasil. Não tenho como responder com toda certeza, mas creio que nossos leitores são predominantemente estudantes de graduação, pós-graduação e professores pesquisadores. Também recebo notícia de escritores e psicanalistas que são leitores de nossas publicações. Há também o leitor diletante, que se interessa por diferentes assuntos e busca textos um pouco mais densos, mas não vai necessariamente usar esses ensaios para uma pesquisa ou para escrever um outro texto. 2 – Você já comentou que, atualmente, o uso de PDF’s se torna quase imprescindível na docência em ensino superior e que os PDF’s são, muitas vezes, considerados os vilões do mercado editorial. Por isso, a necessidade de democratizar o acesso a textos importantes, editá-los com ISBN e com cuidadosos trabalhos de tradução e revisão, que é como a Zazie vem fazendo. Por outro lado, uma breve apreciação sobre o catálogo da editora nos confronta com autores às vezes pouco conhecidos no Brasil e com ensaios que dialogam, simultaneamente, com vários campos de conhecimento. Ou seja, nos parece que o foco, de modo geral, não são os autores já tradicionais, fartamente lidos nos cursos de humanidades no país. Dito isso, temos duas perguntas: a) Quais são os critérios que vocês utilizam para a escolha dos títulos a serem publicados e traduzidos? Os critérios não são camisas-de-força, podem sempre ser revistos, remodelados, ampliados ou re-imaginados. Há o critério – que pode ser subvertido em algum momento – de publicar autores vivos. Um outro, aqui falando da Pequena Biblioteca de Ensaios, é o de dar visibilidade e até fomentar um tipo de escrita teórico-crítica menos atada aos formatos utilizados pelas revistas acadêmicas indexadas. Aí entra o meu interesse pelo ensaio como gênero tanto reflexivo quanto literário. Explorar essas outras possibilidades da inflexão ensaística é um dos critérios, ou talvez, melhor dizendo, uma das intenções da coleção. Tenho tentado também abrir espaço para alguns jovens pesquisadores, há uma mescla também entre ensaios que se dedicam a pensar o presente ou a conjuntura – publicamos dois títulos sobre a pandemia e mais recentemente um ensaio do Adriano de Freixo sobre a relação entre o governo Jair Bolsonaro e os militares – e textos desprovidos de sentido de urgência ou de atualidade, como as reflexões sobre o próprio ensaio e sobre a anedota que compõem o livro de Jean-Christophe Bailly, ou a reflexão de Katia Muricy sobre a autobiografia como gênero filosófico, a partir de uma reflexão sobre o Ecce homo de Nietzsche. Poderia citar outros, o livro de Pascal Quignard, por exemplo, que transita com uma impressionante familiaridade por entre imagens da antiguidade clássica, e assim nos fornece elementos preciosos para a teoria da imagem atual, além de uma reflexão importante sobre a forma como o latim, quer dizer, como a língua latina determinou o olhar e a produção de visualidade naquela cultura e época. b) A sua experiência como leitora e, também, os seus trabalhos como artista plástica, escritora e professora de História da Arte marcaram o desenvolvimento desse projeto? Certamente. A coleção surgiu inicialmente de minhas inquietações como professora da UNIRIO. Trabalhando com teoria e história da imagem, frequentemente me deparava com a dificuldade de encontrar bibliografia atual traduzida para trabalhar em aula, sobretudo na graduação, onde não podemos utilizar textos em língua estrangeira. O livro do Quignard, por exemplo, para mim pessoalmente foi uma alegria editar, pois logo o integrei às minhas próprias aulas. Também cheguei a usar o texto da Wendy Brown sobre neoliberalismo, e o do Bailly, já mencionado. A experiência de dar aulas numa universidade pública foi crucial para a minha compreensão do problema do acesso à bibliografia e para a compreensão das dinâmicas reais de circulação e de uso de textos nas universidades. Quando fui aluna de graduação – sou formada em Literatura pela UERJ – tudo ainda circulava na base de xerox. Dos anos noventa pra cá isso mudou, a chegada da internet alterou o modo como compartilhamos textos na academia, em todo o mundo. Creio que isso deva ser levado em conta e enfrentado de maneira honesta nos debates sobre o campo editorial, para além de uma compreensão do leitor como consumidor, ou seja, como comprador de livros. O estudante e mesmo o professor pesquisador são leitores que têm nos textos seu material de trabalho, e os alunos por sua vez dependem do acesso para sua formação. Seria importante delinear esse espaço formativo para defender políticas editoriais e de acesso aos livros mais coerentes com as necessidades reais dos estudantes e professores, considerando inclusive a dinâmica de tempo, o “timing” em geral totalmente desconsiderados pelos editores que, ou já esqueceram da sua experiência quando graduandos, ou porque adotaram uma visão estritamente comercial do objeto livro. Nenhuma biblioteca universitária dá conta da demanda real de alunos e professores, e a longo prazo, nenhuma biblioteca, mesmo as muito ricas, será capaz de manter espaços de estocagem para todos os livros físicos de modo a ter um acervo atualizado em todas as áreas de pesquisa que uma universidade recobre. Nem vou entrar aqui na questão do papel, mas essa deve ser considerada e tem sido bastante discutida na Europa onde as políticas para o incremento das publicações acadêmicas open access são guiadas igualmente por perspectivas ambientais e ecológicas. 3 – A personagem Zazie, imaginada por Raymond Queneau e que inspirou o nome da editora, é uma adolescente questionadora e impetuosa. As características da personagem, com seu ímpeto crítico, nos remetem aos possíveis objetivos e impactos políticos da atuação da Zazie, editora. Você considera a própria existência do projeto como um ato político? Aproveitando, também gostaríamos que você falasse das formas de financiamento para a efetivação desse trabalho. Olha, a Zazie é uma menina, não uma adolescente. Ela é desbocada e tem aquela ideia fixa de visitar o metrô, que está em greve. Acho que a editora é pequena, teimosa, desbocada talvez não, mas temos a ideia fixa de que democratizar o acesso à bibliografia de qualidade é fundamental. Outra ideia fixa é de que o ensaio é um gênero elástico formidável, é o gênero da pesquisa, de quem busca algo, esse algo pode variar muito, mas no ensaio o percurso na direção desse algo é crucial, muitas vezes mais do que o ponto de chegada. 4 – Recentemente, dentro da Pequena biblioteca de ensaios, coleção que você coordena, foi lançada a Perspectiva feminista, exclusivamente com textos de mulheres. O último ensaio publicado, de Ana Elisa Ribeiro, é intitulado Subnarradas: mulheres que editam, e aborda, entre outros temas, o apagamento das histórias das mulheres editoras no Brasil. Você pode nos contar como surgiu a ideia de lançar a Perspectiva feminista no interior da Pequena biblioteca de ensaios? Esse projeto é coordenado por mim e pela Ana Bernstein, que foi minha colega na UNIRIO e é uma grande amiga e parceira de trabalho. Tínhamos feito um levantamento grande de textos feministas para um curso que ministramos e constatamos que havia muito pouca coisa traduzida. A coleção surgiu daí, com a ideia de traduzir alguns ensaios e também de publicar textos inéditos, de autoras brasileiras e latino-americanas sobretudo. Nos últimos anos o pensamento feminista se tornou um nicho importante e uma aposta do mercado editorial, mas de novo, para quem está na universidade é importante poder ter acesso mais direto a esses textos que são muitas vezes bibliografia fundamental. É muito bacana que as editoras comerciais se interessem e publiquem teoria e crítica feminista, mas muitos livros logo desaparecem das livrarias e caem numa espécie de limbo, um dia ressurgem nos sites de sebos virtuais ou na própria Amazon a preços extorsivos. A Zazie quer combater esse tipo de sequestro da bibliografia crítica, muito esforço e trabalho editorial se perde nesse ciclo de vida super breve do livro teórico no Brasil. Essa é outra questão que precisaria ser discutida e que poderia ser objeto de programas de democratização do acesso à bibliografia. 5 – Por fim, gostaríamos de fazer uma pergunta mais pessoal, mas que consideramos importante neste momento: gostaríamos de te ouvir sobre como foi e é a experiência da maternidade para você. De que maneira a maternidade transforma/convida/se relaciona com seus trabalhos nos campos da arte, da literatura e da edição? E, também, sobre o maternar neste contexto da pandemia: como conciliar tantos tempos distintos em um espaço comprimido? Boa pergunta, essa. Olha, sempre respondo mais ou menos da mesma forma. Nunca fui muito organizada, mas sempre fui muito “trabalhadeira”. Não quero usar aqui a palavra “produtiva” porque nem todo trabalho é exatamente produtivo no sentido que essa palavra adquiriu na época em que vivemos. Trabalhadeira era uma abelha chamada Zizi, a personagem de uma estória que eu adorava ler quando criança, uma coleção sobre os bichos de Catimbó, que, veja só, também desapareceu! Uma pena, pois era ótima. Lembro que essa abelha Zizi contava os grãos de areia da praia. Bom, mas respondendo, o fato de ter sempre trabalhado muito mas nunca de forma muito linear ou organizada fez com que a presença dos meus filhos tenha sido sempre mais um fator de entropia numa rotina de trabalho já meio bagunçada e bagunceira. Aqui na Dinamarca conto muito com a parceria doméstica do Karl, meu companheiro, sem ele seria bem mais complicado esse arranjo malabarista dos muitos trabalhos que faço. *Além de editora na Zazie, Laura Erber é professora visitante da Universidade de Copenhague, escritora e artista visual. A Zazie está com campanha de financiamento coletivo aberta, para quem puder contribuir com esse trabalho incrível: https://www.catarse.me/pt/zazie_edicoes_2021_0a1d?fbclid=IwAR1PQJPhujQvrJW-bsLvqf1ZqABGR3lGR7kdoPFSKrZo9ecsI8bQn1KiGbw Foto de capa publicada originalmente em: https://www.telam.com.ar/notas/201805/279492-laura-erber-novela-ardillas-pavlov.html

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Entrevista com Andréa Casa Nova Maia: em torno de História Oral, pandemia e engajamento
Entrevista com Andréa Casa Nova Maia: em torno de História Oral, pandemia e engajamento

Andréa Casa Nova Maia possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1996), mestrado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999) e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (2002). Pós-doutorado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Coordenadora da Área de História do Brasil do Instituto de História (2018-2020) e professora de História do Brasil Republicano e História da Arte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história oral, história cultural, história das cidades, história do brasil contemporâneo e história da arte. É Presidente da Associação Brasileira de História Oral (Gestão 2020-2022) e foi vice-presidente da Associação Internacional de História Oral (IOHA) entre 2014-2016. Essa entrevista foi feita por chamada de vídeo no final de 2020. Optamos por deixar, na transcrição, as marcas de oralidade da conversa. MFM (Flávia R. Veras): Agradeço, em nome de todas as editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, sua disponibilidade para essa entrevista. Temos algumas perguntas sobre os mundos do trabalho e as lutas sociais contemporâneas. Queremos pensar, com você, a questão docente, a pandemia e, também, o seu trabalho super reconhecido no campo da História Oral. MFM: A gente queria começar perguntando como você enxerga a relação entre história, historiografia e militância, como você pensa as relações entre engajamento político e intervenção pública do historiador e da historiadora. Andréa Casa Nova Maia: Eu construí minha militância como historiadora oralista. Desde que eu comecei a estudar, ainda na graduação em história - antes de me tornar professora e fazer minha carreira acadêmica - eu comecei pensando as possibilidades de uma história oral engajada. A história oral me colocou no mundo da política. Ela me mostrou que eu fazia história não só para pegar um diploma, mas para tentar transformar a sociedade. O historiador oralista trabalha muito com movimentos sociais, com movimento popular, com as pessoas simples, com as classes subalternas. No primeiro período [da graduação] eu comecei a pensar em fazer um projeto de pesquisa, e eu já tinha essa ideia de pensar a partir de um engajamento político. Vou contar como descobri a história oral. Eu tinha um amigo... [eu tinha 15 anos eu nem estava pensando em fazer história, talvez eu já pensasse um pouquinho por causa da 5ª série, lá mesmo no início da minha formação. Eu lembro que quando eu tinha 11 anos a minha mãe me deu aquele livro História da riqueza do homem[1] do Leo Huberman[2] e aí eu fiquei muito impressionada com aquilo. Ela pediu nas férias para eu “fichar” e eu nem sabia que era fazer fichamento, tinha só 11 anos. Mas eu fiquei lendo aquilo e descobri tanta coisa, por exemplo, crianças trabalhando nas fábricas, toda aquela questão de maus-tratos desde a época medieval. Enfim, tudo aquilo que o Leo Huberman trazia no livro antiquíssimo dele que já era um clássico]. Eu ainda estava fazendo um curso técnico patologia clínica, não tinha nada a ver com humanas, quando eu conheci o Juliano Spyer[3], através do pessoal da família - ele era sobrinho de um grande amigo do meu padrasto e estava fazendo história na USP. Fui visitá-lo em uma ocasião, um pouquinho antes de entrar na universidade. Ele estava fazendo uma pesquisa de História Oral para o José Carlos Sebe Bom Meihy[4]. Era um estudo sobre a Carolina de Jesus[5]. A ideia era reconstruir a trajetória de Carolina de Jesus a partir dos familiares que ainda estavam vivos na época. Ele me falou que sua pesquisa seria feita a partir de História Oral e foi me mostrando os projetos e contando a história da Carolina de Jesus. Eu fiquei impressionada com a história dessa mulher simples, favelada, que vendeu mais livros que Jorge Amado nos anos 70, que tem esse texto diário chamado "Quarto de despejo" que conta a realidade social do povo naquele momento histórico e político. Naquela mesma semana que eu passei hospedada na casa dele eu assisti uma aula de História do Brasil Contemporâneo na USP. Era o Sebe que estava dando uma aula sobre os "anos de chumbo", sobre o projeto Brasil Nunca Mais[6] com os relatos das pessoas que foram torturadas e ele passou um filme, Que bom te ver viva[7]. Eu tinha 16 anos e aquilo me marcou profundamente. A partir dali, nós começamos a discutir os relatos de tortura sofrida pelas mulheres que eram militantes na época da ditadura brasileira e aquilo me deixou completamente transtornada. Eu até tinha alguma ideia sobre o período ditatorial, porque meus pais são professores universitários, e minha mãe atuou na militância na época da juventude, já como professora. Eu conhecia um pouco essa história, mas não tinha noção do que tinha sido a tortura no Brasil. Aquelas imagens, aqueles relatos de mulheres sendo torturadas de maneira tão cruel, aquilo me deixou completamente transtornada e pensando na necessidade de se contar essas e outras histórias. Quando voltei para Belo Horizonte, fui prestar o vestibular na UFMG e já pensei: vou fazer história e quero trabalhar com História Oral. Eu quero desvendar o mundo. Waldir, meu avozinho torto, já era senhor de idade. Ele era o pai do meu padrasto e tinha sido operário em uma mina de ouro de propriedade dos ingleses em Nova Lima, que é uma cidadezinha mineradora próxima de Belo Horizonte. Eu ouvia aquelas histórias do Senhor Waldir, ele contava todo domingo as histórias das relações de trabalho, sobre como os ingleses tratavam os mineiros, como eram as relações de poder e de dominação dentro da mina... E pensando também na época de Vargas, que foi uma descoberta para mim já no curso de história. Pensar esse período de formação da classe operária brasileira e de conquista/ regulações/ concessões de direitos trabalhistas. Eu fiquei muito interessada em saber do cotidiano dos trabalhadores. Então, eu cheguei na História Oral pela questão da história e o engajamento político veio naturalmente. Como eu sou filha de professores universitários, eu sempre participava dos eventos acadêmicos. Eu ia para a assembleia dos professores, eu lembro que pequenininha eu estava na reunião do pessoal do sindicato de docentes, depois a gente teve toda uma luta pelas “Diretas já”. Não era só o “eu quero votar para presidente”, porque eu não tinha ideia, mas eu tinha muito essa coisa do voto para reitor, da luta pela liberdade. Eu lembro dos congressos da SBPC[8] que a minha mãe ia e me levava junto. Eu fui criada nesse ambiente propício à militância, em uma universidade pública e batalhando pela qualidade. Foi por aí o início dessa trajetória. MFM - É interessante como nossas vivências quando crianças nos levam a construir um certo modo de interpretação do mundo… Sua resposta relaciona-se com a segunda que eu teria para fazer, que é sobre as novas conjunturas do mundo do trabalho, mais especificamente sobre as perdas de direitos, a flexibilização, a informatização. Como você enxerga as possibilidades de luta e de organização dos trabalhadores dentro dessas novas conformações? Andréa Casa Nova Maia - Olha, é interessante, porque eu acho que a gente teve nos últimos anos a entrada no neoliberalismo no Brasil e no mundo inteiro, esse processo de flexibilização das leis trabalhistas, e no caso do Brasil a coisa foi mais pesada porque nós tivemos logo depois do impeachment um governo acabando com a CLT (embora eles tenham chamado de "reforma trabalhista", foi uma destruição da CLT). Eu vejo que, no mundo inteiro, os sindicatos ficaram muito enfraquecidos, a luta tradicional ficou enfraquecida, por causa justamente da dificuldade de você armar, por exemplo, um chão de fábrica para fazer uma greve… Enfim, tem uma série de questões trazidas por essa flexibilização das leis que desmontaram o mundo do trabalho. E, paralelamente a isso, um discurso muito complicado de empreendedorismo, no caso sobretudo destes trabalhadores que agora não têm mais vínculo empregatício, que agora são chamados de colaboradores, eles não são mais trabalhadores, agora são “colaboradores”, são “empreendedores” e isso é muito difícil de combater. O que me dá esperança, sobretudo no caso brasileiro, são movimentos que já estão se articulando, inclusive internacionalmente. Sobretudo na América Latina, eu vejo um papel ainda muito grande das organizações internacionais do trabalho, que de certa forma dão conta de pensar as problemáticas, claro que temos uma singularidade no caso brasileiro, mas o que está acontecendo é um movimento do capitalismo no mundo inteiro. A gente tem sempre que pensar de uma maneira transnacional, global. No caso específico do Brasil, eu tenho muita esperança em determinados movimentos ainda que muito fragmentados, sobretudo desses grupos que estão se articulando contra isso, e eu me lembro muito do Galo, aquele rapaz que está liderando o movimento dos entregadores dos aplicativos, Ifood, Rappi etc... É um movimento que eu acho muito rico e eu gosto muito de recuperar a fala dele, porque ele coloca pra gente que ainda é possível pensar diferente. Porque eles estão lutando por direitos quando falam que a gente nem devia mais estar lutando por isso. A gente está precisando lutar por coisas que a gente perdeu. Por exemplo: a própria carteira de trabalho, o mínimo de seguridade para trabalhar, porque estes rapazes que estão atuando como entregadores, muitas vezes, antes, têm que comprar o próprio equipamento. Tudo eles mesmos têm que fazer, como se fossem realmente donos. O uberista, o dono do carro, eles não têm direito a nada. Então eles trabalham de manhã e de noite para levar um dinheiro para casa, se eles sofrem algum acidente eles não têm cobertura nenhuma, eles são mais um carrinho no aplicativo chegando, indo. Recentemente, fiz uma palestra em que usei um filme muito bom, o inglês Você não estava aqui, de 2019. A direção é do Ken Loach. Tem dois filmes desse mesmo diretor, que encenam as relações de trabalho no mundo, sobretudo na Inglaterra. Um aborda mais a aposentadoria, a questão dos direitos do idoso: Eu, Daniel Blake. E esse Você não estava aqui, que ele fez depois, é justamente sobre esse processo de precarização: o cara perde o emprego, é chamado para ser colaborador em uma dessas empresas de entrega, só que depois a vida dele vira um inferno. Ele é assaltado, tem que pagar tudo, tem que pagar pela máquina. Tem que chegar cedo e voltar tarde, enfim, tem que cumprir uma série de metas e a vida dele vira um inferno. Eu citei esse filme para dizer o seguinte: apesar de toda a desesperança que pode surgir, de todo esse processo de desmonte do Estado de bem estar-social, ou de um Estado mediando as relações entre capital e trabalho, eu acho que toda essa transformação que nós estamos vivendo nos deixa muito abalados, eu pelo menos sinto um pessimismo, uma coisa que parece que não tem saída. Mas, ao mesmo tempo, quando eu vejo esses movimentos, como o próprio Break dos apps, que foram esses dois momentos de paralisação das atividades, de tentativa de mobilização da categoria, que são os entregadores antifascistas. Depois outros movimentos que a gente vê na cidade, apesar da pandemia, apesar de tudo que está acontecendo e da necessidade de a gente ficar quieto, às vezes não tem como segurar, as pessoas vão para a rua. Ainda vão para a rua, ainda fazem manifestação, elas arriscam até ficar doentes para poder trabalhar. Porque eles não pararam de trabalhar, sobretudo essas categorias do trabalho informal permaneceram e sofreram muito com a pandemia. Então, quando elas reivindicam, estão reivindicando porque já estão na rua também, porque elas já estão vivenciando isso de certa forma. MFM: Falando especificamente sobre professores e professoras, você fez uma pesquisa sobre as professoras da UFMG. Eu lembro que algumas vezes nós chegamos a falar sobre isso… A gente queria saber um pouco como essas transformações, que aparecem no mundo do trabalho como um todo, são sentidas tanto pelos docentes como pelos alunos das universidades públicas que, agora, estão com esse desafio de ensino remoto… desafios esses que também passam pelo corpo dos professores, com as novas adaptações, novas formas de se fazer reunião, de se fazer processo seletivo. Como essas coisas estão sendo resolvidas? Andréa Casa Nova Maia: Olha, nós estamos passando por um momento absolutamente novo. Tudo para a gente está sendo uma novidade. Mas já dá para ter uma noção de um processo muito complicado que é da exploração do trabalho docente universitário, do trabalho do professorado, né? Porque todo mundo está esgotado. Ao mesmo tempo em que teve muita gente que não dominava tecnologia, não dominava o tipo de trabalho remoto… Essas plataformas todas, né? Google sala de aula, google meet, zoom, etc. A gente teve, então, que descobrir como se manipulava essas ferramentas, fazendo isso em situações... se bem que os professores, a maioria têm acesso a computador, têm internet, mas, no caso dos alunos está complicadíssimo, porque tem muita gente que compartilha equipamentos, que não tem espaço em casa. Eu, por exemplo, estou aqui falando com você e meus filhos estão em outro cômodo. Pelo menos tem mais de um cômodo na casa, então dá pra dividir um pouco. Mas isso atrapalha muito a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. Então, o que eu percebi é que os professores, muitos professores já vinham de um processo de degradação cíclica, antes da pandemia, por conta de um excesso de trabalho e uma falta de valorização do trabalho docente. Não só no nível federal, mas nos níveis estadual e municipal. Professores com salários extremamente achatados, né? Trabalhando com várias turmas e enfrentando uma barra pesadíssima com essa flexibilização das leis e todo esse processo. Então já havia o tal do chamado burnout acontecendo. Estafa nervosa e vários problemas psicológicos acontecendo antes da pandemia. Com a pandemia, eu acho que piorou essa situação. A gente teve que descobrir como cuidar de filho, estudar com os filhos, botar os meninos no computador também pra fazer as atividades remotas da escola deles… Eu vejo, daqui de casa, mesmo que eu pague ensino privado para eles, como esses professores estão exaustos, porque a tela parece que suga a gente. Eu tive que preparar cursos remotos, então tive que gravar aulas no youtube… Eu mesma falando e mostrando coisas... Depois, tive as atividades síncronas, que era quando eu encontrava com o pessoal. Eu senti logo dificuldades com a bibliografia mais tradicional, que os alunos iam à biblioteca consultar e que agora não teriam mais acesso. Então, eu tive que pensar em um jeito de fazer essa leitura chegar. Porque eu pensei: “poxa, como é que eu vou fazer esse menino ler no celular uns textos maiores, menores, que eu trabalhava na minha disciplina?”. Então, tive que pensar numa saída pra isso. A minha ideia foi fazer um programa de podcast… Junto com a Karla Carloni, da UFF, fiz uma série de entrevistas com a bibliografia do curso sobre o Brasil Republicano. Então eu peguei aqueles historiadores mais clássicos de história, (história) política sobretudo, e fui entrevistando com a Karla para poder passar para os alunos assistirem como um complemento, um material complementar para a disciplina. E é óbvio que isso não resolve, mas ajudou muito. Porque muitos não tinham acesso à leitura, não podiam ficar lendo no computador, até porque tem gente de qualquer idade, de qualquer jeito, trabalhando, porque as pessoas não pararam de fazer... Então, a gente vê que foi um desafio, é um desafio, e às vezes dá certo. Por exemplo, eu adorei o curso. No final, deu tudo certo! Esse podcast realmente ajudou bastante, as aulas no youtube também. Então, o curso foi legal. Mas eu fiquei exausta, até porque a gente não parou de participar de banca de mestrado e de doutorado, porque eu atuo na pós-graduação, não parei de trabalhar nenhum minuto, participando de banca, coordenando, organizando livro, enfim, trabalhando, varrendo casa, botando roupa pra lavar, fazendo faxina e cuidando de bicho. Então foi muito, muito estressante. Está sendo, porque eu acho que ainda é muito cedo para falar em um “pós-pandemia”. Se a gente já está tendo uma segunda onda (e aqui no Brasil, com a falta de cuidado, com o relaxamento dos protocolos, eu creio que em breve nós teremos uma segunda onda). Então, eu que ainda estou em casa… Você sai na rua, tem gente sem máscara… então é um pouco isso. MFM: O podcast e o canal do youtube estão abertos para o público em geral? Andréa Casa Nova Maia: Estão completamente abertos. É só você colocar no google: IMAM-BR podcast[9]. Na Anchor, no Spotify, nesses aplicativos de escutas, de programas de podcast você tem acesso. E também está na página, no site do grupo de pesquisa que é IMAM, Laboratório de Imagem, Memória, Arte e Metrópole (https://imam.historia.ufrj.br/), você também tem acesso a todas as entrevistas que a gente fez. MFM: Vamos colocar um link na entrevista para dar acesso a quem quiser ver... Andréa Casa Nova Maia: Ficou muito rico! Tem muita gente, inclusive, dos grupos em que eu participo, que está me dando notícias: “nossa! Eu usei o podcast pro meu curso, está sendo ótimo, aprendemos à beça”. Então, o trabalho valeu a pena. Teve também um livro que está saindo agora, que eu organizei com a minha mãe, porque, no início da pandemia, eu achei que eu fosse ficar louca. Assim… que eu ia ficar só varrendo casa, cuidando de menino, que eu não ia mais produzir nada, que eu não ia mais fazer reflexão... Aí eu resolvi organizar um livro e tive a ideia de pedir para a minha mãe me ajudar. É o livro Arquivo Pandemia[10]. Então, nós fomos ao longo dos meses de abril, maio, até mais ou menos meados de maio, convidando pessoas para escreverem sobre o cotidiano da pandemia. Intelectuais, artistas… O que houvesse de registro, memórias dessa pandemia. Só que o negócio ficou muito bom e muito grande, e aí a gente falou “poxa!” E não acabava… Então comecei a contatar pessoas, porque muita gente me procurou e disse: “Naquela época que você me convidou, eu não tinha condição. Eu estava completamente presa em casa, angustiada, não tinha o que fazer. Mas, agora, eu quero”! Então, teve um segundo volume… A gente acabou coordenando 150 autores, uma coletânea imensa. Cada um tem mais ou menos 500 páginas, então são 2 volumes do Arquivo Pandemia, que vai ser lançado agora, no próximo mês. E o pessoal está perguntando, “não vai ter terceiro volume”? Eu falei, gente, se eu fizer um terceiro volume, acho que vou morrer porque a burocracia de pegar carta de direito autoral, mandar pra editora… A editora retornava, mandava para cada autor… Foi um trabalho muito maior do que imaginei inicialmente, fiquei encarregada de tudo, praticamente, da edição. E agora nós vamos lançar. Mas foi um trabalho que acabou ficando muito interessante... Teve um desdobramento… Em razão de minha trajetória com a metodologia de História Oral, com o tema da memória, fui convidada por Ana Carolina Maciel para ser uma das curadoras de um projeto sobre a pandemia, que é o Memórias Covid-19[11]. É uma plataforma da Unicamp que está funcionando um pouco como uma “cápsula do tempo” para se pensar a pandemia. Então, você pode mandar textos, imagens, crônicas, áudios, o que você quiser/tiver de documento de sua vida cotidiana sobre a experiência da pandemia. Um projeto muito legal. Ano passado, eu tinha me reunido com o grupo de pesquisa que coordeno, o IMAM, pra gente pensar um livro que fosse um pouco o resultado de nossos debates. Convidei uma série de participantes do grupo, inclusive alunos da pós-graduação (e até de graduação) para escrever. Vi que muitas pesquisas estavam pensando mulheres, então pensei em fazer esse recorte do feminino, pensar esses cristais de memória e história de mulheres nos arquivos do tempo. Então, muita gente que eu tinha convidado na ocasião abandonou o projeto, em razão da dificuldade de produção e escrita em meio à pandemia. Convidei novas pessoas para participar do livro e consegui fechar. O livro sairá pela Editora Telha (o ebook) - e o impresso, se tudo der certo, no dia 8 de março de 2021, aproveitando as comemorações de nossas lutas. Tem texto sobre mulheres de todas as cores, gerações, profissões, ficou muito amplo. MFM: Queria que a gente voltasse a falar um pouco de História Oral e da dinâmica das redes. Essas novas fontes, fontes digitais, têm um impacto muito forte na História do Tempo Presente... Inclusive lançando luz sobre novos sujeitos, sujeitos populares, subalternos. Agora, como nova presidente nacional da Associação Brasileira de História Oral, gostaria que você falasse um pouco dessa relação da História Oral com as redes sociais. Quais são as novas possibilidades para a historiografia, em geral, e para a História Oral, em particular? Andréa Casa Nova Maia: eu acho que são novas possibilidades e novos desafios… Porque entrevistar indígenas, quilombolas, que têm pouco acesso à tecnologia, é complicado. Já era complicado com o uso do gravador. Agora, com a utilização de chamada de vídeo, fica mais complicado ainda. Por outro lado, esses grupos também estão desenvolvendo o uso dessas novas tecnologias… Mas precisamos pensar a técnica envolvida nesse processo… Isso, inclusive, foi o que lancei de desafio no meu discurso de posse na presidência da ABHO, na semana passada, no Encontro Nacional de História Oral, que foi totalmente virtual e que deveria ter acontecido em Belém do Pará… Eu penso que estamos, agora, construindo um arsenal de discussão sobre como, por exemplo, fazer História Oral em tempos de pandemia. Muitos de meus alunos estão preocupados, já que não podem ir a campo e têm que entrevistar guaranis, têm que entrevistar mulheres idosas, grupos que são mais vulneráveis... É muito complicado, porque o historiador oralista sempre buscou o encontro presencial - como sendo, inclusive, uma parte fundamental para você criar uma empatia com seu interlocutor, ouvir... tem toda a gestualidade do encontro, troca de olhares, tudo isso se perde quando você faz uma entrevista remota, pelo telefone ou mesmo por vídeo… O encontro não é tão rico quanto seria se fosse presencial… Por outro lado, no momento de sucateamento das verbas para ensino e pesquisa nas universidades, e em todos os âmbitos de ensino... No momento em que o governo corta verbas e tira bolsas de formação dos mestrandos, dos doutorandos, não precisar viajar para ir a campo pode ser interessante - se você, de fato, conseguir a entrevista por outros meios. Não é o ambiente ideal, nunca substituirá completamente o encontro presencial (como eu também acredito que o ensino presencial jamais será substituído pelo ensino a distância ou por qualquer tentativa de alguma coisa híbrida… Porque isso que temos feito também não é ensino a distância… Podemos chamar de atividade remota, encontro virtual, mas nunca vai substituir a aula presencial. O afeto, o encontro, a bagunça da sala de aula a gente não consegue reproduzir). Da mesma forma, a gente vai ter que pensar como fazer História Oral sem a presença do outro, ou com uma presença remota. Essa discussão ainda não está feita. E o papel em que eu me coloquei lá na Associação Brasileira de História Oral era justamente pensar nesse movimento de História Oral [porque não vejo a História Oral como técnica, metodologia ou disciplina... Para mim História Oral é um movimento, como Mercedes Vilanova[12] falava… é um locus interdisciplinar federativo, como fala Sebe, porque encontra-se pessoas de várias áreas, não só da história… Pessoas das ciências duras, da medicina, da engenharia, da física, da enfermagem, do meio ambiente, da biologia, gente de todo lugar, que se encontra através da História Oral…] Na História Oral, a gente tem movimentos sociais lutando pelo direito à própria história, à própria memória. Tem instituições, claro, museus, arquivos... mas eu vejo que a História Oral tem um papel muito forte de resistência dessas populações que estão se afirmando, querendo se afirmar, agora. Inclusive na política, como a gente viu no resultado das eleições de ontem. Nós tivemos uma votação expressiva em mulheres, em mulheres negras, em mulheres trans, então a gente teve uma possibilidade de reverter um pouco a destruição da nossa democracia. Apesar de que, obviamente, a gente ainda tem uma presença muito forte de parlamentares e vereadores de extremo reacionarismo, de extremo conservadorismo, nós também conseguimos grandes vitórias com a eleição dessas mulheres e dessas pessoas que entraram. Então, da mesma forma, eu vejo que a História Oral trabalha junto com essa turma. O que eu estou falando? Eu acho que História Oral permite o encontro desse outro e traz as vozes - a gente antigamente falava que era “dar voz aos excluídos''. Não! Os excluídos têm voz! A gente não dá voz, eles têm voz. E eles estão falando, eles estão gritando. E o papel do pesquisador, do historiador, sobretudo do historiador que usa a metodologia da História Oral, é justamente o de amplificar essa voz ao máximo. Então, é um pouco nesse sentido que a gente vai ter que ver muito bem como fazer isso. Porque os próprios movimentos sociais… Eu tenho até um artigo com a professora Regina Helena Alves da Silva da UFMG, na Revista de História Oral, no qual a gente trabalhou com ativismos contemporâneos e pensou dois movimentos: o Renovar a Moraria, em Portugal, Lisboa, e o Ocupa Estelita, no Recife. E aí o que a gente percebeu ao analisar esses dois movimentos de ocupação e de associativismo contemporâneo, foi justamente que eles estão se utilizando das redes, do youtube, das mídias sociais, do facebook, do Instagram e de todos esses aplicativos que estão circulando, para construir a sua memória e para contar sua história, eles mesmos constroem grandes arquivos do próprio movimento. Então, é interessante a História Oral pensar um pouco no facebook, no youtube, sobretudo no youtube, como um grande arquivo de memória desses movimentos. Eu vejo um pouco por aí um alcance e a face positiva dessas novas tecnologias e desses novos espaços de armazenamento de imagens e vozes. MFM- Pois é, a grande questão é o quanto os agentes e lugares de poder estão mais ou menos dispostos a ouvir essas vozes. Tem também um trabalho seu que vai muito nesse sentido, de colocar a academia como um lugar (de poder) para ouvir e ressoar as histórias desses grupos. Estou falando de uma coletânea que você organizou em 2018, História Oral: direito à cidade, paisagens urbanas, narrativas e memórias sociais[13], que é composta por textos que resgatam a experiência de grupos pouco visíveis, como é o caso das pessoas trans, do skate como arte, do pixo, das pessoas que vivem em remoção. Eu queria que você falasse um pouco para a gente como foi a seleção desses textos, como se deu a produção deste trabalho. Andréa Casa Nova Maia: Esse trabalho surgiu a partir de um convite da Junielle Rabello, da UFF, para organizar uma discussão sobre História Oral e cidade. Como eu já estava trabalhando com essa questão, eu fiz um pós-doutorado sobre a ocupação do espaço urbano pela prática do skateboard. Eu pensei em organizar esse livro e colocar primeiro essa produção do meu pós-doutorado, e aí comecei a pensar em quem eu poderia chamar do Brasil inteiro e até de fora do Brasil que estivesse pensando essas questões. E aí fui contatando... contatei a Regina Helena, que já era minha parceira nesse e em outros projetos, ela já tinha sido minha professora, eu sabia que ela trabalhava com o espaço urbano, ela trabalhou muito também com a questão da mídia. Inclusive, atua - não sei se vai continuar atuando, porque se aposentou – no Programa de Pós-Graduação não só da História, mas também da Comunicação Social da UFMG, e ela tinha feito um trabalho na Finlândia. Um trabalho muito interessante de desenvolvimento de uma metodologia de percepção urbana através da memória de uma idosa e da neta dessa idosa passeando pela cidade e percebendo, fazendo uma leitura sensorial da paisagem urbana, de duas gerações distintas conversando entre si. Inkeri Aula, que era uma professora de lá, da Finlândia. Então eu falei: “poxa, eu vou pedir [um texto] porque eu acho que é importante a gente também ter um debate metodológico sobre essa relação entre cidade e História Oral”. E, também, eu sabia de um trabalho muito interessante que estava sendo feito pelo Antônio Carlos Montysuma com uma orientanda dele, sobre uma História Oral das praias de Florianópolis, numa comparação com o pessoal lá de Veneza, também pensando um pouco sobre as relações de poder na praia… e aí convidei. E fui convidando assim, fui sabendo de coisas, de pessoas que estavam fazendo pesquisas que eu achava interessante, [pessoas que estavam] mexendo com patrimônio, quilombo... Então eu chamei a Denise Pirani, que é antropóloga, para falar sobre uma comunidade quilombola lá de Belo Horizonte, Minas Gerais, o pessoal do pixo... Eu consegui o contato de um rapaz que tinha feito uma dissertação de mestrado sobre o pixo e o convidei. Fui convidando assim, no sentido da pluralidade de temas, que abarcasse o direito à cidade. A grande questão era essa! Então, pensar a ocupação, pensar remoção, historicamente, a partir da memória, da História Oral, mas sempre nessa perspectiva. Os processos de gentrificação, os processos, também, que acho muito interessantes e ricos, que as próprias comunidades fazem, por exemplo, como o trabalho da Lise Sedrez e da orientanda da Natasha Barbosa, em que elas fizeram uma discussão sobre o mutirão de reflorestamento que teve no morro da Babilônia. Como aquela comunidade se mobilizou para reconstruir o morro, para reflorestar e construir hortas comunitárias, toda uma discussão da história ambiental. Tem discussão sobre trans, em que você (Flávia Veras) entrevistou a Dani Balbi[14]. Tem discussão sobre mineradoras… Eu convidei um francês, Philippe Urvoy, e uma angolana, Hanane Idihia, que fizeram um trabalho super legal sobre regiões de mineração que foram de grande importância numa determinada época e, agora, tem outra realidade, na cidade de São Pedro da Cova (Portugal) e uma cidade na fronteira com a Bélgica, no norte da França... Enfim, foi uma coisa assim, foi acontecendo. MFM: Tem algumas perguntas aqui, além dessas, mas que foram, de alguma forma, respondidas: uma delas abordava o tema da vivência na pandemia sendo mãe, professora, pesquisadora, autora, militante, sindicalista e tudo mais… Sobre isso, você já nos falou um pouquinho; a outra seria para você falar um pouco sobre o Laboratório IMAM, que de alguma forma já apareceu também; e a última pergunta seria se você poderia dar algum spoiler sobre o livro que será lançado. Eu acho que talvez a gente pudesse responder essas perguntas em bloco, se você quiser acrescentar mais alguma coisa. Andréa Casa Nova Maia: Com relação à pandemia, estou completamente angustiada e espero que a vacina chegue logo para a gente conseguir voltar para rua. A rua é o grande lugar de conflito, é o grande lugar de construção da história. Em segundo lugar, o laboratório é isso, a gente continuou trabalhando muito; e um dos resultados desse projeto do laboratório foi justamente o livro que mencionei, Recorte do feminino[15]. Foi montado assim bem na correria, muita gente desistiu, eu tive que convidar outras pessoas, mas ficou muito legal. Para ser bem rápida, tem um trabalho muito bonito do Maurício Zouein (um dos associados do laboratório) sobre as imagens fotográficas de mulheres indígenas sob o olhar do colonizador… Ele chamou de Resistência do corpo, é um trabalho muito bonito… Depois, eu e minha bolsista de iniciação científica, continuou Suzana Vieira, como coautora, pensando Artêmis, que é aquele mito da deusa caçadora. Fizemos um exercício metodológico a partir de algumas imagens que aparecem em duas revistas que eu estou comparando num projeto maior... Tem a Karla Carloni, da UFF, falando da imprensa como arma, Conflito de gênero no Rio de Janeiro na década de 1920. Depois, tem o Tiradentes de Carmem Santos, um trabalho sobre a grande cineasta Carmem Santos, que pensa Inconfidência Mineira e a monumentalização da história… Luiz Costa escreveu para gente, ele é meu orientando (tem gente que já é pesquisador associado, que já é doutor, e os que estão terminando o doutorado, fazendo mestrado). Outra orientanda, a Camila, terminou de fazer o mestrado e fez um trabalho sobre os padrões de beleza e a indústria cosmética na imprensa brasileira nos anos 1940, em Últimos recursos de Eva, que é título do trabalho dela que está muito bom. A Rita Lages foi minha colega de graduação, professora de Belas Artes da UFMG e fez um trabalho muito legal, Outras histórias no mundo das artes: pensando as mulheres artistas, questões de gênero e história das artes em Belo Horizonte nos anos 40 e nos anos 60; o Carlos Eduardo Pinto de Pinto (professor da UERJ e também associado de nosso laboratório) fez uma discussão belíssima sobre a Carmem Miranda em Refrações da Embaixatriz do samba: a persona de Carmem Miranda em chanchadas brasileiras no início dos anos 1950. Luciene Carris, que é minha parceira (já publicamos e organizamos muitos livros juntas) fez um trabalho sobre a representação feminina no fotojornalismo brasileiro, pensando a trajetória de uma grande fotojornalista daqui do Rio de Janeiro... A Michele Caetano, que é minha orientanda também, fez um trabalho sobre o filme Foxy Brown, pensando a mulher no cinema da blackexploitation, uma discussão sobre esse grande paradoxo entre o sexismo e feminismo dos anos 1970. A Andrea Queiroz (historiadora e diretora do Centro de Memória da UFRJ) fez um trabalho belíssimo sobre as historiadoras contra a Ditadura Civil Militar… Ela trabalhou com duas, mas é surpresa, não posso falar muito, mas tenho certeza que vocês vão gostar muito. Raquel Barreto fez um trabalho lindo sobre Lélia Gonçalves, Uma intérprete negra do Brasil; Maria Paula Nascimento, que tem um trabalho maravilhoso, fez um projeto chamado Vozes de Antígona. Ela pegou os testemunhos das mães de vítimas da violência de Estado no contexto já democrático do Rio de Janeiro, é um texto de História Oral muito interessante. Fabiane Popinigis e a Cristiana Schettini fizeram um trabalho (para não perder minha relação com o mundo do trabalho) sobre história do trabalho em perspectiva de gênero e história social no Brasil, vai ser um texto importante para balizar os estudos de gênero em relação à história social do trabalho. Beatriz Lemos (também minha orientanda), fez um trabalho sobre a revista de mulheres a presença da mulher e o protagonismo dessas mulheres na assembleia constituinte entre 1986-1988; tem a Ingrid Gomes, trabalhando com atuação das mulheres na preservação da cultura e memória periférica do século XX; Luzimar Soares Bernardo (historiadora e aeromoça) fez um trabalho sobre a ideia de uma cultura de objetificação do corpo feminino na profissão de comissário de vôo no Brasil repubicano; a Bruna Couto (orientanda de doutorado) trabalha com as mulheres do samba fez uma trajetória da Dorina e o seu olhar sobre as mulheres do samba contemporâneo; e, para fechar, chamei a Dinah de Oliveira, que é uma super professora, curadora e psicanalista das Belas Artes, para pensar alguns trabalhos de arte de artistas mulheres contemporâneas, que ficou com o título bem sugestivo Como preencher fissuras assumindo espaços vazios. Fiz o resumo do sumário para vocês ficarem com vontade... último projeto que estou fazendo! MFM: E com certeza a gente recomenda!! Andrea, muito obrigada, em nome das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Andréa Casa Nova Maia: Muito obrigada, Mulheres do Fim do Mundo, a luta continua companheiras! [1] HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. [2] Leo Huberman (1903 – 1968) foi um estudioso de economia política e história econômica dos Estados Unidos e ligado a movimentos políticos de esquerda. [3] Juliano Spyer é doutor pelo Programa de Antropologia Digital da University College London. Faz parte do Global Social Media Impact Study, financiado pelo European Research Council. É autor do livro Conectado - o que a Internet fez com você e o que você pode fazer com ela (Jorge Zahar, 2007) e Mídias Sociais no Brasil Emergente (Educ, 2018). Ver: https://www.cafehistoria.com.br/author/juliano-spyer/ [4] José Carlos Sebe Bom Meihy é professor do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Letras e Ciências Humanas, da Universidade do Grande Rio. É professor aposentado do Departamento de História da Universidade de São Paulo. [5] Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) foi uma escritora, compositora e poetisa brasileira, conhecida por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960. Carolina de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes escritoras do país. [6] Ver: http://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/ [7] O filme aborda a tortura durante o período de ditadura civil-militar no Brasil, mostrando como suas vítimas sobreviveram e como encaram aqueles anos de violência duas décadas depois. Ver:http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=ID=023009&format=detailed.pft [8] Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. [9] Site do laboratório e acesso ao podcast: https://imam.historia.ufrj.br/ [10] Link para acesso ao livro: http://mestrados.uemg.br/noticias-ppgartes/3970-arquivo-pandemia-editora-ufmg [11] Para acessar a plataforma deste projeto: https://memoriascovid19.unicamp.br/?fbclid=IwAR3l80DAOZVoNJcicAey_y71k7ecl5i4dR4td-ZGM4SRHv1x3xms5FFZsGE [12] Mercedes Vilanova Ribas é uma historiadora espanhola. Fundou a revista Historia y Fuente Oral e presidiu a Associação Internacional de História Oral. [13] Sobre o livro: https://ppghis.historia.ufrj.br/livros/historia-oral-cidade/ [14] Parte dessa entrevista com a professora e ativista Dani Balbi foi publicada na quarta edição da MFM: https://www.mulheresdofimdomundo.com/post/entrevista-com-dani-balbi [15] Recortes do feminino: Cristais de Memória e História de Mulheres nos Arquivos do Tempo é o livro mencionado, que será publicado pela Editora Telha. Tem apresentação de Marta Mega de Andrade e Introdução de Andréa Casa Nova Maia. Conta com a colaboração de 17 professore(a)s e pesquisadore(a)s. A historiadora Michelle Perrot escreveu certa vez que, “no teatro da memória, as mulheres eram sombras tênues”. Segunda Casa Nova, o objetivo do livro é contribuir para transfomar essa imagem espectral: “mostrar mulheres-vaga-lumes, que mesmo nas sombras, surgem, emitindo sua luz”.

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Entrevista com Maria Rizolete Fernandes
Entrevista com Maria Rizolete Fernandes

A entrevista apresentada à Revista Mulheres do Fim do Mundo faz parte da pesquisa de mestrado de Janaína Porto, iniciada no ano de 2017 pelo Programa de Pós-Graduação em História PPGH/UFRN. A pesquisa resultou na dissertação de mestrado em História intitulada: "Cidade com rosto de mulher: a trajetória do movimento feminista em Natal (1978-1989)”. O trabalho buscou identificar e entender o processo de criação e atuação de alguns grupos de mulheres e feministas que militavam desde os finais da década de 1970, em Natal/RN, até fins da década de 1980, quando o último grupo com o perfil associado aos anteriores se formou. Conforme autora: “O primeiro nome com o qual tive contato foi o de Maria Rizolete Fernandes. Na época, motivada por um trabalho de uma disciplina de graduação, consegui seu telefone e agendei um encontro. Quando nos conhecemos, Rizolete, ou “Rizó” para os íntimos, foi muito receptiva e me fez entender o porquê de ser considerada um dos nomes com significado na história das mulheres do Rio Grande do Norte. Muito determinada e com um histórico de vida cheio de protagonismos, tanto de militância política quanto de atuação na escrita, Rizolete, para mim, se traduzia em um misto de força e sensibilidade. A cada encontro uma nova lição. Atrevo-me a dizer que ficamos próximas e, hoje, passados alguns anos desde o nosso último contato presencial, sinto com carinho e saudade os tempos compartilhados nos encontros que tivemos em sua residência, quase sempre acompanhados com os chás de maçã e canela. Como disse antes, a trajetória de Maria Rizolete é cheia de vida. Para esta edição, disponibilizo parte de minha entrevista realizada em 08 de junho de 2017. Nela, procurei compreender sua atuação nos grupos feministas que se formaram na capital potiguar, considerando que tinham como um de seus objetivos entrar em bairros e comunidades da cidade para estabelecerem uma rede de atuação mais dinâmica e que, de fato, constituísse a ideia de um movimento para além das discussões teóricas iniciadas na universidade. Localizando a/o leitora/o em relação aos grupos estudados em Natal/RN: 1978 - Centro da Mulher Natalense [CMN]; 1982 - Movimento Mulheres em Luta [MML]; 1982 - Federação das Mulheres do Rio Grande do Norte [FMRN]; 1984 - União das Mulheres de Natal [UMNa]; 1989 - Grupo Autônomo de Mulheres [GAM]).” Janaína Porto - A primeira pergunta que quero lhe fazer é como se organizavam os grupos nos bairros? Maria Rizolete Fernandes - Era o seguinte, Janaína [Porto], nós estávamos nos reunindo com os grupos: o pessoal da UNE, da universidade, dos estudantes, do DCE, da universidade, os professores da universidade, da associação dos sociólogos... Nós nos reuníamos por aqui e todas as pessoas, o pessoal da Pastoral da Juventude, enfim. E todo esse povo... Muitas dessas pessoas tinham contatos nos bairros, com alguém que conhecia alguém que era do bairro, que era do Conselho Comunitário, nós tínhamos também presidente do Conselho Comunitário que era quem participava dessas reuniões e aí foi fácil... Através desses contatos, alguém que conhecia o Presidente Comunitário, alguém conhecia gente de Clube de Mães e foi assim que a gente foi aos bairros. O que ficou especificado quando a gente fez o I Encontro da Mulher Natalense, foi em 1982... Que a gente foi aos bairros convidando as pessoas, né? Foi aos bairros, foi aos locais dessas entidades convidar todo mundo, e a partir daí os desdobramentos desses encontros foi justamente criar núcleos em alguns lugares onde as pessoas... as lideranças comunitárias eram mais engajadas. Foi assim que a gente chegou aos bairros. Janaína Porto - Como era a recepção dessas comunidades em relação às ideias que vocês trabalhavam? Maria Rizolete Fernandes - Bom, como elas já tinham um mínimo de conhecimento através de um dia inteiro discutindo aqui no encontro, né? Porque essas mulheres vieram e... De fato vieram participar do encontro, tanto é que a gente organizou creche para os meninos, quem tinha menino pequeno, deixar nas creches lá mesmo no encontro, alguém tomava conta das crianças nas creches e essas mulheres participaram, se dividiram em grupos, né, os grupos que você encontra no livro lá, é... Mulher e sociedade, mulher e política, mulher e, enfim, e aí essas mulheres participavam, escolhiam os grupos que queriam participar, mulher e saúde... Um dia inteiro assistindo discussões e propondo e opinando, porque dali se tiravam propostas políticas que a gente entregava as autoridades. Ao governo, ao prefeito, na câmara, na assembleia [...]. Janaína Porto - [...] o que dificultava essas mulheres nesses bairros a levar essas propostas à frente? [...] o movimento foi até essas mulheres nessas comunidades para fazer com que elas tivessem mais força para levar essas pautas a essas autoridades. Eu estou entendendo certo? Maria Rizolete Fernandes - [...] Foi sim. Porque dava consistência. Eram reivindicações também de caráter popular [...] Janaína Porto - [...] a gente tem uma tendência a achar que por estar num espaço que é a universidade, onde você tem contato com ideias, enfim, você está tendo contato com um fluxo de ideias que estão vindo de fora, né? [...] Maria Rizolete Fernandes - Sem dúvidas! Mas [...] não se esqueça que a gente está se referindo aos primeiros anos da década de 1980, nós estávamos, o primeiro grupo feminista criado aqui em Natal foi em 1979, foi o Centro da Mulher Natalense, de Rossana Sudário, né, [...] e esses que a gente começou a criar a partir de 1981, 82, as principais... Eu nem diria lideranças, era tudo muito inicial, as principais pessoas que continuavam trabalhando não tinham esse acúmulo. A gente tinha uma dificuldade, assim, de leituras. Era tudo muito novo para gente. Eu me lembro que a gente recorreu a alguns amigos nossos, homens, tinham mulheres, a professora Dalcy Cruz que hoje é aposentada, ela fez discussão conosco sobre essas questões. Mas a gente recorreu aos professores, aos meninos, aos homens da universidade para ajudar a gente ... Da universidade só, não, tinham sociólogos também. Dois sociólogos. Lincoln [Moraes de Souza] na época não era professor na universidade, Manu Duarte que foi... Manu era presidente do Conselho Comunitário de Candelária, deu muita força a gente. Manu sempre teve muito estudo. Então, a gente recorria, esse auxílio também dos homens, né? A gente tinha muita dificuldade, não tinha muita leitura, não. Ah, se fosse agora era muito bom! Janaína Porto - Fazendo uma pergunta um pouco mais específica em relação a essas feijoadas. Eu quero saber se você já sinalizou alguma coisa aí nesse sentido. Se os almoços foram pensados como forma de atrair as pessoas para esses encontros? Maria Rizolete Fernandes - Não digo que não, mas não era o principal, porque o objetivo era trazer as mulheres para discutir e elas sabiam. Tanto é que boa parte delas não sabiam que ia ser oferecido almoço. Creche... a gente acha que quando a gente foi convidar elas diziam “eu não posso ir porque não tenho com quem deixar meu menino”. Sabe? Daí a gente, não... a Senhora vai, por isso não! Vamos manter creche e tal, e aí a gente resolveu oferecer comida à essas mulheres, foi muito bom, né? Elas passavam o dia tranquilas, mas o objetivo primeiro não era esse. Eu acho que o que você tá captando aí é algo que, [...] a história lá do núcleo do conjunto Gramoré que a gente já tinha o núcleo formado e quando começou a prefeitura a distribuir leite nos bairros, aí a gente lá em conjunto Gramoré, inclusive a presidenta é uma das que morreu infelizmente agora, mas na época a gente... Foi um estalo que deu na gente e a prefeitura solicitar para distribuir através do núcleo, porque que aí sim, as mulheres tudo no dia da distribuição do leite, aí elas vinham trazendo de lá e a gente vinha pra cá para discutir. Pegávamos para discutir. Viu? Isso aconteceu! A gente fazia a distribuição e ah, mas isso é assistencialismo... não! O assistencialismo é da prefeitura. Nós estamos pegando isso aí como veículo... Janaína Porto - [...] quais eram as principais pautas discutidas quando vocês conseguiam fazer essas reuniões especificamente nos finais de semana? Maria Rizolete Fernandes - As principais eram: “Mulher e saúde” que elas pediam muito. “Mulher e creche”, elas queriam muito discutir, discussão de creche. “Mulher e trabalho”... Janaína Porto - Eram agendas bem divididas… Maria Rizolete Fernandes - “Mulher e política”. Foi, sim. Eram os temas mais solicitados. “Mulher e saúde”, “Mulher e creche”, “mulher e trabalho”, participação política da mulher. [...] Naquela época não se discutia tanto mulher e violência, embora a violência contra a mulher seja uma coisa discutida desde sempre… Janaína Porto - Verdade. Alguma pauta específica era voltada única e exclusivamente para a realidade dessas mulheres inseridas nesses bairros? Maria Rizolete Fernandes - Toda discussão nos bairros era ilustrada com as experiências das mulheres locais. Elas falavam da violência do marido, que batia, principalmente, se os maridos não estivessem, né? [...] Se fosse falar “Mulher e violência” com certeza aparecia alguma que tinha tido aquela experiência de ser... Da violência doméstica, né? “Mulher e saúde” elas também... “Mulher e sexualidade" também. Sexualidade era um tema que era mais difícil de introduzir… Janaína Porto - Tabu!? Maria Rizolete Fernandes - Principalmente porque tinham uns homens que iam com as mulheres. Se tivesse homem presente nem puxasse esse tema que elas ficavam todas caladas. Janaína Porto - Entendi. Vocês tentavam promover a discussão sobre a questão do aborto? Maria Rizolete Fernandes - Também. Também era um tema muito… Janaína Porto - ... Presente! Essas conversas... Depois desses encontros vocês conseguiram fazer, estruturar uma espécie de rede de informações diretamente com elas? Como é que ficava a... Como é que eu posso perguntar? Maria Rizolete Fernandes - ... A sequência desse trabalho? Janaína Porto - É, exatamente. Maria Rizolete Fernandes - Olha, isso foi a partir de 1982, 83, 84, 85, a sequência que teve aí foi... O que deu sequência a isso foi a criação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, porque quase todas nós estávamos nessas batalhas aí nós fomos parar nesse Conselho. E aí o que se fez foi a gente transferir essas pautas para o Conselho da Mulher e o Conselho deu sequência. E aí até com um pouco mais de estrutura, embora no começo o Conselho não tivesse nada e a gente fizesse o trabalho no nosso cargo, tirar do nosso bolso, mas o que deu sequência foi o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Naquela época tudo com gente muito comprometida. Era a Elizabeth Nasser, era a Joana Darc, ligada à saúde... E por aí vai! E aí a gente fez. O que foi o grande problema da continuidade? É que em 1989 nós ficamos no governo de Garibaldi. Foi em 1985... Em 1989 teve eleição, né? Não sei. Um ano a mais ou um ano menos. Mas aí mudou o prefeito e nós saímos do Conselho e perdeu-se tudo e nós não voltamos mais para aqueles grupos, quer dizer, eu não voltei. Porque o União de Mulheres continuou. Acho que ainda existe até hoje. Está mais atrelado ao pessoal do PC do B, né? Eveline [Guerra], Joana Darc. Elizabeth [Nasser]! Ela saiu de lá e criou um Grupo Autônomo de Mulheres que era para dar sequência a isso, embora esses grupos, nenhum mais retornou aos trabalhos nos bairros [...] *** “Como eu disse antes, essa entrevista teve um objetivo muito específico dentro de minha metodologia de pesquisa na construção de minha dissertação de mestrado. Muitos trechos foram suprimidos por motivos de adequação textual. No entanto, isso não significa omissão ou algo do tipo, significa que no trabalho com a história oral, o pesquisador/entrevistador decide a abordagem/técnica para desenvolver a escuta atenta que, após transcrição, se transforma em um novo formato: o texto. Em tempo, optei pela história oral temática. Considero importante informar que as estratégias adotadas por Rizolete e suas companheiras nem sempre foram homogêneas. Isso quer dizer que todas tinham e têm sua própria visão e testemunho desse passado de lutas. Neste momento, gostaria de mencionar o nome de Elizabeth Nasser. “Betinha”, como também era conhecida, teve um enorme significado dentro dos grupos que fizeram parte do movimento dessas mulheres. Além disso, devido a sua influência enquanto professora e militante nos bairros e meios populares, ela tinha uma fluidez nos espaços de discussão. Desta forma, não foi difícil pensar em um nome para a primeira representação oficial do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher [CMDM], criado em 1986, na gestão do então prefeito Garibaldi Alves. Elizabeth Nasser nos deixou em 16 de dezembro de 2020, vítima da COVID - 19. Elizabeth Nasser PRESENTE!” Janaína Porto RIZOLETE FERNANDES é do Rio Grande do Norte (RN) e reside em Natal. Formada em Ciências Sociais pela UFRN, milita nos movimentos sociais, feminista e poeta. Publicou seis livros, entre eles “Luas Nuas” (Una, 2006), “Vento da Tarde e Tecelãs” (Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2013 e 2017) de poesia, traduzidos para o espanhol. Participa de dezenas de coletâneas. Integra a UBE-RN, o ICOP – Instituto Cultural do Oeste Potiguar e o Coletivo Mulherio das Letras, através dos grupos locais Nísia Floresta e o Zila Mamede. JANAÍNA PORTO é nascida na Paraíba, mas desde os 6 anos vive na capital potiguar. Licenciada e Bacharela em História pela UFRN, Mestra em História & Espaços pelo Programa de Pós-Graduação em História/UFRN, professora substituta do Departamento de História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - UERN. É viciada em batom vermelho e acredita que a escrita é uma forma poderosa de se localizar no mundo. *Crédito das imagens: acervo pessoal da pesquisadora.

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