Ensaios

Onde sexo, trabalho e pandemia se encontram
Onde sexo, trabalho e pandemia se encontram

Renata Saavedra* A pandemia de covid-19 afetou a todos e todas, mas sabemos que de forma muito desigual. Em termos de trabalho e renda, mulheres estão sendo particularmente afetadas, por exemplo. (Confira a pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, da Gênero e Número e da Sempreviva Organização Feminista). O Ministério da Economia listou os setores econômicos mais impactados (no topo estão as atividades artísticas, criativas e de espetáculos). Há um grupo, no entanto, que foi desproporcionalmente prejudicado mas não aparece nos levantamentos oficiais: as trabalhadoras sexuais. “É um público-alvo com o qual o Poder Público não está nada preocupado. Ninguém fala sobre o que fazer com as trabalhadoras do sexo”, diz Irene Santos, coordenadora da Associação das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe. Juridicamente desamparadas e socialmente estigmatizadas, as prostitutas não têm seu ofício reconhecido como trabalho. “Na maioria dos países, as leis sobre a atividade têm como principal objetivo acabar com ela, precarizando com isso a vida de quem a exerce e empurrando mulheres para a clandestinidade e o isolamento social”, escreve Monique Prada no seu livro Putafeminista. (Você também pode ler Monique Prada aqui e aqui) No Brasil, o Projeto de Lei 4.211/12 (apelidado de PL Gabriela Leite, em homenagem à ativista pioneira e fundadora da ONG Davida e da grife Daspu), que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo, está parado na Câmara dos Deputados, aguardando a composição de uma comissão temporária para analisá-lo. O projeto foi redigido pela equipe do então deputado Jean Wyllis e pela Rede Brasileira de Prostitutas, que era a única organização nacional de defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais na época. Desde 2002, a prostituição está no rol das ocupações brasileiras. A prostituição não é crime, mas tudo que está em torno da atividade é criminalizado. O Projeto de Lei Gabriela Leite prevê a necessidade do direito à aposentadoria especial, por se tratar de trabalho que pode trazer riscos à saúde ou à integridade física. “Trata-se de regulamentar algo que já existe, acabar com a extorsão policial, entre outras coisas. Com a lei vai se abrir uma janela para novos vínculos trabalhistas dos trabalhadores sexuais com os clubes, vai empoderar as prostitutas”, defende a ativista Indianarae Siqueira em entrevista ao El País, que abordou algumas controvérsias e embates entre feministas sobre o tema. A Global Network of Sex Work Projects [Rede Global de Projetos sobre Trabalho Sexual] está monitorando o impacto da COVID-19 nas trabalhadoras sexuais do mundo todo. “Estamos documentando e relatando aos formuladores de políticas internacionais sobre as violações dos direitos humanos e pressionando os formuladores de políticas nacionais para garantir que as necessidades das trabalhadoras sexuais não sejam ignoradas nesta pandemia” . Em abril de 2020 os grupos SOMOS - Comunicação, Saúde e Sexualidade, MundoInvisível.Org e a Articulação Nacional de Profissionais do Sexo lançaram uma nota de alerta sobre situação de trabalhadoras e trabalhadores sexuais do Brasil em relação à pandemia de Covid-19: ”Historicamente vulnerabilizados e sem direitos trabalhistas garantidos, esses profissionais veem suas rendas reduzirem drasticamente, assim como os demais profissionais autônomos, como motoristas por aplicativos, vendedores ambulantes e profissionais que realizam atendimentos por agendamento. Entretanto, diferentemente de outras categorias profissionais, não há sinalizações por parte do Governo Federal de qualquer tipo de ação assistencial a essa população e nenhuma informação sobre a possibilidade destes profissionais serem incluídos nos auxílios previstos até então.” Leia a nota completa aqui. Para saber mais: Nós existimos: reflexões sobre o trabalho sexual e covid-19 no Brasil, por Elisiane Pasini “A onda conservadora vivida pelo país tende a atrapalhar o avanço do debate”, disse à Revista Cláudia Ana Paula Silva, professora da UFF e integrante do Observatório da Prostituição e de um grupo de trabalho chamado Prostituição e Populações de Rua em Face à Pandemia. Mesmo enfrentando tantos obstáculos, as trabalhadoras sexuais estão desempenhando papel protagonista na resposta à crise da pandemia. A Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS) mobilizou empresários, organizações não governamentais (ONGs) e voluntários em nove estados brasileiros e na Europa, arrecadando meio milhão de reais para garantir o sustento de centenas de famílias. A central reúne nove associações e dois coletivos, que juntos organizaram lives, campanhas em redes sociais, vaquinhas, etc. A principal apoiadora foi a RedTraSex, Red de Mujeres Trabajadoras Sexuales de Latinoamérica y El Caribe. Em vários estados brasileiros, grupos e organizações de trabalhadoras sexuais apoiaram suas comunidades com doações de alimentos, materiais de higiene e informação. É o caso da Associação das Profissionais do Sexo da Bahia, das Mulheres da Luz em São Paulo e da Estrela Guia em Santa Catarina, por exemplo. Para saber mais: No Distrito Federal, as Tulipas do Cerrado elaboraram uma cartilha com informações sobre proteção, saúde mental e fake news para as trabalhadoras do sexo, e também têm distribuído cestas básicas e máscaras para trabalhadoras sexuais e pessoas em situação de rua. Em Belo Horizonte, a Aprosmig - Associação das Prostitutas de Minas Gerais, se uniu ao Clã das Lobas e ao Coletivo Rebu em uma campanha de "arrecadação de colchões, móveis, eletrodomésticos, alimentos não perecíveis, vegetais e verduras frescas, produtos de limpeza e de higiene pessoal, máscaras, cestas básicas, álcool em gel 70% e valores em espécie, que são revertidos em cestas". A Anprosex - Articulação Nacional de Profissionais do Sexo tem realizado lives sobre prevenção, tecnologias digitais, planejamento financeiro e saúde mental, por exemplo. A atuação estratégica destas profissionais e sua crescente articulação mostra que é hora de apoiá-las. No Brasil, Fundo Brasil, Fundo Positivo e Fundo ELAS são exemplos das poucas organizações que apoiam trabalhadoras sexuais a partir da ótica dos direitos, fortalecendo espaços de trocas e articulação, de mobilização política e de (in)formação sobre violências contra as mulheres e saúde. Em 2012 foi lançado o Red Umbrella Fund, fundo de investimento social liderado por e para trabalhadoras sexuais. O Red Umbrella Fund apoia grupos do mundo todo, como a Associação Mulheres Guerreiras, de Campinas (SP): “Nossa luta é para garantir melhores condições de trabalho para a categoria ocupacional que representamos. Lutamos por todos os direitos, como qualquer outra categoria de trabalhadores. Nossa estratégia é estar presente e utilizar todos os espaços e veículos existentes para a discussão de políticas públicas no município, estado e país. Queremos que os formuladores de políticas nos conheçam e queremos participar das tomadas de decisão. Por exemplo, existem vários conselhos em nosso município, como o Conselho da Mulher, o Conselho de Saúde. Participamos muito ativamente desses conselhos para garantir que, quando houver qualquer tipo de discussão que nos envolva, estejamos sempre presentes para ouvir e indicar o que queremos como coletivo. Somos cidadãs como qualquer outra pessoa e somos trabalhadoras como qualquer outro trabalhador. Contribuímos para a economia da nossa cidade”, afirma Betânia Santos. Para saber mais: A Sex Work Donor Collaborative, ou SWDC, é uma rede de financiadores que se uniram para aumentar a quantidade e a qualidade do financiamento para apoiar os direitos das trabalhadoras sexuais. Confira a campanha Counting Sex Workers In!, da CREA e Mama Cash, que destaca as vozes e perspectivas das trabalhadoras sexuais a fim de promover a compreensão de que os direitos das trabalhadoras do sexo são direitos humanos e uma questão feminista. Assista aqui. Acesse também o livro “Guaicurus – A Voz das Putas”, organizado pela Aprosmig, que reúne textos de 12 mulheres trabalhadoras sexuais “que escrevem sobre o negativo e o positivo da vida”. E se você ainda acha que esse assunto não tem a ver com você, compartilho a epígrafe do livro Putafeminista da Monique Prada, trabalhadora sexual, feminista, escritora e editora do projeto MundoInvisível.Org. Monique abre seu livro com palavras da argentina Dolores Juliano: “A divisão das mulheres entre boas e más beneficia a estabilidade do sistema. O estigma da prostituição nada tem a ver com o que as trabalhadoras sexuais são ou fazem. Ele representa um potente elemento de controle para as mulheres que não atuam na indústria do sexo. O modelo de esposa e mãe abnegada exige muito sacrifício. Ainda que se diga que a mulher é a rainha do lar, sabemos que não, que é uma pessoa a serviço de todo mundo. É um modelo tão pouco atraente, e com tão pouca recompensa e reconhecimento que a única forma de conseguir que as mulheres se adequem a ele é lhes assegurar que a outra possibilidade é pior”. *Renata Saavedra é jornalista e pesquisadora com foco em direitos humanos, filantropia e justiça social. Compartilha umas ideias e referências em renatacompartilha.medium.com

Ensaio: “Eu sou porque nós somos”: Marielle Franco, luto público e persistência
Ensaio: “Eu sou porque nós somos”: Marielle Franco, luto público e persistência

Nina Zur* No dia 14 de março de 2018, a então vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) teve o seu carro alvejado e foi executada com diversos tiros na cabeça no bairro do Estácio, na cidade do Rio de Janeiro, quando voltava de uma roda de conversa com mulheres negras na Lapa, chamada “jovens negras movendo as estruturas”. Seu motorista, Anderson Gomes, também foi assassinado no episódio. Marielle foi a quinta vereadora mais votada no Rio em 2016, com 46.502 votos computados (O Globo, 2018). Com pouco mais de um ano de exercício de mandato, se destacava no plenário da Câmara Municipal com seus pronunciamentos contundentes em defesa dos direitos das mulheres, da população LGBTQI+, da população negra e de todas as minorias políticas. Além dos pronunciamentos, Marielle também carregava a longa trajetória na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde trabalhou por dez anos com o atual deputado federal Marcelo Freixo (PSOL/RJ). No exercício do mandato, propôs sete projetos de lei: a criação de espaço infantil noturno no Rio; a criação de campanha permanente de conscientização e combate ao assédio e violência sexual; criação de um dossiê periódico sobre o atendimento destinado às mulheres nos serviços públicos da cidade; assistência técnica pública e gratuita para projeto, construção e regularização fundiária de habitação de interesse social para famílias de baixa renda; programa de efetivação das medidas socioeducativas em meio aberto para jovens que cometeram atos infracionais; oficialização do dia de Tereza de Benguela e da mulher negra; e oficialização do dia da luta contra a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia. (Correio Braziliense, 2018). No dia seguinte a sua execução, milhares de pessoas foram às ruas do centro do Rio acompanhar o velório, do lado de fora da Câmara, e marchar em direção à Candelária. No momento da chegada do caixão à Câmara, mulheres negras estavam de mãos dadas fazendo uma espécie de corredor de proteção para a passagem do corpo, e entoavam “companheira me ajuda, que eu não posso andar só/ eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”, um canto que se aproxima do slogan de campanha de Marielle, “eu sou porque nós somos”. Fora essa canção, repetida como uma oração, os gritos de “Marielle, presente” também eram entoados a todo momento, como uma forma de corporificá-la através de suas próprias vozes. Contudo, além dos choros, a manifestação foi, em sua maior parte, silenciosa, como uma espécie plural, pública e corporificada de luto pela vereadora. A partir da articulação desses sujeitos, da relação e exposição individual de cada um com os demais, de sua relação com Marielle e com outros que poderiam ser Marielles, e da articulação da própria Marielle com o Estado e com as estruturas sociais, é possível pensar de que maneira a construção ética e a relação com a estruturas fundamenta a própria subjetivação dos sujeitos e a sua relação com a normatividade e com as instituições políticas. Se é certo que são sempre relações complexas e ambíguas, também é possível afirmar que, justamente por serem relações, excluem uma percepção de que há uma separação clara e delimitada entre agente e objeto e entre indivíduo e estrutura, reconfigurando a sua forma mesma de posicionamento no mundo e sua constituição como sujeitos. Donna Haraway, em sua defesa de uma “versão feminista da objetividade”, que busca uma “objetividade utilizável e corporificada” - um meio termo entre uma visão construcionista que enxerga a ciência como pura prática de retórica e convicções e uma visão positivista de ciência que aloca o feminismo como campo de interesse especial -, determina a política e a ética como centrais para que se encontre um caminho de posicionamento crítico. Para ela, a explicação de um mundo real, palpável e, portanto, objetivo, passa, também, pela noção de limitação e parcialidade dos conhecimentos e visões. Para ela, De modo não muito perverso, a objetividade revela-se como algo que diz respeito à corporificação específica e particular e não, definitivamente, como algo a respeito da falsa visão que promete transcendência de todos os limites e responsabilidades. A moral é simples: apenas a perspectiva parcial promete visão objetiva (HARAWAY, 1995, p. 21). Isso significa, portanto, que a falsa imagem de transcendência e de um sistema global de conhecimento e produção de saber deve ser substituída pela noção de que há inúmeros saberes, sempre parciais e localizados. Por isso mesmo, esses saberes são sempre limitados, assim como a visão humana, que é como um “sistema de percepção ativo, que constrói traduções e modos específicos de ver, modos de vida” (Haraway, 1995, p.22). E, por serem específicos e limitados, esses saberes precisam se conectar com outros sistemas, inclusive com os sistemas majoritários de poder. Há constantes tensões e ressonâncias entre eles, uma mediação permanente entre mundos e entre corpos e mundos. Para ela, os códigos e a linguagem, expostos pelos construcionistas, não dão conta da realidade complexa do conhecimento corporificado. Como conhecimento situado, a objetividade defendida pela autora expõe a ausência de completude, de acabamento, de identidade formada, de unidade e universalidade. O corpo que age no mundo para se posicionar criticamente e interpretá-lo toma esse mundo como objeto, ao mesmo tempo em que age com ele e que se subjetiva a partir dessa atuação conjunta. O que Haraway defende são Políticas e epistemologias de alocação, posicionamento e situação nas quais parcialidade e não universalidade é a condição de ser ouvido nas propostas a fazer de conhecimento racional. São propostas a respeito da vida das pessoas; a visão desde um corpo, sempre um corpo complexo, contraditório, estruturante e estruturado, versus a visão de cima, de lugar nenhum, do simplismo (HARAWAY, 1995 p. 30). Dessa maneira, a ciência proposta requer a clareza de que há conhecimentos múltiplos, sujeitos múltiplos em permanente comunicação, e essa comunicação nunca será plenamente bem sucedida, pois tampouco é bem sucedida a formação dos sujeitos como sujeitos individuais egóicos pautados pelo falogocentrismo e sua “Palavra única”. Posicionar-se significa estar vulnerável, correr riscos, se expor e se afetar, estar em constante abertura e transformação, assim como estão todos os sujeitos, embora em condições diferentes de vulnerabilidade. O que essa ciência busca são Saberes comandados pela visão parcial e pela voz limitada. (...) O único modo de encontrar uma visão mais ampla é estando em algum lugar em particular. A questão da ciência para o feminismo diz respeito à objetividade como racionalidade posicionada. Suas imagens não são produtos da escapatória ou da transcendência de limites, isto é, visões de cima, mas sim a junção de visões parciais e de vozes vacilantes numa posição coletiva de sujeito que promete uma visão de meios de corporificação finita continuada, de viver dentro de limites e contradições, isto é, visões desde algum lugar (HARAWAY, 1995, pp. 33 e 34). Trazendo para a realidade da execução de Marielle a teoria de Haraway, é possível defender que as pessoas que se juntaram para enlutar a vereadora e clamar por justiça social, principalmente as que estão na condição mais clara de “precariedade induzida” (Butler, 2018) - jovens, negro(a)s, moradores de favelas e regiões periféricas -, corporificam, em suas lutas, uma produção de saber situado que se articula permanentemente com o saber instituído e produz novas formas, sempre corporificadas, de entendimento de mundo e de sociabilidade, ou seja, de agência. A partir de sua atuação em conjunto, elas fornecem uma nova interpretação sobre as instituições e constroem, em sua posição específica e localizada, uma produção de saber própria, capaz de se articular e tensionar permanentemente os saberes instituídos. Isso se mostra não só na forma como enxergam o Estado, mas também em que tipo de demandas fazem a ele. Ao mesmo tempo em que reconhecem que o Estado, a Lei e as instituições políticas se constituem através da violência direcionada a eles, a seus amigos, a seus filhos, até mesmo a seus representantes, como surpreendentemente ocorreu com Marielle, e que não há possibilidade alguma de reparação efetiva dos danos que sofrem e que seguem sofrendo, também demandam, desse mesmo Estado violador, ações específicas que diminuam a vulnerabilidade e a precariedade em que são, aparentemente, fixadas. Portanto, a luta pela aprovação dos projetos de lei propostos pela vereadora se seguiram, e cinco deles foram aprovados cinco meses após a sua execução (NEXO, 2018). Assim, não excluem a relação com as estruturas políticas e sociais, mas jogam com elas, as deslocam e, de maneira própria, as reconfiguram, de forma que se torne viável um futuro melhor e vidas possíveis para as novas gerações, o que parece ser, também, o objetivo da “ciência sucessora” proposta por Haraway. O reconhecimento de que o Estado e, consequentemente, o direito são instrumentos de violência e de violência “distribuída diferencialmente” (Butler, 2018), ou seja, seletiva, pode ser encontrado na fala de muitos desses sujeitos, como a deste primo de vítimas de violência letal perpetrada pelo Estado, mortas em uma chacina (evento de homicídios múltiplos) operada pela Polícia Militar: O meu primo conseguiu acelerar a moto, se esconder. Ele viu tudo. Então ele foi vítima, mas sobreviveu, e é testemunha do caso. Depois disso, entrou num quadro de depressão muito grande. A mãe dele falava que ele não dormia, reclamava que sentia saudade do irmão e dos amigos, que cresceram juntos. Vinha num quadro muito forte de depressão, já não queria nem conseguia fazer nada. Ele um dia foi na rua comer alguma coisa, chegou em casa passando mal, caiu, começou a ter convulsão, a mãe dele levou ele pra UPA, chegou lá, o médico olhou pra ele e começou a fazer lavagem nele falando que era overdose. Ele tinha 16 anos, aí fizeram lavagem nele, e ele só piorando, já estava em coma, teve morte cerebral e tiveram que transferir ele para outro hospital. Foi transferido, o médico que atendeu no hospital falou: ele não teve overdose, ele teve um AVC, com 16 anos de idade. Não resistiu e morreu, meses depois que o irmão dele morreu. A mãe dele perdeu dois filhos vítimas dessa chacina. Meses antes dele morrer, que ele já vinha na depressão, foi quando consegui falar com Marielle, que na época trabalhava na Comissão de Direitos Humanos. Ela falou “não, vamos conseguir um psicólogo pra ele”, mas quando ela conseguiu o psicólogo, ele já tinha falecido. Essa é uma forma como o Estado mata. Condenou o menino: é preto e mora na favela, chegou aqui com convulsão, é droga (ALBERGARIA; PEDRETTI; SANTOS, 2018, p. 32) Essa fala é marcante, pois demonstra tanto essa simultaneidade entre desconfiança em relação às instituições que violentam e a procura por estruturas mínimas que possibilitem uma “vida vivível” (Butler, 2018), como atendimento de saúde básico, quanto um posicionamento corporal ético situado, pois dá valor às relações com os outros, à importância dos laços construídos ao longo da vida entre os sujeitos e a relevância de se ter, na posição de representação dentro dos espaços institucionais, uma mulher negra e nascida no complexo de favelas da Maré, ou seja, um corpo que possui marcas parecidas, sujeito de forma similar a “formas diferenciais de poder” e que pode, a partir dessas marcas, auxiliar na ação conjunta de jogar com as estruturas em nome de condições melhores de vida. A dimensão ética, de contaminação e contato com os outros, com as ruas e com as estruturas é, portanto, fundamental na percepção de mundo e ação no mundo realizada por esses sujeitos, e uma dimensão importante desse olhar é a especificidade na relação com o Estado. A própria Marielle, que tinha uma trajetória longa em espaços institucionais, acreditava na relevância desses espaços para a melhoria de condição de vida das pessoas e na promoção de garantias básicas de direitos e diminuição da desigualdade social, também se pronunciava na direção de reconhecimento dessa seletividade constitutiva e dessa violência “distribuída diferencialmente”. Um dia antes de ser executada, Marielle publicou em sua conta do Twitter o seguinte questionamento: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que esta guerra acabe?" (G1, 2018). A partir de suas experiências práticas de sofrimento, entendem, portanto, que esse saber específico também precisa ser expresso nas respostas institucionais, que devem ser adequadas ao sofrimento particular que vivem. Marielle era, portanto, a representação encarnada da possibilidade de um movimento nesse sentido, pois legislava a partir dessa visão situada e a partir das demandas específicas desses sujeitos. Uma visão situada e firme. Marielle, em seu último pronunciamento em plenária antes da execução, afirmou: “Não serei interrompida, não aturo interrupção dos vereadores dessa casa, não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita, presidente da Comissão de Mulheres da casa.” (Jornal Grande Bahia, 2018). Talvez a corporificação tenha sido solitária e pouco múltipla naquele ambiente majoritariamente masculino e branco, pois a sustentação que tinha de seus eleitores e apoiadores não foi suficiente para protege-la de um ataque que sequer foi anunciado. Marielle não teve possibilidade de requerer proteção institucional, pois não chegou a ser ameaçada de morte. Em consequência de todas essas exposições, fica nítida a percepção de mundo específica que essas múltiplas vozes fazem ressoar através de seus encontros e lutas. Não só reconhecendo a seletividade e as relações de poder presentes nas estruturas políticas com as quais se relacionam a todo tempo, mas também imaginando novas formulações e respostas que gostariam de ter dessas mesmas estruturas. Visões conflituosas, complexas, contraditórias que, justamente por isso, são potentes e podem fazer emergir desvios e construções inesperadas. Marielle foi um desses desvios, mesmo que passageiro e frágil. Talvez, sem querer, individualizado na prática, o que pode ter prejudicado a própria capacidade de operação dessas forças que são heterogêneas e abertas, mesmo que reconheçam origens, experiências e expressões comuns. A partir de seus olhares limitados pela violência material que sofrem, pelos adoecimentos, pelas realidades extremamente específicas em que vivem e condições extremas de vulnerabilidade, se abrem para as visões e ações dos outros, se expõem e se afetam continuamente e, dessa mobilização coletiva, surge uma reinterpretação constante do que os cerca e do que os conforma como sujeitos. A preocupação com a vulnerabilidade e a defesa dessa abertura ontológica também está presente nas reflexões de Judith Butler sobre ação política. Para a filósofa, a vulnerabilidade é uma condição de todos os sujeitos, e isso não significa que seja uma condição de paralisia e de ausência de qualquer tipo de ação e performance públicas. Pelo contrário, a vulnerabilidade é uma exposição ao mundo e aos outros que condiciona os processos de subjetivação a essas relações. Portanto, justamente porque os sujeitos, todos, estão expostos, se relacionam e se constituem a partir dessas relações, é que são capazes de agir e de agir em concerto, pois o próprio processo de corporificação, tão fundamental para as lutas efetivas de reivindicação da esfera de aparecimento e de reelaboração das infraestruturas, deriva dessa vulnerabilidade: Exatamente porque os corpos são formados e sustentados em relação com apoios de infraestrutura (ou sua ausência) e redes sociais e tecnológicas ou teias de relações, não podemos retirar o corpo das relações que o constituem (...) Isso significa que a vulnerabilidade sempre toma um objeto, é sempre formada e vivida em relação com o conjunto de condições externas, mas, ainda assim, parte do corpo em si mesmo. Podemos dizer, então, que o corpo existe em uma relação extática com as condições de apoio que tem ou demanda, mas isso significa que o corpo nunca existe em um modo ontológico distinto da sua situação histórica (BUTLER, 2018, p. 162). Essa mesma relação constitutiva dos sujeitos com a infraestrutura, assim, é fundamental para que haja capacidade de mobilização. Sem qualquer suporte de redes de apoio e sustentação, não há condições palpáveis de agência. “Para que o corpo se mova normalmente é preciso que exista algum tipo de superfície e suportes técnicos que permitam o movimento a sua disposição”, afirma Butler (2018, p. 142). Isso significa que, ao mesmo tempo em que reivindicam o espaço público, o aparecimento e suportes estruturais como garantia do direito à vida, à educação de qualidade, assistência médica, assistência psicossocial e habitação, por exemplo, o próprio exercício público dessa reivindicação só é possível se há algum tipo já existente de estrutura que apoie a ação, como fica claro nesta fala de uma mãe de vítima do Estado sobre garantia do direito à saúde pública: As mães perdem seus filhos, é uma perda sem explicação, é uma dor muito grande, e a gente acaba tendo doenças, então, pra gente estar na militância, estar nesse espaço aqui, a gente precisa primeiro se cuidar. Para todos, todos os familiares. Porque quando a gente perde nossos filhos, abala a todos. Então eu acho que isso seria uma coisa muito importante para nós familiares (EILBAUM; MEDEIROS, 2018, p. 62). Por isso, parece ser bastante plausível a relação ambígua desses sujeitos com o Estado que os apoia e os desampara simultaneamente. Bem como a relação ambígua de Marielle com o Estado, pois ocupou e insistiu em ocupar um espaço que, historicamente, não foi feito para receber sujeitos como ela. Assim, se esses sujeitos se corporificam e agem através desses suportes – Marielle, por exemplo, pôde estudar ciências sociais com bolsa na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, uma educação de qualidade que proporcionou a ela uma série de garantias e possibilidades de vida -, fica claro que, mesmo no exercício público de levar à tona a violência que sofrem, já há uma relação construída entre eles e esse suporte. Aqui, voltamos à Haraway (1995, p. 29) quando afirma que os “conhecimentos locais também têm de estar em tensão com as estruturações produtivas que obrigam traduções e trocas desiguais - materiais e semióticas - no interior das redes de conhecimento e poder”. A experiência única de dor enfrentada por essas pessoas não pode, dessa forma, se descolar plenamente da realidade fática e das estruturas paternalistas, mesmo que estejam reivindicando publicamente um futuro diferente que “nunca poderá ser plenamente codificado em lei” (Butler, 2018, p. 84). Como há uma abertura permanente nessas experiências corporificadas, não há estrutura que as expresse de maneira totalizante, assim como Marielle não expressou de forma totalizante os movimentos que representava. Outro ponto de convergência entre as duas autoras que faz parte dessa ideia de vulnerabilidade e processos de corporificação está na ideia de ambiente como agente. Assim como Haraway, Butler (2018, p. 81) afirma que “esses ambientes materiais são parte da ação, e eles mesmos agem quando se tornam a base para a ação (...) Nesses momentos, o ambiente material é ativamente reconfigurado e refuncionalizado”. Isso significa que, justamente por se constituírem em relação com o ambiente, esses sujeitos, quando mobilizando a vulnerabilidade em conjunto, são capazes de refuncionalizar esses mesmos ambientes. É o que parece acontecer quando essas pessoas ocupam a Câmara Municipal, quando se colocam às ruas para expor os corpos e demandar a interrupção do genocídio, quando mães de vítimas de violência de Estado ocupam o Ministério Público para reivindicar medidas de reparação ou quando expõem nas ruas os rostos, nomes e histórias de seus filhos, quando requerem produção oficial de memória e atendimentos especializados do Estado. Não é à toa que, após a execução de Marielle, muitas candidaturas de mulheres negras floresceram por todo o país. No Rio de Janeiro, do mesmo partido de Marielle foram eleitas para a Assembleia Legislativa as deputadas Mônica Francisco, Renata Souza e Danielle Monteiro, e Talíria Petrone para a Câmara dos deputados. Em todas essas candidaturas, Marielle era uma presença fundamental, como amiga, como companheira de trabalho e de lutas comuns, como referência simbólica e prática, no sentido de dar continuidade às pautas encampadas pelo seu mandato. Como diz Talíria Petrone, A consigna "Marielle Vive" é necessária porque é um instrumento de mobilização das mulheres que ficaram sem uma referência: mataram uma vereadora preta, favelada, que amava mulheres, defensora dos direitos humanos, socialista. Nesse sentido, o que vive são suas pautas. Por um lado eu me sinto na responsabilidade de não deixar sua memória morrer, mas eu não sou Marielle. Isso é importante dizer, não só porque eu tenho a minha trajetória, a minha história, mas porque ela foi assassinada e não está mais aqui. É natural que as pessoas façam essa transferência, é um orgulho que lembrem da Marielle quando me veem. Mas precisamos lembrar que ela foi executada: para pedir justiça por Marielle e Anderson, e entender a urgência do momento, de levar as pautas dela adiante. (EL PAÍS, 2018) Assim, a exposição de Talíria vai no sentido de dar continuidade às pautas como uma forma de fazer a sua companheira viver através das estruturas, mas ao mesmo tempo enlutando-a devidamente. Essa confusão constitutiva entre estrutura e corpo, entre corpo individual e corpo coletivo continua forte, até mesmo na sua tentativa de demarcar a sua própria individualidade que já é, a princípio, formada através da exposição aos outros e contato continuado com eles. Por isso, não basta apenas o suporte estrutural: a mobilização da precariedade se dá de forma coletiva, pois a própria corporificação se dá a partir das relações dos corpos com outros corpos. A capacidade política dos sujeitos está, portanto, em sua relação com os demais, ou seja, nas alianças que se formam de forma espontânea e inesperada entre os sujeitos. Isso porque a condição de vulnerabilidade nos impõe a interdependência como condição de persistência: O meu objetivo não é reabilitar o humanismo, mas ao contrário, lutar por uma concepção de obrigação ética fundamentada na precariedade. Ninguém escapa da dimensão da condição precária da vida social – ela é, podemos dizer, a articulação da nossa não fundação. E não podemos entender a convivência sem entender que uma condição precária generalizada nos obriga a nos opor ao genocídio e a defender a vida em termos igualitários (BUTLER, 2018, p. 131). No entanto, isso não significa que essa precariedade afete a todos de maneira igualitária. Butler (2018) reconhece que existe uma “precariedade induzida e distribuída diferencialmente” entre os sujeitos, e que as condições de persistência e de possuir uma vida vivível não se dão exclusivamente pelo suporte de outros sujeitos, mas são marcadas historicamente e economicamente, ou seja, há uma dependência estrutural das condições técnicas e materiais: Todo esforço político para gerir populações envolve uma distribuição tática de precariedade, com frequência articulada por meio de uma distribuição desigual de precariedade, distribuição essa que depende das normas dominantes no que diz respeito às vidas que são passíveis de luto e que devem ser protegidas e às vidas que não são passíveis de luto ou que são dignas apenas de um luto marginal e episódico e, nesse sentido, já estão perdidas em parte ou completamente e, portanto, merecem menos proteção e apoio (BUTLER, 2018, p. 131). Por isso, há sujeitos que estão mais expostos à violência do que outros e há sujeitos que sequer têm suas vidas passíveis de serem enlutadas, com risco diferencial de sofrer diversas modalidades de violência. E são esses corpos que, marcados de diversas formas por interseções de gênero, raça e classe, por exemplo, mais do que quaisquer outros, evidenciam essa “simultaneidade de ser precarizado e agir” (p.167), pois reivindicam, com seus corpos, a possibilidade mesma de luto público e de uma vida vivível ao se exporem em conjunto. Atuam, assim, “a partir da precariedade e contra ela” (p.134). A ação continuada e plural de produção de memória em relação à Marielle em atos de rua e em rede, de continuidade de seu trabalho em projetos, coletivos e instituições e até mesmo a exigência de apuração efetiva e qualificada do crime são formas de tornar esse luto persistente também persistir nesses novos “modos sociais de existência”. Gritar “Marielle, presente” é, igualmente, uma forma de gritar por todos os sujeitos que estão em situação de precariedade induzida, expostos frequentemente à violência. Como dizem Carla Rodrigues e Vinicius Santiago, Estes são os nomes gritados publicamente por aqueles que realizam o trabalho de luto. É preciso colocar o corpo nos espaços públicos e enlutar os que se foram e que, no entanto, não têm seus nomes lembrados, não têm suas histórias contadas. É preciso acordar esses mortos e saber seus nomes, pois eles têm muito a dizer sobre o país em que vivemos (RODRIGUES; SANTIAGO, 2018, p. 43). A exposição trágica de Marielle serviu, portanto, para trazer para a esfera de aparecimento outras vidas tornadas invisíveis. A partir dessas reflexões, podemos encarar a ação dos sujeitos que estão nas ruas enlutando-a e fazendo vivas as suas pautas uma “modalidade social do corpo”. Reunidos, expondo os seus rostos, os rostos de seus mortos, expondo seus próprios corpos, já tão violentados, à possiblidade de mais violência, aparecendo publicamente e reivindicando uma esfera de aparecimento, exibem e praticam uma forma corporificada de persistência. Atuando na produção de uma indistinção entre público e privado, se relacionam entre si, com seus mortos e com as estruturas para persistir e possibilitar novas formas de sociabilidade. Ao mesmo tempo, já exercem, a partir dessa exposição, o seu direito de persistir: Podemos ver como o espaço público existente é tomado por aqueles que não têm nenhum direito existente de se reunir nele, indivíduos que emergem das zonas de desaparecimento para se transformar em corpos expostos à violência e à morte enquanto se reúnem e persistem como fazem (...) Atacar esses corpos é atacar o próprio direito, uma vez que quando esses corpos aparecem e agem, eles estão exercendo um direito que está fora do regime, contra ele e em face dele (BUTLER, 2018, p. 92). Ao mesmo tempo fora do direito e dentro dele, apoiados pelas estruturas e desamparados por elas, expondo seus corpos à violência e fazendo-os aparecer e persistir, essa é a relação de indefinibilidade e deslocamentos contínuos que esses sujeitos têm uns com os outros e com o poder. Por isso, Adriana Vianna enxerga as mães de vítimas de violência de Estado como “figuras morais únicas”: Ao mobilizar a maternidade como componente central de sua participação na cena política e das possibilidades de solidariedades ativas entre mulheres, coletivos e causas, elas apresentam-se como figuras antes de tudo compostas: são mães entre outras mães (mas não entre quaisquer mães); são parte de uma díade estreita e inseparável com seus filhos e, finalmente, são as que podem mover-se com mais propriedade entre o singular de cada perda e seu sentido coletivo, esse necessariamente político e socialmente marcado (VIANNA, 2018, p. 39). “Falando sobre”, “falando por” e “falando com” seus filhos, elas expõem um espaço de práticas corporificadas de interdependência, entre elas mesmas, entre elas e seus filhos, entre elas e os filhos de outras mães. Figuras morais e figuras éticas, são capazes de pensar mundos em que as vidas sejam passíveis de serem vividas, todas de maneira igualitária. Não é de se espantar que Marielle fazia questão de se declarar mãe, e mãe solteira, quando falava sobre a sua história e sua experiência no mundo. Ainda assim, essas mesmas esferas de representação a que recorrem são onde se desenvolvem os processos de humanização e desumanização. Segundo Butler (2011), a figura levinasiana do Rosto que nos interpela eticamente é, ao mesmo tempo, humana e inumana, capaz de nos humanizar a partir de sua ausência de forma, a partir de sua angústia não vocalizada, mas também incorporar essas falhas no humano, exibir essa irrepresentabilidade constitutiva do humano: Para a representação exprimir o humano, portanto, ela deve não apenas falhar, mas deve mostrar sua falha. Há algo de irrepresentável que nós, não obstante, perseguimos representar e esse paradoxo deve ser absorvido nas representações que realizamos (BUTLER, 2011, p. 27). Dessa maneira, a separação entre humano e inumano significaria um “sistema normativo de inteligibilidade” em que a representação atuaria como delimitação da fronteira entre o que poderia ser considerada uma vida humana que pode aparecer como tal e a vida que não pode ser lamentada e que “marca a fronteira de violência e desumanização” (Butler, 2011, p. 30). Por isso, há certas vidas que nem sequer são representadas e há vidas que são representadas para que sejam capturadas de maneira violenta. Expor a falha da representação é, então, importante para que se abram novos esquemas de compreensão das vidas que aparentemente não importam. Ao agir em concerto publicamente, esses sujeitos exibem essa falha, reivindicam o seu lugar na determinação de sujeitos, abrem a esfera de aparecimento e de luto mas, ao mesmo tempo, reivindicam representações e inclusões em sistemas normativos que são, por si só, esquemas de violência. Tanto são que Marielle, ocupando um espaço institucional, esteve, ao mesmo tempo, sempre à margem dele, até ser descartada de forma extremamente abrupta e violenta. A complexidade das relações estruturais está presente até na modalidade do crime. As investigações, até agora, apontaram que os supostos executores do assassinato pertencem a grupos milicianos, sendo um deles um policial militar reformado e o outro um policial militar expulso da instituição. A milícia, como se sabe, é um sistema complexo que atua ilegalmente, porém com ampla e enraizada influência política e institucional, controle militarizado de territórios e serviços econômicos e comerciais, ou seja, está fora e dentro do Estado. Como afirma o sociólogo José Claudio Souza Alves, Há uma continuidade do Estado. O matador se elege, o miliciano se elege. Ele tem relações diretas com o Estado. Ele é o agente do Estado. Ele é o Estado. Então não me venha falar que existe uma ausência de Estado. É o Estado que determina quem vai operar o controle militarizado e a segurança daquela área. Porque são os próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador, é um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente. Eu sempre digo: não use isso porque não é poder paralelo. É o poder do próprio Estado (apud AGENCIA PÚBLICA, 2019). Todas essas contradições delimitam o dilema constitutivo das relações éticas com a representação institucional que as envolve. Se, segundo Butler (2011, p.32), “é preciso criar um senso do público no qual vozes de oposição não são temidas, degradadas ou descartadas, mas valorizadas pela instigação à democracia sensata que ocasionalmente realizam”, é um problema extremamente complexo imaginar de que forma isso se sustentaria verdadeiramente em sistemas de inteligibilidade tão pouco abertos às demandas corporificadas dessas vozes de oposição. Assim, parece que a própria prática dessas demandas, a própria apresentação dessas vozes na esfera pública já é a forma mais radical de democracia possível, pois através de seu aparecimento mesmo e sua mobilização conjunta da vulnerabilidade é que essas vozes exercem os seus direitos e tensionam os sistemas globais de poder, reconfigurando as relações entre elas e as estruturas que as amparam e desamparam simultaneamente. Como sujeitos constitutivamente irrepresentáveis, vulneráveis e abertos às mais diversas ressonâncias, eles inauguram um processo permanente de jogo com o universal e com uma linguagem fechada, através de constantes posicionamentos e reposicionamentos: É nessa fala conjunta, ecoada e que não pode ser plenamente explicada ou dissecada que encontramos, creio, a marca mais pungente ao alcance coletivo da política de destruição em que estamos metidos. Os corpos atingidos e registrados em chocantes dados quantitativos são, afinal, corpos morais, múltiplos, plenos da presença do outro. Não há mortos individuais por aqui. E, por isso, não há mortos que possam ser completamente sepultados. Esse assombrar contínuo não se encerra em suas mães, mas está imiscuído na vida de todos nós (VIANNA, 2018, p. 39, grifos nossos). Marielle Franco não pode ser plenamente sepultada, pois não é uma morta individual. Assim como os sujeitos que persistem não podem ser plenamente enxergados em sua individualidade. Dessa forma, a irrepresentabilidade constitutiva e a impossibilidade de individuação dessas formas de vida se adequa à concepção de Haraway (1995) do eu corporificado, dividido, contraditório e relacional, bem como à visão de Butler (2018) sobre as alianças e sua capacidade de reconfigurar permanentemente o espaço público e o próprio exercício de direitos, visto que a representação e o sistema normativo já são, em si, falhos e não podem conter plenamente “efeitos indesejados”. Se a performance no espaço público já é um tipo de representação, e já expõe sua falha constitutiva, visto que os sujeitos são relacionais, múltiplos e irrepresentáveis, isso significa que outras formas de representação, até mesmo as dominantes, também são esquemas formados relacionalmente e performativamente e que abrigam, portanto, a possibilidade de “errar o alvo” e permitir que algum desvio aconteça. Esse desvio, Butler denomina de “queer”. Para além dos debates generificados, “queer” significa um movimento contínuo, e esse movimento só é possível porque todos os sujeitos e estruturas que os apoiam e constrangem têm a capacidade de ser afetados e estão vulneráveis, marcados por uma suscetibilidade produtiva que pode dar voz e corpo às críticas de “formas diferenciais de poder” (Butler, 2018, p. 58) e novos “modos sociais de existência” (Butler, 2018, p. 66). A partir dessa reflexão, é possível entender os movimentos que ganham força após a execução de Marielle Franco como uma forma permanente e corporificada de contestação e reconfiguração das táticas diferenciais de poder e das estruturas políticas correspondentes. Com um entendimento muito particular de mundo, são capazes de se posicionar criticamente a partir de sua condição situada de precariedade, que as potencializa numa interdependência corporal e numa dependência das próprias estruturas sociais. Como seres corporificados, estão sempre em processos de corporificação, subjetivação e posicionamento, o que os direciona para a possibilidade contínua de agência em rede e de deslocamento do próprio modo de funcionamento das estruturas, que são, igualmente, representações não totalizantes e falhas. Como mundo, ambiente, técnica, linguagem, corpos e sujeitos estão, constitutivamente, em relação, a grande realização desses movimentos é expor, a partir dessas mesmas relações, as formas de indução de precariedade e de violência sistêmica a que estão submetidos e, consequentemente, reconfigurá-las. Ao agir em conjunto, ao recusar perspectivas totalizantes e individualizadas de mundo, ao expor seus corpos e reivindicar o espaço público, enlutar a sua representante e reivindicar as estruturas sociais de maneira muito particular, esses sujeitos não só exercem direitos que possuem, mesmo que não estejam codificados, como encarnam uma aporia de justiça que deixa de ser transcendente para ser corporificada. O sucesso das lutas não está, portanto, em uma redenção e uma interrupção por tempo indeterminado da violência, violência política que matou Marielle e seguirá matando e deixando morrer, mas na própria recusa e reconfiguração dos sistemas de poder que invisibiliza essas mesmas lutas e pessoas. Aparecendo e aparecendo por Marielle, aparecendo por todos os seus mortos, formando alianças e redes de solidariedade, redes complexas, contraditórias e inacabadas, já estão, portanto, deslocando as fronteiras da distribuição desigual das condições de vida e possibilitando “conexões e aberturas inesperadas” (Haraway, 1995, p.33) que podem ser a chave para a conquista de modos de vida mais justos, onde haja possibilidade de futuro para todos. Como diz Haraway, “aceitar as dificuldades de viver e morrer juntos em uma terra arrasada vai se provar mais efetivo para as formas de pensamento que vão fornecer os meios para a construção de futuros mais passíveis de viver” (2016, apud MAYORCA; BARROS, 2019, p.76). *Nina Zur é mestranda do Programa de Pós Graduação em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC Rio, vinculada à linha de pesquisa em Teoria do direito, ética e construção da subjetividade. É bolsista Capes e integra o grupo de pesquisa institucional em Teoria Crítica do Direito - Direito, violência e vida nua, vinculado ao CNpq. Mais informações em: http://lattes.cnpq.br/7041156913135066 Email: ninaazur@gmail.com. Foto de capa: Ato em homenagem à Marielle Franco, no centro do rio de janeiro, em março de 2018 bernardo g. santos, cc by 2.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGÊNCIA PÚBLICA. No Rio de Janeiro, a milícia não é um poder paralelo. É o Estado, 28 de janeiro de 2019. Disponível em: https://apublica.org/2019/01/no-rio-de-janeiro-a-milicia-nao-e-um-poder-paralelo-e-o-estado/ Acesso em: julho 2019. ALBERGARIA, Rafaela; PEDRETTI, Lucas; SANTOS, Shana. Reconhecer e reparar: compreendendo as demandas, possibilidades e experiências de respostas à violência de Estado no Rio de Janeiro. Comunicações do ISER. Rio de Janeiro, n.72, ano 37, p. 20-55, 2018. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. ______. Vida precária. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar. São Carlos, Departamento e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, n.1, p. 13-33, 2011. CORREIO BRAZILIENSE. Quais são os sete projetos de lei propostos pela vereadora Marielle Franco, 03 de maio de 2018. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2018/05/03/interna-brasil,678003/quais-sao-os-projetos-de-lei-propostos-pela-vereadora-marielle-franco.shtml. Acesso em: julho 2019. EILBAUM, Lucía. MEDEIROS, Flávia. A tal reparação: moralidades e emoções do ponto de vista dos familiares de vítimas letais. Comunicações do ISER. Rio de Janeiro, n.72, ano 37, p. 56-67, 2018. EL PAÍS. A esquerda precisa voltar aos territórios. Não para levar uma verdade, mas para escutar, 13 de outubro de 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539198473_534582.html. Acesso em: julho 2019. G1. ‘Quantos mais precisarão morrer?’, postou vereadora um dia antes de ser assassinada no RJ, 15 de março de 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/quantos-mais-precisarao-morrer-postou-vereadora-um-dia-antes-de-ser-assassinada-no-rj.ghtml. Acesso em: julho 2019 HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, n. 5, p. 7-42, 1995. JORNAL GRANDE BAHIA. Último pronunciamento de Marielle Fraco antes de ser executada no Rio de Janeiro, 15 de março de 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5PwJHGBoxTM. Acesso em: julho 2019. MAYORCA, Daniela Sevegnani; BARROS, Allyne Fernandes Oliveira. Efeitos psicossociais da violência de Estado e a operação clínica do direito à reparação. In: LOPEDOTE, Maria Luiza Galle et al (orgs). Corpos que sofrem: como lidar com os efeitos psicossociais da violência? São Paulo: Elefante, 2019. p. 69-79. NEXO. O que dizem os projetos de Marielle Franco aprovados no Rio, 16 de agosto de 2018. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/16/O-que-dizem-os-projetos-de-Marielle-Franco-aprovados-no-Rio. Acesso em: julho 2019 O GLOBO. Um assassinato, 46.502 votos, milhares de brasileiros, 16 de março de 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/um-assassinato-46502-votos-milhares-de-brasileiros-22495345. Acesso em: julho 2019. RODRIGUES, Carla; SANTIAGO, Vinicius. Feridas de uma herança dolorosa. Cult – Revista brasileira de cultura, São Paulo, nº 232, ano 21, p. 40-43, 2018. VIANNA, Adriana. As mães, seus mortos e nossas vidas. Cult – Revista brasileira de cultura, São Paulo, nº 232, ano 21, p. 36-39, 2018.

Ensaios: A liberação animal também é a liberação humana
Ensaios: A liberação animal também é a liberação humana

Uma breve análise sobre a relação entre feminismo e veganismo Aline Amorim* O feminismo é uma visão filosófica e movimento político, protagonizado pelas mulheres, que buscam igualdade em diversas esferas entre homens e mulheres, se opondo ao machismo e as estruturas que as inferiorizam. O veganismo é um movimento ou ideologia que defende a não utilização de produtos de origem animal, opondo-se a todo e qualquer tipo de uso ou exploração animal. Se pararmos para refletir, a relação entre ambas as causas vai muito além da busca contra a opressão de alguns seres sobre outros. O fato é que, assim como o corpo feminino, o dos animais também é objetificado. Tomando como exemplo o corpo feminino, que serve para dar prazer aos homens e procriar, assim também o corpo dos animais serve para fornecer carne, leite, além de serem utilizados em testes de produtos, dentre outras formas de violência, que geram lucro através dos corpos humanos e não-humanos para o sistema capitalista. O livro “A política sexual da carne” escrito pela feminista e ativista pelos direitos dos animais Carol Adams nos propõe uma análise mais apurada das ligações entre feminismo e veganismo, bem como da relação entre o patriarcado e a prática de comer carne. Quando descreve a função do “referente ausente”, ela observa, através de uma pesquisa abrangente entre as feministas veganas americanas - como também através da análise de objetos como cardápios, anúncios publicitários, entre outros - o processo simbólico que torna mulheres assim como animais, em referentes ausentes, permitindo o entrelaçamento da opressão dos corpos humanos e não-humanos. Segundo Adams, esse processo mantém a carne separada de qualquer ideia de que ela era um animal. Como explica a autora, a ausência encontra-se por trás de toda a refeição com carne onde há a morte do animal, cujo lugar é ocupado pela carne. Diante dessa análise, é possível refletir que em nossa sociedade e cultura, as mulheres também são referentes ausentes, pois são vistas, com frequência, como um corpo a ser consumido e usado pela publicidade, além de muitos outros modos; o que nos revela, mais uma vez, como o movimento feminista é essencial e necessário, pois da mesma forma como os animais são consumidos, os corpos femininos também são vistos como “consumíveis”, não só visualmente, mas também através do acesso sexual dentro de uma sociedade patriarcal que os considera estupráveis. Outra lógica que precisa ser analisada é a questão da caça, pois assim como existe a dominação dos nossos corpos de forma violenta, nos corpos não-humanos também é possível observar essa dominação, como se o mais forte tivesse um direito natural de oprimir o mais fraco. Assim como o uso frequente de certos “clichês” na tentativa de neutralizar comportamentos abusivos, como por exemplo "os homens são assim mesmo" para justificar violências, abusos ou outros tipos de atitudes destrutivas em relação às mulheres, os seres não-humanos em nossa sociedade não têm o direito de expressar livremente seus desejos e vivem para servirem como objeto de uma cultura patriarcal, sexista e especista, reforçando a máxima de que o patriarcado se utiliza de corpos fragilizados. As ilusões impostas pela mídia em geral são inúmeras, mostrando que se nunca questionarmos e simplesmente aceitarmos, jamais iremos entender o que está acontecendo por trás dos interesses individuais. Inumeráveis outros fatos, argumentos e estudos, mostram como o especismo e o machismo andam de mãos dadas. Na Europa sufragista, surgiu a ideia empoderadora de que as mulheres, mesmo as que exerciam o papel de dona de casa, poderiam ajudar a criar um mundo novo e mais compassivo ao adotar uma dieta vegetariana, como apresenta o artigo da historiadora norte americana Lean Leneman - The awakened instinct: vegetarianism and the Women’s suffrage movement in Britain. As raízes da ligação entre vegetarianismo e feminismo remetem ao ano de 1890, conforme manifestado no jornal radical Shafts - editado por Margaret Shurmer Sibthorp[1] de novembro de 1892 ao início de 1899 - cuja primeira edição incluía, normalmente, um artigo intitulado 'Escrita como um emprego para mulheres’, uma síntese complexa de feminismo, socialismo e tradições ocultas relacionadas à Teosofia. A revista se destacou no apoio ao acesso ao controle de natalidade, antivivissecção e sufrágio universal. Shafts também apresentava outros aspectos do bem-estar animal, com artigos que colocavam questões sobre a crueldade da caça durante o período de sufrágio, e também as relacionadas com o uso de peles. A atriz e militante Maude Arncliffe-Sennett[2] chegou a colar no jornal alguns anúncios de modelos vestidas em casacos de pele e rabiscados ao lado: "Nesses todas as mulheres me parecem odiosas – elas representam muita matança!” Diante do que foi exposto, é possível notar que é mais do que necessário apostar na interseccionalidade entre as causas, buscando cada vez mais fomentar essas discussões dentro de um modelo capitalista e patriarcal que relaciona a exploração animal e ambiental, o consumo da carne e a dominação entre pessoas através das relações de gênero, fazendo dessas discussões uma prática natural, buscando a compreensão de que a luta é muito maior e traz mais resultados quando agrega movimentos, como afirmou o filósofo australiano Peter Singer: “A liberação animal, também é a liberação humana”. * Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea. Pesquisadora das temáticas Mulheres e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo. Instagram: @a.line.amorim Referências bibliográficas: ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre carnivorismo e a dominância Masculina. São Paulo: Alaúde, 2012. MONTEIRO, Lorena Lúcia Cardoso. Veganismo, feminismo e movimentos sociais no Brasil. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X LENEMAN, Lean. The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain. Women’s History Review, v. 6, pages 271-287, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1080/09612029700200144 Acesso em 30 Jan 2021. SINGER, Peter. Libertação animal: O clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos animais. 1ª edição. SP: Martins Fontes, 2010. Notas: [1] Editora do jornal Shafts : A Paper for Women and the Working Classes , que foi publicado entre 1892 e 1899. Disponível em: https://www.classicsandclass.info/product/18/ Acesso em 30 Jan 2021. [2] Também conhecida com o nome artístico de Mary Kingsley foi uma atriz e sufragista inglesa, presa quatro vezes por seu ativismo. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Maud_Arncliffe_Sennett Acesso em 30 Jan 2021.

As “Cloroquina Squares” do Brasil de quase meio milhão de mortes
As “Cloroquina Squares” do Brasil de quase meio milhão de mortes

Larissa Riberti* A reabertura gradual do comércio e a retomada das atividades suspensas por decisões de governos municipais e estaduais – que buscam frear a segunda onda da pandemia de coronavírus – têm suscitado uma série de embates e confrontos entre os que apoiam a flexibilização das regras de isolamento e os que defendem a continuidade das medidas restritivas. Um impasse desnecessário, visto que, numa pandemia, nossa preocupação fundamental deveria ser a garantia da vida. Porém, num país onde o governo federal se desresponsabiliza da tarefa de instituir políticas públicas como as que garantissem o emprego e a renda de grande parte dos brasileiros, a queda no padrão de vida faz com que muitos trabalhadores se oponham a medidas que poderiam ser mais efetivas no combate à pandemia. O cenário é catastrófico! Não bastasse a crise sanitária, temos uma crise social, do mundo do trabalho, do desemprego, que reflete o desespero dos brasileiros pobres e da classe média baixa ao verem sua renda cair e o custo de vida aumentar. Para muitos, não resta outra alternativa a não ser implorar pela “possibilidade de trabalhar”. Esses trabalhadores, e me refiro àqueles que não atuam na chamada linha de frente ou nos serviços essenciais, mas aos que prestam serviços gerais, atuam no comércio, têm empregos informais e vivem de pouca renda, são influenciados por um jogo duplo. Por um lado, são diretamente afetados pelas consequências da omissão do governo comandado por Jair Bolsonaro. Não custa lembrar que, não fosse a pressão das bancadas de oposição no legislativo, o Auxílio Emergencial seria reduzido a um cartaz de propaganda política, cujo valor seria ainda mais aquém daquilo que foi pago nos meses anteriores. Assim, aos brasileiros foram negadas as condições ideais de sobrevivência em meio a um estado de exceção provocado pela pandemia. Por outro lado, os trabalhadores são diariamente bombardeados, desde o início da crise sanitária, por informações que lhes dão uma falsa sensação de virtude e resistência ao continuarem e desejarem trabalhar nessas condições de risco. Impossibilitadas de fazer o lockdown ou de trabalharem em casa, essas pessoas foram profundamente influenciadas por narrativas que disfarçam a exploração e a precarização do trabalho com a ideia de que as atividades desempenhadas por elas são “essenciais”. Funções que adquiriram a falsa caraterística de “indispensável”, mesmo quando se referem às tarefas desempenhadas pela faxineira da casa da madame, pelo cuidador do pet da vizinha, pelo motorista do filho do patrão, pela recepcionista da clínica de estética, pelo instrutor da academia, pelo garçom da cervejaria artesanal. À tal narrativa não se nega a paternidade. Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu perfil do Facebook: “Atividade essencial é toda aquela necessária para um chefe de família levar o pão para dentro de casa!”. Assim, estimulando a ideia de que, se não trabalharem, esses trabalhadores morrerão de fome, o chefe do governo federal se aproveitou da desobrigação de suas próprias funções, e jogou nas costas dos brasileiros pobres a tarefa de lutar pelo seu próprio sustento, ainda que isso lhes custasse a vida. Daí o grande apelo popular pelo retorno de atividades não essenciais, pela reabertura do comércio, de bares, de escolas, de shoppings centers. A construção dessa ideia, que pretende fazer desses trabalhadores “heróis” por resistirem ao isolamento, teve (e tem) a decisiva participação de setores da nossa sociedade, como parte da grande imprensa, empresários, parcelas da classe média. Os membros da elite foram uníssonos em defenderem a exposição dos trabalhadores, maquiando suas intenções com uma falsa valorização do trabalho. Para isso, disparam correntes e fake news nas redes sociais, financiam propagandas na televisão e nos outdoors, vestem a camisa (literalmente), organizam protestos – na segurança de seus carros 0km – e influenciam os “subalternos” fazendo com que estes acreditem que são realmente “essenciais”, que sem eles “o Brasil para”. Pura canalhice de quem explora o trabalho alheio, mas que em nenhum momento se preocupa com as necessidades e a saúde dos trabalhadores. Prova disso é que grande parte dessa elite pode ser facilmente encontrada nos locais que voltaram a abrir recentemente: pontos turísticos, bares, shoppings, restaurantes, praias... Do auge do seu privilégio de classe, desfrutam a vida durante e aos finais de semana a despeito das mais de 400 mil mortes e de mais de 15 milhões de casos de Covid-19. Certamente, entre as centenas de milhares de falecidos estão muitos daqueles que foram influenciados pelo perverso discurso da “indispensabilidade” de seus trabalhos. Perfis das redes sociais ilustram o fato, reunindo imagens e vídeos de festas clandestinas, aglomerações, reuniões de final de semana, bares, restaurantes. Nas denúncias há algo em comum: todos os lugares estão lotados de pessoas que se divertem como se não houvesse um vírus de alta letalidade à solta. Dentre tantas, destaca-se a imagem de uma praça central de Tiradentes, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Chamam a atenção os elementos caricatos do enredo: homens e mulheres, majoritariamente brancos, desfilam em carros novos e em suas roupas caras para a estação do frio. Ocupam cada um dos espaços disponíveis, sem máscara, bebendo e comendo, não deixando absolutamente nenhuma margem para que se cumpra algum protocolo de distanciamento. É a “Cloroquina Square”! Nessa cidade quase cinematográfica, que remete ao auge da mineração no período colonial, figuram ainda as peças centrais de um Brasil atrasado, irresponsável e elitista. Se no passado fomos marcados pela exploração da mão de obra escravizada, negra e indígena, no presente temos os filhos da elite que se aglomeram colocando em risco aqueles que não têm alternativa senão servir para tentar sobreviver: os trabalhadores. A “Cloroquina Square” é, portanto, o lugar onde se reúne essa elite que defende a “essencialidade” do trabalho alheio, mas que cumpre suas tarefas na segurança do home office. Uma gente egoísta e inconsciente que, incapaz de assumir seu papel na coletividade, defende uma vulgar noção do direito de ir e vir no seu sentido estritamente individual. Essa sobreposição de imagens deixa evidente o nível da luta de classes existente no Brasil dos dias atuais. Uma realidade que transcende qualquer projeto de governo, ainda que a atual gestão de Bolsonaro endosse e estimule as ações arbitrárias dos individualistas. Mas, é de se suspeitar que, tivéssemos no poder um presidente responsável e preocupado com o bem-estar de toda população, certamente ainda teríamos que nos confrontar com uma elite pronta a “fazer suas próprias regras”, a aglomerar e colocar em risco as vidas que eles consideram menos necessárias. A “Cloroquina Square” é justamente a metáfora que revela o estilo de vida e o potencial destrutivo dessa parcela da nossa sociedade. E, pelo que denunciam as redes sociais e as reportagens publicadas pelos veículos de comunicação, brotam “Cloroquina Squares” num país de quase meio milhão de mortos pela Covid-19. *Larissa Riberti é professora Doutora da área de História Contemporânea da UFRN, pesquisa movimentos sociais, armados, sociedade, política e gênero na América Latina.

Ensaio: O desmonte do direito à memória: nos porões do governo Bolsonaro
Ensaio: O desmonte do direito à memória: nos porões do governo Bolsonaro

Rafaela Elisiario* O Brasil encontra-se em um dos momentos mais difíceis no que diz respeito à continuidade dos movimentos de reparação histórica em relação ao período do regime militar iniciado em 1964. Desde a ascensão do grupo político que hoje representa o governo federal do nosso país, de forma recorrente, a sociedade brasileira ora testemunha elogios a torturadores, ora escuta que a ditadura não aconteceu em solo brasileiro. E, desta forma, uma parte da história retorna aos porões dos crimes cometidos no período de interrupção democrática no Brasil. Recentemente, todos os sujeitos envolvidos na pesquisa sobre a Ditadura empresarial-civil-militar, assim como os movimentos da sociedade civil organizada pela memória, verdade e justiça, assistiram perplexos às mudanças anunciadas pelo governo federal na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Criada em 1995, a Comissão foi responsável pelo reconhecimento das diversas mortes ocasionadas através da perseguição política institucionalizada pela Ditadura. O decreto de Bolsonaro anuncia a entrada de quatro membros em um colegiado de sete pessoas na Comissão. Imbuído do aval da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, o Presidente da República, ao indicar pessoas que publicamente já deram declarações pró-ditadura, fabrica um rearranjo que ameaça o andamento dos trabalhos de uma instância fundamental para a história do país. A comissão estava iniciando a segunda fase dos seus trabalhos, de busca aos corpos dos mortos políticos. Sob a presidência do advogado, filiado ao PSL e assessor especial de Damares, Marcos Vinicius Pereira de Carvalho, muito provavelmente esta segunda fase já termina antes de começar. As mudanças ocorridas na Comissão aconteceram logo após Bolsonaro ter sido chamado por essa instância para explicar as suas declarações públicas a respeito do desaparecimento e morte de Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Felipe Santa Cruz - durante a ditadura. As exonerações dos profissionais da Comissão sem justificativa e a indicação de quatro novos membros - sendo dois filiados ao PSL (partido de Bolsonaro) e dois militares - representa a coroação do período atual, de desmonte dos avanços que tivemos no sentido de transformar a reparação histórica e o direito à memória no Brasil em assuntos que precisam ser contemplados por políticas públicas de Estado. A gravidade deste cenário vai além de as indicações serem de militares ou pessoas do partido de Bolsonaro. A questão central reside no alinhamento notório, declarado e publicado na imprensa, dos membros em questão com a versão que nega os crimes e abusos cometidos pela Ditadura no Brasil. Portanto, na contramão tanto dos objetivos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, como da lei de número 9.149 que a instituiu em 4 de Dezembro de 1995, no governo do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Diferentemente de outros países da América Latina que também enfrentaram ditaduras, sobretudo entre as décadas de 60 e 80, o Brasil avançou vagarosamente na construção de uma memória coletiva que permitisse o mais amplo conjunto da sociedade brasileira reconhecer esse período de nossa História como um momento de violação de direitos e liberdades. Iniciativas fundamentais aconteceram, como é o caso da própria Comissão Especial de mortos e desaparecidos políticos, da Comissão Nacional da Verdade que se desmembrou em diversas comissões espalhadas pelo Brasil, desenvolvendo um trabalho essencial nas localidades e em movimentos importantes, como a Comissão Nacional da Verdade dos Estudantes, fundada pela UNE. No entanto, estas ações não se consolidaram como políticas públicas de Estado com planejamento estratégico a longo prazo. Não por falta da insistência e trabalho dos setores comprometidos com o esclarecimento deste tema junto ao povo, mas pela situação de permanente disputa desta temática por parte dos grupos alinhados com o dito fenômeno do “apagamento” e, portanto, do não esclarecimento do que significou e quais as sequelas que uma ditadura de vinte e um anos formou em nossa sociedade. Nesta situação conflitiva acerca da consolidação das políticas de direito à memória, a ascensão de Bolsonaro à Presidência representa não só o fim do que já havia sido feito até aqui, mas também uma ruptura com o Plano Nacional dos Direitos Humanos III (2010), que determina como eixo estruturante os trabalhos pela memória. Neste caso, a memória é situada no plano da esfera pública, ao retomar acontecimentos ocultos sobre violações praticadas por agentes vinculados ao Estado, e também exposta a vários agenciamentos deste passado. O professor Javier Alejandro Lifschitz (2016, p.73) apresenta que este espaço público é um lugar “de comunicação de conteúdos, formação de opiniões e tomada de posições, em que participam, passiva ou ativamente, tanto indivíduos como movimentos sociais, que a memória deve disputar sentidos”. Assim, diante do cenário de profunda fragilidade democrática e constantes ataques aos princípios dos direitos humanos, precisamos disputar a construção dos sentidos das memórias de temas tão relevantes para a pavimentação de caminhos verdadeiramente democráticos em nosso país. Bibliografia ABRÃO, Paulo. A lei de anistia no Brasil: as alternativas para a verdade e a justiça. In: RUIZ, Castor M.M. Bartolomé (Org.). Justiça e memória. Direito à justiça, memória e reparação: a condição humana nos estado de exceção. São Leopoldo: Casa Leiria; Passo Fundo: IFIBE, 2012. LIFSCHITZ, Javier Alejandro. Em torno da memória política. In: Porquê Memória Social? Revista Morpheus de estudos interdisciplinares em memória social. Rio de Janeiro. v.9.n 15, 2016. Crédito das imagens Imagem de capa: Prédio Dops, na avenida Afonso Pena, recebe ato por direitos humanos no aniversário de 53 anos do golpe militar, em 2017 - Lidyane Ponciano / CUT Minas (https://www.brasildefatomg.com.br/2018/12/05/antigo-predio-do-dops-em-bh-recebera-memorial-dos-direitos-humanos) Imagem do texto: Blog "Nó de oito" (http://nodeoito.com/memoria-da-ditadura-no-brasil/) *Rafaela Elisiario é mestranda em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Graduada em História pela Universidade Católica de Petrópolis e atua como Professora no ensino fundamental público.

Ensaios: pandemia, mulheres e mercado de trabalho, por Regina Prado
Ensaios: pandemia, mulheres e mercado de trabalho, por Regina Prado

Mulheres são as maiores vítimas da pandemia no mercado de trabalho Análise feita por economistas sobre os dois últimos trimestres da PNAD/IBGE forma um retrato da sobrecarga feminina, da maior perda de postos de trabalho e da difícil reconquista de vagas por causa da crise econômica e sanitária que assola o país Resumo de relatório feito por Regina Prado* Em termos gerais, toda a população sofre com as consequências do isolamento social e da quarentena impostos pela pandemia, mas nem todos com a mesma intensidade. Números da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) revelam uma desigual distribuição dos danos causados pelo vírus. As mulheres representam quase a metade dos chefes de família no Brasil (49,5%) e dependem muitas vezes de diversos apoios para poderem exercer seus ofícios, seja na contratação de outra mulher, doméstica, seja na existência de creches e escolas onde possam deixar seus filhos. Toda a rede de apoio está comprometida pelo isolamento social e a mulher, mesmo que deseje ou necessite, não consegue voltar ao mercado de trabalho. Na desigualdade de gênero estrutural, ela ganha menos que o homem, disputa as vagas menos qualificadas no mercado e quando há crise são as primeiras a perder postos de trabalho. O que a PNAD de 2020 mostra até agora é que esta conhecida desvantagem se escancarou com a situação atípica de pandemia. Estas são algumas das conclusões de economistas do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP, que acompanha as oscilações do mercado de trabalho feminino a partir dos microdados do IBGE. Descobriram, por exemplo, que o número de homens que alegam não poder trabalhar por causa dos afazeres domésticos vem diminuindo trimestre a trimestre, abaixando de 552 mil para 524 mil no segundo trimestre, e chegando a 497 mil homens no terceiro trimestre de 2020. Mesmo que na prática o casal se encontre em situação de igual quarentena e isolamento social sem escola para as crianças, esta resposta foi dada por apenas 1,8% dos homens. Enquanto as mulheres que declararam estar impedidas de trabalhar por causa dos afazeres domésticos somam mais de 13 milhões, principal motivo para não estarem no mercado de trabalho (26,3%). Esta sobrecarga e a responsabilidade pelos cuidados domésticos afetaram mulheres desempregadas e também aquelas que exercem ocupações e têm diferentes níveis de renda. “De certa forma, este é um dado que demonstra também o que já sabemos sobre a sobrecarga das mulheres. Sejam mulheres em home office, sejam mulheres com trabalhos fora de casa ou procurando por trabalho, ainda é a mulher quem está cuidando de todos da casa”, segundo a professora Daniela Gorayeb, economista e uma das autoras do estudo. Ela acrescenta ainda que os dados da PNAD com relação ao desemprego já são preocupantes, mas que poderiam ser vistos de uma forma ainda mais dramática. Em parte porque acabam trazendo uma subnotificação do desemprego por causa da ocorrência do trabalho informal. “Aquele bico, por exemplo, figura como uma ocupação nas estatísticas, bastando trabalhar uma hora na semana. Então a realidade é mais dramática do que as pessoas imaginam. Sabemos que o IBGE precisa seguir um padrão utilizado em outros países, mas acabamos tendo uma visão limitada da realidade porque nosso mercado de trabalho é majoritariamente informal e precário. O que sabemos também é que nessa escala de trabalhadores com ocupações de menor renda e precárias se encontram mais mulheres que homens, e em último lugar a mulher negra.” Na pandemia, as mulheres foram, mais uma vez, as primeiras a perder os postos de trabalho e são a maioria dos trabalhadores que desejariam trabalhar, mas não estão disponíveis para assumir uma função (chamado tecnicamente de Força de Trabalho Potencial). Entra nesta preocupante realidade o grande número de trabalhadores desalentados, que são aqueles que procuraram trabalho por muito tempo e desistiram, seja pela dificuldade de encontrar uma oportunidade ou por que, sem renda, não conseguem arcar com os custos da busca, do transporte ou da internet, por exemplo. E também entram nessa categoria as pessoas que desejam trabalhar mas estão em uma situação que as tornam indisponíveis para assumir algumas ofertas de trabalho. Como já dito, os afazeres domésticos são o principal motivo para essa indisponibilidade das mulheres. Desde o começo do ano, 9 milhões de pessoas haviam saído do mercado de trabalho e o terceiro trimestre da PNAD mostra um pequeno retorno, mas muito revelador. Retornaram 418 mil pessoas, sendo 380 mil homens e apenas 37 mil mulheres. Esse pequeno número de pessoas que conseguiram retornar à força de trabalho no terceiro trimestre representa 5% daquelas que saíram da força de trabalho desde o início do ano. Para as mulheres, o cenário é ainda mais dramático, pois menos de 1% daquelas que perderam suas ocupações, tiveram a oportunidade de voltar a trabalhar ou até mesmo de voltar a procurar trabalho. Para as economistas autoras deste estudo, na pandemia, as alterações de trimestre a trimestre não foram marginais como normalmente ocorre, configurando uma espécie de quebra estrutural do mercado de trabalho. “Isso porque milhões de pessoas saíram da força de trabalho apoiadas pela presença do auxílio emergencial e o retorno dessas pessoas ao mercado de trabalho, mesmo com o fim do auxílio, não está assegurada pois muitas vagas de trabalho ou atividades produtivas já não existem mais.” “O auxílio emergencial teve um impacto muito significativo no orçamento das famílias de baixa renda e pôde garantir atividades produtivas em várias localidades. Com o fim do auxílio, parte dessas atividades também deixam de ser viáveis economicamente e mais uma onda de eliminação de vagas de trabalho pode ocorrer”, acredita Daniela. A redução do valor emergencial e o fim dele (anunciados no último mês do trimestre, setembro) estão forçando as pessoas a voltar a buscar trabalho e já se nota o aumento do número de mulheres desocupadas. Grande parcela delas, que trabalhava no setor de serviços, por exemplo, não está reencontrando as vagas anteriores, porque é um setor que no terceiro trimestre estava parcialmente ocioso, ou voltava a funcionar timidamente ou simplesmente deixou de existir. As ocupações de cozinheiras, garçonetes, limpeza, salões de beleza estão entre aqueles postos de trabalho que foram destruídos durante a crise sanitária. Muitos estabelecimentos foram fechados ou estão operando com alto nível de ociosidade (seja pelo baixo volume de vendas, seja pelas limitações sanitárias de funcionamento) Esse aumento da taxa de desocupação para as mulheres deve-se mais a esta perda dos postos de trabalho em relação ao 2º trimestre (774 mil mulheres deixaram a categoria Ocupadas), uma taxa de desocupação recorde de 16,8% da força de trabalho, quatro pontos percentuais a mais que os homens (12,8%), mas com a ressalva de que eles haviam perdido menos postos que elas anteriormente, 489 mil. “O emprego formal continua caindo, tanto para homens como para mulheres, e no quarto trimestre a expectativa é que haverá uma explosão de tudo isso, quando mais gente passará a procurar trabalho por causa do fim do auxílio”, acredita a economista Juliana Filleti, outra autora do estudo. A recuperação econômica ainda é muito lenta e não acontece no ritmo desta necessidade de volta das pessoas ao mercado de trabalho. Durante a pandemia o que se notou foi uma maior variação no mercado de trabalho menos qualificado. No caso das domésticas, principal ocupação de milhões de trabalhadoras no país (as empregadas domésticas sem carteira representam 8,6% das mulheres ocupadas), já se registra a falta de demanda, seja por crises econômicas que nasceram no rastro da pandemia nas famílias, seja pelo isolamento social. Muitas trabalhadoras que dependiam de creches e escolas para os filhos não têm esta opção nesse momento e ainda não sabem quando terão, para poder efetivamente se candidatar ao emprego anterior ou qualquer outra ocupação no mercado formal de trabalho. Considerando o período de um ano (2019-2020) as posições da ocupação de emprego doméstico tiveram uma redução de 1,6 milhão de postos de trabalho para as mulheres (1,2 milhão sem carteira e 404 mil com carteira), contra uma redução de 45 mil vagas para os homens (25 mil com carteira e 20 mil sem carteira). Quadro preocupante Apesar de que existem alguns sinais de recuperação do nível de atividade econômica, com PIB oficial de 7,7% no terceiro trimestre, a possibilidade de retorno é mais tímida para as mulheres. Os níveis de taxa de Desocupação e de Subutilização da Força de Trabalho mais elevados para as mulheres se ampliaram nesse período crítico do país e são evidências de uma inserção mais precária no mercado de trabalho. Além disso, o retorno das mulheres para a força de trabalho no terceiro trimestre pode ser considerado pífio, principalmente levando em conta a grande saída delas do mercado de trabalho nos primeiros meses da pandemia. Segundo aponta o estudo do NPEGen, o país apresentou recordes históricos nas taxas de Desocupação e de Subutilização, em comparação aos dados a partir do 1º trimestre de 2012, início das medições da PNAD Contínua. Nos dados da Força de Trabalho Potencial (FTP) – uma parte da população fora da força de trabalho mas com potencial para se tornar força de trabalho e que são classificadas como Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento na PNAD – as mulheres continuam sendo a ampla maioria (59% da FTP, 63% das Pessoas Indisponíveis e 54,3% das Pessoas em Desalento). O aumento neste período de pessoas nessa situação é gigantesco, em especial para as mulheres, que passam a somar 7,6 milhões (um aumento de 60,8% com relação ao ano anterior). A Força de Trabalho Potencial masculina também apresenta forte aumento (66,6%), mas o número de homens nessa situação é bem menor do que o de mulheres (5,3 milhões de homens). Na questão da renda no 3º trimestre de 2020, os brasileiros obtiveram, em média, um rendimento de R$ 2.553,6, mas se mantiveram as grandes desigualdades por sexo, cor ou raça. O maior rendimento médio foi o de homens brancos ou amarelos (R$ 3.687,4) e o menor, das mulheres indígenas e pretas ou pardas (R$ 1.596,3 e R$ 1.652,7, respectivamente). As mulheres indígenas apresentam o menor rendimento médio da população, equivalente a 62,5% do rendimento médio do Brasil. Elas são seguidas pelas mulheres pretas/pardas (64,7%) e depois por homens pretos/pardos (78,1%). No outro extremo, situam-se os homens brancos/amarelos, com rendimento equivalente a 144,4% do rendimento médio do país, sendo seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (113,2%), um retrato incontestável da desigualdade no Brasil. Apesar de alarmantes informações, o 3º trimestre de 2020 ainda não captou os efeitos da redução pela metade do auxílio emergencial e é possível que, nos meses finais do ano, as taxas de desocupação e subutilização batam um novo recorde porque devem captar o retorno à busca de trabalho de muitas pessoas que ficarão incapacitadas de sustentar suas famílias sem esse importante apoio financeiro. A dramaticidade das condições de trabalho e de formas de obtenção de rendimentos pelas mulheres tende ainda a aumentar para os próximos períodos se medidas compensatórias urgentes não forem implementadas no Brasil. *Regina Prado é jornalista assessora da Facamp, com passagens por SOS Racisme e Reporteros sin Fronteras, em Barcelona, Espanha. Formada pela PUC São Paulo, trabalhou em TVs, jornais e revistas, e é co-autora do livro "Helio Lourenço: Vida e Legado", pela EDUSP, entre outras obras. Contato para imprensa How Comunicação Regina Prado regina.prado@howcomunicacao.com.br (16) 99620.6444 Acesso ao relatório completo: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen/boletim-mulheres-no-mercado-de-trabalho-terceiro-trimestre-de-2020/ FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP:npegen@facamp.com.br BOLETIM MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO EXPEDIENTE: Pesquisadoras: Camila Veneo Campos Fonseca; Daniela Salomão Gorayeb; Georgia Christ Sarris; Juliana de Paula Filleti; Juliana Pinto de Moura Cajueiro; Maria Fernanda Cardoso de Melo e Tatiana de Amorim Maranhão. Como citar este Boletim: NPEGen. Mulheres no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 03, novembro de 2020. Imagem da capa: PETRA ERIKSSON / EPS

Ensaio: A memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas  de “Meio Sol Amarelo”
Ensaio: A memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas de “Meio Sol Amarelo”

AQUELAS QUE RECORDAM A construção da memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas do romance “Meio Sol Amarelo”, de Chimamanda N. Adichie (2008) Amanda Ribeiro dos Santos* RESUMO: Este artigo busca identificar e analisar como Adichie, através das personagens femininas de seu romance "Meio Sol Amarelo", estabelece uma memória da Guerra de Biafra, que assolou a Nigéria entre os anos de 1967 e 1970, e como essa memória se relaciona com os aspectos estruturantes de uma nação. Pretende-se apreender, ainda, o modo como se dá a alteridade entre os biafrenses e os Hauçás do norte, pois, acreditamos que o reconhecimento do outro pode ser transformado durante uma situação de guerra. Para tanto, utiliza-se os conceitos de memória e, para estabelecer um diálogo entre nação e literatura, recorre-se a Kwame Appiah. Palavras-chave: Literatura – Guerra de Biafra – Meio Sol Amarelo – Memória Introdução Introdução A República de Biafra existiu no sudeste da Nigéria entre os anos de 1967 e 1970 durante a guerra de secessão, responsável por deixar milhares de mortos e uma experiência lembrada vividamente até os dias atuais; seja por meio das imagens marcadamente chocantes da fome veiculadas pela mídia internacional, seja pela própria literatura nigeriana. De todo modo, um fator significativo é a divisão política daquilo que já se encontrava fragmentado entre igbos, iorubá e hauçá-fula. [1] Além dos estudos sobre a Guerra de Biafra feitos por historiadores, antropólogos e sociólogos, não podemos ignorar os autores nigerianos de ficção que fizeram da guerra seu plano de fundo para desenvolver histórias e fazer com que mais pessoas se familiarizassem com aquilo que marcou a história de um país. Chimamanda Ngozi Adichie é uma desses autores. A escritora nigeriana ganhou destaque, primeiro, quando em 2003 publicou o livro “Purple Hibiscus” (Hibisco Roxo, Cia das Letras, 2008) e mais tarde, em 2007, quando seu livro Half of a Yellow Sun (Meio Sol Amarelo, Cia das Letras, 2008), publicado em 2006, ganhou o Orange Prize em 2007, na categoria de ficção. Logo, nos faz interessante a abordagem deste segundo livro devido sua notória contribuição em estabelecer uma memória social da Guerra de Biafra através de uma perspectiva doméstica dos personagens. Contudo, é fundamental que se faça a contextualização do período no qual a narrativa do livro está inserida, para que possamos assimilar, de maneira mais completa, toda ambientação do romance e as questões que dela podem provir. A Nigéria pós-colonial É preciso compreender, inicialmente, a conjuntura política e social nigeriana nos anos 60 e 70. A Nigéria fica localizada na África ocidental onde vivem, majoritariamente, três povos: igbos e iorubás ao sul e hauçás ao norte. A colonização britânica, através do sistema de governo indireto, cujo funcionamento exigia a denominação de chefias locais para os cargos mais altos na máquina burocrática da colônia, privilegiava o povo hauçá-fula, de maioria muçulmana. Ao sul, sobrava para as elites locais apenas subchefias, respondendo ao norte nigeriano e à Grã-Bretanha. Este tipo de manifestação colonial criou uma tensão entre as elites do sul e as elites do norte, preferidas aos olhos do colonizador. O período pós segunda Guerra Mundial foi marcado por negociações da Nigéria com a metrópole, visando a independência. Foram promulgadas três constituições: em 1947, 1951 e 1956. A primeira unia os povos em uma nação e a última foi resultado do fortalecimento dos partidos responsáveis por pressionar a metrópole (CHAN, 2017. p. 11). Em 1960, quando a Nigéria se encontrava, finalmente, independente, o governo central do país ficou a cargo dos partidos do norte comandando três regiões autônomas, com notáveis fragmentações. Contudo, os problemas das novas nações africanas começavam pela falta de conhecimento administrativo: as nações anglófonas passaram todo tempo colonial recebendo ordens e se mantendo em uma espécie de protetorado britânico, enquanto isso, as colônias francesas eram arrebatadas pela forma de governo colonial de assimilação; os francófonos deviam aprender a viver como franceses e a colônia se tornaria uma extensão da França (COQUERY-VIDROVITCH; MONIOT. 1985). Esta particularidade, aliada ao fato de que a maior parte das Nações francófonas aceitaram que a França continuasse supervisionando-as após a independência, fez com essas nações se tornassem mais estáveis. Todos esses elementos, em 1964, aliados à descoberta de fraude nas últimas eleições, privilegiando o partido do Congresso do Povo do Norte (CPN), culminaram em organizações de motim, saques, depredações e assassinatos. O governo pouco fez para intervir e em janeiro de 1966, o primeiro golpe aconteceu: soldados e oficiais de alta patente mataram o governador Samuel Ladoke Akintola, o líder do norte, Ahmadu Bello e o primeiro-ministro central Abubakar Tafawa Balewa. Quem subiu ao poder, então, foi o major-general AguiyiIronsi, que promulgou uma nova constituição na qual mudava a forma de governo da Nigéria de Federação para República, o que resultava em um poder central mais forte que os poderes regionais. (CHAN, 2017), criando mais tensões. Um novo golpe ocorreu em 29 de julho de 1966, após os massacres iniciados em Kano, e o tenente-coronel Yakubu Gowon assumiu o poder. Corria entre a população, nos dias anteriores, boatos de que o norte estava cogitando a secessão, porém, Gowon manifestou uma postura diferente: pregou a unificação dos povos. Atitude meramente política devido à economia da Nigéria ser, em grande parte, vinda da exportação de petróleo, localizado no sul. (CHAN, 2017). A partir de então, uma série de massacres, mais agressivos que os anteriores, começaram a atingir o norte, perseguindo e matando milhares de igbos. O fato do governo não ter impedido os ataques que aconteceram por dias, fez com que uma grande quantidade de igbos fugisse para o sul, inchando a região que, sem estruturas para tamanho aumento demográfico, entrou em crise. Os igbos, já revoltados com o genocídio em massa, se encontravam, agora, sem trabalho, sem escola e sem comida. Em 1967, após tentativas frustradas de acordo entre Gowon e o líder do representativo dos igbos, Ojukwu, e pressão populacional pela secessão, Ojukwu declarou a independência da região leste (CHAN, 2017). Nascia assim, a República de Biafra. A guerra civil foi inevitável e tomou grandes proporções. A França deu apoio à Biafra enquanto a Inglaterra apoiava a Nigéria (CHAN, 2017. p. 19). A nova república foi reconhecida por vários países e, as grandes potências ou não intervieram em razão de alianças como é o caso dos Estados Unidos, ou intervieram para contrapor seus opostos como a China ajudando os biafrenses porque a União Soviética estava do lado nigeriano. Os três anos de guerra resultaram em milhões de mortes, a maior parte em detrimento da fome, fator que fez com que o Vaticano, a Cruz Vermelha e o Conselho Mundial de Igrejas também se envolvessem (CHAN, 2017 p. 6) fazendo com que a Guerra de Biafra se tornasse, assim, um dos maiores projetos humanitários mundiais. Conhecendo o Meio Sol Amarelo É este o clima de tensão política em que Chimamanda Adichie desenvolve seu romance. "Meio Sol Amarelo" está dividido em quatro partes, sendo a primeira e terceira parte relacionada ao início dos anos 60 e a segunda e quarta parte relativas ao fim dos anos 60. Sua escrita narrativa é contada a partir de três personagens interligados, de alguma forma, à figura de Odenigbo, o professor de matemática da Universidade de Nsukka com espírito revolucionário, que são: Olanna, professora universitária, de família rica e influente, educada em Londres e namorada de Odenigbo; Ugwu, jovem de uma pequena aldeia e empregado do professor; e Richard, britânico e jornalista desempregado que vai à Nigéria para conhecer a arte Igbo-Ukwu, e se apaixona pela irmã de Olanna, Kainene. O livro se desenvolve pela representação de como esse grupo de pessoas consegue sobreviver à situação de guerra ao mesmo tempo em que tentavam seguir com suas vidas individualmente. Durante a guerra, se veem obrigados a migrar para outras cidades, construir bunkers para se esconderem de ataques aéreos, perdem amigos e familiares, mas, contudo, mantêm a esperança na vitória de Biafra. A autora nigeriana consegue imprimir tanto a paz inicial marcada por longas reuniões festivas e debates políticos acalorados na casa de Odenigbo quanto o desespero e o medo que arrebatam as personagens durante a guerra. Apesar de Adichie abordar, com precisão, casos de estupros, doenças, fome, corrupção, alienação, traições e desejos, o que gostaria de discutir, aqui, parte da forma como estes personagens viram Biafra, incorporaram Biafra e como Chimamanda estabeleceu, através do livro, não apenas uma memória da guerra de Biafra como também fez um paralelo entre memória, nação e literatura dentro da história – quando acontece o ensino da história da república recém-criada, e fora da história – sua obra hoje tem repercussão mundial e, inegavelmente, consegue criar uma nova memória da Guerra naqueles que, por tanto tempo, acreditaram apenas nas imagens de fome. As personagens femininas e a construção da memória Em 2009, durante a Conferência Anual Ted Global, Chimamanda Adichie realizou uma palestra com o seguinte tema: "O perigo de uma história única" fazendo reflexões sobre a maneira que o continente africano é visto pelo Ocidente como um grande bloco homogêneo e como essa memória fabricada acabou gerando estereótipos e preconceitos. Esse pensamento de uma história única é capaz de estabelecer questões na historiografia intensivamente complexas, como é o caso da própria literatura africana que possui especificidades devido o colonialismo. Kwame Appiah (1997) critica o modo como a literatura tem estudado a produção de conhecimento africana e que, muitas vezes, essa análise tende a estabelecer contrastes antropológicos, ponderando, inclusive, se a teoria literária atende às tradições específicas ou se, mesmo quando estão relacionadas à tradição literária encarada como “mundial”, não se manteriam na teoria literária de tradição europeia. Outro elemento para ser discutido quanto à análise da literatura africana diz respeito à linguagem, pois, a língua utilizada na escrita da literatura africana será, majoritariamente, a língua do colonizador, até porque, é esta a língua que atingirá maior público, logo, a prática analítica e a produção entram um paradoxo. (APPIAH, 1997). A língua, no entanto, constitui apenas um dos pormenores, em virtude da cultura do colonizador: o colonizado é imposto à cultura colonizadora e acaba refletindo esta cultura em sua literatura (APPIAH, 1997, p. 87), deste modo, quando um autor africano escreve sobre sua vivência pessoal, ele quebra essa prática ao expor para um leitor não africano, uma nova visão, agora genuinamente africana, e veicula, para o leitor africano, a possibilidade de inventividade negra. Colocadas todas essas peculiaridades, consideremos a correlação entre nação e literatura, na qual, uma contribui com a consolidação da outra. Uma das primeiras medidas tomadas para engendrar um nacionalismo se escora nos recursos literários. Um dos usos desse recurso se dá por meio da educação escolar, responsável por formar um cidadão consciente de sua nacionalidade e disposto a defendê-la a todo custo, uma vez que, o papel da escola colonial (e, infelizmente, da pós-colonial) na reprodução da hegemonia cultural do Ocidente é crucial para a crítica africana, em virtude da estreita ligação entre a ideia da crítica e o aumento da pedagogia literária, pois o papel da literatura, ou, a rigor, a formação do conceito, da instituição da "literatura", é indissociável da pedagogia. (APPIAH, 1997.p. 87-88) Assim, posto que a escola é uma ferramenta importante na constituição da literatura que vai se dedicar à inventar o sentimento nacionalista da nação e, concomitantemente, produz uma memória nacional, podemos refletir sobre a contribuição de Olanna na gênese nacionalista biafrense. No romance, a professora universitária perde seu emprego quando estoura a guerra e isso faz com que ela passe a dar aulas para crianças, inicialmente, em escolas infantis e, mais tarde, quando as escolas se transformam em abrigos de refugiados ou centros de treinamento, Olanna monta uma pequena classe no quintal de casa, já em Umuahia, cidade onde ela vai morar depois que Nsukka é tomada pela Nigéria. Junto com ela, lecionariam a professora Muokelu, que trabalhava na última escola fechada na cidade, e Ugwu, designado por Olanna a dar aulas para crianças mais novas. O trecho a seguir apresenta uma fala de Olanna expondo seu planejamento de ensino: “Nós vamos dar aula de matemática, inglês e educação cívica todos os dias”, falou Olanna para Ugwu e para a professora Muokelu um dia antes do início das aulas. “Temos de garantir que, quando a guerra tiver terminado, todos estejam preparados para entrar numa escola regular. Vamos ensiná-los a falar um inglês perfeito, e um ibo perfeito, como Sua Excelência. Vamos ensinar a eles a ter orgulho de nossa grande nação.” (ADICHIE, 2008, p. 340 [grifo nosso]). O trecho grifado transparece as intenções da personagem em tecer um sentimento de pertencimento à República de Biafra. Portanto, ao ensinar às crianças a educação cívica, Olanna estaria formando também uma nacionalidade biafrense e estabelecendo uma memória coletiva da guerra como acontecimento fundamental para a instauração de Biafra. Cabe-nos pensar, agora, o conceito de memória como uma construção seletiva, tendo em vista que a memória nunca será mero registro, pois é uma representação afectiva, ou melhor, uma representificação, feita a partir do presente e dentro da tensão tridimensional do tempo. E, nesta, o futuro é ligado ao passado por um fio totalizador e teleológico. Isto é, toda recordação tende a objectivar-se numa narrativa coerente que, em retrospectiva, domestica o aleatório, o casual, os efeitos perversos do real-passado quando este foi presente, actuando como se, no caminho, não existissem buracos negros deixados pelo esquecimento. (CATROGA, 2001. p. 46) Em função disso, a construção da memória requer ainda os a presença dos ritos de recordação, encarregados também da formação da identidade. Logo, são estes ritos provindos dos rastros dos acontecimentos que irão legitimar a memória, proporcionando a edificação da memória coletiva (CATROGA, 2001). Assim, podemos observar a construção da memória em dois trechos do livro de Chimamanda Adichie cuja análise farei a seguir. Em certa altura da guerra, Olanna, Odenigbo, Baby (a criança filha do casal) e Ugwu, se encontram em situação de refugiados e vão se abrigar na casa recém-comprada de Kainene em Orlu, onde ela mantinha um centro de ajuda comunitário para refugiados nas proximidades da casa. Vejamos o trecho abaixo: O harmatão que soprava forte enchia tudo de poeira, e Baby se juntava às crianças que corriam em volta, de barriga nua entrelaçada de marrom. Muitas colecionavam estilhaços, brincavam com eles. Quando Baby voltou com dois pedaços de metal pontudo, Olanna gritou com ela, puxou-lhe a orelha e jogou fora os estilhaços. Detestava pensar em Baby brincando com restos de coisas que matavam. Porém Kainene pediu que ela devolvesse os estilhaços a Baby. E deu-lhe uma lata para guardá-los. Também pediu à menina que se juntasse às crianças mais velhas, que faziam armadilha para os lagartos, que aprendesse a trançar folhas de palmeira e pusesse casulos cheios de formigas iddo lá dentro.Kainene deixou Baby segurar o facão de um homem emaciado que desfilava pelo compound resmungando: “Ngwa, que venham os vândalos, que eles venham todos”. Kainene deixou Baby comer uma perna de lagarto. (ADICHIE, 2008, p. 448-449) Essa ideia de guardar estilhaços remete-nos muito à concepção de vestígios de memória ou, como bem colocou Paul Ricoeur, discutindo sobre memória e esquecimento, tratando sobre a presença, a ausência e a anterioridade, como “a imagem-recordação [que] está presente no espírito como alguma coisa que já não está lá, mas esteve” (RICOEUR, 2003. p. 02). Deste modo, é como se Kainene tentasse, a partir da ação de guardar os estilhaços, ressignificá-los e indicar a presença da guerra na ausência da guerra. Os estilhaços seriam como um lugar de memória. O trecho acima traz consigo mais uma particularidade ao citar uma frase dita pelo homem: “Ngwa[2] , que venham os vândalos, que eles venham todos”. Tal sentença indica um fator de alteridade que é visto em mais pontos do romance, como quando a Srª Ezeka, esposa de um dos amigos de Odenigbo que durante a guerra ganhou cargo de importância no exército, diz à Olanna depois de lhe mostrar, com orgulho, o bunker de cimento [3] construído no quintal de sua casa grande e sumptuosa: “Imagine no que esses vândalos nos reduziram. Pâmela e eu às vezes dormimos aqui, quando os bombardeios são demais”, disse a sra. Ezeka. “Mas havemos de sobreviver.” (ADICHIE, 2008, p. 397). Essa mentalidade de perceber o outro como vândalo, de que o outro é quem pratica o mal, pode ser relacionada com o conceito de Valentin-Yves Mudimbe (2013) do Mesmo e do Outro onde as características são vistas como um oposto ao outro ou o Mesmo que busca semelhanças próprias no Outro. Contudo, o reconhecimento do Outro só se torna possível mediante essa comparação. Em outras palavras, temos a perspectiva, através do romance, apenas dos biafrenses e estes são o “Mesmo” e eles percebem nos nigerianos nortistas o “Outro”. Assim, os biafrenses só reconhecem os nortistas através dessa comparação em busca de semelhanças. Portanto, ao chamar os nortistas de vândalos, eles - os biafrenses estão à procura de discernir o que, possivelmente, eles têm em comum e, no momento em que, teoricamente, não encontram, denominam o Outro de maneira pejorativa. Ainda assim, o exército de Biafra aparece no livro como igualmente truculento, repressivo, estuprador e saqueador. Considerações finais O diálogo entre a História e Literatura, embora seja de grande contribuição para a produção de conhecimento, muitas vezes tende a se distanciar, forçosamente. No caso africano, que abordagens clássicas europeias não são suficientes, recorrer a outras áreas disciplinares para compreender a História da África se faz essencial. Aqui, Chimamanda Adichie colaborou para um novo estudo sobre a memória da guerra de Biafra e conseguimos perceber aspectos políticos e sociais que eram mascarados pela imagem da fome e da miséria extrema. A partir de Kainene e Olanna, principalmente, Adichie estabeleceu um paralelo entre a formação de uma nova nação e os elementos necessários para a criação de um nacionalismo biafrense e a memória nacional. Ainda que o foco deste trabalho tenha sido apenas levantar questões sobre a memória, é igualmente relevante aprofundar outros aspectos do romance como, por exemplo, o que foi superficialmente tratado aqui, o problema da alteridade entre os personagens; se pode fazer um estudo sobre como os personagens igbos enxergavam os hauçás na primeira parte do livro e como essa imagem foi se transformando à medida que se desenrola a guerra. Contudo, não devemos deixar de pensar que o livro não apenas produz uma nova história, quebrando a história única do qual vem o alerta de Adichie, como também rememora e honra a vida de todos que morreram reivindicando melhores condições de vida na Guerra de Biafra. *Amanda Ribeiro dos Santos cursa a graduação em História na UFMG. Pesquisa na área de História da África pós-colonial com ênfase na literatura nigeriana, em especial as obras de Chimamanda Ngozi Adichie. Notas: [1] O termo pode ser visto na bibliografia como “hausa-fulani”, “hauçá” ou “hausa-fula”. A escolha de utilizar, neste trabalho, a grafia “hauçá” / “hauçá-fula” se deu em razão de ser o mesmo usado na tradução de “Meio Sol Amarelo”. [2] Clã” Igbo que vive no sudeste da Nigéria. [3] No romance, todos os bunkers não passavam de buracos sujos e mal-acabados no chão e com alguma cobertura com folhas. Um bunker de alvenaria era artigo de luxo. Referências Bibliográficas ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio Sol Amarelo. Tradução Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ADICHIE, Chimamanda. ― O Perigo da História Única. Vídeo da palestra da escritora nigeriana no evento Technology, Entertainment and Design (TEDGlobal 2009). Disponível em: Acesso em: setembro/2019. APPIAH, Kwame A. Pendendo para o nativismo. In: Na casa de meu pai: A África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. BORGES, Valdeci Rezende. História e Literatura: Algumas considerações. Universidade Federal de Goiás: Revista de Teoria da História, ano 1, nº 3, junho/2010. CATROGA, Fernando. Memória e história. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (Org.). Fronteiras do milênio. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001, p. 43-69. CHAN, Maurício Aparecido. Leituras sobre a Guerra de Biafra (1967-1970) As Versões do Conflito nos Textos de História e Literatura. 2017. 62 f., il. Trabalho de Conclusão de Curso. (Bacharelado e Licenciatura em História)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017. MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção de África. Mangualde/Luanda: Edições Pedago/Edições Mulemba, 2013. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, v. 10, p. 7-28, dez. 1993. NUNES, Alyxandra Gomes. História, etnicidade e memória da guerra de Biafra (1967-70) na poesia de Chinua Achebe e na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie em Half a Yellow Sun. XI Congresso Internacional da ABRALIC. Universidade de São Paulo. 2008 OLIVEIRA, Guilherme Ziebell de. O papel da Guerra de Biafra na construção do Estado nigeriano: da independência à segunda República (1960-1979). Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v. 3, n. 6, p. 228-253, abr. 2015. RIBEIRO, Mariana Licurgo Ferreira. Biafra e a Opinião Pública Internacional: Como a cobertura jornalística influenciou os rumos da Guerra Civil Nigeriana. ANPUH-Brasil – 30º Simpósio Nacional de História, Recife. 2019. RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Trad. Lucy Moreira César. Campinas: Papirus, 1991. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. Campinas: Editora da Unicamp. 2007. RICOEUR, Paul. Memory, history, oblivion. Conferência Internacional Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism. Budapeste. 2003 [Transcrição].

Ensaios: Diários de Quarentena - Semana 17 – De 06 a 12 de julho
Ensaios: Diários de Quarentena - Semana 17 – De 06 a 12 de julho

(“É comunista? Vai pra Cuba!” - É tudo o que eu quero, meu filho...) Amanda Moreira* Vira e mexe alguns bolsominions raivosos invadem as minhas contas nas redes sociais e vociferam um “É comunista? Vai pra Cuba!”. Eles acham que isso é um insulto, uma ofensa, quando na verdade vejo como um ato de gentileza. Sempre que fazem isso fico muito feliz e agradeço pelo carinho. Se me mandam para Cuba, e não para os EUA, é sinal que querem o meu bem, principalmente nestes tempos de pandemia. Tá, eu não sou tão ingênua, sei que os bolsominions dizem isso porque eles acham que Cuba é o inferno na terra, que as pessoas vivem sob uma ditadura sangrenta e que todos são infelizes e miseráveis. Quanta ignorância... Os cubanos riem quando falamos do que alguns brasileiros acham como é a vida em Cuba. Logo nós que vivemos sob um governo neofascista e estamos entregues ao que há de mais sórdido e criminoso na história política brasileira. Esta semana eu me senti tão despossuída de esperança que só me restou pensar em Cuba, país que sou apaixonada e venho acompanhando as notícias aqui de longe. Funciona assim: fico triste, vou ver uma ação de Cuba no combate à Covid-19 e logo me encho de otimismo e fé na humanidade. Cada ação dos cubanos que vejo eu sinto um orgulho danado. Eita país que sabe superar desafios e ainda consegue ter forças para ajudar outras nações! Cuba supera furacões, o bloqueio criminoso dos EUA e agora a Covid-19. Um verdadeiro exemplo para o mundo. Vivendo no Brasil é inevitável a comparação. Enquanto nós, junto com os EUA, somos os campeões mundiais de mortos pela Covid-19, Cuba é um dos países que controlou de forma mais rápida e eficaz a pandemia. Com uma população de 11,3 milhões de pessoas, Cuba teve 2.200 infectados e APENAS 86 MORTES NO PAÍS INTEIRO, enquanto só aqui no Rio de Janeiro diversos bairros superaram esse número. Só na Maré tivemos 81 mortes, em Bangu 325 e em Campo Grande 347 óbitos, até hoje. E como Cuba chegou a esse resultado? A principal razão é que o Estado cubano aplicou uma política centralizada e planificada. Mesmo sendo um país pobre, Cuba tem um dos melhores sistemas de saúde do continente, reconhecido no mundo inteiro, público, gratuito, que atende a 100% da população. Mesmo sendo um país turístico e que teve por isto vários focos precoces de infecção, seu índice neste momento é de 8 mortes por milhão de habitantes. Se o Brasil tivesse este mesmo índice, teríamos 1.696 mortes no total, enquanto hoje já temos 71.000 e a tendência é crescer muito mais. Cuba atingiu essa marca admirável porque agiu, desde o início, da forma correta no combate à pandemia. Rapidamente tornou obrigatório o uso de máscaras e pôs em quarentena um grande número de pessoas. Todos aqueles cidadãos cujos exames deram positivo para a Covid, foram transferidos para um hospital, onde receberam antivirais e reforçadores do sistema imunológico (Cuba tem desenvolvido vacinas que fortalecem a imunidade da população, isso ajudou muito). Só depois de passar por tudo isso as pessoas foram mandadas para duas semanas de quarentena em casa. Além disso, houve o isolamento dos contatos e dos contatos dos contatos, todos sendo acompanhados de perto pelo Estado. E ainda há os centros básicos de saúde nos bairros, nos quais as pessoas recebem todos os cuidados necessários para que não transmitam a doença. Ufa! Lutar pela vida dá trabalho, mas sempre vale a pena. O Ministério da Saúde cubano afirmou que a atuação dos estudantes de medicina em todo o país, para identificar casos suspeitos, tem sido o segredo do sucesso. Eles vasculham casos em toda a ilha de porta em porta, mapeando e isolando os assintomáticos. Assim, buscando possíveis doentes, de casa em casa, e testando todos os contatos dos testados positivos, Cuba mudou favoravelmente o rumo da pandemia. Além disso, o Ministério apresenta um detalhado relatório diário da evolução da doença. Que sonho! No Brasil não temos nem ministro quanto mais boletim ou coletiva de imprensa. Os cubanos foram muito sagazes, demonstraram planejamento e visão. Eles encararam a Covid-19 de frente, mesmo com a falta de recursos, com a economia no limbo devido à ausência da atividade turística, sem hospitais sofisticados, sem compras virtuais, com o bloqueio dos EUA que não permitiu que chegassem insumos, remédios e equipamentos. Até mesmo as doações chinesas de máscaras faciais, kits de diagnóstico rápido e ventiladores foram impedidos de chegar ao solo cubano devido às sanções. Como sempre, os EUA buscam asfixiar Cuba, fazê-la não respirar, promovendo um terrorismo de Estado sem uma declaração oficial de guerra; mas eles não contavam com a astúcia do povo cubano. Em Cuba o combate à pandemia contou, sobretudo, com muita cooperação dos cidadãos, diferentemente do Brasil, onde o individualismo e o egoísmo reinam. Mesmo com a pandemia controlada os cubanos não saíram reabrindo tudo desordenadamente. Estão retomando o turismo agora, aos poucos, mesmo sendo esta a sua principal fonte econômica. Eles não cogitaram reabrir antes, somente fizeram quando houve o controle da pandemia. Assim, Cuba mostrou que não há oposição entre vida e economia. Já aqui em nossas terras a escolha foi reabrir tudo enquanto os casos continuam crescendo, uma burrice descabida, que além de gerar mais mortes, vai arrastar ainda mais o desempenho econômico do nosso país. Considerando a saúde um direto humano, Cuba valoriza a vida acima de tudo. Isso levou a permitirem que um cruzeiro britânico com cinco passageiros infectados atracasse na ilha no início da pandemia. Eles receberam o transatlântico que ninguém queria, cuidaram dos adoecidos e ainda saíram pelo mundo afora tratando gente com Covid-19. Cuba forma médicos para atuar no mundo todo. Eles foram para a Itália no momento mais crítico da pandemia e hoje estão em mais de 27 países oferecendo ajuda humanitária. Inclusive, dezenas de nações da América Latina e Caribe, estão reunidas em uma mobilização de solidariedade continental pela concessão do Prêmio Nobel da Paz a Brigada Henry Reeve de Médicos Cubanos. Nada mais justo! Essa Brigada é formada por profissionais da saúde especializados em situação de desastres e epidemias graves. Eles atuam há mais de 15 anos e já foram em missões humanitárias em praticamente todos os países do hemisfério sul. Inclusive já estiveram aqui no Brasil, num passado recente, com mais de 14 mil médicos e médicas nos ajudando a dar atenção primária em comunidades interioranas, quilombolas, povos indígenas, assentamentos, favelas, e outros lugares os quais nenhum médico brasileiro quer ir. “Cuba é o único país com internacionalismo genuíno”, como afirmou o filósofo Noam Chomsky. Realmente não tem coisa mais bonita que uma ilha latino-americana que exporta vida! Nem se compara com países ricos que exportam soldados e derrubam bombas em comunidades pobres. O mínimo que devemos a esse país incrível é respeito. O modo como os cubanos lidam com o ser humano é completamente diferente do nosso. Aqui no Brasil não há interesse em cuidar do povo, temos um governo que só nos mata: de Covid, de fome ou de raiva. Em Cuba é muito diferente, há uma preocupação real com as pessoas, com o cidadão, com o indivíduo. Todos lá têm um nome, não são números como aqui. Em Cuba não são só os médicos que têm respeito pela vida, os políticos também têm. Enquanto aqui o presidente incentiva que os seus seguidores invadam hospitais para questionar os profissionais da saúde, em Cuba há homenagens e recepções calorosas para as brigadas médicas nos aeroportos, que são transmitidas ao vivo para a população. Enquanto nós somos governados por uma gente obtusa, com egos em estado terminal que diz “E daí? Não sou coveiro.”, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse que salvar vidas tem que ser uma prioridade. E assim foi desde sempre. Quando fui a Cuba, em 2018, não tinha pandemia nenhuma, mas ao chegar no aeroporto, havia uma equipe de profissionais de saúde, que nos pedia cartão de vacinação e faziam perguntas. Só depois disso, você está autorizado a entrar no país. Se não tiver a carteira de vacinação em dia, pode dar meia volta com a sua malinha e rumar para casa porque lá não entra. Para ver o tamanho do zelo! Eu só tenho a te agradecer, Cuba, por me dar esperanças, por representar a vitória da vida sobre a morte, da solidariedade sobre o egoísmo, pela valentia de combater duas pandemias (o coronavírus e o bloqueio estadunidense) e ainda ter forças para ajudar outros países. Obrigada por mostrar para o mundo como a medicina somada ao respeito, a simplicidade, a generosidade, ao compromisso e a seriedade podem salvar vidas. Como disse o médico e revolucionário Che Guevara: “Não há fronteiras nesta luta de morte, nem vamos permanecer indiferentes perante o que acontecer em qualquer parte do mundo". E não para por aí. Em Cuba não se valoriza somente os médicos, lá qualquer profissão tem a mesma importância. Não tem essa de hierarquia, de status em termos salariais ou de formação; lá os servidores públicos não são considerados meros empregados e sim como trabalhadores do Estado que servem à coletividade, não aos interesses individuais. Aqui no Brasil é bem diferente. O abuso de autoridade reina. Secretários executivos do governo humilham garçons em transmissões ao vivo (imagina sem câmeras). Aqui, até os servidores públicos da vigilância sanitária - que estão na luta pela vida fiscalizando estabelecimentos após a reabertura - precisam de escolta armada devido às ameaças que estão sofrendo de gente raivosa que quer porque quer aglomerar. Triste republiqueta de engenheiros civis (cidadão não!) que se sentem no topo da pirâmide social (assim como médicos e advogados, né Doutô?). Uma gente que não sabe o que é riqueza, mas se vê por cima. Que divide o mundo entre os não cidadãos, os cidadãos e por último a escória. Esse comportamento geral como já dizia o Gonzaguinha, esse egoísmo, esse elitismo, é um dos motivos para o Brasil ter chegado aonde chegou. Somos um país pedante, de pessoas arrogantes que se orgulham de serem VIP: Vigaristas Infames Preconceituosos. Vivemos sob o equívoco da "carteirada". Somos uma sociedade essencialmente burra, discriminatória, e, por isso, cada vez mais desigual e injusta. Não me vejo morando fora, mas ando realmente sentindo muito desgosto nestas terras. Me sinto inadequada. Eu gosto do Brasil, amo o meu país, não no sentido patriótico, como se ele fosse melhor que os outros (eu acho que o mundo nem deveria ter fronteiras!), mas, ando bem desanimada com o rumo da prosa deste lugar em que a impunidade reina. Esta semana, por exemplo, assistimos os portões da cadeia se abrindo para secretários de saúde corruptos e se fechando para laranjas milicianos amigos do presidente. Aqui pessoas foragidas também ganham direito à prisão domiciliar, tamanho escárnio promovido pela familícia. O recado é: pode roubar à vontade que você ganha uma quarentena em casa, como todos nós estamos agora sem cometer crime algum. Que vergonha... Eu estou cansada de ver um negacionista estúpido (pleonasmo!) que segue eliminando pobres e negros deliberadamente, completando a sua política eugenista. Cansada de tanta irresponsabilidade no combate à crise mais séria dos últimos 100 anos. Enquanto governos de outros países enviam máscaras gratuitamente para a casa das pessoas com manual de instrução, aqui o presidente segue dizimando a população o máximo que pode. Para Jair não adianta a orientação da OMS, não importa a comprovação da eficácia da máscara no combate à Covid-19. Ele não usa e ponto, ainda diz que usar máscara é “coisa de viado”, em mais uma mistura de genocídio com homofobia. Fica difícil superar uma pandemia assim. Tudo aquilo que tem comprovação científica na prevenção ao coronavírus o governo veta, debocha, não cumpre; já as coisas jamais comprovadas como a tal da cloroquina, o governo segue incentivando. A conjuntura brasileira parece uma patética telenovela das sete, banal e crua, desengraçada, repleta de imperfeições narrativas. O enredo da semana foi: O incrível caso do presidente inFAKEtado. A história se passa no Alvorada. O protagonista é um indivíduo que, em capítulos anteriores, recorreu à justiça e fez estardalhaço para não mostrar o exame, mas agora saiu correndo para dizer que se infectou. A maior ironia é que o personagem pode ter contraído o vírus no dia da independência dos EUA, numa festinha irresponsável na embaixada americana lotada de adoradores do Pateta (não o da Disney, mas o da Casa Branca). Assim que soube do resultado do (v)exame o presidente deu uma entrevista para os jornalistas - vilões que ele odeia - sem máscara, pronto para matar. Porque para ele não basta usar a máscara como se fosse um enfeite no pescoço ou um brinco na orelha, tem que estar infectado e retirar a proteção, para contaminar os outros. Para piorar o desfecho não acabou aí, logo depois Jair fez uma live rindo, com ar de deboche, onde tomou Cloroquina como se fosse uma “Neosa”. Assim o covardão incentiva a automedicação de milhões de pessoas com um remédio extremamente perigoso para ser tomado sem orientação e que não há nenhuma comprovação científica da sua eficácia no combate à Covid. Ao contrário, o que se aponta nos estudos são os seus efeitos colaterais, como fazer o coração perder o ritmo e fazer o doente empacotar de vez. Para Jair é fácil fazer o experimento. Ele tem médicos 24h no Palácio da Alvorada, ambulâncias à disposição e faz dois exames cardíacos por dia para monitorar o coração (quem tem cu oroquina tem medo!). Com todo esse acompanhamento é fácil brincar de cobaia, pois é muito difícil algo dar errado, diferentemente da imensa maioria do povo que segue sendo enganado. Para esta novela, a gente queria um desfecho estilo Odorico Paraguaçu, mas o fim possivelmente será outro. O protagonista não vai morrer, vai vender remédio e ainda usará a história como mais um meio de reforçar o seu negacionismo. Não consigo me adequar a uma porcaria dessas. Então, prefiro voltar a falar da ilha caribenha. Além da saúde, a outra prioridade de Cuba é a educação. Isso já é motivo suficiente para o meu amor aumentar. A escolarização universal com qualidade para todas as crianças em idade de cursar o ensino fundamental faz de Cuba o único país da América Latina e Caribe a alcançar todos os objetivos mensuráveis de educação. O normal por lá são crianças e jovens educados, que falam inglês fluentemente, professores dando suas aulas sem precisar gritar e espernear para ganhar a atenção dos alunos. Ah, e não há nada mais encantador que ver as crianças em filas saindo das escolas com aquele uniforme lindo e impecável. Mais uma vez é inevitável a comparação. Enquanto Cuba erradicou o analfabetismo em meados do século passado, nós, aqui no Brasil, ainda temos 13 milhões de analfabetos. O pior é que tudo tende a piorar, pois acabamos de engolir, como ministro da Educação, um pastor “terrivelmente evangélico” nesta triste República criacionista. É lamentável saber que aqui no Brasil só existem três opções para o Ministério da Educação no momento: terraplanistas, guerrilheiros ideológicos ou fraudadores, todos privatistas. Ninguém está interessado em investir e discutir os problemas reais da educação brasileira. O MEC morreu. E o que não morreu no Brasil? Ando tão carente de esperança que passei a ir para Cuba com frequência nos meus pensamentos, passo horas lá, revejo fotos, releio diários de viagem, pego o rum, o Cohiba e por uns instantes me livro da figura do presidente, esse ser imprestável, horripilante, que desfila sem máscara por aí todo contaminado. Tudo que eu quero é que me mandem mais vezes para Cuba. Se me derem a passagem, melhor ainda, e não importa que seja só de ida. Eu realmente queria estar num país que destina 65% do orçamento para saúde, educação, assistência e seguridade social. Parafraseando Fidel nestes tempos pandêmicos, eu diria: Com essa pandemia, em vários países do mundo, haverá mais gente nas ruas, passando fome e morrendo de inanição. Sabe onde não haverá nada disso? Em Cuba. Ironicamente, os cubanos têm sofrido muito menos que os cidadãos dos países dito desenvolvidos. Lá as pessoas recebem a alimentação básica pelo Estado e todos têm a garantia da subsistência. Os cubanos são acostumados com pouco, mas quando o cerco aperta, eles podem ter a certeza que não estarão abandonados à própria sorte. Quero que me mandem mais para Cuba, porque tudo que desejo é voltar à ilha mais legal da América Latina. Não vejo a hora de ver as cenas típicas locais, a sorveteria estatal, as vendas nas casas, os bares, as escolas, os monumentos nacionais, os painéis saudosos dos líderes revolucionários, a pracinha com as crianças brincando, o popular beisebol sendo jogado nos campos das ruas, os cocotáxis e aqueles lindos possantes russos e americanos dos anos 1950, numa espetacular roda de imagens que tem a capacidade de nos transportar para uma realidade paralela. Como disse Ernest Hemingway: “Quando um ser humano se sente em casa, fora do lugar onde nasceu, esse lugar é onde deve ir para sempre”. É verdade, Cuba é o meu país de coração, eu não vejo a hora de reencontrar aquele povo solidário, simpático, amoroso, muito culto, que fala de todos os assuntos com desenvoltura. Conto os minutos para pisar novamente naquele país único, incomparável, lindo, colorido, boêmio, alegre e com uma musicalidade incrível. Tudo que eu quero é um novo encontro com o mar caribenho, mergulhar naquelas águas azul-verde-clarinhas dependendo da inclinação incidente dos raios solares e da finura das areias. Tudo que eu quero é sentir novamente aquele prazer gastronômico indescritível das lagostas e camarões. Tudo que quero é respirar novamente aquela atmosfera revolucionária, tomar um Cuba Libre na noite de Trinidad, um mojito no Bodeguita, apreciar a água batendo no Malecón de Havana, ouvir a adorável melodia chiclete de “Guantanamera”, e a constante repetição de “Comandante Che Guevara”, que pode tocar mil vezes que eu não enjoo nunca e sempre sinto uma emoção diferente. Ahh como eu quero voltar para aquele país que muitos acusam de haver uma “ditadura”. Uma “ditadura” em que milhares de cidadãos apoiam seus líderes há 60 anos; uma “ditadura” que as pessoas são felizes, bem informadas, têm cultura, saúde e educação de qualidade; uma “ditadura” que permite a coexistência de diversas religiões e que não deixa a religião interferir no Estado; uma “ditadura” em que o voto não é obrigatório, mas a população comparece em massa nas urnas; uma “ditadura” que apresenta na TV programas que divulgam o orçamento e dizem para onde está indo o dinheiro dos impostos pagos pela população; uma “ditadura” em que as pessoas fazem críticas ao governo e participam ativamente da política; uma “ditadura” que não quer metralhar o oponente. Saudade de uma ditadura assim. “Pai, afasta de mim esse cálice”, mas se tiver Daiquiri, Mojito ou Cuba Livre, aproxime! Te quiero, Cuba! Vivendo nesta quarentena sem perspectiva de futuro, eu só tenho a agradecer ao país que ainda me permite sonhar. Nesse mundo em que o único senhor é o mercado financeiro em meio a uma crise civilizacional em que a barbárie é a regra e a alternativa aparentemente não existe, eu continuo acreditando que o socialismo é o horizonte, todavia, não quero que seja necessariamente como é em Cuba ou em qualquer lugar onde a burocracia centralizada do Estado se instalou, mas também não deixo de considerar todos os acertos de uma revolução que foi o que pôde ser e não o que desejou ser. Por fim, quero dizer que este diário foi sobretudo uma declaração de amor à Cuba, uma ilha cheia de paradoxo, um país periférico cercado de capitalismo selvagem por todos os lados, mas que representa uma sociedade mais autoconsciente, mais humana, uma espécie de reserva social de valores humanos que o resto do mundo insiste em destruir. É uma lição do que precisamos. Viva nossos irmãos cubanos! Hasta la victoria, siempre! *Amanda Moreira é professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, doutora em Educação e cronista pandêmica de fim de semana. Créditos das imagens: 1 - Imagem de capa:  iStockphoto/Getty Images 2 - Imagem interna : Augustin de Montesquiou - ago.2017