Edição 8

Traduções: Nós fomos as últimas “boas garotas negras [1]”
Traduções: Nós fomos as últimas “boas garotas negras [1]”

Em 1968, a história encontrou-nos numa pequena faculdade feminina, forjando a nossa identidade Preta e fortalecendo a nossa rebeldia [2]. Anna Deavere Smith* Minha conselheira da Western High School, uma escola pública só para meninas em Baltimore, era uma mulher branca rotunda, com um semblante agradável, mas pouco enérgico. Ela esteve totalmente ausente de minha educação até que um dia, depois que começaram os rumores sobre ações afirmativas nas faculdades, sacudindo o terreno que os negros atravessavam para o ensino superior, ela convocou, a mim e à minha mãe, para uma reunião. Minha mãe, uma professora veterana em escolas públicas de Baltimore, tirou a tarde de folga. Nós nos sentamos na sala de teto alto do escritório de aconselhamento, o mais afetado e limpo possível, enquanto a conselheira nos mostrava um panfleto após o outro com imagens de garotas brancas em conjuntos de suéteres relaxando em ambientes bucólicos. Eu não sabia nada sobre a multidão de pequenas faculdades nos EUA que haviam sido fundadas, muitas por instituições religiosas, com o propósito específico de educar mulheres brancas. Nem sabia nada sobre as "suitcase schools", algumas das quais ficaram reputadas como gloriosas escolas de acabamento onde as meninas se concentravam em conhecer meninos que frequentavam instituições próximas. (Elas eram chamadas de “suitcase schools” porque às sextas-feiras, as meninas iam passar o fim de semana com os seus futuros maridos.) Mas em 1966, como a conselheira disse para minha mãe, muitas dessas faculdades só para meninas estavam “procurando boas garotas negras como Anna”. Meu pai não gostou da ideia. Ele foi inflexível e queria que eu estudasse em Howard ou Morgan State, ou alguma outra faculdade ou universidade historicamente Preta, assim como ele e seus irmãos e meus primos mais velhos tinham feito. Minha mãe e eu argumentamos em torno da ideia de "oportunidade." Ele se tornou enfático: se eu fosse para uma faculdade para mulheres brancas, ele disse, não teria vida social. Essa era uma preocupação legítima, mas até aquele ponto, a rigidez de meu pai havia circunscrito severamente minha "vida social". Agora ele estava, de repente, preocupado com isso? Candidatei-me a três das faculdades que a conselheira sugeriu. Quando chegaram as cartas de aceite de todas as três, meu pai disse que se recusaria a ajudar financeiramente, então minha mãe e eu começamos a tentar encontrar financiamento. A única sugestão de meu pai sobre isso foi murmurar que eu deveria escolher a faculdade mais próxima de Baltimore, para que eu pudesse voltar para casa com despesas limitadas de trem. Eu acabei escolhendo o Beaver College, em um subúrbio da Filadélfia, sem sequer ter visto o campus. Agosto de 1967: a família Smith deixou Baltimore para ir para o Beaver College no raiar do dia. Porque, como assim, poderíamos ser “de cor” e atrasados? Meu pai sentou ao volante, e meus dois irmãos, minhas duas irmãs pequenas, meu avô paterno e minha mãe entraram no carro. Minhas tias Esther e Mildred, preocupadas com o estado precário da minha bagagem, juntaram seus recursos para me comprar um conjunto novo. Minha bagagem nova, minhas roupas novíssimas, minha vitrola de plástico (com meus cinco LPs) e o peso da minha família fez com que o carro emitisse um som de raspagem ao passar pela estrada. Fomos um dos primeiros a chegar. Um grande castelo cinza assomava. O lugar tinha sido originalmente uma propriedade privada feita no modelo de um castelo inglês. Os edifícios foram reaproveitados para se tornarem um teatro, uma capela, um estúdio de arte e um laboratório de biologia. Garotas brancas acompanhadas por suas famílias arrastavam-se pelo corredor do dormitório ao longo da manhã e da tarde. Enquanto minha mãe e eu sentamos sozinhas em uma sala antisséptica esperando para conhecer minha colega de quarto, o resto da minha família vagou pelo campus, avaliando o lugar. Tive amigos brancos no colégio, mas não morava com eles. Eu tinha ido apenas para uma “festa do pijama” em uma casa de brancos, uma doce festa do pijama de 16 anos, da qual meu pai me levou embora às 22h, porque, para ele, não havia nada de doce em me ver passando a noite com um grupo de meninas brancas. Ele e minha mãe não me permitiam sair com alguém cujos pais eles não conhecessem - e em Baltimore, naquele tempo, os pais negros não conheciam muitos pais brancos. "Eu sou Marie." Uma voz ressonante com um timbre rico. Minha colega de quarto, uma garota branca com longos cabelos lisos e um sorriso contagiante, estendia a mão. A mãe dela estava elegantemente vestida e usava óculos escuros, que nunca tirou. Eu me levantei da cadeira para cumprimentá-la. Marie começou a conversa fiada [3] imediatamente. “Quantas crianças na sua família?” Na fronteira entre raça e classe, até mesmo perguntas simples causam um embaraço. A preocupação com o “número negro”, resultado do “Projeto negro” de Margaret Sangers, em 1939, ainda tinha ressonância nos anos de 1950 e 1960 [4]. As famílias negras em que cresci eram muito menores do que na geração dos meus pais. Meu pai foi um de seis. Minha mãe, uma de oito. Meus primos - os outros filhos de seis e oito - não ultrapassavam três por família, e a maioria dos agrupamentos era de dois por domicílio. “Cinco,” eu disse. “Venci por um! Somos seis! ” ela anunciou. Marie era católica. Minha família me deixou com um mar de garotas brancas e voltou para Baltimore. Eu caminhei ao longo da estrada que subia lentamente, passando pelo poço dos desejos, pelo castelo, pelo campo de lacrosse, pelo estúdio de arte e pelo teatro (que outrora fora o aposentos dos empregados), pela capela (que outrora fora um estábulo), e subi as escadas para a convocação. Como qualquer negro que se preze, quando sentei, contei cada pessoa com cor em sua pele. Os recrutadores do Beaver College encontraram sete "boas garotas negras", incluindo a mim. Não havia União de Estudantes Pretos. Nós nem éramos “Pretas” ainda. Fizemos contato visual e acenamos. Nós sete ocupávamos lugares diferentes dentro do sistema de classes da comunidade negra. Tínhamos relacionamentos diferentes com cabeleireiros, gírias diferentes, diferentes experiências de ensino médio, diferentes formas de fé, arranjos familiares diferentes. Diriam que a identidade de raça ultrapassaria aquelas diferenças, mas, em 1967, não. Três das meninas tinham ido para a mesma escola, então elas se tornaram mais próximas. Uma de nós, Karen McKie, morava na Filadélfia e havia sido recrutada pessoalmente da Simon Gratz High School, escola com baixas taxas de formados, uma abismal taxa de frequência à faculdade e a reputação de ser um lugar violento e perigoso. Eu conversei com Karen algumas semanas atrás: Anna Deavere Smith: Quando chegamos, não tínhamos (cabelo) afro. Karen McKie: Absolutamente não. A ideia era que nos misturássemos. Smith: Nós, sendo estas meninas obedientes - qual foi o quadro de referência para o nosso comportamento? Havia filmes ou romances sobre “boas garotas negras” como nós? McKie: Não. Smith: Certo? McKie: Ser “preto e orgulhoso” já era uma letra para as músicas - James Brown. Mas estávamos nessa linha tênue, porque não tínhamos exemplos na Beaver College. Eu não sabia de ninguém de aparência como a minha que havia estado na Beaver. Éramos uma experiência, eles estavam nos dando a oportunidade de sermos uma experiência para essas meninas brancas. Para que elas pudessem ficar mais confortáveis saindo para um mundo onde as pessoas estavam falando sobre ser “preto e orgulhoso”. Algo precisava ser feito para que elas estivessem preparadas. Smith: isso é hilário. Eu pensava que isto vinha de uma ideia de “branco salvador” da parte deles, para nos dar uma oportunidade. Uma noite, ainda no início do semestre, minha colega de quarto e eu estávamos estudando em nossas mesas. "Você recebeu uma carta?" Ela perguntou casualmente, balançando os pés na cadeira. "Que carta?" “Recebi uma carta perguntando se eu me importaria de ter uma colega de quarto negra”, disse ela. "Não”, eu disse. “Não recebi carta.” Nenhuma de nós recebeu uma carta. Havia cerca de uma dúzia de alunas na minha aula de inglês do primeiro ano - todas brancas, exceto duas de nós. Nossa professora era Helen Buttel, uma mulher branca (Beaver não tinha professores Pretos quando cheguei). Ela está com aproximadamente 90 anos agora. Liguei para ela algumas semanas atrás. Smith: Só preciso ver se você se lembra de alguma coisa sobre isso. No meu primeiro trabalho para a aula de inglês do primeiro ano, a tarefa era escrever sobre uma palavra-tabu. E eu escrevi sobre a palavra negro - agora dizemos "a palavra com N" - e o mesmo fez a única outra mulher Preta na classe. Helen Buttel: Eu certamente me lembro de ter pedido este trabalho e devo ter ficado surpresa. Parecia uma coisa corajosa para uma dupla de alunas Pretas trazer isso à tona - uma palavra pejorativa sobre sua raça - em uma aula onde os trabalhos seriam lidos em voz alta. Pareceu-me algo muito dramático. Smith: Lembro-me de você chegar quando estava devolvendo os trabalhos e dizer: "Bem, duas pessoas na classe escreveram sobre a mesma palavra, e elas escreveram sobre isso de formas diferentes”. A outra garota Preta e eu, que àquela altura do ano nunca tínhamos trocado palavra, nem mesmo nos entreolhamos quando a professora Buttel anunciou que teríamos escrito sobre a mesma palavra com interpretações completamente diferentes. Minha colega havia escrito que a “palavra com N” representava afeto; Eu tinha escrito que era ofensiva e dolorosa. Buttel: Não me lembro disso ter causado alguma discussão selvagem sobre o tema em sala de aula. E você? Smith: Não. Eu não me lembro de nenhuma discussão selvagem de qualquer tipo. [Risos] Buttel: Eu imagino que o tema deva ter, provavelmente, calado todas elas. [Risos] Uma noite, quatro garotas brancas nervosas me visitaram na sala de estudo do meu dormitório. Beaver era uma escola pequena, com menos de 1.000 alunos, mas nenhuma dessas meninas estava em aulas que eu fiz. Elas queriam me dizer que sua colega de quarto, que era do Sul profundo, havia hasteado uma bandeira dos confederados no poço dos desejos, no centro do campus, depois da Beaver College ter ganhado um jogo de lacrosse. Eu tinha escutado sobre isso? Eu não havia escutado. A colega de quarto delas tinha uma personalidade forte, e elas presumiram que a notícia tivesse se espalhado pelo campus. Mas eu não estava sabendo. O objetivo da reunião: elas queriam saber se eu estaria disposta a atuar como “embaixadora dos Negros” em nossa turma de calouros, explicando que sua colega não quis fazer mal. Por que elas me escolheram? Mais surpreendente, por que elas presumiram que nós sete éramos um grupo? Comecei com as três meninas que frequentaram a mesma escola e andavam juntas. O consenso foi dar à garota do sul o benefício da dúvida. E “nós” agora éramos um grupo. Quatro de abril de 1968: assassinato de Martin Luther King Jr. As garotas brancas em Dilworth Hall corriam para cima e para baixo no corredor - horrorizadas menos, se bem me lembro, pelo assassinato e mais porque os toques de recolher e as restrições de viagens em grandes cidades bagunçariam seus planos para o recesso de primavera. As “boas garotas negras” planejaram se encontrar. Minha colega de quarto me lembrou que havia perguntado: “Posso ir à reunião?” E que eu dissera: “Não, não desta vez”. Não me lembro disso especificamente. Mas tenho certeza de que disse não. Até aquele ponto, o mundo fora dos muros do Beaver College havia permanecido distante, como um ruído abafado. Um véu separava o corpo discente da realidade externa. A vida de muitas de minhas colegas de classe estava centrada em encontrar um marido nas proximidades de Princeton, Lehigh, Lafayette, Haverford, Penn e Franklin & Marshall. Tratava-se de uma “suitcase school” com pouquíssima atividade política. Mas para as sete de nós, o assassinato de King destruiu o que restava do véu. Véu que se rasgaria para as nossas colegas brancas também, por causa do Vietnã e do alistamento militar. Tudo estava desmoronando. Para as Beaver College Blacks, como passamos a nos chamar, a morte de King ampliou as lacunas em nossas vidas. Como estudantes Pretos em todo país, procuramos entender o que estava acontecendo nas áreas urbanas antes e depois do assassinato. “Acho que aprendemos a exigir educação”, diz Karen. Nós nos encontramos com uma reitora que era do sul. Seu sotaque, cheio de vogais estendidas e consoantes cristalinas, era o suficiente para fazer qualquer garota Preta voltar atrás, sentindo-se como carne de linchamento. Nós nos encontramos em uma sala de aula esterilizada com piso de linóleo e sem arte. Nossas demandas eram modestas: queríamos cursos de História Preta e um ou dois membros Pretos no corpo docente. A reunião não correu bem. Ela nos disse que, se exibíssemos “comportamento indesejável”, o governo não ficaria feliz em nos receber. E "se vocês continuarem a mostrar um comportamento indesejável", disse ela, "certamente não pagaremos para ter vocês aqui”. Se um reitor falasse assim com um grupo de alunos Pretos nos dias de hoje - caramba, se o zelador de uma escola falasse assim com um grupo de estudantes Pretos hoje - eles não esperariam chegar à parte do “pagar para ter você aqui”. Eles já estariam queimados ao dizerem “comportamento indesejável”. Alguém colocaria nas redes sociais, e o episódio terminaria assim. Naquela época, porém, não havia muito o que pudéssemos fazer. A saída que encontrei foi passar a imitar a reitora, com sotaque e tudo, e fazer apresentações sempre que solicitado - nos corredores para a aula, no refeitório, enquanto fazia arco e flecha (meu esforço para cumprir a exigência de treinamento físico). Minhas reconstituições cômicas de nossa reunião serviam como uma espécie de bálsamo. Claro, deveríamos ter ficado indignadas. Nós ficamos indignadas. Quando você ri alto, você mostra os dentes. Finalmente conseguimos um curso de estudos Pretos [5] - não um currículo completo, mas uma única aula - e um membro do corpo docente preto [6], do tipo avô, que rapidamente nos ajudou a nos sentir mais em casa... E então, infelizmente, morreu. Criamos uma performance - uma celebração de sua vida por meio de canções, poemas e leituras - para elogiá-lo, e nosso "nós" ficou ainda mais forte. A maior parte das sete de nós chegou a este cenário arquitetônico pseudo-gótico vinda de cidades que foram envolvidas em distúrbios. O relatório da Comissão Kerner, documento histórico sobre as relações raciais americanas lançado em 1968, começava assim: “O verão de 1967 trouxe novamente desordens raciais para as cidades americanas, e com elas choque, medo e perplexidade para a nação. ” Ler o Relatório Kerner é ouvir augúrios do verão de 2020 - motins, polícia espancamentos, assassinato. Muitos acreditam que o momento em que vivemos não tem precedentes. Eu não sei com base em quê. Direi apenas que, por mais difícil que tenha sido o que nós sete passamos em 1967, o que outros passaram não muito antes de nós foi ainda pior. Certa vez entrevistei a jornalista Charlayne Hunter-Gault, que integrou a Universidade de Geórgia cerca de meia década antes de nós sete chegarmos a Beaver. Sua presença causou um motim em sua terceira noite na escola. Alguém jogou uma pedra pela janela de seu dormitório. Havia vidro, ela me disse, por toda parte sobre suas roupas, que estavam em uma mala aberta no chão. Gás lacrimogêneo foi usado para dispersar a multidão. As garotas no dormitório dela foram obrigadas a tirar os lençóis de suas camas para dispersar o gás. O reitor veio tirar Charlayne do dormitório e dizer que ela teria que deixar a universidade. Enquanto ela era escoltada para fora, todas as suas companheiras brancas estavam alinhadas no corredor, vestidas com suas camisolas, algumas em pé nas cadeiras. Enquanto ela se dirigia para a porta da frente, uma das mulheres jogou uma moeda de 25 centavos e disse: "Aqui, Charlayne, vá e troque meus lençóis”. As Beaver College Blacks estávamos entre as últimas “boas garotas negras”. Nós tínhamos aspirado a ser educadas e dar um passo além de onde nossos pais puderam chegar. Disseram-nos que tínhamos que tirar boas notas na escola e que tínhamos que trabalhar mais do que as crianças brancas (como hoje). Disseram-nos para nunca irritarmos figuras de autoridade - especialmente figuras de autoridade brancas. Disseram-nos que tínhamos que ser boas e legais em todos os sentidos. Foi-nos dito que devíamos, acima de tudo, escapar da gravidez na adolescência, porque a gravidez arruinaria nossas vidas. (O uso de pílulas anticoncepcionais para mulheres solteiras não foi legalizado até 1972, um ano depois que nós nos formamos.) Então, enquanto nós sete estávamos aninhadas em nosso último ano, Angela Davis entrou para a lista de mais procurados do FBI, acusada de fornecer armas para um tiroteio em um tribunal do condado de Marin. Ela estava fugindo por dois meses e, durante esse tempo, mulheres Pretas que se pareciam remotamente com ela (ou nem um pouco com ela) eram apreendidas por policiais. Renunciando à nossa personalidade de “boa garotas negras”, deixamos crescer nossos afros tão grandes quanto o dela, como se disséssemos: “Venha e me pegue também”. Nos libertar do calor dos ferros e produtos à base de soda cáustica (que deixavam crostas e queimaduras em nosso couro cabeludo e em nossas testas e pescoços) em busca de cabelos lisos era uma escolha cosmética, sim, mas com Davis na prisão e quase no corredor da morte, também estávamos dizendo: “Vocês estão certos, nós poderíamos ser ela. As boas garotas se foram”. Fomos realmente “boas”? Graciosas, talvez. Gentis, talvez. Nós definitivamente éramos polidas. Mas essas boas maneiras tinham a ver com a forma como tratávamos uns aos outros dentro das paredes da segregação. Qualquer pessoa com mais de 30 anos era tratada como Senhorita ou Sr. Mas o "boa" que os recrutadores de Beaver buscavam era uma performance herdada da escravidão e de Jim Crow, quando não ser “bom” era uma sentença de morte em potencial. Posso ter deixado minha personalidade de “boa garota negra” para trás no Beaver College, mas a necessidade de ser "boa" permaneceu. Nos anos 80, quando um terrível obstáculo foi lançado no meu caminho profissional, alguns amigos homens, brancos e mais velhos rapidamente identificaram a causa como sendo racismo - ainda assim aconselharam-me a nunca usar a palavra “raça”, enquanto eu lutava para sobreviver. Embora a academia se vanglorie da sua dedicação à verdade, poucas pessoas a dizem como ela é. Um quadro de académicos experientes, Pretos e brancos, ajudou-me a escapar. Um ajudou-me literalmente a fazer as malas. Até hoje, eu carrego o trauma, mas consegui um cargo efetivo em Stanford. A horrível história teve um final feliz. Mas eu sei que nem sempre é assim. O mais sinistro passado da América está rompendo as rachaduras. As divisões estão nítidas. A Guerra Civil acabou? Uma nova geração de irmãs que não performam mais "gentileza" tem um palpável senso de sua vulnerabilidade, mesmo que tenham um melhor controle da escalada para o sucesso do que nós sete tínhamos. Andrea Ambam, uma excelente aluna minha, recém-graduada, é a primeira geração americana de uma família que imigrou dos Camarões e se estabeleceu em uma pequena cidade do Missouri. Ela foi educada em instituições predominantemente brancas desde a pré-escola até a graduação - não teve um professor Preto até a faculdade. Ela foi criada em uma casa que enfatizava a necessidade de ficar longe de problemas. Mas, na escola, ela começou a questionar a política de respeitabilidade. "Penso que tantas mulheres Pretas que se deslocam pelo mundo são advertidas sobre a sua atitude - sabe, sobre serem educadas, sobre serem suficientemente femininas", ela me disse recentemente. Na ladainha de vídeos de pessoas Pretas atacadas ou mortas pela polícia, o episódio que ocorreu mais perto de sua casa foi o de Sandra Bland. Em 2015, a universitária afro-americana de 28 anos foi encarcerada após uma blitz, e morreu na prisão três dias depois. A conclusão de nossa conversa de uma hora sobre o que tornava a história de Sandra tão significante para Andrea e seus colegas foi: " podia ser eu". Andrea Ambam: Se eu tivesse estado naquele carro e o polícia me dissesse para apagar o meu cigarro, eu o apagaria, certo? Mas eu compreendo a sensação de não querer fingir, de não querer dizer "Sim, está tudo bem", “está tudo ótimo, Sr. policial". O último vídeo que temos é a sua luta pela sua vida e pelo seu direito a não ser tratada desta forma, e então a próxima coisa que temos é que ela [morreu]. Sinto-me tão profundamente conectada à sua rebeldia. Isso pode fazer você se encolher e dizer: "Está bem, não vou fazer isso". Ou pode fazer com que se incline para a rebeldia. Pode acender algo em você que diz: "Estou seguindo em frente com orgulho na minha rebeldia, em vez de sufocar essa rebeldia e essa resistência como medida de segurança". Houve progresso, claro. Beaver College, agora Arcadia University, é mista. Estudantes Pretos e outras minorias históricas agora têm seus grupos de afinidades. O presidente da Arcadia, Ajay Nair, é publicamente dedicado à justiça social. No final dos anos 60, nós sete tivemos que lutar para conseguir um professor Preto - e agora muitas faculdades têm departamentos inteiros de estudos afro-americanos. Não precisamos mais nos esforçar tanto, com o perdão do eufemismo. Quando falei com a Dra. Buttel, ela lembrou que um reitor havia lhe dito que ela tinha que sugerir às sete meninas negras, de quem ela havia se tornado uma conselheira dedicada na instituição, que parassem de usar o “terrível” nome que havíamos dado a nós mesmas: Beaver College Blacks. "E eu disse ao reitor, ''é impossível. Como gostaria que se chamassem, the Beaver College Colored Folk?'". No nosso atual momento de divisão, não podemos dar-nos ao luxo de avançar sem olhar para trás. Temos de cavar a história para avaliar como aprendemos a restaurar a dignidade humana que tinha sido arrancada pela pilhagem e pela escravatura. Como chegámos até aqui? Não foi sendo “bons”. *Anna Deavere Smith, uma escritora contribuinte da Atlantic, é dramaturga, atriz e professora. Em 2013 recebeu o prêmio The Dorothy and Lillian Gish Prize, em 2015 foi escolhida como Jefferson Lecturer pelo National Endowment for the Humanities. Ela é fundadora e diretora do Institute on the Arts and Civic Dialogue na New York University. Como atriz, seus trabalhos mais conhecidos são: The Human Stain (2003), Rachel Getting Married (2008) e The American President (1995). Para conhecer seus mais recentes projetos, acesse: https://www.annadeaveresmith.org/ . No Twitter: @AnnaDeavereS Créditos da imagem: https://www.theatlantic.com/world/ Tradução: Gabriela Mitidieri Revisão: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de revisão e tradução: [1] Em respeito à semântica, aos movimentos sociais e à literalidade de Anna Deavere Smith este texto operou a tradução literal dos termos “negro / nigger” e “Black”, respectivamente “negro(a)” e “Preto(a)” - mantendo também a grafia com letra maiúscula. [2] O texto original pode ser consultado aqui: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2021/03/the-last-of-the-nice-negro-girls/617786/ [3] No original: small talk. [4] Nos anos de 1920 e 1930, a enfermeira norte americana e ativista do controle de natalidade, Margaret Sanger, elaborou um projeto para as comunidades negras, denominado “The negro project”. Em 1929, com o apoio de W.E.B. Dubois, ela fundou uma clínica de planejamento familiar no Harlem. Sua defesa do aborto e do controle de natalidade baseava-se em teorias eugenistas. Para ela, se as famílias pudessem escolher ter menos filhos, criando-os de maneira mais saudável, haveria possibilidades de “melhoramento da raça”. Mesmo tendo trabalhado junto à NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) de Dubois e tendo seu trabalho elogiado por Luther King, Sanger segue sendo uma figura controversa tanto na sociedade, em geral, quanto no meio acadêmico norte-americano. [5] No original: Black-studies course. [6] O professor em questão era Horace Woodland. O artigo original de Anna Deavere Smith indica um pequeno texto biográfico que pode ser acessado aqui: https://scholarworks.arcadia.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1814&context=college_newspapers

Entrevista com Maria Rizolete Fernandes
Entrevista com Maria Rizolete Fernandes

A entrevista apresentada à Revista Mulheres do Fim do Mundo faz parte da pesquisa de mestrado de Janaína Porto, iniciada no ano de 2017 pelo Programa de Pós-Graduação em História PPGH/UFRN. A pesquisa resultou na dissertação de mestrado em História intitulada: "Cidade com rosto de mulher: a trajetória do movimento feminista em Natal (1978-1989)”. O trabalho buscou identificar e entender o processo de criação e atuação de alguns grupos de mulheres e feministas que militavam desde os finais da década de 1970, em Natal/RN, até fins da década de 1980, quando o último grupo com o perfil associado aos anteriores se formou. Conforme autora: “O primeiro nome com o qual tive contato foi o de Maria Rizolete Fernandes. Na época, motivada por um trabalho de uma disciplina de graduação, consegui seu telefone e agendei um encontro. Quando nos conhecemos, Rizolete, ou “Rizó” para os íntimos, foi muito receptiva e me fez entender o porquê de ser considerada um dos nomes com significado na história das mulheres do Rio Grande do Norte. Muito determinada e com um histórico de vida cheio de protagonismos, tanto de militância política quanto de atuação na escrita, Rizolete, para mim, se traduzia em um misto de força e sensibilidade. A cada encontro uma nova lição. Atrevo-me a dizer que ficamos próximas e, hoje, passados alguns anos desde o nosso último contato presencial, sinto com carinho e saudade os tempos compartilhados nos encontros que tivemos em sua residência, quase sempre acompanhados com os chás de maçã e canela. Como disse antes, a trajetória de Maria Rizolete é cheia de vida. Para esta edição, disponibilizo parte de minha entrevista realizada em 08 de junho de 2017. Nela, procurei compreender sua atuação nos grupos feministas que se formaram na capital potiguar, considerando que tinham como um de seus objetivos entrar em bairros e comunidades da cidade para estabelecerem uma rede de atuação mais dinâmica e que, de fato, constituísse a ideia de um movimento para além das discussões teóricas iniciadas na universidade. Localizando a/o leitora/o em relação aos grupos estudados em Natal/RN: 1978 - Centro da Mulher Natalense [CMN]; 1982 - Movimento Mulheres em Luta [MML]; 1982 - Federação das Mulheres do Rio Grande do Norte [FMRN]; 1984 - União das Mulheres de Natal [UMNa]; 1989 - Grupo Autônomo de Mulheres [GAM]).” Janaína Porto - A primeira pergunta que quero lhe fazer é como se organizavam os grupos nos bairros? Maria Rizolete Fernandes - Era o seguinte, Janaína [Porto], nós estávamos nos reunindo com os grupos: o pessoal da UNE, da universidade, dos estudantes, do DCE, da universidade, os professores da universidade, da associação dos sociólogos... Nós nos reuníamos por aqui e todas as pessoas, o pessoal da Pastoral da Juventude, enfim. E todo esse povo... Muitas dessas pessoas tinham contatos nos bairros, com alguém que conhecia alguém que era do bairro, que era do Conselho Comunitário, nós tínhamos também presidente do Conselho Comunitário que era quem participava dessas reuniões e aí foi fácil... Através desses contatos, alguém que conhecia o Presidente Comunitário, alguém conhecia gente de Clube de Mães e foi assim que a gente foi aos bairros. O que ficou especificado quando a gente fez o I Encontro da Mulher Natalense, foi em 1982... Que a gente foi aos bairros convidando as pessoas, né? Foi aos bairros, foi aos locais dessas entidades convidar todo mundo, e a partir daí os desdobramentos desses encontros foi justamente criar núcleos em alguns lugares onde as pessoas... as lideranças comunitárias eram mais engajadas. Foi assim que a gente chegou aos bairros. Janaína Porto - Como era a recepção dessas comunidades em relação às ideias que vocês trabalhavam? Maria Rizolete Fernandes - Bom, como elas já tinham um mínimo de conhecimento através de um dia inteiro discutindo aqui no encontro, né? Porque essas mulheres vieram e... De fato vieram participar do encontro, tanto é que a gente organizou creche para os meninos, quem tinha menino pequeno, deixar nas creches lá mesmo no encontro, alguém tomava conta das crianças nas creches e essas mulheres participaram, se dividiram em grupos, né, os grupos que você encontra no livro lá, é... Mulher e sociedade, mulher e política, mulher e, enfim, e aí essas mulheres participavam, escolhiam os grupos que queriam participar, mulher e saúde... Um dia inteiro assistindo discussões e propondo e opinando, porque dali se tiravam propostas políticas que a gente entregava as autoridades. Ao governo, ao prefeito, na câmara, na assembleia [...]. Janaína Porto - [...] o que dificultava essas mulheres nesses bairros a levar essas propostas à frente? [...] o movimento foi até essas mulheres nessas comunidades para fazer com que elas tivessem mais força para levar essas pautas a essas autoridades. Eu estou entendendo certo? Maria Rizolete Fernandes - [...] Foi sim. Porque dava consistência. Eram reivindicações também de caráter popular [...] Janaína Porto - [...] a gente tem uma tendência a achar que por estar num espaço que é a universidade, onde você tem contato com ideias, enfim, você está tendo contato com um fluxo de ideias que estão vindo de fora, né? [...] Maria Rizolete Fernandes - Sem dúvidas! Mas [...] não se esqueça que a gente está se referindo aos primeiros anos da década de 1980, nós estávamos, o primeiro grupo feminista criado aqui em Natal foi em 1979, foi o Centro da Mulher Natalense, de Rossana Sudário, né, [...] e esses que a gente começou a criar a partir de 1981, 82, as principais... Eu nem diria lideranças, era tudo muito inicial, as principais pessoas que continuavam trabalhando não tinham esse acúmulo. A gente tinha uma dificuldade, assim, de leituras. Era tudo muito novo para gente. Eu me lembro que a gente recorreu a alguns amigos nossos, homens, tinham mulheres, a professora Dalcy Cruz que hoje é aposentada, ela fez discussão conosco sobre essas questões. Mas a gente recorreu aos professores, aos meninos, aos homens da universidade para ajudar a gente ... Da universidade só, não, tinham sociólogos também. Dois sociólogos. Lincoln [Moraes de Souza] na época não era professor na universidade, Manu Duarte que foi... Manu era presidente do Conselho Comunitário de Candelária, deu muita força a gente. Manu sempre teve muito estudo. Então, a gente recorria, esse auxílio também dos homens, né? A gente tinha muita dificuldade, não tinha muita leitura, não. Ah, se fosse agora era muito bom! Janaína Porto - Fazendo uma pergunta um pouco mais específica em relação a essas feijoadas. Eu quero saber se você já sinalizou alguma coisa aí nesse sentido. Se os almoços foram pensados como forma de atrair as pessoas para esses encontros? Maria Rizolete Fernandes - Não digo que não, mas não era o principal, porque o objetivo era trazer as mulheres para discutir e elas sabiam. Tanto é que boa parte delas não sabiam que ia ser oferecido almoço. Creche... a gente acha que quando a gente foi convidar elas diziam “eu não posso ir porque não tenho com quem deixar meu menino”. Sabe? Daí a gente, não... a Senhora vai, por isso não! Vamos manter creche e tal, e aí a gente resolveu oferecer comida à essas mulheres, foi muito bom, né? Elas passavam o dia tranquilas, mas o objetivo primeiro não era esse. Eu acho que o que você tá captando aí é algo que, [...] a história lá do núcleo do conjunto Gramoré que a gente já tinha o núcleo formado e quando começou a prefeitura a distribuir leite nos bairros, aí a gente lá em conjunto Gramoré, inclusive a presidenta é uma das que morreu infelizmente agora, mas na época a gente... Foi um estalo que deu na gente e a prefeitura solicitar para distribuir através do núcleo, porque que aí sim, as mulheres tudo no dia da distribuição do leite, aí elas vinham trazendo de lá e a gente vinha pra cá para discutir. Pegávamos para discutir. Viu? Isso aconteceu! A gente fazia a distribuição e ah, mas isso é assistencialismo... não! O assistencialismo é da prefeitura. Nós estamos pegando isso aí como veículo... Janaína Porto - [...] quais eram as principais pautas discutidas quando vocês conseguiam fazer essas reuniões especificamente nos finais de semana? Maria Rizolete Fernandes - As principais eram: “Mulher e saúde” que elas pediam muito. “Mulher e creche”, elas queriam muito discutir, discussão de creche. “Mulher e trabalho”... Janaína Porto - Eram agendas bem divididas… Maria Rizolete Fernandes - “Mulher e política”. Foi, sim. Eram os temas mais solicitados. “Mulher e saúde”, “Mulher e creche”, “mulher e trabalho”, participação política da mulher. [...] Naquela época não se discutia tanto mulher e violência, embora a violência contra a mulher seja uma coisa discutida desde sempre… Janaína Porto - Verdade. Alguma pauta específica era voltada única e exclusivamente para a realidade dessas mulheres inseridas nesses bairros? Maria Rizolete Fernandes - Toda discussão nos bairros era ilustrada com as experiências das mulheres locais. Elas falavam da violência do marido, que batia, principalmente, se os maridos não estivessem, né? [...] Se fosse falar “Mulher e violência” com certeza aparecia alguma que tinha tido aquela experiência de ser... Da violência doméstica, né? “Mulher e saúde” elas também... “Mulher e sexualidade" também. Sexualidade era um tema que era mais difícil de introduzir… Janaína Porto - Tabu!? Maria Rizolete Fernandes - Principalmente porque tinham uns homens que iam com as mulheres. Se tivesse homem presente nem puxasse esse tema que elas ficavam todas caladas. Janaína Porto - Entendi. Vocês tentavam promover a discussão sobre a questão do aborto? Maria Rizolete Fernandes - Também. Também era um tema muito… Janaína Porto - ... Presente! Essas conversas... Depois desses encontros vocês conseguiram fazer, estruturar uma espécie de rede de informações diretamente com elas? Como é que ficava a... Como é que eu posso perguntar? Maria Rizolete Fernandes - ... A sequência desse trabalho? Janaína Porto - É, exatamente. Maria Rizolete Fernandes - Olha, isso foi a partir de 1982, 83, 84, 85, a sequência que teve aí foi... O que deu sequência a isso foi a criação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, porque quase todas nós estávamos nessas batalhas aí nós fomos parar nesse Conselho. E aí o que se fez foi a gente transferir essas pautas para o Conselho da Mulher e o Conselho deu sequência. E aí até com um pouco mais de estrutura, embora no começo o Conselho não tivesse nada e a gente fizesse o trabalho no nosso cargo, tirar do nosso bolso, mas o que deu sequência foi o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Naquela época tudo com gente muito comprometida. Era a Elizabeth Nasser, era a Joana Darc, ligada à saúde... E por aí vai! E aí a gente fez. O que foi o grande problema da continuidade? É que em 1989 nós ficamos no governo de Garibaldi. Foi em 1985... Em 1989 teve eleição, né? Não sei. Um ano a mais ou um ano menos. Mas aí mudou o prefeito e nós saímos do Conselho e perdeu-se tudo e nós não voltamos mais para aqueles grupos, quer dizer, eu não voltei. Porque o União de Mulheres continuou. Acho que ainda existe até hoje. Está mais atrelado ao pessoal do PC do B, né? Eveline [Guerra], Joana Darc. Elizabeth [Nasser]! Ela saiu de lá e criou um Grupo Autônomo de Mulheres que era para dar sequência a isso, embora esses grupos, nenhum mais retornou aos trabalhos nos bairros [...] *** “Como eu disse antes, essa entrevista teve um objetivo muito específico dentro de minha metodologia de pesquisa na construção de minha dissertação de mestrado. Muitos trechos foram suprimidos por motivos de adequação textual. No entanto, isso não significa omissão ou algo do tipo, significa que no trabalho com a história oral, o pesquisador/entrevistador decide a abordagem/técnica para desenvolver a escuta atenta que, após transcrição, se transforma em um novo formato: o texto. Em tempo, optei pela história oral temática. Considero importante informar que as estratégias adotadas por Rizolete e suas companheiras nem sempre foram homogêneas. Isso quer dizer que todas tinham e têm sua própria visão e testemunho desse passado de lutas. Neste momento, gostaria de mencionar o nome de Elizabeth Nasser. “Betinha”, como também era conhecida, teve um enorme significado dentro dos grupos que fizeram parte do movimento dessas mulheres. Além disso, devido a sua influência enquanto professora e militante nos bairros e meios populares, ela tinha uma fluidez nos espaços de discussão. Desta forma, não foi difícil pensar em um nome para a primeira representação oficial do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher [CMDM], criado em 1986, na gestão do então prefeito Garibaldi Alves. Elizabeth Nasser nos deixou em 16 de dezembro de 2020, vítima da COVID - 19. Elizabeth Nasser PRESENTE!” Janaína Porto RIZOLETE FERNANDES é do Rio Grande do Norte (RN) e reside em Natal. Formada em Ciências Sociais pela UFRN, milita nos movimentos sociais, feminista e poeta. Publicou seis livros, entre eles “Luas Nuas” (Una, 2006), “Vento da Tarde e Tecelãs” (Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2013 e 2017) de poesia, traduzidos para o espanhol. Participa de dezenas de coletâneas. Integra a UBE-RN, o ICOP – Instituto Cultural do Oeste Potiguar e o Coletivo Mulherio das Letras, através dos grupos locais Nísia Floresta e o Zila Mamede. JANAÍNA PORTO é nascida na Paraíba, mas desde os 6 anos vive na capital potiguar. Licenciada e Bacharela em História pela UFRN, Mestra em História & Espaços pelo Programa de Pós-Graduação em História/UFRN, professora substituta do Departamento de História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - UERN. É viciada em batom vermelho e acredita que a escrita é uma forma poderosa de se localizar no mundo. *Crédito das imagens: acervo pessoal da pesquisadora.

Mãos livres
Mãos livres

ADORMECIDA ( A DOR MERECIDA ) Lângela Monteiro* Coloco o dedo na ferida E envergonhada pergunto: Essa dor é merecida? Eles dizem: é culpa da bebida! Mas ela não estava lá nos primeiros anos de minha vida Quando o olhar malicioso percorreu todo meu corpo Aquele corpo de menina E eu tremi ouvindo “tudo bem, é uma menina libertina!” Lângela Monteiro - Mulher piauiense, apaixonada pelos livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí.Com medo toda vida. SEM TÍTULO Maria Helena Miranda* Não preciso de nada nem ninguém para aumentar minha solidão. Fico sozinha a sós. Não aguento mais. Dói muito viver não viver. 25 de março de 1983 Maria Helena Miranda – Quase 66anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. CAMINHADA Jeovânia P.* Ando com o coração em uma cesta de palha amarrada com um laço de fita vermelho muito bonita como caixa de presente Ando sem saber bem quando ou onde encontrarei o dono desse agrado Ando bem ciente de quem ele é só que por um motivo ou por outro meu passo anda o dele anda e ainda não nos alcançamos Ando com ele em mim ele anda comigo em si mesmo assim afastados mesmo assim unidos Ando com o coração em uma cesta de palha mesmo assim não sangra. Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras – Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras pela UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionara pelo edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para ser lançada pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras – A mulher que reluz em mim”. Atualmente, organiza a coletânea “O livro das Marias II”. COMO HOJE Maria Cristina Martins* Quando minha avó fez catorze anos teria de viver em outra cidade sozinha se quisesse continuar os estudos Sua mãe, minha bisavó não permitiu Tantos anos depois entendo como se fosse hoje fico triste como se fosse o dia em que tentei inscrevê-la num curso de português para terceira idade Ela pediu “minha filha, queria voltar a estudar” Só tinha vaga para culinária mas cozinhar era o que ela mais fazia nessa vida. Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. VONTADE Meire Martins* Uma vontade danada De te dar um abraço Desses que transpassa a pele e toca na alma. Uma vontade doida De te tascar um beijo Desses que tira o fôlego e inebria o coração. Uma vontade arretada De me atirar no teu colo e me deixar ficar o dia inteiro Desses que a gente quer que nunca mais termine. Uma vontade insana De sentir o calor do teu corpo Desses que se irradia em meu ser e aquece o meu desejo. Uma vontade imensa de estar com você Sentir teu afago e ser tua Completamente tua. Meire Martins nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas.

La Gringa: Tássia Paris
La Gringa: Tássia Paris

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa Pessoa, F. Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959. # nagringa # mulheresbrasileirasnoexterior “Ó mar salgado”... Ou como minha adolescência me tornou historiadora Tássia Fernandes Paris* Até meus treze anos, meu mundo era pequeno. Resumia-se à minha casa, em Natal, à escola e às férias em Olinda, na casa dos meus avós. Qual não foi meu choque ao descer de um avião, em um continente diferente, para residir na Cidade Invicta, no Porto, em Portugal. As pessoas falavam português, assim me diziam, mas eu não entendia nada. Como aquele poderia ser o mesmo idioma? Os cheiros, os sons, os costumes, as paisagens… Tudo diferente da tropicália em que fui criada até então. O frio dos ares temperados, e a cultura lusitana… Como poderíamos ser filhos de pai tão diferente? O estranhamento foi dando lugar ao fascínio, e o fascínio foi dando lugar à saudade. Saudade do mar tropical, dos coqueirais, da comida, mas, principalmente, da família. E como este novo ambiente me moldou? Com a História. Ao visitar mosteiros, castelos milenares, ao navegar em rios tantas vezes navegados... Ao se chegar às beiras do Tejo, as mesmas que embalaram as embarcações que cortaram os sete mares rumo às terras brasis, ao chegar lá todo brasileiro e toda brasileira se emociona. Rememora coisas que não viveu. E o fado passa a entrar no seu sangue também. A parte portucalense do seu ser grita em você. Há, inevitavelmente, o entendimento “do outro lado” da história: o lado do navegador português, do argonauta que se lança no oceano em um pedacinho de madeira e deixa noivas por casar. E foi justamente ao estudar, na disciplina de Português, esse poema de Pessoa que o coração finalmente abriu para esse discurso tão forte na identidade portuguesa: o discurso do descobridor. E, indubitavelmente, eram essas as disciplinas que me alimentavam a alma na adolescência: o estudo da literatura lusitana e o estudo da história. A viagem era garantida. Como não se projetar dentro dessas vidas, ao olhar, ao poder tocar rochas, ao pisar em ruas que têm milênios? Se ao perambular em um centro histórico o coração pulsar, se ao olhar um aqueduto romano, seu sangue acelerar, você foi fisgado por Clio, não há hipótese. Sim, havia momentos de saudade, palavra tão portuguesa, tão brasileira também. Sim, infelizmente havia xenofobia, o ser humano pode ser cruel em todas as culturas e idiomas existentes. Porém, havia muita beleza. Havia muito amor, amizades e risadas. E havia a história. E havia Fernando Pessoa, Camões, Gil Vicente, Florbela Espanca... Havia muitos monumentos a percorrer, histórias a imaginar, vidas a projetar em si. E como não escolher a história como profissão? Se ao olhar o horizonte eu só podia pensar: quantos pés pisaram esse caminho? Quantos navios zarparam desse porto? Quantas vinhas floresceram nesse chão? A temporalidade sempre presente na imaginação. E assim se fez mais uma historiadora, mais uma persecutora dos tempos idos, do que é findo. Espero nunca mudar esse meu percurso. *Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda em história pela Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – pesquisadoras em rede, membra do grupo de estudos feministas Dandara dos Palmares, membra do Grupo de Trabalho Africanidades. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro, cinco cachorros e um porco da índia, fora os peixes.

Cartas ao espelho #amorpróprio
Cartas ao espelho #amorpróprio

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 8ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Transluza Gente, hoje eu vim falar sobre amor próprio. Mas não aquele amor próprio pra postar nas redes sociais, só para aparecer e fingir que está bem. Não um amor egóico. Aquele amor próprio MESMO. Verdadeiro, humano, puro, humilde e genuíno. Uma luz que cultivamos lá dentro de nós, e que jogamos para dentro, e para fora. De se olhar no espelho, e se valorizar, saber reconhecer seus valores, qualidades, e aquilo que não souberam e >>não quiseram<< valorizar, admirar. Sobre cuidar de você mesma, se preservar de determinadas situações, ser feliz em seu próprio cantinho, universo, e fazer dele querido e especial. Sobre não permitir mais que te machuquem ao ponto de te fazer perder o prumo, os eixos, a sua identidade e a sua origem, nem acreditar que você é uma pessoa indigna de que lhe façam companhia, sejam fiéis, te amem, e fiquem - e desejem ficar - para sempre com você. Eu sofri tanto no meu antigo relacionamento. Não pelas dores, desafios, brigas. Isso era o de menos, porque isso faz parte de todo relacionamento. Mas pelo abandono, pela indiferença. Pela falta de amor! Amor esse que é uma construção, longa, dura, árdua, difícil. De batalhas, sofrimentos, conquistas, vitórias. Vencemos tanta coisa juntos. Coisas inimagináveis. Se soubessem da missa a metade do que eu vivi e fiz por ele, jamais iriam acreditar. Daria um livro. No final, fiquei só. Fui deixada. Fui esquecida num estalar de dedos. Como se jamais tivesse conhecido essa pessoa. É assustador. É traumatizante. Às vezes achamos que vamos enlouquecer. Fiquei completamente perdida, sem entender nada. Nadando no vazio sem sair do lugar. Perdida nos confins mais profundos dos sentimentos e pensamentos. Parece que de uma hora pra outra, tudo virou um pesadelo. De todo o mal que possamos ter sofrido, nada, absolutamente nada é comparável ao abandono. Pois quando se ama não desiste. Ainda mais, tendo vivido tantas infinitas coisas, extremamente difíceis, e tendo superado. Depois de tudo que fiz por ele e ainda vinha fazendo. Estávamos na melhor fase do nosso relacionamento! Até hoje não entendi o porquê. E aí me peguei arrumando coisas em casa, e dentre elas achei esse presente que tinha dado pra ele. E pensei em mandar no frete para o endereço em que ele está, assim como fiz com as coisas dele depois de 1 mês ele tendo sumido. Mas mudei de ideia. E resolvi ficar. Resolvi transformar esse coração no meu amor próprio. Amor esse, que diante da conjuntura, se fez tão necessário, mais do que nunca. Independente dos motivos, e do que passamos na vida, ninguém pode ter o poder de lhe tirar isso. Nada justifica. Então, hoje, aprendi que a única pessoa que eu não posso tirar da cabeça, sou eu mesma! Pois a vida me ensinou, que a força da mulher (trans, cis, negra, branca, indígena, umbandista, católica, seja qual for a condição) está no amor próprio. Pois os homens são literalmente, capazes de lhe destroçar em mil pedaços quando querem. Pois não tenho dúvidas que o que eu passei foi machismo. E isso é algo que todas nós sofremos. E esse abandono, é algo que eu já sofri a vida inteira! Eu já sofri tanto nessa vida! Cansei de sofrer! Cansei do machismo! Para ele mais, não derramo nem >>uma<< gota de lágrima. Então levanta a poeira mulher, seja qual você for. Porque ninguém tem o direito de lhe arrancar a vontade de viver, o amor próprio, e a felicidade! escrito por: Mulher trans, em constante transição. Transformação. Transigência e transmutação. Trans"formem"-se! Transluza! Vi FF* Legenda: fotos da autora do texto no evento realizado no Teatro Oscar Niemeyer, em que a mesma recitou outro texto de sua autoria: "Espelhos" . *Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catologação da Rádio Nacional. Entrou inicialmente para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, à qual atualmente é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, é artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e especialmente no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e principalmente no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e atualmente faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.

Respeita Nossa História: Itália Fausta
Respeita Nossa História: Itália Fausta

Por Flavia Veras* "Para a maioria dos comentaristas da época, Itália Fausta foi a grande dama do teatro brasileiro da sua época, e um dos mais generosos temperamentos trágicos que o nosso teatro já teve, capaz de interpretar com êxito alguns dos grandes papéis que consagraram Eleonora Duse e Sarah Bernhardt. O marasmo em que o teatro brasileiro se encontrava durante o auge de sua carreira, o predomínio de um repertório medíocre, do qual só poucas vezes ela conseguiu fugir, e a virtual ausência de diretores dispostos a abrir caminhos rumo à modernidade cênica impediram-na de concretizar plenamente as potencialidades de excepcional trajetória de intérprete a que a sua privilegiada inteligência, sensibilidade, cultura e abertura para o novo a teriam predestinado numa época mais recente. Mas o seu prestígio de atriz conferiu-lhe uma ascendência sobre seus colegas mais jovens e sobre a opinião pública, de que ela se serviu sistematicamente, através de lúcidos depoimentos públicos, entrevistas, etc., preconizando a necessidade da criação de um teatro diferente daquele que o panorama em que viveu a condicionou, na maioria das vezes, a fazer" MICHALSKI, Yan. Fausta Polloni é o nome de registro da talentosa atriz de família italiana, Itália Fausta. Nascida em São Paulo em 1878, foi uma grande artista tanto por seu trabalho no processo de renovação do teatro brasileiro, quanto por seu papel de militante anarquista e líder sindical da Casa dos Artistas, tendo feito importantes contribuições na luta pelos direitos das mulheres do teatro. Ela começou sua carreira ainda criança como artista amadora em São Paulo, mas ganhou espaço e o gosto do público a ponto de ser reconhecida como uma dama do teatro brasileiro. Contudo, a carreira profissional iniciou efetivamente em 1906 quando excursionou pelo Brasil em companhia de artistas portugueses, inclusive, indo para Lisboa em 1913. Voltou para o Brasil no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1917), da qual o Brasil participou após ter navios mercantes bombardeados. Para driblar os problemas econômicos e as dificuldades de fazer teatro no contexto da pandemia de gripe espanhola em 1918 criou-se o Teatro da Natureza, que consistia na encenação de peças ao ar livre. Eram realizadas no Campo de Santana e criou empregos para os artistas, que viviam momentos difíceis devido à conjuntura histórica. No primeiro quarto do século XX, em parte devido à forte influência italiana, se destacou como atriz em um contexto que se falava em “fundar o teatro nacional”, ao mesmo tempo em que se buscavam referências estrangeiras. Itália Fausta, em um período de pouco financiamento público para a área cultural, protagonizou a importante Companhia Dramática do Estado de São Paulo, com incentivo do Conservatório Dramático de São Paulo. Em 1917, fez uma turnê ao Rio de Janeiro com o drama “Ré Misteriosa”, que de tão exitosa fez com que a atriz permanecesse definitivamente na então capital, com a “Companhia Dramática Nacional”, posteriormente chamada de Companhia Itália Fausta. Itália Fausta também se dedicou ao teatro operário nos anos 1910-1920. De cunho notadamente anarquista, por vezes se confundiu com as revistas, por fazer críticas sociais, explorando a nudez e os temas do cotidiano. Estas peças utilizavam as técnicas habituais do teatro como a apoteose, as danças e as músicas para colocar os temas que desejavam tratar: O teatro foi escolhido para a pregação e difusão de um ideário social de libertação, às vezes anticlerical, que de um lado, pelo caráter político de suas atividades teatrais; e de outro pela simples busca do conhecimento, fez o operariado refletir sobre manifestações populares e descobrir problemas básicos de sua existência de classe (CABRAL, 2008, 77 – 84). No sentido da construção do teatro moderno brasileiro, Itália Fausta participou de iniciativas como o Teatro de Brinquedo, de Eugênia e Álvaro Moreira, nos anos 1920, e do Teatro do Estudante do Brasil (TEB), de Pascoal Carlos Magno, nos anos 1930. Também trabalhou com personalidades reconhecidas do teatro moderno como Maria Della Costa e Ziembinski. Itália Fausta conectou a luta pelo teatro com suas expectativas por uma sociedade mais justa. Ela ocupou o cargo de presidenta da Casa dos Artistas, o sindicato dos artistas, entre 1935 e 1936. A questão da mulher artista foi levantada com muito vigor como ficou registrado no Anuário Teatral da Casa dos Artistas, em 1938. Como ex-presidente ela assinou a matéria “A vida da mulher que trabalha em teatro” tratando sobre a mulher artista, na qual discute os desafios da profissão e as intercessões entre o trabalho doméstico, o teatro e a criação dos filhos. Essa matéria também versava sobre a necessidade de toda a companhia ser equipada com um guarda-roupa que possibilitasse as artistas de não terem gastos incompatíveis com seus cachês na compra de roupas para atuação. A mulher de teatro trabalha mais de oito horas por dia, sempre mais que em qualquer outra profissão. Em geral ensaia de uma às cinco. Volta para o teatro às sete horas, trabalha até meia noite e, muitas vezes, ensaia até a madrugada. Aos domingos e feriados, enquanto os demais profissionais descansam, ela trabalha, e se os diaristas recebem seus honorários dobrados, os artistas trabalham de graça, sem pagamento algum pelas horas extras de serviço. Em teatro ninguém goza das regalias da lei de férias... Por enquanto, as leis trabalhistas têm trazido muito pouco benefício à gente de teatro. Requer, talvez, fiscalização melhor, outra regulamentação. Um dos problemas difíceis para a mulher é seu vestuário. Não se suporta mais uma atriz modestamente vestida. A artista, com encargo de família, não pode representar certas peças por falta de roupas caras. Os contratos deveriam fixar um terço do ordenado para a compra de roupas, correndo o excedente por conta das empresas. Quando existirem em todo Brasil teatros populares, funcionando regularmente com companhias nacionais, estará resolvido o problema do teatro nacional. Então, em todas as classes surgirão elementos artísticos e ser atriz deixará de ser uma profissão singular para tornar-se uma profissão comum, acessível a todas as mulheres que se sentirem atraídas pela mais bela e mais humana de todas as artes. (Itália Fausta, 1938) No final da década de 1940 confrontou o empresário Vital de Castro contra sua intenção de transformar o Teatro Fênix em um cinema. Essa era uma prática comum, tendo em vista as dificuldades de arregimentar o público teatral, mas que afetava diretamente as companhias teatrais e os artistas. Ela convocou os artistas a ocupar os camarins com cama e mesa, o que foi um escândalo, mas garantiu a permanência da companhia em atividade e o funcionamento (como teatro) do Teatro Fênix. Com uma vida de muitas lutas, projetos, sonhos e criatividade, após uma turnê pelo norte do Brasil em 1951, Itália Fausta morreu em sua casa em Santa Teresa no Rio de Janeiro, aos 73 anos, deixando uma contribuição enorme para o estudo da história do teatro no Brasil. Saiba Mais Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1937. “Casa dos Artistas a sua fundação”. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. Anuário da Casa dos Artistas (RJ), 1938. “A vida da mulher que trabalha em teatro” por Itália Fausta. Disponível no arquivo da Biblioteca Nacional. CABRAL, Michelle Nascimento. Teatro Anarquista, Futebol e Propaganda: tensões e contradições no âmbito do lazer. Rio de Janeiro, 2008. Dissertação (Mestrado em História) Universidade Federal do Rio de Janeiro. MICHALSKI, Yan. Itália Fausta. In:_________. PEQUENA Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq. Rio de Janeiro, 1989. VERAS, Flavia. Tablado e Palanque – A formação da categoria profissional dos artistas no Rio de Janeiro (1918 – 1945). Saarbrücken: Novas Edições acadêmicas, 2014. VERAS, Flavia. “Fábricas da Alegria”: o mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1918 – 1945). Tese (Doutorado em História, Política e Bens Culturais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2017. Imagem: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349575/italia-fausta *Flavia Veras é editora da Revista MFM, membro do LEHMT-UFRJ e professora de ensino básico.

Tá rolando ...
Tá rolando ...

1.Okun Ayó “Mulheres da Nação Zamberacatu” Okun Ayó que significa “Mar de Alegria” é o projeto formado pelas mulheres da Nação Zamberacatu, primeira Nação de maracatu do estado do Rio Grande do Norte, que realiza saídas oficiais independentes no carnaval da cidade de Natal e é a responsável pelos festejos de 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, na cidade. O grupo surgiu em 2018, com o intuito de fortalecer a força feminina na percussão e no movimento cultural e afro religioso de Natal, carrega este nome em homenagem a Rainha Iracema Albuquerque, Okun Ayó, primeira matriarca da Nação Zamberacatu, trazendo a alegria e a força das águas em um batuque só de mulheres! Após lançarem o Documentário “Okun Ayó: Um Mar de Alegria” que conta a trajetória da Rainha Iracema, no último dia 26 de março de 2021, a Okun Ayó lançou seu primeiro material áudio-visual, no vídeo performance o grupo apresenta suas primeiras composições, homenageando várias mulheres negras que são referências para o movimento feminino da cidade e saudando Iemanjá, orixá patrona do grupo. O material foi produzido com recursos da Lei Aldir Blanc, através da Secretaria de Cultura do Estado do RN, Fundação José Augusto e estará disponível até o dia 6 de abril de 2021 no canal da Nação Zamberacatu no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=3GQAOUSMZHk) e no igtv do instagram: @naçaozamberacatu 2. Projeto Mãe Canguru Solo (Natal/RN) O “Mãe canguru solo” é uma iniciativa idealizada e realizada pela pedagoga e mãe solo Elane Mara Cunha Carvalho em parceria com o seu Espaço “Casa de tia - lugar de brincar!”. O projeto é voltado para mães solos moradoras da cidade de Natal/RN, ou regiões próximas, que necessitam trabalhar e/ ou estudar (inclusive em dias como sábados) e não tem uma rede de apoio para deixar as suas crianças. Nesse sentido, o projeto visa oferecer day use no Espaço “Casa de tia - lugar de brincar!” cobrando um valor simbólico ou proporcionando isenção do valor, a depender das condições sociais das mães. Além disso, o projeto visa reunir essas mulheres em uma comunidade destinada a trocar experiências, situações, alegrias e cansaços por meio de um grupo de whatsapp e, ainda, produzir conteúdos de forma remota que poderá ser acompanhado nas redes sociais por mulheres que não residem na cidade mencionada e mediações. Mais informações: Instagram @casadetia 3. Livro Carolinas: a nova geração de escritoras negras brasileiras (editora Bazar do Tempo) “Carolinas - a nova geração de escritoras negras brasileiras” é um livro da editora Bazar do tempo em parceria com a Festa Literária das Periferias, edição 2020 (@fluprj) , organizada por Julio Ludemir, fundador da Flup, junto com Ecio Salles (a quem o livro é dedicado), e diretor atual do projeto, que completa 10 anos de atividades em 2021. A edição da FLUP 2020 homenageou a escritora Carolina Maria de Jesus e os 60 anos da publicação de seu livro “Quarto de despejo” (1960). O livro “Carolinas” reúne textos de 180 mulheres, participantes das oficinas de escrita ao longo de 2020, inspiradas em Carolina Maria de Jesus, sob orientação de nomes como Eliana Alves Cruz, Ana Paula Lisboa, Itamar Vieira Junior, Milena Britto, Eduardo Coelho e Fred Coelho. O resultado é um conjunto de textos que surpreende pela diversidade e riqueza de temas, vocabulários e estilos. Escritoras que chegam para deixar a sua marca na literatura brasileira, seguindo a linha matricial de Carolina. O lançamento do livro será em abril de 2021. Maiores informações: instagram @bazardotempo e @flup 4. Festival Meu BB O Festival Meu BB está premiando performances artísticas musicais maternas. O Festival, que vê na arte e na maternidade formas potentes de resistência, sobretudo em tempos pandêmicos, está selecionando e premiando as performances, que serão selecionadas através de um júri artístico e um júri popular. O Festival, idealizado por Míriam Struz e Nanda Piovanelli, moradoras do Rio de Janeiro, selecionará 18 artistas, que receberão prêmios em dinheiro. Aprovado na Lei Aldir Blanc e lançado no dia 8 de março de 2021, o Festival pode ser conferido em www.instagram.com/festivalmeubb . Lá você pode se inscrever para participar ou indicar alguma mana. Ah, vale lembrar que as participantes podem ser de todo o país. Corre lá! 5. Livro: Exercícios Físicos - Lorena Grisi Exercícios físicos é o primeiro livro de poemas da soteropolitana Lorena Grisi e está sendo publicado pela Editora Paralelo13S. O livro reúne poemas escritos nos últimos oito anos, trazendo uma variedade de formas (haicais, poemas em prosa), construídos num ritmo acelerado de frases longas, pouco pontuadas, que geram uma poesia de fluxo de consciência imparável, caótica, sem freio. Temas como o feminino e o tempo circundam aquela que é a imagem mais cara à poeta: o corpo, que aparece neste livro de forma material, pouco abstrata, numa racionalidade atenta às suas forças, potencialidades e fragilidades. O corpo é tudo de que dispomos, mas ele nos engana. É nossa casa e nossa falha, dando às ideias um campo físico em que elas podem se realizar ou se frustrar. Como no poema em prosa Exercícios físicos, que intitula o livro, no qual Lorena Grisi conversa com um interlocutor: “Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo”. O livro está em pré-venda no site da Livraria Boto Cor-de-Rosa, vinculada à Editora Paralelo13S, em valor promocional por tempo limitado: https://www.livrariabotocorderosa.com/loja/produto/exercicios-fisicos/ Vale a pena conferir!! 6. Nós versus eles, uma dramaturgia de Ana Clara Veras Nós versus eles é uma dramaturgia escrita pela artista Ana Clara Veras. A obra nasceu das tamanhas inquietações e angústias da autora que seguiram, principalmente, após a leitura do livro "Quarto de Despejo", da Carolina Maria de Jesus, e do livro "Buraquinhos ou O Vento é Inimigo de Picumã", de Jhonny Salaberg. Inicialmente, a ideia era uma proposta cênica para as ruas, dentro de uma cabana furada. Porém, devido a pandemia do COVID19, os formatos tornaram-se remotos e essa foi a sua nova proposta cênica. A peça teatral apresenta através de uma brecha: uma vida. Essa vida que são tantas. Uma mulher atravessada pelo anseio, por receitas de internet e principalmente: fome. No repertório musical da dramaturgia, constam as músicas de "De Frente pro Crime" (de Aldir Blanc / João Bosco / Vinícius) e "Valsa para a Lua" (de Victor Araújo) e traz um mix de linguagens artísticas que unem dança, teatro, canto e audiovisual. A equipe técnica da obra é composta por Helena Saltoris e Maxwell Pablo. Este projeto foi contemplado e fomentado com recursos da Lei Aldir Blanc, Fundação José Augusto, Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal. Através do EDITAL N. 02/2020 – FJA de Diversidade sócio-humana. A obra pode ser conferida em: https://www.youtube.com/watch?v=b2nezNvNHBM Quer divulgar algum trabalho, produção, publicação, feita por mulheres brasileiras e estrangeiras, na coluna Tá rolando... ? Mande um e-mail para mulheresfm@gmail.com com título "Divulgação na coluna Tá rolando..." que divulgaremos o seu trabalho em nossa revista.

Ensaios: pandemia, mulheres e mercado de trabalho, por Regina Prado
Ensaios: pandemia, mulheres e mercado de trabalho, por Regina Prado

Mulheres são as maiores vítimas da pandemia no mercado de trabalho Análise feita por economistas sobre os dois últimos trimestres da PNAD/IBGE forma um retrato da sobrecarga feminina, da maior perda de postos de trabalho e da difícil reconquista de vagas por causa da crise econômica e sanitária que assola o país Resumo de relatório feito por Regina Prado* Em termos gerais, toda a população sofre com as consequências do isolamento social e da quarentena impostos pela pandemia, mas nem todos com a mesma intensidade. Números da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) revelam uma desigual distribuição dos danos causados pelo vírus. As mulheres representam quase a metade dos chefes de família no Brasil (49,5%) e dependem muitas vezes de diversos apoios para poderem exercer seus ofícios, seja na contratação de outra mulher, doméstica, seja na existência de creches e escolas onde possam deixar seus filhos. Toda a rede de apoio está comprometida pelo isolamento social e a mulher, mesmo que deseje ou necessite, não consegue voltar ao mercado de trabalho. Na desigualdade de gênero estrutural, ela ganha menos que o homem, disputa as vagas menos qualificadas no mercado e quando há crise são as primeiras a perder postos de trabalho. O que a PNAD de 2020 mostra até agora é que esta conhecida desvantagem se escancarou com a situação atípica de pandemia. Estas são algumas das conclusões de economistas do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP, que acompanha as oscilações do mercado de trabalho feminino a partir dos microdados do IBGE. Descobriram, por exemplo, que o número de homens que alegam não poder trabalhar por causa dos afazeres domésticos vem diminuindo trimestre a trimestre, abaixando de 552 mil para 524 mil no segundo trimestre, e chegando a 497 mil homens no terceiro trimestre de 2020. Mesmo que na prática o casal se encontre em situação de igual quarentena e isolamento social sem escola para as crianças, esta resposta foi dada por apenas 1,8% dos homens. Enquanto as mulheres que declararam estar impedidas de trabalhar por causa dos afazeres domésticos somam mais de 13 milhões, principal motivo para não estarem no mercado de trabalho (26,3%). Esta sobrecarga e a responsabilidade pelos cuidados domésticos afetaram mulheres desempregadas e também aquelas que exercem ocupações e têm diferentes níveis de renda. “De certa forma, este é um dado que demonstra também o que já sabemos sobre a sobrecarga das mulheres. Sejam mulheres em home office, sejam mulheres com trabalhos fora de casa ou procurando por trabalho, ainda é a mulher quem está cuidando de todos da casa”, segundo a professora Daniela Gorayeb, economista e uma das autoras do estudo. Ela acrescenta ainda que os dados da PNAD com relação ao desemprego já são preocupantes, mas que poderiam ser vistos de uma forma ainda mais dramática. Em parte porque acabam trazendo uma subnotificação do desemprego por causa da ocorrência do trabalho informal. “Aquele bico, por exemplo, figura como uma ocupação nas estatísticas, bastando trabalhar uma hora na semana. Então a realidade é mais dramática do que as pessoas imaginam. Sabemos que o IBGE precisa seguir um padrão utilizado em outros países, mas acabamos tendo uma visão limitada da realidade porque nosso mercado de trabalho é majoritariamente informal e precário. O que sabemos também é que nessa escala de trabalhadores com ocupações de menor renda e precárias se encontram mais mulheres que homens, e em último lugar a mulher negra.” Na pandemia, as mulheres foram, mais uma vez, as primeiras a perder os postos de trabalho e são a maioria dos trabalhadores que desejariam trabalhar, mas não estão disponíveis para assumir uma função (chamado tecnicamente de Força de Trabalho Potencial). Entra nesta preocupante realidade o grande número de trabalhadores desalentados, que são aqueles que procuraram trabalho por muito tempo e desistiram, seja pela dificuldade de encontrar uma oportunidade ou por que, sem renda, não conseguem arcar com os custos da busca, do transporte ou da internet, por exemplo. E também entram nessa categoria as pessoas que desejam trabalhar mas estão em uma situação que as tornam indisponíveis para assumir algumas ofertas de trabalho. Como já dito, os afazeres domésticos são o principal motivo para essa indisponibilidade das mulheres. Desde o começo do ano, 9 milhões de pessoas haviam saído do mercado de trabalho e o terceiro trimestre da PNAD mostra um pequeno retorno, mas muito revelador. Retornaram 418 mil pessoas, sendo 380 mil homens e apenas 37 mil mulheres. Esse pequeno número de pessoas que conseguiram retornar à força de trabalho no terceiro trimestre representa 5% daquelas que saíram da força de trabalho desde o início do ano. Para as mulheres, o cenário é ainda mais dramático, pois menos de 1% daquelas que perderam suas ocupações, tiveram a oportunidade de voltar a trabalhar ou até mesmo de voltar a procurar trabalho. Para as economistas autoras deste estudo, na pandemia, as alterações de trimestre a trimestre não foram marginais como normalmente ocorre, configurando uma espécie de quebra estrutural do mercado de trabalho. “Isso porque milhões de pessoas saíram da força de trabalho apoiadas pela presença do auxílio emergencial e o retorno dessas pessoas ao mercado de trabalho, mesmo com o fim do auxílio, não está assegurada pois muitas vagas de trabalho ou atividades produtivas já não existem mais.” “O auxílio emergencial teve um impacto muito significativo no orçamento das famílias de baixa renda e pôde garantir atividades produtivas em várias localidades. Com o fim do auxílio, parte dessas atividades também deixam de ser viáveis economicamente e mais uma onda de eliminação de vagas de trabalho pode ocorrer”, acredita Daniela. A redução do valor emergencial e o fim dele (anunciados no último mês do trimestre, setembro) estão forçando as pessoas a voltar a buscar trabalho e já se nota o aumento do número de mulheres desocupadas. Grande parcela delas, que trabalhava no setor de serviços, por exemplo, não está reencontrando as vagas anteriores, porque é um setor que no terceiro trimestre estava parcialmente ocioso, ou voltava a funcionar timidamente ou simplesmente deixou de existir. As ocupações de cozinheiras, garçonetes, limpeza, salões de beleza estão entre aqueles postos de trabalho que foram destruídos durante a crise sanitária. Muitos estabelecimentos foram fechados ou estão operando com alto nível de ociosidade (seja pelo baixo volume de vendas, seja pelas limitações sanitárias de funcionamento) Esse aumento da taxa de desocupação para as mulheres deve-se mais a esta perda dos postos de trabalho em relação ao 2º trimestre (774 mil mulheres deixaram a categoria Ocupadas), uma taxa de desocupação recorde de 16,8% da força de trabalho, quatro pontos percentuais a mais que os homens (12,8%), mas com a ressalva de que eles haviam perdido menos postos que elas anteriormente, 489 mil. “O emprego formal continua caindo, tanto para homens como para mulheres, e no quarto trimestre a expectativa é que haverá uma explosão de tudo isso, quando mais gente passará a procurar trabalho por causa do fim do auxílio”, acredita a economista Juliana Filleti, outra autora do estudo. A recuperação econômica ainda é muito lenta e não acontece no ritmo desta necessidade de volta das pessoas ao mercado de trabalho. Durante a pandemia o que se notou foi uma maior variação no mercado de trabalho menos qualificado. No caso das domésticas, principal ocupação de milhões de trabalhadoras no país (as empregadas domésticas sem carteira representam 8,6% das mulheres ocupadas), já se registra a falta de demanda, seja por crises econômicas que nasceram no rastro da pandemia nas famílias, seja pelo isolamento social. Muitas trabalhadoras que dependiam de creches e escolas para os filhos não têm esta opção nesse momento e ainda não sabem quando terão, para poder efetivamente se candidatar ao emprego anterior ou qualquer outra ocupação no mercado formal de trabalho. Considerando o período de um ano (2019-2020) as posições da ocupação de emprego doméstico tiveram uma redução de 1,6 milhão de postos de trabalho para as mulheres (1,2 milhão sem carteira e 404 mil com carteira), contra uma redução de 45 mil vagas para os homens (25 mil com carteira e 20 mil sem carteira). Quadro preocupante Apesar de que existem alguns sinais de recuperação do nível de atividade econômica, com PIB oficial de 7,7% no terceiro trimestre, a possibilidade de retorno é mais tímida para as mulheres. Os níveis de taxa de Desocupação e de Subutilização da Força de Trabalho mais elevados para as mulheres se ampliaram nesse período crítico do país e são evidências de uma inserção mais precária no mercado de trabalho. Além disso, o retorno das mulheres para a força de trabalho no terceiro trimestre pode ser considerado pífio, principalmente levando em conta a grande saída delas do mercado de trabalho nos primeiros meses da pandemia. Segundo aponta o estudo do NPEGen, o país apresentou recordes históricos nas taxas de Desocupação e de Subutilização, em comparação aos dados a partir do 1º trimestre de 2012, início das medições da PNAD Contínua. Nos dados da Força de Trabalho Potencial (FTP) – uma parte da população fora da força de trabalho mas com potencial para se tornar força de trabalho e que são classificadas como Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento na PNAD – as mulheres continuam sendo a ampla maioria (59% da FTP, 63% das Pessoas Indisponíveis e 54,3% das Pessoas em Desalento). O aumento neste período de pessoas nessa situação é gigantesco, em especial para as mulheres, que passam a somar 7,6 milhões (um aumento de 60,8% com relação ao ano anterior). A Força de Trabalho Potencial masculina também apresenta forte aumento (66,6%), mas o número de homens nessa situação é bem menor do que o de mulheres (5,3 milhões de homens). Na questão da renda no 3º trimestre de 2020, os brasileiros obtiveram, em média, um rendimento de R$ 2.553,6, mas se mantiveram as grandes desigualdades por sexo, cor ou raça. O maior rendimento médio foi o de homens brancos ou amarelos (R$ 3.687,4) e o menor, das mulheres indígenas e pretas ou pardas (R$ 1.596,3 e R$ 1.652,7, respectivamente). As mulheres indígenas apresentam o menor rendimento médio da população, equivalente a 62,5% do rendimento médio do Brasil. Elas são seguidas pelas mulheres pretas/pardas (64,7%) e depois por homens pretos/pardos (78,1%). No outro extremo, situam-se os homens brancos/amarelos, com rendimento equivalente a 144,4% do rendimento médio do país, sendo seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (113,2%), um retrato incontestável da desigualdade no Brasil. Apesar de alarmantes informações, o 3º trimestre de 2020 ainda não captou os efeitos da redução pela metade do auxílio emergencial e é possível que, nos meses finais do ano, as taxas de desocupação e subutilização batam um novo recorde porque devem captar o retorno à busca de trabalho de muitas pessoas que ficarão incapacitadas de sustentar suas famílias sem esse importante apoio financeiro. A dramaticidade das condições de trabalho e de formas de obtenção de rendimentos pelas mulheres tende ainda a aumentar para os próximos períodos se medidas compensatórias urgentes não forem implementadas no Brasil. *Regina Prado é jornalista assessora da Facamp, com passagens por SOS Racisme e Reporteros sin Fronteras, em Barcelona, Espanha. Formada pela PUC São Paulo, trabalhou em TVs, jornais e revistas, e é co-autora do livro "Helio Lourenço: Vida e Legado", pela EDUSP, entre outras obras. Contato para imprensa How Comunicação Regina Prado regina.prado@howcomunicacao.com.br (16) 99620.6444 Acesso ao relatório completo: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen/boletim-mulheres-no-mercado-de-trabalho-terceiro-trimestre-de-2020/ FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP:npegen@facamp.com.br BOLETIM MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO EXPEDIENTE: Pesquisadoras: Camila Veneo Campos Fonseca; Daniela Salomão Gorayeb; Georgia Christ Sarris; Juliana de Paula Filleti; Juliana Pinto de Moura Cajueiro; Maria Fernanda Cardoso de Melo e Tatiana de Amorim Maranhão. Como citar este Boletim: NPEGen. Mulheres no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 03, novembro de 2020. Imagem da capa: PETRA ERIKSSON / EPS