Edição 7

Entrevista com Andréa Casa Nova Maia: em torno de História Oral, pandemia e engajamento
Entrevista com Andréa Casa Nova Maia: em torno de História Oral, pandemia e engajamento

Andréa Casa Nova Maia possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1996), mestrado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999) e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (2002). Pós-doutorado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Coordenadora da Área de História do Brasil do Instituto de História (2018-2020) e professora de História do Brasil Republicano e História da Arte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história oral, história cultural, história das cidades, história do brasil contemporâneo e história da arte. É Presidente da Associação Brasileira de História Oral (Gestão 2020-2022) e foi vice-presidente da Associação Internacional de História Oral (IOHA) entre 2014-2016. Essa entrevista foi feita por chamada de vídeo no final de 2020. Optamos por deixar, na transcrição, as marcas de oralidade da conversa. MFM (Flávia R. Veras): Agradeço, em nome de todas as editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, sua disponibilidade para essa entrevista. Temos algumas perguntas sobre os mundos do trabalho e as lutas sociais contemporâneas. Queremos pensar, com você, a questão docente, a pandemia e, também, o seu trabalho super reconhecido no campo da História Oral. MFM: A gente queria começar perguntando como você enxerga a relação entre história, historiografia e militância, como você pensa as relações entre engajamento político e intervenção pública do historiador e da historiadora. Andréa Casa Nova Maia: Eu construí minha militância como historiadora oralista. Desde que eu comecei a estudar, ainda na graduação em história - antes de me tornar professora e fazer minha carreira acadêmica - eu comecei pensando as possibilidades de uma história oral engajada. A história oral me colocou no mundo da política. Ela me mostrou que eu fazia história não só para pegar um diploma, mas para tentar transformar a sociedade. O historiador oralista trabalha muito com movimentos sociais, com movimento popular, com as pessoas simples, com as classes subalternas. No primeiro período [da graduação] eu comecei a pensar em fazer um projeto de pesquisa, e eu já tinha essa ideia de pensar a partir de um engajamento político. Vou contar como descobri a história oral. Eu tinha um amigo... [eu tinha 15 anos eu nem estava pensando em fazer história, talvez eu já pensasse um pouquinho por causa da 5ª série, lá mesmo no início da minha formação. Eu lembro que quando eu tinha 11 anos a minha mãe me deu aquele livro História da riqueza do homem[1] do Leo Huberman[2] e aí eu fiquei muito impressionada com aquilo. Ela pediu nas férias para eu “fichar” e eu nem sabia que era fazer fichamento, tinha só 11 anos. Mas eu fiquei lendo aquilo e descobri tanta coisa, por exemplo, crianças trabalhando nas fábricas, toda aquela questão de maus-tratos desde a época medieval. Enfim, tudo aquilo que o Leo Huberman trazia no livro antiquíssimo dele que já era um clássico]. Eu ainda estava fazendo um curso técnico patologia clínica, não tinha nada a ver com humanas, quando eu conheci o Juliano Spyer[3], através do pessoal da família - ele era sobrinho de um grande amigo do meu padrasto e estava fazendo história na USP. Fui visitá-lo em uma ocasião, um pouquinho antes de entrar na universidade. Ele estava fazendo uma pesquisa de História Oral para o José Carlos Sebe Bom Meihy[4]. Era um estudo sobre a Carolina de Jesus[5]. A ideia era reconstruir a trajetória de Carolina de Jesus a partir dos familiares que ainda estavam vivos na época. Ele me falou que sua pesquisa seria feita a partir de História Oral e foi me mostrando os projetos e contando a história da Carolina de Jesus. Eu fiquei impressionada com a história dessa mulher simples, favelada, que vendeu mais livros que Jorge Amado nos anos 70, que tem esse texto diário chamado "Quarto de despejo" que conta a realidade social do povo naquele momento histórico e político. Naquela mesma semana que eu passei hospedada na casa dele eu assisti uma aula de História do Brasil Contemporâneo na USP. Era o Sebe que estava dando uma aula sobre os "anos de chumbo", sobre o projeto Brasil Nunca Mais[6] com os relatos das pessoas que foram torturadas e ele passou um filme, Que bom te ver viva[7]. Eu tinha 16 anos e aquilo me marcou profundamente. A partir dali, nós começamos a discutir os relatos de tortura sofrida pelas mulheres que eram militantes na época da ditadura brasileira e aquilo me deixou completamente transtornada. Eu até tinha alguma ideia sobre o período ditatorial, porque meus pais são professores universitários, e minha mãe atuou na militância na época da juventude, já como professora. Eu conhecia um pouco essa história, mas não tinha noção do que tinha sido a tortura no Brasil. Aquelas imagens, aqueles relatos de mulheres sendo torturadas de maneira tão cruel, aquilo me deixou completamente transtornada e pensando na necessidade de se contar essas e outras histórias. Quando voltei para Belo Horizonte, fui prestar o vestibular na UFMG e já pensei: vou fazer história e quero trabalhar com História Oral. Eu quero desvendar o mundo. Waldir, meu avozinho torto, já era senhor de idade. Ele era o pai do meu padrasto e tinha sido operário em uma mina de ouro de propriedade dos ingleses em Nova Lima, que é uma cidadezinha mineradora próxima de Belo Horizonte. Eu ouvia aquelas histórias do Senhor Waldir, ele contava todo domingo as histórias das relações de trabalho, sobre como os ingleses tratavam os mineiros, como eram as relações de poder e de dominação dentro da mina... E pensando também na época de Vargas, que foi uma descoberta para mim já no curso de história. Pensar esse período de formação da classe operária brasileira e de conquista/ regulações/ concessões de direitos trabalhistas. Eu fiquei muito interessada em saber do cotidiano dos trabalhadores. Então, eu cheguei na História Oral pela questão da história e o engajamento político veio naturalmente. Como eu sou filha de professores universitários, eu sempre participava dos eventos acadêmicos. Eu ia para a assembleia dos professores, eu lembro que pequenininha eu estava na reunião do pessoal do sindicato de docentes, depois a gente teve toda uma luta pelas “Diretas já”. Não era só o “eu quero votar para presidente”, porque eu não tinha ideia, mas eu tinha muito essa coisa do voto para reitor, da luta pela liberdade. Eu lembro dos congressos da SBPC[8] que a minha mãe ia e me levava junto. Eu fui criada nesse ambiente propício à militância, em uma universidade pública e batalhando pela qualidade. Foi por aí o início dessa trajetória. MFM - É interessante como nossas vivências quando crianças nos levam a construir um certo modo de interpretação do mundo… Sua resposta relaciona-se com a segunda que eu teria para fazer, que é sobre as novas conjunturas do mundo do trabalho, mais especificamente sobre as perdas de direitos, a flexibilização, a informatização. Como você enxerga as possibilidades de luta e de organização dos trabalhadores dentro dessas novas conformações? Andréa Casa Nova Maia - Olha, é interessante, porque eu acho que a gente teve nos últimos anos a entrada no neoliberalismo no Brasil e no mundo inteiro, esse processo de flexibilização das leis trabalhistas, e no caso do Brasil a coisa foi mais pesada porque nós tivemos logo depois do impeachment um governo acabando com a CLT (embora eles tenham chamado de "reforma trabalhista", foi uma destruição da CLT). Eu vejo que, no mundo inteiro, os sindicatos ficaram muito enfraquecidos, a luta tradicional ficou enfraquecida, por causa justamente da dificuldade de você armar, por exemplo, um chão de fábrica para fazer uma greve… Enfim, tem uma série de questões trazidas por essa flexibilização das leis que desmontaram o mundo do trabalho. E, paralelamente a isso, um discurso muito complicado de empreendedorismo, no caso sobretudo destes trabalhadores que agora não têm mais vínculo empregatício, que agora são chamados de colaboradores, eles não são mais trabalhadores, agora são “colaboradores”, são “empreendedores” e isso é muito difícil de combater. O que me dá esperança, sobretudo no caso brasileiro, são movimentos que já estão se articulando, inclusive internacionalmente. Sobretudo na América Latina, eu vejo um papel ainda muito grande das organizações internacionais do trabalho, que de certa forma dão conta de pensar as problemáticas, claro que temos uma singularidade no caso brasileiro, mas o que está acontecendo é um movimento do capitalismo no mundo inteiro. A gente tem sempre que pensar de uma maneira transnacional, global. No caso específico do Brasil, eu tenho muita esperança em determinados movimentos ainda que muito fragmentados, sobretudo desses grupos que estão se articulando contra isso, e eu me lembro muito do Galo, aquele rapaz que está liderando o movimento dos entregadores dos aplicativos, Ifood, Rappi etc... É um movimento que eu acho muito rico e eu gosto muito de recuperar a fala dele, porque ele coloca pra gente que ainda é possível pensar diferente. Porque eles estão lutando por direitos quando falam que a gente nem devia mais estar lutando por isso. A gente está precisando lutar por coisas que a gente perdeu. Por exemplo: a própria carteira de trabalho, o mínimo de seguridade para trabalhar, porque estes rapazes que estão atuando como entregadores, muitas vezes, antes, têm que comprar o próprio equipamento. Tudo eles mesmos têm que fazer, como se fossem realmente donos. O uberista, o dono do carro, eles não têm direito a nada. Então eles trabalham de manhã e de noite para levar um dinheiro para casa, se eles sofrem algum acidente eles não têm cobertura nenhuma, eles são mais um carrinho no aplicativo chegando, indo. Recentemente, fiz uma palestra em que usei um filme muito bom, o inglês Você não estava aqui, de 2019. A direção é do Ken Loach. Tem dois filmes desse mesmo diretor, que encenam as relações de trabalho no mundo, sobretudo na Inglaterra. Um aborda mais a aposentadoria, a questão dos direitos do idoso: Eu, Daniel Blake. E esse Você não estava aqui, que ele fez depois, é justamente sobre esse processo de precarização: o cara perde o emprego, é chamado para ser colaborador em uma dessas empresas de entrega, só que depois a vida dele vira um inferno. Ele é assaltado, tem que pagar tudo, tem que pagar pela máquina. Tem que chegar cedo e voltar tarde, enfim, tem que cumprir uma série de metas e a vida dele vira um inferno. Eu citei esse filme para dizer o seguinte: apesar de toda a desesperança que pode surgir, de todo esse processo de desmonte do Estado de bem estar-social, ou de um Estado mediando as relações entre capital e trabalho, eu acho que toda essa transformação que nós estamos vivendo nos deixa muito abalados, eu pelo menos sinto um pessimismo, uma coisa que parece que não tem saída. Mas, ao mesmo tempo, quando eu vejo esses movimentos, como o próprio Break dos apps, que foram esses dois momentos de paralisação das atividades, de tentativa de mobilização da categoria, que são os entregadores antifascistas. Depois outros movimentos que a gente vê na cidade, apesar da pandemia, apesar de tudo que está acontecendo e da necessidade de a gente ficar quieto, às vezes não tem como segurar, as pessoas vão para a rua. Ainda vão para a rua, ainda fazem manifestação, elas arriscam até ficar doentes para poder trabalhar. Porque eles não pararam de trabalhar, sobretudo essas categorias do trabalho informal permaneceram e sofreram muito com a pandemia. Então, quando elas reivindicam, estão reivindicando porque já estão na rua também, porque elas já estão vivenciando isso de certa forma. MFM: Falando especificamente sobre professores e professoras, você fez uma pesquisa sobre as professoras da UFMG. Eu lembro que algumas vezes nós chegamos a falar sobre isso… A gente queria saber um pouco como essas transformações, que aparecem no mundo do trabalho como um todo, são sentidas tanto pelos docentes como pelos alunos das universidades públicas que, agora, estão com esse desafio de ensino remoto… desafios esses que também passam pelo corpo dos professores, com as novas adaptações, novas formas de se fazer reunião, de se fazer processo seletivo. Como essas coisas estão sendo resolvidas? Andréa Casa Nova Maia: Olha, nós estamos passando por um momento absolutamente novo. Tudo para a gente está sendo uma novidade. Mas já dá para ter uma noção de um processo muito complicado que é da exploração do trabalho docente universitário, do trabalho do professorado, né? Porque todo mundo está esgotado. Ao mesmo tempo em que teve muita gente que não dominava tecnologia, não dominava o tipo de trabalho remoto… Essas plataformas todas, né? Google sala de aula, google meet, zoom, etc. A gente teve, então, que descobrir como se manipulava essas ferramentas, fazendo isso em situações... se bem que os professores, a maioria têm acesso a computador, têm internet, mas, no caso dos alunos está complicadíssimo, porque tem muita gente que compartilha equipamentos, que não tem espaço em casa. Eu, por exemplo, estou aqui falando com você e meus filhos estão em outro cômodo. Pelo menos tem mais de um cômodo na casa, então dá pra dividir um pouco. Mas isso atrapalha muito a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. Então, o que eu percebi é que os professores, muitos professores já vinham de um processo de degradação cíclica, antes da pandemia, por conta de um excesso de trabalho e uma falta de valorização do trabalho docente. Não só no nível federal, mas nos níveis estadual e municipal. Professores com salários extremamente achatados, né? Trabalhando com várias turmas e enfrentando uma barra pesadíssima com essa flexibilização das leis e todo esse processo. Então já havia o tal do chamado burnout acontecendo. Estafa nervosa e vários problemas psicológicos acontecendo antes da pandemia. Com a pandemia, eu acho que piorou essa situação. A gente teve que descobrir como cuidar de filho, estudar com os filhos, botar os meninos no computador também pra fazer as atividades remotas da escola deles… Eu vejo, daqui de casa, mesmo que eu pague ensino privado para eles, como esses professores estão exaustos, porque a tela parece que suga a gente. Eu tive que preparar cursos remotos, então tive que gravar aulas no youtube… Eu mesma falando e mostrando coisas... Depois, tive as atividades síncronas, que era quando eu encontrava com o pessoal. Eu senti logo dificuldades com a bibliografia mais tradicional, que os alunos iam à biblioteca consultar e que agora não teriam mais acesso. Então, eu tive que pensar em um jeito de fazer essa leitura chegar. Porque eu pensei: “poxa, como é que eu vou fazer esse menino ler no celular uns textos maiores, menores, que eu trabalhava na minha disciplina?”. Então, tive que pensar numa saída pra isso. A minha ideia foi fazer um programa de podcast… Junto com a Karla Carloni, da UFF, fiz uma série de entrevistas com a bibliografia do curso sobre o Brasil Republicano. Então eu peguei aqueles historiadores mais clássicos de história, (história) política sobretudo, e fui entrevistando com a Karla para poder passar para os alunos assistirem como um complemento, um material complementar para a disciplina. E é óbvio que isso não resolve, mas ajudou muito. Porque muitos não tinham acesso à leitura, não podiam ficar lendo no computador, até porque tem gente de qualquer idade, de qualquer jeito, trabalhando, porque as pessoas não pararam de fazer... Então, a gente vê que foi um desafio, é um desafio, e às vezes dá certo. Por exemplo, eu adorei o curso. No final, deu tudo certo! Esse podcast realmente ajudou bastante, as aulas no youtube também. Então, o curso foi legal. Mas eu fiquei exausta, até porque a gente não parou de participar de banca de mestrado e de doutorado, porque eu atuo na pós-graduação, não parei de trabalhar nenhum minuto, participando de banca, coordenando, organizando livro, enfim, trabalhando, varrendo casa, botando roupa pra lavar, fazendo faxina e cuidando de bicho. Então foi muito, muito estressante. Está sendo, porque eu acho que ainda é muito cedo para falar em um “pós-pandemia”. Se a gente já está tendo uma segunda onda (e aqui no Brasil, com a falta de cuidado, com o relaxamento dos protocolos, eu creio que em breve nós teremos uma segunda onda). Então, eu que ainda estou em casa… Você sai na rua, tem gente sem máscara… então é um pouco isso. MFM: O podcast e o canal do youtube estão abertos para o público em geral? Andréa Casa Nova Maia: Estão completamente abertos. É só você colocar no google: IMAM-BR podcast[9]. Na Anchor, no Spotify, nesses aplicativos de escutas, de programas de podcast você tem acesso. E também está na página, no site do grupo de pesquisa que é IMAM, Laboratório de Imagem, Memória, Arte e Metrópole (https://imam.historia.ufrj.br/), você também tem acesso a todas as entrevistas que a gente fez. MFM: Vamos colocar um link na entrevista para dar acesso a quem quiser ver... Andréa Casa Nova Maia: Ficou muito rico! Tem muita gente, inclusive, dos grupos em que eu participo, que está me dando notícias: “nossa! Eu usei o podcast pro meu curso, está sendo ótimo, aprendemos à beça”. Então, o trabalho valeu a pena. Teve também um livro que está saindo agora, que eu organizei com a minha mãe, porque, no início da pandemia, eu achei que eu fosse ficar louca. Assim… que eu ia ficar só varrendo casa, cuidando de menino, que eu não ia mais produzir nada, que eu não ia mais fazer reflexão... Aí eu resolvi organizar um livro e tive a ideia de pedir para a minha mãe me ajudar. É o livro Arquivo Pandemia[10]. Então, nós fomos ao longo dos meses de abril, maio, até mais ou menos meados de maio, convidando pessoas para escreverem sobre o cotidiano da pandemia. Intelectuais, artistas… O que houvesse de registro, memórias dessa pandemia. Só que o negócio ficou muito bom e muito grande, e aí a gente falou “poxa!” E não acabava… Então comecei a contatar pessoas, porque muita gente me procurou e disse: “Naquela época que você me convidou, eu não tinha condição. Eu estava completamente presa em casa, angustiada, não tinha o que fazer. Mas, agora, eu quero”! Então, teve um segundo volume… A gente acabou coordenando 150 autores, uma coletânea imensa. Cada um tem mais ou menos 500 páginas, então são 2 volumes do Arquivo Pandemia, que vai ser lançado agora, no próximo mês. E o pessoal está perguntando, “não vai ter terceiro volume”? Eu falei, gente, se eu fizer um terceiro volume, acho que vou morrer porque a burocracia de pegar carta de direito autoral, mandar pra editora… A editora retornava, mandava para cada autor… Foi um trabalho muito maior do que imaginei inicialmente, fiquei encarregada de tudo, praticamente, da edição. E agora nós vamos lançar. Mas foi um trabalho que acabou ficando muito interessante... Teve um desdobramento… Em razão de minha trajetória com a metodologia de História Oral, com o tema da memória, fui convidada por Ana Carolina Maciel para ser uma das curadoras de um projeto sobre a pandemia, que é o Memórias Covid-19[11]. É uma plataforma da Unicamp que está funcionando um pouco como uma “cápsula do tempo” para se pensar a pandemia. Então, você pode mandar textos, imagens, crônicas, áudios, o que você quiser/tiver de documento de sua vida cotidiana sobre a experiência da pandemia. Um projeto muito legal. Ano passado, eu tinha me reunido com o grupo de pesquisa que coordeno, o IMAM, pra gente pensar um livro que fosse um pouco o resultado de nossos debates. Convidei uma série de participantes do grupo, inclusive alunos da pós-graduação (e até de graduação) para escrever. Vi que muitas pesquisas estavam pensando mulheres, então pensei em fazer esse recorte do feminino, pensar esses cristais de memória e história de mulheres nos arquivos do tempo. Então, muita gente que eu tinha convidado na ocasião abandonou o projeto, em razão da dificuldade de produção e escrita em meio à pandemia. Convidei novas pessoas para participar do livro e consegui fechar. O livro sairá pela Editora Telha (o ebook) - e o impresso, se tudo der certo, no dia 8 de março de 2021, aproveitando as comemorações de nossas lutas. Tem texto sobre mulheres de todas as cores, gerações, profissões, ficou muito amplo. MFM: Queria que a gente voltasse a falar um pouco de História Oral e da dinâmica das redes. Essas novas fontes, fontes digitais, têm um impacto muito forte na História do Tempo Presente... Inclusive lançando luz sobre novos sujeitos, sujeitos populares, subalternos. Agora, como nova presidente nacional da Associação Brasileira de História Oral, gostaria que você falasse um pouco dessa relação da História Oral com as redes sociais. Quais são as novas possibilidades para a historiografia, em geral, e para a História Oral, em particular? Andréa Casa Nova Maia: eu acho que são novas possibilidades e novos desafios… Porque entrevistar indígenas, quilombolas, que têm pouco acesso à tecnologia, é complicado. Já era complicado com o uso do gravador. Agora, com a utilização de chamada de vídeo, fica mais complicado ainda. Por outro lado, esses grupos também estão desenvolvendo o uso dessas novas tecnologias… Mas precisamos pensar a técnica envolvida nesse processo… Isso, inclusive, foi o que lancei de desafio no meu discurso de posse na presidência da ABHO, na semana passada, no Encontro Nacional de História Oral, que foi totalmente virtual e que deveria ter acontecido em Belém do Pará… Eu penso que estamos, agora, construindo um arsenal de discussão sobre como, por exemplo, fazer História Oral em tempos de pandemia. Muitos de meus alunos estão preocupados, já que não podem ir a campo e têm que entrevistar guaranis, têm que entrevistar mulheres idosas, grupos que são mais vulneráveis... É muito complicado, porque o historiador oralista sempre buscou o encontro presencial - como sendo, inclusive, uma parte fundamental para você criar uma empatia com seu interlocutor, ouvir... tem toda a gestualidade do encontro, troca de olhares, tudo isso se perde quando você faz uma entrevista remota, pelo telefone ou mesmo por vídeo… O encontro não é tão rico quanto seria se fosse presencial… Por outro lado, no momento de sucateamento das verbas para ensino e pesquisa nas universidades, e em todos os âmbitos de ensino... No momento em que o governo corta verbas e tira bolsas de formação dos mestrandos, dos doutorandos, não precisar viajar para ir a campo pode ser interessante - se você, de fato, conseguir a entrevista por outros meios. Não é o ambiente ideal, nunca substituirá completamente o encontro presencial (como eu também acredito que o ensino presencial jamais será substituído pelo ensino a distância ou por qualquer tentativa de alguma coisa híbrida… Porque isso que temos feito também não é ensino a distância… Podemos chamar de atividade remota, encontro virtual, mas nunca vai substituir a aula presencial. O afeto, o encontro, a bagunça da sala de aula a gente não consegue reproduzir). Da mesma forma, a gente vai ter que pensar como fazer História Oral sem a presença do outro, ou com uma presença remota. Essa discussão ainda não está feita. E o papel em que eu me coloquei lá na Associação Brasileira de História Oral era justamente pensar nesse movimento de História Oral [porque não vejo a História Oral como técnica, metodologia ou disciplina... Para mim História Oral é um movimento, como Mercedes Vilanova[12] falava… é um locus interdisciplinar federativo, como fala Sebe, porque encontra-se pessoas de várias áreas, não só da história… Pessoas das ciências duras, da medicina, da engenharia, da física, da enfermagem, do meio ambiente, da biologia, gente de todo lugar, que se encontra através da História Oral…] Na História Oral, a gente tem movimentos sociais lutando pelo direito à própria história, à própria memória. Tem instituições, claro, museus, arquivos... mas eu vejo que a História Oral tem um papel muito forte de resistência dessas populações que estão se afirmando, querendo se afirmar, agora. Inclusive na política, como a gente viu no resultado das eleições de ontem. Nós tivemos uma votação expressiva em mulheres, em mulheres negras, em mulheres trans, então a gente teve uma possibilidade de reverter um pouco a destruição da nossa democracia. Apesar de que, obviamente, a gente ainda tem uma presença muito forte de parlamentares e vereadores de extremo reacionarismo, de extremo conservadorismo, nós também conseguimos grandes vitórias com a eleição dessas mulheres e dessas pessoas que entraram. Então, da mesma forma, eu vejo que a História Oral trabalha junto com essa turma. O que eu estou falando? Eu acho que História Oral permite o encontro desse outro e traz as vozes - a gente antigamente falava que era “dar voz aos excluídos''. Não! Os excluídos têm voz! A gente não dá voz, eles têm voz. E eles estão falando, eles estão gritando. E o papel do pesquisador, do historiador, sobretudo do historiador que usa a metodologia da História Oral, é justamente o de amplificar essa voz ao máximo. Então, é um pouco nesse sentido que a gente vai ter que ver muito bem como fazer isso. Porque os próprios movimentos sociais… Eu tenho até um artigo com a professora Regina Helena Alves da Silva da UFMG, na Revista de História Oral, no qual a gente trabalhou com ativismos contemporâneos e pensou dois movimentos: o Renovar a Moraria, em Portugal, Lisboa, e o Ocupa Estelita, no Recife. E aí o que a gente percebeu ao analisar esses dois movimentos de ocupação e de associativismo contemporâneo, foi justamente que eles estão se utilizando das redes, do youtube, das mídias sociais, do facebook, do Instagram e de todos esses aplicativos que estão circulando, para construir a sua memória e para contar sua história, eles mesmos constroem grandes arquivos do próprio movimento. Então, é interessante a História Oral pensar um pouco no facebook, no youtube, sobretudo no youtube, como um grande arquivo de memória desses movimentos. Eu vejo um pouco por aí um alcance e a face positiva dessas novas tecnologias e desses novos espaços de armazenamento de imagens e vozes. MFM- Pois é, a grande questão é o quanto os agentes e lugares de poder estão mais ou menos dispostos a ouvir essas vozes. Tem também um trabalho seu que vai muito nesse sentido, de colocar a academia como um lugar (de poder) para ouvir e ressoar as histórias desses grupos. Estou falando de uma coletânea que você organizou em 2018, História Oral: direito à cidade, paisagens urbanas, narrativas e memórias sociais[13], que é composta por textos que resgatam a experiência de grupos pouco visíveis, como é o caso das pessoas trans, do skate como arte, do pixo, das pessoas que vivem em remoção. Eu queria que você falasse um pouco para a gente como foi a seleção desses textos, como se deu a produção deste trabalho. Andréa Casa Nova Maia: Esse trabalho surgiu a partir de um convite da Junielle Rabello, da UFF, para organizar uma discussão sobre História Oral e cidade. Como eu já estava trabalhando com essa questão, eu fiz um pós-doutorado sobre a ocupação do espaço urbano pela prática do skateboard. Eu pensei em organizar esse livro e colocar primeiro essa produção do meu pós-doutorado, e aí comecei a pensar em quem eu poderia chamar do Brasil inteiro e até de fora do Brasil que estivesse pensando essas questões. E aí fui contatando... contatei a Regina Helena, que já era minha parceira nesse e em outros projetos, ela já tinha sido minha professora, eu sabia que ela trabalhava com o espaço urbano, ela trabalhou muito também com a questão da mídia. Inclusive, atua - não sei se vai continuar atuando, porque se aposentou – no Programa de Pós-Graduação não só da História, mas também da Comunicação Social da UFMG, e ela tinha feito um trabalho na Finlândia. Um trabalho muito interessante de desenvolvimento de uma metodologia de percepção urbana através da memória de uma idosa e da neta dessa idosa passeando pela cidade e percebendo, fazendo uma leitura sensorial da paisagem urbana, de duas gerações distintas conversando entre si. Inkeri Aula, que era uma professora de lá, da Finlândia. Então eu falei: “poxa, eu vou pedir [um texto] porque eu acho que é importante a gente também ter um debate metodológico sobre essa relação entre cidade e História Oral”. E, também, eu sabia de um trabalho muito interessante que estava sendo feito pelo Antônio Carlos Montysuma com uma orientanda dele, sobre uma História Oral das praias de Florianópolis, numa comparação com o pessoal lá de Veneza, também pensando um pouco sobre as relações de poder na praia… e aí convidei. E fui convidando assim, fui sabendo de coisas, de pessoas que estavam fazendo pesquisas que eu achava interessante, [pessoas que estavam] mexendo com patrimônio, quilombo... Então eu chamei a Denise Pirani, que é antropóloga, para falar sobre uma comunidade quilombola lá de Belo Horizonte, Minas Gerais, o pessoal do pixo... Eu consegui o contato de um rapaz que tinha feito uma dissertação de mestrado sobre o pixo e o convidei. Fui convidando assim, no sentido da pluralidade de temas, que abarcasse o direito à cidade. A grande questão era essa! Então, pensar a ocupação, pensar remoção, historicamente, a partir da memória, da História Oral, mas sempre nessa perspectiva. Os processos de gentrificação, os processos, também, que acho muito interessantes e ricos, que as próprias comunidades fazem, por exemplo, como o trabalho da Lise Sedrez e da orientanda da Natasha Barbosa, em que elas fizeram uma discussão sobre o mutirão de reflorestamento que teve no morro da Babilônia. Como aquela comunidade se mobilizou para reconstruir o morro, para reflorestar e construir hortas comunitárias, toda uma discussão da história ambiental. Tem discussão sobre trans, em que você (Flávia Veras) entrevistou a Dani Balbi[14]. Tem discussão sobre mineradoras… Eu convidei um francês, Philippe Urvoy, e uma angolana, Hanane Idihia, que fizeram um trabalho super legal sobre regiões de mineração que foram de grande importância numa determinada época e, agora, tem outra realidade, na cidade de São Pedro da Cova (Portugal) e uma cidade na fronteira com a Bélgica, no norte da França... Enfim, foi uma coisa assim, foi acontecendo. MFM: Tem algumas perguntas aqui, além dessas, mas que foram, de alguma forma, respondidas: uma delas abordava o tema da vivência na pandemia sendo mãe, professora, pesquisadora, autora, militante, sindicalista e tudo mais… Sobre isso, você já nos falou um pouquinho; a outra seria para você falar um pouco sobre o Laboratório IMAM, que de alguma forma já apareceu também; e a última pergunta seria se você poderia dar algum spoiler sobre o livro que será lançado. Eu acho que talvez a gente pudesse responder essas perguntas em bloco, se você quiser acrescentar mais alguma coisa. Andréa Casa Nova Maia: Com relação à pandemia, estou completamente angustiada e espero que a vacina chegue logo para a gente conseguir voltar para rua. A rua é o grande lugar de conflito, é o grande lugar de construção da história. Em segundo lugar, o laboratório é isso, a gente continuou trabalhando muito; e um dos resultados desse projeto do laboratório foi justamente o livro que mencionei, Recorte do feminino[15]. Foi montado assim bem na correria, muita gente desistiu, eu tive que convidar outras pessoas, mas ficou muito legal. Para ser bem rápida, tem um trabalho muito bonito do Maurício Zouein (um dos associados do laboratório) sobre as imagens fotográficas de mulheres indígenas sob o olhar do colonizador… Ele chamou de Resistência do corpo, é um trabalho muito bonito… Depois, eu e minha bolsista de iniciação científica, continuou Suzana Vieira, como coautora, pensando Artêmis, que é aquele mito da deusa caçadora. Fizemos um exercício metodológico a partir de algumas imagens que aparecem em duas revistas que eu estou comparando num projeto maior... Tem a Karla Carloni, da UFF, falando da imprensa como arma, Conflito de gênero no Rio de Janeiro na década de 1920. Depois, tem o Tiradentes de Carmem Santos, um trabalho sobre a grande cineasta Carmem Santos, que pensa Inconfidência Mineira e a monumentalização da história… Luiz Costa escreveu para gente, ele é meu orientando (tem gente que já é pesquisador associado, que já é doutor, e os que estão terminando o doutorado, fazendo mestrado). Outra orientanda, a Camila, terminou de fazer o mestrado e fez um trabalho sobre os padrões de beleza e a indústria cosmética na imprensa brasileira nos anos 1940, em Últimos recursos de Eva, que é título do trabalho dela que está muito bom. A Rita Lages foi minha colega de graduação, professora de Belas Artes da UFMG e fez um trabalho muito legal, Outras histórias no mundo das artes: pensando as mulheres artistas, questões de gênero e história das artes em Belo Horizonte nos anos 40 e nos anos 60; o Carlos Eduardo Pinto de Pinto (professor da UERJ e também associado de nosso laboratório) fez uma discussão belíssima sobre a Carmem Miranda em Refrações da Embaixatriz do samba: a persona de Carmem Miranda em chanchadas brasileiras no início dos anos 1950. Luciene Carris, que é minha parceira (já publicamos e organizamos muitos livros juntas) fez um trabalho sobre a representação feminina no fotojornalismo brasileiro, pensando a trajetória de uma grande fotojornalista daqui do Rio de Janeiro... A Michele Caetano, que é minha orientanda também, fez um trabalho sobre o filme Foxy Brown, pensando a mulher no cinema da blackexploitation, uma discussão sobre esse grande paradoxo entre o sexismo e feminismo dos anos 1970. A Andrea Queiroz (historiadora e diretora do Centro de Memória da UFRJ) fez um trabalho belíssimo sobre as historiadoras contra a Ditadura Civil Militar… Ela trabalhou com duas, mas é surpresa, não posso falar muito, mas tenho certeza que vocês vão gostar muito. Raquel Barreto fez um trabalho lindo sobre Lélia Gonçalves, Uma intérprete negra do Brasil; Maria Paula Nascimento, que tem um trabalho maravilhoso, fez um projeto chamado Vozes de Antígona. Ela pegou os testemunhos das mães de vítimas da violência de Estado no contexto já democrático do Rio de Janeiro, é um texto de História Oral muito interessante. Fabiane Popinigis e a Cristiana Schettini fizeram um trabalho (para não perder minha relação com o mundo do trabalho) sobre história do trabalho em perspectiva de gênero e história social no Brasil, vai ser um texto importante para balizar os estudos de gênero em relação à história social do trabalho. Beatriz Lemos (também minha orientanda), fez um trabalho sobre a revista de mulheres a presença da mulher e o protagonismo dessas mulheres na assembleia constituinte entre 1986-1988; tem a Ingrid Gomes, trabalhando com atuação das mulheres na preservação da cultura e memória periférica do século XX; Luzimar Soares Bernardo (historiadora e aeromoça) fez um trabalho sobre a ideia de uma cultura de objetificação do corpo feminino na profissão de comissário de vôo no Brasil repubicano; a Bruna Couto (orientanda de doutorado) trabalha com as mulheres do samba fez uma trajetória da Dorina e o seu olhar sobre as mulheres do samba contemporâneo; e, para fechar, chamei a Dinah de Oliveira, que é uma super professora, curadora e psicanalista das Belas Artes, para pensar alguns trabalhos de arte de artistas mulheres contemporâneas, que ficou com o título bem sugestivo Como preencher fissuras assumindo espaços vazios. Fiz o resumo do sumário para vocês ficarem com vontade... último projeto que estou fazendo! MFM: E com certeza a gente recomenda!! Andrea, muito obrigada, em nome das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Andréa Casa Nova Maia: Muito obrigada, Mulheres do Fim do Mundo, a luta continua companheiras! [1] HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. [2] Leo Huberman (1903 – 1968) foi um estudioso de economia política e história econômica dos Estados Unidos e ligado a movimentos políticos de esquerda. [3] Juliano Spyer é doutor pelo Programa de Antropologia Digital da University College London. Faz parte do Global Social Media Impact Study, financiado pelo European Research Council. É autor do livro Conectado - o que a Internet fez com você e o que você pode fazer com ela (Jorge Zahar, 2007) e Mídias Sociais no Brasil Emergente (Educ, 2018). Ver: https://www.cafehistoria.com.br/author/juliano-spyer/ [4] José Carlos Sebe Bom Meihy é professor do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Letras e Ciências Humanas, da Universidade do Grande Rio. É professor aposentado do Departamento de História da Universidade de São Paulo. [5] Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) foi uma escritora, compositora e poetisa brasileira, conhecida por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960. Carolina de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes escritoras do país. [6] Ver: http://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/ [7] O filme aborda a tortura durante o período de ditadura civil-militar no Brasil, mostrando como suas vítimas sobreviveram e como encaram aqueles anos de violência duas décadas depois. Ver:http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=ID=023009&format=detailed.pft [8] Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. [9] Site do laboratório e acesso ao podcast: https://imam.historia.ufrj.br/ [10] Link para acesso ao livro: http://mestrados.uemg.br/noticias-ppgartes/3970-arquivo-pandemia-editora-ufmg [11] Para acessar a plataforma deste projeto: https://memoriascovid19.unicamp.br/?fbclid=IwAR3l80DAOZVoNJcicAey_y71k7ecl5i4dR4td-ZGM4SRHv1x3xms5FFZsGE [12] Mercedes Vilanova Ribas é uma historiadora espanhola. Fundou a revista Historia y Fuente Oral e presidiu a Associação Internacional de História Oral. [13] Sobre o livro: https://ppghis.historia.ufrj.br/livros/historia-oral-cidade/ [14] Parte dessa entrevista com a professora e ativista Dani Balbi foi publicada na quarta edição da MFM: https://www.mulheresdofimdomundo.com/post/entrevista-com-dani-balbi [15] Recortes do feminino: Cristais de Memória e História de Mulheres nos Arquivos do Tempo é o livro mencionado, que será publicado pela Editora Telha. Tem apresentação de Marta Mega de Andrade e Introdução de Andréa Casa Nova Maia. Conta com a colaboração de 17 professore(a)s e pesquisadore(a)s. A historiadora Michelle Perrot escreveu certa vez que, “no teatro da memória, as mulheres eram sombras tênues”. Segunda Casa Nova, o objetivo do livro é contribuir para transfomar essa imagem espectral: “mostrar mulheres-vaga-lumes, que mesmo nas sombras, surgem, emitindo sua luz”.

"La Gringa": Lidia V Santos
"La Gringa": Lidia V Santos

Lembranças de Getúlio* Por Lidia V Santos** No dia em que enterraram Carmen Miranda, ela, depois de ter passado toda a manhã na fila do velório, havia seguido pela Cinelândia até à Praça Paris. De lá alcançara a amurada da avenida Beira-Mar e estivera muitas horas olhando a baía. Assim contara à Isaura, de quem era mais íntima. Nós somente a vimos passar quando saiu de casa, bem antes do meio-dia. Trajava-se de acordo, a roupa escura, Luzia lembrava ser um vestido cinza-chumbo, a mim me parece que seria um costume azul-marinho, mas a Vanda jura que ela, naquela manhã, usava uma negra saia justa que costumava levar nossos homens à loucura. Concordamos quanto ao tom fechado do tecido ressaltar-lhe a pele clara e os fartos cabelos castanhos. Lembramos também de como voltara apressada no fim da tarde. Isaura, vizinha contígua, refaz, ainda hoje, aquela rotina: tinha de estar em casa pelo menos uma hora antes de que o marido chegasse, pra dar tempo de limpar os sapatos e recolocá-los no lugar. Uma pessoa não pode suportar essa agonia, ainda reafirma a Isaura, tantos anos passados. Eram vizinhas de parede e meia, podia saber melhor do que nós. Eu, Luzia e Vanda apenas presenciávamos as suas saídas frequentes na parte da tarde. Cruzando o portão, cumprimentava-nos com um sorriso ou trocava algumas palavras, enquanto invejávamos nela o corpo esbelto e a maciez da pele, diminuídos quando passava aos sábados, de braços com o marido, os olhos baixos. Com Isaura se abria: tinha um fogo que a queimava por dentro, uma dor que extrapolava os limites da própria casa. Por isso precisava sair, andar pelas ruas. Caminhava tanto que os pés lhe doíam, as pernas trêmulas. Se lhe indagavam a causa de tal aflição, calada perdia os olhos num vazio de dar medo. Havia também outros pontos de vista. O irmão solteiro da Isaura, agregado há poucos meses à casa da família, dava a entender, segundo nossa amiga, que havia qualquer coisa entre os dois. Sabe como é, macho jovem e livre, ela quase da mesma idade, o marido bem se via ser muito mais velho. Eu tenho pra mim que os homens sempre acham que as mulheres estão querendo e que garoto novo gosta de se exibir. Como se tinham conhecido? Através do muro. Naquele tempo pouca gente tinha geladeira, e o marido da Isaura, que era muito zeloso e parecia ganhar bem, havia comprado uma. Ela, que morava do lado, volta e meia pedia pra guardar coisas na geladeira da Isaura: um pedaço de carne, a fruta fresquinha. Tudo passado pelo alto do muro, onde o rapaz avistara a umidade dos olhos dela. (Não posso negar: minha avó sempre disse que mulher sem-vergonha tem os olhos molhados.) O irmão da Isaura, desde esse dia, ficou obcecado. E a obsessão é a mãe da fantasia. Isaura contava também que o marido era muito ciumento. Revistava o armário, cheirava-lhe a roupa. Passou a chegar mais cedo pra ter tempo de apagar os vestígios. Sabia disso pelas próprias palavras dela, porque a casa era muito silenciosa. Mal se ouviam vozes por lá. O único ruído era, como em todas as casas, o do rádio ligado. Pouco tempo antes de tudo acontecer, ela dissera que o marido, acedendo finalmente aos seus pedidos, havia comprado uma vitrola. Agora poderia ouvir Carmen Miranda quando quisesse. E Chico Alves, que embora morto dava gosto escutar. Talvez nem precisasse mais ir aos programas de auditório da Rádio Nacional, uma de suas ocupações vespertinas. Disso tínhamos certeza, porque algumas vezes Isaura e a filha iam com ela. Eu mesma fui uma vez, que nunca esqueci. A alegria de ver Chico Alves cantando, Deus do céu! Nunca me conformei com sua trágica morte. Foi num domingo. Isaura conta que a família se preparava pra almoçar, a mesa já estava posta, quando o rosto do marido de Doralice apareceu por cima do muro: "Dona Isaura, a senhora pode vir até aqui? Precisamos de ajuda." A frase confirmava a percepção de um estranho movimento na casa vizinha, alguém batendo insistentemente numa porta fechada. Quando vi a Isaura passar com aquele jeito des-composto, corri a contar pra Luzia e pra Vanda. Nos postamos detrás do muro. Dava pra ouvir muita coisa. Mais clara era a voz de Isaura aconselhando a ela pensar melhor, isso não se fazia. Lembrasse do futuro, do desejado filho. Em seguida, o marido dizia precisar dela e corroborava: não fizesse isso. Ouvimos um barulho líquido e um silêncio. Isaura voltara a argumentar, a voz pausada e tensa, o marido não falava mais nada. Um ruído seco soou duas vezes, e percebemos ser o atrito da cabeça de um fósforo na lixa da caixa. Duas vezes. Isaura repetia: "Por favor, Doralice, não faça isso!" Tudo ficou em silêncio por um minuto. Em nova investida, o marido afirmou não viver sem ela, pensasse na família e no que haviam combinado pra reformular a vida. A vitrola, tinha esquecido? Podia ouvir os cantores queridos, era um começo. Isaura relembraria depois que, pela manhã, quando pedira pra guardar coisas na geladeira, Doralice tinha os olhos vermelhos. Recordo de a Isaura ter recomeçado a falar e tenho nítido na lembrança o canto de um bem-te-vi na mangueira do quintal mais próximo. Um tranco da Vanda me despertou: "Três vezes agora!" Só ouvi o último riscar do fósforo e a volta da chave na fechadura, porque a explosão do fogão irrompendo na sala logo atravessou o muro. Isaura gritou por um cobertor pra abafar o incêndio, e a voz de Doralice implorava que não deixassem queimar-lhe os cabelos. Luzia, que já morreu, ao narrar essa história afirmava que, na hora da ocorrência, Carmen Miranda cantava "Camisa Listrada" num rádio distante. Vanda jura que, por estranho que pareça, a vitrola da casa estava ligada e Chico Alves, naquele momento, dava adeus à Serra da Boa Esperança. O meu fraco sempre foi a memória, que anda piorando com a idade, de modo que não há jeito de lembrar. Por isso prefiro crer na Isaura, que, tendo presenciado diretamente os fatos, menos se há de enganar. Segundo ela, o marido, numa última tentativa, havia recolocado o disco que soara na casa antes de ter início aquela estúpida brincadeira, e, de verdade, no instante em que o bólido de fogo invadiu a sala pequenina, Carmen Miranda denunciava: "Disseram que voltei americanizada..." Só consigo ter certeza da morte de Getúlio Vargas. Quando tudo aconteceu, fazia pouco mais de um ano que também ele se havia matado com um tiro de revólver. Decretaram feriado, e todos nós, inclusive Doralice e nossos maridos, tínhamos chorado muito. *Referência do texto: Lembranças de Getúlio: Os Ossos de Esperança. Rio de Janeiro, Leviatã, 1994, 108 p. pp.26-32. Também disponível em: https://www.lidiavsantos.com/blog/2019/8/5/lembrana-de-getlio **Lidia V Santos nasceu e foi criada no Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira literária e acadêmica. Em 1995, mudou-se para a cidade de New Haven, nos Estados Unidos, graças a um convite da Universidade de Yale, onde, desde então, foi professora de literatura latino-americana (hispano-americana e brasileira). De 2006 a 2012 foi professora do curso de doutorado nas mesmas disciplinas no CUNY Graduate Center / Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de New York. Sua mudança para Manhattan ocorreu em 2012, ano em que transcorrem os eventos narrados nos seus Diários da patinete. Sem um pé em Nova Iorque (2015). Hoje, vive entre New York e Rio de Janeiro, cidade onde passa parte do ano. Antes de sair do Brasil, publicou dois livros de contos: Flauta e Cavaquinho (1989) e Os Ossos da esperança (1994).

Tá rolando...
Tá rolando...

1. ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) A instituição é definida como "uma rede nacional que articula em todo o Brasil 127 instituições que desenvolvem ações para promoção da cidadania da população de travestis e transexuais"” com a missão de “Identificar, Mobilizar, Organizar, Aproximar, Empoderar e Formar Travestis e Transexuais das cinco regiões do pais para construção de um quadro político nacional a fim de representar nossa população na busca da cidadania plena e isonomia de direitos.” Conheça um pouco mais no seu site: https://antrabrasil.org Junto com o IBTE é feito um trabalho importantíssimo de tentar mapear os assassinatos de pessoas trans e travestis através de um dossiê anual divulgado sempre no mês de janeiro (mês da visibilidade trans) sobre a violência contra as pessoas T. Esses dados expõem uma triste realidade, além do Brasil ser o país onde mais se mata pessoas trans, a exclusão social, educacional e as violências de diversas naturezas aparecem em números vergonhosos. Esse anuário foi publicado pela primeira vez em 2018. No link a seguir vocês encontrão todos os números, inclusive o relativo ao ano de 2020, (https://antrabrasil.org/assassinatos/) leia um trechinho: "Em 2020, o Brasil assegurou para si o 1o lugar no ranking dos assassinatos de pessoas trans no mundo, com números que se mantiveram acima da média. Neste ano, encontramos notícias de 184 registros que foram lançados no Mapa dos assassinatos de 2020. Após análise minuciosa, chegamos ao número de 175 assassinatos, todos contra pessoas que expressavam o gênero feminino em contraposição ao gênero designado no nascimento, e que serão considerados nesta pesquisa. É de se lembrar exaustivamente a subnotificação e ausência de dados governamentais." 2. AFROFLIX Vocês já conhecem a plataforma AFROFLIX? Idealizada pela realizadora Yasmin Thayná, que assina o premiado filme Kbela (2015), já indicado por aqui, a plataforma disponibiliza filmes que tenham pelo menos uma pessoa negra nas equipes técnicas e/ou artísticas e é alimentada de forma colaborativa. A contribuição para o acesso gratuito ao que tem sido feito no audiovisual atual e para a representatividade das pessoas negras no cinema são dois pontos positivos da iniciativa. Além disso, qualquer pessoa pode se inscrever para enviar seu próprio filme ou indicar algum material. Ali a gente encontra diversos formatos e gêneros, filmes ficcionais, séries, vlogs, documentários, vídeo clipes. Na porta de entrada da plataforma vemos uma imagem do curta Mulher do Fim do Mundo, realizado pela Yasmin Thayná, que conta com uma bela coreografia da música homônima da Elza Soares, trazendo um olhar sobre a cidade do Rio de Janeiro, a música, o samba, a dança e as multicores da cidade. As cores são as cores da festa, do Carnaval, mas a festa ali está quase vazia, somente passam na avenida os coreógrafos e atores, lembrando estranhamente este carnaval de 2021 - o ano que não teve carnaval - apesar de ser uma obra em 2018. 3. FLORIM Recomendamos a novela FLORIM, de Ruth Ducaso, que narra a história de Dita, uma mulher que trabalha no tráfico de drogas e sonha em ser poeta. O enredo transita entre a fúria e a prisão, seu deslocamento, solidão, prazer e encantamento. A protagonista nos fala do racismo estrutural na sociedade brasileira a partir de imagens que são registros e rastros do período colonial brasileiro. Ao mesmo tempo em que faz uso da cosmologia yorubá e da denúncia social em várias chaves de leitura (gênero, classe e raça para citar algumas), a obra retoma um tema caro à produção contemporânea, a discussão sobre autoria, por meio da escrita singular de Luciany Aparecida, criadora das assinaturas estéticas Ruth Ducaso, Margô Paraíso e Antônio Peixôtro. Como esclarece a autora, não se trata de pseudônimo, nem heterônimo, mas de estilos com os quais escreve prosa com aproximações à poesia. Florim é composto por diferentes registros: relatos em primeira e terceira pessoa nos formatos diário, narrativa oral e poesia, provocando o leitor a participar da junção dessas linguagens. Luciany Aparecida é baiana, escritora e professora de literatura. Suas principais obras são: com a assinatura Ruth Ducaso: Contos ordinários de melancolia (Paralelo13S, 2019). Como Margô Paraíso publicou: Ezequiel (Pantim, 2019). E com a assinatura Antônio Peixôtro o zine: Auto-retrato (Pantim, 2019). Se você também ficou curiosa e deseja adquirir Florim (Paralelo13S, 2020), acesse: www.livrariabotocorderosa.com/loja/produto/florim/ ou pelo Instagram @lucianyaparecida 4. DICIONÁRIO BIOGRÁFICO "EXCLUÍDOS DA HISTÓRIA" ORGANIZADO PELA OLIMPÍADA NACIONAL DE HISTÓRIA DO BRASIL (ONHB): A Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB) foi criada no ano de 2009 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e reúne mais de 70 mil estudantes dos dois últimos anos do ensino fundamental e do ensino médio das escolas públicas e particulares do país, com o objetivo de proporcionar o estudo e o conhecimento em história do Brasil. No final do ano de 2020, na 11ª edição da Olimpíada intitulada “Excluídos da História”, a ONHB organizou um dicionário biográfico que contém 2.251 verbetes sobre personagens brasileiros importantes que estão fora dos livros de história do país. Segundo a coordenadora da ONHB, a professora e historiadora Cristina Meneguello (Unicamp), a discussão sobre os excluídos da história foi retomada após o carnaval de 2019 a partir do samba enredo apresentado no enredo “História para ninar gente grande”, de autoria da Estação Primeira de Mangueira. A produção do dicionário biográfico contou com a participação de 6.753 estudantes que participaram da 5ª fase da Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB), realizada entre os dias 3 a 8 de junho de 2019, e que fizeram uma rica pesquisa sobre diversos nomes da história do Brasil. O que deveria ter sido apenas uma tarefa de pesquisa foi transformado em um material que pode ser compartilhado com professoras, professores, estudantes e a todos e a todas interessadas no conteúdo. Confira o material em: https://www.olimpiadadehistoria.com.br/especiais/excluidos-da-historia/verbetes

Ensaio: A memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas  de “Meio Sol Amarelo”
Ensaio: A memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas de “Meio Sol Amarelo”

AQUELAS QUE RECORDAM A construção da memória da Guerra de Biafra a partir das personagens femininas do romance “Meio Sol Amarelo”, de Chimamanda N. Adichie (2008) Amanda Ribeiro dos Santos* RESUMO: Este artigo busca identificar e analisar como Adichie, através das personagens femininas de seu romance "Meio Sol Amarelo", estabelece uma memória da Guerra de Biafra, que assolou a Nigéria entre os anos de 1967 e 1970, e como essa memória se relaciona com os aspectos estruturantes de uma nação. Pretende-se apreender, ainda, o modo como se dá a alteridade entre os biafrenses e os Hauçás do norte, pois, acreditamos que o reconhecimento do outro pode ser transformado durante uma situação de guerra. Para tanto, utiliza-se os conceitos de memória e, para estabelecer um diálogo entre nação e literatura, recorre-se a Kwame Appiah. Palavras-chave: Literatura – Guerra de Biafra – Meio Sol Amarelo – Memória Introdução Introdução A República de Biafra existiu no sudeste da Nigéria entre os anos de 1967 e 1970 durante a guerra de secessão, responsável por deixar milhares de mortos e uma experiência lembrada vividamente até os dias atuais; seja por meio das imagens marcadamente chocantes da fome veiculadas pela mídia internacional, seja pela própria literatura nigeriana. De todo modo, um fator significativo é a divisão política daquilo que já se encontrava fragmentado entre igbos, iorubá e hauçá-fula. [1] Além dos estudos sobre a Guerra de Biafra feitos por historiadores, antropólogos e sociólogos, não podemos ignorar os autores nigerianos de ficção que fizeram da guerra seu plano de fundo para desenvolver histórias e fazer com que mais pessoas se familiarizassem com aquilo que marcou a história de um país. Chimamanda Ngozi Adichie é uma desses autores. A escritora nigeriana ganhou destaque, primeiro, quando em 2003 publicou o livro “Purple Hibiscus” (Hibisco Roxo, Cia das Letras, 2008) e mais tarde, em 2007, quando seu livro Half of a Yellow Sun (Meio Sol Amarelo, Cia das Letras, 2008), publicado em 2006, ganhou o Orange Prize em 2007, na categoria de ficção. Logo, nos faz interessante a abordagem deste segundo livro devido sua notória contribuição em estabelecer uma memória social da Guerra de Biafra através de uma perspectiva doméstica dos personagens. Contudo, é fundamental que se faça a contextualização do período no qual a narrativa do livro está inserida, para que possamos assimilar, de maneira mais completa, toda ambientação do romance e as questões que dela podem provir. A Nigéria pós-colonial É preciso compreender, inicialmente, a conjuntura política e social nigeriana nos anos 60 e 70. A Nigéria fica localizada na África ocidental onde vivem, majoritariamente, três povos: igbos e iorubás ao sul e hauçás ao norte. A colonização britânica, através do sistema de governo indireto, cujo funcionamento exigia a denominação de chefias locais para os cargos mais altos na máquina burocrática da colônia, privilegiava o povo hauçá-fula, de maioria muçulmana. Ao sul, sobrava para as elites locais apenas subchefias, respondendo ao norte nigeriano e à Grã-Bretanha. Este tipo de manifestação colonial criou uma tensão entre as elites do sul e as elites do norte, preferidas aos olhos do colonizador. O período pós segunda Guerra Mundial foi marcado por negociações da Nigéria com a metrópole, visando a independência. Foram promulgadas três constituições: em 1947, 1951 e 1956. A primeira unia os povos em uma nação e a última foi resultado do fortalecimento dos partidos responsáveis por pressionar a metrópole (CHAN, 2017. p. 11). Em 1960, quando a Nigéria se encontrava, finalmente, independente, o governo central do país ficou a cargo dos partidos do norte comandando três regiões autônomas, com notáveis fragmentações. Contudo, os problemas das novas nações africanas começavam pela falta de conhecimento administrativo: as nações anglófonas passaram todo tempo colonial recebendo ordens e se mantendo em uma espécie de protetorado britânico, enquanto isso, as colônias francesas eram arrebatadas pela forma de governo colonial de assimilação; os francófonos deviam aprender a viver como franceses e a colônia se tornaria uma extensão da França (COQUERY-VIDROVITCH; MONIOT. 1985). Esta particularidade, aliada ao fato de que a maior parte das Nações francófonas aceitaram que a França continuasse supervisionando-as após a independência, fez com essas nações se tornassem mais estáveis. Todos esses elementos, em 1964, aliados à descoberta de fraude nas últimas eleições, privilegiando o partido do Congresso do Povo do Norte (CPN), culminaram em organizações de motim, saques, depredações e assassinatos. O governo pouco fez para intervir e em janeiro de 1966, o primeiro golpe aconteceu: soldados e oficiais de alta patente mataram o governador Samuel Ladoke Akintola, o líder do norte, Ahmadu Bello e o primeiro-ministro central Abubakar Tafawa Balewa. Quem subiu ao poder, então, foi o major-general AguiyiIronsi, que promulgou uma nova constituição na qual mudava a forma de governo da Nigéria de Federação para República, o que resultava em um poder central mais forte que os poderes regionais. (CHAN, 2017), criando mais tensões. Um novo golpe ocorreu em 29 de julho de 1966, após os massacres iniciados em Kano, e o tenente-coronel Yakubu Gowon assumiu o poder. Corria entre a população, nos dias anteriores, boatos de que o norte estava cogitando a secessão, porém, Gowon manifestou uma postura diferente: pregou a unificação dos povos. Atitude meramente política devido à economia da Nigéria ser, em grande parte, vinda da exportação de petróleo, localizado no sul. (CHAN, 2017). A partir de então, uma série de massacres, mais agressivos que os anteriores, começaram a atingir o norte, perseguindo e matando milhares de igbos. O fato do governo não ter impedido os ataques que aconteceram por dias, fez com que uma grande quantidade de igbos fugisse para o sul, inchando a região que, sem estruturas para tamanho aumento demográfico, entrou em crise. Os igbos, já revoltados com o genocídio em massa, se encontravam, agora, sem trabalho, sem escola e sem comida. Em 1967, após tentativas frustradas de acordo entre Gowon e o líder do representativo dos igbos, Ojukwu, e pressão populacional pela secessão, Ojukwu declarou a independência da região leste (CHAN, 2017). Nascia assim, a República de Biafra. A guerra civil foi inevitável e tomou grandes proporções. A França deu apoio à Biafra enquanto a Inglaterra apoiava a Nigéria (CHAN, 2017. p. 19). A nova república foi reconhecida por vários países e, as grandes potências ou não intervieram em razão de alianças como é o caso dos Estados Unidos, ou intervieram para contrapor seus opostos como a China ajudando os biafrenses porque a União Soviética estava do lado nigeriano. Os três anos de guerra resultaram em milhões de mortes, a maior parte em detrimento da fome, fator que fez com que o Vaticano, a Cruz Vermelha e o Conselho Mundial de Igrejas também se envolvessem (CHAN, 2017 p. 6) fazendo com que a Guerra de Biafra se tornasse, assim, um dos maiores projetos humanitários mundiais. Conhecendo o Meio Sol Amarelo É este o clima de tensão política em que Chimamanda Adichie desenvolve seu romance. "Meio Sol Amarelo" está dividido em quatro partes, sendo a primeira e terceira parte relacionada ao início dos anos 60 e a segunda e quarta parte relativas ao fim dos anos 60. Sua escrita narrativa é contada a partir de três personagens interligados, de alguma forma, à figura de Odenigbo, o professor de matemática da Universidade de Nsukka com espírito revolucionário, que são: Olanna, professora universitária, de família rica e influente, educada em Londres e namorada de Odenigbo; Ugwu, jovem de uma pequena aldeia e empregado do professor; e Richard, britânico e jornalista desempregado que vai à Nigéria para conhecer a arte Igbo-Ukwu, e se apaixona pela irmã de Olanna, Kainene. O livro se desenvolve pela representação de como esse grupo de pessoas consegue sobreviver à situação de guerra ao mesmo tempo em que tentavam seguir com suas vidas individualmente. Durante a guerra, se veem obrigados a migrar para outras cidades, construir bunkers para se esconderem de ataques aéreos, perdem amigos e familiares, mas, contudo, mantêm a esperança na vitória de Biafra. A autora nigeriana consegue imprimir tanto a paz inicial marcada por longas reuniões festivas e debates políticos acalorados na casa de Odenigbo quanto o desespero e o medo que arrebatam as personagens durante a guerra. Apesar de Adichie abordar, com precisão, casos de estupros, doenças, fome, corrupção, alienação, traições e desejos, o que gostaria de discutir, aqui, parte da forma como estes personagens viram Biafra, incorporaram Biafra e como Chimamanda estabeleceu, através do livro, não apenas uma memória da guerra de Biafra como também fez um paralelo entre memória, nação e literatura dentro da história – quando acontece o ensino da história da república recém-criada, e fora da história – sua obra hoje tem repercussão mundial e, inegavelmente, consegue criar uma nova memória da Guerra naqueles que, por tanto tempo, acreditaram apenas nas imagens de fome. As personagens femininas e a construção da memória Em 2009, durante a Conferência Anual Ted Global, Chimamanda Adichie realizou uma palestra com o seguinte tema: "O perigo de uma história única" fazendo reflexões sobre a maneira que o continente africano é visto pelo Ocidente como um grande bloco homogêneo e como essa memória fabricada acabou gerando estereótipos e preconceitos. Esse pensamento de uma história única é capaz de estabelecer questões na historiografia intensivamente complexas, como é o caso da própria literatura africana que possui especificidades devido o colonialismo. Kwame Appiah (1997) critica o modo como a literatura tem estudado a produção de conhecimento africana e que, muitas vezes, essa análise tende a estabelecer contrastes antropológicos, ponderando, inclusive, se a teoria literária atende às tradições específicas ou se, mesmo quando estão relacionadas à tradição literária encarada como “mundial”, não se manteriam na teoria literária de tradição europeia. Outro elemento para ser discutido quanto à análise da literatura africana diz respeito à linguagem, pois, a língua utilizada na escrita da literatura africana será, majoritariamente, a língua do colonizador, até porque, é esta a língua que atingirá maior público, logo, a prática analítica e a produção entram um paradoxo. (APPIAH, 1997). A língua, no entanto, constitui apenas um dos pormenores, em virtude da cultura do colonizador: o colonizado é imposto à cultura colonizadora e acaba refletindo esta cultura em sua literatura (APPIAH, 1997, p. 87), deste modo, quando um autor africano escreve sobre sua vivência pessoal, ele quebra essa prática ao expor para um leitor não africano, uma nova visão, agora genuinamente africana, e veicula, para o leitor africano, a possibilidade de inventividade negra. Colocadas todas essas peculiaridades, consideremos a correlação entre nação e literatura, na qual, uma contribui com a consolidação da outra. Uma das primeiras medidas tomadas para engendrar um nacionalismo se escora nos recursos literários. Um dos usos desse recurso se dá por meio da educação escolar, responsável por formar um cidadão consciente de sua nacionalidade e disposto a defendê-la a todo custo, uma vez que, o papel da escola colonial (e, infelizmente, da pós-colonial) na reprodução da hegemonia cultural do Ocidente é crucial para a crítica africana, em virtude da estreita ligação entre a ideia da crítica e o aumento da pedagogia literária, pois o papel da literatura, ou, a rigor, a formação do conceito, da instituição da "literatura", é indissociável da pedagogia. (APPIAH, 1997.p. 87-88) Assim, posto que a escola é uma ferramenta importante na constituição da literatura que vai se dedicar à inventar o sentimento nacionalista da nação e, concomitantemente, produz uma memória nacional, podemos refletir sobre a contribuição de Olanna na gênese nacionalista biafrense. No romance, a professora universitária perde seu emprego quando estoura a guerra e isso faz com que ela passe a dar aulas para crianças, inicialmente, em escolas infantis e, mais tarde, quando as escolas se transformam em abrigos de refugiados ou centros de treinamento, Olanna monta uma pequena classe no quintal de casa, já em Umuahia, cidade onde ela vai morar depois que Nsukka é tomada pela Nigéria. Junto com ela, lecionariam a professora Muokelu, que trabalhava na última escola fechada na cidade, e Ugwu, designado por Olanna a dar aulas para crianças mais novas. O trecho a seguir apresenta uma fala de Olanna expondo seu planejamento de ensino: “Nós vamos dar aula de matemática, inglês e educação cívica todos os dias”, falou Olanna para Ugwu e para a professora Muokelu um dia antes do início das aulas. “Temos de garantir que, quando a guerra tiver terminado, todos estejam preparados para entrar numa escola regular. Vamos ensiná-los a falar um inglês perfeito, e um ibo perfeito, como Sua Excelência. Vamos ensinar a eles a ter orgulho de nossa grande nação.” (ADICHIE, 2008, p. 340 [grifo nosso]). O trecho grifado transparece as intenções da personagem em tecer um sentimento de pertencimento à República de Biafra. Portanto, ao ensinar às crianças a educação cívica, Olanna estaria formando também uma nacionalidade biafrense e estabelecendo uma memória coletiva da guerra como acontecimento fundamental para a instauração de Biafra. Cabe-nos pensar, agora, o conceito de memória como uma construção seletiva, tendo em vista que a memória nunca será mero registro, pois é uma representação afectiva, ou melhor, uma representificação, feita a partir do presente e dentro da tensão tridimensional do tempo. E, nesta, o futuro é ligado ao passado por um fio totalizador e teleológico. Isto é, toda recordação tende a objectivar-se numa narrativa coerente que, em retrospectiva, domestica o aleatório, o casual, os efeitos perversos do real-passado quando este foi presente, actuando como se, no caminho, não existissem buracos negros deixados pelo esquecimento. (CATROGA, 2001. p. 46) Em função disso, a construção da memória requer ainda os a presença dos ritos de recordação, encarregados também da formação da identidade. Logo, são estes ritos provindos dos rastros dos acontecimentos que irão legitimar a memória, proporcionando a edificação da memória coletiva (CATROGA, 2001). Assim, podemos observar a construção da memória em dois trechos do livro de Chimamanda Adichie cuja análise farei a seguir. Em certa altura da guerra, Olanna, Odenigbo, Baby (a criança filha do casal) e Ugwu, se encontram em situação de refugiados e vão se abrigar na casa recém-comprada de Kainene em Orlu, onde ela mantinha um centro de ajuda comunitário para refugiados nas proximidades da casa. Vejamos o trecho abaixo: O harmatão que soprava forte enchia tudo de poeira, e Baby se juntava às crianças que corriam em volta, de barriga nua entrelaçada de marrom. Muitas colecionavam estilhaços, brincavam com eles. Quando Baby voltou com dois pedaços de metal pontudo, Olanna gritou com ela, puxou-lhe a orelha e jogou fora os estilhaços. Detestava pensar em Baby brincando com restos de coisas que matavam. Porém Kainene pediu que ela devolvesse os estilhaços a Baby. E deu-lhe uma lata para guardá-los. Também pediu à menina que se juntasse às crianças mais velhas, que faziam armadilha para os lagartos, que aprendesse a trançar folhas de palmeira e pusesse casulos cheios de formigas iddo lá dentro.Kainene deixou Baby segurar o facão de um homem emaciado que desfilava pelo compound resmungando: “Ngwa, que venham os vândalos, que eles venham todos”. Kainene deixou Baby comer uma perna de lagarto. (ADICHIE, 2008, p. 448-449) Essa ideia de guardar estilhaços remete-nos muito à concepção de vestígios de memória ou, como bem colocou Paul Ricoeur, discutindo sobre memória e esquecimento, tratando sobre a presença, a ausência e a anterioridade, como “a imagem-recordação [que] está presente no espírito como alguma coisa que já não está lá, mas esteve” (RICOEUR, 2003. p. 02). Deste modo, é como se Kainene tentasse, a partir da ação de guardar os estilhaços, ressignificá-los e indicar a presença da guerra na ausência da guerra. Os estilhaços seriam como um lugar de memória. O trecho acima traz consigo mais uma particularidade ao citar uma frase dita pelo homem: “Ngwa[2] , que venham os vândalos, que eles venham todos”. Tal sentença indica um fator de alteridade que é visto em mais pontos do romance, como quando a Srª Ezeka, esposa de um dos amigos de Odenigbo que durante a guerra ganhou cargo de importância no exército, diz à Olanna depois de lhe mostrar, com orgulho, o bunker de cimento [3] construído no quintal de sua casa grande e sumptuosa: “Imagine no que esses vândalos nos reduziram. Pâmela e eu às vezes dormimos aqui, quando os bombardeios são demais”, disse a sra. Ezeka. “Mas havemos de sobreviver.” (ADICHIE, 2008, p. 397). Essa mentalidade de perceber o outro como vândalo, de que o outro é quem pratica o mal, pode ser relacionada com o conceito de Valentin-Yves Mudimbe (2013) do Mesmo e do Outro onde as características são vistas como um oposto ao outro ou o Mesmo que busca semelhanças próprias no Outro. Contudo, o reconhecimento do Outro só se torna possível mediante essa comparação. Em outras palavras, temos a perspectiva, através do romance, apenas dos biafrenses e estes são o “Mesmo” e eles percebem nos nigerianos nortistas o “Outro”. Assim, os biafrenses só reconhecem os nortistas através dessa comparação em busca de semelhanças. Portanto, ao chamar os nortistas de vândalos, eles - os biafrenses estão à procura de discernir o que, possivelmente, eles têm em comum e, no momento em que, teoricamente, não encontram, denominam o Outro de maneira pejorativa. Ainda assim, o exército de Biafra aparece no livro como igualmente truculento, repressivo, estuprador e saqueador. Considerações finais O diálogo entre a História e Literatura, embora seja de grande contribuição para a produção de conhecimento, muitas vezes tende a se distanciar, forçosamente. No caso africano, que abordagens clássicas europeias não são suficientes, recorrer a outras áreas disciplinares para compreender a História da África se faz essencial. Aqui, Chimamanda Adichie colaborou para um novo estudo sobre a memória da guerra de Biafra e conseguimos perceber aspectos políticos e sociais que eram mascarados pela imagem da fome e da miséria extrema. A partir de Kainene e Olanna, principalmente, Adichie estabeleceu um paralelo entre a formação de uma nova nação e os elementos necessários para a criação de um nacionalismo biafrense e a memória nacional. Ainda que o foco deste trabalho tenha sido apenas levantar questões sobre a memória, é igualmente relevante aprofundar outros aspectos do romance como, por exemplo, o que foi superficialmente tratado aqui, o problema da alteridade entre os personagens; se pode fazer um estudo sobre como os personagens igbos enxergavam os hauçás na primeira parte do livro e como essa imagem foi se transformando à medida que se desenrola a guerra. Contudo, não devemos deixar de pensar que o livro não apenas produz uma nova história, quebrando a história única do qual vem o alerta de Adichie, como também rememora e honra a vida de todos que morreram reivindicando melhores condições de vida na Guerra de Biafra. *Amanda Ribeiro dos Santos cursa a graduação em História na UFMG. Pesquisa na área de História da África pós-colonial com ênfase na literatura nigeriana, em especial as obras de Chimamanda Ngozi Adichie. Notas: [1] O termo pode ser visto na bibliografia como “hausa-fulani”, “hauçá” ou “hausa-fula”. A escolha de utilizar, neste trabalho, a grafia “hauçá” / “hauçá-fula” se deu em razão de ser o mesmo usado na tradução de “Meio Sol Amarelo”. [2] Clã” Igbo que vive no sudeste da Nigéria. [3] No romance, todos os bunkers não passavam de buracos sujos e mal-acabados no chão e com alguma cobertura com folhas. Um bunker de alvenaria era artigo de luxo. Referências Bibliográficas ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio Sol Amarelo. Tradução Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ADICHIE, Chimamanda. ― O Perigo da História Única. Vídeo da palestra da escritora nigeriana no evento Technology, Entertainment and Design (TEDGlobal 2009). Disponível em: Acesso em: setembro/2019. APPIAH, Kwame A. Pendendo para o nativismo. In: Na casa de meu pai: A África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. BORGES, Valdeci Rezende. História e Literatura: Algumas considerações. Universidade Federal de Goiás: Revista de Teoria da História, ano 1, nº 3, junho/2010. CATROGA, Fernando. Memória e história. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (Org.). Fronteiras do milênio. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001, p. 43-69. CHAN, Maurício Aparecido. Leituras sobre a Guerra de Biafra (1967-1970) As Versões do Conflito nos Textos de História e Literatura. 2017. 62 f., il. Trabalho de Conclusão de Curso. (Bacharelado e Licenciatura em História)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017. MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção de África. Mangualde/Luanda: Edições Pedago/Edições Mulemba, 2013. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, v. 10, p. 7-28, dez. 1993. NUNES, Alyxandra Gomes. História, etnicidade e memória da guerra de Biafra (1967-70) na poesia de Chinua Achebe e na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie em Half a Yellow Sun. XI Congresso Internacional da ABRALIC. Universidade de São Paulo. 2008 OLIVEIRA, Guilherme Ziebell de. O papel da Guerra de Biafra na construção do Estado nigeriano: da independência à segunda República (1960-1979). Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v. 3, n. 6, p. 228-253, abr. 2015. RIBEIRO, Mariana Licurgo Ferreira. Biafra e a Opinião Pública Internacional: Como a cobertura jornalística influenciou os rumos da Guerra Civil Nigeriana. ANPUH-Brasil – 30º Simpósio Nacional de História, Recife. 2019. RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Trad. Lucy Moreira César. Campinas: Papirus, 1991. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. Campinas: Editora da Unicamp. 2007. RICOEUR, Paul. Memory, history, oblivion. Conferência Internacional Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism. Budapeste. 2003 [Transcrição].

Mãos Livres
Mãos Livres

A caixa Meire Martins * Você nasceu! Ainda no primeiro dia, te encaixaram em um nome, Fabricaram pra você uma identidade. Ao observarem seu corpo, te encaixaram em um gênero e de acordo com esse gênero te instruíram como deveria se comportar, brincar, andar. Você foi crescendo Te encaixaram em uma religião Te disseram quem é Deus ou quem são os Deuses os quais você deveria adorar. Você foi à escola E lá, em razão da idade te encaixaram em uma série decidiram o que você deveria estudar, produzir, realizar. Você cresceu E não se sentiu encaixado, Não conseguiu se ajustar na caixinha que te colocaram. Não se culpe por isso Afinal, não foi você quem escolheu essa caixa Agora que está crescido(a) Pode fazer suas escolhas Encaixar-se onde se sentir bem E você também pode Não se encaixar E tudo bem, Não se penitencie por isso Viva! Viva assim Desencaixadamente feliz! Você é um ser único Tem suas potencialidades Seu próprio ritmo Dance a dança da vida. Peixes não conseguem voar Pássaros não sabem nadar E tudo bem, Imagine como seria entediante o mundo Se a diversidade não existisse. Imagine se o Sol cismasse de se encaixar E se tornasse do tamanho dos planetas que o circunda, Se resolvesse parar de brilhar Não espalharia mais sua luz a todos os seres, Não aqueceria mais a vida. Assim como o Sol você também tem luz própria E aquece corações Encaixado ou desencaixado Viva! Brilhe para o mundo. * Meire Martins nasceu em 03 de junho de 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. Acorrentada Jeovânia P.* Sentada na cadeira da ilusão De quando em quando Mastigando com os pés Os dias Lá vai ela acorrentada Segue olhando pro chão Pedindo desculpas Por incomodar passando ali Em qualquer lugar Lá vai ela acorrentada Nem saber os laços que lhe amarram sabe Nem as grades que lhe cercam Nem a escravidão em que vive Lá vai ela acorrentada Imune à dor da consciência Imune à certeza de si Protegida da realidade Envolta a tudo que lhe definem como sendo certo Bom Verdadeiro Embriagada de opiniões alheias Lá vai ela acorrentada Se soubesse Se visse Se descobrisse Se Ah, se! Se um dia acordasse Se libertaria Mas enquanto não acorda Lá vai ela acorrentada. * JeovâniaP. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da UFPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. s/ título Maria Helena Miranda* Gostaria imenso de escrever algo de positivo Alguma coisa que desse, a alguém, uma esperança Gostaria, enfim, de ter essa esperança De acreditar que haverá vida daqui pra frente Vida de verdade, vida vivida. Gostaria de poder me imaginar feliz Gostaria de pensar que não é pura alienação Quando vejo pessoas “felizes” Gostaria de acreditar que alguém é ou foi feliz. Gostaria de não ter tantas dúvidas E de, não podendo viver melhor, Deixar-me passar sem grandes questionamentos E acabar... (14 de março de 1983) * Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A louça Maria Cristina Martins * organizo a louça quando todos dormem guardo o que não é utilizado no dia a dia deixo à mão apenas o necessário minha avó sempre lavava e enxugava a louça antes de guardar toda a louça no armário minha mãe enxuga só o que vai para o armário eu não enxugo nada espero secar naturalmente o tempo certo de secar é o que vai do fim do jantar à hora em que todos dormem * Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Formou-se também em história, participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas, em 2005, e publicou o livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. Em breve lançará o livro de contos e crônicas "Entre máscaras: histórias do interlúdio", em coautoria, pela editora Urutau. Tem publicado também em revistas, coletâneas e no instagram @farandola.mariacristinamartins. Enola Holmes: uma detetive nada feminista Tássia Veríssimo* Meu primeiro contato com histórias de detetive foi através de Agatha Christie, seus livros vendidos a preço baixo nas Lojas Americanas do bairro suburbano em que eu morava na infância, já que não tínhamos livrarias por lá à época. Depois passei a Sherlock Holmes, com seus desdobramentos em séries e filmes e outras produções do gênero. Digo isto para situar à leitora que não foi sem empolgação que fiquei sabendo de Enola Holmes, o novo filme queridinho da Netflix. Pelo contrário! Quando ouvi falar de uma nova história de detetive tendo como protagonista a irmã mais nova de Sherlock me empolguei. O fato de não ser cânone não é um problema para mim, muito menos de se tratar de uma história para adolescentes, apesar de não ser tão ligada a este universo. Fui assistir de coração aberto ao filme sobre o qual tantas conhecidas estavam falando muito bem, afinal parecia uma grande aventura feminista! A expectativa é a mãe da decepção, eu sei, mas nada havia me preparado para aquela bomba em forma de filme! A história começa com Enola Holmes (Millie Bobby Brown) se apresentando ao espectador, num já clássico caso de quebra de quarta parede. Esse recurso, quando bem empregado, é muito bom para gerar conexão com o espectador, mas nesse filme ele é tão explorado que se esvazia de sentido. Enola fala com a gente o tempo todo e explica cada cena que está acontecendo, o que fica ainda mais didático com os flashbacks de reforço de explicação que cismam em tomar a cena. É como se o espectador não fosse capaz de entender algo que não lhe fosse mostrado ao menos de três maneiras diferentes ao mesmo tempo. Eu acredito que os adolescentes – público-alvo da produção – tenham total capacidade de entender uma história sem tanta mastigação. Enola interage com a gente até no clímax do filme, tirando qualquer possibilidade de nos emocionarmos com a cena. A produção também consegue a proeza de ser muito agitada – num sentido ruim de os fatos se atropelarem sem desenvolvimento – ao mesmo tempo em parece que suas duas horas de duração se arrastam pela tela. Também não espere desenvolvimento das personagens ou uma história de detetive de fato. Praticamente todas as personagens parecem ter motivos fúteis ou mal explicados para suas ações e nem a tentativa de transformar a mãe da protagonista em rebelde funciona. Sem uma boa trama ela soa muito mais como uma mãe relapsa e egoísta do que como uma feminista que quer um mundo melhor para a filha. Aliás, o que mais me incomoda nesta obra é ter sido alçada como feminista nas resenhas que pipocam no Instagram. Não fosse isso seria apenas um filme ruim, como tantos outros. Mas se vender como “girl power” foi abuso! As personagens femininas são pouco interessantes, não há quase conexão ou diálogo entre elas e quando existe alguma oportunidade de união é descartada em prol de um “algo maior” que nunca se concretiza. Que mulher adulta fala para a filha da amiga desaparecida se virar sozinha aos 16 anos em Londres enquanto foge dos irmãos? E é exatamente essa personagem, chamada Edith (Susie Wokoma), que tem sido usada como símbolo feminista por uma cena em que escancara os privilégios de gênero de Sherlock. Sinceramente? Achei que já tínhamos entendido que lacração não muda o mundo e muito mais válidos são os gestos que as palavras. Enola parte em sua aventura ao fugir do irmão mais velho que a quer em um internato uma vez que a mãe deles achou de bom tom sumir no aniversário da menina e deixar apenas uns recados cifrados. Apesar da premissa fraca – a mãe é pintada como maravilhosa e do nada vai embora? – a história poderia ter se desenvolvido de maneira interessante, com Enola tendo contato com outras mulheres e com o movimento sufragista e a luta operária. Poderia ser sobre se descobrir uma mulher num mundo de homens e as implicações disso, mas optaram pelo caminho fácil de colocá-la para se fantasiar de menino – sem necessidade -, para não interagir com mulheres de forma solidária, para abrir mão de sua fuga por causa de um interesse romântico e por aí vai. Enola é supostamente independente, mas suas ações são quase todas realizadas ou em oposição ou por meio de autorização masculina. A cena da fuga do internato, por exemplo, poderia ter sido realizada por ela sozinha, mas só se deu após a visita do irmão e do par romântico. A busca pela mãe ficou em segundo plano, com ela retornando ao final, com uma desculpa mais esfarrapada que pano de chão após meses de uso em faxina pesada. A verdade é que nem a mais feminista das espectadoras consegue se conectar emocionalmente à mãe de Enola e suas motivações. O filme pode até ser bem intencionado em sua vontade de mostrar que mulheres devem ser livres, mas nossas meninas merecem uma obra que as apresentem a um feminismo que vai além de tiradas de efeito e golpes de Jiu-Jitsu. O feminismo liberal de Enola Holmes é tão bom quanto qualquer propaganda de empoderamento usada para vender batom. O mercado agradece. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas).

Traduções: Entrevista com Gahela Cari
Traduções: Entrevista com Gahela Cari

A Revista MFM traz para vocês nesta edição uma entrevista com Gahela Cari, candidata transafroandina ao Congresso peruano pela coligação de esquerda Juntos por Peru[1]. A entrevista foi feita por Vanessa Cruzado Alvares, jornalista da Revista Somos. Publicação original do dia 1º de fevereiro de 2021, disponível https://elcomercio.pe/autor/vanessa-cruzado/?ref=ecr Estão previstas para o dia 11 de abril de 2021 as eleições no Peru. A vida política do país não tem andado tranquila. O Peru teve quatro presidentes em quatro anos - três deles em apenas uma semana, em novembro de 2020. Isso tudo em meio à crise política, denúncias de corrupção e favorecimentos, fechamento do congresso, golpismo do congresso, muita violência nas ruas e pandemia da Covid-19. PPK, presidente eleito em 2016, estava ameaçado de impeachment por denúncias de propina junto à Odebrecht - que foram reveladas pela Operação Lava Jato no Peru. Ele renunciou em 2018, tendo assumido o vice, Martin Vizcarra, que combatia com a maioria fujimorista no Congresso, chegando até mesmo a fechá-lo em uma decisão constitucional, mas polêmica[2]. Com tantos problemas, ele foi destituído pelo congresso por “incapacidade moral”, em um julgamento controverso, cuja questão principal girava em torno do favorecimento a um músico. Francisco Sagasti era um nome que agradava ao Congresso e que foi emplacado justamente por suas posições contra Vizcarra, mas sem o apoio popular. Em meio a violentos protestos de rua e altas taxas de Covid-19 ele renunciou. Manuel Merino, chefe do congresso, assumiu o executivo com grande rejeição e é o atual presidente. Nas eleições de 2016, três projetos diferentes se destacaram: o neoliberal de PPK, que acabou “vitorioso”; o fujimorista de Keiko Fujimori, que apesar de derrotado no 2º turno teve maioria no congresso; e a esquerda com a Frente Ampla Peruana, liderada por Verónika Mendoza[3], que se colocava como uma proposta de coalizão à esquerda, “sem deixar ninguém para trás”. Os movimentos golpistas em curso no Paraguai e no Brasil em 2016, assim como a situação da Bolívia e da Venezuela, colocaram em pauta a importância dos governos eleitos com o voto das minorias sociais apresentarem um programa de governo que realmente as contemplem. As eleições deste ano acontecerão em uma situação muito mais tensa do que as de 2016. Existem mortos, desaparecidos e muitas vítimas da violência policial no contexto dos protestos políticos, um congresso desacreditado pelo golpismo e pela corrupção e pela pandemia da Covid-19 (o Peru é um dos países com a maior taxa de mortalidade por Covid no mundo). Apesar dos problemas e da instabilidade que aflige não apenas o Peru, mas a América Latina e o mundo de maneira geral, os movimentos sociais seguem lutando nas ruas e nos espaços da política institucional. Essa entrevista com a candidata ao Congresso Peruano, Gahela Cari, mostra que apesar das dificuldades, estamos avançando - apesar de ser ainda longo o caminho que a sociedade tem a percorrer, tanto do ponto de vista legal quanto representativo, no que tange às questões de gênero e à democracia social. Seguimos caminhando. Tradução e notas de Flavia Veras Com um chapéu que leva as cores andinas e um lenço verde no punho, Gahela Tseneg Cari Contreras avança em um sistema no qual não se sente representada. Ela é candidata ao Congresso com o número 13 de Juntos por el Peru para “devolver a cidadania para as pessoas”. Se vencer, ela se tornará a primeira congressista trans do Peru. A primeira coisa que Gahela Tseng Contreras (28) falou ao se apresentar, com orgulho na voz, é que é uma mulher transafroandiana e migrante. Durante sua infância viveu entre a lagoa, o campo e os animais do povoado de Bernales, no distrito de Humay (Pisco). Cresceu vendo sua mãe lutar pelos direitos dos camponeses, enquanto seu pai tentava levar um colégio para a comunidade. Sendo a quarta filha de seis irmãos, assumiu ainda pequena o cuidado com os menores e também trabalhava no cultivo para a família. Desde o colégio esteve imersa em causas como o reflorestamento, campanhas contra a violência contra a criança, o tratamento de menores e o abuso. Estudou direito na Universidade Nacional San Luis Gonzaga e nesta época começou sua transição. Quando se formou não pode obter o título de bacharel porque a direção da universidade exigiu que ela cortasse o cabelo e usasse o nome de registro em sua identidade (RG). “Sinto que o sistema me disse: não importa que você se esforce, vocês está ferrada.” Ela tenta mudar essa realidade desde sua área: as leis. Ela é candidata com o número 13 de Juntos por Peru. Você já conhecia Verónika Mendoza? Por que escolheu se candidatar por seu partido? Eu a conheci entre 2013 e 2014, quando me candidatei ao Parlamento Jovem[4] e ainda não tinha começado minha transição. Ali fui acompanhando os debates pela igualdade. Quando comecei a visibilizar minha orientação sexual e identidade de gênero, assumi as agendas [do partido]. Meus pais me falavam: “não se meta a fazer política. Termine seus estudos, tenha seu trabalho, compre sua casa e viva tranquila”. Eu desobedeci! [risos] Quando me convidaram eu não duvidei. Entrei porque Vero me convenceu. Hoje não milito só por ela, mas por uma sociedade diferente. Em 2019, Verónika Mendoza, então no Nuevo Peru[5], anunciou uma aliança com Peru Libre[6], de Vladimir Cerrón[7], que não apenas foi condenado por corrupção, mas também fez comentários homofóbicos. O fato de ele continuar no partido não vai contra o que você defende? Vladimir Cerrón não só fez comentários homofóbicos, mas também racistas e xenófobos.[8] Ele é o conjunto completo do que a esquerda não precisa. Não houve uma aliança entre pessoas (Mendoza-Cerrón), mas entre espaços políticos. O documento da aliança reafirmava a luta contra a violência de gênero, a luta LGBTI e a luta feminista. Tenho combatido Vladimir Cerrón não por fora, mas também por dentro do partido, exigindo que esse senhor se retire, e não deixarei de fazê-lo. Acredita que não existe machismo [dentro do partido]? Claro que tem e por isso temos combatido. Eu não faço política a partir do purismo, faço a partir da pedagogia. Através da prática temos que disputar com coragem, alegria, amor, sem deixar de falar firme. Não descartam alianças com partidos da direita conservadora.... A política é convencer, dialogar, buscar consensos. Não vou impor o que eu penso, mas vou colocar as coisas na mesa e debater. Temos que fazer pedagogia política para chegar a consensos. Gahela Cari participou das marchas contra Manuel Merino. Sua foto ajoelhada e levantando punho enquanto a polícia tentava reprimir os manifestantes deu a volta ao mundo. “Voltaria a fazer se necessário” (Foto: Anthony Niño de Guzmán / Somos) https://twitter.com/GahelaJP13/status/1355208579230396420?s=20 Chegando no Congresso, qual seria sua primeira ação? Primeiramente vai ser a reforma de gênero. A Lei de Educação Sexual Integral para acabar com a educação machista. Em segundo lugar está a Lei Integral Trans, para devolver a cidadania às pessoas trans. Também o Sistema Integral de Cuidados, para contar com um espaço para as crianças, adultos, pessoas com deficiência e doentes. O aborto legal, seguro e gratuito, o matrimônio igualitário e outras iniciativas mais. https://twitter.com/dw_espanol/status/1326220325730746368?s=20 Você propõe uma reforma agrária. No que ela consiste? Temos quatro pontos fundamentais: primeiro uma aposentadoria rural para que os camponeses e as camponesas não morram lavrando sua terra. Em seguida um seguro de saúde rural para que possam ter onde se cuidar. Terceiro ponto é garantir que possam fazer compras diretas para que assim tenham acesso a preços mais justos. O último ponto tem a ver com treinamentos e empréstimos a juros baixos. Isso ajudaria a empurrar ou reativar uma economia em favor da cidadania dos e das camponesas mais esquecidas. No plano também é apresentada uma reforma policial, um tema que os políticos não têm tido interesse em aprofundar... Nenhuma família deve chorar a perda de seus filhos pelas mãos da polícia. Hoje a polícia como instituição se transformou em um objeto que serve para reprimir a cidadania e cuidar dos empresários, enquanto batem, jogam gás e assassinam quem protesta por uma vida digna. Propomos subir o salário dos policiais, revogar a Ley Gatillo[9] e eliminar o Grupo Terna[10]. Melhorar ainda a formação da polícia com enfoque de gênero, meio ambiente e interculturalidade, que permita um melhor desempenho. Existem bons oficiais e nenhum deles irá se opor a essa reforma. Os que se opõem são os que estão vivendo na impunidade. Candidatar-se a um dos estamentos mais desacreditados do país é uma oportunidade ou um erro? É um desafio. Faço política porque minha vida não é mais só minha. Cabe a mim fazer avançar os direitos fundamentais, pressionar por agendas de igualdade. Toda vez que me levanto da cama, reafirmo esse compromisso. A maioria dos políticos tem suas vidas resolvidas. Não têm de lutar por um documento de identidade que reconheça seu nome. Eles não têm que ver seu pai ou mãe morrer sem uma pensão agrária, apesar de terem trabalhado a vida toda. Tenho o desafio de fazer meu trabalho abrir caminho através dessas condições de desigualdade na política. Como deveria ser o Congresso do bicentenário? Para os homens o 2021 é o bicentenário. Para as mulheres não, porque votam faz pouco mais de 60 anos. Para as pessoas trans não, porque nem sequer temos a cidadania garantida. Por isso é importante o Congresso: temos que devolver a cidadania para as pessoas. Existem partidos que estão propondo adiar as eleições por causa da crise sanitária. Você está de acordo? As eleições têm uma data e isso precisa ser feito. Temos também que redobrar os esforços para combater esta pandemia. Temos que levar a sério a segunda onda, claro! Mas não acredito que adiar as eleições seja uma opção. Você se vacinaria contra a Covid-19? Claro que sim. Sobretudo por amor às pessoas, por cuidar da cidadania. [1] É uma coalizão política da esquerda peruana legalmente escrita como partido e fundada em 2017. [2] Relembre o caso: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/01/26/apos-presidente-fechar-congresso-peru-tem-eleicoes-para-escolher-novos-parlamentares.ghtml [3] Psicóloga, antropóloga, professora e política peruana. Congressista da República do Peru no período de 2011 a 2016, representando a região de Cuzco, foi candidata à presidência do Peru pela coalizão Frente Ampla, em 2016, quando obteve a terceira colocação. [4] Um programa com o objetivo de incentivar a participação e a liderança entre jovens. Ver: http://www.congreso.gob.pe/participacion/parlamentojoven/participacion/ [5] Partido político peruano de esquerda. Ver: https://nuevoperu.pe/nosotros [6] Partido político peruano de esquerda. Ver: http://perulibre.pe [7] http://perulibre.pe/vladimir-cerron-rojas/ [8] Entenda um pouco desta questão: https://rpp.pe/peru/actualidad/veronika-mendoza-nuevo-peru-tres-claves-para-entender-la-polemica-por-alianza-con-peru-libre-y-juntos-por-el-peru-vladimir-cerron-yehude-simon-noticia-1226709 [9] Lei aprovada de maneira controversa no Congresso peruano no contexto da destituição de Vizcarra que exime os policiais de responsabilidade ao atirar contra a população. Ver: https://www.pagina12.com.ar/257356-peru-legaliza-la-impunidad [10] A Unidade de Inteligência Tática Operacional Urbana da Polícia Nacional, mais conhecida como Grupo Terna, é uma unidade especializada da Divisão de Operações Especiais "Esquadrão Verde" da Polícia Nacional do Peru. Vestidos como civis são infiltrados em áreas consideradas criminosas e intervêm no flagrante do crime utilizando inteligência tática operacional. Durante os protestos contra o governo de Manuel Merino em novembro de 2020, houve alegações de más práticas policiais devido à infiltração da polícia do Grupo Terna entre os manifestantes. Ver: https://www.radiocutivalu.org/cnddhh-alerta-malas-practicas-policiales-en-las-protestas-ciudadanas/

Cartas ao espelho #assediadapelopai
Cartas ao espelho #assediadapelopai

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. #alertagatilho Querida Beatriz, Este não é um relato inédito. Já o compartilhei com várias pessoas. As primeiras que me lembro foram meus irmãos, que, ambos, ignoraram o que tinham ouvido. Alguns anos depois, teimei e contei de novo ao meu irmão mais velho. Com o coração palpitante de quem só espera uma resposta e algum acolhimento, disse a ele que nosso pai havia me assediado em um bar afirmando que eu não era sua filha, mas uma mulher muito bonita. Tentando beijar com seus lábios molhados a minha mão, me desvencilhei, e ele, trôpego de bêbado, não se manteve em pé. O deixei então no chão do bar, sob os cuidados do dono. Desta vez, me lembro bem da reação de meu irmão: me disse ele, que eu deveria perdoar. Em meu aniversário ele me mandou ainda uma mensagem, me desejando, além dos parabéns, perdão. * Me lembrei de um terapeuta holístico que, ao escutar a mesma história, me disse que eu "emanava uma energia de desejo para meu pai", não uma "energia de filha". * Fico pensando que entre o perdão e a culpa não há uma diferença assim tão grande. A relação entre o perdão (o problema estava em mim por não perdoar) e "enviar energias sexuais" (a culpa por ser assediada era minha já que eu estava emanando energias de horizontalidade) é o fato de responsabilizar a vítima pela agressão sofrida. Se te escrevo hoje, é inspirada por um caso de um conhecido cientista político que foi acusado de abusar de seu enteado adolescente durante anos a fio e ter sido protegido pela "família grande". Esse é, aliás, o título do livro escrito pela irmã da vítima - que denuncia e documenta todo o caso. A “família grande” era os amigos, a mulher, os parentes, os outros filhos, a extensa rede de intelectuais que frequentava a casa. Se te escrevo hoje, querida amiga, é porque sei que a “família grande” pode contribuir com a conivência, com a negação, com o descaso, com a culpabilização, com o silêncio de abusos cometidos contra crianças e adolescentes, frequentemente praticados por alguém próximo, e que podem ter suas vidas destroçadas. Mas a “família grande” também pode denunciar, acolher, amparar e, sobretudo, não silenciar. Acho que você me entende bem. Ao tornar pública a família grande - como fez a autora do livro - podemos servir à proteção da vítima e evitar novos assédios. Podemos também dizer que não aceitamos, que a negação, a culpa e o silêncio não nos são mais suficientes. Com carinho e esperança, Júlia

Respeita Nossa História: Antonieta de Barros
Respeita Nossa História: Antonieta de Barros

Por Ynaê Lopes dos Santos* No dia 15 de outubro comemoramos o Dia do(a) Professor(a). Uma data que deveria trazer inúmeras reflexões, a começar pela insistência que o Estado brasileiro tem em manter essa profissão no limite da precarização. Mas esse dia também fala sobre a presença negra no magistério. Devemos muito à Antonieta de Barros - responsável pela lei que transformou essa data num marco nacional. “A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os tempos”. Antonieta Barros - Revista Terra. Ano 1, nº17, 1920 Nascida em 1901 em Santa Catarina, criada apenas pela mãe (empregada doméstica que havia nascido como escravizada), Antonieta foi uma das mais importantes professoras da sua época. Ensinando Português e Literatura, Antonieta fundou um Curso Particular para a alfabetização de pessoas carentes, e atuou como docente e diretora do atual Instituto de Educação. Antonieta também fundou jornais e publicou crônicas que tratavam de uma série de assuntos. Atuou na política, tendo sido a primeira deputada negra eleita no Brasil. Participou da constituinte de 1935, sendo responsável pelos capítulos Educação, Cultura e Funcionalismo, até o golpe de Getúlio Vargas. Em 1937 publicou o livro “Farrapo de Ideias” e continuou atuando energicamente em prol do poder transformador da educação, voltando à vida política após a restauração democrática. Suas bandeiras pregavam a educação de qualidade para todos, a luta contra o racismo e a igualdade de condições para as mulheres! Faleceu em março de 1952. “Não será a tristeza do deserto presente que nos roube as perspectivas dum futuro melhor (..), onde as conquistas da inteligência não se degenerem, em armas de destruição, de aniquilamento; onde os homens, enfim, se reconheçam fraternalmente. Será, contudo, quando houver bastante cultura e sólida independência entre as mulheres para que se considerem indivíduos. Só então, cremos existir uma civilização melhor.” Antonieta Barros. Jornal República, 13 de maio de 1932 Uma história e tanto! Uma história que é nossa! Uma história que só torna maior a necessidade de comemorarmos o dia de hoje, não nos esquecendo que professor, é para vida toda. *Ynaê Lopes dos Santos é historiadora e Professora Adjunta de História da América da UFF. Instagram: nossos_passos_vem_de_longe Twitter: @ynaelopes Quer saber mais? MOTT, Maria Lúcia de Barros. Escritoras negras resgatando a nossa história. Coleção Papéis Avulsos,1989. ESPINDOLA, Elizabete M. Antonieta de Barros: Educação, Gênero e Mobilidade Social em Florianópolis na primeira metade do século XX. (Tese de Doutorado em História Social) Programa de Pós-Graduação em História Social. Belo Horizonte: UFMG, 2015. ESPÍNDOLA, Elizabete Maria. ANTONIETA DE BARROS: EDUCAÇÃO, CIDADANIA E GÊNERO PELAS PÁGINAS DOS JORNAIS REPÚBLICA E O ESTADO EM FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX. Disponível em <http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos.6/elizabeteespindola.pdf > Acesso em: 18 de fev. de 2021. Veja o vídeo curta-metragem documentário “Antonieta”, sobre Antonieta de Barros: https://www.youtube.com/watch?v=4gTKJabYgKI Ficha técnica Direção: Flávia Person Roteiro: Flávia Person Produtora: Magnolia Produções Culturais e Ombu Arte Montagem: Yannet Briggiler Edição de Som e Trilha Sonora: Diogo de Haro Pesquisa e Consultoria Histórica: Fausto Douglas Corrêa Júnior Assistência de Produção: Gabi Bresola e Matias Eastman Assessoria de Comunicação: Barbara Pettres Edição de Texto: Fábio Brüggemann Preparação Vocal: Barbara Biscaro Mixagem: Diogo de Haro e Paulo Costa Franco (Estúdio Ouié) As dicas e citações desse artigo foram adicionadas pela equipe editorial da Revista MFM