Edição 6

"La Gringa": O peso da leveza, de Sheila Lopes Leal
"La Gringa": O peso da leveza, de Sheila Lopes Leal

O peso da leveza por Sheila Lopes Leal Gonçalves* Mariza teve um sonho terrível. Estava morta. No sonho, despertava de um outro sonho e acordava num lugar muito iluminado, cercado de pessoas que não conhecia. Quando perguntou onde estava, disseram: “você morreu”. Ela não acreditou, então entregaram a ela algo que era como um espelho mágico, mas parecia um tablete distorcido, e nele ela podia ver o mundo dos vivos, com pessoas chorando a morte dela. E num instante lá estava ela, vagando entre os vivos, observando cada detalhe de seu universo, com uma impressionante clareza. Não podia ser verdade, mas era. E o que ela faria? Porque entre os outros mortos (que também transitavam entre os vivos), ela se sentia mesmo muito viva, muito disposta, com energia para movimentar-se e expandir sua mente, com uma vivacidade eletrizante que até então desconhecia. Acordou com um barulho de trovão ensurdecedor. Chuva de verão. Estava em Buenos Aires há três meses e ainda não sabia muito bem o que fazer da vida. Ela, que sempre soube que jamais deveria se preocupar com essas coisas de “o que fazer da vida, etc e tal”. Na madrugada de relâmpagos, sentou-se na cama, com muito medo. Não da água ou do som, mas de estar sozinha; não naquele momento, mas na vida; não na vida como um todo, talvez apenas naquela cidade. No dia seguinte, apesar de “não ser de igreja, cê sabe”, passou na Catedral Metropolitana e, uma vez lá, sentou e chorou, “igual criança, por uma hora inteirinha”. Agora acho até graça, porque para mim Mariza, sem nem se dar conta, tem uns traços de marxista, especialmente no que diz respeito à religião, que para ela “só confunde a cabeça das pessoas, principalmente as mais humildes... é um tal de entregar na mão de deus, que chega uma hora que a pessoa nem sabe mais que quem manda na vida dela é ela mesma”. Claro que não tem graça nenhuma. Mariza é a pessoa mais leve que já conheci. Foi uma tristeza imensa encontra-la tão frágil e assustada, tão “gente como a gente”. Vejam, Mariza, sobre quem já escrevi antes, é uma das minhas grandes inspirações e aspirações: admiro-a tanto que gostaria de ser como ela. Enfim... Marcamos uma pizza na Güerrin, quando estive na capital argentina para cobrir uma matéria sobre Fórmula E. No meio daquele salão barulhento e cheiroso ela foi me contando o tal sonho e como estava no trabalho, como se sentia, como se virava no portunhol. Ela não leva nada ao pé da letra, se você quer falar sério com ela, tem que dizer com todas as letras: “Mariza, agora eu estou falando sério”. E assim perguntei como ela foi parar naquela cidade linda, mas que carrega qualquer coisa de paulista – e acaba ficando estranha. Então ela começou a contar que foi demitida do último emprego, uma creche no Jardim Botânico onde trabalhava, meio expediente, cuidando das crianças, há 5 anos – tive ganas de perguntar como eu nunca tinha ouvido falar disso, mas. Não. Com a grana do FGTS pensou em dar entrada numa casinha, aquietar, deixar crescer raízes... Não. Resolveu visitar Buenos Aires porque era o que estava em promoção num site de viagens famoso; simples assim. Sem se despedir de ninguém, distribuiu suas coisas entre seus amigos e disse que estava de mudança, que quando soubesse o endereço mandava pra gente. Acho que não fiquei realmente surpreso quando vi um postal com a Casa Rosada. Agora Mariza estava aqui, respirando bons ares e, uma vez mais, se reinventando. Um mês de aulas de yoga, duas semanas de curso de alemão, um affaire na esquina da San Martín com a Calle Reconquista (sempre acho que ela escolhe esses cenários de propósito). “Mas é assim, sabe?, às vezes eu fico tristinha e chorosa, lembro das doideras que fiz, sóbria ou bêbada, tanto faz. Lembro das merdas que falei, dos micos que paguei e sempre acabo rindo sozinha. Sozinha, mas risonha. Tem que ter alguma vantagem, ne?!quédizer?!...”. E nisso, tinha sempre uma letra do Zezé di Camargo & Luciano (ou seria Xitãozinho e Xororó? Sempre confundo) ou mesmo um bom samba para ilustrar qualquer argumento. Cantarolou: “Se eu for pensar muito na vida / Morro cedo, amor / Meu peito é forte, / Nele tenho acumulado tanta dor”. E para mim soava absurdo, vindo de alguém que já morou em Paracambi, vendeu Avon, serviu mesa, foi babá, professora de informática para a 3ª idade na Rocinha, trabalhou em posto de gasolina, morou nos lugares mais loucos e inóspitos que se possa ter ideia e ainda sempre tinha uma piada para contar, um pedacinho de otimismo para dividir com pessoas como eu, sempre infelizes por não conseguirmos passar aquele final de semana em Búzios, comprar um Iphone mais atual ou um ingresso para o novo show do Caetano. Parece que só agora, depois de ter vivido tudo isso, ela, finalmente, estava cansada e solitária. Caminhamos pela Avenida de Mayo – e ela insiste em dizer que se parece com a Rio Branco... – enquanto tomávamos um sorvete e sentíamos aquele pôr do sol depois das 20h. Ali sim, naquele sorriso e bochechas sujas de chocolate, eu vi Mariza. Ao mesmo tempo em que finalmente a vi, sabia que o sonho com a própria morte e as angústias que ela compartilhou comigo (e autorizou publicar, desde que eu usasse as “mesmas palavrinhas” dela) foram apenas momentos isolados, exceções que confirmavam a regra: toda leveza tem seu peso, seu fardo. Nos despedimos na porta do meu hotel e ela se foi, um pouco apressada, dizendo que tinha uma cidade a conquistar. Fiquei ali vendo o caminhar dela, a tempo de ouvir aquela gargalhada inesquecível. *Sheila Lopes Leal Gonçalves é uma das editoras da Revista MFM e já sonhou em ser escritora. Também já sonhou em ser astronauta. Atualmente ela é historiadora e professora dos aprendizes mais incríveis e tem muito orgulho em apoiar sonhos e acompanhar jornadas. Antes da caralha da pandemia ela viajava muito e morou em diferentes países. Imagens do acervo pessoal da autora, cedidas com autorização da Mariza.

Mãos livres
Mãos livres

HERANÇA Maria Cristina Martins* Na aldeia em que meu pai nasceu em Portugal os homens podiam bater nas mulheres Depois soube que em mais lugares os homens podem bater nas mulheres Depois soube que o corpo de Carmem sangrou pelo amor de José e Capitu é um tabu e que Luísa, Gabriela, Madalena, Solange Ana, Karenina e de Assis Desdêmona, Eurídice, Emma, Constance quase todas irreais e tão reais eram culpadas mesmo quando inocentes. Culpadas de quê exatamente? Depois soube que era pior com as mulheres mais pobres com as mulheres negras com as mulheres cujos corpos nasciam para servir um país inteiro. Depois soube que não era amor, que as mulheres eram alienadas do seu próprio corpo, que a culpa era uma roupa feminina costurada por homens. *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora, protomilitante de esquerda e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. Formou-se também em história e fez pós-graduação lato senso a distância pela UnB em Políticas Públicas de Cultura - Patrimônio. Participou da coletânea de contos sobre violência e sexualidade do Observatório de Favelas em 2005 e publicou o (ainda) único livro de poemas "ovos de ferro" pela editora 7letras. NO RASTRO DE UM PÁSSARO Bianca Vilhena* O corpo mente. Sinto aproximar a data em que a irrealidade deste ar terá que ganhar corpo. Agora é apenas desânimo, mas a vida não espera, e eu finjo que não espero nada dela. Meu sangue desce forte, e este parto mal feito de que sofro por não conseguir fazer. Ando sofrendo porque ando não fazendo, não conseguindo fazer. Parece que ao invés do parto necessário, o luto desnecessário, para não dizer impossível, tomou conta de tudo. Sangue negro que não deixa mais que as janelas se abram. Mas até que me sinto bem dentro das minhas quatro paredes. Mudei-me para uma rua chamada Mundo Novo. Mesmo que este mundo novo não nasça, peço para que apenas não morra. E mantenho-me firme, apesar de às vezes manca, em olhar apenas de esguelha da janela. Memórias são como pássaros velozes, que se chocam entre si. E eu só vejo as sombras projetadas na parede em frente. Gostaria de poder chamá-los para a minha gaiola, amansá-los, mostrar que também sangro. Por um instante esqueço que eles são apenas sombras. Enquanto as sombras dançam, o meu corpo mente. Não pode abraçar o mundo, mal abro a portinhola da gaiola. Uma hora dessas, esse parto imenso sairá voando por aí e poderei abraçar meu pranto, mostrar para todos os sorrisos que amo o meu pássaro novo, que nasceu hoje. E que um dia irá morrer. *Bianca Vilhena é carioca, urbana, mas amante do contato com a natureza e tudo o que é mais primordial. Fez geografia como primeira graduação e depois seguiu academicamente com a filosofia. Escreveu uma tese sobre os sonhos em Platão, ama poesia, música e as artes em geral. REUNIÃO Tássia Veríssimo* Na biografia de Rosa Luxemburgo Paul Frölich fala que aqueles homens velhos não conseguiam tolerar a fala firme de uma mulher Mais de século depois homens velhos (ou não) seguem não tolerando mulheres que falam forte Bocas e pernas abertas apenas se for para o prazer (deles) Nos querem submissas As que se posicionam são como moscas que incomodam na sopa dos privilégios Pinschers nos calcanhares do patriarcado Indóceis Sejamos. * Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados. Produtora editorial (UFRJ) e mestra em literatura brasileira (Uerj), é coautora do livro Entre máscaras: histórias do interlúdio, escreve para o jornal Sul Fluminense Notícias e possui a marca de moda poética Insones Poemas (@insonespoemas). COISAS DE MENINO E COISAS DE MENINA Ana Lima* Uma vez por semana faço terapia. Psicanálise. Recomendo. Só acho que o nome poderia ser “Redescobrimento de si”, acho mais apropriado. Como não podemos nos arriscar nesta pandemia, já que tenho que pegar trem e metrô até chegar lá, fazer minhas pobres orelhas aguentarem vários elásticos, trocados assim que as duas máscaras suam, não posso ser insensível com minhas orelhas (daqui a pouco estarão tortas) e não lhes dar uns momentos de diversão e prazer. Então, depois da sessão, fui fazer o que me era proibido por não ser “algo de menina”: andar de bicicleta. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. Maldito machismo que não perdoa nem as meninas de pouca idade... Infelizmente, sempre fui muito obediente, mas me orgulho dos meus poucos atos de “rebeldia” e, um deles, foi aprender a andar de bicicleta escondido quando criança. Depois parei de andar. Fui reaprender ano passado, aos 32. Aqui no Rio, tem uma organização voluntária maravilhosa chamada Bike Anjo Rio. O meu anjo foi o Moisés. Em cerca de 30 minutos, reaprendi. Acho que o tempo voltou e me senti com uns 5 anos de novo. Depois das maravilhosas voltas prazerosas, tomei uma água e polpa de coco, sentei no deque da Lagoa, olhando a contradição da água suja e transparente ao mesmo tempo, olhando as algas, enquanto parecia que o deque se movia. Que sensação maravilhosa... Sentei numa poltrona maravilhosa de madeira e fui ler Drummond de frente pra aquela vista linda, entre gargalhadas solitárias e sustos de uma ave – que suponho que se tivesse que torcer para um time, ela seria flamenguista: era toda preta e a cabeça, vermelha. Bonita. Ganhou um “tchau” de uma criança quando ele foi embora. Mas eu queria discordar de Drummond (com todo respeito, de verdade, não aquele respeito que se diz antes de se dizer algo totalmente desprovido de respeito). Juro que não é despeito por eu não ter podido sentar na cadeira 04 (acho), que Drummond usava na Biblioteca Nacional..., mas de que vale jurar?... Ele disse: “Pois namorar é destino dos humanos, destino que regula nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso. E quem vive, atenção: cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência.” Discordo, pois entendi que não se precisa do “outro” para ser feliz. Não é uma obrigação. Acho que primeiro temos que aprender a “namorar” a nós mesmos, a saber curtir nossa companhia, estar feliz consigo, sem “necessidade” do outro. Que venha como complemento, não como necessidade. Quem acha que precisa de alguém pra ser feliz, pobre dessa pessoa... E voltando à psicanálise, digo, ao redescobrimento de si, concordo com Drummond em seu outro poema, quando diz que, em suas viagens, nós, em nossa necessidade de quer algo novo e explorar e conhecer novos espaços, fala de uns astronautas que, entediados da Terra, decidiram humanizar a Lua, mas se entediaram depois de um tempo lá. Foram à Marte, idem. O mesmo com Vênus, Júpiter, os outros planetas e até com o Sol se entediaram. Depois foram colonizar outros sistemas fora do solar. Acabaram as viagens. Restava apenas “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver.” Redescobrir a si é libertador... Suponho que esses astronautas fugiam de si... Tomara que tenham se encontrado... *Ana Paula Gomes de Lima é assistente social trabalhando na UFRJ, faço doutorado em Serviço Social na UFRJ, tenho 33 anos, divorciada, solteira, sem filhos, amo poesia, trilhas e rir de coisas idiotas kkk, moro em Duque de Caxias .

Respeita a nossa história: Leonor Porto
Respeita a nossa história: Leonor Porto

Por Tássia Fernandes Paris* “Como verdadeira traça foi carcomendo, estragando as traves do edifício negro o célebre ‘Club do Cupim’, que foi um grande exército de abnegados. (...) Nem as senhoras ficaram inactivas: para melhor meio de acção fundaram a Sociedade Ave Libertas, que teve em seu seio, entre outras senhoras notáveis, (...); Leonor Porto, [que] sacrifica os seus interesses, põe o seu atelier de costuras e a sua competência profissional ao serviço desta causa; e contam que muitas vezes a sua habilidade disfarçava alentado molecote em veneranda matrona que conduzida pelo braço de algum membro do citado Club chegava ao caes e (...) embarcava, fugindo (...) para a terra da Luz, em busca da liberdade” (Jornal do Recife, ed. 136, 20 maio 1917). No dia 17 de dezembro de 1840, na cidade do Recife, nasceu Leonor Jorge Bastos, filha de Fortunato Pereira da Fonseca Bastos, comerciante recifense, e Carolina Leopoldina Jorge Bastos, comerciante lisboeta moradora do Recife. Leonor foi batizada com o nome de sua avó materna, Leonor Jorge. Não se sabe ao certo o número de irmãos que Leonor teve, sendo cinco os nomes conhecidos: José Fortunato da Fonseca Bastos, Joaquim Jorge da Fonseca Bastos, Gaspar Bastos, D. Adelaide Bastos Gomes Penna e D. Zulmira Bastos de Souza Monteiro. Passou a assinar Leonor Bastos dos Santos Porto, após o casamento com o comerciante portuense Antonio Augusto dos Santos Porto. Não sabemos ao certo a data do matrimônio. No entanto, na primeira referência em periódicos recifenses, D. Leonor Porto já figura com o seu nome de casada. Esta primeira notícia diz respeito à sua participação em uma festividade da Igreja Católica, em 1873 (Diário de Pernambuco, ed. 8, 11 jan. 1873). Leonor foi bastante atuante nos compromissos religiosos, participando de diversas irmandades e celebrações. Antonio e Leonor tiveram, ao todo, nove filhos que chegaram à vida adulta: Carolina Porto de Carvalho, Antonio Augusto dos Santos Porto (homônimo ao pai), João Augusto dos Santos Porto, Albertina Porto de Oliveira, Adelaide Porto da Silveira, Leonor Porto de Castro, Fortunato Augusto dos Santos Porto, Fausto Tancredo dos Santos Porto e Mario Augusto dos Santos Porto. D. Leonor Porto aparece, a partir do ano de 1879, como modista e costureira, em diversos periódicos do Recife, divulgando seus préstimos para meninas, senhoras e crianças. Seu futuro marido e o futuro cunhado, José Fortunato dos Santos Porto, foram citados, em conjunto com seu pai, Fortunato Bastos, em 1854, no mesmo anúncio do Jornal “O Liberal Pernambucano”, como vendedores de bilhete de loteria na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio (O Liberal Pernambucano, ed. 460, 24 abr.1854) A partir de 1880, Antonio Augusto Porto é citado em diversos anúncios de periódicos da mesma cidade como administrador de uma casa de bilhetes de loteria, a Casa Feliz, situada na mesma praça. Portanto, indo ao encontro com o afirmado por Alcileide Cabral do Nascimento e Noemia da Luz (2012, pp. 130-131), Leonor Porto não era proveniente de nenhuma família de posses ou de renome de Pernambuco, sendo todos comerciantes. Ao que parece, a aproximação de Leonor das damas da sociedade recifense se deu pelo seu trabalho como modista e pela devoção católica. Essa aproximação foi fundamental para que ela adentrasse o círculo abolicionista da cidade, já que, de acordo com Silva e Barreto (2014, p. 51) as mulheres abolicionistas, no Brasil, pertenceram preponderantemente à elite econômica e intelectual do país. As primeiras referências a Leonor Porto ligadas ao movimento abolicionista datam de 1884 e surgem no contexto da divulgação das reuniões da Sociedade de Senhoras Abolicionistas 25 de Março (Diário de Pernambuco, ed.104, 6 maio 1884). Fundada em 20 de abril de 1884, a sociedade passa a ser nomeada, já em sua segunda sessão, como Sociedade Abolicionista Ave Libertas, pois já havia uma sociedade registrada com a denominação “25 de março” (Diário de Pernambuco, ed. 104, 6 maio 1884). Durante o primeiro semestre de 1884, Leonor Porto exerceu a função de tesoureira da Sociedade Ave Libertas. Nesse curto período de tempo, são relatados diversos eventos e espetáculos em que a sociedade participou, seja como organizadora principal, seja como participante em eventos de outras sociedades. Desta maneira, a Sociedade Ave Libertas se consolidou como importante membro na rede de liberdade da cidade do Recife, tecendo diversas parcerias com várias organizações abolicionistas. Em 24 de Agosto de 1884, a Ave Libertas procedeu a uma nova eleição, nomeando Leonor Porto como sua presidente, Ernestina Lopes de Barros como vice, Odila Pompílio como 1ª secretária, Carlota Vilela como 2ª secretária e como tesoureira Flora Guedes Alcoforado (Diário de Pernambuco, ed. 196, 26 ago.1884). A primeira sede da Sociedade Ave Libertas foi instalada no primeiro andar do número 31 da Rua do Imperador. Na edição 205 do Jornal do Recife, dia 10 de setembro de 1885, noticiou-se a festa de aniversário da instalação da sede da Sociedade Ave Libertas, que ocorreu nos salões do Club Carlos Gomes. A solenidade foi iniciada com uma sessão magna da sociedade, na qual, após o discurso da presidente reeleita Leonor Porto, a primeira secretária, Odila Pompílio, realizou a leitura do relatório anual do primeiro ano social do grupo. Neste relatório, prestou-se contas de mais de 200 alforrias conseguidas, por pecúlio ou sem indenização, enfatizando os esforços pessoais da presidente da sociedade para tal feito. Com o fim da escravização de pessoas no Brasil, a 13 de maio de 1888, a Sociedade Ave Libertas, assim como as demais sociedades abolicionistas do país, foi dissolvida. Em nota publicada, no Diário de Pernambuco, na edição 111, no dia 17 de maio de 1888, a diretoria da Sociedade Ave Libertas se pronunciou. Na publicação, intitulada “Ave Libertas”, as sócias reconheciam que a questão não estava resolvida, pois apesar de alcançado o principal objetivo da causa, havia ainda uma tarefa, “a de olhar com desvelo para a sorte” dos libertados. No período imediatamente posterior à abolição, Leonor Porto passou a se dedicar novamente às suas atividades mais corriqueiras, como o ofício de modista e costureira e a devoção à Igreja Católica. No entanto, em 1891, a modista interrompe suas atividades, após a morte de seu esposo, Antônio Augusto Porto, vítima de “sofrimentos cardíacos” (Jornal do Recife, ed.102, 7 maio 1891). Leonor retorna ao ofício, publicando seus anúncios com maior frequência apenas no ano seguinte (Jornal do Recife, ed.258, 13 nov. 1892). Apesar do retorno, nos anos que se sucederam, a modista se dividiu entre o seu ofício e as estadas no Rio de Janeiro, aonde residiam alguns de seus filhos e netos. Leonor decide por se mudar de forma definitiva para a capital da República em 1897, constituindo leiloeiro para os seus objetos e mobília (Jornal do Recife, ed.43, 23 fev. 1897). A líder abolicionista embarcou para o Rio de Janeiro, via Bahia, em 15 de abril de 1897 (Jornal do Recife, ed.86, 18 abr.1897). Na edição 32, Jornal do Recife de 8 de fevereiro de 1901, noticiou-se a morte de D. Leonor Porto, ocorrida no dia 6 de fevereiro deste ano. Não é noticiada a causa da sua morte. Para homenageá-la, no âmbito das comemorações pela Abolição, em maio de 1902, renomeou-se uma rua: a Rua da Conquista, no bairro da Soledade, passou a ser denominada rua D. Leonor Porto (Diário de Pernambuco, ed.107, 13 maio 1902). Da mesma forma, uma escola também foi nomeada com sua homenagem, datando a primeira referência a ela em 1919 (Diário de Pernambuco, ed.118, 5 maio 1919). A Escola Leonor Porto situava-se no Recife, na rua Padre Floriano, nº80, mantida pela Liga Pernambucana contra o Analphabetismo (Diário de Pernambuco, ed.17, 20 jan. 1922). Nas edições dos periódicos recifenses de comemorações e homenagens ao dia 13 de maio, Leonor Porto é citada entre os principais líderes do movimento abolicionista do Recife, sendo referida como “à vanguarda da grande campanha” (Jornal do Recife, ed.129, 14 maio 1929), “ilustre abolicionista pernambucana” (Diário de Pernambuco, ed. 209, 1º ago. 1918), “distinta pernambucana, cujo nome se acha ligado (...) à história gloriosa da propaganda abolicionista” (Diário de Pernambuco, ed. 21, 27 jan.1897). Apesar de ter sido fundada em um momento de radicalização do movimento, a Sociedade Ave Libertas tinha em seu estatuto (FERREIRA, 1999, p. 205), logo no artigo 1º, parágrafo 1º Art 1º - Fica criada no Recife uma associação abolicionista com a denominação de Sociedade Ave Libertas, cujos fins são: §1º - Promover a libertação de todos os escravos do município do Recife por todos os meios lícitos e legais ao seu alcance. [grifo nosso]. Portanto, em sua maior diretriz, as sócias do Ave Libertas, no primeiro artigo, deixaram claro que agiriam conforme a lei. Todavia, encontramos relatos que as identificavam como umas das principais articuladoras da luta clandestina contra a escravização no Recife. Contrariando o que foi posto neste estatuto, Leonor e outras sócias teriam participado de diversas ações ilegais realizadas pelo abolicionismo radical recifense, especialmente nas fugas de escravos para a província do Ceará, encabeçadas pela associação clandestina Club do Cupim. A modista teria, por diversas vezes, utilizado seus dotes de costura para disfarçar “molecotes” como “matronas” (Jornal do Recife, ed.136, 20 maio 1917). Os garotos eram conduzidos, disfarçados por Leonor Porto como damas, até o cais do Recife por um membro do Club do Cupim, enquanto José Mariano, político liberal muito popular e um dos líderes abolicionistas mais conhecidos da cidade, distraía as autoridades, puxando conversa. Desta maneira, o rapazola embarcava, rumo à província livre do Ceará. Outra contribuição de Leonor e de suas sócias era esconder escravizados fugidos em suas casas, até que a rede clandestina pudesse estabelecer um plano de fuga seguro (Jornal do Recife, ed.128, 13 maio 1914 e Diário de Pernambuco, ed. 109, 11 maio 1938). Assim, de acordo com esses relatos e com o excerto referenciado na abertura deste ensaio, a Sociedade Ave Libertas foi fundada como um ramo legal das ações abolicionistas de suas associadas. A perseguição aos abolicionistas, engendrada a partir de 1884, com a ascensão do Gabinete Cotegipe, teria sido o mote para a criação desta associação, como um meio de autoproteção e desvinculação destas mulheres das possíveis punições às quais estariam sujeitas, se pegas em atividades ilegais. O fato de estes relatos serem praticamente ignorados e a real dimensão da participação feminina no movimento abolicionista brasileiro ser pouco estudada demonstra a urgência em aprofundar tais investigações. *Tássia Fernandes Paris é historiadora e professora de história, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora da Humanas – Pesquisadoras em rede e membra do Grupo de Estudos Feministas Dandara dos Palmares. Pesquisa escravidão, diáspora africana, abolição e mulheres abolicionistas. Mora na Paraíba, na cidade de Cuité, com dois filhos, seu companheiro e cinco cachorros, fora os peixes. Referências bibliográficas FERREIRA, Luzilá Gonçalves. Suaves Amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste. Recife: Universitária da UFPE, 1999. NASCIMENTO, Alcileide Cabral do; LUZ, Noemia Maria Queiroz Pereira da. Liberdade, transgressão e trabalho: cotidiano das mulheres na cidade do Recife (1870-1914). Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 5, n. 1, jan-jul., 2012, pp. 126-149. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos; LEANDRO, Jacilene de Lima. As mulheres e o movimento abolicionista: participação e engajamento (Recife, 1880-1888). Gnarus Revista de História, vol. X, n. 10, set 2019, pp. 48-55. SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos. O 25 de março de 1884 e a luta pela libertação dos escravos em Pernambuco. Clio Revista de Pesquisa Histórica, vol. 33, n. 2, jul-dez 2015, pp. 158-180. SILVA, Wladimir Barbosa; BARRETO, Maria Renilda N. Mulheres e abolição: protagonismo e ação. Revista da ABPN, vol. 6, n. 14, jul-out 2014, pp. 50-62. Referências da imagem Retrato utilizado como capa do jornal Ave Libertas, publicado em 1885, no Recife, pela Tipografia Mercantil, em homenagem ao primeiro ano de fundação da Sociedade Ave Libertas. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=731935&pesq=%22Ave%20libertas%22&pagfis=

Traduções: Florence Vierendeel
Traduções: Florence Vierendeel

Nessa última edição de 2020, optamos por traduzir dois textos que fazem um balanço ou retrospectiva do ano, observando questões políticas, sociais e afetivas tornadas mais evidentes e urgentes pela pandemia. Ainda que os artigos sejam relativos aos contextos belga e norte-americano, eles abordam temas como: violência contra a mulher na crise sanitária, saúde mental, acesso à rede pública de saúde e/ou redes públicas de apoio, racismo, violência policial e, finalmente, solidariedade. Trata-se, assim, de questões prementes em todos os países do globo, sobre as quais devemos refletir para, quem sabe, tentar nos reconstruir, enquanto sociedades, em novas bases. Covid 19 e violências contra as mulheres : quais impactos? Florence Vierendeel* Introdução Na Bélgica, a crise sanitária do Covid-19 gerou, em março de 2020, a implementação de medidas de urgência pelas autoridades públicas, confinando a população durante muitos meses. Como nós sabemos hoje, este recuo para dentro dos lares colocou à prova tanto a saúde física quanto mental das cidadãs e dos cidadãos. E as mulheres, intimidadas pelo patriarcado, sofreram ainda mais as consequências.[2] Entre a sua representação excessiva nas profissões da linha de frente (enfermeiras, educadoras, cuidadoras, faxineiras, caixas, etc.), a ocupação (em muitos casos exclusiva) com o cuidado das crianças e das tarefas domésticas ou a fabricação de material de proteção (máscaras, aventais), para muitas delas, as consequências desta pandemia oscilam entre precariedade acentuada, sobrecarga mental, esgotamento ou ainda dificuldades psicológicas.[3] A pesquisa feita pelo Instituto de Saúde Pública Sciensano, avaliando o impacto da crise sanitária sobre os residentes belgas, indicou que 24% das mulheres sofriam de distúrbios de ansiedade durante este período, contra 16% dos homens.[4] E as violências contra a mulher, longe de se atenuarem, se intensificaram. De fato, este contexto inédito sacudiu nossos modos de vida e nos levou a adotar novos comportamentos. Trocas virtuais intensas, menos frequentação do espaço público, contatos sociais reduzidos… Todos estes ajustes acentuaram, infelizmente, a vulnerabilidade das mulheres diante das violências que de elas são vítimas cotidianamente. Lembremos que na Bélgica aproximadamente 98% das mulheres declaram já ter sido vítima de assédio no espaço público[5] e que, segundo as últimas estimativas da Anistia Internacional e SOS Viol, uma mulher a cada 5 já foi vítima de estupro ao longo de sua vida.[6] Como movimento de educação permanente feminista, progressista, de esquerda e mutualista, nos parece essencial analisar as diferentes facetas deste fenômeno bem como a maneira como nossa sociedade reagiu, ou não, ante a urgência e às questões colocadas por esta problemática no período de confinamento, que sempre esteve no centro de nossas lutas. O confinamento, novo inimigo na luta contra a violência às mulheres? As violências contra as mulheres são múltiplas. Entre assédio virtual, no espaço público ou no local de trabalho, violências sexuais, psicológicas ou intrafamiliares… Nenhuma esfera da vida está poupada da insegurança de que pode ser vítima. Essas violências se inscrevem na realidade em uma sociedade que possui, de longa data, uma bagagem patriarcal que se traduz na dominação das mulheres pelos homens. E é porque elas são mulheres que são vítimas dessas violências, razão pela qual também se utiliza o termo “violência de gênero”. Já onipresente, esta violência sistêmica[7] se acentuou durante o confinamento. Diante das condições de vida impostas por essa medida drástica, a preocupação dos profissionais da área imediatamente se voltou para os casos de violência entre parceiros. Isolamento social reforçado, promiscuidade com o agressor[8], presença contínua das crianças, tensões relativas ao contexto sanitário e econômico…. Esses fatores combinados a um acesso reduzido aos serviços de apoio colocaram um bom número de mulheres e de crianças em perigo[9], notadamente em razão da multiplicação e do agravamento dos episódios de violência. Na Bélgica francófona, a linha gratuita “Escuta violências conjugais” registrou um aumento de três vezes nas chamadas diárias durante a crise sanitária[10], refletindo a necessidade, ainda mais premente em um tal contexto (para as vítimas, mas também para seus próximos e suas famílias) de serem escutados(as) e de obter apoio.[11] De maneira generalizada na Europa a Organização Mundial da Saúde (OMS) constatou em abril de 2020 um aumento de 60% das chamadas de mulheres vítimas de violências entre parceiros.[12] Essas estatísticas ilustram inequivocamente a gravidade da situação na qual estas mulheres foram colocadas, sem que qualquer medida de acompanhamento específico tenha sido previamente estabelecida. No entanto, estes perigos ligados às medidas sanitárias adotadas não se manifestaram somente dentro de casa. O assédio de rua é um exemplo marcante. Muitas mulheres assinalaram que na ausência de testemunhas no espaço público, suas raras saídas eram mais frequentemente pontuadas por olhares insistentes, assobios e mesmo insultos.[13] Este testemunho, recolhido no contexto de nossa pesquisa online intitulada “Des(confinamento) e você? Palavras depois ações!”[14], confirma essa constatação: “A dificuldade de sair da minha casa. Não por falta de recursos, pois sou uma pessoa válida, mas porque a rua se tornava novamente e ainda mais que habitualmente um lugar de insegurança, com homens que tomavam plenamente posse do território e em toda impunidade. Mais que o usual. Então eu quase não saí”. Para se proteger, as mulheres preferiram então os lugares mais frequentados, apesar dos conselhos de segurança sanitária e/ou elas evitaram de ir passear. Diante das agressões que potencialmente as ameaçam em cada esquina, elas se sentiram compelidas a correr riscos para a saúde e /ou ficar em casa, sem poder se beneficiar das mesmas liberdades que o resto da população. Essa constatação é ainda mais premente para as mulheres que residem em locais pequenos, sem varandas ou jardins. Enfim, se a utilização massiva da internet e das redes sociais tentou compensar a falta de contatos presenciais, entretanto, as mulheres também não se expressam mais livremente ali. Aqui também, os efeitos do confinamento, tais quais o aumento da audiência e da propagação de imagens, levaram a uma explosão de casos de assédio online, e mais particularmente de “pornografia de vingança” (revenge porn).[15] Ora, essas práticas que consistem em compartilhar, distribuir e difundir conteúdos de caráter sexual sem o consentimento da pessoa envolvida representam agressões sexistas bem reais.[16] Frequentemente alimentados por múltiplos comentários maliciosos, esses ataques visam denegrir diretamente as mulheres, culpabilizá-las e criticar sua sexualidade.[17] As consequências sobre a vítima, frequentemente menor de idade e ainda mais isolada e vulnerável no período de crise sanitária, podem ser devastadoras: problemas de sono, ansiedade, ensimesmamento e mesmo tentativas de suicídio.[18] Assim, o período de confinamento, já desafiador, significou para as mulheres uma recrudescência de todas as formas de violência contra elas. Tanto o espaço privado como o público ou o virtual são susceptíveis de trazer sua cota de agressões, que as bloqueiam, oprimem e as levam, em alguns casos, a adotar comportamentos de evitação[19], em detrimento de seu próprio bem-estar e do gozo de seus direitos. Porque como indica a Convenção de Istambul[20], estas violências constituem “uma violação de seus direitos humanos e uma forma extrema de discriminação”, o que perpetua as desigualdades entre as mulheres e os homens.[21] O Estado, como garantidor desses direitos, desempenha então um papel fundamental na luta contra essas violências, através, como preconiza a convenção, da prevenção, da proteção das vítimas, da acusação dos autores e da adoção de política integradas.[22] As associações de base, único baluarte? Foram, antes de tudo, as associações especializadas no combate à violência contra a mulher que, desde o início do confinamento, lançaram o grito de alerta e decidiram, imediatamente, desenvolver novas parcerias a fim de assistir, ou mesmo socorrer as mulheres em situações de sofrimento e, quando necessário, suas crianças. É o caso notadamente de muitas equipes em Centros de Planejamento familiar das Mulheres Previdentes Socialistas (CPF-FPS) que continuaram a fornecer linhas diretas, a responder mensagens recebidas por e-mail e prosseguir alguns acompanhamentos psicológicos.[23] A manutenção e a acessibilidade desses serviços de primeira linha foram as primeiras questões levantadas pelas estruturas em questão. No entanto, estes dispositivos não são sempre suficientes, notadamente para proteger de forma eficaz as mulheres vítimas de violência entre parceiros. Especialmente o confinamento limitou fortemente as suas possibilidades de momentos de trégua (como ir ao trabalho, pegar as crianças na escola, fazer as compras, etc.), permitindo a elas se afastar, um instante, de violências psicológicas, verbais, físicas e/ou sexuais perpetradas por seus companheiros, já que o apoio telefônico se mostrou particularmente difícil pois o agressor também estava, na maioria das vezes, sempre presente em casa. Esse contexto complexificou então a criação e/ou a conservação de vínculos com esse público particularmente vulnerável. Quanto à possibilidade de recorrer às forças da ordem, além das reticências habituais e legítimas levantadas pelas vítimas (medo da minimização dos fatos, de um discurso estereotipado ou culpabilizante, procedimentos exaustivos, ausências de resultados conclusivos…)[24], a disponibilidade dos agentes e sua capacidade de ação estavam longe de ser garantidas em todos os locais, mesmo se certas zonas de polícia, como Bruxelas-Norte, implementaram um protocolo de entrar em contato com todas as vítimas de violência intrafamiliar que prestaram queixa três meses antes do confinamento, assim como com os perpetradores presumidos.[25] Diante dessa situação, as estruturas especializadas se mostraram proativas, propondo e reclamando, sem prazos, soluções junto à administração e autoridades locais onde elas estão presentes. Em Liège, por exemplo, desde o mês de abril, uma parceria foi desenvolvida entre a cidade, a polícia, as CPAS, as farmácias, as livrarias e as associações, notadamente feministas, a fim de lançar a campanha “Farmacêuticas e livreiras: minhas confidentes” permitindo às vítimas pedir ajuda de maneira segura em locais acessíveis durante o confinamento.[26] Esse projeto local, se inspirando no que foi feito na França ou na Espanha, acabou sendo estendido por toda a Bélgica.[27] Enquanto que em Namur, o serviço “Não vale a pena tentar”[28], em colaboração com as antenas regionais das FPS e da Vie Féminine, tomou a iniciativa de redigir cartas ao conjunto dos prefeitos das 38 comunas da Província a fim de pedir a eles para colocar à disposição quartos de hotéis, albergues e alojamentos temporários para as vítimas de violências conjugais e suas crianças, em respeito às medidas sanitárias. Em resposta a essa demanda, a cidade de Namur implementou um local de acolhimento de urgência temporário com 25 camas.[29] Tendo em vista a saturação das estruturas existentes, a questão do número de locais de alojamento disponíveis mobilizou efetivamente o conjunto de atrizes/atores de base.[30] O problema é, no entanto, constantemente denunciado pela sociedade civil - que é indispensável na luta contra a violência à mulher, sendo tanto propulsora de projetos de base como a voz de reivindicações múltiplas. Na espera de políticas globais, pensadas a longo prazo Como pudemos ver, diante da urgência, muitas colaborações se criaram no nível local entre o mundo associativo e político. Estas novas redes de solidariedade puderam se organizar rapidamente a fim de levar soluções concretas às mulheres vítimas de violência. Paralelamente, muitas entidades federadas[31] se reuniram através de uma força tarefa[32] “Violência conjugal e intrafamiliar” no início de abril a fim de adotar medidas para prevenir esse aumento das violências.[33] Isto permitiu o desbloqueio dos orçamentos e implementar algumas ações, tais com uma campanha de sensibilização nas redes sociais relembrando os números dos serviços de urgência, de escuta e de apoio.[34] Uma tomada de consciência ocorreu então junto aos representantes políticos e a cobertura midiática permitiu à opinião política questionar-se sobre o assunto. Mas isso está longe de ser suficiente. Em primeiro lugar, porque no nível local, a disparidade entre as comunas belgas em termos de meios financeiros e humanos segue sendo grande, e em segundo lugar, porque se tratam de respostas temporárias, que surgiram do caráter inédito da crise sanitária, e que se concentram majoritariamente sobre uma única forma de violência à mulher: a violência entre parceiros. Enfim, a responsabilidade diluída entre as eleitas e os eleitos políticos, entre entidades federadas e o nível federal impediu a implementação de medidas integradas, no entanto essenciais para responder eficazmente a essa questão de saúde pública maior. Assim, que nossa sociedade atravesse, ou não, uma crise sanitária, a Convenção de Istambul, ratificada desde 2016 pela Bélgica, impõe a tomada de certo número de medidas para lutar de forma eficiente contra a violência à mulher, tais como a integração global de uma perspectiva de gênero, a criação de novos lugares em estruturas de acolhimento de urgência, a formação dos profissionais de primeira linha - as forças de ordem, ou ainda a adoção de orçamentos dedicados à prevenção. Essas medidas requerem a elaboração de políticas globais, perenes e coordenadas, financiadas em conformidade. A urgência da crise demonstrou as alavancas de ação disponíveis aos diferentes níveis de poder, de modo que é possível agir agora. As reivindicações nesta área, há muito levantadas pela sociedade civil[35], já não podem ser ignoradas pelas autoridades belgas. *Florence Vierendeel, criminóloga, responsável e analista de estudos das FPS - Femmes prevoyantes socialistes www.femmesprevoyantes.be. E-mail:Florence.vierendeel@solidaris.be Traduzido por Thaís Tanure Revisão de Gabriela Mitidieri Texto original disponível em: https://www.femmesprevoyantes.be/wp-content/uploads/2020/11/Analyse2020-Violences-et-confinement.pdf Bibliografia Artigos de imprensa : Belga, « Coronavirus : la Wallonie, Bruxelles, la FWB et la Cocof lancent une task force "violences conjugales " », La Libre, 27 mars 2020, https://bit.ly/31NdPZk. Belga, « Coronavirus et violences conjugales : jusqu’à 60% d’appels d’urgence en plus en Europe selon l’OMS », RTBF, 7 mai 2020, https://bit.ly/2ZuH950. Belga, « Les Belges plus anxieux et dépressifs avec le confinement », Le Soir, 18 avril 2020, https://bit.ly/31CmGhe. Belga, « Violences conjugales : résolution approuvée pour un système d’alerte avec les pharmacies », RTBF, 11 juin 2020, https://bit.ly/3oi07aD. BRICHARD David, LEPAGE Stéphanie, « Coronavirus : les appels à l’aide pour violences conjugales se multiplient », RTBF, 11 avril 2020, https://bit.ly/3e29CWR. DAMGÉ Mathilde, « L’accroissement des inégalités femmes-hommes pendant le confinement en graphiques », Le Monde, 9 juillet 2020, https://bit.ly/34buU0P. KLARIC Marianne, « Un Belge sur deux victime de violences sexuelles : les chiffres édifiants d’Amnesty International et SOS Viol », RTBF, 5 mars 2020, https://bit.ly/3dKM888. LORENZO Sandra, « Face au coronavirus et au confinement, pourquoi les femmes paient un si lourd tribut », Huffington Post, 10 mai 2020, https://bit.ly/31oTxp0. PRINS, Aliou, « Violences conjugales : les lignes d’écoute pour victimes surchauffent », Moustique, 15 avril 2020, https://bit.ly/3dTmXyT. SEMAH, Hassina, « Inégalités et violences, la face cachée du confinement », RTBF, 23 mars 2020, https://bit.ly/3io2ntM. VANDERKELEN Louise, « 98% des femmes victimes de harcèlement de rue », La Libre, 6 mars 2017, https://bit.ly/34cUnqw. WERNAERS Camille, « Le confinement n’arrête pas le harcèlement de rue », RTBF, 14 avril 2020, https://bit.ly/2BmWJI0. WERNAERS Camille, « Sur internet, le harcèlement s’accentue aussi avec le confinement », RTBF, 22 avril 2020, https://bit.ly/31yx4qm. Análises e estudos: STULTJENS Eléonore, VIERENDEEL Florence, « La crise sanitaire du Covid-19 : partir du vécu des citoyen·ne·s pour réinventer le monde de demain », Étude FPS, 2020, https://bit.ly/35f1gXJ. 11 Covid-19 et violences faites aux femmes : quels impacts ? VIERENDEEL Florence, « La Convention d’Istanbul : la Belgique en situation d’état d’urgence face aux violences à l’égard des femmes », Analyse FPS, 2019, https://bit.ly/2GTSKFD. Relatório: COALITION ENSEMBLE CONTRE LES VIOLENCES, « Évaluation de la mise en oeuvre de la Convention d’Istanbul Rapport Alternatif de la Belgique », 2019, https://bit.ly/3evsXzL. Documento jurídico: CONSEIL DE L’EUROPE, Convention du Conseil de l’Europe sur la prévention et la lutte contre la violence à l’égard des femmes et la violence domestique, 11 mai 2011, https://bit.ly/2T5hEV0. Páginas da web: BALLOUT, Marion, « Revenge porn : critique d’un phénomène social », Collectif contre les violences familiales et l’exclusion (CVFE), Décembre 2018, https://bit.ly/3dVTcgR. NUNCIC Pascaline, « Pourquoi les victimes gardent-elles le silence ? », Fédération des Centres de Planning familial des Femmes Prévoyantes Socialistes (FCPF-FPS), https://bit.ly/2ThVAH1. Ville de Namur, « Covid-19 // Violences intrafamiliales et conjugales : un lieu temporaire pour les victimes », https://bit.ly/37yHtp5. Ville de Liège, « Les confident·e·s de la période du confinement », https://bit.ly/2YPX6DI. Notas: [2] DAMGÉ Mathilde, « L’accroissement des inégalités femmes-hommes pendant le confinement en graphiques », Le Monde, 9 de julho de 2020, https://bit.ly/34buU0P (Consultado em 15 de outubro de 2020). [3] LORENZO Sandra, « Face au coronavirus et au confinement, pourquoi les femmes paient un si lourd tribut », Huffington Post, 10 de maio de 2020, https://bit.ly/31oTxp0 (Consultado em 15 de outubro de 2020). [4] Belga, « Les Belges plus anxieux et dépressifs avec le confinement », Le Soir, 18 de abril de 2020, https://bit.ly/31CmGhe (Consultado em 15 de outubro de 2020). [5] VANDERKELEN Louise, « 98% des femmes victimes de harcèlement de rue », La Libre, 6 de março de 2017, https://bit.ly/34cUnqw (Consultado em 15 de outubro de 2020). [6] KLARIC Marianne, « Un Belge sur deux victimes de violences sexuelles : les chiffres édifiants d’Amnesty International et SOS Viol », RTBF, 5 de março de 2020, https://bit.ly/3dKM888 (Consultado em 15 outubro de 2020). [7] Que se inscreve em um sistema considerado em seu conjunto, no caso, a organização de nossa sociedade. [8] Tendo em vista o caráter sistêmico da violência contra a mulher, que é a violência de gênero, as FPS optaram por não utilizar os termos “perpetrador” ou “agressor”, inclusive, por se tratar de uma maioria de homens. [9] EMAH, Hassina, « Inégalités et violences, la face cachée du confinement », RTBF, 23 de março de 2020, https://bit.ly/3io2ntM (Consultado em 19 outubro de 2020). [10]PRINS, Aliou, « Violences conjugales : les lignes d’écoute pour victimes surchauffent », Moustique, 15 de abril de 2020, https://bit.ly/3dTmXyT (Consultado em 19 de outubro de 2020). [11] BRICHARD David, LEPAGE Stéphanie, « Coronavirus : les appels à l’aide pour violences conjugales se multiplient », RTBF, 11 de abril de 2020, https://bit.ly/3e29CWR (Consultado em 19 de outubro de 2020). [12] Belga, « Coronavirus et violences conjugales : jusqu’à 60% d’appels d’urgence en plus en Europe selon l’OMS », RTBF, 7 de maio de 2020, https://bit.ly/2ZuH950 (Consultado em 19 de outubro de 2020). [13] WERNAERS Camille, « Le confinement n’arrête pas le harcèlement de rue », RTBF, 14 de abril de 2020, https://bit.ly/2BmWJI0 (Consultado em 19 de outubro de 2020). [14] Voltada para residentes na Bélgica, esta pesquisa foi realizada entre 11 de maio e 11 de junho de 2020 com o objetivo de identificar as dificuldades que elas/eles encontraram durante as medidas restritivas impostas pela crise sanitária, bem como suas aspirações para o mundo de amanhã. Para mais informações, particularmente sobre a análise dos resultados: STULTJENS Eléonore, VIERENDEEL Florence, « La crise sanitaire du Covid-19 : partir du vécu des citoyen·ne·s pour réinventer le monde de demain », Étude FPS, 2020, https://bit.ly/35f1gXJ (Consultado em 19 de outubro de 2020). [15] WERNAERS Camille, « Sur internet, le harcèlement s’accentue aussi avec le confinement », RTBF, 22 de abril de 2020, https://bit.ly/31yx4qm (Consultado em 19 de outubro de 2020). [16] BALLOUT, Marion, « Revenge porn : critique d’un phénomène social », Collectif contre les violences familiales et l’exclusion (CVFE), Dezembro de 2018, https://bit.ly/3dVTcgR (Consultado em 19 outubro de 2020). [17] WERNAERS Camille, « Sur internet, … », op. cit. [18] Ibid. [19] Por exemplo, não sair na rua depois de um certo horário, evitar de vestir certas roupas, se censurar nas redes sociais, etc. [20] A Convenção do Conselho da Europa sobre a prevenção e a luta contra a violência à mulher e a violência doméstica (Convenção de Istambul) é um tratado europeu restritivo, ratificado pela Bélgica em 14 de março de 2016. Para mais informações: VIERENDEEL Florence, « La Convention d’Istanbul : la Belgique en situation d’état d’urgence face aux violences à l’égard des femmes », Analyse FPS, 2019, https://bit.ly/2GTSKFD (Consultado em 15 de outubro de 2020). [21] CONSEIL DE L’EUROPE, Convention du Conseil de l’Europe sur la prévention et la lutte contre la violence à l’égard des femmes et la violence domestique, 11 de maio de 2011, Exposé des motifs, https://bit.ly/2T5hEV0 (Consultado em 19 de outubro de 2020). [22] Ibid. [23] Afirmações recolhidas em uma entrevista realizada com Linda Culot, coordenadora do Centro de Planejamento familiar (CPF) de Namur e do serviço de acolhimento, de orientação e de acompanhamento das vítimas de violências conjugais “Não vale a pena tentar”. [24] NUNCIC Pascaline, « Pourquoi les victimes gardent-elles le silence ? », Fédération des Centres de Planning familial des Femmes Prévoyantes Socialistes (FCPF-FPS), https://bit.ly/2ThVAH1 (Consultado em 21 de outubro de 2020). [25] BRICHARD David, LEPAGE Stéphanie, « Coronavirus : … », op. cit. [26] Ville de Liège, « Les confident·e·s de la période du confinement », https://bit.ly/2YPX6DI (Consultado em 21 de outubro de 2020). [27] Belga, « Violences conjugales : résolution approuvée pour un système d’alerte avec les pharmacies », RTBF, 11 juin 2020, https://bit.ly/3oi07aD (Consultado em 21 de outubro de 2020). [28] Serviço de acolhimento, de orientação e de acompanhamento de vítimas de violências conjugais. [29] Ville de Namur, « Covid-19 // Violences intrafamiliales et conjugales : un lieu temporaire pour les victimes », https://bit.ly/37yHtp5 (Consultado em 21 de outubro de 2020). [30] Ibid. [31] A Federação Valônia-Bruxelas, a região valona, a Região de Bruxelas-Capital e a Comissão comunitária francesa. [32] Grupo temporário criado para cumprir uma missão específica. [33] Belga, « Coronavirus : la Wallonie, Bruxelles, la FWB et la Cocof lancent une task force "violences conjugales" », La Libre, 27 mars 2020, https://bit.ly/31NdPZk (Consultado em 26 de outubro de 2020). [34] Ibid. [35] Para mais informações, ver COALITION ENSEMBLE CONTRE LES VIOLENCES, « Évaluation de la mise en œuvre de la Convention d’Istanbul Rapport Alternatif de la Belgique », 2019, https://bit.ly/3evsXzL. Créditos de imagem Imagem da capa: Action contre les violences faites aux femmes, à Bruxelles, le 22 novembre, 2020. - © NICOLAS MAETERLINCK - BELGA Imagem interna: https://www.femmesprevoyantes.be/2020/11/24/analyse-2020-evaluation-de-la-mise-en-application-de-la-convention-distanbul-en-belgique-stop-a-linaction-politique/

Traduções: Stephanie Sacharek
Traduções: Stephanie Sacharek

Nessa última edição de 2020, optamos por traduzir dois textos que fazem um balanço ou retrospectiva do ano, observando questões políticas, sociais e afetivas tornadas mais evidentes e urgentes pela pandemia. Ainda que os artigos sejam relativos aos contextos belga e norte-americano, eles abordam temas como: violência contra a mulher na crise sanitária, saúde mental, acesso à rede pública de saúde e/ou redes públicas de apoio, racismo, violência policial e, finalmente, solidariedade. Trata-se, assim, de questões prementes em todos os países do globo, sobre as quais devemos refletir para, quem sabe, tentar nos reconstruir, enquanto sociedades, em novas bases. 2020 nos testou além da medida. Para onde vamos daqui? Por Stephanie Sacharek* Houve anos piores na história dos Estados Unidos e, certamente, piores anos na história mundial, mas a maioria de nós vivos hoje não viu nada como este. Você precisaria ter mais de 100 anos para se lembrar da devastação da Primeira Guerra Mundial e da pandemia de gripe de 1918; cerca de 90 para ter uma noção da privação econômica causada pela Grande Depressão; e estar em seus 80 anos para reter qualquer memória da Segunda Guerra Mundial e seus horrores. O restante de nós não teve qualquer preparo[1] para isso - para a recorrência de desastres naturais que confirmam o quanto traímos a natureza; para uma eleição disputada com base na fantasia; para um vírus que se originou, possivelmente, com apenas um morcego para virar de cabeça para baixo a vida de praticamente todos no planeta e acabar com a vida de cerca de 1,5 milhão de pessoas em todo o mundo. Meu trabalho como crítica de cinema é olhar para os filmes e descobrir suas conexões com o mundo e com nossas vidas. Se 2020 fosse um filme distópico, você provavelmente o desligaria após 20 minutos. Este ano não foi terrivelmente emocionante, como um apocalipse fictício. Foi, além de forjado pela dor, irritantemente mundano, a rotina do dia a dia voltada contra nós. Nossa ameaça mais debilitante este ano foi a sensação de desamparo, e ela correu solta. Embora seja universal entre os humanos acreditar em sua própria fortaleza, os americanos, em particular, estão condicionados a acreditar que podem triunfar sobre qualquer crise. Mas, desde a propagação do fascismo na década de 1930 - uma ameaça que a América não reconheceu ativamente até o amanhecer da década de 1940 -, não havíamos enfrentado tantos eventos anormais que foram distorcidos de forma tão flagrante por lideranças aberrantes. Enfrentamos o indizível, apenas para sermos tortuosamente assegurados de que nada disso era grande coisa. Um vírus irá “desaparecer” magicamente. Não se preocupe, todos os votos serão contados - talvez. A América será grande de novo, se todo mundo simplesmente voltar ao trabalho - e, embora máscara seja opcional, usar uma certamente faz você parecer idiota. Gaslighting tem sido uma característica importante da vida cívica americana desde 2016, mas em 2020 atingiu novos patamares de excentricidade, fazendo muitos de nós sentirmos como se tivéssemos sido empurrados para o outro lado do espelho. Passamos incontáveis ​​horas presos em casa e conectados à frequentemente não confiável mente coletiva[2] das redes sociais, torcendo as mãos e apontando as injustiças, apenas para acabar se sentindo ainda mais paralisado pelas mesmas pessoas que deveriam nos proteger. O inimigo buscou nos dividir e conseguiu. E COVID-19, ao que parece, foi o maior presente que o inimigo poderia ter esperado. O desamparo encontrou seu gêmeo do mal, um parceiro no crime que apenas aumentaria seu poder louco: o isolamento. Em março, quando as principais cidades dos EUA se juntaram a outras em todo o mundo para se protegerem contra o vírus, os americanos que podiam trabalhar remotamente descobriram como fazer seu trabalho em casa. Muitos não tiveram esse privilégio e perderam seus empregos, sem meios para pagar o aluguel ou hipoteca e sem ter como alimentar suas famílias. A fome se tornou um grande tema de 2020, apresentando desafios até mesmo em países com instrumentos para amenizá-la. Ao mesmo tempo, pais em todo o mundo, não importando seus meios, se apressaram para cuidar - e educar em casa - seus filhos. Enquanto isso, trabalhadores essenciais, de balconistas de mercearia a profissionais de transporte, enfermeiras e médicos de hospitais, continuaram a comparecer ao serviço. Víamos clipes de profissionais de saúde no noticiário, seus rostos marcados por horas de uso de EPI, seus olhos pesados ​​de cansaço. Às vezes, incapazes de conter as lágrimas, eles descrevem uma novidade em sua rotina diária: assistir aos pacientes morrerem quando eles não podiam mais mantê-los vivos. Em um horário designado todas as noites, muitos de nós nos inclinamos para fora de nossas janelas, armados com potes e colheres de madeira ou apenas com nossa cacofonia esquisita de vozes humanas, e levantamos um tumulto em apoio a esses trabalhadores. Era o mínimo que podíamos fazer, numa época em que não tínhamos ideia do que fazer. Isso começou em março, o início de um período em que a maioria de nós se sentia envolta em nossos próprios globos de neve solitários, olhando para um mundo que parecia estar se desintegrando. Realisticamente, o mundo havia começado a desmoronar muito antes: os horríveis incêndios florestais australianos vinham ocorrendo há meses e não seriam sufocados até meados do ano - bem a tempo para a temporada de incêndios florestais no oeste americano, com seu próprio ciclo descarado de devastação. Fotos de qualquer uma dessas cenas - inquietantes céus alaranjados em partes normalmente paradisíacas da Califórnia, desoladoras vistas aéreas de plumas de fumaça cobrindo a paisagem australiana - pareceriam apocalípticas em qualquer ano. Mas em 2020, com tantos de nós buscando proteção dentro de casa, era particularmente alarmante reconhecer a fragilidade do mundo natural. Pensar nisso se consumindo - até porque nós, humanos, falhamos com nossa má administração - convida ao desespero. Porque encare os fatos: os humanos muitas vezes podem ser terríveis, tomando decisões precipitadas e egoístas na melhor das hipóteses e matando uns aos outros na pior. Durante a maior parte de 2020, estar trancado por dentro e olhando para fora era sentir-se peculiarmente impotente. E à medida que nos sentíamos mais distantes do mundo como indivíduos, também parecia que as nações individuais começaram a fechar-se sobre si mesmas, motivadas por noções equivocadas de seu próprio poder e autossuficiência. O que uma agenda “America first” significa em um país que falha com seus próprios cidadãos quando se trata de protegê-los de um vírus mortal? Nos piores meses de 2020, fomos uma nação que mal conseguiu se cuidar, quanto mais ajudar alguém durante uma crise. Pior ainda, estávamos a caminho de nos tornar uma nação que não queria ajudar ninguém, mesmo quando era do nosso interesse fazê-lo. E a democracia - não um distintivo que você pode ganhar, no estilo escoteiro, mas uma prática e disciplina que precisa de cuidadosa atenção - passou a parecer vacilante e frágil mesmo em lugares que há muito professam acreditar nela. Como se fosse uma moda passageira da qual todos nós nos cansamos. As páginas desse estranho calendário não paravam de virar, com a ameaça da pandemia passando por tudo isso. Figuras públicas que significavam muito para nós - Ruth Bader Ginsburg, John Lewis, Kobe Bryant, Chadwick Boseman - nos foram arrancadas.E em maio, o assassinato de George Floyd pelas mãos da polícia em Minneapolis inflamou a raiva justificada não apenas em todo o país, mas em todo o mundo. A crueldade desse ato reavivou a atenção para ultrajes semelhantes no início do ano, especialmente os assassinatos de Breonna Taylor e Ahmaud Arbery. Também nos lembrou quantas vezes, ao longo da história, os negros sofreram injustiças semelhantes, sem recurso, sem meios de mudar o status quo.E então, em agosto, mesmo com o mundo inteiro assistindo, a polícia em Kenosha, Wisconsin, atirou e paralisou parcialmente outro homem negro, Jacob Blake, enquanto três de seus filhos assistiam do banco de trás de seu carro. As tradições tóxicas de injustiça e desigualdade na América não são segredo. Uma sequência de eventos trágicos finalmente fez com que mais brancos acordassem. Resta ver se essa consciência intensificada do racismo que tem atormentado nosso país desde sua fundação se traduz em mudanças reais. Esse é apenas um dos muitos pontos de interrogação que nos esperam em 2021 e além. Depois de um ano de tantas mudanças, mudaremos radicalmente também? Aprendemos muito em 2020 - mas o que, exatamente, aprendemos? Os lugares comuns[3] já estão fluindo livremente: diminuímos a velocidade. Aprendemos o que era importante. Jogamos jogos de tabuleiro, quebra-cabeças e realmente conversamos com nossos filhos e os ouvimos. Todas essas coisas são, sem dúvida, boas, e acenamos com a cabeça em solene concordância quando nossos vizinhos enumeram essas pequenas bênçãos. Mas algum deles captura a microtextura de como nossas vidas foram neste ano? Em nossas cidades, quando nos disseram que não deveríamos sair de jeito nenhum, exceto para exercícios ocasionais, caminhadas ao sol se tornaram a coisa a que nos agarramos. Que sorte tivemos em poder fazer isso, pelo menos! Nos subúrbios, nossas rotinas restritas abriram novas rotas de criatividade: podíamos desviar de nosso caminho para ver um pôr do sol espetacular ou, finalmente, enfrentar uma trilha que sempre quisemos explorar. Então chegou o momento em que foi possível encontrar um amigo para uma taça de vinho para viagem - este se tornou o verão do rosé morno e ácido em um copo de plástico, mas representou um privilégio e um prazer que, nos primeiros meses, não tínhamos certeza que teríamos. Quando os museus finalmente reabriram, limitando cuidadosamente a capacidade, pudemos voltar a nos familiarizar com as pinturas que amamos, com objetos de ouro que foram colocados nas tumbas de reis há 3.000 anos, com vasos que nossos ancestrais usavam para tarefas simples, mas essenciais, como carregar água daqui para lá ike toting water from here to there. Aproximar-se e examinar uma pincelada de 400 anos conecta você com o humano que a colocou ali. É importante lembrar que a Renascença surgiu enquanto a Peste Negra dizimou grande parte da Europa. Michelangelo e Rembrandt pintaram em sua sombra; a praga tirou a vida de Ticiano. Nossas vidas podem estar difíceis - esta semana, este mês, este ano - mas olhe o que outras pessoas fizeram durante épocas de sofrimento. O rastro de vitalidade e beleza que elas deixaram para trás é suficiente para nos fazer chorar, e às vezes o fazemos - podemos dar isso a eles, pelo menos. Por esse motivo, talvez muitos de nós tenhamos sentido, ao longo de 2020, mais fácil conectar-se com a arte antiga do que com a nova. Todos os tipos de diversões foram transmitidos diretamente para nossas casas, algumas delas bastante maravilhosas. Como quase todos os nossos sucessos de bilheteria e grandes espetáculos de fim de ano foram cancelados, passamos mais tempo assistindo à estórias[4] sobre seres humanos conversando entre si, em vez de perseguir um monte de pedras mágicas de uma luva cheia de jóias. Mesmo assim, muito pouco do que assistimos nos ajudou a dar sentido a esse momento. Estamos entediados, estamos ansiosos, estamos sobrecarregados ou, pior, desempregados: tivemos muito tempo para nos conhecer melhor, o que muitas vezes nos deixa mais perplexos e menos confiantes em nosso julgamento. Estamos esgotados. Desistimos e assistimos The Office novamente, embora haja coisas piores. Este não é o momento de sermos duros conosco mesmos por não sabermos exatamente o que queremos, exceto para continuarmos saudáveis ​​e vivos, e para fazermos o que pudermos para garantir que o mesmo aconteça com nossos vizinhos e entes queridos. Em meio aos piores dias da pandemia da primeira onda de Nova York - aqueles dias em abril, quando o número de casos e mortes continuava a subir, quando caminhões refrigerados faziam fila para evitar que os cadáveres apodrecessem, quando não tínhamos ideia de como, ou se, esse horror poderia ser interrompido - um dos meus vizinhos saiu para a escada de incêndio durante a comemoração da noite e recriou "The Star Spangled Banner" de Jimi Hendrix em sua guitarra. As notas gemeram e se dissiparam, aumentaram e chegaram no cume, uma história que tínhamos ouvido um milhão de vezes, mas de alguma forma precisávamos ouvir naquele momento. Aqueles de nós ouvindo de nossas janelas - talvez, por preguiça ou depressão, ainda em nosso pijama às 19h - agarraram-se à sua majestade irregular. Por que nossos antepassados ​​não escolheram um hino nacional mais cantável? Porque estavam esperando a invenção da guitarra elétrica. Estamos cansados ​​por um bom motivo, mas nossa bandeira ainda está lá. Este vírus ataca os mais fracos e vulneráveis ​​e, portanto, afetou de forma desproporcional certas partes da população. Todas as regras e restrições nos deixaram cansados, mas é mais importante do que nunca estar vigilante. Quando o número de mortos no COVID-19 dos EUA atingiu 200.000, a magnitude desse número parecia inimaginável. Agora chega a 300.000, embora a promessa de várias vacinas pelo menos ofereça esperança. Por enquanto, membros de nossas famílias, amigos que amamos profundamente, pessoas que nunca conhecemos, mas cujo trabalho nos tocou, continuam morrendo. O vírus é um problema generalizado que atinge todos nós de formas dolorosamente pessoais e direcionadas. Enquanto isso, nosso próprio presidente contraiu o vírus e, poucos dias depois de ser bombeado com esteróides e tratamentos experimentais, saiu em público - ainda, quase sem dúvida, contagioso - para se vangloriar de que, se ele podia driblar a doença, nós também poderíamos. Pouco depois, ele perdeu uma eleição e insistiu que não - mais gaslighting, mas pelo menos estamos tendo algum sucesso em parar a válvula que está emitindo a fumaça. A democracia ainda não morreu. De alguma forma, nós a remendamos com um pedaço de fita adesiva, bem na hora. [O remendo] vai aguentar? Os estadunidenses são inerentemente otimistas. É por isso que nossos aliados gostam de nós, mesmo que secretamente zombem de nós pelas nossas costas - mas não nos importamos! Somos uma nação com nossos polegares perpetuamente presos em nossos suspensórios. Nosso otimismo é nosso traço mais ridículo e o maior. Nem sempre pode ser o amanhecer na América. Às vezes, temos que passar pela hora mais escura um pouco antes. A aurora espera sua hora. * Stephanie Zacharek é crítica de cinema da TIME em Nova York. Anteriormente, ela foi crítica de cinema no Village Voice and Salon e foi finalista do Prêmio Pulitzer de crítica em 2015. O artigo foi originalmente publicado na revista Time, em 5 de dezembro de 2020. Link para a edição original: https://time.com/5917394/2020-in-review/ Crédito da imagem: Photo-Illustration by Neil Jamieson for TIME Tradução: Gabriela Mitidieri Revisão : Sheila Lopes Leal Gonçalves [1] No original: "training wheels”, que são as rodinhas auxiliares que acoplamos nas bicicletas de crianças que estão aprendendo. [2] Nota da tradutora: tradução literal do termo em inglês, “de colmeia” [3] No original: “The bromides are already flowing freely” [4] No original: “stories”. Trata-se de um termo ambíguo pois pode se tratar de “estórias”, no sentido de fábulas, ou “stories”, como os vídeos curtíssimos do app Instagram.

Entrevistas: Laura Erber, Zazie edições
Entrevistas: Laura Erber, Zazie edições

Hoje apresentamos a segunda entrevista da série “Mulheres editoras”. Editada por seis mulheres, a MFM, contudo, não nasce sozinha. Entrevistaremos mulheres que trabalham na editoração de textos há muitos ou poucos anos, refletindo um espelho que lembra que nunca andamos sós: um lugar está infinitamente conectado a muitos outros - e outras, nas quais buscamos nos inspirar. Laura*, antes de começarmos, gostaríamos de agradecer a disponibilidade para essa conversa. Nós, Revista Mulheres do Fim do Mundo, estamos produzindo uma série de entrevistas com mulheres, ou grupos de mulheres, que estão à frente de projetos editoriais, e a Zazie não poderia faltar. Pois, trata-se de uma proposta que admiramos muito. Por outro lado, como você mesma já falou em entrevistas anteriores, a Zazie é fruto de um trabalho quase artesanal, com uma estrutura pequena, inclusive de divulgação. Nossa revista tem um público, em grande parte, formado por mulheres estudantes de graduação e pós-graduação em todo o Brasil. A intenção é que possamos apresentá-la às nossas leitoras. 1 - Em conversa com a revista Bravo! você relatou que o projeto da Zazie, elaborado com Karl Erik Schøllhammer (como você, também pesquisador e professor), objetivava “criar bibliografia num sistema de acesso gratuito (open access) para democratizar a circulação de textos que intervêm de maneira contundente num determinado campo de conhecimento ou contexto de discussão”. Gostaríamos que você fizesse um balanço da experiência com essa forma de trabalho editorial, considerando-se que a editora está completando, agora, seu aniversário de 5 anos (12-12-2020). Mais especificamente: Como você analisa o impacto da Zazie em meio a um mercado editorial ainda tão monopolizado como o brasileiro? O acesso aos ensaios tem crescido? Vocês já conseguem delinear o principal público dos livros que publicam? É preciso dizer que somos realmente uma pequena editora, com uma equipe muito enxuta mas à qual sou extremamente grata, são profissionais excelentes, Maria Cristaldi é a designer, Angela Vianna e Denise Pessoa têm trabalhado comigo na preparação, e Cecília Andreo nas revisões. Eu atuo tanto na concepção das coleções e seleção dos textos, quanto na editoração, mas também na lida com editores para obter os direitos de tradução e publicação gratuitamente. Muitos autores me ajudam nessa etapa, mas sou, digamos, a editora e a minha própria secretária, além de faz tudo. Venho cuidando da divulgação e das campanhas de financiamento coletivo. Não me pergunte como consigo tempo pra isso, esse tempo, a rigor, não existe na minha vida, já que sou professora e pesquisadora, e escrevo também para jornais e revistas. Porém, a Zazie Edições é um projeto que me mobiliza a sério, pois nele posso fazer convergir minha paixão de leitora, minha curiosidade bibliográfica para além da minha própria área de pesquisa e docência, e também minha paixão crítica, intervindo ainda que indiretamente, através dos textos publicados, no debate contemporâneo. É muito bacana dar forma às reflexões tornando-as consultáveis, passíveis de serem retomadas e repensadas em outros trabalhos, por outros autores. Quando digo intervir, penso que nos interessa publicar livros que circulem facilmente e que podem, em alguma medida, fomentar discussões indo além da futilidade da opinião ou da esterilidade da polêmica que predominam em diversos espaços. O acesso aos ensaios tem crescido sim, os livros têm sido incorporados à bibliografia de diversos cursos de graduação e pós-graduação em universidades públicas e privadas no Brasil. Começamos a ter mais acessos de Portugal e leitores dos países da África lusófona. Alguns ensaios foram incluídos na bibliografia de concursos de Mestrado e Doutorado, onde cada vez mais há exigência por textos que estejam disponíveis na internet de forma gratuita. Recebo às vezes mensagens de agradecimento – algumas muito divertidas – de estudantes de todo o Brasil. Não tenho como responder com toda certeza, mas creio que nossos leitores são predominantemente estudantes de graduação, pós-graduação e professores pesquisadores. Também recebo notícia de escritores e psicanalistas que são leitores de nossas publicações. Há também o leitor diletante, que se interessa por diferentes assuntos e busca textos um pouco mais densos, mas não vai necessariamente usar esses ensaios para uma pesquisa ou para escrever um outro texto. 2 – Você já comentou que, atualmente, o uso de PDF’s se torna quase imprescindível na docência em ensino superior e que os PDF’s são, muitas vezes, considerados os vilões do mercado editorial. Por isso, a necessidade de democratizar o acesso a textos importantes, editá-los com ISBN e com cuidadosos trabalhos de tradução e revisão, que é como a Zazie vem fazendo. Por outro lado, uma breve apreciação sobre o catálogo da editora nos confronta com autores às vezes pouco conhecidos no Brasil e com ensaios que dialogam, simultaneamente, com vários campos de conhecimento. Ou seja, nos parece que o foco, de modo geral, não são os autores já tradicionais, fartamente lidos nos cursos de humanidades no país. Dito isso, temos duas perguntas: a) Quais são os critérios que vocês utilizam para a escolha dos títulos a serem publicados e traduzidos? Os critérios não são camisas-de-força, podem sempre ser revistos, remodelados, ampliados ou re-imaginados. Há o critério – que pode ser subvertido em algum momento – de publicar autores vivos. Um outro, aqui falando da Pequena Biblioteca de Ensaios, é o de dar visibilidade e até fomentar um tipo de escrita teórico-crítica menos atada aos formatos utilizados pelas revistas acadêmicas indexadas. Aí entra o meu interesse pelo ensaio como gênero tanto reflexivo quanto literário. Explorar essas outras possibilidades da inflexão ensaística é um dos critérios, ou talvez, melhor dizendo, uma das intenções da coleção. Tenho tentado também abrir espaço para alguns jovens pesquisadores, há uma mescla também entre ensaios que se dedicam a pensar o presente ou a conjuntura – publicamos dois títulos sobre a pandemia e mais recentemente um ensaio do Adriano de Freixo sobre a relação entre o governo Jair Bolsonaro e os militares – e textos desprovidos de sentido de urgência ou de atualidade, como as reflexões sobre o próprio ensaio e sobre a anedota que compõem o livro de Jean-Christophe Bailly, ou a reflexão de Katia Muricy sobre a autobiografia como gênero filosófico, a partir de uma reflexão sobre o Ecce homo de Nietzsche. Poderia citar outros, o livro de Pascal Quignard, por exemplo, que transita com uma impressionante familiaridade por entre imagens da antiguidade clássica, e assim nos fornece elementos preciosos para a teoria da imagem atual, além de uma reflexão importante sobre a forma como o latim, quer dizer, como a língua latina determinou o olhar e a produção de visualidade naquela cultura e época. b) A sua experiência como leitora e, também, os seus trabalhos como artista plástica, escritora e professora de História da Arte marcaram o desenvolvimento desse projeto? Certamente. A coleção surgiu inicialmente de minhas inquietações como professora da UNIRIO. Trabalhando com teoria e história da imagem, frequentemente me deparava com a dificuldade de encontrar bibliografia atual traduzida para trabalhar em aula, sobretudo na graduação, onde não podemos utilizar textos em língua estrangeira. O livro do Quignard, por exemplo, para mim pessoalmente foi uma alegria editar, pois logo o integrei às minhas próprias aulas. Também cheguei a usar o texto da Wendy Brown sobre neoliberalismo, e o do Bailly, já mencionado. A experiência de dar aulas numa universidade pública foi crucial para a minha compreensão do problema do acesso à bibliografia e para a compreensão das dinâmicas reais de circulação e de uso de textos nas universidades. Quando fui aluna de graduação – sou formada em Literatura pela UERJ – tudo ainda circulava na base de xerox. Dos anos noventa pra cá isso mudou, a chegada da internet alterou o modo como compartilhamos textos na academia, em todo o mundo. Creio que isso deva ser levado em conta e enfrentado de maneira honesta nos debates sobre o campo editorial, para além de uma compreensão do leitor como consumidor, ou seja, como comprador de livros. O estudante e mesmo o professor pesquisador são leitores que têm nos textos seu material de trabalho, e os alunos por sua vez dependem do acesso para sua formação. Seria importante delinear esse espaço formativo para defender políticas editoriais e de acesso aos livros mais coerentes com as necessidades reais dos estudantes e professores, considerando inclusive a dinâmica de tempo, o “timing” em geral totalmente desconsiderados pelos editores que, ou já esqueceram da sua experiência quando graduandos, ou porque adotaram uma visão estritamente comercial do objeto livro. Nenhuma biblioteca universitária dá conta da demanda real de alunos e professores, e a longo prazo, nenhuma biblioteca, mesmo as muito ricas, será capaz de manter espaços de estocagem para todos os livros físicos de modo a ter um acervo atualizado em todas as áreas de pesquisa que uma universidade recobre. Nem vou entrar aqui na questão do papel, mas essa deve ser considerada e tem sido bastante discutida na Europa onde as políticas para o incremento das publicações acadêmicas open access são guiadas igualmente por perspectivas ambientais e ecológicas. 3 – A personagem Zazie, imaginada por Raymond Queneau e que inspirou o nome da editora, é uma adolescente questionadora e impetuosa. As características da personagem, com seu ímpeto crítico, nos remetem aos possíveis objetivos e impactos políticos da atuação da Zazie, editora. Você considera a própria existência do projeto como um ato político? Aproveitando, também gostaríamos que você falasse das formas de financiamento para a efetivação desse trabalho. Olha, a Zazie é uma menina, não uma adolescente. Ela é desbocada e tem aquela ideia fixa de visitar o metrô, que está em greve. Acho que a editora é pequena, teimosa, desbocada talvez não, mas temos a ideia fixa de que democratizar o acesso à bibliografia de qualidade é fundamental. Outra ideia fixa é de que o ensaio é um gênero elástico formidável, é o gênero da pesquisa, de quem busca algo, esse algo pode variar muito, mas no ensaio o percurso na direção desse algo é crucial, muitas vezes mais do que o ponto de chegada. 4 – Recentemente, dentro da Pequena biblioteca de ensaios, coleção que você coordena, foi lançada a Perspectiva feminista, exclusivamente com textos de mulheres. O último ensaio publicado, de Ana Elisa Ribeiro, é intitulado Subnarradas: mulheres que editam, e aborda, entre outros temas, o apagamento das histórias das mulheres editoras no Brasil. Você pode nos contar como surgiu a ideia de lançar a Perspectiva feminista no interior da Pequena biblioteca de ensaios? Esse projeto é coordenado por mim e pela Ana Bernstein, que foi minha colega na UNIRIO e é uma grande amiga e parceira de trabalho. Tínhamos feito um levantamento grande de textos feministas para um curso que ministramos e constatamos que havia muito pouca coisa traduzida. A coleção surgiu daí, com a ideia de traduzir alguns ensaios e também de publicar textos inéditos, de autoras brasileiras e latino-americanas sobretudo. Nos últimos anos o pensamento feminista se tornou um nicho importante e uma aposta do mercado editorial, mas de novo, para quem está na universidade é importante poder ter acesso mais direto a esses textos que são muitas vezes bibliografia fundamental. É muito bacana que as editoras comerciais se interessem e publiquem teoria e crítica feminista, mas muitos livros logo desaparecem das livrarias e caem numa espécie de limbo, um dia ressurgem nos sites de sebos virtuais ou na própria Amazon a preços extorsivos. A Zazie quer combater esse tipo de sequestro da bibliografia crítica, muito esforço e trabalho editorial se perde nesse ciclo de vida super breve do livro teórico no Brasil. Essa é outra questão que precisaria ser discutida e que poderia ser objeto de programas de democratização do acesso à bibliografia. 5 – Por fim, gostaríamos de fazer uma pergunta mais pessoal, mas que consideramos importante neste momento: gostaríamos de te ouvir sobre como foi e é a experiência da maternidade para você. De que maneira a maternidade transforma/convida/se relaciona com seus trabalhos nos campos da arte, da literatura e da edição? E, também, sobre o maternar neste contexto da pandemia: como conciliar tantos tempos distintos em um espaço comprimido? Boa pergunta, essa. Olha, sempre respondo mais ou menos da mesma forma. Nunca fui muito organizada, mas sempre fui muito “trabalhadeira”. Não quero usar aqui a palavra “produtiva” porque nem todo trabalho é exatamente produtivo no sentido que essa palavra adquiriu na época em que vivemos. Trabalhadeira era uma abelha chamada Zizi, a personagem de uma estória que eu adorava ler quando criança, uma coleção sobre os bichos de Catimbó, que, veja só, também desapareceu! Uma pena, pois era ótima. Lembro que essa abelha Zizi contava os grãos de areia da praia. Bom, mas respondendo, o fato de ter sempre trabalhado muito mas nunca de forma muito linear ou organizada fez com que a presença dos meus filhos tenha sido sempre mais um fator de entropia numa rotina de trabalho já meio bagunçada e bagunceira. Aqui na Dinamarca conto muito com a parceria doméstica do Karl, meu companheiro, sem ele seria bem mais complicado esse arranjo malabarista dos muitos trabalhos que faço. *Além de editora na Zazie, Laura Erber é professora visitante da Universidade de Copenhague, escritora e artista visual. A Zazie está com campanha de financiamento coletivo aberta, para quem puder contribuir com esse trabalho incrível: https://www.catarse.me/pt/zazie_edicoes_2021_0a1d?fbclid=IwAR1PQJPhujQvrJW-bsLvqf1ZqABGR3lGR7kdoPFSKrZo9ecsI8bQn1KiGbw Foto de capa publicada originalmente em: https://www.telam.com.ar/notas/201805/279492-laura-erber-novela-ardillas-pavlov.html

Ensaios: Diários de Quarentena - Semana 17 – De 06 a 12 de julho
Ensaios: Diários de Quarentena - Semana 17 – De 06 a 12 de julho

(“É comunista? Vai pra Cuba!” - É tudo o que eu quero, meu filho...) Amanda Moreira* Vira e mexe alguns bolsominions raivosos invadem as minhas contas nas redes sociais e vociferam um “É comunista? Vai pra Cuba!”. Eles acham que isso é um insulto, uma ofensa, quando na verdade vejo como um ato de gentileza. Sempre que fazem isso fico muito feliz e agradeço pelo carinho. Se me mandam para Cuba, e não para os EUA, é sinal que querem o meu bem, principalmente nestes tempos de pandemia. Tá, eu não sou tão ingênua, sei que os bolsominions dizem isso porque eles acham que Cuba é o inferno na terra, que as pessoas vivem sob uma ditadura sangrenta e que todos são infelizes e miseráveis. Quanta ignorância... Os cubanos riem quando falamos do que alguns brasileiros acham como é a vida em Cuba. Logo nós que vivemos sob um governo neofascista e estamos entregues ao que há de mais sórdido e criminoso na história política brasileira. Esta semana eu me senti tão despossuída de esperança que só me restou pensar em Cuba, país que sou apaixonada e venho acompanhando as notícias aqui de longe. Funciona assim: fico triste, vou ver uma ação de Cuba no combate à Covid-19 e logo me encho de otimismo e fé na humanidade. Cada ação dos cubanos que vejo eu sinto um orgulho danado. Eita país que sabe superar desafios e ainda consegue ter forças para ajudar outras nações! Cuba supera furacões, o bloqueio criminoso dos EUA e agora a Covid-19. Um verdadeiro exemplo para o mundo. Vivendo no Brasil é inevitável a comparação. Enquanto nós, junto com os EUA, somos os campeões mundiais de mortos pela Covid-19, Cuba é um dos países que controlou de forma mais rápida e eficaz a pandemia. Com uma população de 11,3 milhões de pessoas, Cuba teve 2.200 infectados e APENAS 86 MORTES NO PAÍS INTEIRO, enquanto só aqui no Rio de Janeiro diversos bairros superaram esse número. Só na Maré tivemos 81 mortes, em Bangu 325 e em Campo Grande 347 óbitos, até hoje. E como Cuba chegou a esse resultado? A principal razão é que o Estado cubano aplicou uma política centralizada e planificada. Mesmo sendo um país pobre, Cuba tem um dos melhores sistemas de saúde do continente, reconhecido no mundo inteiro, público, gratuito, que atende a 100% da população. Mesmo sendo um país turístico e que teve por isto vários focos precoces de infecção, seu índice neste momento é de 8 mortes por milhão de habitantes. Se o Brasil tivesse este mesmo índice, teríamos 1.696 mortes no total, enquanto hoje já temos 71.000 e a tendência é crescer muito mais. Cuba atingiu essa marca admirável porque agiu, desde o início, da forma correta no combate à pandemia. Rapidamente tornou obrigatório o uso de máscaras e pôs em quarentena um grande número de pessoas. Todos aqueles cidadãos cujos exames deram positivo para a Covid, foram transferidos para um hospital, onde receberam antivirais e reforçadores do sistema imunológico (Cuba tem desenvolvido vacinas que fortalecem a imunidade da população, isso ajudou muito). Só depois de passar por tudo isso as pessoas foram mandadas para duas semanas de quarentena em casa. Além disso, houve o isolamento dos contatos e dos contatos dos contatos, todos sendo acompanhados de perto pelo Estado. E ainda há os centros básicos de saúde nos bairros, nos quais as pessoas recebem todos os cuidados necessários para que não transmitam a doença. Ufa! Lutar pela vida dá trabalho, mas sempre vale a pena. O Ministério da Saúde cubano afirmou que a atuação dos estudantes de medicina em todo o país, para identificar casos suspeitos, tem sido o segredo do sucesso. Eles vasculham casos em toda a ilha de porta em porta, mapeando e isolando os assintomáticos. Assim, buscando possíveis doentes, de casa em casa, e testando todos os contatos dos testados positivos, Cuba mudou favoravelmente o rumo da pandemia. Além disso, o Ministério apresenta um detalhado relatório diário da evolução da doença. Que sonho! No Brasil não temos nem ministro quanto mais boletim ou coletiva de imprensa. Os cubanos foram muito sagazes, demonstraram planejamento e visão. Eles encararam a Covid-19 de frente, mesmo com a falta de recursos, com a economia no limbo devido à ausência da atividade turística, sem hospitais sofisticados, sem compras virtuais, com o bloqueio dos EUA que não permitiu que chegassem insumos, remédios e equipamentos. Até mesmo as doações chinesas de máscaras faciais, kits de diagnóstico rápido e ventiladores foram impedidos de chegar ao solo cubano devido às sanções. Como sempre, os EUA buscam asfixiar Cuba, fazê-la não respirar, promovendo um terrorismo de Estado sem uma declaração oficial de guerra; mas eles não contavam com a astúcia do povo cubano. Em Cuba o combate à pandemia contou, sobretudo, com muita cooperação dos cidadãos, diferentemente do Brasil, onde o individualismo e o egoísmo reinam. Mesmo com a pandemia controlada os cubanos não saíram reabrindo tudo desordenadamente. Estão retomando o turismo agora, aos poucos, mesmo sendo esta a sua principal fonte econômica. Eles não cogitaram reabrir antes, somente fizeram quando houve o controle da pandemia. Assim, Cuba mostrou que não há oposição entre vida e economia. Já aqui em nossas terras a escolha foi reabrir tudo enquanto os casos continuam crescendo, uma burrice descabida, que além de gerar mais mortes, vai arrastar ainda mais o desempenho econômico do nosso país. Considerando a saúde um direto humano, Cuba valoriza a vida acima de tudo. Isso levou a permitirem que um cruzeiro britânico com cinco passageiros infectados atracasse na ilha no início da pandemia. Eles receberam o transatlântico que ninguém queria, cuidaram dos adoecidos e ainda saíram pelo mundo afora tratando gente com Covid-19. Cuba forma médicos para atuar no mundo todo. Eles foram para a Itália no momento mais crítico da pandemia e hoje estão em mais de 27 países oferecendo ajuda humanitária. Inclusive, dezenas de nações da América Latina e Caribe, estão reunidas em uma mobilização de solidariedade continental pela concessão do Prêmio Nobel da Paz a Brigada Henry Reeve de Médicos Cubanos. Nada mais justo! Essa Brigada é formada por profissionais da saúde especializados em situação de desastres e epidemias graves. Eles atuam há mais de 15 anos e já foram em missões humanitárias em praticamente todos os países do hemisfério sul. Inclusive já estiveram aqui no Brasil, num passado recente, com mais de 14 mil médicos e médicas nos ajudando a dar atenção primária em comunidades interioranas, quilombolas, povos indígenas, assentamentos, favelas, e outros lugares os quais nenhum médico brasileiro quer ir. “Cuba é o único país com internacionalismo genuíno”, como afirmou o filósofo Noam Chomsky. Realmente não tem coisa mais bonita que uma ilha latino-americana que exporta vida! Nem se compara com países ricos que exportam soldados e derrubam bombas em comunidades pobres. O mínimo que devemos a esse país incrível é respeito. O modo como os cubanos lidam com o ser humano é completamente diferente do nosso. Aqui no Brasil não há interesse em cuidar do povo, temos um governo que só nos mata: de Covid, de fome ou de raiva. Em Cuba é muito diferente, há uma preocupação real com as pessoas, com o cidadão, com o indivíduo. Todos lá têm um nome, não são números como aqui. Em Cuba não são só os médicos que têm respeito pela vida, os políticos também têm. Enquanto aqui o presidente incentiva que os seus seguidores invadam hospitais para questionar os profissionais da saúde, em Cuba há homenagens e recepções calorosas para as brigadas médicas nos aeroportos, que são transmitidas ao vivo para a população. Enquanto nós somos governados por uma gente obtusa, com egos em estado terminal que diz “E daí? Não sou coveiro.”, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse que salvar vidas tem que ser uma prioridade. E assim foi desde sempre. Quando fui a Cuba, em 2018, não tinha pandemia nenhuma, mas ao chegar no aeroporto, havia uma equipe de profissionais de saúde, que nos pedia cartão de vacinação e faziam perguntas. Só depois disso, você está autorizado a entrar no país. Se não tiver a carteira de vacinação em dia, pode dar meia volta com a sua malinha e rumar para casa porque lá não entra. Para ver o tamanho do zelo! Eu só tenho a te agradecer, Cuba, por me dar esperanças, por representar a vitória da vida sobre a morte, da solidariedade sobre o egoísmo, pela valentia de combater duas pandemias (o coronavírus e o bloqueio estadunidense) e ainda ter forças para ajudar outros países. Obrigada por mostrar para o mundo como a medicina somada ao respeito, a simplicidade, a generosidade, ao compromisso e a seriedade podem salvar vidas. Como disse o médico e revolucionário Che Guevara: “Não há fronteiras nesta luta de morte, nem vamos permanecer indiferentes perante o que acontecer em qualquer parte do mundo". E não para por aí. Em Cuba não se valoriza somente os médicos, lá qualquer profissão tem a mesma importância. Não tem essa de hierarquia, de status em termos salariais ou de formação; lá os servidores públicos não são considerados meros empregados e sim como trabalhadores do Estado que servem à coletividade, não aos interesses individuais. Aqui no Brasil é bem diferente. O abuso de autoridade reina. Secretários executivos do governo humilham garçons em transmissões ao vivo (imagina sem câmeras). Aqui, até os servidores públicos da vigilância sanitária - que estão na luta pela vida fiscalizando estabelecimentos após a reabertura - precisam de escolta armada devido às ameaças que estão sofrendo de gente raivosa que quer porque quer aglomerar. Triste republiqueta de engenheiros civis (cidadão não!) que se sentem no topo da pirâmide social (assim como médicos e advogados, né Doutô?). Uma gente que não sabe o que é riqueza, mas se vê por cima. Que divide o mundo entre os não cidadãos, os cidadãos e por último a escória. Esse comportamento geral como já dizia o Gonzaguinha, esse egoísmo, esse elitismo, é um dos motivos para o Brasil ter chegado aonde chegou. Somos um país pedante, de pessoas arrogantes que se orgulham de serem VIP: Vigaristas Infames Preconceituosos. Vivemos sob o equívoco da "carteirada". Somos uma sociedade essencialmente burra, discriminatória, e, por isso, cada vez mais desigual e injusta. Não me vejo morando fora, mas ando realmente sentindo muito desgosto nestas terras. Me sinto inadequada. Eu gosto do Brasil, amo o meu país, não no sentido patriótico, como se ele fosse melhor que os outros (eu acho que o mundo nem deveria ter fronteiras!), mas, ando bem desanimada com o rumo da prosa deste lugar em que a impunidade reina. Esta semana, por exemplo, assistimos os portões da cadeia se abrindo para secretários de saúde corruptos e se fechando para laranjas milicianos amigos do presidente. Aqui pessoas foragidas também ganham direito à prisão domiciliar, tamanho escárnio promovido pela familícia. O recado é: pode roubar à vontade que você ganha uma quarentena em casa, como todos nós estamos agora sem cometer crime algum. Que vergonha... Eu estou cansada de ver um negacionista estúpido (pleonasmo!) que segue eliminando pobres e negros deliberadamente, completando a sua política eugenista. Cansada de tanta irresponsabilidade no combate à crise mais séria dos últimos 100 anos. Enquanto governos de outros países enviam máscaras gratuitamente para a casa das pessoas com manual de instrução, aqui o presidente segue dizimando a população o máximo que pode. Para Jair não adianta a orientação da OMS, não importa a comprovação da eficácia da máscara no combate à Covid-19. Ele não usa e ponto, ainda diz que usar máscara é “coisa de viado”, em mais uma mistura de genocídio com homofobia. Fica difícil superar uma pandemia assim. Tudo aquilo que tem comprovação científica na prevenção ao coronavírus o governo veta, debocha, não cumpre; já as coisas jamais comprovadas como a tal da cloroquina, o governo segue incentivando. A conjuntura brasileira parece uma patética telenovela das sete, banal e crua, desengraçada, repleta de imperfeições narrativas. O enredo da semana foi: O incrível caso do presidente inFAKEtado. A história se passa no Alvorada. O protagonista é um indivíduo que, em capítulos anteriores, recorreu à justiça e fez estardalhaço para não mostrar o exame, mas agora saiu correndo para dizer que se infectou. A maior ironia é que o personagem pode ter contraído o vírus no dia da independência dos EUA, numa festinha irresponsável na embaixada americana lotada de adoradores do Pateta (não o da Disney, mas o da Casa Branca). Assim que soube do resultado do (v)exame o presidente deu uma entrevista para os jornalistas - vilões que ele odeia - sem máscara, pronto para matar. Porque para ele não basta usar a máscara como se fosse um enfeite no pescoço ou um brinco na orelha, tem que estar infectado e retirar a proteção, para contaminar os outros. Para piorar o desfecho não acabou aí, logo depois Jair fez uma live rindo, com ar de deboche, onde tomou Cloroquina como se fosse uma “Neosa”. Assim o covardão incentiva a automedicação de milhões de pessoas com um remédio extremamente perigoso para ser tomado sem orientação e que não há nenhuma comprovação científica da sua eficácia no combate à Covid. Ao contrário, o que se aponta nos estudos são os seus efeitos colaterais, como fazer o coração perder o ritmo e fazer o doente empacotar de vez. Para Jair é fácil fazer o experimento. Ele tem médicos 24h no Palácio da Alvorada, ambulâncias à disposição e faz dois exames cardíacos por dia para monitorar o coração (quem tem cu oroquina tem medo!). Com todo esse acompanhamento é fácil brincar de cobaia, pois é muito difícil algo dar errado, diferentemente da imensa maioria do povo que segue sendo enganado. Para esta novela, a gente queria um desfecho estilo Odorico Paraguaçu, mas o fim possivelmente será outro. O protagonista não vai morrer, vai vender remédio e ainda usará a história como mais um meio de reforçar o seu negacionismo. Não consigo me adequar a uma porcaria dessas. Então, prefiro voltar a falar da ilha caribenha. Além da saúde, a outra prioridade de Cuba é a educação. Isso já é motivo suficiente para o meu amor aumentar. A escolarização universal com qualidade para todas as crianças em idade de cursar o ensino fundamental faz de Cuba o único país da América Latina e Caribe a alcançar todos os objetivos mensuráveis de educação. O normal por lá são crianças e jovens educados, que falam inglês fluentemente, professores dando suas aulas sem precisar gritar e espernear para ganhar a atenção dos alunos. Ah, e não há nada mais encantador que ver as crianças em filas saindo das escolas com aquele uniforme lindo e impecável. Mais uma vez é inevitável a comparação. Enquanto Cuba erradicou o analfabetismo em meados do século passado, nós, aqui no Brasil, ainda temos 13 milhões de analfabetos. O pior é que tudo tende a piorar, pois acabamos de engolir, como ministro da Educação, um pastor “terrivelmente evangélico” nesta triste República criacionista. É lamentável saber que aqui no Brasil só existem três opções para o Ministério da Educação no momento: terraplanistas, guerrilheiros ideológicos ou fraudadores, todos privatistas. Ninguém está interessado em investir e discutir os problemas reais da educação brasileira. O MEC morreu. E o que não morreu no Brasil? Ando tão carente de esperança que passei a ir para Cuba com frequência nos meus pensamentos, passo horas lá, revejo fotos, releio diários de viagem, pego o rum, o Cohiba e por uns instantes me livro da figura do presidente, esse ser imprestável, horripilante, que desfila sem máscara por aí todo contaminado. Tudo que eu quero é que me mandem mais vezes para Cuba. Se me derem a passagem, melhor ainda, e não importa que seja só de ida. Eu realmente queria estar num país que destina 65% do orçamento para saúde, educação, assistência e seguridade social. Parafraseando Fidel nestes tempos pandêmicos, eu diria: Com essa pandemia, em vários países do mundo, haverá mais gente nas ruas, passando fome e morrendo de inanição. Sabe onde não haverá nada disso? Em Cuba. Ironicamente, os cubanos têm sofrido muito menos que os cidadãos dos países dito desenvolvidos. Lá as pessoas recebem a alimentação básica pelo Estado e todos têm a garantia da subsistência. Os cubanos são acostumados com pouco, mas quando o cerco aperta, eles podem ter a certeza que não estarão abandonados à própria sorte. Quero que me mandem mais para Cuba, porque tudo que desejo é voltar à ilha mais legal da América Latina. Não vejo a hora de ver as cenas típicas locais, a sorveteria estatal, as vendas nas casas, os bares, as escolas, os monumentos nacionais, os painéis saudosos dos líderes revolucionários, a pracinha com as crianças brincando, o popular beisebol sendo jogado nos campos das ruas, os cocotáxis e aqueles lindos possantes russos e americanos dos anos 1950, numa espetacular roda de imagens que tem a capacidade de nos transportar para uma realidade paralela. Como disse Ernest Hemingway: “Quando um ser humano se sente em casa, fora do lugar onde nasceu, esse lugar é onde deve ir para sempre”. É verdade, Cuba é o meu país de coração, eu não vejo a hora de reencontrar aquele povo solidário, simpático, amoroso, muito culto, que fala de todos os assuntos com desenvoltura. Conto os minutos para pisar novamente naquele país único, incomparável, lindo, colorido, boêmio, alegre e com uma musicalidade incrível. Tudo que eu quero é um novo encontro com o mar caribenho, mergulhar naquelas águas azul-verde-clarinhas dependendo da inclinação incidente dos raios solares e da finura das areias. Tudo que eu quero é sentir novamente aquele prazer gastronômico indescritível das lagostas e camarões. Tudo que quero é respirar novamente aquela atmosfera revolucionária, tomar um Cuba Libre na noite de Trinidad, um mojito no Bodeguita, apreciar a água batendo no Malecón de Havana, ouvir a adorável melodia chiclete de “Guantanamera”, e a constante repetição de “Comandante Che Guevara”, que pode tocar mil vezes que eu não enjoo nunca e sempre sinto uma emoção diferente. Ahh como eu quero voltar para aquele país que muitos acusam de haver uma “ditadura”. Uma “ditadura” em que milhares de cidadãos apoiam seus líderes há 60 anos; uma “ditadura” que as pessoas são felizes, bem informadas, têm cultura, saúde e educação de qualidade; uma “ditadura” que permite a coexistência de diversas religiões e que não deixa a religião interferir no Estado; uma “ditadura” em que o voto não é obrigatório, mas a população comparece em massa nas urnas; uma “ditadura” que apresenta na TV programas que divulgam o orçamento e dizem para onde está indo o dinheiro dos impostos pagos pela população; uma “ditadura” em que as pessoas fazem críticas ao governo e participam ativamente da política; uma “ditadura” que não quer metralhar o oponente. Saudade de uma ditadura assim. “Pai, afasta de mim esse cálice”, mas se tiver Daiquiri, Mojito ou Cuba Livre, aproxime! Te quiero, Cuba! Vivendo nesta quarentena sem perspectiva de futuro, eu só tenho a agradecer ao país que ainda me permite sonhar. Nesse mundo em que o único senhor é o mercado financeiro em meio a uma crise civilizacional em que a barbárie é a regra e a alternativa aparentemente não existe, eu continuo acreditando que o socialismo é o horizonte, todavia, não quero que seja necessariamente como é em Cuba ou em qualquer lugar onde a burocracia centralizada do Estado se instalou, mas também não deixo de considerar todos os acertos de uma revolução que foi o que pôde ser e não o que desejou ser. Por fim, quero dizer que este diário foi sobretudo uma declaração de amor à Cuba, uma ilha cheia de paradoxo, um país periférico cercado de capitalismo selvagem por todos os lados, mas que representa uma sociedade mais autoconsciente, mais humana, uma espécie de reserva social de valores humanos que o resto do mundo insiste em destruir. É uma lição do que precisamos. Viva nossos irmãos cubanos! Hasta la victoria, siempre! *Amanda Moreira é professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, doutora em Educação e cronista pandêmica de fim de semana. Créditos das imagens: 1 - Imagem de capa:  iStockphoto/Getty Images 2 - Imagem interna : Augustin de Montesquiou - ago.2017

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

TODA MULHER JÁ FOI ASSEDIADA! A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo denúncias de assédios sexuais, a Revista Mulheres do Fim do Mundo preparou uma edição especial da coluna Cartas ao espelho para o nosso número de dezembro de 2020. Assim, a nossa coluna trouxe 13 relatos, anônimos, de assédios vivenciados por várias mulheres. Os depoimentos divulgados nos foram por algumas leitoras que utilizaram a # da nossa pequena campanha: #FoiAssedio. Confiram os relatos. #FoiAssedio quando o meu professor de Química, do ensino médio, propôs que eu ficasse com ele e em troca eu ganharia um aumento na minha nota final na disciplina. #FoiAssedio quando eu estava andando na rua e fui perseguida por um homem dirigindo um carro lentamente, acompanhando meus passos, enquanto me dirigia palavras obscenas de dentro do carro. Isso tudo em plena luz do dia. #FoiAssedio Já fui assediada e abusada em tantas instâncias na minha vida que nem sei exatamente qual falar aqui. Desde bem pequena, familiares, médicos, namorados, professores... Triste conhecer essa realidade tão cedo. Mas acho que uma das minhas piores memórias foi de um professor meu. Ele dava minha matéria favorita e dizia que eu era sua aluna favorita. O problema é que esse professor assediava todas as suas alunas e, quanto mais "especial" ela fosse, mais frequentes eram os assédios. Ele nos tocava, nos abraçava por trás, queria ficar sozinho conosco após a aula, todas tínhamos medo dele. Eu tive tanto problema com isso que comecei a ficar mal na matéria para não receber atenção, o que não funcionou. Na verdade, piorou tudo. Por anos, evitei chamar a atenção de professores, por causa desse em questão. E o pior é que, por mais que várias alunas já tivessem sido suas vítimas e algumas até tivessem colhido depoimentos sobre, ele continuou na escola, por anos e anos. #FoiAssedio Viajando sozinha pelo Uruguai, perdi meu único cartão de banco, sem nenhum peso a mais. Era Natal e de repente batiam à porta desafios de como pagar o que comer... Conversava sobre isso (um pouco desesperada) com um amigo na venda que eu frequentava. Quando o amigo foi embora, ficamos somente eu e o dono da venda, um senhor com seus 60 anos. Ele me pergunta o que vou fazer no natal, se eu gostaria de passar com ele, e se oferece para me emprestar dinheiro ou me dar, pois tinha ouvido o relato da situação vulnerável em que eu estava. #FoiAssedio Eu mudei de profissão por conta de assédio. Sempre fui secretária, comecei a trabalhar com o meu pai numa empresa estatal e lá mesmo, o chefe dele na época, em um Dia da Secretária me mandou o seguinte discurso “você só passa perrengue por que quer, o que não falta são pessoas querendo te ajudar.” Contado assim pode parecer rotineiro “Ah, pára... só preocupação !” Mas, o tom da voz, o olhar, o jeito. Me dá até nojo lembrar. E o que somos instruídas a fazer? “Faz cara de paisagem...”. Não era paisagem. Durante os 15 anos em que exerci a profissão de secretaria sempre sofri assédio. Durante ou depois de ter trabalhado com esses senhores. Simplesmente horrível. Hoje trabalho com a Educação Infantil. Prefiro lidar com egos do que me sentir acuada. #FoiAssedio Morando no Rio de Janeiro a maior parte de minha vida, e me deslocando para o trabalho sempre de metrô ou ônibus, perdi a conta de quantas vezes me senti acuada, amedrontada, optando até mesmo por descer do transporte em razão do comportamento de homens que tentavam me tocar ou “esfregar-se” em mim. #FoiAssedio Tive um namoradinho que, um belo dia, chegando na minha casa pra me buscar pra irmos jantar disse: “Ué… mas você não tá pronta! Vc ainda tá de pijama! Vc vai trocar essa roupa, né?!”. Eu tava com um vestido curto que não tinha NADA de pijama. Me senti péssima e fui trocar de roupa. #FoiAssedio e hoje em dia luto para que cada vez menos mulheres tenham que passar por esse tipo de coisa. #FoiAssedio Eu tinha uns 13 anos quando, pela primeira vez, saí pelas ruas de Copacabana depois do “show de fogos de artifício” do Ano Novo. Eu estava com meus irmãos, primos e primas. Também foi a 1a vez que vesti uma mini saia. Eu fiquei pra trás do grupo com uma prima mais velha que tinha parado pra comprar bebida e um bando de homens passou pela gente e um deles agarrou minha bunda. #FoiAssedio e o pior é que antes que eu pudesse reagir minha prima me segurou e disse que aquilo era coisa de homem e que eu deveria me acostumar. Só vesti uma mini saia de novo uns 15 anos depois, e ainda assim me senti desconfortável. #FoiAssedio Eu estava bêbada num bar e pedi desconto numa cerveja. Meio de zoeira, meio no “vai que cola….”. Um cara começou a conversar comigo e me encher o saco se oferecendo pra me pagar a tal cerveja. Na hora eu ri, falei qualquer coisa do tipo “não, tô de boa, tô zoando” e saí, mas foi muito tenso, fiquei muito bolada e o cara ainda foi atrás de mim. #FoiAssedio No ano de 2014, eu e mais duas amigas brincávamos carnaval na cidade de Olinda/PE. Quando estávamos em um determinado bloco, fui puxada por um homem que me beijou à força. Ele simplesmente me beijou, enfiou a língua dentro da minha boca e saiu. #FoiAssedio Estava em uma roda de samba no bar no bairro da Lapa,Rio de Janeiro. Estava rolando uma roda de samba nele. Me afastei da mesa que estava e fui ao banheiro. No caminho, um homem esfregou uma latinha de cerveja nas minhas costas enquanto me chamava de “gostosa”. #FoiAssedio De madrugada, após sair de uma festa, eu e uma amiga pegamos um uber para irmos para casa. Eu fui a última a ser deixada. Durante o percurso da casa da minha amiga até a minha casa, o uber perguntou se eu tinha namorado e passou todo o trajeto dizendo que eu era linda e sexy. No final da corrida, ainda pediu meu número de telefone. #FoiAssedio Chamei um eletricista para resolver um problema no quadro de energia da minha casa. Ele já havia prestado outros serviços em minha residência. Dessa vez, eu estava recém-separada e recebi o homem sozinha em casa. No final do serviço, ele perguntou pelo meu ex-marido e eu informei que havíamos nos separado. O homem começou a me tecer elogios (dizendo que eu era uma mulher muito bonita e sexy) e disse que, agora que era uma mulher sozinha, eu precisaria de um homem em casa. E acrescentou que, quando eu precisasse de um homem, poderia chamar ele. Ligue 180 Qualquer assédio contra a mulher pode ser denunciado pelo número 180. A denúncia pode ser feita de forma anônima e é importante fornecer a maior quantidade de informações possíveis, para que haja material suficiente para uma investigação e possível responsabilização do agressor. O fato da denúncia ter sido feita pelo 180 não impede que a vítima vá até uma delegacia fazer um boletim de ocorrência também. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é uma política pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher em âmbito nacional e internacional. Por meio de ligação gratuita e confidencial, esse canal de denúncia funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 (dezesseis) países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Em casos de violência contra crianças e adolescentes a denúncia pode ser feita no conselho tutelar, no Ministério Público e/ou na Delegacia da Infância e da Juventude (se não houver delegacia especializada, busque uma delegacia normal). Denuncie!