Edição 5

Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula
Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Oi, Bia. Como anda a vida? Por aqui as coisas vão bem, na medida do que é possível “estar bem” em tempos de pandemia. Esses tempos de isolamento social não têm sido fáceis, mas a nossa troca de cartas tem me ajudado. Eu sei que o assunto que eu vou tratar hoje vai pegar você de surpresa e talvez você se pergunte o porquê de eu não ter dividido isso antes, mas não leve a mal, acho que eu só não queria revisitar um assunto que ainda é doloroso. Você me entende, eu sei. Como você sabe, antes de vir para o sertão alagoano, eu estava professora de uma escola particular em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Naquele dia, que parecia ser apenas uma sexta-feira comum de fevereiro de 2018, na turma do terceiro ano do Ensino Médio, discutimos sobre Islamismo, Feminismo e Ocidentalização com base no texto “A mulher no Oriente Médio e o feminismo islâmico”, escrito por Claudia Santos. Tirando alguns risinhos debochados, olhares de reprovação e breves reclamações sobre o tema, a aula ocorreu tranquila (pelo menos foi o que eu pensei). Expediente encerrado, no horizonte, mais um final de semana de Netflix e leituras do mestrado. Já passava das vinte e duas horas do sábado, quando meu celular apitou avisando que havia uma nova mensagem no WhatsApp. Li as mensagens, ouvi os áudios e não quis acreditar: eu havia sido adicionada em um grupo e estava sendo xingada com frases sexistas e misóginas. Percorri a lista de participantes, reconheci alguns rostos e vozes, apesar de eu não ter nenhum daqueles números na minha agenda, percebi que eram alunos e ex-alunos da escola na qual eu estava professora. Pelo curto espaço de tempo em que permaneci ali, antes de ser removida por um deles, me mantive em silêncio. Tentei digerir o que estava acontecendo e então a ficha caiu: um bando de rapazes (eu diria moleques, mas estou tentando ser polida) estava me insultando abertamente em um grupo do WhatsApp e se divertindo com isso. Passei o final de semana bancando a detetive particular (você sabe que sou boa nisso), na tentativa de associar nomes e rostos àqueles números de telefone e, depois de um domingo inteiro, consegui. Na segunda-feira, depois das aulas ministradas, procurei a coordenadora disciplinar. Narrei em detalhes o que havia acontecido, apresentei as informações que eu havia coletado e ela ficou de levar o ocorrido à direção da escola. Meses se passaram (isso mesmo, meses) e os alunos não foram chamados na coordenação, eu sabia disso porque a história não estava circulando pelos corredores da escola, como era costume. Quando eu perguntei o porquê, a coordenadora respondeu: “Lucila, eu não chamei os alunos para conversar porque aconteceu fora da escola”. Fiquei sem acreditar e respondi: “Sim, mas envolve alunos da instituição!”. Na minha cabeça, a postura da coordenação, que eu pensava ser também a postura da direção, ia de encontro à missão da empresa “ o desenvolvimento integral dos educandos”. No caminho para casa, planejei mil formas para resolver aquele assunto sozinha. Eu não admitia (ainda não admito) que aqueles jovens ficassem sem punição, mas se tratava de uma instituição particular, que não estava se importando com o bem estar de uma docente. Duas coisas me fizeram desistir de seguir com qualquer um dos meus planos: eu não tinha autonomia para responsabilizar institucionalmente, muito menos juridicamente, aqueles jovens e, infelizmente, eu precisava daquele emprego. Os dias que se seguiram não foram fáceis, me senti derrotada (é como me sinto até hoje). E, apesar de não querer admitir, eu precisava pedir demissão daquele lugar. A verdade é que aquela escola já não me fazia bem desde 2017, quando fui perseguida pelo professor de geografia e a instituição não soube lidar com a “mediação do conflito”, este criado por um homem machista, que se sentia oprimido pela profissional que eu era e que não admitia que eu não precisasse dele como mentor, conforme ficou claro na conversa que tivemos. Mas isso é assunto para outra carta. Em junho de 2018 marquei uma reunião com a direção para avisar que eu não continuaria como professora da escola depois das férias de julho. Durante a conversa, expliquei os motivos da minha saída e, pasme, a coordenadora não havia levado o assunto do tal grupo do WhatsApp para a direção. Como aquele era um assunto desconhecido da diretora, revisitei os fatos daquele final de semana de fevereiro, enquanto narrava os detalhes do que havia acontecido. Mesmo com a minha saída iminente, a direção convocou os adultos responsáveis pelos alunos para uma reunião, da qual eu não participei e na qual fui acusada, por uma das mães, de perseguir um “pobre menino inocente, que fez uma brincadeira e não entendia a gravidade do que disse”. O assunto foi dado como encerrado, os alunos não foram responsabilizados e eu segui a vida bem longe dali. Hoje, mais de dois anos depois, esse ainda é um assunto que me deixa triste e frustrada. Você sabe, não gosto de assuntos inacabados e carrego comigo um sentimento, uma necessidade de justiça. Mas eu precisei me afastar daquilo tudo, principalmente porque entraria nos seis meses finais do mestrado e eu tinha uma dissertação para terminar. Espero que agora você entenda o porquê de eu ter demorado tanto para escrever sobre isso. Saudades das nossas conversas na varanda da sua casa. Um abraço enorme, Bia. Ansiosa pela sua opinião sobre isso, Lucila. Lucila Barbalho Nascimento é apenas uma feminista potiguar que mora no sertão alagoano e está em constante (des)construção. Historiadora de formação e apaixonada pela docência. Uma leonina que não gosta de espelho e é viciada em séries. Fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Feministas Dandara Dos Palmares (instagram @gefem_dandaradospalmares). Seu Instagram pessoal é @lucila_barbalho.

Respeita nossa história: Ruth Klüger
Respeita nossa história: Ruth Klüger

por Maria Eliza Zahner* Ruth Klüger nasceu em Viena, Áustria, em 30 de outubro de 1931. Judia, tinha onze anos quando foi enviada, junto com sua mãe, para os campos de concentração nazistas. Juntas, passaram pelo gueto de Theresienstadt e os campos de Auschwitz-Birkenau e Christianstadt. Durante uma das marchas da morte, características das liberações dos campos, conseguiram fugir. Klüger é mais conhecida na área de História pelo seu livro “Paisagens da Memória”, em que narra suas memórias dos campos e os efeitos da experiência em sua vida. Nele, temas como o luto, o sexismo e sua identidade estão sempre presentes. Vemos em sua obra passagens que nos levam a reconhecê-la como a mulher a quebrar a imagem clássica do sobrevivente - aquele que tem o campo como ponto de partida de sua vida. É, também, forte opositora à cultura museológica em torno dos campos de concentração. Vejamos, aqui: A Auschwitz nunca mais voltei e tampouco tenho intenção de fazê-lo nesta vida. Para mim, Auschwitz não é um lugar de peregrinação, um santuário. Poderia vangloriar-me por ter saído de lá com vida, mas quero dizer que Auschwitz não se tornou um lugar de referência para mim, que passei por ali e esse lugar não conseguiu me reter [...] Não pertenço àquele lugar que vi com os olhos, senti com o nariz e temi como nunca, e que hoje existe apenas como museu, e nunca pertenci a ele. Um lugar para os que querem preservar a área. E, no entanto, esse lugar torna-se para todo aquele que ali sobreviveu uma espécie de lugar de origem. A palavra Auschwitz tem hoje uma grande aura, mesmo que seja negativa, de modo que ela determina em grande medida o que se pensa sobre uma pessoa quando se sabe que ela esteve lá. Também em relação a mim, as pessoas que querem dizer algo importante a meu respeito mencionam que estive em Auschwitz. Mas não é tão simples assim, pois não importa o que vocês possam pensar, não venho de Auschwitz, venho de Viena. Viena não pode ser posta de lado, ela se percebe pela minha linguagem; Auschwitz, porém, era tão estranho para mim quanto a lua. Viena é uma parte de minha estrutura mental e fala através de mim, enquanto Auschwitz foi o lugar mais despropositado onde jamais estive e a lembrança que tenho de lá permanece na alma como um corpo estranho, como um projétil de chumbo que não pode ser extirpado do corpo. Auschwitz foi apenas um acaso monstruoso. (KLÜGER, 2005: 125-126) Ruth Klüger narra sua vida e assume o controle de sua identidade a partir de sua obra. A escrita é cheia de provocações, em especial aos homens que passaram por sua vida, como: Anos depois, eu estava casada com um historiador que lecionava história européia em Berkeley: ele chega à era Hitler e lhe pergunto se gostaria que eu falasse a seus alunos, durante uma hora, sobre os campos de concentração. Algo se transforma em seu rosto, uma grade cai diante de seus olhos, ou melhor, uma ponte levadiça se ergue, ouve-se um murmurejo, lá embaixo tem água parada, amarelo-esverdeada, cheia de algas. Ainda quero acrescentar que não sugeri nenhum strip-tease na classe, mas penso ‘não o censure, é um veterano de guerra; esses veteranos representam a vitória do bem sobre o mal’. Éramos como doentes de câncer que lembram às pessoas saudáveis que estas também são mortais. Freqüentemente conta para mim como sentira frio no inverno de 1944-45. Certa vez, me senti compelida a dizer que eu mesma me lembrava muito bem daquele inverno rigoroso sobre o qual ele discorria; porém, sem os bons cobertores, as roupas quentes e as rações generosas das forças americanas, a lembrança era ainda mais viva. Exaltou-se porque eu lhe impunha recordações que competiam com as dele. Aprendi então que as guerras pertencem aos homens. (KLÜGER, 2005: 208-209) Utilizo suas citações por honra ao que ela pede em “Paisagens da Memória”: poder falar. Durante sua vida, várias vezes recebeu a negação de sua identidade. Era jovem demais para estar nos campos de concentração, era mulher, judia, imigrante... O livro é como se apropria de sua história, através de suas palavras. Após a fuga dos campos, em 1945, Ruth Klüger e sua mãe, Alma Klüger, se refugiam na Alemanha, onde ficam por dois anos e meio, em Bayern. Depois de terminar seus estudos na Alemanha, migram para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, se forma em Literatura Inglesa no Hunter College. A relação complicada com a mãe faz com que Klüger se mude para a Califórnia, onde se casa, tem dois filhos, se divorcia e retoma seus estudos. Na Universidade da Califórnia, Berkeley, faz seu doutorado em Literatura Germânica e se torna professora universitária. Passa por algumas faculdades, e, em 1980, se torna a primeira mulher do departamento de Estudos Germânicos da Universidade de Princeton. Em 1986, se fixa na Universidade de Irvine, Califórnia, onde se torna professora emérita. Dentre suas obras não publicadas no Brasil estão “unterwegs verloren – Erinnerungen”, uma segunda autobiografia lançada em 2010, e “Frauen lesen anders” e “was Frauen schreiben”, duas análises sobre os hábitos femininos na Literatura, além de seus trabalhos sobre o poeta Heinrich von Kleist, a quem dedicou sua pesquisa. Ao longo de sua carreira, Ruth Klüger ganhou diversos prêmios por seu trabalho enquanto autora e crítica, entre eles o Thomas-Mann-Preis, em 1999, e a Goethe Medaille, em 2005, dois importantes prêmios da literatura alemã. Também recebeu, em 2003, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Göttingen, na Alemanha. Ruth Klüger faleceu em sua casa, em Irvine, Califórnia, no dia 6 de outubro de 2020. *Maria Eliza Zahner, graduada em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em 2019. Natural de Petrópolis, se interessa pelas mulheres que querem contar suas histórias. Sua pesquisa, durante a graduação, analisou as identidades de RuthKlüger expostas em seu livro "Paisagens da Memória". Referências: KLÜGER, Ruth. Paisagens da Memória: Autobiografia de uma Sobrevivente do Holocausto. São Paulo: Ed. 34, 2005. KLÜGER, Ruth. unterwegs verloren: Erinnerungen. München: dtv, 2010. Perfil da Dra Ruth Klüger na Universidade de Irvine, Califórnia, disponível em https://www.faculty.uci.edu/profile.cfm?faculty_id=2565 Acessado em 11/10/2020 Obituário de Ruth Klüger publicado no Washington Post, disponível em https://www.washingtonpost.com/local/obituaries/ruth-kluger-author-of-searing-and-celebrated-holocaust-memoir-dies-at-88/2020/10/09/eeee3b16-0a2a-11eb-9be6-cf25fb429f1a_story.html Acessado em 11/10/2020

Tá rolando...
Tá rolando...

1 - ESTÚDIO DE DESIGN @JUPOCKET Amor em forma de traço, é assim que o JuPocket Studio, fundado pela publicitária Juliana Fernandes, se apresenta para o público. Prestes a cumprir 2 anos, o estúdio de design desenvolve produtos exclusivos, em sua maioria personalizados, para quem procura presentear com criatividade e amor. "Após ter trabalhado 20 anos com Marketing em grandes empresas e, com a chegada da minha filha Morena, senti necessidade, assim como muitas outras mulheres, de um maior equilíbrio entre minha vida profissional e minha vida pessoal. Ainda não sabia ao certo o que iria fazer, mas tinha muito claro o que não queria mais. No meio desta transição, comecei a estudar desenho como uma forma de terapia, nunca imaginei que o desenho se transformaria na minha nova carreira", conta Juliana. Uma amiga a incentivou a publicar alguns de seus desenhos no instagram e, em pouco tempo, surgiu a primeira encomenda. Daí em diante, suas ilustrações, sempre pautadas no amor das relações, passaram a contar histórias e conquistar cada vez mais pessoas. Hoje, com o aumento da demanda, Juliana já contratou 2 pessoas: uma estagiária de design, que a auxilia nas ilustrações, principalmente na parte de digitalização, uma vez que todos os desenhos são feitos e pintados à mão e um fotógrafo e videomaker, que a ajuda com a produção de conteúdo para as redes digitais. Na semana passada, Juliana Fernandes lançou seu primeiro livro infantil, escrito e ilustrado por ela mesma: "A Valsa da Bailarina". A obra é um livro musical baseado em uma canção de ninar composta por ela quando sua filha, Morena, tinha 3 meses. O livro foi viabilizado através de financiamento coletivo e atingiu a meta em menos de 10 dias de campanha. Nele, o leitor pode baixar a canção através de um QR code e acompanhar uma girafinha bailarina enquanto esta vai dançando e sonhando num mundo regado a muita fantasia e imaginação, como a mente das crianças. Não à toa, o livro vem conquistando rapidamente crianças de todo o país. "Ter publicado este livro foi um marco muito importante dentro do projeto do JuPocket Studio, pois além de ser um sonho meu pessoal, abriu portas para outras ideias de projetos, sempre dentro desse propósito de trazer mais beleza para o mundo e para as relações, através da arte" ela conta, acrescentando que já possui ao menos 3 ideias de livros novos. O estúdio de design é localizado na cidade de Nata/RN, mas o JuPocket aceita encomendas de todo o Brasil. Seu perfil no Instagram é @ JuPocket. 2 - CHAMADA DE ARTIGOS "MÃES CIENTISTAS NA AMÉRICA LATINA: PERSPECTIVAS E DESAFIOS NA ACADEMIA": Nossa leitora Olívia da Rocha nos sugeriu divulgar a chamada de artigos com o tema "Mães cientistas na América Latina". Maiores informações no folder de divulgação. Muito obrigada pela dica, Olívia. 3 - HIP HOP FEMINISTA? Nossa sugestão é o livro “Hip-Hop Feminista? Convenções de gênero e feminismo no Movimento Hip-hop Soteropolitano” (disponível em português e inglês). A publicação é o resultado da pesquisa de mestrado da cientista política, Rebeca Sobral Freire, atualmente, doutora em Estudos Feministas e de Gênero pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismos (PPGNEIM/CAPES/UFBA). A obra analisa a experiência de um hip-hop feminista jovem e negro em Salvador/BA e insere-se no campo da antropologia política. Interessou à pesquisa as concepções de feminismos envolvidos e o modo como a cultura política local influencia as experiências dessas mulheres. Para tanto, considerou-se as formas de apropriação dos discursos feministas e o engajamento das diferentes bandeiras na militância das interlocutoras. Ficou curiosa?! Para nossa alegria, a editora EDUFBA disponibiliza para download, em formato E-book, os livros completos em inglês e português, acesso nos links: HIP-HOP FEMINISTA? Convenções de gênero e feminismo no Movimento Hip-hop de Salvador (2028) Link: http://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/30350 FEMINIST HIP-HOP? Conventions of gender and feminisms in Salvador’s Hip-Hop movement (2020) Link: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/32146/3/Feminist%20Hip-hop.pdf 4 - FILME "KBELA" (22 min.) - YASMIN THAYNÁ Inspiradas e, ainda, celebrando o 20 de Novembro - Dia da Consciência Negra -, nos demos a difícil tarefa de escolher entre nomes importantes como os de Adélia Sampaio, Lilian Santiago, Viviane Ferreira, Cíntia Maria, Jamile Coelho, Sabrina Fidalgo, Eliciana Nascimento, Larissa Fulana de Tal, Edileuza Penha de Souza... e tantas outras diretoras negras, a sugestão de um filme do Cinema Negro brasileiro. Eis que chegamos ao nome da carioca Yasmin Thayná, com o premiado curta-metragem “Kbela” (2015), inspirado no conto literário “MC Kbela” – que narra a história de uma menina se descobrindo negra e sem referência positiva do seu grupo étnico. O filme, produzido com financiamento coletivo, destaca-se por denunciar os constantes ataques racistas aos corpos negros femininos em seu dia-a-dia. A experiência da discriminação vivida por nós mulheres negras, em nossos corpos, traços, cabelos... São peças chaves de denúncia dessa narrativa cinematográfica. É no corpo da mulher negra que o processo sucessivo de embranquecimento atua, e isso é explorado nas cenas que mesclam experimentos e técnicas mirabolantes (e violentas) de alisamentos e clareamento da pele/cabelo. Porém, também, destaca os processos de empoderamento. A força ancestral fazendo emergir outro lugar social para esse corpo, tornando-o espaço estratégico de resistência. Nesse sentido, o nosso convite a essa intrigante experiência estética vem no desejo de promoção e reflexão sobre as lutas por igualdade e respeito a todos os corpos e cores. Filme “Kbela” (2015) - Yasmin Thayná Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LGNIn5v-3cE&t=1068s 5 - REVISTA CORRE - ARTE, PENSAMENTOS PRODUÇÃO - Nossa leitora e colaboradora Bruna Fonseca nos sugeriu a Revista Corre - arte pensamentos produção que é uma revista virtual independente voltada para artes, cultura, filosofia, literatura e ciências humanas. Cada edição é organizada tematicamente, visando a formação de outros públicos de arte, a circulação de ideias propagadas por vozes plurais e a estimulação do debate. Nesse sentido, Corre enfatiza a produção de narrativas contra-hegemônicas, apresentando-se como mais um vetor para o desenvolvimento e a consolidação de um cenário cultural democrático no país. A revista faz encontros com personalidades das artes, o segundo encontro do mês de novembro buscará ampliar o debate sobre o tema da segunda edição da revista, CORPO conversando sobre mais uma manifestação cultural: o jongo! A convidada será Flavia Souza ( @flavia_souza_1980 ), bailarina, pesquisadora e jongueira, falará um pouco dessa manifestação riquíssima da nossa cultura brasileira, lotada de significado e ancestralidade. Ela falará sobre as experiências do Grupo de jongo Afrolaje(@grupo_afrolaje) no dia 21 de novembro, às 16h. Sim, essa é a boa de hoje!!! Confira no link: https://linktr.ee/revistacorre 6 - CADERNOS DE LEITURAS DNº. 116 - MATERNIDADE E ISOLAMENTO SOCIAL Indicamos a sempre delicada seleção da editora Chão da Feira nesta coletânea de textos dedicados à maternidade e ao isolamento social. Com curadoria de Maria Carolina Fenati, a publicação reúne textos de sete mulheres que refletem sobre o isolamento social e a maternidade, mas também sobre os olhares das crianças e dessas mulheres, em textos que trazem utopias e desencantamentos, exaustão e a consciência (da ausência) do tempo, gratidão ao aprofundamento dos vínculos, algum desespero por não poder estar só, o cotidiano e as suas palavras, o aprendizado da língua, essa língua que é também a língua do isolamento social, da onipresença. O olhar das crianças, o desejo de acreditar, o apelo à presença constante como gesto presente. A publicação conta com textos de Ana Freitas, Brisa Marques, Fabiana Carneiro, Mika Andrade, Nina Rizzi, Roberta Ferraz, Ursula Rösele. A editora da Chão da Feira Maria Carolina Fenati é nossa entrevistada deste mês! Confiram!

Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira
Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira

#mulhereseditoras Hoje se inicia a série de entrevistas “Mulheres Editoras” realizadas pela Revista Mulheres do Fim do Mundo. Editada por seis mulheres, a MFM, contudo, não nasce sozinha. Entrevistaremos mulheres que trabalham na editoração de textos há muitos ou poucos anos, refletindo um espelho que lembra que nunca andamos sós: um lugar está infinitamente conectado a muitos outros - e outras, nas quais buscamos nos inspirar. Nesta edição entrevistamos a Maria Carolina Fenati, editora da Chão da Feira e professora. Formada em História pela UFMG, estudou literatura portuguesa contemporânea em Lisboa em seu mestrado e doutorado. Fundou a Chão da Feira em 2011, organizando a coleção Caderno de Leituras, a revista Gratuita e a publicação de livros junto a outras três mulheres. Mulheres do Fim do Mundo (MFM) - Você é uma das editoras responsáveis pelas Edições Chão da feira, um projeto gestado e gerido por mulheres. Conte-nos um pouco sobre como surgiu esse projeto e como ele vem sendo desenvolvido até agora por você e por outras mulheres. Maria Carolina Fenati (MCF) - A Chão da Feira começou com o primeiro número do Caderno de Leituras, em dezembro de 2011. Ou ainda, talvez tenha começado bem antes, quando comecei a imaginar modos de ler e escrever junto, de formar equipe ao redor da escrita. Quando fazia doutorado na Universidade Nova de Lisboa, vivia boa parte dos meus dias sozinha com os livros na biblioteca, o que continuo a adorar fazer. Mas queria fazer isso junto, conversar, praticar, enfim, era uma intuição de não ficar sempre só com aquilo que eu amava. Começou então esta ideia de publicar gratuitamente ensaios breves, e o nome da editora era o nome da minha rua em Lisboa, Chão da Feira. Fiz o caderno 1, e já no segundo número senti que algumas pessoas se aproximaram, tanto leitores como amigas que se tornaram editoras junto comigo. Quando publicamos nossos primeiros livros e o número 1 da revista Gratuita, já éramos uma equipe que, em grande parte, está presente hoje. Luísa Rabello e Júlia de Carvalho são amigas que adoro e editoras incríveis com as quais tenho a alegria de partilhar a editora, e a vida também. MFM - Na edição 100 dos Cadernos de leitura você compartilha um pouco da história dessa coleção, que veio de uma necessidade de escuta, da leitura e também da palavra como forma de estar junto. Você pode nos falar um pouco sobre essas diversas formas de partilhar a leitura? MCF - Só muito recentemente – na Idade Moderna – a leitura se tornou um gesto solitário. Líamos em público, e antes, as histórias eram ouvidas. Isso, digamos, na tradição ocidental do conhecimento, porque sabemos que há tantas e tantas culturas, inclusive no Brasil, em que a partilha das histórias é feita oralmente. A escuta é um dos sentidos profundamente ligados ao imaginário, é um dos sentidos ligados à uma postura ética de respeito ao outro, ao desconhecido. Por outro lado, há uma solidão da escrita que é inegável e de algum modo essencial; e há também a solidão do autor, a solidão da pessoa que escreve, o que não precisa ser necessariamente assim. Aprendo muito conversando com os autores dos textos que publicamos, aprendo muito com o processo de edição, esta espécie de laboratório das palavras. Há ainda qualquer coisa que tem a ver com participar na democratização do acesso ao livro, à escrita e à leitura, um posicionamento público e político que a paixão pelos livros me faz desejar. Isso, por um lado, implica em publicar textos cujo acesso é gratuito, e outros com um valor acessível. Por outro lado, também implica a abertura para formas de pensamento variadas, que observem o que imaginamos estar a espera de ser pensado, isto é, o que não sabemos mas de algum modo está aqui, ou ainda, como escreveu Agamben, os escuros do contemporâneo. MFM - Você conta, também na edição 100 dos Cadernos, como a experiência de deslocamento geográfico operou igualmente um deslocamento nos textos lidos e publicados; a atenção se voltando às distintas epistemologias ameríndias do sul, na investigação sobre a sabedoria das plantas... Você pode nos contar um pouco sobre esses diferentes deslocamentos e como eles se relacionam? MCF - Este caderno 100 foi uma edição comemorativa no qual decidi contar um pouco a história da coleção. Não havia entendido esta história, ou melhor, não havia tentado traça-la antes com tanta clareza quanto fiz quando escrevi o caderno. É engraçado como, às regiões geográficas, corresponde um certa região bibliográfica e do imaginário. O cardápio de autores e mesmo de questões que circulavam na universidade em Lisboa era fantástica, e muito centrada nos autores europeus. Aprendi imenso ali, e sou muito grata. Quando vim para o Brasil, outros autores surgiram, e também outras questões. Não há que negar que aquilo que pensamos está muito ligado aos outros sentidos, quer dizer, ao que vemos e ouvimos, ao que cheiramos, ao que está ao nosso redor. O cheiro de queimada, para dizer algo que perturba o nosso pensamento hoje, deve ser sentido por todo o mundo, mas ele é mais intenso aqui. Por outro lado, a certeza de uma espécie de limite civilizatório, ou ainda, a sensação de que estamos presos num labirinto cultural foi, para mim, mais evidente diante da multiplicidade de culturas e cosmogonias ameríndias vivas no Brasil. Talvez seja a questão das vizinhanças, talvez seja uma espécie de reencontro que vivi, ou as duas coisas – de todo modo, pensar é também estar lado a lado com os outros. MFM - No Brasil, ainda nos deparamos com a pouca visibilidade de mulheres no mercado editorial, considerando que grande parte dos livros publicados pelas grandes editoras ainda são escritos por homens cis, brancos e héterossexuais. Todavia, observamos, atualmente, o surgimento de projetos como o “Leia mulheres”, desenvolvido em vários estados no país e que incentiva a leitura de livros escritos exclusivamente por mulheres. Vemos, também, a emergência de editoras independentes que divulgam as produções dos grupos minoritários brasileiros (mulheres, negros, lgbt+). Nesse sentido, você poderia nos relatar sobre a experiência de ser mulher, editora, inserida nesse mercado editorial brasileiro? MCF - É uma pergunta difícil de responder não porque não saberia o que dizer, e sim porque tudo o que eu faço é inseparável de ser mulher, das alegrias e dos desafios que isso me traz. Adoro ser mulher, o que, longe de ser algo pacificado, é uma luta e uma invenção. As questões que me proponho pensar na editora, desde as temáticas dos textos até o tempo do trabalho, tudo isso de algum modo é inspirado na mulher que vou me tornando e que tenho tentado que se desvie dos destinos da frustração e da amargura que tantas vezes me parece estarem à nossa espera no futuro. É engraçado que uma vez li num livro da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol que uma mulher dizia aos seus visitantes: “não é tu que me importa, é o seguinte”. Demorei anos para entender alguma coisa nesta frase, e outro dia imaginei que nela está uma das linhas de forças femininas que atuam em mim: importa a continuidade, não do mesmo, mas a continuidade variada da vida, o seu devir, os muitos modos como tudo continua. Esta confiança na vida, como vejo, é qualquer coisa de muito feminino e também infantil. Lembra da Ana Cristina César no poema “Cartilha da cura”? “As mulheres e as crianças são as primeiras que/ desistem de afundar navios”. MFM - Na reportagem Maternidade e criatividade, de 05 de maio de 2020, realizada pela Gianni Paula de Melo, você diz que “desde que você foi mãe, tudo está noutro lugar, e para onde olho encontro questões que a maternidade trouxe para o meu trabalho”. Como a maternidade foi capaz de transformar o seu processo criativo de escrita? Conte-nos um pouco sobre a ideia e a experiência da oficina Maternidade e escrita? MCF - A maternidade instaurou uma gagueira na minha voz. Não é a primeira vez que isso me acontece, ainda que nunca tenha sido tão forte como agora. Quero dizer com isso que perdi boa parte do que imaginava saber sobre o mundo e sobre mim, minhas narrativas caíram por terra e como um torrão se espatifaram. Tenho me exercitado por encontrar outras vozes, outros modos de dizer, mirando um pouco sem saber. É como se eu não soubesse o que dizer e ao mesmo tempo não pudesse me desviar de dizer. E isso, claro, no tempo que me resta para outras coisas que não cuidar das meninas, do trabalho, da casa, etc. Ainda assim, tem sido angustiante e divertido, maravilhoso e sofrido. A ideia da oficina de escrita e maternidade é, de novo, apostar em fazer isso – pensar, ler, escrever – juntas. Já houve algumas edições e em todas me emocionei muito com o que as mulheres têm a dizer. Dizer de si, estar à escuta umas das outras, escrever – é isso o que fazemos na oficina, e tem imenso sentido para mim. MFM - Nesse ano de 2020, lemos alguns artigos que demonstravam como a pandemia de coronavírus no Brasil afetou (e tem afetado) fortemente a produção científica das mulheres, gerando um cenário em que mais da metade das mulheres com filhos deixou de entregar artigos, enquanto apenas 38% dos homens com filhos (aproximadamente) apresentou a mesma queda de produção. Você poderia compartilhar conosco sua experiência relacionada à maternidade e às suas atuações profissionais em tempos de pandemia? MCF - Talvez não haja outra espécie no mundo que tenha tanta certeza de que vai continuar apesar de tudo (da destruição do planeta inclusive) e tão pouco cuidado e amparo com as crianças. Ninguém está nem aí para o perrengue que as mães vivem, digo isso do ponto de vista das instituições e do mercado, dos ambientes de trabalho, etc. Imagina que há gente que protesta por ver uma mulher amamentando em público! É inacreditável como esse começo precário, mágico, fabuloso e terrível da gestação e nascimento das crianças é denegado. Por aqui, tenho me desdobrado em muitas, e quase sucumbido muitas vezes. Arranco alguns minutos para mim, e isto tem sido fundamental. Confio muito na minha rede de apoio, e nas mulheres com quem luto. Outro dia li: “Todos os nossos filhos são a vanguarda de um reinado de mulheres que ainda não foi estabelecido” – Audre Lorde. MFM - Por fim, há algum texto, alguma proposta de escuta possível nestes tempos, que você indica para as leitoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo? MCF - Há pouco tempo ganhei de uma amiga, que também é editora na Chão da Feira, a Júlia de Carvalho Hansen, um livro incrível: Irmã outsider, de Audre Lorde (Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020).

Traduções: Patricia Morales
Traduções: Patricia Morales

por Patricia Morales[1] Nunca mais sem “nosotras”[2]: A importância da paridade na Convenção Constituinte[3] Texto original em: https://www.latercera.com/paula/nunca-mas-sin-nosotras-la-importancia-de-la-paridad-en-el-proceso-constituyente/ de 30 de setembro de 2020 “Tem se produzido um consenso a nível internacional, referendado por acordos e pactos das Nações Unidas e outros organismos, que populações ou grupos historicamente marginalizados das esferas de poder - como os povos indígenas ou as mulheres – ou certas minorias étnicas, religiosas, linguísticas, devem ser representadas por seus próprios integrantes para assegurar uma representação adequada”[4], disse o documento Mecanismos de Cambio Constitucional en el Mundo, análisis de la experiência comparada[5], do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Nele se explica que para que isso ocorra, tem se desenhado mecanismos específicos que asseguram uma presença efetiva e representação equilibrada desses grupos “Mecanismos como reserva de assentos para povos indígenas ou cotas eleitorais de gênero para as mulheres, por exemplo, tem permitido uma melhor representatividade nas assembleias da diversidade representada nas distintas sociedades”, acrescenta o documento. Dessa forma, a existência de assentos reservados para certos grupos como os povos indígenas na Venezuela ou os imigrantes no Equador e na Tunísia, junto com a exigência de que um número ou porcentagem de candidatos eleitos sejam mulheres no caso da Bolívia, constroem medidas positivas para alcançar tal objetivo. Porém, no Chile, estamos um passo à frente. Assim, se estabeleceu em 20 de março deste ano quando o governo promulgou a lei de paridade de gênero para o processo constituinte que acontecerá, logo após o plebiscito de 25 de outubro. Uma medida que se concretizada apontaria não apenas um marco para a luta do movimento feminista, como também transformaria o Chile no primeiro país do mundo a ter uma convenção constituinte paritária. Questão esperada pela maioria das chilenas e dos chilenos. Destarte, ao menos apontou uma pesquisa realizada por Ipsos[6] e Espacio Público[7], na qual 71% dos pesquisados – mulheres e homens – acreditam que é importante a paridade de gênero nesse processo. Essa não é a primeira menção que se põe na mesa sobre o tema. Em junho deste ano, a Corporación Humanas y el Observatorio de Género y Equidad[8] realizou uma medição sobre o processo constituinte na que participaram só mulheres. Foi feita a pergunta: “Você está de acordo ou em desacordo com a lei que obriga a paridade de gênero na eleição dos e das delegadas constituintes? 87% mostrou-se a favor. E essa porcentagem subiu para 92% quando a pergunta era se a presença de mulheres que integrem a Convenção Constituinte contribuirá para que se representem as necessidades e interesses das mulheres em uma nova constituição. Não cabe dúvida que a paridade de gênero é um tema relevante no processo constituinte, uma espécie de dívida histórica para com as mulheres. “Essas porcentagens explicam a relevância que têm tido às demandas das mulheres no nosso país, margeando o que é possível. Falar de uma convenção constitucional paritária era algo absolutamente impensado um tempo atrás, chegar até aqui fala muito do estilo das mulheres e da liderança feminina. Porque não era algo óbvio de conseguir, não há precedente de uma convenção paritária” afirma Pía Mundaca, diretora executiva do Espacio Público. Carolina Carreta [presidenta] da Corporación Humanas[9], disse que, no caso das mulheres, existe a percepção da possibilidade que se representem seus interesses é maior quando há outras mulheres legislando. “Isso obedece ao que temos visto no Congresso. Apesar de ainda ser baixa a porcentagem de mulheres que estão no parlamento, na medida em que [seu número] vai aumentando, também os temas de direitos humanos das mulheres têm sido legislados com mais rapidez. Como os direitos de maternidade, temas de violência de gênero, entre outros”, disse Carreta. As mulheres chilenas se sentem discriminadas e um dos âmbitos, no qual esse sentimento é maior, é na política. “Se observamos como foi o processo legislativo no Chile, por exemplo, em 1994, quando se legislava pela primeira vez sobre o tema da violência, não ficou tipificada como um delito porque a maioria dos legisladores eram homens e o argumento que apresentavam era que as mulheres iriamos mentir para mandá-los presos sobre a lógica de que ‘as mulheres mentem’. E, anos depois, podemos observar a discussão sobre o aborto em três situações, especificamente no caso de estupro, se volta a apresentar o mesmo argumento”, explica. “Isso obviamente gerou mal estar nas mulheres, que têm se apresentado há muito tempo porque existe a percepção de que este é um país profundamente machista e discriminador no tema de gênero. E isso faz com que agora exista maior consciência da necessidade da presença de mulheres no processo constituinte por um tema de justiça. Logo vem a discussão sobre quais mulheres participam”, disse Carolina. Sororidade também na Convenção Segundo Mundaca, a paridade busca corrigir uma sub-representação absoluta que as mulheres têm na discussão pública, entendendo que as mulheres que vão entrar na Convenção devem ser mulheres que, idealmente, pensam diferente. “Mais além do que pensa cada uma, a paridade aponta para assegurar que a metade da população seja parte desse momento histórico. Associá-lo a uma maneira de pensar, ou a um partido é fazer uma caricatura pouco justa da realidade, já que a obrigatoriedade da paridade na Convenção se fez juntando mulheres de visões e partidos muito distintos. Esse é o resultado do esforço de múltiplas organizações, múltiplas mulheres que em outras discussões não necessariamente pensavam da mesma forma, mas que viram nisso um objetivo comum, que é a relevância das mulheres terem igual participação em um momento histórico do país”, disse. E isso tem a ver com que independente da posição política ou de valores, existem temas que nós, mulheres, sempre vamos nos encontrar, como a violência, a maternidade ou a participação política. “Não creio que exista alguma mulher que não queira que na nova constituição se reconheça o cuidado doméstico das mulheres, que transpassa classes sociais e que é um suporte tremendo que fazemos ao país e que, por sua vez, gera uma economia importante ao Estado; ou frente à diferença salarial, é difícil que alguma acredite que é justo pagar mais a um homem pelo mesmo trabalho”, disse Carolina Carrera. E acrescenta: “Por isso nos países que levaram a cabo esses processos têm sido bem interessantes como as mulheres de partidos políticos, de organizações sociais, feministas, têm se articulado para acompanhar as mulheres constituintes. É o que se espera desse processo, que esteja representada a maior diversidade de mulheres, que não apenas seja pensado desde a lógica da expertise com as/os advogados, mas sim que tematicamente tenhamos mulheres trabalhadoras de casas particulares, diaristas, que os temas estejam ali. Porque ao final, mais além das diferenças, o que nos une é que todas nós sofremos no sistema patriarcal com uma desigualdade profunda de poderes. Por isso, se conseguirmos que saia esta Convenção Constituinte, vai ser um marco para a história do movimento feminista no Chile”. Como funcionará o mecanismo da paridade no Chile? Quando, em março, a Comisión de Constitución de la Cámara Baja aprovou as indicações apresentadas para garantir a paridade de gênero, na prática o que se aprovou foi que em cada distrito, sempre que se apresente um par de candidatos, nenhum gênero poderá superar 50% do total das candidaturas que compõem a lista. Nos distritos onde há um número ímpar de candidaturas, a diferença entre mulheres e homens não pode exceder um. Além disso, as listas de candidaturas dos partidos políticos e os acordos de independentes devem ser encabeçadas por uma mulher e serão ordenadas sucessivamente, de forma alternada, com as candidaturas dos homens. Não apenas nas candidaturas – como ocorre atualmente nas eleições parlamentares – como também nas pessoas eleitas. A regra de correção paritária é o mecanismo através do qual se assegurará que em cada distrito e, portanto, no órgão nacional, haja paridade. Então, para o caso de um distrito com quatro assentos que forem eleitas 3 ou 4 pessoas do mesmo sexo, deverá se aplicar a correção. Isso se faz identificando dentre elas a pessoa do sexo suprarepresentado menos votada e a substituindo pela pessoa do sexo sub-representado mais votada dentro do mesmo partido, pacto eleitoral ou lista independente. Isso acontece se a opção eleita no plebiscito for a Convenção Constitucional, ou seja, com 100% de representantes eleitos. Porém, se ganha a opção de Convenção Mista 50% das/dos representantes seriam eleitos diretamente e 50% sairiam do Congresso Nacional. [Nesse caso] as regras de paridade operarão para os 50% eleito, mas não para o 50% de parlamentares, por isso é muito provável que não haja paridade efetiva nesse caso. Quanto à pesquisa da Ipsos, perguntamos às pessoas sobre os mecanismos para mudar a Constituição e as alternativas possíveis, que são duas – Convenção Constituinte ou Convenção Mista – a porcentagem de conhecimento não foi tão alta como a da que declararam importante a paridade de gênero no processo. Nesse sentido, o desafio é que as demandas e desejos de cidadania se concretizem. É muito potente, evidenciar que a demanda da paridade seja uma concretização, não uma demanda não escutada; podemos ter uma convenção paritária, mas para isso tem que ganhar uma possibilidade de convenção”, explica Pía. E conclui: “Não gostaria que os homens fossem os porta-vozes de certas causas, entendo que é importante e que existem homens que apoiam as demandas do movimento feminista. Acredito que é crucial que as mulheres sejam parte da Convenção para enfrentar mecanismos sociais que geram desvantagens sociais nas quais elas têm sido vítimas. E as transformações e a inclusão feminina têm que acontecer em todos os âmbitos da sociedade, é muito importante que as mulheres estejam onde estão tomando as decisões”. [1] Economista da Universidad Católica de Lovaina (Bélgica). Mestrado em economia pela Paris School of Economics (França), com experiência docente universitária em Economia Internacional e econometria. Tem experiência em direção e gestão de projetos, assim como na elaboração, avaliação e implementação de políticas públicas em questões de desenvolvimento econômico e social. Ex-presidenta do Partido Progresista de Chile. Tem apresentado painéis em rádios e outros meios. Foi laureada com o prêmio Mujer Opina 2017, por promover a participação das mulheres nos espaços públicos e na política particularmente. Desde 2017, é Gerente Geral de Filantropia Cortés Solari [2] Escolhi manter o termo em espanhol devido à força presente na flexão de gênero inexistente na palavra correlata em português “nós”. O lema "nunca más sin nosotras" foi adotado pelas mulheres e os movimentos feministas no processo de inserção da questão da paridade de gênero para a Convenção Constitucional. Ver: https://www.clacso.org/pt/nunca-mas-sin-nosotras/ [3] O plebiscito ocorrido em 25 de outubro marcou a vitória da proposta de Convenção Constitucional com votos de 78% do público votante. Ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54689493 [4] Destaques do texto original [5] Disponível para download em https://www.cl.undp.org/content/chile/es/home/library/democratic_governance/mecanismos-de-cambio-constitucional-en-el-mundo.html [6] Instituto de Pesquisa de Opinião e Pesquisa de Mercado. Ver pesquisa: https://www.ipsos.com/es-cl/encuesta-ipsos-espacio-publico-constituyentes [7] Ver: https://www.espaciopublico.cl [8] Ver: https://juntasenaccion.cl/corporacion-humanas-y-observatorio-de-genero-y-equidad-entregan-herramientas-para-la-participacion-de-las-mujeres-en-el-proceso-constituyente/ [9] Ver: http://www.humanas.cl Traduzido por Flavia Veras

Ensaio: Flavia Sleiman da Costa
Ensaio: Flavia Sleiman da Costa

A Constituinte de 1987, os movimentos sociais e o “Lobby do Batom: considerações acerca do processo de elaboração da Constituição de 1988 Flavia Sleiman da Costa * #divulgação científica #academia # textos de opinião A Constituinte é a assembleia na qual se elabora uma nova Constituição. A de 1987 guardou particularidades do momento pelo qual o Brasil passava, especialmente a participação de movimentos sociais em seu processo de elaboração. Buscando resguardar direitos em seu texto, com destaque no trabalho, o movimento feminino. 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho busca, através de revisão bibliográfica e utilização de reportagens publicadas em periódicos e entrevistas, estudar a participação popular na Constituinte de 1987, com destaque especial para o movimento das mulheres. Para tanto, faz-se necessário destacar o papel de uma Constituição e de uma Assembleia Constituinte, ou seja, tentar conceituar essas duas instituições políticas, bem como fazer uma apresentação do momento vivido pelo Brasil, que culminaria em uma Assembleia Constituinte. Saía o Brasil de um período autoritário, de um regime ditatorial, instaurado por militares e civis (algumas parcelas da população civil), em 1964. A transição que se iniciou em 1974 durou onze anos e foi extremamente controlada pelos militares como forma de manter a própria instituição. O interesse em uma transição controlada não vinha exclusivamente da forma autoritária de governo. O fato é que o regime militar havia se enfraquecido. Primeiro, havia insubordinação dentro da própria instituição. Com o surgimento de movimentos populares e a pressão por eleições diretas, havia o receio de insubordinação dentro dos quadros militares. Somou-se a isso o surgimento de movimentos populares que influenciaram sobremaneira a política brasileira, especialmente quando do fim do bipartidarismo em 1979 e o surgimento de novos partidos políticos e de novos atores sociais. Além dos fatores acima citados, havia a crise econômica, potencializada pela crise do petróleo. Com a perda do poder de compra e da desvalorização salarial, alguns setores, antes favoráveis ao regime, tornaram-se contrários. Pelo citado acima procedeu-se à abertura democrática em 1974. Como será dito ao longo do trabalho, a abertura foi demorada, controlada, gradual e restrita. Os militares controlaram o processo de abertura, como já dito, havia o receio da insubordinação dentro dos próprios quadros, além do fato de uma abertura controlada ser característica de regimes autoritários militares. Desta forma, atores sociais, novos e antigos agiram dentro dessa abertura controlada. Movimentos sociais começaram a insurgir cada vez com mais força e, após, o fim do bipartidarismo, alguns ganharam representação partidária, inclusive, com participação dentro do próprio Congresso Nacional. Dentre esses movimentos sociais, estavam as mulheres que, desejavam não só maior representação política, mas especialmente a igualdade de direitos perante aos homens. Dentro do processo de redemocratização, ocorre a campanha “Diretas Já”, podendo ser considerada uma resposta à reapresentação de uma emenda que previa eleições diretas para Presidente, a Emenda Dante de Oliveira. Mesmo sendo rejeitada pelo Congresso, como resultado de uma negociação, um civil foi eleito através de Colégio Eleitoral para a Presidência da República, e eleições diretas para governadores foram realizadas. Em seu discurso, ainda em campanha, Tancredo Neves assume o compromisso de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Compromisso esse que foi atendido por seu vice José Sarney, que, com sua morte, assume a Presidência da República. Durante os trabalhos da Constituinte começam os apelos pela participação popular, que é aprovada no Regimento Interno da Assembleia. A participação popular não se dá exclusivamente pela atuação dos deputados, mas pelos movimentos sociais e pela cobertura da imprensa. Há a participação feminina com 26 deputadas constituintes. Entre preconceitos e algumas dificuldades, a bancada feminina aprova grande parte do que considerava essencial na Constituinte. A Constituinte de 1987 tem uma característica bem interessante, ela não advém de um Golpe de Estado, mas se mostra necessária, uma vez que há a mudança de um regime autoritário para um regime democrático. Ou seja, seria necessário uma nova Carta que iria reger um país diferente daquele que se apresentava. 2. CONSTITUIÇÃO Faz-se necessário, em um trabalho que busca falar acerca dos movimentos sociais que fizeram parte da Constituinte na redemocratização brasileira, falar um pouco do que é uma Constituição e qual a sua importância na construção de um país. A ideia de Constituição surgiu nos movimentos contra as Monarquias Absolutistas. Era necessário um documento que limitasse o poder do monarca e assegurasse as garantias individuais. Para os juristas, a Constituição é a regra maior, é o vértice do sistema normativo, a Lei Maior, ou seja, toda e qualquer regra deve estar de acordo com a Constituição, ou não será considerada válida. É complicado, porém, conceituar o termo Constituição. A forma, a Constituição escrita, traz em seu corpo preceitos que uma determinada sociedade considera importantes serem resguardados, porém há de se convir que os preceitos não são somente aqueles que são escritos, mas também aqueles nos quais a sociedade vive e se baseia. Norbert Bobbio, em seu Dicionário de Política, no verbete referente à Constituição, faz uma diferenciação entre a Constituição e a Constituição Formal, aquela escrita, vinda de um Poder Constituinte Originário. A Constituição Formal pode adotar diversas formas e não necessariamente concentrar os interesses da população, porém, não perde sua validade como norma jurídica maior. Portanto, conceituar Constituição é uma tarefa difícil, e seu conceito formal é insuficiente para defini-la. (BOBBIO, 1999, pp. 259 – 261). A Constituição ainda traz em si própria a ideia de pacto social, ou seja, um pacto acordado entre os cidadãos acerca da forma de vida e funcionamento do Estado, sendo, portanto, a Carta Magna. Como existem diversas formas de Constituições Formais, basicamente, as escritas, como a brasileira de 1988, traz em seu corpo, a forma e organização do Estado, a independência dos poderes, direitos e garantias sociais, ou seja, as funções do Estado e as funções do cidadão. 3. CONSTITUINTE Já Constituinte é a assembleia que elabora formalmente a Constituição. Mas muito mais do que isso, a Assembleia Constituinte é aquela que tem o poder de elaborar a Constituição. Geralmente, em regimes democráticos, parlamentares são eleitos para esse fim, exercendo o que se chama de Poder Constituinte Originário, ou seja, aquele que tem o poder de elaborar uma Constituição. Já o Poder Constituinte Derivado é aquele que pode modificar a Constituição e tem suas limitações previstas na própria. É o poder que revisa a Constituição. Como a Constituinte que ocorreu em 1987 previa a elaboração de uma nova Constituição, foi utilizado o Poder Constituinte Originário. Será tratada mais à frente a Constituinte de 1987. 4. A TRANSIÇÃO A transição brasileira, de um regime autoritário para um democrático, aconteceu de forma lenta, gradual e controlada. Como já citado, os militares visavam evitar uma insurreição dentro da própria organização, especialmente após os movimentos de abertura política, a volta do pluripartidarismo e dos movimentos sociais que passaram a pressionar pela abertura política. Kinzo divide o processo de transição em três fases: a primeira de 1974 a 1982; a terceira de 1982 a 1985, e a terceira que vai de 1985 – 1989. Na primeira fase, há a ascensão de Geisel e o anúncio da abertura do regime em um processo de abertura “gradual e segura”. Apesar do domínio militar, em um primeiro momento foram anunciadas medidas que mostraram uma “intenção” em se fazer a abertura. Revogação parcial da censura à imprensa, valorização das eleições legislativas. Um novo presidente, encarregado de dar continuidade ao processo foi eleito, de acordo com a indicação de Geisel, chegava ao poder Figueiredo. Segundo Kinzo, "os três fatores apontados – o processo eleitoral, o conflito interno dentro das forças armadas e a emergência de sérios problemas econômicos – concorreram para fortalecer aquele padrão controlado e gradual que caracterizou a transição democrática no Brasil. Iniciada em 1974, a liberalização somente teve avanço significativo em 1978, quando finalmente foi revogado o draconiano Ato Institucional n.5. Em 1979, já na administração Figueiredo, o Congresso aprovou a anistia que, embora limitada, permitiu a reintegração à vida pública de políticos exilados e de ativistas de esquerda punidos pelo regime militar. Uma nova lei partidária pôs fim ao bipartidarismo compulsório criado em 1966, levando à criação de novos partidos"(KINZO, 2001). A reforma partidária não só trouxe o surgimento de novos partidos, mas foi uma estratégia para enfraquecer a oposição e garantir que o próximo presidente fosse eleito via Colégio Eleitoral, e não por sufrágio universal. A segunda fase da transição se deu entre 1982 e 1985. Nessa fase, novos partidos políticos entraram em cena na política nacional. Governadores foram eleitos pelo voto popular. A oposição teve ganhos importantes, especialmente com a Emenda Dante de Oliveira e o movimento “Diretas Já”. Esse movimento uniu partes da oposição e teve uma grande mobilização popular. Mesmo com a força que teve, a Emenda foi derrotada no Congresso. Os partidos de oposição não tinham força política suficiente para bancar a ideia, e as lideranças do maior partido que era o PMDB estavam dividas. Apesar de Ulysses Guimarães ter se tornado o grande expoente da campanha pelas eleições diretas, Tancredo Neves, que compunha outra ala do PMDB, era a favor da eleição via Colégio Eleitoral, pois via ali a chance de se eleger, sabendo que suas chances em uma eleição direta seriam poucas. Essa opção do PMBD acabou por fortalecer a transição que o regime militar esperava. Apesar de ter o controle militar, essa opção do PMBD acabou impedindo que o governo nomeasse um candidato próprio às eleições presidenciais. A Terceira Fase teria início com a eleição de Tancredo Neves e José Sarney para a Presidência da República e já começa com uma turbulência: a morte de Tancredo Neves. O que levou ao questionamento do governo de Sarney e, dessa forma, a Nova República nascia sob o estigma de uma desconfiança da legitimidade do governo. Nessa fase ocorre a Constituinte, que promulga em 5 de abril de 1988 a Constituição da República Federativa do Brasil, sendo conhecida como a “Constituição Cidadã”. Ainda, na terceira fase, ocorrem as primeiras eleições diretas para a Presidência da República. Marcada por diversas divisões, Fernando Collor é eleito, ao vencer Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, no ano de 1989. 5. A CONSTITUINTE DE 1987 E OS MOVIMENTOS POPULARES Em seu primeiro discurso, Tancredo Neves assume um compromisso perante à nação: convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Começa um imbróglio acerca de uma “Assembleia Congressual”, na qual representantes do Parlamento atuariam parlamentares constituintes, e uma “Assembleia Exclusiva”, que trabalharia exclusivamente na elaboração da Constituição. Essa última era a preferência dos movimentos pró-participação popular. Segundo Rodrigo Mendes Cardoso, "nesse meio tempo, já era bem visível a atuação dos plenários, comitês e movimentos pró-participação popular quanto à aguardada Constituinte, que consequentemente viria a influenciar sobremaneira na inclusão dos mecanismos de participação popular em seu regimento interno e no texto final da Constituição. Uma das mobilizações dignas de nota ocorreu em julho de 1985, através de um documento escrito pelo jurista Goffredo Telles Júnior, em nome do Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte, intitulado “Carta dos Brasileiros ao Presidente da República e ao Congresso Nacional”, marcando também posição contrária à instalação de uma “Constituinte congressual" (CARDOSO, 2016). Mesmo com as pressões populares, foi instaurada uma Assembleia Congressual. Os partidos começaram a trabalhar no Regimento Interno da Assembleia, prevendo mecanismos de participação popular, especialmente o PT e o Diretório Regional de São Paulo do PMDB. É instituída a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, que contou com a participação de notáveis juristas brasileiros, entre eles Barbosa Lima Sobrinho, Bolivar Lamounier, Cândido Mendes, Celso Furtado, Cristovam Buarque, Jorge Amado e José Afonso da Silva. Apenas duas mulheres integravam a CEC: Floriza Verucci e Rosah Russomano. (VERSIANI. 2010). Segundo Rodrigo Mendes Cardoso, "em 27 de novembro de 1985, contrariando as reivindicações dos movimentos sociais por uma Constituinte exclusiva, a Emenda Constitucional n.º 26 foi aprovada, prevendo a instalação, em 01 de fevereiro de 1987, de uma Constituinte congressual, em que o Congresso Nacional assumiria, cumulativamente, as funções legislativas ordinárias e a constituinte. Assim, destoando dos precedentes constituintes históricos, o processo de elaboração constitucional que viria a ser adotado em 1987 assumiria um quadro de características bem peculiares: além de prescindir de uma prévia elaboração de um “projeto global inicial”, um longo espaço de tempo seria dedicado à conclusão dos trabalhos constituintes.22 Outro aspecto também inédito, que influenciaria sobremaneira a configuração da natureza e da qualidade da Constituinte de 1987- 1988, foi o fato desta não ter sido precedida de uma ruptura das instituições" (CARDOSO, 2016). Instalada a Assembleia Nacional Constituinte, dois blocos se formaram, um progressista, com projetos democráticos que visavam acabar com o regime até então vigente, e um grupo conservador, que defendia os interesses da elite e a manutenção do status quo vigente. Inicia-se uma batalha para efetivar a participação popular na Constituinte ainda na elaboração do Regimento Interno da Assembleia. Grupos se mobilizaram pelo país, e diversas cartas chegavam ao Congresso solicitando participação e direitos. Quanto à participação popular na Constituinte, o relator do Regimento Interno da Assembleia apresentou um dispositivo que previa que propostas com mais de trinta mil assinaturas e por três entidades legalmente constituídas, seria analisada. Sendo rejeitada, poderia ser novamente apresentada se subscrita por algum deputado constituinte. Outra vitória para a participação popular foi o acolhimento de temas apresentados por atividades de classe, bem como o acesso público às galerias, desde que sem prejuízo aos trabalhos da comissão. Para que essas proposições se tornassem realidade foi necessário um trabalho dedicado das associações pró-participação popular. Uma vez conquistado o direito de apresentar propostas de emendas populares ao texto em elaboração pela Assembleia Nacional Constituinte, garantido em seu Regimento Interno, os vários movimentos, comitês e plenários Pró-Participação Popular na Constituinte começaram a se articular para apresentar à Constituinte uma emenda popular que incluísse no texto da futura Constituição a possibilidade de o povo, diretamente, apresentar projetos de lei e de emenda à Constituição, além de outros instrumentos de participação popular. O desafio maior para a campanha de coleta de assinaturas para essa emenda residia no fato de que não se tratava de um assunto de interesse específico de um grupo ou classe, mas do próprio processo democrático. Em razão de pequenas divergências no conteúdo do texto a ser apresentado, foram elaboradas, no entanto, três propostas em vez de uma única, sob responsabilidade dos movimentos do Rio Grande do Sul, de São Paulo e de Minas Gerais. A Emenda Popular número 21, de responsabilidade do grupo de São Paulo, alcançou 303.538 assinaturas, tendo sido oficialmente apresentada pela Comissão Brasileira Justiça e Paz (entidade ligada à Igreja Católica), com sede no Rio de Janeiro, pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), também com sede no Rio, e pela Associação Brasileira de Apoio à Participação Popular da Constituinte, de São Paulo. A Emenda Popular 22, com origem no Movimento Gaúcho da Constituinte, oficialmente apresentada pelas entidades Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Rio Grande do Sul, Ação Democrática Feminina Gaúcha e Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Papel, Papelão e Cortiça de Guaíba, obteve 40.538 assinaturas. A terceira emenda, de número 56, foi oficialmente encaminhada pela Federação dos Trabalhadores na agricultura de Minas Gerais (FETAEMG), pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Comunicação e Operadores de Mesas Telefônicas de Minas Gerais (SINTEL) e pela União de Bairros de Juiz de Fora, com 35.000 assinaturas. Além dos movimentos e comitês que originalmente criaram as propostas e das entidades que as encaminharam à Constituinte, várias outras associações e grupos formais e informais, além de cidadãos, contribuíram com a coleta de assinaturas, atingindo um alto nível de participação popular no próprio processo de preparação das emendas para entrega à Constituinte. O total de assinaturas das três propostas, 379.076, distribuídas por quase todo o país, demonstra o sucesso alcançado pelos movimentos pró-participação popular na Constituinte na luta pela construção de uma democracia participativa no Brasil. Ao final, mesmo que a iniciativa popular de emenda à Constituição não tenha sido aprovada no texto promulgado em 5 de outubro de 1988, não é menos importante o fato de que, pela primeira vez em nossa história, as iniciativas populares de lei (em âmbito federal, estadual e municipal) - o plebiscito e o referendo - sejam instrumentos de democracia direta previstos na Constituição da República Federativa do Brasil. O fato é que satisfatoriamente ou não, houve participação popular na Constituinte de 87, seja através dos mecanismos previstos, seja através de pressões sociais. Segue-se um trecho do discurso de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1998, retirado do Jornal Constituinte (2013): "Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiros, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e a autenticidade social do texto que agora passa a vigorar". (BARROSO, 2013). 6. O LOBBY DO BATOM: A PARTICIPAÇÃO FEMININA NA CONSTITUINTE Assim como diversos grupos populares e entidades de classe foram criados para participar da Constituinte, o mesmo ocorreu com as mulheres. Organizadas através do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado em 1985, as mulheres participaram da Constituinte através da representação do Conselho e do envio de cartas aos deputados constituintes. Criado em 1985, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) - órgão primeiramente ligado ao Ministério da Justiça - foi criado com a intenção de promover políticas que eliminassem a desigualdade entre mulheres e homens, a discriminação e criar políticas ativas para as mulheres no país. Dos mais de 600 parlamentares que participaram da Constituinte, 26 eram mulheres. Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2007, em um uma reportagem especial acerca da participação das mulheres na Constituinte, a deputada Lidice da Mata, destaca: "naquela legislatura, pela primeira vez passamos de meia dúzia de deputadas para mais de 20. Foi um feito na época. (...) A participação das mulheres serve de exemplo para todos os movimentos sociais do Brasil. Estivemos unidas, e, isso foi suprapartidário. Buscávamos o consenso sempre" (LIMA, 2007). Porém, segundo consta em reportagem no site do Senado Federal, em um primeiro momento, as constituintes não tinham a ideia de atuarem em conjunto, formavam um grupo heterogêneo, com ampla participação partidária. Eram professoras, jornalistas, advogadas, sendo também, uma pesquisadora na área da saúde, uma empresária e uma atriz. (Monteiro, 2018). Como não poderia deixar de ser, o trabalho feminino foi difícil e complicado. Por vezes, procedeu-se à tentativa de desqualificá-lo. As constituintes eram indagadas sobre estilistas, perfumes, maquiagens, mas pouco acerca de suas atividades legislativas. O trabalho das deputadas ficou conhecido como “Lobby do batom”. Era uma forma de desqualificar a luta feminina e reduzir a mulher ao trabalho doméstico e ao interesse por itens de vaidade pessoal. Ainda de acordo com a reportagem do Correio Braziliense, as deputadas lembram que eram desqualificadas ao serem chamadas de “Lobby do batom”, ao serem criadas disputas fictícias entre elas, por uma ser loura (Rita Camata), e a outra morena (Rose de Freitas), e que grande parte do destaque se dava em elogios à beleza. O fato de chamarem a bancada das mulheres como “Lobby do batom”, “Bancada das Meninas”, era uma forma de tentar desqualificar o trabalho que faziam (LIMA, 2010). De fato, a participação feminina contou com o trabalho das deputadas, do CNDM, e com a participação popular. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher lançou a Campanha Mulher e Constituinte em novembro de 1985, e percorreu o país ouvindo mulheres e ampliando os canais de comunicação. O resultado da campanha foi a “Carta das Mulheres”, um documento no qual as mulheres fazem propostas aos deputados constituintes. Segundo a reportagem de Ester Monteiro ao site do Senado Federal: "A “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes”, entregue ao presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, pela presidente do CNDM, Jaqueline Pitanguy, em março de 1987, foi resultado de uma intensa campanha nacional, em articulação com ativistas, movimentos feministas, e associações diversas de todo o país durante dois anos. Com esse documento, elas levavam ao parlamento brasileiro a principal conclusão da campanha: “Constituinte pra valer tem que ter direitos das mulheres” (MONTEIRO, 2018). As reivindicações femininas passavam por igualdade de direitos entre homens e mulheres, licença-maternidade de 120 dias, igualdade de salários, mecanismos para coibir a violência doméstica, acesso à saúde, educação, propostas acerca de política internacional, entre outras. A reivindicação feminina não ficava sujeita apenas aos direitos relativos às mulheres. Segundo a Deputada Lidice da Mata: "E nós estávamos saindo de uma ditadura. Então a Constituinte era um processo que consolidava a luta em defesa da democracia. Os líderes que lutaram contra o regime de exceção sonhavam com a redemocratização do país estavam aqui. Além disso, houve um movimento muito típico, e acho que muito típico das nossas mulheres, durante a Constituinte: a nossa união. Nós nos organizamos como bancada feminina, criando uma forma de atuação unificada em torno de um programa de prioridades constituído por nós. A maior parte das mulheres que estavam aqui, estava vinculada ao movimento feminista de alguma forma. Independentemente de diferenças políticas, ideológicas. Essa interação de posições tão díspares conseguiu consolidar o que, na minha opinião, foi a sabedoria das mulheres: sempre buscávamos o consenso" (LIMA, 2010). O fato é que, ao final da Constituinte, 80% das questões considerada prioritárias pelo movimento feminino foram aprovadas e viraram dispositivos constitucionais, entre os quais: igualdade jurídica entre homens e mulheres, a ampliação dos direitos civis, sociais e econômicos das mulheres, a igualdade de direitos e responsabilidades na família, a definição do princípio da não discriminação por sexo e raça/etnia, a proibição da discriminação da mulher no mercado de trabalho e o estabelecimento de direitos no campo da reprodução. 7. CONCLUSÃO Em 1964, teve início um regime autoritário que governou o país durante vinte e cinco anos. Em 1967, foi outorgada uma nova Constituição que regia esse novo regime, sendo emendada em 1968 por atos que tornaram o regime extremamente exclusivo e repressivo. Por diversas razões, o regime foi enfraquecendo: havia o receio de insubordinação dentro dos quadros militares; movimentos sociais se insurgiram requisitando direitos; a crise econômica, que tirou parte do apoio popular que o regime possuía. Procedeu-se então à abertura para um regime democrático. Ora, se uma Constituição foi outorgada para reger esse regime autoritário, fazia-se necessário, uma nova Constituição, aquela que iria reger o regime democrático que surgia no horizonte. Devido ao contexto político e social que se apresentava, mostrava-se importante a participação popular na elaboração deste novo pacto social. Os movimentos lutavam por esse fim bem como parte dos deputados constituintes. Esses ou eram a favor da participação popular ou perceberam sua importância, já que sem essa participação seria complicado proceder à elaboração de uma nova Constituição. Para tanto, criaram mecanismos de participação popular na Assembleia Nacional Constituinte que, satisfatoriamente ou não, garantiram a participação popular, através da propositura de emendas, através de entidades organizadas, através de cartas enviadas aos deputados, bem como pela cobertura da imprensa dos trabalhos da constituinte. Dentre os grupos sociais, destacaram-se os movimentos femininos, que participaram da Constituinte através de deputadas e da organização da Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, que organizou a participação feminina, uniu as parlamentares e, apesar do tratamento preconceituoso, tiveram 80% das questões consideradas prioritárias aprovadas. Desta forma, promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição da República Federativa do Brasil foi a Carta Magna da História Brasileira que contou com a participação popular, ficando conhecida como a “Constituição Cidadã”. Mesmo mantendo privilégios das elites, a Constituição inovou ao trazer direitos e garantias individuais, bem como igualar homens e mulheres perante à lei e trazer mecanismos de participação popular em seu texto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília. Editora da Universidade de Brasília – 12ª edição, 1999. KINZO, Maria D’Alva G. A Democratização brasileira: um balanço do processo político desde a transição. São Paulo. São Paulo em Perspectiva, vol. 15, 2001. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392001000400002> Acesso em 03/06/2019. CARDOSO. Rodrigo Mendes. A participação popular na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. Tese de Doutorado. 2016. Rio de Janeiro. PUC/RJ. Disponível em < https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/32497/32497.PDF > Acesso em 05/06/2019. VERSIANI. Maria Helena. Uma República Constituinte (1985-1988). Revista Brasileira de História. Vol. 30, n 60. 2010. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/rbh/v30n60/a13v3060.pdf > Acesso em 05/06/2019. BARROSO, Pérsio Henrique (Curador). Jornal da Constituinte. Exposição “A Participação Popular nos 25 anos da Constituição Cidadã. Brasília. 2013. Disponível em < http://www.senado.leg.br/noticias/especiais/constituicao25anos/exposicao-senado-galeria/Jornal-Constituinte.pdf > Acesso em 04/06/2019. MONTEIRO, Ester. Lobby do batom: marco histórico no combate à discriminações. Agência Senado. Brasília. 2018. Disponível em < https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2018/03/06/lobby-do-batom-marco-historico-no-combate-a-discriminacoes > Acesso em 05/06/2019. LIMA, Daniela. Uma luta pela igualdade. Correio Braziliense. Brasília, 28. 10. 2007. Disponível em <https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/Constituicoes_Brasileiras/constituicao-cidada/a-constituinte-e-as-mulheres/arquivos/Artigo%20CB%20Mulheres%20Constituintes.pdf > Acesso em 05/06/2019. Carta das Mulheres aos Constituintes. Disponível em < https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/Constituicoes_Brasileiras/constituicao-cidada/a-constituinte-e-as-mulheres/arquivos/Constituinte%201987-1988-Carta%20das%20Mulheres%20aos%20Constituintes.pdf < Acesso em 05/06/2019. As emendas populares na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. Disponível em < https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/17613/17613_4.PDF > Acesso em 05/06/2019. * Flavia Sleiman da Costa é aluna do curso de Pós-graduação em História do Brasil Contemporâneo da Universidade Estácio de Sá. Este texto compõe o trabalho final da disciplina A redemocratização do Brasil e as lutas pelas liberdades civis ministrada pelo professor Pedro, junho de 2019. Crédito da imagem: Arquivos Senado Federal, disponível em https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2018/03/06/lobby-do-batom-marco-historico-no-combate-a-discriminacoes

Traduções: María Galindo
Traduções: María Galindo

Inverter a dor: um novo amanhecer para a Bolívia Por María Galindo* Original disponível em: http://radiodeseo.com/revertir-el-dolor-un-nuevo-amanecer-para-bolivia-la-acera-de-enfrente/ O que aconteceu na Bolívia nas últimas eleições é um mecanismo social extremamente interessante que vale a pena a alegria de compartilhar com vocês. Não importa o lugar onde estejam. A leitura triunfalista do Movimiento al Socialismo (MAS) e da esquerda internacional [sobre o resultado das eleições] como uma ratificação de seu projeto é uma leitura quase neurótica de autoengano. Também é - no sentido oposto - a leitura dos grupos fascistas derrotados que ainda insistem em denunciar a fraude. Grupos fascistas que passaram de ameaçadores a ridículos. Suspiro profundamente e ainda sinto entre minhas costelas um corpo não só cansado, mas dolorido: músculo por músculo, cavidade por cavidade, veia por veia. É o corpo da sociedade boliviana. Diante da cédula não fomos um indivíduo, fomos uma multidão [1] As cédulas eleitorais têm se transformado em uma espécie de conjunto experimental para ratos de laboratório, que somos nós eleitores. Nosso comportamento é calculado a partir do medo, do ódio, da manipulação da mídia, à base de fakenews em redes e um longo etcétera que faz parte de um dispositivo que é erroneamente denominado "marketing eleitoral". Ao mesmo tempo, as opções de voto não são o que anunciam - as “formas de representação” políticas de vontades coletivas, programas ou planos de governo - e sim opções dentro de um quadro fechado, no qual seu voto acrescenta ou sobra, mas não conta em si mesmo. Neste contexto nada pode falhar e cada voto parece ser um voto contra as lutas. Como se estivéssemos diante de um jogo de tabuleiro que não pode ser mudado. Na Bolívia fizemos isso [viramos o jogo] e quero contar como, porque quero acreditar que o mesmo método pode funcionar em outras latitudes. Inclusive nos Estados Unidos contra Trump. O voto, destinado a ser vazio de conteúdo, adquiriu um sentido - o sentido de veto coletivo - é por isso que afirmo que o MAS não ganhou, ainda que circunstancialmente o MAS apareça como o vencedor. Seu triunfo é uma miragem, porque o conteúdo não é a adesão ao seu projeto, mas sim o veto. Para que me entendam, transfiro esse raciocínio para outras latitudes, nos Estados Unidos não se está disputando a vitória dos democratas, mas unicamente a derrota de Trump, derrota na qual os democratas se convertem num mecanismo circunstancial. A multidão reconheceu a si mesma como diferente e distinta da oligarquia; a cédula [eleitoral] nos colocou quase geograficamente entre um “nós” complexo contra um “eles” claramente estabelecido como alheio, como repudiável, como patronal. O voto deixou de ser voto e se transformou em cartaz com conteúdo próprio O voto foi um veto ao racismo. O voto foi um veto à corrupção. O voto foi um veto à queima do whiphala [2]. O voto foi um veto à extorsão e abuso policial. Votaram as pessoas mortas pelo coronavírus, porque em seu nome dissemos não. Votaram as pessoas assassinadas pelo governo de Añez em Senkata e Sacaba, porque em seu nome dissemos não Votar foi uma forma de expulsar o governo do Palácio e mostrar um repúdio total e generalizado. Não é que o MAS seja o grande projeto dos povos indígenas; É o partido que limitou a representação política indígena direta e que violou centenas de vezes a política da Constituição do Estado Plurinacional, mas diante do fascismo em uma mesa de laboratório é a saída que escolhemos como paliativa, como transitória, como possibilidade prática, mas não como sonho, não como adesão, isso é bem diferente. Vocês dirão que estou projetando os meus sentimentos pessoais na massa, a isso respondo que não é assim. Se a massa gigante de mais de 50% dos votos espalhados pelo país fosse uma adesão ao projeto do partido, Evo Morales e Álvaro García Linera não teriam que sair fugindo e não teriam sido derrotados como se esmaga uma mosca contra a parede, como de fato aconteceu em outubro e novembro de 2019. O voto também se mostrou como um voto-castigo contra todos que foram participantes da construção do governo Añez, por isso perderam Mesa, Camacho e Quiroga e receberam o que popularmente na Bolívia se chama uma surra. Além disso, dois candidatos tiveram que sair das eleições antes de chegar à mesa de votação, porque a sociedade boliviana já havia dado sinais dessa punição, desse veto, desse repúdio coletivo e se retiraram para apagar as provas e não passar humilhação pública. Inteligência coletiva Diante da cédula eleitoral não fomos indivíduos, fomos multidão, e essa multidão construiu um gigantesco voto coletivo, uma espécie de grande consenso construído graças ao que se chama inteligência coletiva. As sociedades hiperindustrializadas do norte colonial têm o que se chama inteligência artificial, digo a vocês que aqui no sul desfrutamos do que se chama inteligência coletiva. Essa capacidade de construir um nós efêmero, frágil, instantâneo, mas que por exemplo no evento eleitoral, teve a capacidade de emergir. Uma inteligência coletiva capaz de aparecer em circunstâncias extremas, entender isso é muito importante. Não é que esteja idealizando a sociedade boliviana, eu a sofro e vivo cada dia. Não é que a inteligência coletiva seja algo tangível que opera continuamente, é mais que o ser humano a tem perdido, assim como estamos perdendo outras formas de percepção e sensibilidade como o instinto e a intuição. Contudo, ainda que essas outras formas de sensibilidade e comportamento estejam perdidas, elas reaparecem em momentos concretos, imagino que reaparecem em momentos de dor, em momentos de extrema pressão. As principais cidades foram militarizadas mais uma vez na noite anterior às eleições e as ruas voltaram a parecer cenários de guerra com tropas em uniforme de combate destacados principalmente nas áreas periféricas, este gesto fascista ativou a inteligência coletiva. Transformar a dor e convertê-la em outra coisa Se há algo que eu verifico todos os dias, é a capacidade de transformar as coisas ao contrário. É algo que nós, mulheres, estamos fazendo como um ato diário de insubordinação frente ao patriarcado, como um ato de desobediência à submissão e como um ato de resposta esperançosa e irreverente à negação de nossa liberdade. Essa capacidade de inverter a pressão fascista e transformá-la em seu oposto foi um gigantesco ato coletivo no cenário das eleições bolivianas. Calcularam mal a repressão e o fascismo, calcularam mal o medo. Calcularam mal, porque nos levaram ao extremo, um extremo socialmente lido como o fim de algo. Nesse lugar, a escuridão se transforma em luz e a dor se transforma em rebelião. Essa capacidade de inverter os sentidos é o que aconteceu na Bolívia em face às cédulas eleitorais. Por isso se abre, por si mesmo, um espaço de sonhos, um espaço de construções e lutas, porque o que aconteceu é uma reapropriação de nossos destinos justamente no momento que parecia que nos havia tirado tudo. O MAS nesse jogo é apenas uma circunstância. * “María Galindo é uma militante anarcofeminista, psicóloga, locutora de rádio e já foi apresentadora de TV. Fundou o movimento feminista Mujeres Creando na Bolívia, uma associação de mulheres de diferentes identidades sexuais, classes e condições para enfrentar o machismo e a homofobia. Suas ações performáticas chegaram a levá-la diversas vezes à prisão. Autora dos livros: No se puede Descolonizar sin Despatriarcalizar, 2013 e (com Sonia Sánchez); Ninguna mujer nace para puta, Edición ilustrada de Lavaca Editora, 2007. Mujeres Creando é um movimento feminista anarquista que já existe há mais de 20 anos. Reúne mulheres de diferentes setores sociais, diferentes idades, diferentes culturas, diferentes opções sexuais e que se encontram em diferentes momentos existenciais.” Quer saber mais sobre ela e o movimento Mujeres Creando? Veja uma entrevista feita com ela por Alana Moraes, Mariana Patrício e Tatiana Roque disponível em http://revistadr.com.br/posts/maria-galindo [1] Pego emprestado de Toni Negri o conceito fabuloso que, sem dúvida, transcende a análise de classe em seu sentido mais ortodoxo. [2] Whipala é a bandeira quadriculada multicolorida usada em todo o continente como a bandeira dos povos indígenas. Essa bandeira foi incorporada na Bolívia como símbolo nacional e até mesmo aderida ao uniforme policial. Durante a derrubada de Evo Morales, um policial encapuzado a tirou da frente da Assembleia Legislativa, queimou-a e também cortou seu uniforme, gestos que permaneceram inscritos como atos de ódio no imaginário social. Traduzido por Flavia Veras e Sheila Leal

"La Gringa": Eve Rodrigues
"La Gringa": Eve Rodrigues

O machismo de todos nós Eve Rodrigues* Cabo Polônio, como o nome diz, é geograficamente um cabo. Está situado no país vizinho, Uruguai, e em princípios da década de setenta começou a ser descoberto por los hermanos como um local de turismo. Mais adiante, esta descoberta ganhou o mundo e antes mesmo de se tornar um destino cult aqui entre nós, já estava nos mapas de mochileiros europeus. É um lugar incrível, onde a luz elétrica até os dias de hoje ainda não chegou, onde não há água encanada e, apesar da intensa exploração turística que sofre, permanece sendo um lugar especial. Muitos foram os que se mudaram para Polônio para promoverem em suas vidas uma forma alternativa de consumo e de ocupação… E é aí que quero incluir minha narrativa. Foto: Eve Rodrigues (acervo pessoal da fotógrafa) Em fevereiro de 2019, eu já havia me apaixonado por Polônio há alguns anos e este Cabo era destino frequente de minhas viagens. No entanto, queria fazer uma experiência e viver tão somente do que o lugar me pudesse prover: por um mês me propus a não depender de nenhuma fonte de ganho monetário e também me abstive de sacar dinheiro, o que lá é impossível, ou levar dinheiro comigo para minha subsistência ou prazer. Assim, no dia 31 de janeiro de 2019 cheguei ao cabito para trabalhar em um hostel em um voluntariado artístico, onde trocaria hospedagem e alimentação completa por meu trabalho em atividades pré acordadas do hostel e por fotos diárias para a página deste hostel. Minhas incursões em qualquer lado que vá tem por objetivo fotear. Minha ideia era viver do meu próprio trabalho, ou seja, que meu corpo sustentasse meu corpo e, assim, me aproximar o mais possível de alguma espécie de desligamento de maneira a imergir totalmente na realidade física daquele espaço. Estava preparada para fazer 33 camas por dia… estava preparada para cumprir minhas tarefas no hostel e meu horário de 11hs até as 15hs me dava de sobra o amanhecer, a manhã e a tarde e ainda o pôr do sol e a noite para minhas fotos. Ok, valia muito a pena. O trabalho era pesado, eu sabia, mas estava disposta também a ver se meu corpo poderia aguentar o que minhas idéias estavam dispostas a abraçar. No hostel o gerente era um uruguaio que tinha vivido alguns anos nos Estados Unidos estudando artes e que tinha aquela postura livre e descompromissada, dos que andam entre o budismo e naturismo... Tocava violão e segundo ele era esta sua paixão... O garoto que fazia o turno da manhã era um brasileiro de 22 anos, do Rio Grande do Sul, super gente boa, um garoto que estava descobrindo o mundo e de lá iria fazer uma viagem em bicicleta até o Chile, atravessando desde o Uruguai, passando pela Argentina. O do turno da noite era um carinha de uns 40 e poucos anos, também gaúcho, que havia largado seu trailer de massas para se jogar em uma vida alternativa e estava fazendo o turno da noite do hostel, onde propunham jantar aos hóspedes. Esta era a equipe. Ao primeiro turno cabia o café da manhã, que ele vendia aos hóspedes... Limpar o salão e os banheiros, limpar a cozinha da noite anterior, organizar o hostel para receber os hóspedes que chegassem pela manhã antes das 12hs. Os quartos só ficavam disponíveis depois das 13hs. A mim cabia fazer check in dos hóspedes, arrumar as camas e preparar nosso almoço. Ao turno da noite fazer check in dos que chegavam pela tarde, limpar novamente os banheiros e fazer jantar. O jantar também era vendido e o dinheiro dividido entre o gerente e o cozinheiro brasileiro. Tarefas como lavar as roupas de cama e limpar o hostel seriam feitas em turnos por todos nós. Aqui entra o motivo da narrativa. Isto foi acordado, este esquema era assim desde que havia começado o voluntariado, mas nunca antes o voluntariado se dividira entre 2 homens e uma mulher...e, por conta disso, desse machismo arraigado na cultura dos brasileiros e dos uruguaios, as tarefas foram aos poucos sendo empurradas para mim... O garoto do café da manhã não lavava mais a louça... o garoto da noite igualmente não lavava mais a louça e nem limpava mais o banheiro. Passavam o tempo todo com o tal gerente tocando violão, fumando e falando do modo de vida alternativo que tinham escolhido para si. O gerente se colocava como um guru espiritual e discursava horas a fio sentado em uma rede com os outros dois ao lado enquanto eu trabalhava… parece bizarro mas era assim mesmo.. A princípio pensei que seria passageiro, quando percebi que não, fiz uma reunião entre todos. Me escutaram e riram entre si como uma confraria.. O gerente me disse “Ok Eve, anotada a reclamação”. Começaram a faltar jogos de cama limpos para trocar e chamei a todos para tirarmos uma segunda feira que não havia hóspedes e que estava sol para lavar a roupa. Recolhi todos os jogos e coloquei em partes na máquina, eles saíram e só voltaram a noite. Todos, inclusive o gerente... Muitas coisas do tipo aconteceram e quase desisti...até me dar conta de que não era um problema meu, era deles. Eles eram medíocres o bastante para jogar trabalho nas costas de outra pessoa e, principalmente, porque eu era mulher a única mulher ali. Se fechavam em um grupo, não me respondiam quando chamava a razão, apenas diziam: “Foi mal! Eve, desculpa..” e seguia sendo a mesma coisa. Não adiantava nada. A finalidade deles era não ter que fazer o trabalho doméstico, porque quando eram crianças foram criados assim..assistindo as mulheres da casa trabalhando o dia todo. Sua função nesta hierarquia familiar primitiva era trabalhar fora da casa...e se não havia fora da casa..então assistiam. Aos poucos me adaptei a resolver tudo dentro do horário que tinha que trabalhar de modo a poder fazer o que tinha ido fazer ali... fotiar. Foto: Eve Rodrigues (acervo pessoal da fotógrafa) O resto foi aprendizado. Meu objetivo ali era outro e particularmente queria saber se eu era capaz de resistir a tentação de consumir e vi nisso uma oportunidade a mais… porque não me custava nada sair e ir para um hostel e desfrutar de turista. Mas minhas fotos necessitavam de outra vivência da minha parte. Então segui...e aprendi mais ainda. O que percebi foi claro e não existe um remédio para isto que não seja a educação. No Uruguai, como no sul do país - eu testemunhei porque cresci por aqui - são as mães que criam estes adultos indulgentes e desrespeitosos. Os homens sentam à mesa e são servidos pelas mulheres; comem e se levantam sem nem mesmo recolherem seus pratos.. É uma prática que ao longo de gerações foi formando no fundo pessoas covardes… homens covardes e mulheres fortes. No entanto, esta mesma balança que nasce dentro das casas se estende ao mundo exterior de maneira equivocada. O homem é colocado como um indivíduo a quem se deve servir, preservar… porque oficialmente é dele o espaço lá fora para trazer o sustento para dentro da casa. E ainda assim, quando esta fórmula não mais se justifica segue o costume… mesmo entre hippies tardios do séc XXI. O machismo, como todos os ismos, está dentro e não vem de lugar algum que não de dentro. Isso porque ele tá enraizado nas engrenagens e estruturas da nossa sociedade. De uma forma que tão sutil (e por isso cruel) que muitas mulheres, especialmente nas gerações passadas, não conseguiam sequer identificá-lo e assim, sem se dar conta, o reproduziam - e ainda hoje o reproduzem. Dentro das casas quando as mães pedem às filhas que as ajudem a levar a roupa que acabam de tirar de dentro da máquina, enquanto o menino está na sala jogando com seus botões. Quando a mesma mãe pede que a filha coloque os pratos na mesa enquanto o filho está sentado em frente à TV assistindo o jornal esportivo. O exemplo, o tratamento, a educação enfim, que os pais transmitem a seus filhos é nela que está todo o mal… a raiz de todo o mal. Porque estes exemplos que são passados inconscientemente trazem em si um selo de identidade… não são questionáveis ao se tornarem cotidianos. Porque as mães servem a seus maridos, servem a seus filhos e por último e quando ninguém mais lhe pede nada servem a si mesmas? Como se todos fossem prioridade menos ela mesma? Uma vez seria gentileza… todos os dias é consolidar e perpetuar uma prática alienada que produz seres incompletos e que, ainda pior, é considerado amor. Essa lógica de priorizar o outro, especialmente os homens da família, é uma das faces mais cruéis da sociedade machista. A vivência de uma viagem só é real quando conseguimos nos desembaraçar de nossas bagagens internas.. e não nos sentirmos nem privilegiadas ou exploradas.. Estar de passagem em qualquer lugar ou situação exige um grau maior de compromisso consigo mesmo, que vai além de qualquer exercício de individualidade, mas que permite uma vivência real e ao mesmo tempo alheia das situações mais triviais. Um discernimento constante se faz necessário para identificar o limite que aquele espaço, aquela cultura traçam, porque estar de passagem importa em observar, aprender e deixar que a intervenção se faça quando você já não está mais lá… através do exemplo que você deixar. * Eve Rodrigues "A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam". (A Viagem do Elefante-José Saramago) 🌎 Fotógrafa,viajante e mochileira! As cores As formas As formas das cores...e as pessoas! Insta: @hseverodrigues http://carpediemeverodrigues.blogspot.com