Edição 5

Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira
Entrevistas: Carolina Fenati, Edições Chão da feira

#mulhereseditoras Hoje se inicia a série de entrevistas “Mulheres Editoras” realizadas pela Revista Mulheres do Fim do Mundo. Editada por seis mulheres, a MFM, contudo, não nasce sozinha. Entrevistaremos mulheres que trabalham na editoração de textos há muitos ou poucos anos, refletindo um espelho que lembra que nunca andamos sós: um lugar está infinitamente conectado a muitos outros - e outras, nas quais buscamos nos inspirar. Nesta edição entrevistamos a Maria Carolina Fenati, editora da Chão da Feira e professora. Formada em História pela UFMG, estudou literatura portuguesa contemporânea em Lisboa em seu mestrado e doutorado. Fundou a Chão da Feira em 2011, organizando a coleção Caderno de Leituras, a revista Gratuita e a publicação de livros junto a outras três mulheres. Mulheres do Fim do Mundo (MFM) - Você é uma das editoras responsáveis pelas Edições Chão da feira, um projeto gestado e gerido por mulheres. Conte-nos um pouco sobre como surgiu esse projeto e como ele vem sendo desenvolvido até agora por você e por outras mulheres. Maria Carolina Fenati (MCF) - A Chão da Feira começou com o primeiro número do Caderno de Leituras, em dezembro de 2011. Ou ainda, talvez tenha começado bem antes, quando comecei a imaginar modos de ler e escrever junto, de formar equipe ao redor da escrita. Quando fazia doutorado na Universidade Nova de Lisboa, vivia boa parte dos meus dias sozinha com os livros na biblioteca, o que continuo a adorar fazer. Mas queria fazer isso junto, conversar, praticar, enfim, era uma intuição de não ficar sempre só com aquilo que eu amava. Começou então esta ideia de publicar gratuitamente ensaios breves, e o nome da editora era o nome da minha rua em Lisboa, Chão da Feira. Fiz o caderno 1, e já no segundo número senti que algumas pessoas se aproximaram, tanto leitores como amigas que se tornaram editoras junto comigo. Quando publicamos nossos primeiros livros e o número 1 da revista Gratuita, já éramos uma equipe que, em grande parte, está presente hoje. Luísa Rabello e Júlia de Carvalho são amigas que adoro e editoras incríveis com as quais tenho a alegria de partilhar a editora, e a vida também. MFM - Na edição 100 dos Cadernos de leitura você compartilha um pouco da história dessa coleção, que veio de uma necessidade de escuta, da leitura e também da palavra como forma de estar junto. Você pode nos falar um pouco sobre essas diversas formas de partilhar a leitura? MCF - Só muito recentemente – na Idade Moderna – a leitura se tornou um gesto solitário. Líamos em público, e antes, as histórias eram ouvidas. Isso, digamos, na tradição ocidental do conhecimento, porque sabemos que há tantas e tantas culturas, inclusive no Brasil, em que a partilha das histórias é feita oralmente. A escuta é um dos sentidos profundamente ligados ao imaginário, é um dos sentidos ligados à uma postura ética de respeito ao outro, ao desconhecido. Por outro lado, há uma solidão da escrita que é inegável e de algum modo essencial; e há também a solidão do autor, a solidão da pessoa que escreve, o que não precisa ser necessariamente assim. Aprendo muito conversando com os autores dos textos que publicamos, aprendo muito com o processo de edição, esta espécie de laboratório das palavras. Há ainda qualquer coisa que tem a ver com participar na democratização do acesso ao livro, à escrita e à leitura, um posicionamento público e político que a paixão pelos livros me faz desejar. Isso, por um lado, implica em publicar textos cujo acesso é gratuito, e outros com um valor acessível. Por outro lado, também implica a abertura para formas de pensamento variadas, que observem o que imaginamos estar a espera de ser pensado, isto é, o que não sabemos mas de algum modo está aqui, ou ainda, como escreveu Agamben, os escuros do contemporâneo. MFM - Você conta, também na edição 100 dos Cadernos, como a experiência de deslocamento geográfico operou igualmente um deslocamento nos textos lidos e publicados; a atenção se voltando às distintas epistemologias ameríndias do sul, na investigação sobre a sabedoria das plantas... Você pode nos contar um pouco sobre esses diferentes deslocamentos e como eles se relacionam? MCF - Este caderno 100 foi uma edição comemorativa no qual decidi contar um pouco a história da coleção. Não havia entendido esta história, ou melhor, não havia tentado traça-la antes com tanta clareza quanto fiz quando escrevi o caderno. É engraçado como, às regiões geográficas, corresponde um certa região bibliográfica e do imaginário. O cardápio de autores e mesmo de questões que circulavam na universidade em Lisboa era fantástica, e muito centrada nos autores europeus. Aprendi imenso ali, e sou muito grata. Quando vim para o Brasil, outros autores surgiram, e também outras questões. Não há que negar que aquilo que pensamos está muito ligado aos outros sentidos, quer dizer, ao que vemos e ouvimos, ao que cheiramos, ao que está ao nosso redor. O cheiro de queimada, para dizer algo que perturba o nosso pensamento hoje, deve ser sentido por todo o mundo, mas ele é mais intenso aqui. Por outro lado, a certeza de uma espécie de limite civilizatório, ou ainda, a sensação de que estamos presos num labirinto cultural foi, para mim, mais evidente diante da multiplicidade de culturas e cosmogonias ameríndias vivas no Brasil. Talvez seja a questão das vizinhanças, talvez seja uma espécie de reencontro que vivi, ou as duas coisas – de todo modo, pensar é também estar lado a lado com os outros. MFM - No Brasil, ainda nos deparamos com a pouca visibilidade de mulheres no mercado editorial, considerando que grande parte dos livros publicados pelas grandes editoras ainda são escritos por homens cis, brancos e héterossexuais. Todavia, observamos, atualmente, o surgimento de projetos como o “Leia mulheres”, desenvolvido em vários estados no país e que incentiva a leitura de livros escritos exclusivamente por mulheres. Vemos, também, a emergência de editoras independentes que divulgam as produções dos grupos minoritários brasileiros (mulheres, negros, lgbt+). Nesse sentido, você poderia nos relatar sobre a experiência de ser mulher, editora, inserida nesse mercado editorial brasileiro? MCF - É uma pergunta difícil de responder não porque não saberia o que dizer, e sim porque tudo o que eu faço é inseparável de ser mulher, das alegrias e dos desafios que isso me traz. Adoro ser mulher, o que, longe de ser algo pacificado, é uma luta e uma invenção. As questões que me proponho pensar na editora, desde as temáticas dos textos até o tempo do trabalho, tudo isso de algum modo é inspirado na mulher que vou me tornando e que tenho tentado que se desvie dos destinos da frustração e da amargura que tantas vezes me parece estarem à nossa espera no futuro. É engraçado que uma vez li num livro da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol que uma mulher dizia aos seus visitantes: “não é tu que me importa, é o seguinte”. Demorei anos para entender alguma coisa nesta frase, e outro dia imaginei que nela está uma das linhas de forças femininas que atuam em mim: importa a continuidade, não do mesmo, mas a continuidade variada da vida, o seu devir, os muitos modos como tudo continua. Esta confiança na vida, como vejo, é qualquer coisa de muito feminino e também infantil. Lembra da Ana Cristina César no poema “Cartilha da cura”? “As mulheres e as crianças são as primeiras que/ desistem de afundar navios”. MFM - Na reportagem Maternidade e criatividade, de 05 de maio de 2020, realizada pela Gianni Paula de Melo, você diz que “desde que você foi mãe, tudo está noutro lugar, e para onde olho encontro questões que a maternidade trouxe para o meu trabalho”. Como a maternidade foi capaz de transformar o seu processo criativo de escrita? Conte-nos um pouco sobre a ideia e a experiência da oficina Maternidade e escrita? MCF - A maternidade instaurou uma gagueira na minha voz. Não é a primeira vez que isso me acontece, ainda que nunca tenha sido tão forte como agora. Quero dizer com isso que perdi boa parte do que imaginava saber sobre o mundo e sobre mim, minhas narrativas caíram por terra e como um torrão se espatifaram. Tenho me exercitado por encontrar outras vozes, outros modos de dizer, mirando um pouco sem saber. É como se eu não soubesse o que dizer e ao mesmo tempo não pudesse me desviar de dizer. E isso, claro, no tempo que me resta para outras coisas que não cuidar das meninas, do trabalho, da casa, etc. Ainda assim, tem sido angustiante e divertido, maravilhoso e sofrido. A ideia da oficina de escrita e maternidade é, de novo, apostar em fazer isso – pensar, ler, escrever – juntas. Já houve algumas edições e em todas me emocionei muito com o que as mulheres têm a dizer. Dizer de si, estar à escuta umas das outras, escrever – é isso o que fazemos na oficina, e tem imenso sentido para mim. MFM - Nesse ano de 2020, lemos alguns artigos que demonstravam como a pandemia de coronavírus no Brasil afetou (e tem afetado) fortemente a produção científica das mulheres, gerando um cenário em que mais da metade das mulheres com filhos deixou de entregar artigos, enquanto apenas 38% dos homens com filhos (aproximadamente) apresentou a mesma queda de produção. Você poderia compartilhar conosco sua experiência relacionada à maternidade e às suas atuações profissionais em tempos de pandemia? MCF - Talvez não haja outra espécie no mundo que tenha tanta certeza de que vai continuar apesar de tudo (da destruição do planeta inclusive) e tão pouco cuidado e amparo com as crianças. Ninguém está nem aí para o perrengue que as mães vivem, digo isso do ponto de vista das instituições e do mercado, dos ambientes de trabalho, etc. Imagina que há gente que protesta por ver uma mulher amamentando em público! É inacreditável como esse começo precário, mágico, fabuloso e terrível da gestação e nascimento das crianças é denegado. Por aqui, tenho me desdobrado em muitas, e quase sucumbido muitas vezes. Arranco alguns minutos para mim, e isto tem sido fundamental. Confio muito na minha rede de apoio, e nas mulheres com quem luto. Outro dia li: “Todos os nossos filhos são a vanguarda de um reinado de mulheres que ainda não foi estabelecido” – Audre Lorde. MFM - Por fim, há algum texto, alguma proposta de escuta possível nestes tempos, que você indica para as leitoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo? MCF - Há pouco tempo ganhei de uma amiga, que também é editora na Chão da Feira, a Júlia de Carvalho Hansen, um livro incrível: Irmã outsider, de Audre Lorde (Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020).

Tá rolando...
Tá rolando...

1 - ESTÚDIO DE DESIGN @JUPOCKET Amor em forma de traço, é assim que o JuPocket Studio, fundado pela publicitária Juliana Fernandes, se apresenta para o público. Prestes a cumprir 2 anos, o estúdio de design desenvolve produtos exclusivos, em sua maioria personalizados, para quem procura presentear com criatividade e amor. "Após ter trabalhado 20 anos com Marketing em grandes empresas e, com a chegada da minha filha Morena, senti necessidade, assim como muitas outras mulheres, de um maior equilíbrio entre minha vida profissional e minha vida pessoal. Ainda não sabia ao certo o que iria fazer, mas tinha muito claro o que não queria mais. No meio desta transição, comecei a estudar desenho como uma forma de terapia, nunca imaginei que o desenho se transformaria na minha nova carreira", conta Juliana. Uma amiga a incentivou a publicar alguns de seus desenhos no instagram e, em pouco tempo, surgiu a primeira encomenda. Daí em diante, suas ilustrações, sempre pautadas no amor das relações, passaram a contar histórias e conquistar cada vez mais pessoas. Hoje, com o aumento da demanda, Juliana já contratou 2 pessoas: uma estagiária de design, que a auxilia nas ilustrações, principalmente na parte de digitalização, uma vez que todos os desenhos são feitos e pintados à mão e um fotógrafo e videomaker, que a ajuda com a produção de conteúdo para as redes digitais. Na semana passada, Juliana Fernandes lançou seu primeiro livro infantil, escrito e ilustrado por ela mesma: "A Valsa da Bailarina". A obra é um livro musical baseado em uma canção de ninar composta por ela quando sua filha, Morena, tinha 3 meses. O livro foi viabilizado através de financiamento coletivo e atingiu a meta em menos de 10 dias de campanha. Nele, o leitor pode baixar a canção através de um QR code e acompanhar uma girafinha bailarina enquanto esta vai dançando e sonhando num mundo regado a muita fantasia e imaginação, como a mente das crianças. Não à toa, o livro vem conquistando rapidamente crianças de todo o país. "Ter publicado este livro foi um marco muito importante dentro do projeto do JuPocket Studio, pois além de ser um sonho meu pessoal, abriu portas para outras ideias de projetos, sempre dentro desse propósito de trazer mais beleza para o mundo e para as relações, através da arte" ela conta, acrescentando que já possui ao menos 3 ideias de livros novos. O estúdio de design é localizado na cidade de Nata/RN, mas o JuPocket aceita encomendas de todo o Brasil. Seu perfil no Instagram é @ JuPocket. 2 - CHAMADA DE ARTIGOS "MÃES CIENTISTAS NA AMÉRICA LATINA: PERSPECTIVAS E DESAFIOS NA ACADEMIA": Nossa leitora Olívia da Rocha nos sugeriu divulgar a chamada de artigos com o tema "Mães cientistas na América Latina". Maiores informações no folder de divulgação. Muito obrigada pela dica, Olívia. 3 - HIP HOP FEMINISTA? Nossa sugestão é o livro “Hip-Hop Feminista? Convenções de gênero e feminismo no Movimento Hip-hop Soteropolitano” (disponível em português e inglês). A publicação é o resultado da pesquisa de mestrado da cientista política, Rebeca Sobral Freire, atualmente, doutora em Estudos Feministas e de Gênero pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismos (PPGNEIM/CAPES/UFBA). A obra analisa a experiência de um hip-hop feminista jovem e negro em Salvador/BA e insere-se no campo da antropologia política. Interessou à pesquisa as concepções de feminismos envolvidos e o modo como a cultura política local influencia as experiências dessas mulheres. Para tanto, considerou-se as formas de apropriação dos discursos feministas e o engajamento das diferentes bandeiras na militância das interlocutoras. Ficou curiosa?! Para nossa alegria, a editora EDUFBA disponibiliza para download, em formato E-book, os livros completos em inglês e português, acesso nos links: HIP-HOP FEMINISTA? Convenções de gênero e feminismo no Movimento Hip-hop de Salvador (2028) Link: http://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/30350 FEMINIST HIP-HOP? Conventions of gender and feminisms in Salvador’s Hip-Hop movement (2020) Link: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/32146/3/Feminist%20Hip-hop.pdf 4 - FILME "KBELA" (22 min.) - YASMIN THAYNÁ Inspiradas e, ainda, celebrando o 20 de Novembro - Dia da Consciência Negra -, nos demos a difícil tarefa de escolher entre nomes importantes como os de Adélia Sampaio, Lilian Santiago, Viviane Ferreira, Cíntia Maria, Jamile Coelho, Sabrina Fidalgo, Eliciana Nascimento, Larissa Fulana de Tal, Edileuza Penha de Souza... e tantas outras diretoras negras, a sugestão de um filme do Cinema Negro brasileiro. Eis que chegamos ao nome da carioca Yasmin Thayná, com o premiado curta-metragem “Kbela” (2015), inspirado no conto literário “MC Kbela” – que narra a história de uma menina se descobrindo negra e sem referência positiva do seu grupo étnico. O filme, produzido com financiamento coletivo, destaca-se por denunciar os constantes ataques racistas aos corpos negros femininos em seu dia-a-dia. A experiência da discriminação vivida por nós mulheres negras, em nossos corpos, traços, cabelos... São peças chaves de denúncia dessa narrativa cinematográfica. É no corpo da mulher negra que o processo sucessivo de embranquecimento atua, e isso é explorado nas cenas que mesclam experimentos e técnicas mirabolantes (e violentas) de alisamentos e clareamento da pele/cabelo. Porém, também, destaca os processos de empoderamento. A força ancestral fazendo emergir outro lugar social para esse corpo, tornando-o espaço estratégico de resistência. Nesse sentido, o nosso convite a essa intrigante experiência estética vem no desejo de promoção e reflexão sobre as lutas por igualdade e respeito a todos os corpos e cores. Filme “Kbela” (2015) - Yasmin Thayná Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LGNIn5v-3cE&t=1068s 5 - REVISTA CORRE - ARTE, PENSAMENTOS PRODUÇÃO - Nossa leitora e colaboradora Bruna Fonseca nos sugeriu a Revista Corre - arte pensamentos produção que é uma revista virtual independente voltada para artes, cultura, filosofia, literatura e ciências humanas. Cada edição é organizada tematicamente, visando a formação de outros públicos de arte, a circulação de ideias propagadas por vozes plurais e a estimulação do debate. Nesse sentido, Corre enfatiza a produção de narrativas contra-hegemônicas, apresentando-se como mais um vetor para o desenvolvimento e a consolidação de um cenário cultural democrático no país. A revista faz encontros com personalidades das artes, o segundo encontro do mês de novembro buscará ampliar o debate sobre o tema da segunda edição da revista, CORPO conversando sobre mais uma manifestação cultural: o jongo! A convidada será Flavia Souza ( @flavia_souza_1980 ), bailarina, pesquisadora e jongueira, falará um pouco dessa manifestação riquíssima da nossa cultura brasileira, lotada de significado e ancestralidade. Ela falará sobre as experiências do Grupo de jongo Afrolaje(@grupo_afrolaje) no dia 21 de novembro, às 16h. Sim, essa é a boa de hoje!!! Confira no link: https://linktr.ee/revistacorre 6 - CADERNOS DE LEITURAS DNº. 116 - MATERNIDADE E ISOLAMENTO SOCIAL Indicamos a sempre delicada seleção da editora Chão da Feira nesta coletânea de textos dedicados à maternidade e ao isolamento social. Com curadoria de Maria Carolina Fenati, a publicação reúne textos de sete mulheres que refletem sobre o isolamento social e a maternidade, mas também sobre os olhares das crianças e dessas mulheres, em textos que trazem utopias e desencantamentos, exaustão e a consciência (da ausência) do tempo, gratidão ao aprofundamento dos vínculos, algum desespero por não poder estar só, o cotidiano e as suas palavras, o aprendizado da língua, essa língua que é também a língua do isolamento social, da onipresença. O olhar das crianças, o desejo de acreditar, o apelo à presença constante como gesto presente. A publicação conta com textos de Ana Freitas, Brisa Marques, Fabiana Carneiro, Mika Andrade, Nina Rizzi, Roberta Ferraz, Ursula Rösele. A editora da Chão da Feira Maria Carolina Fenati é nossa entrevistada deste mês! Confiram!

Traduções: Patricia Morales
Traduções: Patricia Morales

por Patricia Morales[1] Nunca mais sem “nosotras”[2]: A importância da paridade na Convenção Constituinte[3] Texto original em: https://www.latercera.com/paula/nunca-mas-sin-nosotras-la-importancia-de-la-paridad-en-el-proceso-constituyente/ de 30 de setembro de 2020 “Tem se produzido um consenso a nível internacional, referendado por acordos e pactos das Nações Unidas e outros organismos, que populações ou grupos historicamente marginalizados das esferas de poder - como os povos indígenas ou as mulheres – ou certas minorias étnicas, religiosas, linguísticas, devem ser representadas por seus próprios integrantes para assegurar uma representação adequada”[4], disse o documento Mecanismos de Cambio Constitucional en el Mundo, análisis de la experiência comparada[5], do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Nele se explica que para que isso ocorra, tem se desenhado mecanismos específicos que asseguram uma presença efetiva e representação equilibrada desses grupos “Mecanismos como reserva de assentos para povos indígenas ou cotas eleitorais de gênero para as mulheres, por exemplo, tem permitido uma melhor representatividade nas assembleias da diversidade representada nas distintas sociedades”, acrescenta o documento. Dessa forma, a existência de assentos reservados para certos grupos como os povos indígenas na Venezuela ou os imigrantes no Equador e na Tunísia, junto com a exigência de que um número ou porcentagem de candidatos eleitos sejam mulheres no caso da Bolívia, constroem medidas positivas para alcançar tal objetivo. Porém, no Chile, estamos um passo à frente. Assim, se estabeleceu em 20 de março deste ano quando o governo promulgou a lei de paridade de gênero para o processo constituinte que acontecerá, logo após o plebiscito de 25 de outubro. Uma medida que se concretizada apontaria não apenas um marco para a luta do movimento feminista, como também transformaria o Chile no primeiro país do mundo a ter uma convenção constituinte paritária. Questão esperada pela maioria das chilenas e dos chilenos. Destarte, ao menos apontou uma pesquisa realizada por Ipsos[6] e Espacio Público[7], na qual 71% dos pesquisados – mulheres e homens – acreditam que é importante a paridade de gênero nesse processo. Essa não é a primeira menção que se põe na mesa sobre o tema. Em junho deste ano, a Corporación Humanas y el Observatorio de Género y Equidad[8] realizou uma medição sobre o processo constituinte na que participaram só mulheres. Foi feita a pergunta: “Você está de acordo ou em desacordo com a lei que obriga a paridade de gênero na eleição dos e das delegadas constituintes? 87% mostrou-se a favor. E essa porcentagem subiu para 92% quando a pergunta era se a presença de mulheres que integrem a Convenção Constituinte contribuirá para que se representem as necessidades e interesses das mulheres em uma nova constituição. Não cabe dúvida que a paridade de gênero é um tema relevante no processo constituinte, uma espécie de dívida histórica para com as mulheres. “Essas porcentagens explicam a relevância que têm tido às demandas das mulheres no nosso país, margeando o que é possível. Falar de uma convenção constitucional paritária era algo absolutamente impensado um tempo atrás, chegar até aqui fala muito do estilo das mulheres e da liderança feminina. Porque não era algo óbvio de conseguir, não há precedente de uma convenção paritária” afirma Pía Mundaca, diretora executiva do Espacio Público. Carolina Carreta [presidenta] da Corporación Humanas[9], disse que, no caso das mulheres, existe a percepção da possibilidade que se representem seus interesses é maior quando há outras mulheres legislando. “Isso obedece ao que temos visto no Congresso. Apesar de ainda ser baixa a porcentagem de mulheres que estão no parlamento, na medida em que [seu número] vai aumentando, também os temas de direitos humanos das mulheres têm sido legislados com mais rapidez. Como os direitos de maternidade, temas de violência de gênero, entre outros”, disse Carreta. As mulheres chilenas se sentem discriminadas e um dos âmbitos, no qual esse sentimento é maior, é na política. “Se observamos como foi o processo legislativo no Chile, por exemplo, em 1994, quando se legislava pela primeira vez sobre o tema da violência, não ficou tipificada como um delito porque a maioria dos legisladores eram homens e o argumento que apresentavam era que as mulheres iriamos mentir para mandá-los presos sobre a lógica de que ‘as mulheres mentem’. E, anos depois, podemos observar a discussão sobre o aborto em três situações, especificamente no caso de estupro, se volta a apresentar o mesmo argumento”, explica. “Isso obviamente gerou mal estar nas mulheres, que têm se apresentado há muito tempo porque existe a percepção de que este é um país profundamente machista e discriminador no tema de gênero. E isso faz com que agora exista maior consciência da necessidade da presença de mulheres no processo constituinte por um tema de justiça. Logo vem a discussão sobre quais mulheres participam”, disse Carolina. Sororidade também na Convenção Segundo Mundaca, a paridade busca corrigir uma sub-representação absoluta que as mulheres têm na discussão pública, entendendo que as mulheres que vão entrar na Convenção devem ser mulheres que, idealmente, pensam diferente. “Mais além do que pensa cada uma, a paridade aponta para assegurar que a metade da população seja parte desse momento histórico. Associá-lo a uma maneira de pensar, ou a um partido é fazer uma caricatura pouco justa da realidade, já que a obrigatoriedade da paridade na Convenção se fez juntando mulheres de visões e partidos muito distintos. Esse é o resultado do esforço de múltiplas organizações, múltiplas mulheres que em outras discussões não necessariamente pensavam da mesma forma, mas que viram nisso um objetivo comum, que é a relevância das mulheres terem igual participação em um momento histórico do país”, disse. E isso tem a ver com que independente da posição política ou de valores, existem temas que nós, mulheres, sempre vamos nos encontrar, como a violência, a maternidade ou a participação política. “Não creio que exista alguma mulher que não queira que na nova constituição se reconheça o cuidado doméstico das mulheres, que transpassa classes sociais e que é um suporte tremendo que fazemos ao país e que, por sua vez, gera uma economia importante ao Estado; ou frente à diferença salarial, é difícil que alguma acredite que é justo pagar mais a um homem pelo mesmo trabalho”, disse Carolina Carrera. E acrescenta: “Por isso nos países que levaram a cabo esses processos têm sido bem interessantes como as mulheres de partidos políticos, de organizações sociais, feministas, têm se articulado para acompanhar as mulheres constituintes. É o que se espera desse processo, que esteja representada a maior diversidade de mulheres, que não apenas seja pensado desde a lógica da expertise com as/os advogados, mas sim que tematicamente tenhamos mulheres trabalhadoras de casas particulares, diaristas, que os temas estejam ali. Porque ao final, mais além das diferenças, o que nos une é que todas nós sofremos no sistema patriarcal com uma desigualdade profunda de poderes. Por isso, se conseguirmos que saia esta Convenção Constituinte, vai ser um marco para a história do movimento feminista no Chile”. Como funcionará o mecanismo da paridade no Chile? Quando, em março, a Comisión de Constitución de la Cámara Baja aprovou as indicações apresentadas para garantir a paridade de gênero, na prática o que se aprovou foi que em cada distrito, sempre que se apresente um par de candidatos, nenhum gênero poderá superar 50% do total das candidaturas que compõem a lista. Nos distritos onde há um número ímpar de candidaturas, a diferença entre mulheres e homens não pode exceder um. Além disso, as listas de candidaturas dos partidos políticos e os acordos de independentes devem ser encabeçadas por uma mulher e serão ordenadas sucessivamente, de forma alternada, com as candidaturas dos homens. Não apenas nas candidaturas – como ocorre atualmente nas eleições parlamentares – como também nas pessoas eleitas. A regra de correção paritária é o mecanismo através do qual se assegurará que em cada distrito e, portanto, no órgão nacional, haja paridade. Então, para o caso de um distrito com quatro assentos que forem eleitas 3 ou 4 pessoas do mesmo sexo, deverá se aplicar a correção. Isso se faz identificando dentre elas a pessoa do sexo suprarepresentado menos votada e a substituindo pela pessoa do sexo sub-representado mais votada dentro do mesmo partido, pacto eleitoral ou lista independente. Isso acontece se a opção eleita no plebiscito for a Convenção Constitucional, ou seja, com 100% de representantes eleitos. Porém, se ganha a opção de Convenção Mista 50% das/dos representantes seriam eleitos diretamente e 50% sairiam do Congresso Nacional. [Nesse caso] as regras de paridade operarão para os 50% eleito, mas não para o 50% de parlamentares, por isso é muito provável que não haja paridade efetiva nesse caso. Quanto à pesquisa da Ipsos, perguntamos às pessoas sobre os mecanismos para mudar a Constituição e as alternativas possíveis, que são duas – Convenção Constituinte ou Convenção Mista – a porcentagem de conhecimento não foi tão alta como a da que declararam importante a paridade de gênero no processo. Nesse sentido, o desafio é que as demandas e desejos de cidadania se concretizem. É muito potente, evidenciar que a demanda da paridade seja uma concretização, não uma demanda não escutada; podemos ter uma convenção paritária, mas para isso tem que ganhar uma possibilidade de convenção”, explica Pía. E conclui: “Não gostaria que os homens fossem os porta-vozes de certas causas, entendo que é importante e que existem homens que apoiam as demandas do movimento feminista. Acredito que é crucial que as mulheres sejam parte da Convenção para enfrentar mecanismos sociais que geram desvantagens sociais nas quais elas têm sido vítimas. E as transformações e a inclusão feminina têm que acontecer em todos os âmbitos da sociedade, é muito importante que as mulheres estejam onde estão tomando as decisões”. [1] Economista da Universidad Católica de Lovaina (Bélgica). Mestrado em economia pela Paris School of Economics (França), com experiência docente universitária em Economia Internacional e econometria. Tem experiência em direção e gestão de projetos, assim como na elaboração, avaliação e implementação de políticas públicas em questões de desenvolvimento econômico e social. Ex-presidenta do Partido Progresista de Chile. Tem apresentado painéis em rádios e outros meios. Foi laureada com o prêmio Mujer Opina 2017, por promover a participação das mulheres nos espaços públicos e na política particularmente. Desde 2017, é Gerente Geral de Filantropia Cortés Solari [2] Escolhi manter o termo em espanhol devido à força presente na flexão de gênero inexistente na palavra correlata em português “nós”. O lema "nunca más sin nosotras" foi adotado pelas mulheres e os movimentos feministas no processo de inserção da questão da paridade de gênero para a Convenção Constitucional. Ver: https://www.clacso.org/pt/nunca-mas-sin-nosotras/ [3] O plebiscito ocorrido em 25 de outubro marcou a vitória da proposta de Convenção Constitucional com votos de 78% do público votante. Ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54689493 [4] Destaques do texto original [5] Disponível para download em https://www.cl.undp.org/content/chile/es/home/library/democratic_governance/mecanismos-de-cambio-constitucional-en-el-mundo.html [6] Instituto de Pesquisa de Opinião e Pesquisa de Mercado. Ver pesquisa: https://www.ipsos.com/es-cl/encuesta-ipsos-espacio-publico-constituyentes [7] Ver: https://www.espaciopublico.cl [8] Ver: https://juntasenaccion.cl/corporacion-humanas-y-observatorio-de-genero-y-equidad-entregan-herramientas-para-la-participacion-de-las-mujeres-en-el-proceso-constituyente/ [9] Ver: http://www.humanas.cl Traduzido por Flavia Veras

Traduções: María Galindo
Traduções: María Galindo

Inverter a dor: um novo amanhecer para a Bolívia Por María Galindo* Original disponível em: http://radiodeseo.com/revertir-el-dolor-un-nuevo-amanecer-para-bolivia-la-acera-de-enfrente/ O que aconteceu na Bolívia nas últimas eleições é um mecanismo social extremamente interessante que vale a pena a alegria de compartilhar com vocês. Não importa o lugar onde estejam. A leitura triunfalista do Movimiento al Socialismo (MAS) e da esquerda internacional [sobre o resultado das eleições] como uma ratificação de seu projeto é uma leitura quase neurótica de autoengano. Também é - no sentido oposto - a leitura dos grupos fascistas derrotados que ainda insistem em denunciar a fraude. Grupos fascistas que passaram de ameaçadores a ridículos. Suspiro profundamente e ainda sinto entre minhas costelas um corpo não só cansado, mas dolorido: músculo por músculo, cavidade por cavidade, veia por veia. É o corpo da sociedade boliviana. Diante da cédula não fomos um indivíduo, fomos uma multidão [1] As cédulas eleitorais têm se transformado em uma espécie de conjunto experimental para ratos de laboratório, que somos nós eleitores. Nosso comportamento é calculado a partir do medo, do ódio, da manipulação da mídia, à base de fakenews em redes e um longo etcétera que faz parte de um dispositivo que é erroneamente denominado "marketing eleitoral". Ao mesmo tempo, as opções de voto não são o que anunciam - as “formas de representação” políticas de vontades coletivas, programas ou planos de governo - e sim opções dentro de um quadro fechado, no qual seu voto acrescenta ou sobra, mas não conta em si mesmo. Neste contexto nada pode falhar e cada voto parece ser um voto contra as lutas. Como se estivéssemos diante de um jogo de tabuleiro que não pode ser mudado. Na Bolívia fizemos isso [viramos o jogo] e quero contar como, porque quero acreditar que o mesmo método pode funcionar em outras latitudes. Inclusive nos Estados Unidos contra Trump. O voto, destinado a ser vazio de conteúdo, adquiriu um sentido - o sentido de veto coletivo - é por isso que afirmo que o MAS não ganhou, ainda que circunstancialmente o MAS apareça como o vencedor. Seu triunfo é uma miragem, porque o conteúdo não é a adesão ao seu projeto, mas sim o veto. Para que me entendam, transfiro esse raciocínio para outras latitudes, nos Estados Unidos não se está disputando a vitória dos democratas, mas unicamente a derrota de Trump, derrota na qual os democratas se convertem num mecanismo circunstancial. A multidão reconheceu a si mesma como diferente e distinta da oligarquia; a cédula [eleitoral] nos colocou quase geograficamente entre um “nós” complexo contra um “eles” claramente estabelecido como alheio, como repudiável, como patronal. O voto deixou de ser voto e se transformou em cartaz com conteúdo próprio O voto foi um veto ao racismo. O voto foi um veto à corrupção. O voto foi um veto à queima do whiphala [2]. O voto foi um veto à extorsão e abuso policial. Votaram as pessoas mortas pelo coronavírus, porque em seu nome dissemos não. Votaram as pessoas assassinadas pelo governo de Añez em Senkata e Sacaba, porque em seu nome dissemos não Votar foi uma forma de expulsar o governo do Palácio e mostrar um repúdio total e generalizado. Não é que o MAS seja o grande projeto dos povos indígenas; É o partido que limitou a representação política indígena direta e que violou centenas de vezes a política da Constituição do Estado Plurinacional, mas diante do fascismo em uma mesa de laboratório é a saída que escolhemos como paliativa, como transitória, como possibilidade prática, mas não como sonho, não como adesão, isso é bem diferente. Vocês dirão que estou projetando os meus sentimentos pessoais na massa, a isso respondo que não é assim. Se a massa gigante de mais de 50% dos votos espalhados pelo país fosse uma adesão ao projeto do partido, Evo Morales e Álvaro García Linera não teriam que sair fugindo e não teriam sido derrotados como se esmaga uma mosca contra a parede, como de fato aconteceu em outubro e novembro de 2019. O voto também se mostrou como um voto-castigo contra todos que foram participantes da construção do governo Añez, por isso perderam Mesa, Camacho e Quiroga e receberam o que popularmente na Bolívia se chama uma surra. Além disso, dois candidatos tiveram que sair das eleições antes de chegar à mesa de votação, porque a sociedade boliviana já havia dado sinais dessa punição, desse veto, desse repúdio coletivo e se retiraram para apagar as provas e não passar humilhação pública. Inteligência coletiva Diante da cédula eleitoral não fomos indivíduos, fomos multidão, e essa multidão construiu um gigantesco voto coletivo, uma espécie de grande consenso construído graças ao que se chama inteligência coletiva. As sociedades hiperindustrializadas do norte colonial têm o que se chama inteligência artificial, digo a vocês que aqui no sul desfrutamos do que se chama inteligência coletiva. Essa capacidade de construir um nós efêmero, frágil, instantâneo, mas que por exemplo no evento eleitoral, teve a capacidade de emergir. Uma inteligência coletiva capaz de aparecer em circunstâncias extremas, entender isso é muito importante. Não é que esteja idealizando a sociedade boliviana, eu a sofro e vivo cada dia. Não é que a inteligência coletiva seja algo tangível que opera continuamente, é mais que o ser humano a tem perdido, assim como estamos perdendo outras formas de percepção e sensibilidade como o instinto e a intuição. Contudo, ainda que essas outras formas de sensibilidade e comportamento estejam perdidas, elas reaparecem em momentos concretos, imagino que reaparecem em momentos de dor, em momentos de extrema pressão. As principais cidades foram militarizadas mais uma vez na noite anterior às eleições e as ruas voltaram a parecer cenários de guerra com tropas em uniforme de combate destacados principalmente nas áreas periféricas, este gesto fascista ativou a inteligência coletiva. Transformar a dor e convertê-la em outra coisa Se há algo que eu verifico todos os dias, é a capacidade de transformar as coisas ao contrário. É algo que nós, mulheres, estamos fazendo como um ato diário de insubordinação frente ao patriarcado, como um ato de desobediência à submissão e como um ato de resposta esperançosa e irreverente à negação de nossa liberdade. Essa capacidade de inverter a pressão fascista e transformá-la em seu oposto foi um gigantesco ato coletivo no cenário das eleições bolivianas. Calcularam mal a repressão e o fascismo, calcularam mal o medo. Calcularam mal, porque nos levaram ao extremo, um extremo socialmente lido como o fim de algo. Nesse lugar, a escuridão se transforma em luz e a dor se transforma em rebelião. Essa capacidade de inverter os sentidos é o que aconteceu na Bolívia em face às cédulas eleitorais. Por isso se abre, por si mesmo, um espaço de sonhos, um espaço de construções e lutas, porque o que aconteceu é uma reapropriação de nossos destinos justamente no momento que parecia que nos havia tirado tudo. O MAS nesse jogo é apenas uma circunstância. * “María Galindo é uma militante anarcofeminista, psicóloga, locutora de rádio e já foi apresentadora de TV. Fundou o movimento feminista Mujeres Creando na Bolívia, uma associação de mulheres de diferentes identidades sexuais, classes e condições para enfrentar o machismo e a homofobia. Suas ações performáticas chegaram a levá-la diversas vezes à prisão. Autora dos livros: No se puede Descolonizar sin Despatriarcalizar, 2013 e (com Sonia Sánchez); Ninguna mujer nace para puta, Edición ilustrada de Lavaca Editora, 2007. Mujeres Creando é um movimento feminista anarquista que já existe há mais de 20 anos. Reúne mulheres de diferentes setores sociais, diferentes idades, diferentes culturas, diferentes opções sexuais e que se encontram em diferentes momentos existenciais.” Quer saber mais sobre ela e o movimento Mujeres Creando? Veja uma entrevista feita com ela por Alana Moraes, Mariana Patrício e Tatiana Roque disponível em http://revistadr.com.br/posts/maria-galindo [1] Pego emprestado de Toni Negri o conceito fabuloso que, sem dúvida, transcende a análise de classe em seu sentido mais ortodoxo. [2] Whipala é a bandeira quadriculada multicolorida usada em todo o continente como a bandeira dos povos indígenas. Essa bandeira foi incorporada na Bolívia como símbolo nacional e até mesmo aderida ao uniforme policial. Durante a derrubada de Evo Morales, um policial encapuzado a tirou da frente da Assembleia Legislativa, queimou-a e também cortou seu uniforme, gestos que permaneceram inscritos como atos de ódio no imaginário social. Traduzido por Flavia Veras e Sheila Leal

Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula
Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Oi, Bia. Como anda a vida? Por aqui as coisas vão bem, na medida do que é possível “estar bem” em tempos de pandemia. Esses tempos de isolamento social não têm sido fáceis, mas a nossa troca de cartas tem me ajudado. Eu sei que o assunto que eu vou tratar hoje vai pegar você de surpresa e talvez você se pergunte o porquê de eu não ter dividido isso antes, mas não leve a mal, acho que eu só não queria revisitar um assunto que ainda é doloroso. Você me entende, eu sei. Como você sabe, antes de vir para o sertão alagoano, eu estava professora de uma escola particular em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Naquele dia, que parecia ser apenas uma sexta-feira comum de fevereiro de 2018, na turma do terceiro ano do Ensino Médio, discutimos sobre Islamismo, Feminismo e Ocidentalização com base no texto “A mulher no Oriente Médio e o feminismo islâmico”, escrito por Claudia Santos. Tirando alguns risinhos debochados, olhares de reprovação e breves reclamações sobre o tema, a aula ocorreu tranquila (pelo menos foi o que eu pensei). Expediente encerrado, no horizonte, mais um final de semana de Netflix e leituras do mestrado. Já passava das vinte e duas horas do sábado, quando meu celular apitou avisando que havia uma nova mensagem no WhatsApp. Li as mensagens, ouvi os áudios e não quis acreditar: eu havia sido adicionada em um grupo e estava sendo xingada com frases sexistas e misóginas. Percorri a lista de participantes, reconheci alguns rostos e vozes, apesar de eu não ter nenhum daqueles números na minha agenda, percebi que eram alunos e ex-alunos da escola na qual eu estava professora. Pelo curto espaço de tempo em que permaneci ali, antes de ser removida por um deles, me mantive em silêncio. Tentei digerir o que estava acontecendo e então a ficha caiu: um bando de rapazes (eu diria moleques, mas estou tentando ser polida) estava me insultando abertamente em um grupo do WhatsApp e se divertindo com isso. Passei o final de semana bancando a detetive particular (você sabe que sou boa nisso), na tentativa de associar nomes e rostos àqueles números de telefone e, depois de um domingo inteiro, consegui. Na segunda-feira, depois das aulas ministradas, procurei a coordenadora disciplinar. Narrei em detalhes o que havia acontecido, apresentei as informações que eu havia coletado e ela ficou de levar o ocorrido à direção da escola. Meses se passaram (isso mesmo, meses) e os alunos não foram chamados na coordenação, eu sabia disso porque a história não estava circulando pelos corredores da escola, como era costume. Quando eu perguntei o porquê, a coordenadora respondeu: “Lucila, eu não chamei os alunos para conversar porque aconteceu fora da escola”. Fiquei sem acreditar e respondi: “Sim, mas envolve alunos da instituição!”. Na minha cabeça, a postura da coordenação, que eu pensava ser também a postura da direção, ia de encontro à missão da empresa “ o desenvolvimento integral dos educandos”. No caminho para casa, planejei mil formas para resolver aquele assunto sozinha. Eu não admitia (ainda não admito) que aqueles jovens ficassem sem punição, mas se tratava de uma instituição particular, que não estava se importando com o bem estar de uma docente. Duas coisas me fizeram desistir de seguir com qualquer um dos meus planos: eu não tinha autonomia para responsabilizar institucionalmente, muito menos juridicamente, aqueles jovens e, infelizmente, eu precisava daquele emprego. Os dias que se seguiram não foram fáceis, me senti derrotada (é como me sinto até hoje). E, apesar de não querer admitir, eu precisava pedir demissão daquele lugar. A verdade é que aquela escola já não me fazia bem desde 2017, quando fui perseguida pelo professor de geografia e a instituição não soube lidar com a “mediação do conflito”, este criado por um homem machista, que se sentia oprimido pela profissional que eu era e que não admitia que eu não precisasse dele como mentor, conforme ficou claro na conversa que tivemos. Mas isso é assunto para outra carta. Em junho de 2018 marquei uma reunião com a direção para avisar que eu não continuaria como professora da escola depois das férias de julho. Durante a conversa, expliquei os motivos da minha saída e, pasme, a coordenadora não havia levado o assunto do tal grupo do WhatsApp para a direção. Como aquele era um assunto desconhecido da diretora, revisitei os fatos daquele final de semana de fevereiro, enquanto narrava os detalhes do que havia acontecido. Mesmo com a minha saída iminente, a direção convocou os adultos responsáveis pelos alunos para uma reunião, da qual eu não participei e na qual fui acusada, por uma das mães, de perseguir um “pobre menino inocente, que fez uma brincadeira e não entendia a gravidade do que disse”. O assunto foi dado como encerrado, os alunos não foram responsabilizados e eu segui a vida bem longe dali. Hoje, mais de dois anos depois, esse ainda é um assunto que me deixa triste e frustrada. Você sabe, não gosto de assuntos inacabados e carrego comigo um sentimento, uma necessidade de justiça. Mas eu precisei me afastar daquilo tudo, principalmente porque entraria nos seis meses finais do mestrado e eu tinha uma dissertação para terminar. Espero que agora você entenda o porquê de eu ter demorado tanto para escrever sobre isso. Saudades das nossas conversas na varanda da sua casa. Um abraço enorme, Bia. Ansiosa pela sua opinião sobre isso, Lucila. Lucila Barbalho Nascimento é apenas uma feminista potiguar que mora no sertão alagoano e está em constante (des)construção. Historiadora de formação e apaixonada pela docência. Uma leonina que não gosta de espelho e é viciada em séries. Fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Feministas Dandara Dos Palmares (instagram @gefem_dandaradospalmares). Seu Instagram pessoal é @lucila_barbalho.

Traduções: Judith Butler
Traduções: Judith Butler

O show finalmente acabou para Donald Trump? [1] por Judith Butler* #feministasgringas #mulheresquetraduzemmulheres Judith Buther - foto disponível em: https://criticaltheory.berkeley.edu/people/judith-butler/ Nunca houve dúvida de que Donald Trump falharia em fazer uma saída cortês e rápida. A única questão para muitos de nós era o quão destrutivo ele se tornaria no decorrer de sua queda. Eu sei que a palavra "queda" geralmente é reservada para reis e tiranos, mas estamos operando nesse teatro, embora aqui o rei seja ao mesmo tempo o palhaço. O homem no poder também é uma criança birrenta sem adultos discerníveis no quarto [2]. Sabemos que Trump tentará fazer de tudo para permanecer no poder, para evitar aquela catástrofe máxima na vida - tornar-se “um perdedor” [3]. Ele mostrou que está disposto a manipular e destruir o sistema eleitoral se for necessário. O que é menos claro é se ele pode fazer o que ameaça ou se a “ameaça” é só um discurso impotente pairando no ar. Como posicionamento, a ameaça de interromper ou anular o voto é uma espécie de espetáculo montado para satisfazer sua base [eleitoral]. Mesmo sendo uma estratégia formalmente legal, uma equipe de advogados, inclusive advogados que trabalham para o governo, entendem que ela constitui um sério perigo para a democracia. Como tantas vezes antes na presidência de Trump, ficamos nos perguntando se ele está blefando, tramando, atuando (como numa performance) ou agindo (causando danos reais). Uma coisa é se posicionar como o tipo de cara que causaria danos incalculáveis ​​à democracia para se manter no poder; outra bem diferente é transformar esse espetáculo em realidade, iniciando processos jurídicos que poderiam desmantelar as normas e leis eleitorais que garantem o direito de voto, atingindo o próprio arcabouço da democracia estadunidense. Quando fomos às urnas, não estávamos votando em Joe Biden / Kamala Harris (centristas que renegaram os planos financeiros e de saúde mais progressistas de Bernie Sanders e Elizabeth Warren), e sim pela possibilidade de votar em um sentido mais amplo, votar pela presente e futura instituição da democracia eleitoral. Aqueles de nós que não estão inseridos no sistema prisional [4] vivíamos com um senso de que leis eleitorais estavam consolidadas como parte de uma estrutura constitucional que dava direção ao nosso senso político. Muitos daqueles que não haviam sofrido privação de direitos eleitorais antes [do governo Trump] não tinham sequer noção de como suas vidas se ancoravam a uma confiança básica na estrutura legal. Mas a ideia da lei como algo que garante nossos direitos e orienta nossa ação se transformou em um campo de disputa. Não há norma legal que não possa ser contrariada por Trump. Uma lei não existe para ser honrada ou seguida, mas como um lugar de litígio em potencial. O conflito se torna o campo final do poder da lei, e todos os outros tipos de lei, mesmo os direitos constitucionais agora estão reduzidos a itens negociáveis ​​dentro desse campo. Embora alguns culpem Trump por trazer um modelo empresarial para o governo, sem estabelecer limites sobre o que pode ser negociado para seu lucro, é importante ver que muitos de seus negócios culminaram em processos judiciais (a partir de 2016, ele esteve envolvido em mais de 3.500 ações judiciais). Ele vai ao tribunal para forçar a conclusão que deseja. Quando as leis básicas de apoio à política eleitoral são litigadas, se toda proteção legal é proclamada como fraudulenta, como um instrumento que beneficia aqueles que se opõem a ele, então não sobra nenhuma lei que possa restringir o poder do litígio para destruir as normas democráticas. Quando ele pede o fim da contagem de votos (bem parecido com seu pedido para encerrar os testes da Covid), ele procura impedir que uma realidade se materialize e mantém o controle sobre o que é percebido como verdadeiro ou falso. A única razão pela qual a pandemia é ruim nos Estados Unidos, ele argumenta, é que existem testes que fornecem resultados numéricos. Se não houvesse uma maneira de saber o quão ruim é, então aparentemente não seria ruim. Na madrugada de 3 de novembro, Trump pediu o fim da contagem dos votos nos principais estados onde temia perder. Se a contagem continuar, Biden pode muito bem ganhar. Para contornar esse resultado, ele deseja interromper a contagem, mesmo que os cidadãos sejam privados de seu direito de fazer a contagem do voto. Nos Estados Unidos, a contagem sempre demorou: esse é o normal. Então, qual é a pressa? Se Trump tivesse certeza de que venceria se a contagem eleitoral parasse agora, poderíamos entender o por quê ele quer pará-la. Mas dado que ele não tem os números eleitorais, por que pararia? Se a ação que interrompe a contagem for acompanhada por uma ação que alega fraude (sem qualquer fundamento conhecido para fazê-lo), então ele pode produzir uma desconfiança no sistema, que, se for profunda o suficiente, acabará por levar a decisão aos tribunais, os tribunais que ele colocou no bolso, aqueles que ele imagina que irão colocá-lo no poder. Os tribunais, junto com o vice-presidente, formariam então um poder plutocrático que decretaria a destruição da política eleitoral como a conhecemos. O problema, entretanto, é que esses poderes, mesmo que geralmente o apoiem, não necessariamente destruirão a Constituição por lealdade a ele. Alguns de nós estamos chocados por ele estar disposto a ir tão longe, mas esse tem sido seu modo de operar desde o início de sua carreira política. Ainda estamos assustados de ter visto a fragilidade das leis que nos fundamentam [politicamente] e nos orientam como uma democracia. Mas o que sempre foi distintivo do regime de Trump é que o poder executivo do governo constantemente atacou as leis do país, ao mesmo tempo, que afirma representar a lei e a ordem. A única maneira de essa contradição fazer sentido é se a lei e a ordem forem exclusivamente incorporadas por ele. Uma forma peculiarmente contemporânea de narcisismo impulsionado pela mídia, portanto, transforma-se em uma forma letal de tirania. Aquele que representa o regime jurídico assume que é a lei, aquele que faz e infringe a lei como lhe agrada e, como resultado, torna-se um criminoso poderoso em nome da lei. O fascismo e a tirania assumem muitas formas, como esclareceram os estudiosos. Tendo a discordar daqueles que afirmam que o nacional-socialismo continua sendo o modelo pelo qual todas as outras formas fascistas devem ser identificadas. E embora Trump não seja Hitler e a política eleitoral não seja precisamente uma guerra militar (ainda não uma guerra civil, de toda maneira) há uma lógica geral de destruição que entra em ação quando a queda do tirano parece quase certa. Em março de 1945, quando as forças aliadas e o Exército Vermelho haviam derrotado todas as fortalezas defensivas nazistas, Hitler resolveu destruir a própria nação ordenando a destruição dos sistemas de transporte e comunicação, instalações industriais e serviços públicos. Se ele estava caindo, a nação também estava. A diretiva de Hitler foi chamada de “Demolições do território do Reich”, mas foi lembrada como o “Decreto de Nero”, invocando o imperador romano que matou os familiares e amigos, punindo àqueles que eram considerados desleais, em seu desejo implacável de manter o poder e punir aqueles que eram considerados desleais. Quando seus apoiadores começaram a fugir, Nero tirou a própria vida. Suas supostas últimas palavras: “que artista morre em mim!”. Trump não foi nem Hitler nem Nero, e sim um péssimo artista que foi recompensado pelos seus apoiadores por suas performances miseráveis. Seu apelo à quase metade do país dependeu do fomento de uma prática que autoriza uma forma empolgada de sadismo, livre de quaisquer grilhões de vergonha moral ou obrigação ética. Esta prática não atingiu totalmente sua liberação perversa. Não apenas mais da metade do país respondeu com repulsa ou rejeição, mas o espetáculo vergonhoso sempre dependeu de uma imagem sombria da esquerda: moralista, punitiva e crítica, repressiva e pronta para privar a população em geral de todo prazer comum e liberdade. Desse modo, a vergonha ocupou um lugar permanente e necessário no cenário Trumpiano, na medida em que foi exteriorizada e fincada na esquerda: a esquerda quer envergonhar você por suas armas, seu racismo, sua agressão sexual, sua xenofobia! A fantasia extasiada de seus partidários era que, com Trump, a vergonha poderia ser superada e eles seriam “libertados” da esquerda e de suas restrições punitivas à fala e conduta, uma permissão para, finalmente, destruir regulamentações ambientais, acordos internacionais, expelir bile de racismo e afirmar abertamente formas persistentes de misoginia. Enquanto Trump fazia campanha para multidões excitadas pela violência racista, ele também prometia proteção contra a ameaça de um regime comunista (Biden?) que redistribuiria sua renda, tiraria sua carne e, eventualmente, instalaria uma mulher negra "monstruosa" e radical como presidente (Harris?). Foto: Brendan Smialowski/AFP/Getty O presidente em declínio, porém, declara que ganhou, mas todos sabem que não, pelo menos ainda não. Nem mesmo a Fox aceita sua alegação, e até Pence diz que todos os votos devem ser contados. A espiral descendente do tirano pede o fim do teste, da contagem, da ciência e até do direito eleitoral, de todos aqueles métodos inconvenientes de verificar o que é, e o que não é verdade, a fim de tecer sua verdade mais uma vez. Se ele tiver que perder, ele tentará derrubar a democracia com ele. Mas quando o presidente se declara vencedor e há risos generalizados e até mesmo seus amigos abandonam o barco, então ele finalmente está sozinho com suas alucinações de si mesmo como um poderoso destruidor. Ele pode brigar o quanto quiser, mas se os advogados se dispersarem e os tribunais, exauridos, não ouvirem mais, ele se verá governando apenas à ilha chamada Trump - como uma mera demonstração da realidade. Podemos finalmente ter a chance de deixar Trump se tornar um espetáculo passageiro de um presidente que, ao tentar destruir as leis que apoiam a democracia, se tornou sua maior ameaça, abrindo caminho para um descanso depois de um esgotamento que parecia interminável. Vá em frente, Sleepy Joe! [5] * Judith Butler - Mais conhecida por ser uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e teoria queer, Butler atua no campo da filosofia política e ética, bem como em estudos sobre agência política de sujeitos históricos e assembleísmo. Ao longo de sua carreira recebeu diversos prêmios e homenagens Brudner Prize, em Yale (2004); foi eleita membro da American Philosophical Society (2007) e o Theodor W. Adorno Award (2012). Judith Butler é Maxine Elliot professor no Departamento de Literatura Comparada e no Programa de Teoria Crítica da Universidade da Califórnia, Berkeley - também ocupa a cadeira de honra intitulada Hannah Arendt na European Graduate School. Dentre seus principais livros, podemos destacar: - Gender trouble: Feminism and the subversion of identity. Nova Iorque: Routledge, 2006. [ed. brasileira: Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003]; - Bodies that matter: On the discursive limits of "sex". Nova Iorque: Routledge, 1993. [ed. brasileira: Corpos que importam: Os limites discursivos do "sexo". Tradução de Verônica Daminelli e Daniel Yago Françoli. São Paulo: N-1 Edições e Crocodilo, 2019]; - The psychic life of power: theories in subjection. Stanford: Stanford University Press, 1997. [ed. brasileira: A vida psíquica do poder: Teorias da sujeição. Tradução de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2017]; - Precarious life: The powers of mourning and violence. Londres: Verso, 2004. [ed. brasileira: Vida precária: Os poderes do luto e da violência. Tradução de Andreas Lieber. Belo Horizonte: Autêntica, 2019]; - Giving an account of oneself. Nova Iorque: Fordham University Press, 2005. [ed. brasileira: Relatar a si mesmo: Crítica da violência ética. Tradução de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015]; - Notes toward a performative theory of assembly. Cambridge: Harvard University Press, 2015. [ed. brasileira: Corpos em aliança e a política das ruas: Notas para uma teoria performativa de assembleia. Tradução de Fernanda Siqueira Miguens. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018]. - The force of nonviolence. New York: Penguin Random House, 2020 Notas [1] Texto original postado em 05 de Novembro de 2020, disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/nov/05/donald-trump-is-the-show-over-election-presidency [2] Um resumo da trajetória controversa de Trump na presidência dos EUA pode ser lida em https://brasil.elpais.com/internacional/2020-11-07/trump-o-perdedor-que-odiava-os-perdedores.html [3] A autora fez referência a uma das gafes de Trump, quando ele declarou que não tinha motivos para visitar o cemitério Aisne-Marne, onde estão os restos mortais de mais de mil fuzileiros navais estadunidenses mortos na Primeira Guerra Mundial. Nessa ocasião ele disse "por que eu deveria ir àquele cemitério? Está cheio de perderores". Ver https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54035426 [4] O contrário do Brasil, em alguns estados dos Estados Unidos a população carcerária não tem direito a voto. Para maiores informações ver: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2012/noticia/2012/11/quase-6-milhoes-de-ex-condenados-americanos-sao-privados-de-votar.html [5] "Sleepy Joe" é o nome de uma música escrita por John Carter e Russell Alquist em 1968. E também é o apelido ofensivo que Trump deu a Biden. Tradução e notas: Sheila Lopes Leal Gonçalves Revisão e notas: Flávia Veras e Letícia Pereira

Mãos livres
Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos PARTIDA Meire Martins de Souza* Vai, segue o teu destino. Relutei tanto pra que tu ficasse, Eu me refiz, eu me atirei, Eu tentei ser o teu mundo, Mas tudo que posso te proporcionar, é pouco pra ti. Vai, segue o teu destino. Lembrarei de ti como uma estrela Que um certo dia apareceu no meu céu, E trouxe brilho para a minha noite que estava ofuscada. Vai, segue o teu destino. Foi lindo te ver, foi gostoso te ter, Mas se precisas agora brilhar em outro céu, Vai, segue o teu destino. Porque o amor não prende, o amor liberta. Te darei então a liberdade de me deixar. Te matarei dentro de mim, não por maldade, não por rebeldia, Mas sim, para que possas renascer em outro céu. Vai, segue o teu destino. E o brilho que tu trouxeste para a minha vida, permanecerá para sempre. E quando eu pensar em ti, tua luz refletirá em meus olhos, E um sorriso resplandecerá em meus lábios, Porque quando uma estrela morre, o brilho dela permanece no céu. Vai, segue o teu destino. Tu de repente apareceu, Tu de repente se vai, E eu fico aqui a contemplar esse céu, na esperança de que de repente tu vai voltar. Vai, segue o teu destino. *Antonia Luzimeire de M. M. de Sousa nasceu em 03 de junho 1982, na cidade de Guaraciaba do Norte, Ceará. Filha de professora e agricultor, ajudava na lavoura quando criança, mas queria mesmo era ser professora como a mãe. Ainda com 16 anos, começou a lecionar através do projeto Alfabetização Solidária. Nos anos seguintes, já com formação para o exercício do magistério (normal), trabalhou no ensino infantil e primeiras séries do fundamental na escola municipal do sítio onde morava. Em 2005 concluiu o curso de Licenciatura Plena em História e Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral (CE). No mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho, onde reside até os dias atuais. Casada desde 2007 com um conterrâneo que conheceu no Rio, tem um filho com ele. Recentemente, concluiu pós-graduação em História do Brasil contemporâneo pela Universidade Estácio de Sá. Inspirada na literatura de cordel que cresceu ouvindo seus familiares recitarem, escreve poemas nas horas vagas. RASCUNHO [quarto texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Os anos passam E a vida tem sido Como aquele livro. Páginas e páginas escritas Em rascunho... O texto ideal não foi escrito A inspiração ainda não aconteceu, inteira... Angustia-me a ideia de não saber quanto tempo ainda levará para que ele seja passado a limpo. 10 de outubro de 1982. *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. “O DESENCANTO DE UMA PAISAGEM” Isabella Poppe* Foi no outono de 2013, estávamos eu e Ângela fumando um baseado atrás dos imensos galpões do cais do porto na cidade do Rio de Janeiro. Num horizonte pouco distante, a paisagem portuária composta de uma flora estupenda, artificial e insaciável saltava aos olhos. Era a primeira vez que sentia o impacto visual causado por aquele maquinário em fúria, onde trópicos humanos de ferro e força erguiam-se nos planos inclinados de costas para a cidade. Ângela me passou o baseado, dei um tapa caprichado, prendi a respiração e, ao soltar a fumaça, tossi incessantemente, sentindo a garganta arranhar. Ela pediu desculpas pela falta de qualidade da erva, justificando que eram tempos difíceis de escassez. Eu estava compenetrada naquela paisagem metálica, atenta aos contrastes de suas cores amarela, vermelha, azul e branca, das tantas pilhas de containers retangulares que amontoavam-se uns sobre os outros, numa espécie de jogo de empilhar gigante, não fossem os nomes das empresas estampados em suas laterais – que revelavam a função comercial de toda aquela estrutura globalizada. Até que me dei conta de que não havia movimento algum ali. Nenhum sinal de atividade humana. Os trabalhadores eram invisíveis no universo portuário. Não fosse a brisa, talvez desconfiasse de que estivéssemos diante de uma miragem. Indaguei à Ângela se ela alguma vez havia visto um porto em atividade, mostrando algo para além de uma exibição estética. “Desce ruim na garganta, mas até que sobe legal na mente”, foi o que Ângela respondeu, me dando uma gastada. Passei o beck de volta para ela e me surpreendi ao vê-la fechar um dos olhos, enquanto fazia um gesto com os dedos polegar e indicador, como se imitasse um guindaste erguendo um daqueles infinitos retângulos coloridos. “É tipo aquelas máquinas de shopping em que a gente tenta pegar um bichinho de pelúcia. Nunca consegui fisgar um desgraçado desses.” Durante algumas horas, ficamos as duas assim, curtindo a leveza daquele momento, aliviadas por ao menos conseguirmos abstrair de todas as desgraças da humanidade. Mas o impacto que eu havia experimentado, um misto de adrenalina e desencanto, essa sensação não iria passar da mesma maneira que a onda daquele bagulho de qualidade duvidosa. Eu havia sentido um misto de “Entusiasmo” – em que os planos detalhes de Vertov pulsam triunfantes em sua saudação ao progresso no seu maior esplendor – com o “Arábia”, de Uchoa e Dumans – onde a imagem imobiliza o tempo e, a abstração sonora da última cena de um navio em erupção, é um gesto de admiração do mundo em sua majestade e horror. Não compartilhei esses pensamentos com Ângela, receosa de que ela pudesse achá-los pedantes – ou totalmente vazios de sentido. Reparei então em um dos imensos navios atracados no cais. Tinha o casco amarelo, onde estava escrito Grande América. Encarei-o por longos minutos na esperança de conseguir flagrar o momento em que o imenso guindaste vermelho se inclinaria até ele, para finalmente erguer um dos containers que aguardavam pacientemente a hora de ser descarregado. Mas nada. Tudo permanecia estático como de costume. Comecei a ansiar pelo dia em que veria aqueles imensos guindastes em pleno movimento. Se não para erguer containers, quem sabe para se desgarrarem de uma vez do chão, num ato feroz de rebeldia. Por fim, eles encarariam a cidade de frente e a invadiriam, alertando-a de seu progresso desenfreado. Anos depois, eu viria saber que o mesmo navio Grande América havia pegado fogo e afundado, levando para o fundo do oceano cerca de dois mil automóveis. Dentre eles, estavam duzentos Porshes, carros de luxo destinados ao 1% da população grandeamericana, que agora se encontravam perdidos a mais de quatro mil metros de profundidade. Ao contrário das caravelas que invadiram nuestro território no passado, a viagem do navio de carga Grande América fora interrompida, impossibilitada de chegar ao seu destino final. Naquele tempo, eu e Ângela havíamos tomado rumos diferentes na vida, como acontecem com muitas das amizades de infância, e já não éramos mais o silêncio cômodo uma da outra. Assim como o porto e a cidade, após tanto tempo rumando por caminhos paralelos e sem contato, com objetivos diferentes e até opostos em relação ao mesmo espaço, a ausência de diálogo entre nós tornou-se o indício de um confronto velado. Ela havia se formado em design, trabalhava em uma agência de marketing, e expunha o que havia aprendido de arte em NY em sua conta do instagram. Ângela conseguia ser feliz, pois encarava a vida como uma eterna distração. Já eu me sentia impotente diante de tudo que acontecia ao meu redor. Determinada a nunca ferir minhas convicções, estagnei-me numa inércia que se justificava pelo medo de tornar-me uma hipócrita. No dia do naufrágio do Grande América, rompi nosso silêncio e mandei uma mensagem à Ângela com a notícia. Ela me respondeu amável, dizendo que apesar da tragédia, aquele dia lhe trazia boas lembranças, e finalizou com um “Saudades”. Não respondi sua mensagem de imediato. Depois de certo tempo, tudo que pude dizer acabou se resumindo num “Eu também” previsível. Não sei por que hesitei tanto em respondê-la. Talvez fosse pelo simples fato que, para mim, aquele navio cheio de carga afundado era, na realidade, um símbolo do que havia acontecido com a nossa amizade. *Isabella Poppe é formada em História pela UNIRIO, mestranda em História, Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV-RJ e roteirista de projetos audiovisuais. É esquerdista, indecisa e doida pela América Latina. Curte ironia e toca mal vários instrumentos. Já foi livreira no Rio e em Buenos Aires. Colabora no site Women's Media Center.

"La Gringa": Eve Rodrigues
"La Gringa": Eve Rodrigues

O machismo de todos nós Eve Rodrigues* Cabo Polônio, como o nome diz, é geograficamente um cabo. Está situado no país vizinho, Uruguai, e em princípios da década de setenta começou a ser descoberto por los hermanos como um local de turismo. Mais adiante, esta descoberta ganhou o mundo e antes mesmo de se tornar um destino cult aqui entre nós, já estava nos mapas de mochileiros europeus. É um lugar incrível, onde a luz elétrica até os dias de hoje ainda não chegou, onde não há água encanada e, apesar da intensa exploração turística que sofre, permanece sendo um lugar especial. Muitos foram os que se mudaram para Polônio para promoverem em suas vidas uma forma alternativa de consumo e de ocupação… E é aí que quero incluir minha narrativa. Foto: Eve Rodrigues (acervo pessoal da fotógrafa) Em fevereiro de 2019, eu já havia me apaixonado por Polônio há alguns anos e este Cabo era destino frequente de minhas viagens. No entanto, queria fazer uma experiência e viver tão somente do que o lugar me pudesse prover: por um mês me propus a não depender de nenhuma fonte de ganho monetário e também me abstive de sacar dinheiro, o que lá é impossível, ou levar dinheiro comigo para minha subsistência ou prazer. Assim, no dia 31 de janeiro de 2019 cheguei ao cabito para trabalhar em um hostel em um voluntariado artístico, onde trocaria hospedagem e alimentação completa por meu trabalho em atividades pré acordadas do hostel e por fotos diárias para a página deste hostel. Minhas incursões em qualquer lado que vá tem por objetivo fotear. Minha ideia era viver do meu próprio trabalho, ou seja, que meu corpo sustentasse meu corpo e, assim, me aproximar o mais possível de alguma espécie de desligamento de maneira a imergir totalmente na realidade física daquele espaço. Estava preparada para fazer 33 camas por dia… estava preparada para cumprir minhas tarefas no hostel e meu horário de 11hs até as 15hs me dava de sobra o amanhecer, a manhã e a tarde e ainda o pôr do sol e a noite para minhas fotos. Ok, valia muito a pena. O trabalho era pesado, eu sabia, mas estava disposta também a ver se meu corpo poderia aguentar o que minhas idéias estavam dispostas a abraçar. No hostel o gerente era um uruguaio que tinha vivido alguns anos nos Estados Unidos estudando artes e que tinha aquela postura livre e descompromissada, dos que andam entre o budismo e naturismo... Tocava violão e segundo ele era esta sua paixão... O garoto que fazia o turno da manhã era um brasileiro de 22 anos, do Rio Grande do Sul, super gente boa, um garoto que estava descobrindo o mundo e de lá iria fazer uma viagem em bicicleta até o Chile, atravessando desde o Uruguai, passando pela Argentina. O do turno da noite era um carinha de uns 40 e poucos anos, também gaúcho, que havia largado seu trailer de massas para se jogar em uma vida alternativa e estava fazendo o turno da noite do hostel, onde propunham jantar aos hóspedes. Esta era a equipe. Ao primeiro turno cabia o café da manhã, que ele vendia aos hóspedes... Limpar o salão e os banheiros, limpar a cozinha da noite anterior, organizar o hostel para receber os hóspedes que chegassem pela manhã antes das 12hs. Os quartos só ficavam disponíveis depois das 13hs. A mim cabia fazer check in dos hóspedes, arrumar as camas e preparar nosso almoço. Ao turno da noite fazer check in dos que chegavam pela tarde, limpar novamente os banheiros e fazer jantar. O jantar também era vendido e o dinheiro dividido entre o gerente e o cozinheiro brasileiro. Tarefas como lavar as roupas de cama e limpar o hostel seriam feitas em turnos por todos nós. Aqui entra o motivo da narrativa. Isto foi acordado, este esquema era assim desde que havia começado o voluntariado, mas nunca antes o voluntariado se dividira entre 2 homens e uma mulher...e, por conta disso, desse machismo arraigado na cultura dos brasileiros e dos uruguaios, as tarefas foram aos poucos sendo empurradas para mim... O garoto do café da manhã não lavava mais a louça... o garoto da noite igualmente não lavava mais a louça e nem limpava mais o banheiro. Passavam o tempo todo com o tal gerente tocando violão, fumando e falando do modo de vida alternativo que tinham escolhido para si. O gerente se colocava como um guru espiritual e discursava horas a fio sentado em uma rede com os outros dois ao lado enquanto eu trabalhava… parece bizarro mas era assim mesmo.. A princípio pensei que seria passageiro, quando percebi que não, fiz uma reunião entre todos. Me escutaram e riram entre si como uma confraria.. O gerente me disse “Ok Eve, anotada a reclamação”. Começaram a faltar jogos de cama limpos para trocar e chamei a todos para tirarmos uma segunda feira que não havia hóspedes e que estava sol para lavar a roupa. Recolhi todos os jogos e coloquei em partes na máquina, eles saíram e só voltaram a noite. Todos, inclusive o gerente... Muitas coisas do tipo aconteceram e quase desisti...até me dar conta de que não era um problema meu, era deles. Eles eram medíocres o bastante para jogar trabalho nas costas de outra pessoa e, principalmente, porque eu era mulher a única mulher ali. Se fechavam em um grupo, não me respondiam quando chamava a razão, apenas diziam: “Foi mal! Eve, desculpa..” e seguia sendo a mesma coisa. Não adiantava nada. A finalidade deles era não ter que fazer o trabalho doméstico, porque quando eram crianças foram criados assim..assistindo as mulheres da casa trabalhando o dia todo. Sua função nesta hierarquia familiar primitiva era trabalhar fora da casa...e se não havia fora da casa..então assistiam. Aos poucos me adaptei a resolver tudo dentro do horário que tinha que trabalhar de modo a poder fazer o que tinha ido fazer ali... fotiar. Foto: Eve Rodrigues (acervo pessoal da fotógrafa) O resto foi aprendizado. Meu objetivo ali era outro e particularmente queria saber se eu era capaz de resistir a tentação de consumir e vi nisso uma oportunidade a mais… porque não me custava nada sair e ir para um hostel e desfrutar de turista. Mas minhas fotos necessitavam de outra vivência da minha parte. Então segui...e aprendi mais ainda. O que percebi foi claro e não existe um remédio para isto que não seja a educação. No Uruguai, como no sul do país - eu testemunhei porque cresci por aqui - são as mães que criam estes adultos indulgentes e desrespeitosos. Os homens sentam à mesa e são servidos pelas mulheres; comem e se levantam sem nem mesmo recolherem seus pratos.. É uma prática que ao longo de gerações foi formando no fundo pessoas covardes… homens covardes e mulheres fortes. No entanto, esta mesma balança que nasce dentro das casas se estende ao mundo exterior de maneira equivocada. O homem é colocado como um indivíduo a quem se deve servir, preservar… porque oficialmente é dele o espaço lá fora para trazer o sustento para dentro da casa. E ainda assim, quando esta fórmula não mais se justifica segue o costume… mesmo entre hippies tardios do séc XXI. O machismo, como todos os ismos, está dentro e não vem de lugar algum que não de dentro. Isso porque ele tá enraizado nas engrenagens e estruturas da nossa sociedade. De uma forma que tão sutil (e por isso cruel) que muitas mulheres, especialmente nas gerações passadas, não conseguiam sequer identificá-lo e assim, sem se dar conta, o reproduziam - e ainda hoje o reproduzem. Dentro das casas quando as mães pedem às filhas que as ajudem a levar a roupa que acabam de tirar de dentro da máquina, enquanto o menino está na sala jogando com seus botões. Quando a mesma mãe pede que a filha coloque os pratos na mesa enquanto o filho está sentado em frente à TV assistindo o jornal esportivo. O exemplo, o tratamento, a educação enfim, que os pais transmitem a seus filhos é nela que está todo o mal… a raiz de todo o mal. Porque estes exemplos que são passados inconscientemente trazem em si um selo de identidade… não são questionáveis ao se tornarem cotidianos. Porque as mães servem a seus maridos, servem a seus filhos e por último e quando ninguém mais lhe pede nada servem a si mesmas? Como se todos fossem prioridade menos ela mesma? Uma vez seria gentileza… todos os dias é consolidar e perpetuar uma prática alienada que produz seres incompletos e que, ainda pior, é considerado amor. Essa lógica de priorizar o outro, especialmente os homens da família, é uma das faces mais cruéis da sociedade machista. A vivência de uma viagem só é real quando conseguimos nos desembaraçar de nossas bagagens internas.. e não nos sentirmos nem privilegiadas ou exploradas.. Estar de passagem em qualquer lugar ou situação exige um grau maior de compromisso consigo mesmo, que vai além de qualquer exercício de individualidade, mas que permite uma vivência real e ao mesmo tempo alheia das situações mais triviais. Um discernimento constante se faz necessário para identificar o limite que aquele espaço, aquela cultura traçam, porque estar de passagem importa em observar, aprender e deixar que a intervenção se faça quando você já não está mais lá… através do exemplo que você deixar. * Eve Rodrigues "A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam". (A Viagem do Elefante-José Saramago) 🌎 Fotógrafa,viajante e mochileira! As cores As formas As formas das cores...e as pessoas! Insta: @hseverodrigues http://carpediemeverodrigues.blogspot.com