Edição 4

Tá rolando...
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PODCAST “CALMA, GENTE HORRÍVEL” O “Calma, gente horrível” é um podcast produzido por Ana Roxo, Tati Fadel, Rita Alves e Malu Rodrigues, atualizado sempre às quarta-feiras. Trata-se de um projeto independente, feito por essas quatro mulheres de diferentes formações e trajetórias. Elas abordam tanto temas políticos e sociais que estão em pauta no Brasil, quanto outros, de interesse geral - podendo ser mais leves e engraçados, como os assuntos “jovem místico”, “cafonice”, “comunista de iphone”, ou mais pesados e fundamentais, como “maternidade compulsória”, “aborto”, “Lei Maria da Penha” e “padrões de beleza”. Dependendo do tópico a ser abordado, convida-se uma especialista. No dia 9 de setembro o podcast chegou ao episódio número 50, sempre com muito cuidado e qualidade tanto nas discussões, quanto no formato e edição. Está nas plataformas, vale a pena conferir! MULHERES QUE LEEM MULHERES Foi inaugurada a série 'Mulheres que leem Mulheres' na Rádio Piraí Educa, um projeto da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas - uma organização brasileira construída por mulheres com o intuito de lutar contra o preconceito acadêmico, dar visibilidade a obra de filósofas e discutir questões de feminismo e gênero no campo filosófico. O projeto é desenvolvido por meio da parceria com o Laboratório Filosofias do Tempo da Agora, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com episódios de cerca de 8 minutos, pesquisadoras do laboratório apresentam as filósofas que investigam e pelas quais se interessam. Através da parceria com a Rádio Piraí Educa, os áudios da série " Mulheres que leem Mulheres" se tornaram episódios de podcasts que serão lançados aos sábados. No total serão 13 episódios. Imperdível! "Mulheres que leem mulheres" está também disponível no YouTube. https://anchor.fm/radiopiraieduca/episodes/Srie-Mulheres-que-leem-mulheres--Ep--1-Llia-Gonzalez-ekggm8 SEGUNDAS FEMINISTAS! O Segundas feministas é o podcast do Grupo de Trabalho de Gênero, pertencente a Associação Nacional de Professores de História (ANPUH) - Brasil. A produção do podcast visa divulgar pesquisas e discussões na área de História que versem sobre gênero, mulheres e feminismos. Toda segunda-feira é disponibilizado um episódio do podcast que pode ser acessado através da plataforma do soundclound. Atualmente, o Segundas Feministas já contam com 15 episódios produzidos. Confiram no instagram: @segundasfeministas O PESSOAL É POLÍTICO, PODCAST FEMINISTA Segundo as próprias autoras do podcast, elas são duas irmãs que perceberam a necessidade de estudar e discutir sobre teoria feminista. Assim, elas organizaram as emissões em temporadas, cada uma dedicada a um livro, que elas comentam detalhadamente. Na primeira temporada, analisaram o Woman Hating, de Andrea Dworkin. Agora, na segunda, falam sobre o "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir. Trata-se de uma ótima pedida para quem quer começar a compreender os debates feministas e algumas de suas principais teóricas, mas, especialmente, aquelas alinhadas ao feminismo radical.

Traduções: Uma imagem mais completa de Artemisia Gentileshi
Traduções: Uma imagem mais completa de Artemisia Gentileshi

Rebecca Mead* #mulheresquetraduzemmulheres #leiamulheres A história de “Susanna e os anciãos”, relatada no Livro de Daniel, era um assunto popular para artistas nos séculos XVI e XVII, e não é de se admirar. Susanna, uma jovem virtuosa e bela, está se banhando no jardim enquanto dois homens mais velhos a espionam. Os homens, de repente, a abordam e exigem que ela se submeta ao estupro; se ela resistisse, avisaram, eles iriam arruinar sua reputação, alegando que a flagaram com um amante. O conto ofereceu aos pintores uma oportunidade irresistível de reproduzir um tipo semelhante de voyeurismo. Tintoretto retratou a cena várias vezes; em uma versão pintada na década de 1550, que está exposta no Kunsthistorisches Museum de Viena, ele representou Susanna de modo sereno e abstrato, enxugando um pé levantado e se olhando no espelho, desavisada de um homem careca que está escondido atrás de uma treliça de rosas e espiando entre suas coxas separadas.[1] Numa versão produzida por Rubens, meio século depois, em exposição na Galeria Borghese, em Roma, Susanna é retratada buscando um xale, percebendo com horror que foi exposta a dois homens maliciosos.[2] Às vezes, a ameaça de violência contra Susanna é indicada no quadro: em uma versão de Ludovico Carracci que está pendurada na National Gallery de Londres, um dos mais velhos está puxando o manto de Susanna, tirando-o de seu corpo.[3] Giuseppe Cesari (conhecido como Cavaliere d'Arpino) fez uma pintura que atrai a participação do espectador na lascívia que representa: a personagem nua parece quase sedutora vista de fora da tela, escovando friamente seus cabelos dourados.[4] Uma Susanna muito diferente é oferecida por Artemisia Gentileschi, que nasceu em Roma em 1593 e que pintou a cena em 1610, quando tinha dezessete anos. Em sua versão, dois homens emergem de trás de uma balaustrada de mármore, interrompendo violentamente as abluções de Susanna.[5] Sua cabeça e seu corpo se afastam dos espectadores enquanto ela levanta a mão em direção a eles, no que parece ser uma autodefesa ineficaz. Surpreendentemente, sua outra mão protege o rosto. Talvez esta Susanna não queira que os homens a identifiquem ou vejam sua angústia; é igualmente provável que ela não queira colocar os olhos em seus perseguidores. Em sua composição, execução e percepção psicológica, a pintura é incrivelmente sofisticada para uma adolescente. Como observou a estudiosa Mary Garrard, em uma avaliação de 1989 intitulada "Artemisia Gentileschi: A Imagem da Heroína Feminina na Arte Barroca Italiana", a pintura representa uma inovação histórico-artística: é a primeira vez em que a predação sexual é retratada a partir do ponto de vista da vítima. Com esta pintura, e com muitas outras obras que se seguiram, Artemisia reivindicou a resistência das mulheres à opressão sexual como um tema legítimo da arte. Como uma das primeiras mulheres a construir uma carreira de sucesso como pintora, Artemisia foi celebrada internacionalmente em sua vida, mas sua reputação definhou após sua morte. Em parte, isso se deveu à moda: seu modo naturalista de pintar deixou de ser o estilo predominante na pintura, em favor de uma abordagem mais clássica. Os estudiosos do século XVII mal a mencionaram. Quando seu nome foi registrado, foi como uma nota de rodapé para seu pai, Orazio Gentileschi, um artista conceituado que se especializou no tipo de cenas históricas e mitológicas em voga na época. (Os acadêmicos tendem a se referir a Artemisia por seu primeiro nome, a fim de distingui-la de seu pai.) Seu trabalho recebeu pouca atenção crítica substancial até o início do século XX, quando Roberto Longhi, o historiador da arte italiano, escreveu uma avaliação a contragosto, chamando-a de “a única mulher na Itália que chegou a entender o que era pintura, cores, impasto e outros elementos essenciais”. Na segunda metade do século XX, Artemisia foi reconsiderada. Um ponto de inflexão foi a inclusão de meia dúzia de suas obras, entre elas a de 1610, Susanna and the Elders, em um levantamento histórico, Women Artists: 1550-1950; com curadoria das historiadoras da arte Ann Sutherland Harris e Linda Nochlin. [Essa exposição] foi inaugurada no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (Los Angeles County Museum of Art) em 1976, posteriormente viajando para o Museu do Brooklyn. Embora obras individuais de Artemisia estivessem em exibição em museus, esta foi a primeira vez que eles foram vistos como um grupo, seu poder cumulativo foi reconhecido. Nos anos que se seguiram, Artemisia passou a ser contada entre os artistas barrocos mais importantes, especialmente após uma exposição em 2001 no Metropolitan Museum de Nova York, que explorou seu trabalho ao lado do de seu pai. Neste mês de outubro, uma exposição retrospectiva na National Gallery de Londres reúne cerca de trinta de suas peças, vindas de museus e coleções particulares da Europa e dos Estados Unidos. Esta apresentação, cuja estreia foi atrasada pela pandemia do coronavírus, é organizada em ampla ordem cronológica e apresenta as conquistas mais significativas da Artemisia. (Mais de cento e trinta obras foram atribuídas à sua mão, mas apenas cerca de metade desse número é universalmente aceito como sendo dela). Entre as pinturas incluídas está Self portrait as St. Catherine of Alexandria, da coleção da National Gallery, em que a pessoa olha para o observador, com a testa franzida em concentração, enquanto usa um turbante translúcido e outros enfeites.[6] A pintura, recentemente redescoberta, foi adquirida pelo museu em 2018, por quase quatro milhões e meio de dólares. É apenas o vigésimo primeiro trabalho de uma artista feminina a entrar na coleção da galeria. A reavaliação do trabalho de Artemisia incluiu uma nova apreciação de sua habilidade técnica, especialmente seu domínio do claro-escuro - uma justaposição intensificada de luz e sombra. O claro-escuro é mais comumente associado a Caravaggio, que era conhecido do pai de Artemisia e que ela pode ter encontrado quando era uma jovem adolescente. (Caravaggio notoriamente fugiu de Roma em 1606, depois de matar outro homem em um duelo.) Uma das maiores pinturas de Artemisia, Judith and her maidservant with the head of Holofernes (concluída na década de 1620 e agora propriedade do Instituto de Artes de Detroit), oferece uma execução magistral da técnica, com suas personagens iluminadas, em meia-ação, à luz de vela. No fundo estão exemplos virtuosos de pintura de natureza morta: um castiçal de latão polido, uma cortina drapeada de veludo[7] Letizia Treves, curadora da próxima exposição da National Gallery, observa: “Na vida de Artemisia, ela teve uma espécie de celebridade pan-europeia que a coloca no mesmo nível de artistas posteriores, como Rubens ou Van Dyck”. Treves adverte, no entanto, contra exagerar o lugar de Artemisia no panteão barroco. Artemisia foi uma artista que se adaptou à moda, em vez de defini-la. “Não consigo nomear um único seguidor da Artemisia”, diz Treves. Claro, isso pode muito bem estar relacionado ao seu gênero: que artista masculino da época teria reconhecido ser seu discípulo? O ressurgimento de Artemisia também está ligado a uma maior consciência de sua história de vida, que foi pelo menos tão agitada quanto a de Caravaggio. Em 1611, um ano depois de pintar Susanna and the Elders, Artemisia foi estuprada por um amigo de Orazio: o artista Agostino Tassi. O ataque tem sido inevitavelmente, e muitas vezes de forma redutora,a lente através da qual suas realizações artísticas foram vistas. Os temas às vezes selvagens de suas pinturas foram interpretados como expressões de catarse colérica. O fascínio com seu trabalho nesses termos é compreensível, dada a prevalência contínua da violência sexual contra as mulheres e a rejeição de relatos femininos a respeito. Em 2018, quando o caso Brett Kavanaugh foi levado ao Supremo Tribunal, apesar do testemunho de Christine Blasey Ford, que disse que Kavanaugh a havia agredido quando ambos eram adolescentes, uma obra particularmente sangrenta de Artemisia - Judith Beheading Holofernes, exposta na Galeria Uffizi, em Florença - foi amplamente divulgada na Internet, como comentário. Nessa pintura, a heroína bíblica aparece com as mangas arregaçadas sobre os braços musculosos, boca fechada, habilmente massacrando o general assírio.[8] A história de vida de Artemisia inspirou mais de uma reconstrução ficcional, começando em 1947, com uma obra de Anna Banti, pseudônimo da romancista e crítica italiana Lucia Lopresti, que era casada com Roberto Longhi. (Susan Sontag, em um ensaio admirável de 2004, escreveu que a protagonista de Banti é "libertada pela desgraça".) Um filme de 1997, da diretora francesa Agnès Merlet, fez a sugestão questionável de que Tassi seria um sedutor parcialmente bem-vindo. Cinco anos depois, a escritora americana Susan Vreeland publicou um romance que seguiu a linha feminista do estupro de Artemisia como um trauma definidor. (“Subi dois degraus e me sentei em frente a Agostino Tassi, amigo e colaborador de meu pai. Meu estuprador... Seu cabelo preto e sua barba estavam crescidos e desgrenhados. Seu rosto, mais bonito do que ele merecia, tinha a cor e dureza de uma escultura de bronze”.) O romance de 2018 de Joy McCullough, Blood Water Paint, capturou a perspectiva de Artemisia em linguagem carregada: a mulher no banho não é uma boneca exaltada. Ela é toda luz e terror, a Susanna que finalmente chamo das histórias, desde o primeiro fogo, e finalmente, de tinta misturada com meu próprio suor. Uma série de recentes papers acadêmicos, no entanto, se opõem a retratar Artemisia como se ela própria fosse uma figura mitológica bidimensional - uma vítima exigindo vingança por meio de pinceladas. À medida que mais de sua história pessoal é desenterrada por estudiosos, um quadro mais complexo emerge. E a arte de Artemisia está cada vez mais sendo apreciada pelos modos conscientes com que ela fez uso de elementos de sua vida - não apenas violação sexual, mas também maternidade, paixão erótica e ambição profissional. Artemisia reconheceu que ser mulher ofereceu a ela uma perspectiva e uma autoridade raras em muitos assuntos artísticos. “Você encontrará o espírito de César na alma de uma mulher”, garantiu ela a um patrono. Essa percepção faz Artemisia parecer, quatrocentos anos depois de sua vida, uma de nossas contemporâneas mais autoconscientes. Artemisia teve uma infância protegida, no sentido mais literal do termo: quando menina, passava a maior parte do tempo dentro das paredes da casa de sua família, pois as ruas de Roma não eram consideradas um espaço seguro ou apropriado para se percorrer sozinha. Ela era a filha mais velha da família, com três irmãos mais novos; aos doze anos, ela se tornou a cuidadora principal quando sua mãe, Prudentia di Montone, morreu, no parto. Artemisia não recebeu educação acadêmica e era analfabeta funcional até os vinte anos, quando finalmente teve a oportunidade de aprender a ler e escrever - esta última nunca sem erros. Mas quando criança ela podia desenhar, e seus dons foram notados desde o início. Como Orazio escreveu a um de seus patronos, a Grã-Duquesa da Toscana, em 1612, ela “tornou-se em três anos tão habilidosa que posso arriscar dizer que hoje ela não tem quem se equipare”. Artemisia foi aprendiz no estúdio de seu pai, tendo as pinturas dele como seus principais exemplos. Ao contrário de aspirantes a artistas masculinos, ela não pôde visitar muitas das igrejas e edifícios públicos onde o trabalho de contemporâneos foi encomendado, mas em sua igreja local, Santa Maria del Popolo, na Piazza del Popolo, ela teria visto duas notáveis ​​pinturas de Caravaggio: Crucifixion of St. Peter, na qual o idoso mártir está sendo levantado, de cabeça para baixo, em uma cruz[9], e Conversion on the way to Damascus, na qual um jovem e musculoso São Paulo está esparramado no chão após receber uma visão celestial.[10] Artemisia teve acesso aos materiais de Orazio e aos seus modelos. Acredita-se que ela mesma posou para o quadro de Orazio Young woman with a violin (St. Cecilia)[11], pintado por volta de 1612, que mostra um músico com uma fenda no queixo, uma bochecha arredondada e uma expressão alerta. Ela teria aprendido a reproduzir suas próprias características, também, com o uso de um espelho. O fato de que as personagens femininas de Artemisia muitas vezes têm, como ela, cabelos ruivos, com bochechas cheias, fez com que muitas de suas pinturas fossem descritas como autorretratos. Mesmo as figuras masculinas de Artemisia às vezes foram associadas ao rosto feminino característico de seu trabalho. Em 2018, uma pintura que mostra Davi sentado triunfantemente ao lado da cabeça decepada de Golias - há muito atribuída ao artista barroco Giovanni Francesco Guerrieri - foi a leilão. Um colecionador em um leilão em Munique o adquiriu por apenas cento e dezenove mil dólares; em um exame forense subsequente da tela, o conservador Simon Gillespie, baseado em Londres, descobriu a assinatura de Artemisia no punho da espada de David.[12] Dada a história recente de leilões da Artemisia, a obra agora provavelmente vale vários milhões de dólares. Em um ensaio publicado em março passado na revista de artes The Burlington Magazine, o estudioso Gianni Papi sugere que a figura de David "projeta o orgulho distinto e a virilidade fria que encontramos em tantas heroínas de Gentileschi" e compara de forma persuasiva a expressão desafiadora do herói bíblico ao de um aparente autorretrato que se encontra no Palazzo Barberini, em Roma. Letizia Treves, da National Gallery, me disse que o rosto de Artemisia "foi lido em todas as heroínas que ela pintou", acrescentando: "Não acho que ela seja toda Judith ou Susanna". Treves argumenta que é a representação de Artemisia de corpos femininos, ao invés de sua reprodução de seu próprio rosto, que expressa mais fortemente sua compreensão de como era ser mulher. “A maneira como ela retrata o corpo feminino é muito naturalista - mais do que a de seu pai”, disse Treves. "É alguém que realmente conhece o jeito dos seios de uma mulher - que tem uma noção real de como o corpo de uma mulher se comporta." Em um ensaio pioneiro de 1968, o historiador da arte R. Ward Bissell escreveu sobre a "sensualidade intransigente" do nu deitado retratado em Cleopatra (1611-12)[13], descrevendo o físico da figura como "quase animal". Treves admira particularmente a representação de Artemisia do corpo nu feminino em Danaë (c. 1612), que agora está no Museu de Arte de St. Louis (St Louis Art Museum).[14] Vincos em torno das axilas da figura e inchaços no estômago revelam a consciência de como a carne de uma mulher se acomoda e diminui. Em contraste, Danaë and the shower of gold[15], pintado no início dos anos de 1620 e agora no Getty, apresenta roupas de cama tão realistas que o espectador sente que poderia escalar entre eles, mas os seios da princesa desafiam a gravidade com um quase alegria cômica. Embora a jovem Artemisia permanecesse em grande parte enclausurada no estúdio de seu pai, ela esteve, entretanto, era vulnerável a ataques de Tassi, uma artista de sucesso; alguns estudiosos sugerem que Orazio o contratou para ensinar a Artemisia a técnica da perspectiva. (Em Blood Water Paint, McCullough sugere de maneira plausível que Artemisia foi, em parte, uma vítima do oportunismo profissional de seu pai: Orazio esperava que Tassi o trouxesse para uma comissão). A decisão de acusar publicamente Tassi de estupro não foi tomada por Artemisia, mas por seu pai, que tentou força-lo a se casar com ela. O registro oficial do julgamento, que está guardado no Archivio di Stato, em Roma, inclui o vívido relato que Artemisia fez sua provação. Tassi, ela afirma, empurrou-a para dentro de seu quarto e trancou a porta. “Ele então me jogou na beira da cama, empurrando-me com a mão no peito e colocou um joelho entre minhas coxas para me impedir de fechá-las”, diz uma tradução fornecida por Mary Garrard em seu livro de 1989. Tassi colocou a mão sobre a boca de Artemisia para impedi-la de gritar; ela lutou de volta, arranhando seu rosto e cabelo. Na luta, ela agarrou o pênis de Tassi com tanta força que rasgou sua carne. Depois, ela pegou uma faca de uma gaveta da mesa e disse: "Eu gostaria de matar você com esta faca, porque você me desonrou." Tassi abriu o casaco e zombou dela, dizendo: "Estou aqui." Artemisia atirou a faca nele. “Ele se protegeu”, diz ela ao interrogador. "Caso contrário, eu o teria machucado e poderia facilmente tê-lo matado." O arquivo romano contém transcrições de julgamentos de outras mulheres que foram estupradas. Elizabeth Cohen, uma acadêmica que examinou as transcrições, argumenta que o crime de estupro tinha uma conotação cultural diferente do que tem agora e foi entendido menos como um ato violento contra uma mulher, do que como uma mancha da honra de sua família. Cohen assevera que as caracterizações de Artemisia como uma protofeminista indignada, com até mesmo sua arte inicial expressando resistência enraivecida, são anacrônicas. Uma mulher do século XVII não teria concebido seu corpo com o "essencialismo corpóreo" que uma mulher concebe hoje, escreve Cohen. “Artemisia falou de seu corpo durante o julgamento, mas como o material sobre o qual uma ofensa socialmente significativa foi cometida.” De acordo com a transcrição, pelo menos, a indignação de Artemisia é expressa em termos de ter sido desonrada, em vez de ter sido agredida. Depois que Tassi a estuprou, ele imediatamente garantiu que se casaria com ela, e ela relata que "com esta boa promessa me acalmei" e confirma que, acreditando em seu juramento nupcial, consentiu em fazer sexo com ele várias vezes depois disso. O objetivo de Orazio de coagir Tassi a cumprir sua palavra de se casar com Artemisia seria impensável em um julgamento de estupro hoje. O testemunho de Artemisia foi, na maior parte, de acordo com o protocolo: ela sabia, ou tinha sido instruída sobre, quais pontos ela precisava fazer a fim de cumprir os padrões de convicção. Como outras acusadoras solteiras de estupradores, ela foi obrigada a ser examinada por uma parteira para verificar se ela não era mais virgem. No entanto, a força do caráter de Artemisia emerge. Na época, para garantir que as acusações de estupro fossem verdadeiras, as supostas vítimas eram obrigadas a se submeter a uma forma de tortura: cordões eram enrolados em suas mãos e apertados como parafusos de dedo. “É verdade, é verdade, é verdade”, ela repetiu enquanto as cordas eram apertadas. A transcrição indica que ela interrompeu sua ladainha para se dirigir diretamente a Tassi, com uma referência mordaz e irônica às amarras em seus dedos: "Este é o anel que você me deu e estas são suas promessas." Tassi foi considerado culpado, mas foi condenado apenas a um breve período de exílio, que ignorou. Ele não precisava se casar com Artemisia - descobriu-se no tribunal que ele já havia se casado com outra pessoa. Durante o julgamento, seu pai arranjou para que ela se casasse com Pierantonio Stiattesi, um artista menor de Florença. Stiattesi era irmão de Giovanni Battista Stiattesi, amigo de Orazio que testemunhou contra Tassi no julgamento, afirmando que ele confessou ter tirado a virgindade de Artemisia. Aparentemente, Artemisia achou o marido uma espécie de nulidade e, após cerca de uma década juntos, eles se separaram; a maioria dos vestígios de Stiattesi já foram perdidos. No entanto, o noivado, com a intenção de removê-la da cidade de seu passado escandaloso, foi a fabricação de Artemisia. Isso lhe deu a oportunidade de se estabelecer como uma artista independente de seu pai, e seu status de mulher casada ofereceu-lhe algo que ela nunca tinha experimentado de verdade: a liberdade. Chegando a Florença no inverno de 1612-13, Artemisia inicialmente montou seu estúdio na casa de seu sogro, um alfaiate. Com o tempo, ela parece ter estabelecido um estúdio separado da casa da família, onde, entre outras coisas, ela poderia trabalhar mais facilmente em telas de grande escala. Embarcando em um período de abundante criatividade, ela executou várias das pinturas para as quais serviu como seu próprio modelo - entre elas Self portrait as a lute player[16], que está exposto no Wadsworth Atheneum, em Hartford, Connecticut. Alguns historiadores da arte acreditam que este trabalho foi encomendado pelo Grão-Duque Cosimo II de 'Medici, em cuja coleção foi posteriormente registrado. Os olhos do Duque teriam sido atraídos para a sensibilidade e animação do rosto, mas também para a delicadeza e articulação das mãos, mostradas no meio do dedilhar do instrumento. Em julho de 1616, Artemisia se tornou a primeira mulher a ser admitida na prestigiosa Accademia delle Arti del Disegno. Com a respeitabilidade do casamento garantindo-lhe a liberdade de circular socialmente, ela conheceu intelectuais, performers e outros artistas, incluindo Galileu e o poeta Michelangelo Buonarroti, o Jovem, sobrinho-neto do mestre renascentista. O poeta a encarregou de pintar parte do teto de uma galeria dedicada a Michelangelo na propriedade da família. Sua contribuição, Allegory of Inclination, retrata uma mulher nua sentada em um tufo de nuvem.[17] Na época em que se mudou para Florença, ela fez sua primeira iteração de Judith beheading Holofernes[18], que agora pode ser vista no Museu Capodimonte, em Nápoles. Nesta versão e na do Uffizi, uma criada, Abra, segura Holofernes com força enquanto Judith, confiante, destroça seu pescoço. Treves diz sobre as pinturas: “Artemisia está subvertendo um tema tradicional bem conhecido e capacitando as mulheres de uma forma que nunca foi feita antes”. (A pintura no Uffizi, agora em destaque, foi durante décadas escondida da vista do público, presumivelmente com o argumento de que era de mau gosto. A historiadora da arte do século XIX Anna Brownell Jameson escreveu sobre desejar ter “o privilégio de queimá-la até as cinzas”). Treves diz que as representações dessa história por Artemisia oferecem "uma imagem da irmandade - dessas duas mulheres fazendo uma coisa extraordinária". Em contraste, o tratamento que Caravaggio dá à história, em uma obra que está pendurada na Galleria Nazionale d'Arte Antica, em Roma, concentra-se no rosto horrorizado de Holofernes e retrata Judith como uma garota pálida segurando cautelosamente uma espada e segurando os cabelos cacheados de seu adversário cabelo na altura do braço. Ela dificilmente parece ter o vigor necessário para a decapitação.[19] Artemisia teve cinco filhos, entre os anos de 1613 e 1618, tornando a execução de pinturas em grande escala durante esse período ainda mais impressionante. Não era apenas uma questão de resistência física: três de seus filhos morreram na infância e um quarto, Cristofano, nascido em 1615, morreu antes dos cinco anos. Apenas sua filha, Prudenzia, nascida em 1617 e batizada em homenagem à mãe de Artemisia, viveu até a idade adulta. Essa perda materna repetida - e o risco que gestações sucessivas representavam para a vida de uma mulher - é inimaginável hoje. Vinte e tantos anos após o nascimento de seus filhos, Artemisia recebeu uma encomenda de Filipe IV da Espanha para pintar uma obra bíblica, The birth of St. John Baptist.[20] Artistas de Tintoretto a Murillo pintaram a cena, mas a versão de Artemisia sublinha sua intimidade com a dinâmica da sala de parto. Ela retrata um grupo competente de parteiras - mangas arregaçadas, bacias nas mãos - cuidando do bebê enquanto sua mãe, Elizabeth, está exausta e abatida, quase invisível no fundo escuro. A turbulência da infância de Artemisia - e a notável evidência dela que sobreviveu - inevitavelmente ofuscou a narrativa menos sensacional e menos documentada do que se seguiu. No entanto, sua carreira posterior foi extraordinária, e é razoável concluir que o fato de ter sido estuprada foi menos significativo para o senso de identidade de Artemisia do que alguns de seus defensores modernos sugeriram. Ela rapidamente se tornou reconhecida como uma das artistas mais talentosas de sua época, e manteve sua preeminência por décadas; ela frequentemente precisava de dinheiro, porém, e nunca parava de lutar por encomendas. (Sua garantia de que seu trabalho demonstrava o "espírito de César" foi entregue, em parte, para justificar o alto preço de uma pintura.) Artemisia, apesar de sua fama, raramente pintava para espaços públicos. Ela fez poucos trabalhos para a Igreja, embora uma Madonna and child, pintada por volta de 1613, o ano em que seu primeiro filho nasceu, sugira o que ela poderia ter feito se as igrejas lhe encomendassem temas devocionais. Maria desmaia, olhos fechados, enquanto o menino Jesus alcança sua bochecha, seus olhos fixos no rosto dela com apego.[21] Depois de meia dúzia de anos em Florença, Artemisia voltou a Roma. O relatório do censo da cidade de 1624 sugere que ela e seu marido já haviam se separado e que ela se auto sustentava. Ela começou a se associar com pintores flamengos, holandeses e franceses que também viviam em Roma. Treves sugere: “Pode ser que ela estivesse saindo com os estrangeiros porque também se sentia um pouco como uma estranha”. No final dos anos 1620, Artemisia foi a Veneza em busca de novo patrocínio. Em 1630, ela se estabeleceu em Nápoles. Ela recebeu encomendas de, entre outros, a Infanta María da Espanha, que estava passando um tempo na cidade. Artemisia cultivou essas damas da corte com presentes de belas luvas, que ela havia enviado de Roma. Nápoles se tornou sua base por grande parte do resto de sua vida, embora ela não gostasse da cidade, que era populosa, pobre e violenta. Em uma carta a Andrea Cioli, ministra da corte dos Medici, ela reclamou “dos tumultos hostis, da maldade da vida e do custo das coisas”. Nas duas décadas seguintes, ela continuou a conquistar clientes influentes entre a nobreza italiana e casas reais estrangeiras. Suas pinturas entraram nas coleções do Grão-Duque da Toscana, do Rei Filipe IV da Espanha e do Rei Carlos I da Inglaterra. Muito permanece desconhecido sobre sua vida posterior, entretanto, incluindo a data e a causa de sua morte. O último ato documentado de Artemisia é um pagamento feito em Nápoles em agosto de 1654, contra uma cobrança de impostos vencidos. Supõe-se que ela foi enterrada na Igreja de San Giovanni dei Fiorentini da cidade, seu túmulo marcado por uma pedra com a inscrição, simplesmente, "HEIC ARTIMISIA": "Aqui jaz Artemisia." Mas essa pedra já havia desaparecido quando a informação foi anotada, em 1812, pelo historiador italiano Alessandro da Morrona, e a igreja foi destruída no século XX. Dada a ausência de documentação posterior, os estudiosos teorizam que Artemisia morreu em 1656, quando a peste varreu Nápoles, matando 150 mil residentes - metade da população da cidade. Seu último trabalho datado conhecido, de 1652, é uma grande tela na qual ela revisita Susanna and the Elders, um de seus primeiros temas e ao qual ela havia retornado várias vezes.[22] Como na versão de 1610, Susanna está sentada em uma balaustrada, mas desta vez há um céu tenebroso, ao invés de um azul claro. Nesta iteração, ela não se afasta dos dois espectadores: ela os encara. A pintura foi redescoberta há doze anos por Adelina Modesti, professora que a encontrou, muito danificada, no arquivo da Pinacoteca Nazionale, em Bolonha. Em uma monografia, Modesti argumenta que o braço esquerdo levantado de Susanna e a mão levantada desviam os "olhares masculinos intrusivos" dos anciãos de seu corpo, que é envolto em tecido translúcido. Pode-se argumentar, porém, que essa Susanna atrai a atenção dos anciãos para longe de seu corpo, não bloqueando seus olhares, mas encontrando-os com o seu próprio - olhando para eles exatamente como eles a encaram e obrigando-os a reconhecê-la como uma ser humano. Cada vez mais, Artemisia é celebrada menos pela forma como lidou com traumas privados do que por como lidou com sua personalidade pública. Ao longo de sua carreira, ela demonstrou uma compreensão sofisticada de como seu status incomum de mulher agregava valor a suas pinturas. Em um nível formal, sua representação de si mesma sob a forma de personagens e gêneros diferentes prefigura artistas pós-modernos como Cindy Sherman. Ao contrário de Sherman, no entanto, Artemisia tinha poucas colegas do sexo feminino. Ela não foi a única mulher a trabalhar como artista durante o início do século XVII: uma contemporânea um pouco mais velha foi a retratista italiana do norte Fede Galizia, nascida em 1578, cujo pai, como o de Artemisia, também era pintor. Mas Artemisia muitas vezes deve ter se sentido singular. Em uma série de cartas escritas a um de seus mais importantes mecenas, o colecionador Antonio Ruffo, ela se referia com humor ao seu gênero: “Nome de mulher suscita dúvidas até que seu trabalho seja visto” e, em relação a um trabalho em andamento, “Vou mostrar a Vosso Ilustre Senhor o que uma mulher pode fazer”. Em 2001, a estudiosa Elizabeth Cropper escreveu: “Nunca entenderemos Artemisia Gentileschi como pintora se não pudermos aceitar que não se esperava que ela fosse uma pintora, e que seu próprio senso de si mesma - para não mencionar as opiniões dos outros sobre ela - como uma mulher independente, como uma maravilha, um stupor mundi, como digna de fama imortal e celebração histórica, estava inteiramente justificado”. Em blogs de arte, a força de Artemisia e, às vezes, uma autoconfiança desagradável são apresentadas como suas qualidades mais essenciais. Ela se tornou, como diz o termo de admiração da Internet, a badass bitch. Pesquisas recentes também tornaram mais complexa a compreensão do caráter moral de Artemisia, tornando-a menos heróica. Em 2011, o historiador da arte Francesco Solinas estava explorando o arquivo dos Frescobaldis, uma dinastia bancária florentina, quando descobriu um esconderijo de cartas escritas por Artemisia, incluindo algumas enviadas a Francesco Maria Maringhi, um nobre florentino. Descobriu-se que ela teve um caso tórrido com Maringhi quando tinha vinte e poucos anos e cinco anos depois de casada. Várias das cartas estão incluídas na mostra da National Gallery; no catálogo da exposição, Solinas escreve que eles “revelam um estilo de vida apaixonado, aventureiro e até libertino”.Em uma carta, Artemisia se dirige a Maringhi como “meu querido”; em outra, ela o repreende por ter escrito apenas duas linhas para ela - "que, se você me amasse, teria durado para sempre". Em uma terceira, ela se refere a um autorretrato em poder de Maringhi e o adverte para não se masturbar na frente dele. (Infelizmente, o retrato exato não foi identificado.) Na mesma carta, ela expressa sua satisfação por ele não ter tido outros amantes, a não ser sua “mão direita, tão invejada por mim, pois possui aquilo que eu mesma não posso possuir”. Outra obra de Artemisia que só recentemente foi redescoberta, tendo estado em uma coleção particular na França, é Mary Magdalene in Ecstasy (c. 1620-25).[23] A personagem reclina voluptuosamente, seus olhos fechados, seu rosto voltado para a luz, uma camisa branca de seda escorregando descuidadamente de seu ombro largo. A pintura, que ostensivamente retrata Maria Madalena nos devaneios de devoção, é menos espiritual do que erótica: seus dedos entrelaçados podem estar imóveis, mas seu leve sorriso parece instável, indicando que Artemisia entendia a sensualidade de uma mulher de dentro para fora. O arquivo Frescobaldi também contém correspondência escrita para Maringhi pelo marido de Artemisia, Stiattesi. Evidentemente, ele estava ciente da referida ligação e esperava que um amante altamente posicionado ajudasse a avançar a carreira de sua esposa. Em uma carta, Stiattesi pede desculpas a Maringhi porque Artemisia não pode escrever para ele; a casa deles, ele explica, está perpetuamente cheia de cardeais e príncipes, e ela está tão ocupada que mal tem tempo para comer. Solinas descreve Artemisia como “extraordinariamente corajosa, manifestamente inescrupulosa, oportunista e ambiciosa”. Os historiadores da arte agora afirmam que a energia e a paixão que podem ser vislumbradas em suas cartas - e até mesmo em seu testemunho no julgamento de estupro - são as mesmas qualidades que infundem tal vitalidade em seu trabalho. A fama de Artemisia nos círculos feministas começou com a disseminação de suas imagens mais sangrentas e angustiantes. Suas variações sobre o tema da Judith assassina permanecem como uma iconografia irresistível, e seus tratamentos diferentes de Susanna oferecem uma lição vigorosa sobre o poder dos aparentemente impotentes. (Na Bíblia, Susanna não se submete ao estupro e, em um julgamento, as escandalosas acusações dos anciãos contra ela são provadas falsas.) Essas histórias de resistência permanecem tão fascinantes e necessárias no século XXI quanto eram no século XVII. Mas, nos últimos anos, os admiradores acadêmicos de Artemisia voltaram sua atenção para uma de suas pinturas mais silenciosas. No final dos anos 1630, Artemisia viajou para a Inglaterra, onde seu pai se tornara pintor da corte. Diversas obras por ela pintadas entraram na Coleção Real, entre elas Self-portrait as the allegory of painting[24], também conhecido como “La Pittura”. Essas obras retratam tradicionalmente a figura alegórica como uma mulher. Na versão de Artemisia, que terá uma posição de destaque na exposição da National Gallery, a mulher tem cabelo abundante e despenteado e bochechas rechonchudas, um avental marrom amarrado na cintura e as mangas de seda verde esvoaçantes de seu vestido puxadas para cima até os cotovelos. Em vez de olhar para fora da moldura, como é típico dos autorretratos, a figura está olhando para uma tela preparada, com um pincel em relevo em uma das mãos e uma paleta na outra. Ela se inclina para a frente, não com elegância, mas com o comando de um artista experiente. Como os estudiosos apontaram, nenhum artista masculino poderia ter tentado essa duplicação visual inteligente, na qual Artemisia combinou um retrato realista de si mesma trabalhando com uma representação alegórica da forma de arte que ela perseguiu com tanto ardor e sucesso. Esta é uma Artemisia para hoje: realizada, original e satisfeita com sua vocação. *Rebecca Mead é uma escritora e jornalista inglesa. Trabalha na revista New Yorker desde 1997, onde já redigiu o perfil de diverso(a)s intelectuais e artistas. Esse texto publicado originalmente em inglês na referida revista, edição de 28 de setembro de 2020. Tradução e notas: Gabriela Mitidieri Revisão: Sheila Lopes Leal Gonçalves [1]https://fr.wikipedia.org/wiki/Suzanne_et_les_Vieillards_(le_Tintoret)#/media/Fichier:Jacopo_Robusti,_called_Tintoretto_-_Susanna_and_the_Elders_-_Google_Art_Project.jpg [2]https://borghese.gallery/collection/paintings/susanna-and-the-elders.html https://en.wikipedia.org/wiki/Susanna_and_the_Elders_(Rubens)#/media/File:Rubens_Susanna.jpg [3]https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/ludovico-carracci-susannah-and-the-elders [4]https://www.adam-williams.com/object/789595/18236/susanna-and-the-elders [5]https://en.wikipedia.org/wiki/Susanna_and_the_Elders_(Artemisia_Gentileschi,_Pommersfelden)#/media/File:Susanna_and_the_Elders_(1610),_Artemisia_Gentileschi.jpg [6]https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/artemisia-gentileschi-self-portrait-as-saint-catherine-of-alexandria [7]https://artsandculture.google.com/asset/judith-and-her-maidservant-with-the-head-of-holofernes/ugGSd2zrZ6EJVQ?hl=fr [8]https://fr.wikipedia.org/wiki/Judith_d%C3%A9capitant_Holopherne_(Artemisia_Gentileschi)#/media/Fichier:Artemisia_Gentileschi_-_Judith_Beheading_Holofernes_-_WGA8563.jpg [9]https://pt.wikipedia.org/wiki/Crucifica%C3%A7%C3%A3o_de_S%C3%A3o_Pedro_(Caravaggio)#/media/Ficheiro:Crucifixion_of_Saint_Peter-Caravaggio_(c.1600).jpg [10]https://pt.wikipedia.org/wiki/Convers%C3%A3o_no_Caminho_de_Damasco#/media/Ficheiro:Caravaggio_-_La_conversione_di_San_Paolo.jpg [11] https://arthur.io/art/orazio-gentileschi/jovem-que-toca-um-violino?crtr=1 [12]https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2020/03/obra-da-pintora-artemisia-gentileschi-foi-atribuida-um-homem-por-seculos.html [13] Artemisia retratou Cleópatra diversas vezes. A imagem referida, aparentemente, é a que aparece na “figura 4” do seguinte estudo: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1438611198_ARQUIVO_Anaistexto.pdf [14] https://www.wikiart.org/fr/artemisia-gentileschi/danae-1612 [15]https://www.meisterdrucke.fr/fine-art-prints/Orazio-Gentileschi/390229/Dana%C3%AB-et-la-Douche-d'Or,-1621-3.html [16]https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Artemisia_Gentileschi_-_Self-Portrait_as_a_Lute_Player.JPG [17]https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/43/A_Gentileschi_Allegoria_dell%27inclinazione.jpg [18]https://fr.wikipedia.org/wiki/Judith_d%C3%A9capitant_Holopherne_(Artemisia_Gentileschi)#/media/Fichier:Artemisia_Gentileschi_-_Judith_Beheading_Holofernes_-_WGA8563.jpg [19] https://www.wikiart.org/fr/le-caravage/judith-decapitant-holopherne-1599 [20]https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/46/Nacimiento_de_San_Juan_Bautista_%28Artemisia_Gentileschi%29.jpg [21]https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Virgem_e_crian%C3%A7a#/media/Ficheiro:Madonna-and-child-Gentileschi.jpg [22]https://en.wikipedia.org/wiki/Susanna_and_the_Elders_(Gentileschi,_Bologna)#/media/File:Artemisia_Gentileschi_-_Susanna_and_the_Elders_near_a_Balcony.jpg [23]https://en.wikipedia.org/wiki/Mary_Magdalene_in_Ecstasy#/media/File:Artemisia_Gentileschi_-_Mary_Magdalene_in_Ecstasy.jpg [24]Esse é, também, o autorretrato que escolhemos para figurar no início do texto. https://www.meisterdrucke.fr/fine-art-prints/Artemisia-Gentileschi/845567/L'autoportrait-comme-all%C3%A9gorie-de-la-peinture.html

Cartas ao espelho: #relacionamentoabusivo
Cartas ao espelho: #relacionamentoabusivo

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Querida Beatriz, Te escrevo para desabafar sobre uma relação abusiva que vivi alguns anos atrás. Finalmente consegui coragem para escrever. Escrever sobre isso é um processo difícil, mas também chega a ser terapêutico. Pois bem, nenhum homem é uma ilha. Tudo que eu faço, engaja a humanidade inteira. Sabe, minha amiga, essas frases, bastante conhecidas, me vieram à cabeça, soltas, quando tomei coragem para te escrever.  Acho que vai ser bom elaborar o que vivi, colocar para fora, relatar minha experiência, meus sentimentos. Talvez minha experiência não caiba só a mim. Você sabe, como muitas da minha geração (tenho 33 anos) cresci planejando ser uma mulher independente e “bem resolvida”. Com minha independência emocional e financeira, jamais me submeteria a ninguém, não me submeteria a nenhuma relação desigual ou de abuso. Só que a vida tem seus próprios descaminhos, não é? Cheios de curvas e bifurcações, cheio de roteiros inesperados. Há três, quatro anos, já não me lembro bem, me vi num momento de muita fragilidade. Insegurança profissional, insegurança existencial, e o Brasil, já desde aquela época, não ajudava. Nossa primeira presidenta sofria um golpe, movido por várias coisas - entre elas, muita misoginia. Com meu doutorado defendido e o país em ebulição, nada mais parecia certo para o meu futuro, eu vi o chão se abrindo sob os meus pés. Mas eu tava ali, aos trancos e barrancos, tentando viver, tentando não desabar, passando uns remendos quando algo se rasgava. Foi nesse momento que apareceu um homem. Esse homem era cheio de si, sabe? Eu nunca tinha visto alguém tão seguro na minha vida. Ele tinha certeza de tudo. Certeza que tudo sempre sairia como ele tinha planejado, certeza de sua própria capacidade, certeza de suas ideias, nada o abalava. Nós nos aproximamos. Esse caldeirão de certezas parecia ser tudo que eu precisava naquele momento. Ele também demonstrava certeza de que queria ficar comigo. Me mandava mensagens o dia todo, me chamava, me elogiava. Rapidamente, ele começou a expor várias certezas sobre mim. Num primeiro momento apenas coisas “positivas”: “Por que você é tão insegura? Como assim você tem medo? Você é tão inteligente, todo mundo gosta de você, você sempre teve tudo!” (Como ele poderia saber que eu “sempre tive tudo”?) Ele não sabia nada da minha vida, mas já tinha montado um quadro completo. Aquilo me fascinava. Me dava um chão firme. “Você não precisa mais ter medo, insegurança”. “Cola comigo, você só precisa de alguém para te dar um norte, vou te dizer o que você deve fazer, vou te ajudar”. “Seremos um casal foda!”. “Tudo que eu precisava para ser mais foda do que já sou era uma mulher como você, você é meu troféu”. Sim, minha amiga, eu realmente escutei essas coisas. Eu sabia, desde o iniciozinho, que algo estava errado, mas eu precisava daquela firmeza, sabe? Daquela potência e segurança. Até então, eu me sentia tão irremediavelmente desamparada, um horror. Com os meses de relação, as certezas sobre mim aumentaram. Só que agora não eram mais “elogios”: -- “Você é fraca”. “Você é ingênua”. “Você não sabe nada da vida”. Eu ouvia essas coisas todos os dias e começava a acreditar: “você é uma privilegiada, como você pode ficar triste?” “como você pode ter dificuldades profissionais?”. “Você precisa de mim, aqueles teus amigos não te servem para nada”. Daí em diante, a desconstrução de tudo que eu era, de tudo que eu tinha conquistado até aquele momento, até mesmo dos meus maravilhosos amigos, acontecia um pouquinho a cada dia. Às vezes o papo ficava mais agressivo: “eu odeio teus amigos e amigas, não me peça para conviver com eles”. Quando eu saía sozinha para encontrá-los, sabia que ia ter muita dor de cabeça depois. Ele não queria ver meus amigos, e também era um problema se eu os visse sem ele. Assim, para evitar o conflito, fui me afastando. E, aos pouquinhos, fui me anulando, anulando… Cheguei a tirar um adesivo do Marcelo Freixo para sair de casa com ele porque, mesmo se posicionando também à esquerda, ele não queria que eu saísse apoiando um partido que não era o dele. Eu tirei o adesivo. Amiga, quando, na minha vida inteirinha, eu, mulher de classe média, escolarizada, feminista, imaginei que fosse me submeter a isso? Eu fui silenciada, censurada, agredida com palavras todos os dias. E, mesmo assim, quando ele arrumou um bom emprego em outra cidade, me mudei com ele. Eu quase desisti. Eu sabia que tudo estava muito errado, mas eu tinha vergonha de ter mais um “projeto de vida” desabando. Eu queria que aquilo “desse certo”. Com o tempo, especialmente quando eu conquistasse meu espaço profissional de modo mais efetivo, as coisas melhorariam. Era o que eu dizia para mim mesma. Quando chegamos à nova cidade, passada a euforia inicial e o trabalho de organização da casa, os insultos e ofensas recomeçaram. Além dessas ofensas, eu comecei a ser controlada e julgada em cada um dos meus atos. Eu tinha que ir malhar todos os dias. Eu tinha que acordar muito cedo para estudar. Já que eu estava apenas com alguns alunos de francês à distância e passava a maior parte do tempo em casa. eu também tinha que ser a principal responsável pelos afazeres domésticos, claro. Ele ainda tinha sido muito legal de pagar uma moça uma vez na semana, “para você ter tempo de estudar”. Fiz meu primeiro concurso nesse novo lugar em que morávamos. Passei na prova escrita e fui eliminada após a prova aula. O que ouvi, foi: “você não sabe fazer prova aula, a culpa é sua”. Fiz outro processo seletivo, com análise de projeto de pesquisa e entrevista. Fiquei em segundo lugar, e ouvi: “como você pode ser assim, você não sabe fazer entrevista, você só faz merda”. A partir de um determinado momento, comecei a me sentir um fantasma dentro daquele apartamento. Era como se eu tivesse sendo uma espectadora da minha própria vida, sabe? Eu tinha medo de fazer qualquer coisa que pudesse desagradar. Eu já não sabia o que fazer para agradar. Eu era criticada em tudo. Aquilo que era um abuso diário e constante passou a ser um assédio explícito. Eu passei a ser ameaçada. “Você tem que dar um jeito na sua vida”. Eu tinha um terceiro processo seletivo para fazer. Ainda não estava inscrita. Eu ouvi que eu tinha que passar, mas que com o meu currículo (“fraco”, assim como eu), ele tinha certeza que eu não passaria (eu tinha um doutorado defendido, eu tinha artigos publicados, eu tinha alguma experiência de aula). Eu não posso contar o fim desse episódio. Só posso dizer que não sofri agressão física, mas o nível de agressão psicológica chegou ao extremo. Juntei minhas coisas (quase nada) e fui para um hostel. Liguei para os meus pais, para os meus amigos e minhas amigas. Voltei para minha cidade. Consegui dois empregos e, depois, um terceiro, ainda melhor. Eu ainda estou juntando os cacos, sabe? Acho que é um processo demorado mesmo. Mas eu sei que eu conquistei muita coisa depois dessa relação. Eu redescobri meu valor, eu voltei a escrever, a me posicionar publicamente e fui reconhecida por isso. Eu tenho muitas pessoas maravilhosas ao meu redor. Eu reconstruí muita coisa e ainda criei mais um monte de coisas novas. Eu sei que muitas mulheres não têm o apoio que eu tive. Elas tinham que saber que não estão sozinhas. Que nada do que eu passei, e que eu sei que muitas passam, é normal. Que está tudo bem terminar, mesmo quando a gente pensou que ia dar certo. A gente erra, faz escolhas ruins, todo mundo faz. É normal errar, é preciso saber romper, é preciso falar, soltar a voz, relatar, gritar se for preciso. “Companheira, me ajuda, que eu não posso andar só. Eu, sozinha, ando bem. Mas, com você, ando melhor." Obrigada por tua escuta. Um beijo, minha amiga. Fique bem. Com carinho, Alice.

Ensaios: Associação Potiguar de Doulas (APD)
Ensaios: Associação Potiguar de Doulas (APD)

A quem está assegurado o direito de parir em paz? Gabrielle Dal Molin* Logo da Associação Potiguar de Doulas (APD) Toda mulher deve ser mãe. É isto o que nos fala a sociedade por meio da cultura, da família, da nossa educação, que desde cedo nos impõe um papel de gênero pautado em condições biológicas o qual temos ao nascer. Essa mesma sociedade, no entanto, retira o direito “natural” de mulheres trans serem mães e empurra para uma condição de anormalidade os corpos biológicos que podem gestar, mas que não performam feminilidade. Homens trans deveriam assim “voltar” a sua condição de nascimento, mulheres cis lésbicas mais masculinizadas também não são olhadas com o mesmo respeito, mesmo já exercendo a maternidade. Essa mesma sociedade, dessa vez por meio da medicina, da farmacologia, de suposto acúmulo clínico, recai sobre o corpo gestante de forma a desumanizá-lo, como sendo apenas mais uma gestação à qual devem se aplicar os protocolos, sem que haja escuta, diálogo, acolhimento, personalização de um processo que é extremamente individual. Quando falamos em violência obstétrica, portanto, estamos falando de violências que começam desde a gestação, culminam no trabalho de parto e continuam após o nascimento. Quando o acompanhamento de uma gestação de baixo risco vai se basear em inúmeras ultrassonografias desnecessárias para pautar o caminho até a cesárea eletiva, quando a OMS só recomenda três desses exames, já é violência obstétrica. Quando o/a médico/a pronuncia as palavras “quadril estreito”, “não tem passagem”, “o cordão está enrolado no pescoço do bebê”, para justificar cesárea sem nenhuma evidência científica, já é violência obstétrica. Quando mulheres com nomes e histórias são chamadas de “mãezinhas”, quando homens trans gestantes são tratados no feminino, quando se impede que acompanhantes estejam com quem vai parir, quando se nega a presença da doula, tudo isso é violência obstétrica. Sem falar no que já se costuma entender como violência como, limitar movimentação durante o trabalho de parto, negar alimentação/água, amarrar membros, subir na barriga, agressões verbais, fazer procedimentos como episiotomia, sem autorização, separar o bebê da mãe assim que nasce. E como sempre no Brasil, quem sofre mais esse tipo de violência são as mulheres pobres e pretas. Elas “que não sentem dor”, “que na hora de fazer não gritaram”, “que são mais fortes”, “que não precisam de analgesia”. Elas que muitas vezes não conseguem fazer um bom pré-natal, pois não têm tempo, trabalham até o final da gestação, ou por falta de acesso à unidade básica de saúde. Elas que não têm condições de arcar com custos de outras profissionais que auxiliam na gestação e no parto, como doulas, fisioterapeutas, psicólogas, enfermeiras obstétricas particulares. Elas que não têm dinheiro para pagar um parto domiciliar planejado, que as livraria de uma série de procedimentos violentos. É importante dizer que, quando falo sobre essa situação, não estou falando que é o SUS que não presta um bom serviço e que o setor privado está livre de problemas. É sabido que a porcentagem de cesáreas nos planos de saúde variou em 2018, de 70 a 100% no Brasil (1), que as violências cometidas por médicos/as e enfermeiros/as também acontecem muito no setor privado, as quais os interesses econômicos veem o corpo gestante como fonte de renda e não como alguém que tem subjetividade, sentimentos, sente dor. Quanto ao sistema público, apesar de bons programas voltados à humanização, arrisco dizer que os maiores problemas que ele apresenta e que se revertem na desumanização das gestantes é a superlotação dos hospitais, as más condições de trabalho para os/as profissionais e a falta de formação continuada. Contudo, a grande questão é histórica, é cultural. Os corpos das mulheres sempre foram vistos como objetos públicos em nossa sociedade, em contrapartida, a medicina sempre foi pensada por homens cis. Mesmo sendo exercida também por mulheres há várias décadas, as políticas públicas são pensadas por homens, pois eles ainda são maioria absoluta nos cargos legislativos e executivos. Tal desequilíbrio se reverte em demora na adoção de atendimentos mais humanizados, no veto à enfermagem poder atender partos de baixo risco, na falta de olhar para a gestação, parto e puerpério que realmente compreenda esse processo tão delicado. A nefasta tríade, capitalismo-racismo-patriarcado, impõe condições péssimas para parir em nosso país. Quem tem condições financeiras e capital cultural, procura serviços terapêuticos particulares, frequenta rodas de pré-natal coletivo, se informa, foge de equipes cesaristas, consegue ter uma boa experiência. E quem não tem? Resta seguir o caminho que lhes é apresentado como único e cujo desfecho pode ser traumático. O chamado é então, para que os movimentos sociais abracem a nossa luta pela humanização, não só que os feminismos façam isso, mas que todes que pensam em mudanças na sociedade, pois não há como elas acontecerem se não mudarmos a forma como se chega a esse mundo. * Gabrielle Dal Molin é professora de História da Rede Estadual do RN, mestre em Antropologia, doula, mãe e escreveu esse texto a pedido da Associação Potiguar de Doulas, da qual é membra. Notas do texto: (1) Informação retirada de: http://www.ans.gov.br/planos-de-saude-e-operadoras/informacoes-e-avaliacoes-de-operadoras/taxas-de-partos-cesareos-por-operadora-de-plano-de-saude

Entrevista com Dani Balbi
Entrevista com Dani Balbi

Esta entrevista foi realizada pela nossa editora Flavia Veras em dezembro de 2018 no Instituto de História (IH) da UFRJ com o objetivo de ser a base do artigo “travestis e transexuais: a busca pela cidadania antes do fim do arco-íris”, que compõe a coletânea “História Oral e direito à cidade: Paisagens urbanas, narrativas e memória social” organizado pela professora Andrea Casa Nova Maia. Grande parte dessa entrevista não está publicada no artigo e seria uma pena se ela se perdesse. Trata de temas como trabalho, educação, política, preconceito, os impactos do golpe de 2016, organização social, judicialização da política e a possibilidade de ser buscar a felicidade. Vimos aqui uma oportunidade de compartilhá-la com vocês. A entrevista acabou se tornando uma grande conversa entre mulheres progressistas e, por isso, foi preciso adaptar as perguntas e organizar as respostas. Esperamos que desfrutem das questões tão instigantes trazidas pela professora Dani Balbi e aproveitamos também para agradecê-la pela autorização para publicarmos este material. Dani Balbi concorreu à vaga de deputada estadual no Rio de Janeiro no pleito de 2018. Em sua campanha buscou ser reconhecida como mulher trans, negra e da periferia, uma vez que nasceu e passou sua adolescência no bairro do Engenho da Rainha, localizado na zona norte do Rio de Janeiro e marcado pela presença de comunidades. Além de militante pelo PCdoB há muitos anos, Dani também é ativista em grupos LGBT+. Cursou Faculdade de Letras, e atualmente é professora da rede pública e doutoranda em Letras na UFRJ. Flavia Veras (FV) – Dani, você poderia traçar um panorama da questão da visibilidade trans e as interdições e usos dos equipamentos urbanos e dos serviços públicos para pessoas trans e travestis? Dani Balbi (DB)- Atualmente está sendo muito o processo higienizante da transexualidade. No Brasil, por muitos anos esteve vinculada a uma tradição ligada ao reconhecimento da identidade travesti, que era claramente interditada com relação, por exemplo, ao uso de banheiros públicos, a expressão dessa identidade no ambiente escolar, no mundo do trabalho. E a gente sabe no que deu: subemprego, marginalização, prostituição compulsória, exploração da imagem de uma forma muito grotesca. Nos últimos 30 anos surgiram alguns ícones que podem traçar um pouco uma linha de continuidade nesse sentido. A transexualidade passa, então, a se descolar da travestilidade por uma série de agenciamentos - seja porque algumas pessoas da classe média e da classe alta começam a apresentar desfloria de gênero e era preciso dar uma resposta para essas pessoas que não fosse a travestilidade, que está muito ligada à marginalidade, à marginalização da vida, das atividades enquanto cidadã. Então começaram a ser criados expedientes de separação entre a travestilidade e a transexualidade. Figuras como Roberta Close e tantas outras mulheres transexuais são emblemáticas nesse sentido. A origem social dessas personalidades não era a classe trabalhadora ou classe média baixa, elas vieram de famílias mais abastadas e começaram a afirmar a transexualidade em um lugar que é muito perigoso, o da higienização. Nessa pegada começou um processo de construir caminhos possíveis para sancionar o acesso delas a determinados espaços, seja escolas, universidades, ainda que com muita dificuldade. No meu caso, eu sinto que à medida que eu fui apresentando a transexualidade nos marcadores prototípicos eu fui tendo mais facilidade para acessar determinados lugares. Na universidade, que foi o ambiente onde eu afirmei essa minha identidade transexual, mesmo não passando pelo processo[1], por ser um ambiente mais oxigenado, mesmo que houvesse muitos atravessamentos, muitas disjunções, existia o esforço. Eu fiz um curso de humanas, fiz Letras. Existia um esforço por parte da comunidade acadêmica, dos docentes, dos técnicos em entender e traçar a transexualidade da devida forma, mas depois disso vem o mercado de trabalho... Eu lembro que quando saí da universidade foi um choque enorme. Eu lembro de ter receio de entrar no banheiro feminino, tenho receio de apresentar a transexualidade na sala de aula, de me apresentar como mulher trans - e isso vai criando aquela situação de androgenia. E como meu caso era um caso agudo de desfloria de gênero, me fez chegar a um quadro de depressão tão forte que eu precisei me ausentar do mercado de trabalho e de atividades sociais mais gerais para poder passar pela transição higienizante e me sentir, de certa maneira, pronta, em uma perspectiva de aceitação e acolhimento social do senso comum, para me reconduzir às atividades sociais. Isso foi há cinco, seis anos atrás, como uma mulher que observou os processos, os protocolos dessa transexualidade pautado na ótica performática binária. FV – Como essa questão se tornou formalmente uma pauta política na sua vida? DB - E veja, eu sou atuante no PCdoB desde os 15 anos, passando por vários movimentos, e o movimento LGBT+ é muito recente dentro do partido comunista. Então quando a minha transição estava bastante encaminhada é que a gente - eu e outros articuladores no Brasil - começamos a pensar a transexualidade, o movimento LGBT+ no partido. E a gente já vinha, de certa maneira, com bastante atraso nesses debates. E eu me desafio dentro de tantos outros movimentos, movimento de mulheres, movimento de negros, movimento de professores (que eu estava entrando também), entrar no movimento LGBT+ pensando as pautas de uma lutante classista. E eu vi que aquelas meninas travestis/transexuais começavam a demandar a aceitação delas, e eu acho que é esse o momento que a gente vive nos últimos anos. Um movimento de aceitação de corpos não conformados, não performados plenamente (ou “satisfatoriamente”) entre aspas, dentro desse binarismo de gênero, dessas performances e expressões marcadas, socialmente aceitas, para que pudessem dar largas à sua forma de travestis, transexuais, transgênero que seja, sem que seja reprimida. Nesse sentido, o avanço das lutas, no aspecto da garantia do uso do banheiro, resultado daquela manobra jurídica muito feliz que garantiu, além do uso do banheiro, a auto determinação de gênero e a qualificação civil, que resultou na adoção nome social, são importantes. São perspectivas de apresentação de uma identidade que não passa mais pelo senso comum, mas passa pelo indivíduo se reportar e se afirmar enquanto pessoa, sem que qualquer gênero que seja isso ou aquilo compulsoriamente – e que seja respeitado. O direito do indivíduo se autodeterminar passa a ser debatido. No meu tempo... Eu sinto esse recorte muito claro... O estabelecimento de normas e padrões do que é gênero e sexo, feminino – masculino, que você deveria se adequar aquilo ou não. Eu acho que existe uma mudança de mentalidade, inclusive eu acho que o próprio julgamento muda isso. Nesse sentido, o acesso de pessoas transexuais à universidade, à escola, ao mercado de trabalho formal, são pautas que caminham junto dessa necessidade, talvez, potência de apresentar a autodeterminação de gênero como um problema, na verdade, como uma solução de indivíduo para indivíduo na esfera privada que precisa ser respeitada na esfera pública. E não ao contrário. E aí eu começo a perceber o grau também de dificuldades que eu teria, mas que talvez por buscar uma perspectiva muito enquadrante eu me furtei de ter. Óbvio que tive alguns embates no colégio particular que eu dava aula no início da transição. Óbvio que na rua eu percebi que as pessoas me olhavam quando eu ainda estava em uma transição muito andrógena, mas eu sempre me furtei desses debates e nesse momento eu não atuava tanto no movimento LGBT. E a perspectiva é essa, quanto mais a gente afirma a autodeterminação de identidade enquanto direito do indivíduo, do sujeito, do cidadão, mais a gente deixa de pensar na conformação binária de padrões de entendimento do que é masculino e feminino, ou sexo, no sentido mais estrito e conservador, e começa a naturalizar ou forçar que as instituições ou as estruturas sejam ocupadas por pessoas transgênico. FV - Como você entende a participação de políticas públicas e ONGs na integração de grupos LGBT+, sobretudo travestis e pessoas trans, no todo social? DB - É crucial. Eu tenho plena convicção que o acesso ao trabalho nas relações capitalistas do mundo contemporâneo é primordial para que nós tenhamos a garantia de nossa cidadania. A construção do sujeito trabalhador e a garantia do trabalho é aquilo que faz a gente se construir socialmente sem vulnerabilidade. Óbvio que o trabalho precisa ser pensado nesses termos. Então, eu acho que garantir que pessoas transexuais possam estar em um ambiente escolar sem ser expulsos é a primeira medida que você precisa tomar para a integração efetiva dessas pessoas. Daí o nome social é importantíssimo no ensino básico. Eu não sei dizer agora, mas tinha uma portaria, eu não sei se a validade caiu ou se ela está válida. Foi uma portaria assinada pela Dilma que garantia a adoção do nome social nas instituições públicas e no ensino básico e eu não sei em que pé anda. Eu espero que ainda esteja em vigor[2]. Depois veio uma série de leis estaduais que vão replicar e normatizar, como no estado do Rio de Janeiro, e orientar o uso do nome social. Existe uma lei para aplicação do nome social nas repartições públicas no ensino médio. Existe toda uma autonomia do sujeito quando vai procurar emprego, quando vai se matricular em alguma instituição de ensino e no âmbito da universidade também. E, obviamente, a atuação de entidades como a ANTRA, o Grupo Gay da Bahia, foram importantíssimas, na articulação do diálogo com governos progressistas e conseguir implementar pautas avançadas. Agora, por exemplo, eu vim de uma formação no Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) - é bom divulgar - que a UBER solicitou ao CIEE jovens transexuais para ocupar uma quantidade grande de vagas para trabalhar no escritório da UBER. E pediu jovens transexuais. É uma série de iniciativas que, por conta do esforço militante de algumas entidades, alguns segmentos, são iniciativas que acolhem a diversidade e as pessoas transexuais. Então é importantíssimo! [Sobre o nome social] depois teve a súmula, no final do ano passado, foi normatizada agora nesse ano, que orientava a requalificação sem a necessidade de pleitear um judiciário na primeira instância. Ou seja, você vai direto ao cartório, isso é um avanço enorme. Infelizmente esses projetos são também retrato da contradição do Brasil moderno. Congressos que deveriam ser a voz do povo, cada vez mais diversos em sociedades mais complexas, são cada vez mais conservadores, como é o caso do Brasil e de outros países onde a contradição capital/trabalho se acirra demais. Nesse sentido, tem cabido ao judiciário progressista e às outras instituições de poder, que atuam na arena do tecido institucional do Brasil, por exemplo, garantir direitos de populações historicamente marginalizadas, vulnerabilizadas, com a cidadania à deriva. Foi o que aconteceu através da judicialização da política, os últimos anos foram anos de judicialização da política. FV – Como você colocou, nós temos um avanço conservador, ao mesmo tempo que existe um avanço organizativo. Sabemos por dados recentes que, há alguns anos o Brasil tem sido o país que mais mata pessoas trans no mundo e isso tem vindo a público hoje, mas por que não veio antes? A gente deve ficar pessimista ou otimista? DB - Eu estava falando sobre isso com umas amigas do PCdoB e de outros partidos. Estávamos fazendo essa reflexão, algumas foram eleitas. Nós vivemos um período privilegiado no que se refere a observar a história. Em um processo que a gente chama de ranhura. Eu acho que os movimentos sociais avançaram, e muito! Organizaram-se! Isso porque houve abertura democrática para que eles se organizassem, para que nós nos organizássemos. Obviamente, havia uma pressão conservadora, mas no ambiente de respiro a gente consegue se organizar, dialogar com agentes da institucionalidade e consegue vitórias. Nós nos organizamos com as vicissitudes do próprio movimento. Mas eu acho que a força dos movimentos sociais tem a ver com a abertura democrática. Com esse alargamento dos governos progressistas, isso gerou uma onda reacionária, pessoas que reagem ao avanço progressista e vão se organizando também. Acho que isso é da política. A derrota ou a vitória dos setores conservadores ou progressistas dependem em larga medida da capacidade de mobilização dos agentes políticos da rua - que não estão na estrutura de poder - dos movimentos sociais e, também, do contexto e da conjuntura política. Então, eu acho que a gente avançou muito, a gente se fortaleceu muito. Houve uma onda reacionária, conservadora, como resposta a esse fortalecimento, forçando de certa maneira os entraves de uma estrutura que é extremamente LGBTfóbica, racista, misógina, enfim, elitista. E eles respondem com violência, com recrudescimento. Claro que há alguns consensos. Porque a arena da política no campo do legislativo é muito amorfa. A arena de outras instituições mais consolidadas, mesmo que sejam conservadoras, são mais sólidas e tendem a avançar com mais continuidade ao longo da história. Eu tenho essa impressão. Por isso que a gente consegue dialogar com alguns magistrados mais progressistas, principalmente no que se refere ao direito privado, às pautas subjetivas. A questão do esclarecimento ainda é muito presente nesses juristas. Acho que nos últimos anos esse movimento de ascensão e dissenso vinha com força, enquanto a gente elegia congressos cada vez mais conservadores, mas por outro lado as ruas respondiam e o judiciário sempre estava a favor. Embora o legislativo devesse ser a voz do povo e refletir essa diversidade, como isso não acontecia, o judiciário tomava a vez de ser, também com todas as aspas, a “força ilustrada e progressista”. Nos últimos dois anos, acho que com o golpe[3]- que foi jurídico, midiático, político - ficou evidente que o judiciário também de certa maneira se corrompe. Porque no frigir dos ovos o que interessa é garantir privilégios de alguns segmentos. Mesmo que tenha avançado em pautas importantes, como os direitos da população LGBT+, o judiciário está pronto inclusive para derrotar ou se omitir, isso para mim fica bem claro, em momentos de confronto mais agudo que a gente pode viver no próximo ano. FV – Dani, fale um pouco sobre a questão da violência policial e o cumprimento dessa legislação que tem se mostrado mais progressista. DB - A Jandira [Feghali] fez uma emenda explicitando a necessidade das mulheres transexuais serem atendidas pela Lei Maria da Penha. Existem casos são bizarros, porque às vezes se dá medida protetiva, às vezes não. Mesmo com a requalificação civil já houve casos que mulheres requalificadas, com o gênero feminino na certidão de nascimento, não terem a medida protetiva sabe-se lá porque razão. Mas há avanços importantes, que eu acho que vêm para envernizar essas instituições que são violentas com um caráter ilustrado, um caráter de progresso, um caráter de caminhar rumo à história da inclusão, da diversidade e, talvez, esconder mesmo a sua violência estrutural, a forma como cotidianamente se inviabiliza a vida e o trânsito das pessoas trans e travestis na cidade, no espaço público. Principalmente aquelas, não só, mas principalmente, aquelas que estão cada vez mais distantes dos espaços institucionais, que não têm a quem recorrer, que não têm essas seguranças estruturais. De certa maneira - não sempre - a polícia é truculenta, é transfóbica, mas em algum momento também garantem o tratamento menos violento. Quanto menos segurança institucional você tem, no caso de mulheres transexuais pela prostituição compulsória ou enfim qualquer outra situação de extrema vulnerabilidade, a polícia é violenta. Isso cria, de certa maneira um código de conduta. Acho que enquadra muito. Claro que é importante você ter o avanço do reconhecimento da autodeterminação de gênero. É claro que é importante você ter o espaço da polícia como um espaço de proteção para pessoas LGBT+ de forma clara. Mas isso cria um consenso sobre como a gente precisa lidar com nossos corpos, né? Acho que todo movimento de inclusão em sociedades não revolucionadas, em sociedades capitalistas, de classe, eles tendem a orientar um comportamento geral da classe trabalhadora e aí é uma barganha. Se você é uma pessoa transexual ou homossexual, para ganhar esses direitos você precisa se enquadrar em determinados paradigmas. É sempre um pouco isso... Eu sinto sempre um pouco isso. É claro que eu posso sofrer transfobia, eu posso sofrer violência, porque eu sou uma mulher negra transexual andando na rua. Mas, como eu estou de certa maneira, como outras amigas, enquadradas, seguras em determinadas estruturas, instituições, mesmo que seja documental, tenho certa segurança. Não profunda, porque a polícia vai ser violenta comigo, vai até me dar um tratamento diferente, e na universidade também, mas essa segurança existe à espreita, porque eu estou enquadrada. Porque eu fui me enquadrando nesse processo. “Dar” direitos nessa sociedade de classe é um movimento forçoso de enquadramento. Você precisa trabalhar, você precisa produzir mais-valia. Você precisa, enfim, acatar o código civil, senão você incorre em crimes. Tem uma série de condutas que você precisa ter para ter acesso a esses direitos. Você precisa não estar com outras vulnerabilidades acumuladas, no caso de pessoas transexuais. Por que senão você não vai ganhar esse direito ao tratamento como cidadã de direito. Eu vejo muitas meninas que, porventura, se prostituem, que já tiveram envolvimento com o tráfico de drogas, de alguma maneira, de alguma forma, por alguma ponta. Algumas meninas que cometem pequenos delitos, porque é tudo que lhes é entregue. Muitas meninas negras, e quanto mais negras são as transexuais, maior a incidência de passagens pela polícia ou mesmo de encarceramento, desrespeito à identidade de gênero. E aí é isso, se elas estão enquadradas, não conseguem na sua situação de classe, na sua situação de negras no Brasil, acessar qualquer tipo de estrutura mínima. Elas estão mais vulneráveis. É aí que a transfobia aparece mais claramente. Não é apenas porque elas são vulneráveis. É porque elas são MULHERES TRANS VULNERÁVEIS. Então desrespeitam a identidade de gênero delas na primeira hora. E os direitos dela com o Estado de mulher transexual desaparecem instantaneamente. Porque ela não cumpriu os enquadramentos para ser uma “cidadã de bem” aos olhos da ordem e do capital, ela não tem mais o direito de ser entendida enquanto mulher, pessoas trans, de ter acesso a esses espaços. É um mecanismo de adequação, um mecanismo de coerção dentro dessa estrutura. FV – Como você percebe pessoalmente esta cansativa necessidade de a todo instante se autorregular em sua vida? DB - Eu acho que a sociedade está pronta para não respeitar. Ela não respeita a transexualidade. Vamos pensar nas estruturas. As estruturas existem para impedir gente como eu, por exemplo, até pouco tempo, até pouquíssimo tempo. Isso é escandaloso! Quando eu tirei os meus diplomas eu não podia retificá-los. Tem sete anos que eu tirei meus diplomas. Só que essas medidas têm no máximo três anos; minha requalificação civil saiu no final de 2015, tem agora três anos, e saiu só do nome, do gênero saiu há duas semanas. A juíza condicionou uma série de questões, e aí sim, eu posso mudar a documentação... As estruturas são feitas para que eu não exista, para que eu não seja a Danieli Balbi. Agora eu posso ser Danieli Balbi, mas se eu estou muito enquadrada não é que a transfobia desapareça, ou que ela não exista, é que ela é um instrumento a serviço da manipulação das estruturas para entrega de direitos. E aí quando você não se enquadra, e o cidadão que pleiteia direitos precisa se enquadrar, perde imediatamente os direitos e isso fica flagrante. A entrega da cidadania é embargada pelas estruturas! É o medo de algumas meninas... FV – Seus alunos do CAP-UFRJ protagonizaram um movimento muito carinhoso que chegou a sair nos jornais. Eles fizeram uma vaquinha para custear sua cirurgia[4]. Como é sua vivência como professora? Foi lindo!! Eu até falei: “gente, eu não posso exigir presente dos dias dos professores nunca mais”. Por conta dessa insegurança que já falei para você, eu sou professora, eu sou extremamente séria na sala de aula. Em poucos momentos eu me dou o direito à descontração. Há algum tempo eu tento lidar melhor com isso. Mas por que eu sou extremamente séria? Porque no momento que eu não for séria tem uma probabilidade enorme de alguém querer me tirar daquele ambiente, porque eu sou trans. Ou alguém dizer alguma coisa que tem não tem nada a ver com transexualidade, mas que está ligada à transexualidade no inconsciente coletivo, que é transfóbico ou no senso comum, quando forem julgar um processo, por exemplo, de desrespeito a um aluno, vão julgar não favorável a mim porque eu sou trans. Isso não vai estar dito nos autos do processo, mas essa transfobia está ali. Então eu preciso ser extremamente coagida, inserida, formatada; é uma vigília constante. É isso que você falou, é cansativo! É uma vigília constante! Eu preciso ser absolutamente correta, eu preciso entregar os trabalhos em dia, preciso preencher os diários. Preciso ser a primeira professora e ter um espaço seguro de relação com os alunos. Enquanto outros professores conseguem ser mais. Eventualmente em uma festinha da escola eles dançam funk. Eu não me permito dançar funk na festinha da escola. Porque imediatamente aquilo pode gerar alguma coisa. E por qualquer movimento de saída de uma linha estabelecida eu posso perder direitos, ou pode ocasionar alguma coisa que no fundo vai me retirar direitos, me tirar do espaço, porque quando os agentes do poder forem analisar eles vão estar imbuídos de transfobia. Depois de dez anos de magistério os alunos me respeitam mais. Na verdade, não é que me respeitam mais... Melhor... Eles não se importam com a minha sexualidade, eles naturalizam. O problema deles é se eu dei trabalho ou se eu não dei trabalho. Se tem prova ou se não tem prova, se está fácil ou está difícil. Se eu abonei a falta... A dinâmica da escola. Isso é o que é importante. Se fosse há dez anos, eu acho que na escola que eu estudei, que era uma escola pública mais progressista, os alunos não seriam transfóbicos, ou não totalmente transfóbicos, mas seria um burburinho. Na melhor das hipóteses seria um grande burburinho na escola: “a professora trans”... Hoje em dia nem isso tem. É pontual, ali ou aqui, pelo menos comigo. FV – Atualmente estão muito em voga as abordagens inspiradas no conceito da interssecionalidade. Dentre aqueles que pesquisam trabalho ainda é um terreno bastante movediço e uma das questões colocada é: qual é o lugar da classe no conjunto do gênero e da raça? Como você lê esse debate? DB – Eu acho que não tem jeito, a gente vive em uma sociedade capitalista. Até a construção da diferença serve ao capital, não é que antes de tudo venha a classe - seria uma compreensão pobre dos movimentos do capital, e, por conseguinte de uma luta classista - mas é que a classe está em tudo, mesmo na transexualidade, mesmo no racismo. Claro que uma pessoa rica, burguesa, vai sofrer racismo; como uma transexual rica vai sofrer transfobia, mas de forma bastante diferenciada em relação a mim ou outras meninas em uma ponta mais vulnerável ainda. Por exemplo, onde você não consegue estudar, onde chega pouco debate? Nas periferias, nos subúrbios do Rio! E não pára por aí, quanto mais vulnerável, mais exposta a ISTs, o que não é uma regra, mas com debates menos calorosos, algumas coisas chegam pouco. A própria ideia de acessar o transporte público e ser respeitada, dependendo do lugar geográfico que você está, tem mais receio. E não à toa eu fui migrando. E não foi só comigo, mas com outras pessoas que têm outros atravessamentos, pessoas negras, pessoas trans, pessoas LGBTs em geral, mas que são pessoas que vieram de bairros ocupados majoritariamente pelas classes trabalhadoras foram migrando mais para o centro da cidade, que é um lugar que você tem uma classe média que acessou a alguns debates e é coagida a respeitar algumas lógicas do espaço público. É uma outra lógica de coação. Ou seja, é uma questão de classe também: à medida que a gente vai mudando, vai se reposicionando na cadeia de trabalho e consequentemente na posição geográfica da cidade, a coisa vai se diferenciando. É óbvio! E a campanha[5] foi ótima [e um momento importante para perceber algumas coisas]. Eu confesso para você que eu ia muito ao Engenho da Rainha, mas eu fui cortando laços com algumas pessoas, não porque eu quis, mas porque eu segui caminhos diferentes e quando a gente toma caminhos diferentes, a gente acaba não mantendo alguns laços, perde o contato. Eu ia muito falar com alguns familiares, mas com muito medo, porque era uma comunidade muito transfóbica. Eu sofri muita violência no Engenho da Rainha. Isso porque a sociedade é transfóbica e as pessoas acabam recebendo a transexualidade pelo que a mídia hegemônica veicula - em uma perspectiva grotesca, ironizante. Assim, acabam reproduzindo esse tratamento com pessoas transexuais. Muito machista. A forma como se expressa o machismo e a misoginia na burguesia é através das relações simbólicas, obviamente que há violência física, violência psicológica, mas a violência patrimonial, por exemplo, é muito mais desenvolvida nas classes mais abastadas – na classe média e na burguesia. O expediente da violência patrimonial não é tão exercido, por exemplo, nas classes trabalhadoras, em contrapartida o machismo se apresenta de uma forma mais brutal, no geral. Não porque aquelas pessoas sejam brutais, ou que seja sempre assim, é muito mais complexo que isso. Mas isso indica como essas relações de classe são sempre vetores dos quais a gente não pode se afastar. Eu tinha, por exemplo, me afastado daquela comunidade, mas eu voltei. Eu lembro [olha como as coisas são interessantes] que as pessoas ficavam impactadas, claro, pelo fato de eu ser transexual, mas mais pelo fato de eu ser professora. Existia um tratamento diferente, porque eu estou em uma estrutura, porque eu atuo diretamente em um aparelho ideológico do Estado, então tem essa ideia para as pessoas de alguém que deu certo [sobretudo em um lugar que tem menos professores...]. Então, você se torna uma figura mais mítica, em um lugar distante, sobretudo, quando a maioria das pessoas, ou parte grande, não tem acesso ao ensino superior. Mas eu sou trans, e as pessoas sabem muito bem que eu sou trans. Elas me viram antes da transição. Eu me senti uma pessoa meio, meio.... é um respeito diferenciado. Parece que eu tenho alguma coisa que é muito peculiar. Nos debates que a gente fez na comunidade falávamos muito de educação, respeito... Foi o 3º lugar que eu fui mais votada. Eu tenho muito orgulho disso! De ter sido a mais votada no Engenho da Rainha. Primeiro foi Santa Teresa, depois Vila Isabel.... 7 – Mas de uma forma mais geral, como você entende a relação das pessoas trans com a periferia? DB - É um espaço muito curioso. Pode existir certa dificuldade de entender a pessoa trans plenamente como mulher. Tem uma questão que é a cirurgia. Na cabeça da maioria das pessoas a cirurgia é determinante. Na periferia tem a travesti. Eu acho que eu sou a primeira trans operada que muitas pessoas conheceram na periferia, ou pelo menos no meu espaço de periferia. Existe um lugar da travesti, que é da mulher trans, que também é marginalizado dentro daquela comunidade, mas que é um lugar também a depender. Lembro de figuras que eram cabeleireiras, super cabeleireiras de bairro, que tinham seus casos com alguns homens e as pessoas comentavam, que respondiam com muita veemência à violência, porque era a forma que aprenderam a responder à violência. Eu lembro muito dessas figuras, lembro de algumas mortas por uma série de razões. E lembro de algumas que tinham um certo - não sei se posso dizer prestígio - mas tinham um lugar estável na dinâmica daquela comunidade que você não podia mexer. E tinham outras que não tinham tanto prestígio assim, que não galgaram esse lugar estável e foram mais violentadas. Mas ainda é tão marcado de estereótipos quanto é aqui... A transfobia é do sistema capitalista, é do não-binário. FV - Mas e essa questão da cirurgia? DB - É porque a maioria das mulheres transexuais não passam pela cirurgia na vida adulta, ou passam muito cedo, em geral muitas que adquirem o que a gente chama de “grau de passabilidade”, e elas não revelam. Como é o caso da Ariadna, mulher ligada a uma comunidade, ela teve um destino que também é um destino prototípico para algumas meninas. Foi aliciada por uma rede que eu chamo de “rede internacional de tráfico de mulheres”, porque se você é aliciada você tem que trabalhar. Tudo bem que ela não foi violentada, ela não teve assim, graus absurdos de privação, mas para mim ela foi aliciada por uma rede de tráfico de mulheres como muitas transexuais são. Ela foi para fora do Brasil, conseguiu mesmo dentro dessa rede guardar uma renda para passar pela transição, mesmo muito nova, uma hormonioterapia muito avançada e ela mudou completamente. Então a leitura social que se faz dela desde muito nova é de mulher. E quando ela volta para o Brasil ela vai para outra comunidade, e ela tem alguns relacionamentos e ninguém percebe. Poucas pessoas percebem a transexualidade dela, então ela está menos exposta à transfobia. Mas, no geral, algumas mulheres passam por isso mais velhas ou porque é pelo SUS ou porque tem que juntar dinheiro por muito tempo. Faz pouco tempo que se tem no Brasil o protocolo transexualizador; a lei é muito rígida. Agora não mais tanto. A gente tinha que atuar nas brechas da portaria. Até 2008 era proibido! Era proibido fazer em hospitais que não fossem universitários. Isso era uma loucura, imagina só! E alguns hospitais puderam fazer, e alguns hospitais podiam pedir para fazer. Diante do protocolo, que ainda não mudou, são dois anos de terapia, dois anos de hormonioterapia, dois anos de tratamento com equipe multidisciplinar. Claro que é importante passar por esse processo, mas lei é muito rígida, cria uma desconfiança quanto à transexualidade, ainda de certa maneira um olhar aberrante com relação à transexualidade, então a cirurgia ainda é para a maioria das pessoas um negócio assim... As pessoas ficam, falam... Tem amigas que enfim... (risos)... Mas não é comum. Mas lá é uma coisa muito... (como vou dizer?) Passar por um procedimento estético é muito chocante, principalmente esse, a ideia de transicionar o gênero cria um impacto, uma curiosidade, um olhar de ... As pessoas querem inquirir quem é você. Parece que você mudou, é uma coisa meio estranha. Mas com muito respeito. Eu sinto muito respeito da maioria das pessoas com quem eu convivo lá no Engenho da Rainha. Muito respeito! Admiração, também como eu sinto por outras pessoas que não acompanharam, que não vêm de ambiente periférico. De forma diferente e a cirurgia tem isso. Mas eu acho que é impactante para muita gente. [Mas sobre isso] Não tem mudar de ideia! Eu nem lembro mais, eu não lembro mais como era, eu não reconheço o meu corpo. Óbvio que eu gostei do resultado, eu fiquei feliz. Foi um procedimento exitoso, mas não está ligado a isso. Era impossível viver daquele jeito, porque o meu grau de desfloria era enorme. Tem transexuais que têm certos graus de desfloria que preferem não fazer a cirurgia, ou podem pensar mais um pouco - e não são menos mulheres que nenhuma outra mulher! Mas no meu caso não. Meu grau de desfloria era aberrante, era... Nossa, não gosto nem de lembrar! Foram os dois anos mais difíceis da minha vida. FV - Discutindo sobre a cidade, eu gostaria de tratar sobre a questão da visibilidade e do lazer. De uma forma geral, lazer está ligado a ir à praia, ao shopping, ao parque, e esses são, muitas vezes, espaços hostis para a população trans e travesti. Então eu gostaria que você falasse um pouco sobre essa relação entre militar - porque fazer-se presente nesses lugares é importante - e também ver um filme, o pôr do sol, enfim, usufruir de um tempo de lazer e relaxamento. DB - Eu não sei como está, eu acho que ficou para o ano que vem a votação da equiparação da LGBTfobia a outros crimes, não sei se ia ficar como crime hediondo, ou agravante[6]. Eu fiquei assim: mais uma vez, o judiciário tentando garantir a vida das pessoas trans e que fatura vai vir depois? Sempre pela via da violência, ou melhor da formatação do comportamento. Mas o acúmulo do movimento LGBT é o que neste momento a gente precisa pensar em criminalizar. A pauta da criminalização, principalmente para quem lida com o debate da negritude é muito perigosa, é muito cara. Porque todo movimento de criminalização vai ser refletido em uma sociedade racista na negritude, que é quem mais morre no Brasil, a gente tem um projeto de genocídio da juventude negra, de criminalização da pobreza negra, mas por outro lado você precisa garantir que as pessoas tenham acesso ao pôr do sol, ao shopping... O medo que a gente tem as vezes, eu ainda hoje tenho pavor de ser agredida nesses espaços. Vou a todos eles, vou ao cinema, vou ao teatro, mas eu tenho medo de ser agredida. Eu tenho medo de ser destratada. Eu tenho medo de não ser tratada no meu gênero, o feminino. O que para algumas pessoas é impeditivo. Então esse movimentos, de primeiro garantir a não violência a pessoas LGBT+ e depois uma série de protocolos de tratamento para pessoas LGBT+, sobretudo transexuais, em ambientes públicos vão garantir - eles tendem - e eu espero, que garanta o nosso acesso ao lazer, a ir à praia sem medo, usar um biquíni, e ir com seu companheiro ou companheira ao cinema e se beijar como qualquer casal, sem ser agredida por alguém. Enfim, e ter uma vida plena, que não seja uma vida sugada pela dinâmica do trabalho, mas que seja uma vida para a plenitude humana, das relações sociais que vão além das relações reduzidas ao mundo do trabalho. É isso! A plenitude de todos esses lugares, sobretudo o lazer, precisam ser garantidos. Inclusive você me provocou muito bem, porque eu sempre digo: cidadania é trabalho! Mas é mais que trabalho, passa diretamente pelo trabalho, mas passa também pela condição de existir, que em uma perspectiva ampla de cidadania ela vai muito além das relações de trabalho, e é necessário que se proteja as pessoas LGBT+ para que além de garantir a inserção de pessoas travestis, transexuais, LGBT+ no mercado de trabalho é preciso que se proteja o direito dessas pessoas de ir e vir, de ser felizes, de fruir o espaço público. Aí não tem jeito, seja pela educação dos agentes desses ambientes públicos, seja pela coação a qualquer tipo de violência a pessoas transexuais. [1] Cirurgia de redesignação de gênero. [2] Resolução homologada em 17/01/2018. Ver: http://portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/211-218175739/59221-resolucao-que-autoriza-uso-de-nome-social-de-travestis-e-transexuais-e-homologada-pelo-mec [3] Golpe parlamentar de 2016 que retirou Dilma Rousseff da presidência. [4]https://catracalivre.com.br/educacao/professora-tras-faz-cirurgia-com-ajuda-de-vaquinha/ [5] Dani Balbi foi candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro pelo PCdoB nas eleições de 2018. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=KNyMCUVF48Y&feature=emb_logo [6]Ver:https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/stf-conclui-julgamento-e-enquadra-homofobia-na-lei-dos-crimes-de-racismo.shtml

"La Gringa": Lidia V. Santos
"La Gringa": Lidia V. Santos

Influência do jazz por Lidia V. Santos* Só agora, depois da morte de Miles Davis, tinha certeza de que ele não tivera essa importância toda na sua vida. Até bem pouco tempo não podia ouvir o som cortante do trompete de Miles sem estremecer. “Diga, querida, quem está tocando o trompete?", a frase vinha imediatamente à sua cabeça. Antes que ela respondesse, ele dizia: “Miles Davis, é lógico." Era o mesmo com Charles Mingus, com Coltrane, com Gillespie, que também acabara de morrer, embora Miles fosse o preferido. Ele se dispusera a ensinar-lhe tudo, e a intensidade do aprendizado acompanhou durante bom tempo as experiências futuras: nada seria igual, ela se afirmava todos os dias e nada mais parece ter-se passado em sua vida nesse curto período. - Quem está tocando o trompete?, Miles Davis, my dear - antes que respondesse. Tinha sido assim desde o princípio, ele dizia que era preciso ouvir e ela não fizera outra coisa enquanto tudo durou. “Com quantos compassos se faz um blue?” “Doze”, ela já sabia repetir. Estava agora diante do espelho, esculpindo o rosto em traços de blush. Pensava que o tempo não tinha sido tão implacável, enquanto Billie Holliday cantava When a Woman Loves a Man. Ela sempre preferindo o canto das mulheres, identificação, ele afirmava. Bessie, Billie as grandes rainhas solitárias, durante muito tempo não pôde ouvir Miles Davis. Lembrava-se do traço espesso de delineador que se usava naquela época, a arte da maquiagem se desenvolvera muito desde então. O jazz, esse sobreviveu no culto do pequeno círculo que ela nunca mais vira. Hoje os tons são mais suaves e os traços se esfumam num colorido natural. Os azuis e os líquidos verdes, para os dias alegres, indianos negros e púrpuras para as noites trágicas, que ultimamente não havia mais. Maquiar-se permaneceu uma forma de render-se homenagem; se estava triste, era lá, diante do espelho, tendo à frente seu arsenal de pincéis, tinturas, pastas e pós dourados, que tudo se resolvia. No princípio era o enfeitiçado trajeto que vai do delta do Mississipi à cidade de Nova York. Gostava de acompanhá-lo nas reuniões dos amigos, em que a falação dele tinha evidente prestígio. Era cômodo, não precisava dizer nada, a música encantadora, ela, a princesa mimada que merecia um afago a cada tirada brilhante. Miudinha naquela ocasião, achegava mais o corpo ao dele e era feliz. Recordava o espanto em seu rosto quando dissera numa dessas reuniões: “Miles Davis é um homem bonito", e como demorara a responder, os olhos fixos nos dela: “Faz sucesso com as mulheres." O segundo compasso foi diminuir o tom da voz, porque ele não gostava que o interrompessem enquanto, noite adentro, durassem na vitrola as jam-sessions. Um dia lhe disseram que precisava ir a um médico, ninguém conseguia mais ouvir suas frases, os colegas do trabalho pedindo sempre que ela as repetisse. -Quem está tocando o trompete?- Miles Davis - ela respondeu do lado de dentro. — Muito bem, ouviu a voz dele do outro lado da porta. Foi nesse compasso que desenvolveu a arte da maquiagem, talvez para disfarçar as olheiras surgidas com as noites em claro regadas a uísque. Retirava-se para o espelho e, enquanto os solos do Bird entravam por todas as frestas, ela estava diante de si mesma, metamorfoseando-se. A transformação foi lenta, mas segura. Um dia, o rosto marcado pela maquiagem pesada, chegou ao apartamento e ele não estava. Sumiu três dias seguidos, ela mudando a pintura a cada três horas, aprendera sozinha muito jazz, ouvindo toda a coleção. Alguma coisa começou a se partir, talvez o espelho, talvez o acetato dos discos, em que, sem a presença dele, percebera pequenos chiados. Ela se vendeu por trinta desculpas, mas a fissura tinha-se instalado. Na segunda ausência, trancou-se no quarto e cortou-lhe à tesoura a roupa prestável, deixando-o com a roupa do corpo. Ele soube, mais uma vez, convencê-la da necessidade da sua presença, mas ela notou-lhe uma ruga no pescoço. A minissaia instalava seu reinado, e os amigos da rua, que ela voltara a procurar, ouviam rock-and-roll. Da terceira vez foi encontrá-los e esqueceu por dias a frase, até que a volta da fechadura surpreendeu o trompete de Miles Davis: “Quem está tocando o trompete?" Ela atravessou a sala e esvaziou o armário de uma só vez, encheu uma mala grande com a própria roupa e nunca mais o viu, porque ele também nem se deu ao trabalho de procurar por ela. A notícia veio quase ao mesmo tempo que a da morte de Miles Davis, ele deve ter morrido feliz. A amiga dos velhos tempos fez questão de contar, dentre outras tristezas. Sentiu uma dor funda, que nem de longe trazia de volta a emoção daqueles dias. Além daquele amor, veio junto a lembrança da construção de uma nova capital, da nova arquitetura, da poesia sintonizada com aqueles dias. Pensava isso enquanto Alberta Hunter cantava um país em francês, tinha posto as mulheres a cantar depois de receber a notícia. Fora imediatamente para o espelho, preparava-se para o encontro de hoje à noite, um homem novo em sua vida, promessa de amor mais uma vez renovada. (in Os Ossos da Esperança, 1994, pp. 83-87) ______________________________________________________________ The Influence of Jazz by Lidia V. Santos* Only now, after the death of Miles Davis, was she certain that he hadn’t been all that important to her life.  Until just a little while ago, she couldn’t hear the piercing sound of Miles’ trumpet without trembling.  “Tell me, dear, who is playing the trumpet?” the phrase came immediately to her mind.  Before she could answer, he would say: “Miles Davis, of course.”  It was the same thing with Charles Mingus, with Coltrane, with Gillespie, who had also just died, even though Miles was the favorite.  He had taken it upon himself to teach her everything, and the intensity of the apprenticeship [accompanied for a long time the future experiences: nothing would be the same, she would tell herself every day and nothing else seemed to have happened in her life during that short time. - Who is playing the trumpet?, - Miles Davis my dear – before she could answer.  It had been that way since the beginning.  He would say that she needed to listen and she hadn’t done anything else while it lasted.  “How many bars are in the blues?”  “Twelve”, she had learned to repeat.  She was in front of the mirror now, sculpting her face with touches of blush.  She was thinking that time had not been so implacable while Billie Holliday sang “When a Woman Loves a Man”.  She always preferred the female singers, because she could identify with them, he would assert.  Bessie, Billie, the great solitary queens, for a long time she couldn’t listen to Miles Davis. She remembered the thick stroke of eyeliner that she used at the time.  Her art with makeup had greatly developed since then.  Jazz survived in the worship of the small circle that she had no longer seen.  Today the tones are softer and the strokes are shaded with a more natural coloring.  The blues and the liquid greens for the joyful days, the Indian blacks and purples for the tragic nights, of which lately there had been none.  The makeover remained her way of rendering herself homage; if she was sad, it was there in front of the mirror, having before her her arsenal of brushes, paints, shades, and gold powders, that everything was resolved. In the beginning, it was that bewitched route from the Mississippi Delta to New York City.  She liked to escort him to meetings with his friends in which his conversation was evidently prestigious.  It was nice, she didn’t have to say anything, the music was enchanting and she, the spoiled little princess who received a caress for every one of his brilliant witticism.  Feeling small on that occasion, she drew her body closer to his and was happy.  She remembered the shock on his face when, in one of those meetings, she had said: “Miles Davis is a handsome man,” and how long he had taken to answer, his eyes fixed on hers: “He is good with the women.” The second measure was to quiet her voice down, because he didn’t like anyone to interrupt him at night during the “jam-sessions” on the record player.  One day someone told her that she needed to go see a doctor, because no one could hear her anymore, her co-workers were always asking her to repeat everything. - Who is playing the trumpet? – Miles Davis – she answered from inside.  Very good – she heard his voice through the door.  It was doing that that she developed the art of the makeover, maybe it was to disguise the dark circles under her eyes that would appear after the whisky-filled all-nighters.  She would retire to her mirror and while the solos of “Bird” wafted in through the vents, she would stand before herself, metamorphosing. The transformation was slow, but sure.  One day, with a heavily made-up face, she arrived in the apartment. He was not there.  He disappeared for three days, and she, while changing her makeup every three hours, learned a lot of jazz alone, listening to the whole collection.  Something began to crack, perhaps it was the mirror, perhaps it was the acetate on the records, on which, without his presence, she had begun to perceive small scratches.  She sold herself for thirty excuses, but the fissure remained.  During his second absence she locked herself in his room and, with a pair of scissors, cut up all of his good clothes, leaving him with only the clothes he had on.  He was able to convince her one more time that her presence was necessary to him, but she realized he had a wrinkle on his neck. The miniskirt was beginning its reign and her old friends that she had hunted up again, were listening to rock-and-roll.  The third time she went to find them and for days forgot the phrase, until the turning of the lock interrupted Miles Davis’ trumpet: “Who is playing the trumpet?”  She crossed the room and emptied out the chest of drawers at once.  She filled a large suitcase with her own clothes and never saw him again, because he didn’t even go to the trouble of trying to find her. The news came at almost the same time as that of Miles Davis’ death – he must have died happy.  A girlfriend of hers from the old days made sure to tell her, amongst other sad news.  She felt a deep ache, that brought back from far away, the emotion of those days.  Besides that love affair, came the memory of the new capital’s construction, the new architecture, the poetry that went with those times.  She thought about all that while Alberta Hunter sang a country in French. She had had the women sing after receiving the news.  She had gone immediately to the mirror, and was preparing herself for that night’s date, a new man in her life, the promise of love renewed once more. __ Translated from the Portuguese by Treb Winegar The Dirty Goat, 2002, number 12. pp. 42-43. *Lidia V Santos nasceu no Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira literária e acadêmica. Em 1995, mudou-se para a cidade de New Haven, nos Estados Unidos, graças a um convite da Universidade de Yale, onde, desde então, foi professora de literatura latino-americana (hispano-americana e brasileira). De 2006 a 2102 foi professora do curso de doutorado nas mesmas disciplinas no CUNY Graduate Center / Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de New York. No Brasil, se graduou em Português - Literatura na Faculdade de Letras da UFRJ, onde também fez o mestrado em Literatura Hispano-Americana. Continuou essa especialidade no seu Doutorado pela Universidade de São Paulo/ USP. Ao sair do Brasil, era professora associada do Departamento de Letras Estrangeiras da Faculdade de Letras da UFF. Sua mudança para Manhattan ocorreu em 2012, ano em que transcorrem os eventos narrados nos seus Diários da patinete. Sem um pé em Nova Iorque, seu livro mais recente. Hoje, vive entre Rio de Janeiro e New York, cidade onde passa parte do ano. Como escritora, recebeu o primeiro prêmio “Guimarães Rosa”, outorgado pela Radio France Interationale / RFI, com o conto “Os Ossos da Esperança”. E também o primeiro prêmio do Concurso “Escritoras emergentes”, outorgado pelo Conselho Federal da Mulher, pelo conto “Pequena Sinfonia para Flauta e Cavaquinho”, além de outros. Com um romance em andamento, escreve regularmente no blog “Lidia V. Santos, escritora”, incluído no site www.lidiavasntos.com

Respeita nossa história: Maria Montessori
Respeita nossa história: Maria Montessori

por Juliana Guedes Costa Santos* A pedagoga pioneira dos pensamentos inovadores em educação. Maria Tecla Artemisia Montessori, pesquisadora, pedagoga e médica italiana, tinha como lema “Educar para a vida”. Até os dias de hoje, ela é conhecida como uma pioneira na área pedagógica por dar destaque à autoeducação do aluno em detrimento à ideia do professor como fonte de conhecimento. Para ela, a educação era uma conquista da criança, pois percebera que já nascemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos. Como foi a terceira a se formar em Medicina em seu país, sofreu preconceito por ser a única mulher, no meio de muitos homens, exercendo essa profissão. Foi, então, trabalhar como assistente na clínica psiquiátrica da Universidade de Roma. Montessori nasceu na Itália em 31 de agosto de 1870. Aos 28 anos, começou a visitar um hospício em Roma e viu, com espanto, como crianças eram tratadas de forma desumana. Alguns romanos iam ao local para atirar-lhes comida, como faziam com os animais do zoológico. Achando tudo aquilo impossível de continuar, decidiu trabalhar para mudar aquela realidade. Em Turim, num Congresso Médico Nacional, defendeu a tese de que a principal causa do atraso no aprendizado de crianças especiais era a ausência de materiais de estímulo para o desenvolvimento adequado. Logo depois, formou-se em Pedagogia, envolveu-se com a Liga para a Educação de Crianças com Retardo, e foi nomeada codiretora de uma escola especializada. Ela concluiu em suas pesquisas que a educação deve ser uma técnica de amor e respeito. Para ela, encontrar um lugar no mundo, desenvolver um trabalho gratificante, nutrir paz e densidade interiores para ter capacidade de amar eram os objetivos que deveriam guiar toda a criança. A educação e a vida não deveriam se limitar a conquistas materiais. A pesquisadora teve um grande envolvimento em ativismo político e cívico, ajudando na formação de associações de mulheres. Participou de conferências e publicou artigos na imprensa feminista. Filiou-se, também, à Sociedade Teosófica, que valorizava a ação social e a educação das crianças. O Método Montessori une o desenvolvimento biológico e mental do indivíduo, dando destaque ao treinamento dos movimentos musculares necessários para a realização de tarefas cotidianas. Foi um método revolucionário, que se baseava em confiar nas crianças. Montessori dizia que elas não deveriam ser recompensadas, nem punidas, ou corrigidas, mas sim, respeitadas e, sem interferência, liberadas em um ambiente em que tudo (espaço, móveis, objetos) estivesse sob medida. Essas ideias divergem com o preconceito daqueles que pensam que a criança é essencialmente indolente, preguiçosa e incapaz de encontrar desafios que correspondam às suas competências. O método privilegiava uma educação que pusesse as crianças como centro da atenção em um ambiente que estimulasse as habilidades naturais, como cuidados pessoais, ginásticas e jardinagem. Segundo a Associação Internacional Montessori, um ambiente organizado e atraente composto por materiais didáticos e utensílios da vida cotidiana; classes com alunos com diferentes idades; um professor que atua como guia e só interfere se necessário; materiais multissensoriais que permitam o “aprender fazendo”; liberdade de tempo para que os alunos se dediquem aos assuntos que lhe interessam; e flexibilidade para escolherem o local de trabalho e com quem querem trabalhar (se quiserem trabalhar em grupo), eram elementos essenciais para a prática do método inovador e revolucionário. Atualmente, seu método tem sido alvo de um paradoxo entre pedagogos. As escolas montessorianas estão em áreas mais abastadas das cidades, dificultando a entrada de crianças mais pobres. O custo anual dessas escolas, hoje em dia, também é bastante elevado, dificultando a inclusão social. Esse paradoxo não foi o único na vida da pedagoga. Ela passou um estimável tempo de sua vida dedicando-se às crianças, mas não foi responsável por criar seu filho. Ela havia se envolvido com um colega médico, Giuseppe Montesano. Era uma relação livre, sem vínculos, ela não acreditava na instituição do casamento e, naquela época, uma mulher casada não podia trabalhar fora de casa sem a autorização do marido. Montessori descobriu que estava grávida de Montesano. Um filho fora do casamento custaria toda sua vida de trabalho naquele tempo. As duas famílias combinaram que ela daria à luz em segredo. E quando em março de 1898 nasceu um menino, Mário. Eles o registraram como filho de pai e mãe desconhecidos e o entregaram a uma enfermeira para criá-lo. Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância. Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos. Mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época. Seu método obteve mais repercussão no estrangeiro do que em seu país de origem. Esse seria o provável motivo que a levaria a aceitar o patrocínio de Mussolini. Em 1924, ele se reuniria com Montessori para manifestar seu interesse no método educacional em escolas italianas. Ele fora professor durante a juventude e sonhava em fazer das escolas italianas uma fábrica de jovens disciplinados e obedientes. Eles começaram uma estranha colaboração que durou dez anos. Até que, em 1934, decepcionada ao ver que Mussolini não cumpriu suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper qualquer relação com o fascismo. Com seu filho, Mário, Maria Montessori criou a Associação Internacional Montessori para divulgar o trabalho, em 1929. Em 1949, Montessori foi nomeada ao Nobel da Paz. Essa nomeação se repetiu em mais dois anos seguintes. Ela não chegou a ganhar nenhum dos prêmios. Muitos acham que isso se deu ao fato de ela ter tido relações com Mussolini. Ela morreu em 06 de maio 1952, aos 81 anos, deixando seu legado até os dias de hoje. *Juliana Guedes Costa Santos é Cientista social formada pela UFF, cursando licenciatura em sociologia. Apaixonada por tudo que envolva inovação em educação, métodos de ensino e fã do método montessoriano. Pretendo fazer mestrado no próximo ano para pesquisar sobre métodos educacionais utilizados em penitenciárias femininas do estado do Rio de Janeiro. Referências VELASCO, Irene Hernández. “A vida paradoxal de Maria Montessori, criadora do método de ensino para crianças pobres que virou modelo para ricos”. BBC, 2020.  Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53972711 Acesso em: 20 set. 2020. FERRARI, Márcio. “Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno”. Nova Escola, 2020. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno Acesso em: 20 set. 2020. L’ECUYER, Catherine. “Não, o método Montessori não é ‘aprender brincando’”. El País, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/18/actualidad/1552896695_886326.htmlAcesso em: 21 set. 2020. MARASCIULO, Marília. “Quem foi Maria Montessori, pedagoga italiana que revolucionou a educação”. Revista Galileu, 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/03/quem-foi-maria-montessori-pedagoga-italiana-que-revolucionou-educacao.html Acesso em: 21 set. 2020. Imagem disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno

Mãos livres
Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos Sem título [terceiro texto da série Amanheceu] Maria Helena Miranda* Eu não queria essa boca que não sorri Esse ouvido que sempre ouve Essa mente que tudo registra... Eu não queria esse olhar que entrega Que não disfarça uma dor, uma alegria, uma revolta Que se mostra e me mostra... indefesa Eu não queria esses pés que hesitam em caminhar Que pisam, muitas vezes, temerosos Quando o caminho não é, de todo, conhecido Eu não queria essas mãos Que se oferecem sempre e no “escuro” E, por isso, muitas vezes permanecem no ar... Eu não queria essa compreensão que me ultrapassa Essa dor que sufoca Esses olhos tão abertos pro mundo Eu não queria o rosto, os olhos, o sorrir – tristes Eu não queria essa vida Eu não me queria assim... 21 de agosto de 1979 *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. RESTOS Jeovânia P.* O que resta de você cabe em uma caixa [de papelão ou madeira] em um saco em um pote em uma urna O que resta de você cabe em uma página em um livro O que resta de você Passa uma vida inteira impregnado na pele na mente no Eu * Jeovânia P. é poeta e professora. Formada em Filosofia e Letras Língua Portuguesa pela UFPB, especialista em Educação Interdisciplinar pela UEPB, mestre em Filosofia pela UFPB. Atualmente é aluna especial no programa de doutorado em Letras da FPB. Em 2016, lançou “Palavras Poéticas” pela editora Ixtlan. Já em 2019, lançou os livros de poesia: “Poeticamente Entre Versos & Bocas”, pela editora Ixtlan e “A-M-O-R”, pela editora Sangre Editorial, e o livro de contos “Quem abriu a boca da pedra”, pela editora popular Vernas Abiertas. Também idealizou, organizou e lançou a coletânea de poesias e contos “O Livro das Marias”, pela editora Ixtlan. Foi selecionada no edital de obras poéticas da UFPB, em 2019, com a obra “Re[s][x]istência”, que está para a ser lançada em 2020 pela editora da UFPB. Já em 2020, organizou e lançou a coletânea de poesias, contos e crônicas “Escritura Negras_ A Mulher que Reluz em Mim”. Atualmente organiza a coletânea “O Livro das Marias II”. O rio da memória [alerta gatilho / suicídio, estupro, violência] Simeia Dos Santos* A vida é como o rio: nasce, segue o seu curso e morre, se esgota no mar. A vida é o sangue despejado do meu pulso e que desliza pelo chão do meu quarto. Vivi trinta e três anos, agora já não sei quanto tempo me resta. A vida em mim, se dissipa. O tempo tornará o sangue seco assim como me endureceu por longos dias. O Tempo é o Senhor de Todas as Coisas. Fecho os olhos. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dez anos. A televisão ligada no telejornal. Tomo conta da minha prima de cinco anos enquanto os seus pais estão na igreja. Este tio - o mais novo dos seus irmãos.. Quanto anos ele tinha? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três? Não lembro. Isso faz tanto tempo. Este tio chegou dizendo que queria assistir o jornal da noite. Qual o ano? Também não lembro. Era ano de eleição. Na TV uma propaganda mostrava que era possível fazer um bolo com um Real. Um bolo… que fome! Este tio chamou-me para ir com ela até a cozinha. Aposto que ele vai dar biscoito recheado para nós. Um quarto escuro. Agora sinto-me abatida, uma sensação de fraqueza no corpo, a cabeça pesa. Sinto um formigamento no braço esquerdo. Estou sentada de frente para este tio. Tenho dezessete anos. A família está reunida na sala da vovó. Este tio encontra-se em pé na porta. A filha dele aparece — deve ter uns cinco anos — uma criança linda e fofa. Ela senta-se no meu colo. É primeira vez que a vejo, pois, estive morando em outra cidade. Ela pula do meu colo e vejo que este tio está olhando em minha direção. Rapidamente fechei as pernas. Tenho dezessete anos, mas me lembro. Agora eu me lembro. Naquele dia, eu também usava saia. Eu também estava sentada de frente para este tio. Ou ele que escolheu ficar de frente para mim? É como se tudo estivesse acontecendo novamente, aos dez, aos dezesseis, aos trinta e três, todos os dias, todas as noites antes de dormir, basta o fechar dos olhos e tudo se repete. Noites insones. Remédios para me controlar. Remédios para desentristecer. O tempo não cura tudo. Deixo o meu corpo deslizar inteiro para o chão. Estou exausta. Fixo meu olhar na larga estante de livros que acumulei durante esses trinta e três anos. Queria poder ter lido mais, ter conhecido mais histórias, outras possibilidades — trágicas, felizes, dramáticas, leves — onde o bem sempre vence — nas piores condições, mas vence. Eu queria ter vencido hoje. Sorrio. Sinto-me em paz, finalmente esquecerei tudo. E esse era o meu único desejo em vida: esquecer. Este tio não leva à cozinha. Este tio me levou para um quarto que tinha uma cama de solteiro. Este tio pede para eu abaixar a saia. Acho que vou apanhar, mas não sei o que eu fiz de errado. Será que é porque reclamei que não queria assistir o telejornal, mas, sim, a novela Chiquititas? “Você está de calcinha, que droga”. Este tio pede para eu deitar e abaixa minha calcinha. Ele me observa enquanto um dos seus braços estão agitados, para cima e para baixo. Este tio segura algo e pede para que aquela menina beijasse aquilo. Ela beija a ponta. Eu não teria feito isso se soubesse. Eu teria me recusado. Eu teria gritado. Pegaria a minha prima pela mão e sairia correndo até o fim do mundo. Eu correria até não ter mais pernas. Eu não olharia para trás. Minha prima iria chorar ou de fome ou, porque suas pequeninas pernas não aguentariam, mas eu a pegaria no colo e continuaria a correr. Minhas pernas se movimentam como se estivessem correndo. Pouso minha mão direita sobre uma delas. É impossível correr deitada no chão, as consolo. Já não posso correr agora, como nunca consegui correr. Aquela menina está deitada sobre a cama, não totalmente, suas pernas balançam penduradas, passam um pouco da barra da cama, mas não alcançam o chão. Este tio diz: “É muito grande, não vai caber”. Um líquido sai da minha boca, não sinto o gosto, mas arrependo-me de ter bebido tanto vinho antes. Sinto o cheiro do sangue misturado com o vômito do vinho barato. O álcool não tirou a dor da fisgada da lâmina sobre a minha pele. Mas já não importa. Não sinto qualquer dor mais. * Simeia Dos Santos Historiadora formada pela Universidade Federal de Ouro Preto. Apaixonada pelo cinema nigeriano. I l♡ve Nollywood. Mãe solo. 33 anos. Tenho um perfil no Instagram dedicado aos livros, filmes, séries e também, entrevistas com amigos sobre diversas áreas do conehcimento: arte, cultura, trabalho, política, etc...: @a.meninna.grapiuna