Edição 3

Entrevista com Mariana Monni
Entrevista com Mariana Monni

Escritora Mariana Monni Nesta edição entrevistamos a escritora Mariana Monni, autora de romances sexies com alta vendagem em plataformas como Amazon e também nas livrarias. A carioca Mari Monni sempre foi apaixonada por Literatura. Hoje, não é diferente, desde que resolveu começar a publicar, já lançou vinte títulos, todos eles com um toque de humor, sensualidade e finais felizes garantidos. Mari ingressou nas faculdades de História, Letras e Marketing, além de ser tradutora certificada. Nenhuma de suas tentativas profissionais foi capaz de fazer com que ela se sentisse realizada. Pelo menos, até começar a escrever sobre os inúmeros personagens que estão sempre em sua mente. Mãe solo de uma menina linda e de um cachorro carente, ela mora no interior do Rio e passa seus dias criando histórias cheias de humor e que fazem você sentir “coisinhas gostosas lá embaixo”. Hoje, além de publicar comédias românticas, também investe na literatura Jovem Adulto, assinando como M. Monni. Muito obrigada por conversar conosco, Mariana Monni. Mariana Monni: Eu que agradeço por poder estar aqui. É muito bom ter esse espaço para compartilhar minhas experiências com outras mulheres. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Primeiramente, gostaríamos de saber como foi sua trajetória até você se entender como uma escritora profissional. Como isso aconteceu? Mariana Monni: Juro que ainda tento entender. Às vezes paro e penso: “Caramba, não é que consegui mesmo?!”. Eu sempre escrevi. Outro dia, estava arrumando um armário aqui em casa e encontrei o meu primeiro livro. Eu tinha 9 anos e contei a história de uma bruxinha levada. Só que o caminho para ser escritor é bem complicado. Primeiro, porque você dificilmente acredita que vai conseguir. Depois, são todas as dificuldades de publicação. Eu era professora de Inglês e não conseguia parar de ter ideias para livros novos. Sempre começava a escrever, só que nunca tinha tempo para concluir o livro. Afinal, minhas prioridades eram outras. Mãe-solo com um emprego? Impossível ter tempo para escrever. Mas eu insisti. E foi então que terminei o primeiro, “Uma Chance Para Amar”, que conta a história de Laura, uma mãe-solo. Usei muito da minha experiência, apesar de não ser uma biografia (muito longe disso, inclusive). Fui convencida por uma amiga a postar no Wattpad (1), e foi um sucesso logo de cara! Isso me deu coragem para continuar... Digo que precisei sair do armário literário. No início, tinha muita vergonha do que as pessoas iriam achar do meu livro. Pouco a pouco, fui me acostumando, tanto às críticas quanto aos elogios, e deu certo. Comecei a publicar de forma independente na Amazon, até que fui demitida do curso de Inglês. Em vez de buscar outro emprego, decidi focar na minha carreira de escritora. Hoje, além de ser independente, também tenho uma série lançada pela Pitangus Editorial. E agora estou aqui, dando até entrevista para vocês. Não é louco? Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você poderia nos falar um pouco a respeito da sua rotina de trabalho? Também gostaríamos que nos contasse sobre o funcionamento do mercado editorial, de modo geral, e também do mercado de literatura erótica, em particular. Mariana Monni: Durante este período de responsabilidade social, muitas pessoas estão entendendo que trabalhar em casa tem seus prós e contras. A minha rotina em si não mudou muito. Sempre fui mais eficiente pela manhã. Então, acordo cedo e, por volta das 7h, começo a escrever. Tento ir até às 11h. À tarde, foco mais em coisas burocráticas e no marketing. Cada autor tem seu próprio método. Eu, particularmente, gosto de estipular um número mínimo de palavras por dia – 2 mil, ou um capítulo. Também gosto de ter algum estímulo sensorial, que me ajuda a relaxar enquanto escrevo. Algumas pessoas escutam música. Eu prefiro coisas cheirosas. Incenso, velas aromáticas… Sempre fui daquelas que deixava o personagem contar a história, mas quanto mais a gente se profissionaliza, mais técnicas usamos. Hoje em dia, gosto de fazer um roteiro, isso tem me ajudado bastante. Não crio um cronograma fechado para a história, apenas coloco os pontos principais que irão acontecer e depois vou criando um pequeno roteiro de capítulos – de 10 em 10 –, para que eu ainda tenha espaço para fazer mudanças no plot(2) e ser criativa. Mas escrever um livro, por incrível que pareça, não é a parte mais difícil da publicação. Vocês perguntaram sobre o mercado editorial. Eu poderia escrever um livro sobre isso, mas vou deixar aqui alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, é preciso entender que existe a publicação com editoras, que pode ser de modo tradicional – quando a editora arca com todos os custos da publicação – ou com coparticipação – o autor paga um valor x (depende da editora) e a empresa realiza todos os trabalhos. Durante a escrita de um livro, sempre recomendo ter alguns leitores betas. São pessoas críticas e cheias de amor no coração, que estão dispostas a ler seu trabalho e apontar as falhas da história, em especial as de continuidade. Após o leitor beta terminar de ler e você ajustar o que for preciso, é hora da edição. Editar um livro significa eliminar o que é desnecessário (a boa e velha “encheção de linguiça”) e acrescentar o que falta. Pense que um capítulo precisa ter emoção, sensações, fluidez e ação. Fora que precisa terminar em um pequeno gancho para fazer com que dê vontade de continuar a leitura. O leitor precisa enxergar o que está acontecendo, entender como o personagem reage à determinada situação. O processo de edição ajuda nisso. Feito isso, partimos para a preparação de texto. Mudanças de frases, de estruturas, valorizando a fluidez do texto. Em seguida, é a vez da revisão. É o pente fino, que elimina os erros de gramática e ortografia. Entre todas essas etapas é importante que o autor leia o texto. Sim, ele precisa ler o próprio livro várias vezes antes de dizer o tão sonhado: “está pronto”. Texto concluído e bem trabalhado, vamos à parte gráfica, que constitui na capa e na diagramação. A capa pode ser frontal (para e-book) ou aberta (para livro impresso). A diagramação faz com que um texto de Word, por exemplo, esteja ajustado para a impressão ou para a versão digital. Algumas diagramações são mais elaboradas, e incluem imagens, seja para ilustrar aberturas de capítulos ou o texto em si. Deixo aqui meu apelo, caso você tenha como objetivo publicar um livro de forma independente: contrate profissionais sérios para todas essas etapas. Nada de pedir ao amigo que é ótimo em português para revisar seu livro. Mas se você acha que acabou, está errado. Livro pronto, impresso ou nas plataformas de leitura digital, agora que vem o problema: divulgação. Em 2019, foram lançados mais de 350 mil livros no Brasil. Como fazer com que seu livro seja lido? O Marketing é peça essencial na publicação. Não adianta nada gastar milhares de reais com tudo isso que falei acima e não investir na divulgação. Tanto editoras quanto autores independentes estabelecem parcerias. Blogs, canais no YouTube, Instagrams… todos voltados para o público leitor. Eles leem os livros, fazem resenhas, postam comentários e ajudam a promover seu lançamento. Fora isso, existe o que chamamos de publieditorial. As parcerias são gratuitas; ou melhor, você envia o livro para o parceiro e ele trabalha em cima do produto. Já o publieditorial é quando você paga para um influencer ler e divulgar. A grande diferença aqui é que, com editoras, a verba é muito maior. Por isso, conseguem fazer tudo que falei acima. Já um autor independente não consegue arcar com este peso. Por isso, na maioria das vezes, limita-se a uma revisão, diagramação, capa e parcerias. Então, peço a vocês: não deixem de ler autores independentes. Você me perguntou do mercado erótico. Confesso que, apesar de meus livros conterem algumas cenas de sexo, eles não se encaixam nessa categoria. Por isso digo que são “sexy e com muito humor”. Mais próximos de serem comédias românticas do que eróticos. A Amazon tem um catálogo gigantesco de livro erótico. Ela foi essencial para a promoção de livros voltados para o público feminino, em especial os eróticos. Nem toda mulher tem coragem de carregar um livro com capa e título sugestivo. Há o medo de ser julgada pelo que está lendo. Porque, nós sabemos, qualquer coisa pode ser usada como justificativa para o assédio: “Olha o livro que ela está lendo. Precisa de uma boa p***!”. Acredite ou não, já fui muito assediada pelos livros que escrevo. Recebo nudes, propostas sexuais e ofensas nas redes sociais. Uma vez um homem me chamou para um “daddy kink”(3). Tive que pesquisar o que era. Foi tenebroso. Livros digitais ajudaram muito as mulheres a consumirem conteúdo erótico. É difícil superar o preconceito, entrar em uma livraria e comprar livros “hot”. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Vivemos um período no Brasil no qual, ao mesmo tempo em que a pauta dos Direitos das Mulheres entra em evidência, há um movimento de certos setores da sociedade para condenar a vivência e a satisfação sexual da mulher. Como você entende o sucesso dos seus livros nesse contexto? Você poderia nos falar um pouco sobre seu público leitor? Mariana Monni: É bem isso. Mulher que sente prazer é puta. Pelo menos, aos olhos de muitos. Seria engraçado se não fosse trágico. Meus livros são voltados, sim, para mulheres adultas. Também tenho vários leitores que são homens homossexuais. A proposta do meu trabalho é diversão, não apenas erotismo. Não escrevo dramas, nem abordo assuntos pesados. Quero que um leitor chegue em casa cansado, pegue meu livro e relaxe. Solte gargalhadas e sinta coisinhas gostosas lá embaixo. Eu valorizo a leveza na minha escrita. E meu público alvo chega a mim justamente por isso. “Gosto tanto dos seus livros. Eles me ajudam a sair da realidade. Me divirto muito”, é a frase que mais escuto. Por outro lado, minhas personagens, em sua esmagadora maioria, são mulheres bem resolvidas sexualmente. Algumas, inclusive, se masturbam em cena. A ideia é justamente romper com a lógica de que mulheres não podem sentir prazer. Em todas as cenas de sexo que escrevo, elas chegam ao orgasmo. Porque mulheres não podem aceitar que o prazer seja limitado ao homem. Confesso que crio um ideal masculino no livro. Faço isso porque, ao longo da minha vida, encontrei muito mais sapos do que príncipes encantados. E não podemos ficar com alguém que pouco se importa com nosso prazer. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Muitos dos seus livros trazem um modelo masculino idealizado: "Meu virgem inesperado", "Vizinho indiscreto", "Professor insaciável" e "Mecânico indecente". Essa nomeação vem subverter certo ideal conservador que atribui aos homens à autoria das fantasias sexuais e fetiches na representação de mulheres. Seus títulos mostram que as mulheres também se animam em fantasiar na busca do prazer. Como essas representações do masculino são recebidas pelo público leitor? Mariana Monni: É, exatamente, o que comecei a falar na resposta acima. A idealização principal do homem nos meus livros está direcionada ao prazer. São homens que querem dar prazer às suas mulheres. Tenho personagens variados, e tento romper com o clichê do CEO(4) bilionário. A maioria dos meus mocinhos é assalariado, justamente para que sejam, de certa forma, “atingíveis”. Reais. Em “Meu Professor Insaciável”, por exemplo, trabalho muito com fetiches. Alexandre adora role play(5). Eu tenho um grupo de leitoras no WhatsApp e é incrível como elas sonham com determinados homens. Um professor safado, um peão suado, até mesmo um mecânico cheio de graxa. Acho muito importante dar voz a esses fetiches. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Uma das coisas que você promete nos seus livros é o "Final Feliz". Porém, entre ele e o conflito inicial, ao invés de dor e sofrimento, temos cenas românticas muito apimentadas. Como você lida com os ruídos entre "amor romântico" e o "empoderamento feminino" na escrita dos seus livros? Mariana Monni: Histórias cheias de dramas e vilões não são muito realistas. O conflito principal nos meus livros são os próprios personagens. Trabalho, ao longo da história, o amadurecimento pessoal e emocional deles. A maioria das minhas personagens transa porque está com vontade. Porque sente tesão. E é isso que precisamos mostrar! Mulheres não precisam ser as “recatadas do lar”, que apenas sentem prazer com o marido. Ou melhor, deixam que o marido sinta prazer e são esquecidas. Eu valorizo o amor romântico, mas sem deixar de lado o empoderamento feminino. As mulheres nas minhas histórias têm uma vida longe dos mocinhos. Elas trabalham, seguem seus sonhos e valorizam sua independência. O relacionamento – idealizado, porque sou extremamente contra publicar livros que romantizam abuso moral e sexual – é só mais uma conquista delas. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Na última bienal do livro no Rio de Janeiro, você trabalhou intensamente no evento e certamente assistiu as medidas lamentáveis da prefeitura do Rio de Janeiro, na tentativa de censurar uma HQ que retratava um beijo entre homens, seguido da reação inesperada do YouTuber Felipe Neto. Como escritora de tema adulto, como você percebe esse policiamento moral? Mariana Monni: Alguns dos meus livros, naquele dia tenebroso, tiveram que ficar escondidos. Eles tinham um homem sem camisa na capa, logo, eram considerados eróticos. A fiscalização não permitiu. Tenho vários amigos que sofreram muito mais do que eu. Livros LGBT+ foram muito atacados. Eu chorei muito naquele dia. É muito triste ver a literatura censurada. Tanto os meus livros quanto os dos meus amigos trazem a realidade. Devemos censurar a realidade? Temos que esconder o fato de que mulheres fazem sexo fora do casamento e sem o objetivo de procriar? Temos que ignorar que existem gays, trans, bi e todos os outros que não seguem o padrãozinho? Eu chorei de raiva. Chorei de desespero. Chorei porque é impensável um representante da democracia diminuir o valor das mulheres e dos LGBTs. Ao mesmo tempo, marchei contra essa atitude imoral. Porque não são nossos livros que devem ser censurados, e sim esse comportamento preconceituoso. Para a minha felicidade, o estande em que estava ficava ao lado da Faro Editorial. O Pedro Almeida, querido amigo e editor, transformou a vitrine dele em protesto. Havia uma placa “Livros proibidos pelo prefeito” e todos os títulos de terror que haviam sido censurados. Aquele dia vai estar para sempre na minha memória como um dos mais tristes. Ao mesmo tempo, um dos mais fortes, porque ninguém abaixou a cabeça. O mercado editorial se uniu contra o absurdo, e foi lindo ver como o povo tem força. A postura do Felipe Neto foi louvável, mas a marcha de leitores, bradando contra a censura, foi ainda melhor. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Há algumas décadas, vem se constituindo um campo de filmes pornô dirigido por mulheres. Essas diretoras (muitas vezes também produtoras e atrizes) costumam mencionar a importância de um outro ponto de vista, que não seja o da masculinidade, para a construção de roteiros e, claro, para a filmagem das cenas. Trata-se de humanizar o(a)s personagens e representar a mulher como agente do próprio prazer, e não apenas como objeto de realização de fantasias masculinas. O pornô “tradicional” sempre foi muito criticado dentro dos debates feministas, por incentivar violência contra mulheres e por violentar as próprias atrizes. Uma frase da escritora americana, Robin Morgan, resume esse ponto de vista: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”. Esse debate também acontece no interior do campo da literatura erótica? Mariana Monni: Muito. Assim como eu, muitas autoras, blogueiras e mulheres que trabalham no mercado editorial criticam com força a romantização do abuso na literatura. Infelizmente, é muito comum ver homens “possessivos” sendo idealizados. São aqueles que dizem o que as mulheres podem usar. Brigam com elas por ciúmes. Soltam a frase “você é minha”. Não me refiro apenas a Cinquenta Tons de Cinza, porque a única coisa não abusiva naquele livro é o relacionamento BDSM(6) consensual. Há pouco tempo, foi lançado na Netflix o filme “365 DNI”, baseado em um romance polonês. Eu nunca vi nada tão preocupante na minha vida. O mafioso sequestra a mulher e diz que, em até 365 dias, ela irá se apaixonar por ele. Romântico? Não, louco. Perigoso. Ele a estupra diversas vezes, com a justificativa de que ela também quer. Pior do que isso, foram os comentários que li de algumas mulheres após terem assistido ao filme: “Queria eu ser sequestrada por um homem desse”, “Se ele me estuprasse, gozaria muito”... Eu fiquei chocada. E triste de uma forma tão intensa que não consigo sequer verbalizar. Quando trabalhava com revisões, no início da minha carreira como escritora, cheguei a pegar alguns trabalhos assim. E, em todos eles, me recusava a continuar revisando caso a autora não mudasse a cena. Um simples “não quero” seguido de ato sexual é estupro. Uma cena de uma mulher completamente bêbada seguida de ato sexual é estupro. Não podemos deixar que isso seja o normal. Tais comportamentos possessivos e abusivos devem ser recriminados. Principalmente porque vemos que algumas mulheres enxergam isso como uma característica positiva nos personagens. “Ele a ama tanto que não deixa nenhum outro homem chegar perto.” Pensamentos como esse devem ser desconstruídos. E já! Revista Mulheres do Fim do Mundo: Você usa “book trailers”(7) como uma de suas estratégias de divulgação. Poderia nos falar um pouco sobre isso, especialmente, visando quem ainda não conhece esse tipo de vídeo? Gostaríamos também que falasse sobre a produção desse material e de onde surgiu essa ideia. Isso tem a ver com algum projeto editorial específico do formato e-book? Como você avalia o impacto desse tipo de divulgação? Em que medida isso amplia seu público leitor? Mariana Monni: Eu usei book trailers no passado. Não uso mais, porque é uso indevido de direitos autorais. Não critico quem usa, de jeito nenhum. Cada um sabe a melhor forma de divulgar seu trabalho. Porém, assim como detesto ver meus livros serem distribuídos sem meu consentimento, tento não fazer o mesmo com o trabalho alheio. Às vezes, acabo cedendo, confesso. Mesmo assim, sei que o público leitor adora ver a cena. É como se estivessem assistindo ao filme do livro – sonho de qualquer leitor voraz. Na época, uma amiga minha, também autora, indicou um canal no YouTube que produzia os vídeos. A mulher que realizou os meus book trailers fez um trabalho incrível! De fato, as vendas aumentaram bastante. Hoje em dia, sempre que faço leitura coletiva dos meus livros, as leitoras pedem os avatares – artistas que, fisicamente, representam os personagens. São essas imagens de artistas, representando os personagens, que acabo usando ocasionalmente. Acho muito interessante essa ideia de visualizar também. É trazer para o real aquilo que estava no abstrato. Revista Mulheres do Fim do Mundo: Por fim, sabemos que está no forno uma nova série de livros chamada "YA". Você poderia nos falar um pouquinho sobre ela e explicar como as questões identitárias aparecem nesse trabalho? Mariana Monni: Eu sempre escrevi livros adultos. Agora, durante o período de responsabilidade social, me veio à mente uma história jovem e bastante crítica. O livro se chama “A Imperatriz” e será lançado na Amazon no dia 23 de setembro. Inclusive, já está na pré-venda. Essa história é diferente de tudo que já escrevi, estou muito feliz com a receptividade que está tendo pelos blogueiros que estão participando da leitura antecipada. Por mais que a história seja classificada como Jovem Adulto e Fantasia Urbana, ela traz uma intensidade muito grande. A personagem principal é uma carioca suburbana que se muda para São Paulo e consegue uma bolsa de estudos em uma escola de elite. Dentro dessa escola, existe um sistema chamado Dinastia. Porém, a Dinastia é dividida em dois segmentos: a Nobreza e os Servos. O sistema é, teoricamente, meritocrático, e diz que, se o aluno se destacar nas cinco provas estabelecidas, ele fará parte da classe nobre. Caso não consiga, deverá servir aos demais alunos. Na escola, os nobres fazem o que querem, sem se importarem com as consequências e com a aquiescência dos docentes. A protagonista, que é constantemente ridicularizada por sua classe social, tem como objetivo lutar contra esse sistema. Aos poucos, ela percebe que, para fazer parte da Nobreza, é preciso seguir um padrão: branco, bonito, rico, magro e heterossexual. É em torno dessa ideia de discriminação e de falsa meritocracia que gira o livro. Como a personagem principal lida com o bullying e luta contra os preconceitos. Fiquei muito feliz quando os blogueiros vieram elogiar a maturidade da história. Principalmente quando enxergaram o simbolismo relacionado à Dinastia. Há muito tempo quero abordar alguns assuntos mais socialmente relevantes nos meus livros. Nos meus chick lits (8), tenho personagens gordos, gays e negros, mas nunca problematizados. Com “A Imperatriz”, espero conseguir mostrar um pouco do meu senso crítico. Estou louca para saber como ele será recebido pelo público. Inclusive, faço um apelo: comprem meu livro! Ele está na pré-venda, pelo precinho lindo de R$2,99 (Disponível em: http://bit.ly/AImperatriz). Um livrão de 500 páginas! Sou escritora independente, mãe-solo e tenho boletos! Ajudem a escritora nacional. De qualquer forma, peço de todo coração, que vocês leiam mais livros brasileiros. Nós sofremos muito preconceito. Vejo muita gente dizer que prefere livros internacionais, que não gostam de histórias que se passam no Brasil. Que a qualidade dos nossos livros é muito inferior. Um livro estrangeiro, além de passar por todo aquele processo de publicação que expliquei mais cedo, na verdade, passa por ele duas vezes. O livro é trabalhado novamente após a tradução. Por favor, vamos mudar esse pensamento! A literatura brasileira contemporânea é riquíssima. Tem muito autor que merece ser lido. Quem quiser me pedir indicações, minhas redes sociais estão sempre abertas para conversarmos. Redes sociais: Instagram @marianamonni Facebook Livros da Mari Monni Twitter @marimonni. YouTube - http://bit.ly/MariMonni Notas (1) watpad: é uma plataforma digital que permite compartilhar livros e contos gratuitos a uma comunidade virtual de leitores e escritores do mundo inteiro. (2) plot: é o enredo da narrativa, o encadeamento das ações a serem realizadas pelos personagens na ficção. (3) daddy kink: é um fetiche envolvendo o daddy/mommy (adulto/ativo) e o baby (jovem/passivo). Os limites físicos e sexuais são estipulados entre as partes previamente, abrange relações de poder, com destaque para o contexto infantilizado, com expressões, acessórios e, por vezes, roupas de bêbes. (4) CEO: a sigla significa Chief Executive Office. No Brasil, é o Diretor Executivo de uma empresa. Nos romances, são sempre os homens mais importantes da empresa, normalmente os donos. (5) role play: é uma encenação. Realizar a simulação de uma situação real. (6) BDSM: é um conjunto de práticas consensuais envolvendo Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadomasoquismo e outros padrões de comportamento sexual. (7) book traillers: é uma estratégia de divulgação de e-books. É, basicamente, um videoclipe criado para anunciar um o livro digital. (8) chick lits: é um gênero de ficção dentro da narrativa feminina que aborda questões das mulheres modernas.

Respeita nossa história: Juana Manso
Respeita nossa história: Juana Manso

por Sheila Lopes Leal Gonçalves* Emancipação moral da mulher - o que vem a ser isto? Ai! que temos revolução; dirão por aí os que pugnando contra Deus e a natureza querem conservar o mundo estacionado. Sossegai. (...) Mas deixemos essas digressões; o que vem a ser essa tal emancipação moral da mulher? Eu vo-lo digo. É o conhecimento verdadeiro da missão da mulher na sociedade; é o justo gozo dos seus direitos, que o brutal egoísmo do homem lhe rouba e dos quais a deserda, porque tem em si a força material, e porque ainda se não se convenceu de que um anjo lhe será mais útil que uma boneca. É um perigoso e terrível inimigo para a realização do nosso desejo, o egoísmo do homem!.. De que serve ilustrar o espírito da mulher, e desampará-lo sob as bases do progresso! De que serve dizer isto tudo ? (...) Sim, a mulher conhece a injustiça com que é tratada, reconhece perfeitamente a tirania do homem; não é a elas a quem temos de convencer da necessidade de sua emancipação moral. Juana Manso - O Jornal das Senhoras, Domingo, 11 de janeiro de 1852. Juana Paula Manso nasceu em 26 de junho de 1819, na cidade de Buenos Aires, filha de Teodora Martínez Cuenca e José María Manso. Chegou a frequentar uma escola, a Monserrat, entretanto, registros apontam que ela não se adaptou a metodologia e passou a estudar em casa, onde aprendeu a ler e depois se dedicou ao estudo de idiomas estrangeiros e à música. Em 1833, traduz um texto francês sob o título “El egoísmo y la amistad o los defectos del orgullo”, o qual seu pai publica com o pseudônimo “Una joven argentina”.[1] Assim como outros intelectuais contemporâneos a ela, em especial, àqueles vinculados à Geração de 1837, Manso nasceu (e viveu) numa época conturbada pelas guerras de independência e por intensa disputa política – marcada em Buenos Aires pelo conflito entre unitários e federalistas. A atuação política de José María Manso junto aos unitários foi um fator determinante para que, em 1839, assim como outras tantas famílias, incluindo a de Mariquita Sánchez[2], partisse para o exílio em Montevidéu. Uma vez exilada na Banda Oriental, Juana Manso estabelece contato com uma rede de intelectuais exilados, dentro os quais José Mármol, figura com quem Juana manterá correspondência por anos, incluindo o período de residência no Brasil. Uma vez lá, provavelmente em 1841, ela abriu o Ateneo de Señoritas (mais tarde, seria convidada pelo Governo para retomá-lo) onde advogou por uma educação gratuita, mista e direcionada a todas as esferas sociais. A criação do Ateneo é destacada pelo governo uruguaio nos Anales de la Universidad. Montevideo (Casa A. Barreiro y Ramos S. A., 1933, p. 52): Entre las escuelas particulares de Montevideo se destacaban la de niñas, que dirigía doña Juana Manso, distinguida educacionista que tuvo más tarde brillante actuación en la Argentina, y la de varones, que dirigía don Juan Manuel Bonifaz, con mucha competencia y notable dedicación. A inauguração dessa escola foi um marco importante, pois, em Montevidéu, não havia um “sistema educacional com respaldo legal” e proporcionou uma fonte de renda para a família que teve seus bens confiscados ao deixar Buenos Aires. Além do sucesso em sua estreia como educadora, nesse primeiro período na Banda Oriental, Manso teve reconhecimento como intelectual e escritora, junto a outros exilados, conforme aponta Florencio Sanchez: Os escritores exilados em Montevidéu, Santiago do Chile e Bolívia, condutores da luta ideológica anti-rosista, deixaram para trás um jornalismo poético, narrativo e militante, sempre superior aos seus exercícios teatrais. As tentativas de Bartolomeu Mitre, Juan Bautista Alberdi, José Mármol e Juana Manso de Noronha, aparecem com um sotaque patriótico muito impregnado de um romantismo cultamente europeizado.[3] Ainda em Montevidéu, Juana Manso colaborou nas folhas El Constitucional e no célebre El Nacional (redigido pela equipe do La Moda[4]), no qual publicou textos como Recuerdos de la infancia, La mujer poeta e A Corrientes vencedoras. Em 1842, a família de Manso teve que partir para novo exílio, dessa vez, no Brasil. Montevidéu se encontrava em delicada posição, devido à iminência de uma invasão Argentina, por parte das tropas rosistas. Do outro lado da fronteira, as tensões no Império do Brasil também geravam insegurança no cenário sul americano. Manso regressa a Montevidéu em 1843. O período de pouco mais de um ano que passa, pela primeira vez, no Rio de Janeiro quase não foi registrado; o que se sabe é que ela publicou um poema, Fragmento sobre una momia egipcia que se halla en Río de Janeiro.[5] Em seu retorno à capital uruguaia, Manso é convidada a dirigir uma escola para meninas e publica o Manual para la educación de niñas. Por motivos ainda desconhecidos, a família Manso volta ao Rio de Janeiro em 1844 e Juana Manso casa-se com o violonista Francisco de Sá Noronha. Em 1846[6], agora Juana Manso de Noronha (nome que consta em algumas biografias) acompanha o marido em turnê e, assim, viaja aos Estados Unidos (Filadélfia e Nova Iorque), onde nasce a primeira filha do casal e, posteriormente a Cuba (Havana), onde nasce a segunda filha. Ao acompanhar o trabalho do esposo, Manso circulou por teatros, cafés e clubes, onde teceu observações que mais tarde seriam publicadas no Álbum de Señoritas; além disso, começou a redação de seu primeiro romance histórico: Los mistérios del Plata. Sua passagem pelos Estados Unidos vem sendo estudada no campo dos estudos literários com ênfase em relatos de viagem. Carrie Bramen comenta: Juana Manso, considerada a primeira feminista radical da Argentina no século XIX, comentou que flertar é um instinto, inerente a todas as mulheres, a tal ponto que ‘não se pode ser mulher sem ser paqueradora’. (...) Em seu próprio relato de viagem para os Estados Unidos, em 1845, Manso descreve os atributos distintos do flerte estadunidense: ‘As mulheres estão todas flertando, amolecidas e sem sentimentos; seu amor é compartilhado entre o dinheiro e a penteadeira’. Em 1848 o casal chega a Cuba, onde permanece pouco mais de um ano. Em seguida, chegam ao Rio de Janeiro. Manso, então, começa a dar aulas particulares e continua a trabalhar em obras que publicaria posteriormente. Em 1852, funda O Jornal das Senhoras, que circulou durante quatro anos (1852-1855), tendo Juana Manso presente como colaboradora e redatora chefe apenas no ano de 1852. Ele teve um total de 213 números, divididos em dois tomos (no total foram oito), somando 1.910 páginas, sendo cada exemplar composto, em média, por 10 páginas, podendo variar de oito a doze. Neste periódico o romance histórico Mistérios del Plata, que aborda um período do governo rosista, e é publicado em forma de folhetim. No ano seguinte, dois acontecimentos desestabilizam a vida de Manso: a morte de seu pai e a separação do esposo, que a deixava com duas filhas para criar. Naquele momento, impulsionada pela derrota de Rosas, decide retornar a Buenos Aires, lança a folha Álbum de Señoritas: periódico de literatura, moda, bellas artes y teatros. Ao contrário d`O Jornal das Senhoras, o periódico fundado por ela em Buenos Aires, Álbum de Señoritas, teve vida curta, contida em oito números publicados nos primeiros meses de 1854. Jeremy Shumway se refere ao Álbum de Señoritas como sendo “o periódico de mulheres mais contundente daquele tempo”. Nesta folha, a autora publica, também em folhetim, a novela La família del Comendador, ambientada no Rio de Janeiro. O fato de ambas as folhas abordarem as mesmas temáticas e serem escritas em tons e estilo narrativo semelhantes, não significa que o segundo seja uma tradução ou mesmo continuação do primeiro. Manso, considerada a primeira mulher a produzir romances históricos, as histórias nacionais em seus romances históricos: publica sobre Buenos Aires no Rio de Janeiro e vice versa. Ainda em 1854, devido a dificuldades financeiras, Manso teria retornado ao Brasil, permanecendo por cinco anos. Mais uma vez, a passagem pelo Rio de Janeiro não se encontra documentada, apenas citada pela literatura do tema. O tempo em que passou no exílio e, em especial no Brasil, é enaltecido pela bibliografia dedicada à Manso. De acordo com Luiza Lobo, seu retorno a Buenos Aires pode ter sido provocado por três motivos: “o término do seu casamento, o fato de ter sido recusada na Escola de Medicina [por ser mulher] e, principalmente, por ter chegado ao fim a ditadura de Juan Manuel de Rosas (1829-1852).” Sendo por um motivo ou por outro, o retorno de Manso não a impediu de ser vista, muitas vezes, como uma “argentina-brasileira”, para usar a expressão cunhada por Adriana Amante. Sobre o período em que viveu no Brasil, Lidia Lewkowicz cita uma fala de Manso que pode ter contribuído para que ela fosse vista como uma “argentina -brasileira”: Sempre que falar de você, Brasil, o farei com entusiasmo, porque foi minha pátria adotiva por muitos anos, e estás ligado ao meu coração e aos meus pensamentos, por um altar e dois túmulos! O altar em que liguei o meu destino ao destino de outro, os túmulos do meu velho pai, morto na emigração e do meu primeiro filho, que morreu antes de nascer! No livro Poéticas y políticas del destierro, Amante analisa os conceitos de “raça” e “escravidão” na novela de Manso La familia del comendador e posiciona a autora de modo tangencial à rede de sociabilidade antirosista que se encontrava (muitas vezes reunida na mesma cidade) no exílio. Manso parece ser argentina e também brasileira em função dos laços familiares que cultivou no Brasil, ao passo que outros intelectuais (homens) exilados aqui, ficaram menos tempo e interagiram de outra maneira com a corte. De acordo com Elisabetta Pagliarulo, Manso retorna definitivamente a Buenos Aires em 1859, ano em que se filia ao Partido Autonomista e quando trava contato com Bartolomeu Mitre. Em 1862, Manso publica o Compendio de la Historia de las Provincias Unidas del Río de la Plata, material didático dedicado à instrução escolar, baseado na História de Belgrano y de la Independência Argentina do General Mitre e no Ensayo Historico de Dean Funes. Em 1864, publicou a peça teatral La revolución de Mayo de 1810, além de colaborar em diversos periódicos e tornar-se fundadora honorária da Revista de Buenos Aires. Em 1869, publicou artigos em defesa do Projeto de Casamento Civil no jornal El Inválido Argentino. No ano seguinte, atende a Primeira Conferência de Professores; é a primeira mulher nomeada membro da Comissão Nacional de Escolas, cargo que ocupou até 1874. Morre em 24 de abril de 1875. Suas obras podem ser acessadas através do site: http://www.juanamanso.org/biblioteca-digital/ * Sheila Lopes Leal Gonçalves é uma das editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora e historiadora. Este texto é parte do projeto de pós-doc dela (status: aguardando financiamento) que investiga a obra e a trajetória de Juana Manso sob a perspectiva da História Intelectual. “Eu estudo História da América e História Intelectual desde a graduação; no mestrado, pesquisei o argentino Juan Bautista Alberdi e li bastante coisa sobre a Geração de 1837. Foi somente no meio do meu doutorado, e totalmente por acaso, que “descobri” Juana Manso. A primeira coisa que me perguntei naquela tarde de 2015 foi: “como assim eu nunca tinha parado para pensar sobre as mulheres que escreviam, debatiam, frequentavam os mesmos espaços dos homens da Geração de 1837?!” Até aquele momento eu tinha “aceitado” a ausência (ou apenas menções curtas) de mulheres no material que lia para pesquisa, sem muitos questionamentos. Era tarde demais para mudar o tema da tese, mas não a maneira como eu enxergava a História Intelectual. Apresento a vocês Juana Paula Manso, mulher latino-americana, exilada, intelectual, educadora e redatora.” [1] Título do poema: “O egoísmo e a amizade, ou os defeitos do orgulho”. Pseudônimo: “Uma jovem argentina”. PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura Argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, p.25. [2] María Josepha Petrona de Todos los Santos Sánchez de Velazco y Trillo de Thompson y Mendeville, conhecida como Mariquita Sánchez (1786 –1868), foi uma das figuras mais influentes da primeira metade do século XIX em Buenos Aires. [3] SANCHEZ, Florencio. Teatro. Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas / Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967, p. VIII.” [4] La Moda foi um periódico publicado em Buenos Aires por alguns dos membros da Geração de 1837. Para maiores informações. [5] MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999, p.74. [6] Há divergência sobre a data de embarque para os Estados Unidos. Segundo Elisabetta Pagliarulo, a viagem teria ocorrido logo após o casamento. Já Margarita Pierini cita uma carta que Manso teria escrito a sua filha mais velha e assevera que o fato ocorreu anos depois: ‘En abril de 1846 desembarcan en los Estados Unidos, llevados por la promesa de éxito con que “el cónsul americano en Pernambuco nos había trastornado el juicio…; y nosotros, con esa confiada imprudencia de la mocedad inexperta, nos arrojamos con escasos medios a probar fortuna en país tan extraño y distante’” PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, p. 461. Referências Bibliográficas AMANTE, Adriana. Poéticas y políticas del destierro: Argentinos en Brasil en la época de Rosas. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010. BRAMEN, Carrie Tirado. “Flirting in Yankeeland: rethinking American exceptionalism through Argentine travel writing”. In: LAZO, Rodrigo; ALEMÁN, Jesse (org.). The Latino Nineteenth Century: Archival Encounters in American Literary History. The New York University Press: New York, 2016. LEWKOWICZ, Lidia F. Juana Manso (1819-1875): Una mujer del siglo XXI. Buenos Aires: Corregidor, 2000. LOBO, Luiza. “Juana Manso: uma exilada em três pátrias”. In: Gênero. Niterói, v. 9, n. 2, p. 47-74, 1. sem. 2009, p. 48. MIZRAJE, María Gabriela. Argentinas de Rosas a Perón. Buenos Aires: Biblos, 1999. PAGLIARULO, Elisabetta. “Juana Paula Manso (1819-1875) presencia femenina indiscutible en la educación y en la cultura argentina del siglo xix, con proyección americana.” In: Rev. hist.edu.latinoam - Vol. 13 No. 17, julio – diciembre 2011, pp. 17-42. PIERINI, Margarita. “Historia, Folletín e Ideología en Los Misterios del Plata de Juana Manso”. In: NRFH - Nueva Revista de Filología Hispánica, L (2002), núm. 2, pp. 457-488. SANCHEZ, Florencio. Teatro, Selección y prólogo de Walter Rela. Tomo1. Montevideo: Biblioteca Artigas /Departamento de investigaciones de la Biblioteca Nacional, 1967. SHUMWAY, Jeremy. The case of the ugly suitor: and other histories of love, gender, and nation in Buenos Aires. Linclon: University of Nebraska Press, 2005.

Mãos Livres
Mãos Livres

#literatura #contos #poesia #desabafos Em Meio à Névoa Ana Paula Maciel Vilela* Quando o carro estacionou em frente ao número seiscentos e trinta e oito, sentia-me com a boca seca, o coração em sobressalto. Ela havia sido uma mulher independente, trabalhava e estudava à noite quando os filhos eram pequenos e algo que não suportava era a preguiça e má vontade de algumas pessoas. Incentivava as mulheres conhecidas e as filhas a serem independentes, terem seu próprio sustento e não dependerem de homem algum. Em mim a baixa autoestima e excesso de cobrança foram crescendo na proporção de sua falta de paciência quando, no final da noite, ao chegar cansada da faculdade, lá estava eu aguardando, com o caderno de matemática nas mãos suadas, já no prenúncio do que aconteceria. Paguei o motorista do táxi, atravessei a mureta baixa e alcancei o pequeno alpendre ladeado por um jardim que há muito perdera seu encanto. Sentada em frente à televisão, minha mãe não se virou quando entrei, apenas fez um sinal com a mão pedindo silêncio quando lhe desejei bom dia. A doença chegou sorrateira e muito camuflada com a falta de atenção que lhe era peculiar e por um período me agarrei a essa esperança de que os sinais que presenciávamos não seriam nada sério. Em cada aposento da velha casa, memórias cravadas nas paredes, no piso, nas telhas. A água fresca do filtro de barro parecia evaporar em contato com a sequidão na qual me transformara. Quando me sentei a seu lado durante o café da tarde, alisava o crochê largo que enfeitava a toalha estampada e elogiava a amiga que a havia presenteado e que falecera há alguns anos. Disse que encomendaria uma para mim. Em instantes foi envolvida em um silêncio profundo. Quando a convidei para caminharmos no quintal, com o cenho franzido, me perguntou quem eu era. Procurando abstrair da dor que me machucava quando a percebia tão longe e envolta naquela densa névoa, caminhei pelas trilhas e lembranças de cheiros, risadas e cores invadiram o entardecer. Sentei-me no banco. Esperei. Ao retornar para a casa e entrar pela porta da cozinha, a encontrei: surpreendida pelo sorriso largo e olhos brilhantes, me chamou pelo apelido carinhoso da infância, estendendo para mim os braços abertos. A névoa dissipou-se por alguns momentos. Me perdi e quis ficar indefinidamente dentro daquele abraço. *Ana Paula Maciel Vilela nasceu em Ituiutaba, Triângulo Mineiro, e foi moldada com finais de semana na fazenda até sua adolescência, andando pelo mato, conversando com plantas e bichos; hábito enraizado que persiste ainda hoje. Com um amor de companheiro há 40 anos, tem um casal de filhos, Carolina e Gabriel, mora em Belo Horizonte e escolheu ser fisioterapeuta para cuidar de pessoas, mas bem que poderia ser bióloga, agrônoma, psicóloga, nutricionista e mais alguma coisa. Adora ficar em casa, cozinhar, ler, escrever, bordar, cuidar das plantas, deitar na rede e conversar com Lucky, o cachorro que adotou a família. Acontece… [Segundo texto da série "Amanheceu"] Maria Helena Miranda* Já estou acostumada a ser ignorada... Nas ruas, por onde quer que passemos, pessoas vão apressadas, sem perceber presenças a seu lado. Algumas vezes acontece de sermos olhados de uma maneira inexplicável, isto é, sem nenhum motivo evidente, pessoas lançam-nos um certo olhar de raiva, revolta, sei lá... É terrível, mas a gente se acostuma também com isso: “a gente se acostuma com tudo”... Ontem, porém, algo de diferente aconteceu. Ao sair do cinema (e lamentavelmente não estava sozinha – poderei depois justificar esta observação) fui parada por um homem descalço, roupas rasgadas, um mendigo. Pediu-me um cigarro, até aí nada de novo. Mas e o olhar? Há quanto tempo não sinto tanto carinho no olhar de um estranho? Observei-o por alguns minutos enquanto acendia o seu cigarro (e o fiz lentamente). Ele nada disse, limitou-se a um gesto com a mão e novamente o olhar... Estranho, mas senti vontade de permanecer um pouco mais ali, senti uma vontade louca (louca?) de conversar, de saber o que era a vida para aquele homem, de entender o porquê daquele olhar carinhoso quando sua vida... Mas não estava sozinha, assim sendo não poderia levar adiante a ideia que me veio à cabeça. Mas levaria adiante essa ideia, se estivesse só? Não sei, a gente se reprime tanto... A gente se conserva ainda tão presa a tantas coisas bobas. O fato é que ainda hoje penso nesse homem, penso sem entender bem. Não lembro direito do seu rosto; mas sua maneira de olhar, dessa eu me recordo perfeitamente. O sábado não foi vazio... Novembro de 1978 *Maria Helena, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. Puerpério Maria Cristina Martins* comprou uma caneta preta com uma borracha na ponta borracha que apaga tinta de caneta apaga e não borra nada nem destrói o papel diferente daquela da infância mas essa que apaga mesmo e não borra nada só apaga a tinta da caneta específica fez um teste escreveu teste apagou sorriu e sorriu por ter sorrido uma coisa boba assim fazê-la sorrir escreveu meu corpo todo apartado de mim e nunca antes tão meu *Maria Cristina Martins é escritora, jornalista e revisora, atividade que exerce no Arquivo Nacional. Dançarina de flamenco amadora, pintora pré-amadora e amante de programas de humor, ainda sobra tempo pra ser mãe do Vinícius, de um ano, e dominada por Emma, a canina, e Dindi, a felina. O eterno feminino em tempos imemoriais Emilly Martins Alves* Um "gritinho" de nada Foi o começo de tudo Ela, por fim, assustada Calada, assente, contudo Culpada sem culpa Pelo masculino sem escrúpulo Um "empurrãozinho" de nada Era o seguimento Ela não percebia, mas seguia se prendendo "Desculpas", ele disse Talvez, uma flor se seguisse E o emaranhado ia se estendendo Um "soquinho" de nada Ah, ela sentiu Mas fingiu Seria aquilo amor? "Esconda isso, por favor!" As marcas, as lágrimas, a dor Precisava fugir daquilo Mas estava amarrada Sozinha, sem auxílio Umas "facadinhas" de nada Seu último suspiro, um grito de horror E no escárnio de seu assassino, seu sangue escorria, sem nenhum pudor Junto com o de suas ancestrais Abusadas, mitificadas, assassinadas O eterno feminino em tempos imemoriais E "eles" seguem Nos estigmatizando Nos emaranhando Nos matando E nos dizendo Que a nós não pertencemos Até quando? 2020 [Baseado na obra "Unos cuantos piquetitos" (KAHLO, 1935)] *Emilly Martins Alves é discente de História pela UERN e aspirante à escritora nas horas vagas. Fascinada por arte, política, sua fusão e sua História, o que dá sempre inspiração para escrever, principalmente pela atemporalidade dos temas e por como podemos observar processos por meio de obras da forma mais autêntica possível.

 "La Gringa": Macarena Merino Farías
"La Gringa": Macarena Merino Farías

Confissões da quarentena Estou consciente de mim em um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta, languidez, enjôo, ânsia angustiante” Fernando Pessoa Antes de começar preciso fazer uma confissão, “tenho sido feliz na quarentena”. Sinto um pouco de vergonha de fazer essa declaração, porque sei que a tenho vivido de um lugar diferente de muitas outras pessoas, porque tenho um lar para desfrutar, porque sigo tendo trabalho e talvez porque fico bem comigo mesma. Lá fora sei que muitos perderam seus trabalhos, a segurança, que tem medo, que tiveram perdas, ou que simplesmente sentem falta da vida como era antes. Entretanto, eu tenho sido feliz na quarentena. Vivo com meu gato, Felinni, em um apartamento de 30 metros quadrados em pleno centro de Santiago. Quando começou essa conversa de vírus eu não acreditei, “eram conspirações, eu acreditava”, e ainda penso um pouco. Mas mesmo assim em março tivemos que parar. No meio de uma “revolução” que enchia as ruas de todo o país, o Chile estava em ebulição social, o que me fazia pensar que algumas coisas iriam mudar, que existiam possibilidades de nos mobilizar para um lugar onde valeria a pena viver. Mas tudo isso se dissipou e como ratos voltamos para nossas tocas com medo e necessidade de sobreviver à pandemia. Pandemia Substantivo feminino 1. medicina Doença epidêmica amplamente disseminada E, segundo eu mesma, já tinham muitas pandemias dando voltas por ai, que passavam desapercebidas, mas que faziam com que lá fora as coisas estivessem mais hostis, a pandemia da desigualdade, da discriminação, da falta de desejo, da automatização, do consumo, entre outras. Então, para mim, estar do lado de dentro fazia sentido, eu já levava um tempo vivendo aqui dentro, porque lá fora às vezes doía, porque lá fora as vezes me sentia como estrangeira. Porque já não me faziam sentido as saídas, nem esperar as escapadas do fim de semana para relaxar, essas escapadas que no fim me deixavam sempre no mesmo lugar, de saco cheio das demandas de lá fora, da idade “está na idade, não está na idade”, das normas sociais que sempre me incomodaram, do corpo em “boa” forma, da estabilidade ou instabilidade, de haver alcançado alguns sucessos ou desbloqueados certos níveis, normas que finalmente eu já tinha me desprendido. É por isso que sigo feliz na quarentena, não tenho tido que ir visitar os familiares que insistem em “e você, quando...?” (sobre ser mãe) sem se importarem se eu quero, ou se isso me interessa. Não tenho tido que dar respostas politicamente corretas e isso me faz muito bem. O único com quem eu tenho que lidar é com o meu gato de gostos culinários exigentes e horários pontuais, embora me pareça amável sua forma de estar no mundo. Tenho podido desfrutar de questões básicas, simples ou mundanas, como não me depilar derrubando o cliché de “me depilo para sentir bem comigo mesma”, porque tenho me sentido bastante confortável com os meus pelos. Tem sido libertador poder tê-los e respeitar que eles estejam aí. Pude improvisar versões diferentes de mim mesma sem que uma me defina ou tenha que ser fiel. Como escutei ou li por aí: “o confinamento me libertou”. Para aqueles que o viver tem sido um desafio de lidar com aquilo que não encaixa, que têm sentido cansaço e o esgotamento das justificativas ou da busca de poder se encaixar em algo que não faz sentido, o confinamento tem dado um respiro. Escutaram esse meme que dizia: “quando se deu conta que seu estilo de vida se chamava quarentena”. E será que eu tenho que me sentir culpada? Se não para todos é fácil poder encarar o lá fora, as exigências são altas e os custos maior ainda, autômatos sem desejos em um sistema que te suga e logo te cospe. Para mim nunca foi fácil me render a isso! Então fechar a porta fazia sentido. Sei que vou ter que voltar a sair e espero que quando esse momento chegue também nos mobilizem outras pandemias, estas que já nos tinham exercitado “o distanciamento social”, a indiferença. Já se deram conta de que, usando a máscara, estamos nos olhando mais nos olhos? Isso me dá esperança. (Versão traduzida) *Macarena Merino Farías é chilena, vegetariana, animalista, psicóloga infanto-juvenil, amante do cinema e das viagens. Trabalha em uma linha telefônica de apoio psicológicos crianças de uma escola de educação especial. Administra o brechó online de seu gato, Felinni, que promove o consumo de roupas sustentáveis, atualmente vive em Santiago do Chile, onde reencontra juntando dinheiro para viver perto do mar. **Felinni Feliz ainda não completou um ano e já viveu várias experiências significativas. Se aventura em deixar sua difícil infância para provar a sorte na cidade. Vive com sua humana que atende a todos seus exigentes gostos culinários, é amare de sapatos e alface. Faz pouco tempo, abriu uma loja de roupas usadas (@gatomarillobrechó) _____________________________________________________ Confesiones de cuarentena “Estou consciente de mim em um dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta, Languidez, mareo y angustioso afán”. Fernando Pessoa Antes de empezar, necesito hacer una confesión, “he sido feliz en cuarentena” y un poco siento pudor de hacer esta declaración, porque sé que la he vivido desde un lugar distinto al de muchos, porque mi hogar, si puedo vivirlo como tal, porque sigo teniendo trabajo y tal vez porque me llevo bien conmigo misma. Y sé que allá afuera hay muchos que perdieron sus trabajos, la seguridad, que tienen miedo, que han tenido pérdidas o que simplemente extrañan hacer la vida que antes tenían. Pero yo he sido feliz en cuarentena. Vivo con mi gato, Felinni en un depto de 30 mts2, en pleno centro de Santiago. Cuando empezó esto del virus nunca me lo creí, “que eran conspiraciones creía yo”, aunque aún lo pienso un poco. Pero, aun así, en marzo nos tuvimos que encerrar, en medio de una “revolución” que llenaba las calles de todo el país, Chile estaba en medio de un estallido social, que me hacía pensar que algunas cosas iban a cambiar, que había posibilidades de movilizarnos hacia un lugar en el que valiera la pena vivir. Pero todo eso se difumino y cuál roedores huimos hacia nuestras guaridas con miedo y necesidad de sobrevivir a la Pandemia Pandemia substantivo feminino 1. MEDICINA enfermedad epidémica ampliamente diseminada. Y según yo, ya había muchas pandemias dando vueltas por ahí, que pasaban desapercibidas, pero que hacían que allá fuera la cosa estuviera más hostil, la pandemia de la desigualdad, la de la discriminación, la de la falta de deseo, la de la automatización, la del consumo, entre otras. Entonces para mi estar adentro me hacía sentido, ya llevaba algún tiempo viviendo adentro, porque afuera a veces dolía, porque a fuera a veces me sentía como extranjera. Porque ya no me hacía sentido las salidas y esperar las escapadas de fines de semana para relajar, esas escapadas que finalmente me dejaban siempre en el mismo lugar, de agobio por la demandas de allá a fuera, de la edad “estás en edad, no estás en edad”, de los mandatos sociales que siempre me han incomodado, del cuerpo en “buena” forma, de la estabilidad o inestabilidad, de haber alcanzado algunos logros o desbloqueado ciertos niveles, mandatos que finalmente ya nos tenían bien encerrados hace rato. Es por eso que he sido feliz en cuarentena, no he tenido que visitar a los familiares que insisten en ¿y tú cuándo? (respecto del ser madre) sin importarles que quiera, si eso me interesa, no he tenido que dar respuestas políticamente correctas y eso se siente bien. Con el único que tengo que lidiar es con mi gato, de gustos culinarios exigentes y estrictos horarios, sin embargo, me parece amable su forma de estar en el mundo. He podido disfrutar de cuestiones tan básicas, simples o mundanas, como no depilarme derribando ese cliché “me depilo para sentirme bien conmigo misma” porque con pelos me he sentido bastante cómoda, ha sido liberador poder tenerlos y respetar que estén ahí. He podido improvisar en diferentes versiones de mi misma sin que una me defina o tenga que serle fiel. Como escuché o leí por ahí “el encierro me libero”. Para los que el vivir ha sido siempre un desafío, de lidiar con aquello que no encajas, que hemos sentido el cansancio y el agotamiento de las justificaciones o de buscar poder encajar en algo que no hace tanto sentido, el confinamiento me ha dado un respiro.  Escucharon ese meme que decía: “Cuando te diste cuenta que tu estilo de vida se llamaba cuarentena”. ¿Y será que me tengo que sentir culpable? si no para todos es fácil poder encajar allá afuera, las exigencias son altas y los costos más aún, autómatas faltos de deseo, en un sistema que te chupa y luego te escupe. ¡No para mí nunca ha sido fácil rendirme a eso! Entonces cerrar la puerta me hacía sentido. Sé que tendré que volver a salir y espero que cuando ese momento llegue también nos movilicen las otras pandemias, esas que ya nos tenían ejercitando “el distanciamiento social”, la indiferencia. Se han dado cuenta que usando mascarilla nos estamos mirando más a los ojos. Eso me da esperanza. (Versão Original) Macarena Merino Farías, Chilena, vegetariana y animalista, psicóloga infanto juvenil, amante del cine y los viajes. Trabaja en una línea telefónica de apoyo psicológico dirigido a crianza y en una escuela de educación diferencial. Administra la tienda Brechó online de su gato Felinni, que promueve el consumo de ropa sustentable, actualmente vive en Santiago de Chile donde se encuentra ahorrando para poder vivir cerca del mar. *Felinni Feliz, Aún no cumple un año y ya ha vivido varias experiencias significativas. Se aventura a dejar su difícil infancia para probar suerte en la ciudad, vive con su humana quien accede a todos sus exigentes gustos culinarios, es amante del zapallo y la lechuga. Hace poco comenzó una tienda de ropa usada. (@gatoamarillobrechó)

Ensaios: Amanda C. E. de Souza
Ensaios: Amanda C. E. de Souza

A trajetória de uma pesquisa(dora) negra Amanda C. E. de Souza[1] Costumo imaginar minha mãe depois de um dia cansativo de trabalho lendo “Casa Grande e Senzala”, entendendo um pouco sobre relações escravagistas e sua crueldade à brasileira. Minha avó, no final da tarde, lendo Foucault, quantas discussões nós poderíamos ter sobre as relações de poder que envolvem e disciplinam os nossos corpos. Essa situação hipotética incita-me a pensar sobre como nosso corpo está estabelecido em espaços de poder, reivindicando uma análise interior e exterior, pois apesar desse processo imaginativo estar bem distante das mulheres e homens que conheço, pois precisam e são induzidos a se dedicar a uma vida de trabalho, nós chegamos ao Ensino Superior. Nesse ensaio, busco mapear a trajetória da escrita monográfica que atende ao apelo de falar abertamente sobre a vida de intelectual negra associada ao ofício de historiador(a). A entrada no curso de História através da Política de Ações Afirmativa (cotas) do governo federal é uma medida que tem por objetivo tornar o espaço universitário mais inclusivo[2]. As ações por uma educação emancipatória no contexto das discussões sobre diversidade, desigualdade e educação trazem como possibilidade historicizar, ressignificar e politizar o conceito de raça, explicitando a suas transformações ao longo do tempo. Nesse sentido, abrem-se caminhos de intercomunicação e novas vias de diálogos, deslocando o eurocentrismo dentro de nossas referências bibliográficas, posto que as questões de pesquisa também se aproximam do universo destes estudantes. Com intuito de entender o preconceito racial, aprofundei o estudo sobre os negros brasileiros na historiografia, buscando a construção social enfrentada pelo grupo articulado a uma abordagem histórica. A historiografia brasileira sobre o sujeito escravizado encontra-se em constante elaboração e reelaboração. A partir dessa investigação surgiu a vontade de participar da escrita desse processo, visto que os estudos das relações escravagistas continuam a informar a maneira como negros e negras são considerados dentro das hierarquias de sexo/raça/classe. Pensar em homens e mulheres negros exercendo ofícios e atividades para a própria subsistência, seus processos de trabalho e sua experiência de vida na segunda metade século XIX, me permitiu trilhar o caminho para dar respostas às minhas indagações enquanto intelectual negra historiadora, reivindicando a ampliação do conceito de classe trabalhadora para incluir trabalhadoras e trabalhadores escravizados(as). Este tornou-se o problema que norteou a pesquisa, assim foi proposta a análise sobre a organização do trabalho escravo de aluguel na fazenda de Santa Cruz de 1862 a 1868 na documentação que versa sobre os registros de aluguéis de escravizados.[3] A pesquisa exploratória da documentação e bibliografia sobre o objeto da pesquisa foi tomando forma a partir de minha participação no grupo PET- História (Programa de Educação tutorial) UFRRJ, cujo projeto original intitulado “Dos arquivos para a sala de aula” busca a compreensão da construção do conhecimento histórico a partir do ensino e aprendizagem no trabalho com fontes e construção do próprio acervo documental. A base desse acervo são os documentos e registros paroquiais da Cúria de Itaguaí. Assim, o trabalho de pesquisa do grupo tem como foco a história de duas regiões que compuseram a Fazenda de Santa Cruz[4] (Itaguaí e Seropédica), realizando a sistematização e análise de fontes sobre a região e debates historiográficos sobre o tema. A bibliografia apresentada, principalmente o livro “Santa Cruz: de legado dos jesuítas à pérola da coroa” proporciona uma dimensão temporal sobre a estrutura da Fazenda de Santa Cruz e os caminhos para aprofundamentos do estudo da região. Foi realizada a busca de fontes sobre os escravizados da Imperial Fazenda de Santa Cruz no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, nos conjuntos documentais constituídos pelo Fundo Nacional da Fazenda de Santa Cruz, na qual se encontra o dossiê: “Alugados a diversos”, na série: “Escravos e subsérie: Comércio e Aluguel de Escravos” [5]. Em seguida, foi feita a digitalização completa da fonte estudada e, finalmente, procedi a composição do banco de dados em conjunto com a leitura das categorias de informações da fonte. Percebi que colocando alguns de meus questionamentos em diálogo com aquela fonte poderia responder alguns deles, pois a Fazenda de Santa Cruz apresentava-se como um grande espaço de relação social e agenciamento dos sujeitos escravizados. Na análise, dois caminhos foram seguidos de modo a compreender aqueles sujeitos: o primeiro, historiográfico, em que a Fazenda de Santa Cruz e sua administração é interpretada em três momentos específicos: Jesuítica, Real e Imperial, sendo o trabalho escravizado de aluguel relacionado à estrutura administrativa, à regulamentação e à fiscalização do trabalho escravo. No segundo momento, buscamos explorar a documentação sobre aluguéis de escravizados a partir da leitura, interpretação e análise dos registros de aluguéis a partir do banco de dados, utilizando como metodologia a abordagem da micro história, prática essencial ligada ao estudo intensivo do material. Interpretamos a documentação através das seguintes categorias presentes na própria fonte: “época do aluguel”; “nome dos escravos”; “classe de ofício”; “nome dos que alugaram”; “preço do aluguel”; “nome dos fiadores”; “época de vencimento”; “observações”; “dívidas e pagamentos”. A compreensão dos significados destas categorias permitiu entender como os contratos de aluguéis organizavam as relações de trabalhos dos escravizados na Fazenda de Santa Cruz. Os historiadores e historiadoras, profissionais treinados a um sofisticado processo de observação e análise na produção de conhecimento, podem contribuir para uma educação, cujo princípio pode ser entendido como uma ecologia de saberes, reconhecendo a diversidade epistemológica, a diversidade cultural e as pluralidades de formas de compreensão. Uma vez que intelectuais negros(as) se apropriam das ferramentas analíticas do ofício de historiador(a), desempenhando papel fundamental na tomada de consciência, questionando e propondo alternativas aos fundamentos do ofício, deixam claro que estes precisam ser revistos e atualizados diante do novo contexto. A principal motivação para tornar-me uma intelectual é desenvolver uma pesquisa negra, uma opção que não deixa para trás a marginalidade e o status periférico que afeta a maior parte do grupo de acadêmicos e intelectuais negros e negras. No entanto, tem um impulso básico na insurgência que desafia os pesquisadores(as) a irem além de uma compreensão instrumental do papel do negro(a) no passado, rejeitando modelos prontos, buscando a compreensão das lógicas próprias dos homens e mulheres escravizados(as), reconhecendo suas estratégias e ações. O processo de escrita trouxe-me alegria em aprender, nutrindo o meu intelecto com entusiasmo para seguir com autonomia para elaborar um discurso do negro sobre a sociedade escravagista, não como inferior, mas como sujeito histórico. Não estou sozinha, apesar de grande parte do trabalho intelectual se desenvolver em isolamento, serei sempre grata àqueles(as) que avaliaram criticamente a pesquisa, acreditando em minha capacidade. É impossível o florescimento de intelectuais negras se não tivermos uma crença essencial em nós mesmas, no valor de nosso trabalho e um endosso correspondente à nossa volta em forma de apoio, como nos faz lembrar bell hooks no artigo Intelectuais Negras. Mais que um requisito para o acesso ao ensino superior de qualidade, transformei a escrita em um anseio apaixonado de produção de conhecimento, permitindo a experiência de comprometer-me com o resgate de minha história e recriar minhas potencialidades enquanto Historiadora. Referências: ENGEMANN, Carlos; AMANTINO, Marcia (Ed.). Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Eduerj, 2013. HOOKS, bell. Intelectuais negras. Estudos feministas, v. 3, n. 2, p. 464, 1995. SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. LeBooks Editora, 2019. POPINIGIS, Fabiane; TERRA, Paulo Cruz. Classe, Raça e a História Social do Trabalhador no Brasil (2001-2016). Estudos Históricos, Rio de Janeiro, 2019, v. 32. n.. 66, p. 307-328, 2019. Notas [1] Graduanda em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, associada ao Programa de Educação Tutorial em História - PET-História/UFRRJ. A pesquisa intitulada: “Escravizados da Imperial Fazenda de Santa Cruz: Alugados a Diversos e a Si. Rio de Janeiro (1862-1868)” foi orientada pela Professora Doutora Fabiane Popinigis (UFRRJ). Tem experiência de pesquisa na área de História da Fazenda de Santa Cruz com ênfase nos seguintes temas: Escravidão; História do Trabalho no Brasil; Registro de Aluguel de Escravizados. [2] A Lei nº 12. 711/2012, garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas Instituições Federais de educação superior a alunos oriundos integralmente do Ensino Médio público, levando em conta sua renda familiar e também um percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas. [3] A Fazenda de Santa Cruz representava “com suas deus léguas de quadras”, o que atualmente compreende o bairro de Santa Cruz, parte do município de Barra do Piraí, Itaguaí, Mendes, Nova Iguaçu, Paracambi, Engenheiro Paulo Frotin, Piraí, Rio Claro, Vassouras e Volta Redonda. [4] Arquivo Nacional; Fundo Fazenda Nacional de Santa Cruz. Registro de Aluguel de Escravos da Fazenda Imperial de Santa Cruz, 1862-1868. [5] Arquivo Nacional; Fundo Fazenda Nacional de Santa Cruz. Registro de Aluguel de Escravos da Fazenda Imperial de Santa Cruz, 1862-1868.

Tá rolando...
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1 - REVISTA BREJEIRAS Assim como a Revista Mulheres do Fim do Mundo, a Revista Brejeiras é produzida por mulheres e atua na visibilidade lésbica. Elas fazem um trabalho de editoração maravilhoso, sem falar dos textos publicados! “Brejeiras é um movimento cooperativo de e para lésbicas que busca, nas páginas da nossa revista, trocar experiências e salivas, ampliar imaginários e contatinhos, ocupar línguas e linguagens, revisitar os becos da memória, enfrentar apagamentos, construir resistências e dar visibilidade às lutas lésbicas.” (imagem e descrição da página da Revista Brejeiras no Facebook) Sigam a Brejeiras no Instagram @revistabrejeiras 2 - DOCUMENTÁRIO SEMENTES - MULHERES PRETAS NO PODER Direção de Éthel Oliveira, 2020 Após o assassinato de Marielle Franco (março de 2018), as mulheres negras protagonizaram as eleições do mesmo ano no Brasil, saindo candidatas a cargos políticos em todos os estados do país. O documentário acompanhou as campanhas de Jaqueline de Jesus, Mônica Francisco, Rose Cipriano, Renata Souza, Tainá de Paula e Talíria Petrone, candidatas aos cargos de deputada no estado do Rio de Janeiro. A produção tem duração de 1 hora e 44 minutos e está disponível para exibição gratuita no Youtube até o dia 30 de setembro de 2020. Link para acesso: https://www.youtube.com/watch?v=8vEcUORITC4 3 - PODCAST "COISA DO PASSADO?", EPISÓDIO FEMINISMO É COISA DO PASSADO? O “Feminismo é coisa do passado” é o quarto episódio da série do Coisa do Passado?, um podcast de História que, a partir de diversos temas, discutem a realidade. O podcast é organizado por uma equipe composta pela Dra. Carla Menegat (professora do IFSul), pelo Dr. Jocelito Zalla (professor do Colégio de Aplicação da UFRGS) e pelo Dr. Murillo Dias Winter (professor da UFFS). No episódio mencionado, a pesquisadora e professora Mônia Karawejczyk (PPGH/PUC-RS) conversa sobre a História das mulheres, dos feminismos e dos estudos de gênero. O episódio ainda conta com a participação da professora Maiara Juliana Gonçalves (Escola Agrícola de Jundiaí/UFRN), uma das nossas editoras da revista Mulheres do Fim do Mundo, que traz contribuições sobre as origens e a atualidade dos feminismos negros. Confiram no instagram @coisadopassadopodcast o link para acessar o conteúdo no spotify. 4 - PROFUNDANÇAS Recomendamos as antologias literárias e fotográficas PROFUNDANÇAS, um circuito editorial lindíssimo criado na Bahia, em 2014, pela poeta, performer e pesquisadora Daniela Galdino e desenvolvido em parceria com a produtora Voo Audiovisual. A antologia é dedicada ao mapeamento não acadêmico de escritoras do Brasil, em sua maioria inéditas e nordestinas, num projeto bianual. As 3 (três) antologias literárias publicadas contam com a participação de 51 escritoras e 55 fotografes em ação colaborativa e sem fins lucrativos. Os livros são híbridos, nos quais a linguagem literária e fotográfica é usada para combater a invisibilidade de mulheres no campo artístico. Por conta da pandemia, as ações de circulação (saraus, rodas de conversa etc.) migraram para o virtual desde abril de 2020. A 4° Temporada das Lives Profundanças é realizada em 2 lives semanais no perfil do Instagram (salvo no canal do YouTube), nos dias de terças e sextas-feiras às 15h. Durante as lives, a produtora Daniela Galdino conversa com a escritora e/ou fotografe convidada, para discutir sobre artivismo em tempo de isolamento, formas de resistência, rede colaborativa de mulheres, visibilidade de escritoras negras, trans, lésbicas, entre outros temas. Para conhecer o trabalho dessas mulheres incríveis, acessem: Instagram e facebook: @profundancas Canal YouTube (Lives): https://www.youtube.com/c/Profundanças Download gratuito das Antologias: http://vooaudiovisual.com.br/portfolio/literatura/ 5 - GRUPO DE ESTUDOS FEMINITAS DANDARA DOS PALMARES (PIRANHAS-AL) O Grupo de Estudos Feministas Dandara dos Palmares é formado por mulheres negras, indígenas e brancas, em sua maioria nordestinas e moradoras do sertão alagoano-sergipano, com idades entre 16 e 50 anos. Fundado pela historiadora e professora potiguar Lucila Barbalho Nascimento, mas que reside na cidade de Piranhas (AL), o grupo é um espaço seguro para a troca de vivências entre mulheres plurais que compreendem a importância de um feminismo interseccional (tomando de empréstimo a ferramenta de análise do Feminismo Negro e que trata do imbricamento entre gênero, raça e classe) e transversal (anti-etaratista, anti-capacitista, anti-gordofóbico e anti-transfóbico). Estudam sobre mulheres, feminismos, lutas e conquistas feministas, além das questões de gênero, categoria construída e que nos é imposta. O grupo compreende a importância da sororidade e da (des)construção do pensamento e da prática, por isso, utiliza as redes sociais para divulgar informações teóricas sobre a temática feminista, por meio de lives (YouTube) e posts diários (Instagram). O grupo Dandara dos Palmares discute, semanalmente, sobre como o patriarcado (sustentado pelo machismo, sexismo e misoginia) tenta disciplinar as nossas vidas e os nossos corpos através de um processo de retroalimentação com várias instituições. Por isso, as compreensões e os questionamentos que nascem das suas reuniões são importantes para o entendimento do que é ser mulher em uma sociedade que privilegia o homem branco cisgênero heterossexual e com dinheiro. Instagram do grupo Dandara dos Palmares: @gefem_dandaradospalmares

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! # alertagatilho #denúncia #abusos Não sou uma vítima*. O homem entrou, me violou, me roubou. As vizinhas - mulheres brancas de família – acusaram minha conduta, afinal, toda a cena não era suficiente para que eu fosse considerada vítima de um crime. Um desconhecido em minha porta – morto caminhante – foi o primeiro a lançar o vírus que infectou todos à minha volta. Alguém me perguntou, inesperada, se não se tratava de acerto de contas. Contas? Que contas? Iam um a uma virando seus cérebros ao avesso de forma que podíamos vê-los por dentro, muitas partes podres. O fedor que exalavam dificultava a respiração; então, me isolei um pouco. Dois policiais me jogaram em um carro para andar pelas vazias e estranhas ruas do Alecrim à noite, em busca de um violador – com uma vítima que não era vítima, portanto, não precisava ser zelada ou poupada. O pânico cresceu como um vulto, que me engolia do estômago para fora. Luzes, faróis, pessoas, o ruído das viaturas sobre as tampas de bueiro pareciam sucessivos galopantes acertando meus ouvidos. Quem já tomou tapa na cara saberá metaforizar. A menina tá em pânico. Vamos voltar com ela. A menina não conseguia mais se levantar. Delegacia da mulher. Enquanto o homem delegado buscava características físicas do homem agressor para fazer um retrato falhado, eu me dava conta que cada parte de seu rosto que tentava lembrar apenas podia ser acessado uma vez. - Como são seus olhos? E novamente fui olhada. - De qual cor? Não sei. Não consigo mais lembrar. Até que quando o retrato falhado ficou pronto, eu mesma não mais o reconhecia. Ao final, a policial mulher branca me olhou e disse “se fosse comigo eu não teria deixado”. Por certo ela estava sozinha naquela sala quando falou, pois não me viu nem ouviu. Arregalei os olhos e uma falsa ficha caiu. Uma vítima que não podia ser vítima. Então é por isso? Fui eu quem deixei? Mas como? Era tarde demais. O vírus deles entrou em mim como forma de culpa e vergonha, as mãos esquecidas do homem agressor permaneceram anos enforcando meu pescoço de mulher negra e eu não conseguia falar. Falhei. Fali. Saí calada e dilacerada dali, sem poder levantar o peso de meu infortúnio. Ainda era preciso ir ao IML, eles precisavam coletar microvida do morto caminhante homem agressor de dentro da minha corpa meio morta, meio querendo morrer. Talvez para se certificar que era mesmo o vírus da desgraça que pairava nos olhos das pessoas. Prédio amarelo desbotado, de neutro a asqueroso, ali me esperava um técnico, que era também um homem, que poderia também ser um agressor. Não há uma mulher para me examinar? Se não quiser pode ir embora. Grosseiro. Rude. Seco. Era o mesmo técnico que examinava os corpos feridos de balas, das guerras urbanas de periferias, que matam homens como os meus. Um técnico. Homem branco, bigode, eu era apenas mais uma das desgraças na sua mesa de análise. Ao sair dali foi quando eu chorei. E depois disso nunca mais. Precisei de silêncio. Me desprendi do meu senso de dignidade por muito tempo. Como ela lida bem com a situação. Nem aparenta sofrimento. Vergonha, já que a culpa da violência era minha. Medo de andar na rua sem poder me proteger, já que não reconhecia mais o rosto do agressor. Deixei minha casa. Me deram medicamentos que me fizeram adoecer também o corpo. Nem a alma nem a matéria podiam então mover-se, carregar seus pesos, sentir o sol. O homem branco companheiro não precisou de tempo. Contou aos conhecidos mais e menos próximos pois ele precisava desabafar. Você não tem esse direito! Mas eu me senti vítima! Foram meses longos enquanto tentava me curar. Enfim, o corpo sanou. O corpo era meu. O silêncio era meu. A dor era minha. Vítima nunca fui. Ainda preciso lutar pela liberdade da minha imagem sagrada. Naquele tempo eu não entendia o que as pessoas viam quando olhavam para mim. Treze anos atrás entrei no quarto e então, escrevi. Minha voz muda era um pedaço de papel. *Sobre a autora: Stéphanie Moreira (Mamba Negra) é mulher preta e mãe, macumbeira, militante do movimento negro, capoeirista angoleira. Brotou do chão no agreste potyguar. Poeta, tem insistido em não perder novamente sua voz. Escura demais, arredia, diz verdades desafinadas, sua música não sabe por onde anda, mesmo assim ela dança. Performer, seu corpo fala nas ruas, no mato, nas encruzilhadas, sobre as proibições que pesam sobre os corpos de mulheres negras. Também antropóloga, trabalha sobre a criação de memórias por populações subalternizadas no Brasil. Redes sociais - Instagram @acobraveia @nenguavo, e-mail stecamposmoreira@gmail.com, sites: https://stecamposmoreira.wixsite.com/adupe https://agrestenegra.blogspot.com/ Hoje resolvi revisitar-me...** O dia está nublado, quieto, parece um convite a rememorações. Fui para o quarto e coloquei a música que tanto gosto, um som baixinho que se encaixava perfeitamente com o ambiente. Em alguns minutos a vibração sonora espalhava-se por todos os espaços e podia me levar para onde quisesse. Fechei os olhos e fui adentrando no meu interior, cuidadosamente, comecei abrindo os armários da minha alma, procurando por mim. Encontrei-me trancafiada, escondida, esquecida...Que dor! Queria pedir desculpas, abraçar-me e promover o resgate. Mas, antes de qualquer ação, o meu eu levantou-se rapidamente e envolveu todo o meu corpo. Foi tão forte, tão caloroso, foi mesmo arrebatador. Enquanto eu sentia aquela efervescência afetiva, as lágrimas banhavam meu coração, sentia-me tão confortável, estável, feliz. E, uma voz me surpreendeu: -- Estava à sua espera! Já tem muito tempo que você não vem me ver... Observei tudo daqui, seu vôo, sua rotina, seus vícios e delírios. Que linda! Uma linda mulher! Orgulho-me em saber que você sou eu, tinha certeza que este momento chegaria e você viria me buscar para completar o seu mundo. Em algum momento, eu faria falta e você iria me resgatar. Sou sua alma, brilhante, andante.... Olhe para mim! Eu? Sou você! Sua essência, menina brincante, sonhadora. Sou a voz que fica na sua cabeça, gritante, relutante que te instiga a ir longe, cada vez mais longe. Mas, é que às vezes você se esquece de mim e fico aqui esquecida, em um dos armários da sua memória, a te olhar, sonhar e esperar... A vida? Ela não para por aqui! Ande! Me leve com você, ainda há muito para realizar... Com um supetão despertei, a face ainda estava molhada e ainda podia escutar o tinido daquela voz. Queria um espelho, por favor, um espelho! Preciso me certificar de uma coisa, olhei-me e vi o reflexo de uma expressão risonha, vivida que me convida a dançar os embalos da vida e me apresenta o presente. Isso! O presente é tudo que tenho nas mãos, não posso deixar o tempo passar. Enfim a liberdade, trouxe-me de volta à vida, passei a ouvir a voz, a minha voz, a voz da minha alma. Revisitar-se é um ato de coragem, encarar seus medos e anseios, revirar aquele baú cheio de lembranças e recordações que são só suas. Na procura por mim, deparei-me com situações diversas, monstros do passado que precisam ser despertados para transformar-se em seres de luz. È mesmo um processo de cura. Entre olhares, conversas e toques, absolvi uma capacidade de fortalecer o elo comigo mesma, para só depois alcançar o mundo. Sair do quarto, ainda pensativa, mas encorajada. No momento do espelho eu disse TE AMO para mim mesma e fui viver... **Sobre a autora: Liliane Rosado é professora, historiadora, feminista e organizadora da página @Interfaces-femininas. Rede social: Instagram @lilianerosado05

Traduções: Sheila‌ ‌Rowbotham - E. P. Thompson, Feminismo e os anos 1960
Traduções: Sheila‌ ‌Rowbotham - E. P. Thompson, Feminismo e os anos 1960

Uma entrevista com Sheila Rowbotham #feministas gringas #mulheres que traduzem mulheres Membros do Movimento Nacional de Libertação das Mulheres, em uma marcha pelos direitos iguais para marcar o Dia Internacional da Mulher, Londres, 1971, Fotografia: Daily Express / Hulton Archive / Getty Sheila Rowbotham: E. P. Thompson[1], Feminismo e os anos 1960 Uma entrevista com Sheila Rowbotham Em entrevista, a historiadora feminista de longa data Sheila Rowbotham reflete sobre as décadas na esquerda - lidando com a realidade de ser uma socialista da classe média - sobre sua relação com E. P. e Dorothy Thompson[2] e sobre a influência do livro clássico “A formação da Classe Operária Inglesa”. Sheila Rowbotham é historiadora, socialista, feminista e autora de muitos livros, tais como Hidden from History (Escondido da História), Women, Resistence and Revolution (Mulheres, Resistência e Revolução), dentre muitos outros, sendo o mais recente Rebel Crossings: New Women, Free Lovers, and Radicals in Britain and United States (Travessias rebeldes: Novas Mulheres, Amor Livre e Radicais na Grã-Betanha e nos Estados Unidos)[3]. Ela foi recentemente entrevistada pela escritora Alex Press[4] e pelo historiador Gabriel Winant[5] no podcast "Casualties of History" (Vítimas da história), da revista Jacobin, na qual falou sobre sua história na esquerda e sua relação com E. P. e Dorothy Thompson. O link para a entrevista em inglês está disponível em https://www.jacobinmag.com/2020/06/sheila-rowbotham-gabriel-winant-british-socialist-feminism Alex N. Press (ANP) - Você veio para a esquerda no início dos anos 1960, no ambiente da campanha de desarmamento e das consequências do 1956[6]. Como esses anos marcaram seu posicionamento político? Sheila Rowbotham (SR) - Eu acho que era fundamental estar envolvida em um movimento, porque a CND [Campanha para o Desarmamento Nuclear] tinha muitos tipos diferentes de pessoas. Havia membros da União Nacional dos Professores que costumavam andar muito solenemente e pareciam incrivelmente velhos. Havia pessoas com jaquetas de couro e jeans. Era uma época em que ainda havia uma contracultura beatnik[7]. Então os sindicalistas se juntavam também. Era uma grande mistura de pessoas, e a política não era de todo sectária; havia pessoas que eram socialistas, cristãs e anarquistas. Tinha uma tradição através do Comitê dos 100[8] de ação direta pacífica inspirada na influência ghandiana. Fazíamos coisas como sentar em protesto. Em uma ocasião marchamos para uma sede regional do governo. Nossa ideia era permanecer desafiando a falta de democracia do Estado e ao mesmo tempo fazer um protesto moral. Gabriel Winant (GW) - Você faz a descrição desses anos - e eu acho que você está se referindo especificamente à New Left Review[9]. Você não podia entender como eles poderiam ser socialistas, mas não se preocupar em serem pessoalmente afastados das pessoas das classes trabalhadoras. Estou curioso sobre como você lidou com a questão de ser uma socialista de classe média enquanto desenvolvia a sua orientação política. SR - Acho que eu tinha essa consciência porque eu vim de uma cidade industrial do norte. As pessoas vieram do sul, e particularmente de Londres. As famílias do meu pai e da minha mãe não tinham tido educação formal. Meu pai era engenheiro mecânico de mineração. Ele teve momentos de altos e baixos na vida, trabalhou nas minas quando não conseguiu emprego nos anos 30, depois se tornou vendedor. Não havia uma tradição de livros em nossa casa. Tínhamos vários livros que chegavam por acaso, porque meu pai trazia dos leilões. Os livros vinham em lotes e eu costumava lê-los. Eu tive uma professora de história muito boa na escola, que era liberal. Eu cresci em um momento que havia uma ênfase muito forte na classe, por causa da cultura dos romances, dos jovens irritados - havia um sentimento rebelde que era mobilizado pela classe. Então, acho que aprendi isso antes de ter ideia do que era a política de esquerda. Era parte de ser contra tudo que parecia já ter existido. ANP - Qual era sua relação com as pessoas da New Left Review? SR - Quando eu estava na universidade nós tínhamos um grupo chamado Universities and Left Review. Era uma situação mais leve. Meu namorado na época se chamava Bob Hawthorne. Ele era um amigo íntimo de Gareth Stedman Jones[10]. Conheci Gareth no meu primeiro ano de universidade. Na verdade, conheci Gareth em um encontro às cegas - fui convidada por um amigo para encontrar um amigo de alguém - e Gareth e eu nos conhecemos. Eu não era de todo de esquerda, e ele tinha feito pichações contra a Guerra da Argélia. Não foi o encontro às cegas mais bem sucedido, porque eu era uma espécie de hippie beatnik mística. Eu disse que tinha pichado em Paris - mas para conseguir dinheiro. E ele tinha pichado slogans políticos. Eu só o encontrei novamente por meio do Bob, foi quando realmente conheci o Gareth e as pessoas que começaram a New Left Review. Ele era estudante, um pouco mais jovem do que Perry [Anderson][11]. ANP - Depois do período como trotskista, você se descreve atraída pelo socialismo libertário e pela causa da libertação das mulheres? SR - Eu não era realmente uma trotskista. A principal influência não era o trotskismo, nem a New Left Review, embora alguns dos meus contemporâneos estivessem ligados a isso. Era a política da Nova Esquerda que eu tinha lido no Reasoner e no New Reasoner [periódicos] de Dorothy e Edward [Thompson]. Eu sempre tive amigos que estavam em muitos grupos diferentes, então desenvolvi um comportamento amigável com pessoas de diferentes posições políticas. Eu consegui isso através da participação em um movimento que contava com grande diversidade de pessoas. Havia um compromisso moral, um compromisso de viver e de trabalhar com pessoas da classe trabalhadora, como Dorothy e Edward fizeram. Grande parte da minha vida vivi em regiões operárias e trabalhei com essas pessoas. Eu queria superar as divisões de classe. Desde muito cedo, senti que essas divisões eram inúteis e estúpidas. Parecia óbvio que as desigualdades afetavam as pessoas desde muito jovens, porque antes de lecionar na Universidade de Manchester eu lecionei em escolas. Eu pude ver que tudo era contra as meninas e meninos da classe trabalhadora que tentavam estudar. ANP - Você poderia falar um pouco sobre sua relação com Dorothy and E. P. Thompson? SR - Eu os conheci quando tinha 19 anos. Um tutor me indicou e eu era um pequeno problema. Ele disse, “você deveria ir ver esses meus amigos, Dorothy e Edward Thompson, que vivem perto de Halifax. Eles escrevem sobre coisas como o cartismo”. Então liguei para eles. Eu estava extremamente nervosa. Edward e Dorothy me convidaram para fazer uma visita, então eu fui. Quando cheguei na casa, não vi Edward, eu vi somente Dorothy, que tinha cerca de 30 anos na época. Ela estava usando um pulôver preto de gola e meias pretas, o que era bem comum entre as mulheres intelectuais da época, não entre as pessoas que a minha mãe conhecia. Eles não me conheciam, nem tinham ideia de porque eu estava lá exatamente, mas eles me receberam bem. Eu costumava visitá-los muito e ler tudo que produziam. Então, eu li os manuscritos da "A Formação da Classe Operária Inglesa" ainda em elaboração. Era diferente de qualquer outro livro de história que eu já tinha lido. E eu tinha lido coisas como “Rebeldes Primitivos” de Eric Hobsbawm. Eu tinha lido um pouco da história de esquerda. Mas o livro de Edward era completamente extraordinário - todas essas pessoas [que ele descrevia] - e muitos dos lugares eram familiares para mim, porque eles são próximos de Leeds. GW - Parece que a revolução da história social desempenhou um papel importante no seu próprio desenvolvimento político ao longo da década de 1960. Estou curioso sobre como você elaborou a relação entre sua identidade em desenvolvimento como historiadora e estudiosa profissional com os movimentos radicais da época. SR - Bem, costumávamos chamar a coisa de Labor History Society (História Social do Trabalho). É um pouco fechado, mas tinha uma perspectiva alternativa sobre a história. Então tivemos a ideia de que aquilo poderia ser um tipo diferente de história. Havia pessoas questionando o escopo da história - todos os movimentos contra o colonialismo estavam desafiando as ideias de como a história deveria ser escrita. E, claro, fomos muito influenciados pelas lutas pelos Direitos Civis nos EUA - sabíamos sobre o movimento negro nos Estados Unidos e de sua luta pelos direitos civis, e depois sobre os Black Power. Então, a ideia de que a cultura era uma área na qual você deveria contestar como as pessoas eram definidas era algo que estava no ar e que era muito importante no final dos anos 1960, quando o assunto sobre a libertação das mulheres começou a ser discutido. A ideia de escrever um tipo diferente de história parecia fazer sentido e eu estava certa disso por ter conhecido os desafios da história do trabalho, e pela influência thompsoniana, que não tratava apenas das questões estruturais criadas pelas pessoas das classes trabalhadoras. Ao contrário, era realmente um mergulho na vida cotidiana e na experiência dos trabalhadores individuais - bem como no fato de as pessoas estarem se organizando de muitas maneiras diferentes, não necessariamente de uma maneira formal apenas para obter o voto, mas para alcançar as coisas da maneira que pudessem, seja através de sociedades secretas, ação coletiva ou organização sindical. GW - Você escreve sobre o final dos anos 60 e parece que está descrevendo a si mesma, eu penso: "É assustador partir para novas jornadas sem mapas, talvez a parte mais difícil seja decidir o que manter e o que abandonar. Parecia haver uma atmosfera que aniquilaria a história, como se o passado estivesse muito comprometido para ser reconhecido". Estou curioso sobre como essas perguntas ganharam sentido para você enquanto desenvolveu, ao que parece, a sua própria política de libertação das mulheres. SR - Acho que deveria ter voltado a professora liberal e metodista que tive na escola. Ela estava realmente preocupada com esse tipo de “absolutismo” que queria se livrar de tudo. Acho que ela sentiu que eu poderia me tornar uma pessoa assim. Então, ela passou muito tempo me fazendo ler pessoas como [Edmund] Burke[12] e gente que falava sobre algum tipo de conexão orgânica através do tempo, com o passado. Acho que sempre tive as duas coisas: uma atração pelas pessoas com bandeiras, derrubando tudo e o mundo virado de ponta cabeça. Mas também algum tipo de apreciação pela continuidade e pelas ligações com o passado. Uma das coisas boas é que Edward conheceu uma mulher muito velha que tinha realmente se ajoelhado em frente ao orador Henry Hunt, o radical. E assim, eu me sinto muito agradecida, porque eu posso dizer a você que eu sou uma mulher que conheceu um homem que conheceu uma mulher que conheceu Henry Hunt, o que leva você de volta ao início do século XIX. GW - Estou curioso para perguntar mais sobre a política de libertação das mulheres neste período e o que significou para você. Mais uma vez, há uma citação que eu gostaria de ler para enquadrar isso. Você escreveu: "Enfatizamos, por exemplo, a proximidade e proteção de um pequeno grupo, e seu sentimento de irmandade. Dentro do pequeno grupo, tem sido importante que toda mulher tenha espaço e oxigênio para que seus sentimentos e ideias cresçam. A suposição é que não há uma única resposta certa, que pode ser aprendida de cor e transmitida cutucando as pessoas. Sabemos que nossos sentimentos e ideias se movem e se transformam em relação a outras mulheres. Todas nós precisamos nos expressar e contribuir; nossos pontos de vista são válidos porque eles vêm de dentro de nós, não porque recebemos a resposta certa. As palavras que nós buscamos, ao dizermos, são honestamente fruto de nosso próprio interesse. Esta é a linguagem oposta à maioria da esquerda, que está constantemente se distinguindo como correta, e depois se cobrindo com uma objetividade determinada". Isso parece uma dinâmica muito viva para mim. Eu gostaria de saber o que de sua própria experiência você estava descrevendo e que tipo de prática política essa visão originou em você? SR - Ouvimos dizer que existia uma coisa chamada "conscientização" da América. E nós tentamos e fizemos isso também, embora estivéssemos preocupados em fazer tão puramente como sentíamos. Como talvez na América estivesse acontecendo. Porque ainda existia um sentimento de que talvez devíamos sair, organizar, distribuir panfletos, e tentar envolver mais mulheres da classe trabalhadora, ou seja, alcançar as pessoas. Então nós montamos grupos nos quais conversávamos sobre todos os nossos sentimentos. Esses encontros eram realmente fortificantes, porque nós que fomos criadas nos anos 1950, quando as mulheres não sentiam realmente muita conexão umas com as outras, fomos criadas para competir e ser atraente para os rapazes. Se nós gostássemos de garotos era isso que a gente deveria estar fazendo. Se você fosse uma pessoa que estivesse questionando isso como mulher, você tendia a ficar mais entre os homens, como quando eu era estudante. Então, as pessoas com quem eu discutia ideias eram homens. E eu sempre tive algumas amigas mulheres que também transpassavam essas fronteiras e estavam interessadas em ideias. Mas isso realmente mudou com o desenvolvimento da liberação das mulheres. Minha agenda que era cheia de rapazes como amigos e poucas mulheres mudou. O número de homens foram decrescendo e mais e mais mulheres se tornavam amigas realmente próximas. Esse se tornou um caminho para entender mais sobre as mulheres que não eram necessariamente como nós. As pessoas que a gente acabava encontrando em um grupo de conscientização era muito aleatório. Como nós tínhamos que conversar pessoalmente, isso permitia que nós entendêssemos de onde as pessoas estavam vindo. Daí entendíamos porque elas poderiam tomar certas posições particulares. Uma das coisas mais angustiantes dessa forma de política, que era um pouco problemática, era que nem sempre nesse trabalho você se sentia igualmente próxima a todas do grupo. Então havia uma espécie de tensão oculta em torno da existência de desigualdades nas amizades. Mas os laços surgidos no contexto dessa política ainda persistem. Estávamos com cerca de 70 anos e ainda em contato com pessoas que havíamos conhecido no movimento de libertação das mulheres. Isso foi mais do que só um movimento de descoberta do feminismo – isso continuou por um longo tempo. ANP - Houve muitas críticas à abordagem histórica social e humanista popularizada por Thompson. Isso foi algo que você tentou absorver em seu próprio trabalho? SR - De fato não. Você quer dizer que não há uma boa referência às mulheres no “Formação da Classe Operária Inglesa”? Bem, não tem mesmo. Mas na época parecia que tinha muitas referências às mulheres, porque nos tínhamos que ler pessoas como J. H. Plumb[13] – uma história que absolutamente não havia mulher nenhuma. O fato era que tinha algumas no “Formação da Classe Operária Inglesa”, o que chamou minha atenção. Tinha um pouco a tendência do Edward sentir que o tema das mulheres era um assunto que ele não queria escrever, porque sabia que Dorothy estava interessada em mulheres, como no cartismo. Então tinham um pouco do sentimento de não avançar para a área dela. Não era que ele não estivesse a par ou desinteressado pela posição das mulheres. Eles particularmente não curtiam a liberação das mulheres. Eles pensavam que aquilo era muito classe média. Eles pensavam que nós éramos indulgentes por falar sobre nossas vaginas e vida sexual, enquanto eles pensavam que nós erámos incrivelmente privilegiadas, porque eles estiveram na guerra e nós tivemos muitas opções. Era o que Edward sentia, eu sei; Por que na face da terra tem esse movimento de jovens mulheres? Alguma coisa começou a mudar para eles sobre a libertação das mulheres após eles irem para a Índia em meados dos anos 1970. Eles nunca deixaram de ser amigáveis comigo ou com pessoas como Catherine Hall[14]. Eles não eram de forma alguma hostis com o feminismo. Na verdade, como velhos comunistas eles eram hostis a uma espécie de feminismo anticomunista. Eles eram pela emancipação da mulher, mas também eram muito preocupados que isso não se tornasse uma abordagem exclusivamente da classe média, eles sentiam que – e essa era uma visão particularmente da Dorothy – as mulheres da classe trabalhadora valorizavam coisas como a família, porque a família era o lugar onde elas iriam encontrar suporte e parentesco. E isso era uma forma de suporte e poder. Então eles viam como muitas suspeitas essa coisa de “abolir a família” que nossa geração reivindicava. ANP - Você disse que a postura deles começou a mudar depois que eles foram para a Índia. Pode falar sobre como eles isso aconteceu? SR - Sim, eles mudaram. Eles conheceram muitas feministas socialistas que tinham estado envolvidas na resistência à depressão indiana com Mrs. [Indira] Gandhi[15]. Foi através deles que conheci a feminista socialista Radha Kumar[16], que era amiga deles. A família de Edward tinha conexão com a Índia, então os links com a esquerda indiana eram fortes para ele. Assim eu herdei muitos amigos dele, incluindo Radha Kumar. Na Grã-Betanha eu conheci uma trabalhadora têxtil chamada Gertie Roche[17]. Ela esteve no Partido Comunista, mas saiu em 1956. Eles sempre falaram que era interessante como as pessoas que são lembradas por deixar o partido em 1956 eram da classe média intelectualizada - como eles -, mas na verdade em Yorkshire tinha muita gente da classe trabalhadora sindicalizada que também deixou o partido em 1956, inclusive essa mulher incrível - Gertie Roche - que continuou envolvida com a causa da liberação das mulheres. Isso foi realmente divertido, eu me lembro de ir a um encontro no início dos anos 1970 em Leeds, ela estava lá e as mulheres comunistas foram. Mas claro, a divisão foi tão dura e profunda que eles nunca mais se falaram desde que ela deixou o Partido Comunista. Por um lado, eu acho que o movimento de libertação das mulheres reuniu essas velhas mulheres de novo. Existem outras conexões interessantes com Gertie Roche. Ela me deu o jornal de Claudia Jones[18], que tinha saído da América por causa do McCarthy e do caça às bruxas. Então ela estava em Londres e começou uma revista. Gertie me deu as cópias que Claudia tinha dado para ela. Esses tipos de conexões, entre alguém como Claudia Jones e a sindicalista em Leeds, não são do tipo de ligações que as pessoas normalmente se apegam, mas eu achei interessante. Pessoas sempre estão conectadas na esquerda. Mesmo assim, com o tempo algumas dessas interconexões se perdem. GW - Há alguns minutos você estava descrevendo – ceticismo talvez seja uma palavra muito forte – mas talvez os caminhos pelos quais Dorothy e Edward se mantiveram distantes da política feminista de sua geração. Para mim, parece que isso é contemplado em parte do seu trabalho historiográfico. Você diria que esses dilemas ou essas separações foram abordadas de alguma maneira? SR - Eles não gostaram do Women, Resistance and Revolution. Eles pensaram que eu estava marchando para um objetivo pré-arranjado. O que em algum sentido era verdade: eu pensava que tinha visto a luz e resolvido tudo no movimento de libertação das mulheres. Eu escrevi isso em 1969, quando os primeiros grupos estavam emergindo. Havia uma espécie de sensação de que estávamos indo para algum lugar, onde todos os outros movimentos revolucionários tinham falhado. Como se estivéssemos lidando com algo que resolveria tudo. E eles estavam realmente incomodados porque achavam que se tratava de algo que não gostavam no marxismo, que é essa imagem da pomba mensageira que sempre sabe onde vai. Eu não sabia, mas estava profundamente chateada pelo fato deles não terem gostado. Com o tempo fui me atendo mais aos detalhes. Muitas pessoas leram Women, Resistance and Revolution. Esse livro foi traduzido em muitas línguas. Então os Thompsons gostavam do Hidden From History, que eu escrevi quando dava aulas para mulheres adultas na Workers’ Education Association (Associação Educacional de Trabalhadores). Mas [as mulheres] não gostavam dos longos capítulos de Women, Resistance and Revolution. Então, eu escrevi com muitos pequenos capítulos, que foram muito usados na escola. GW - Eu também gostaria de perguntar sobre o Black Dwarf[19], no qual você foi uma figura chave. SR - Black Dwarf passou pelo Tariq [Ali]. Eu tinha estado na universidade com ele, mas nós começamos nossa amizade depois que saímos. Ele me apresentou a Clive Goodwin[20] no encontro do May Day Manifest[21], grupo que Edward e Dorothy faziam parte. Eu inicialmente costumava vender o Black Dwarf , mas depois fiquei um bom tempo no conselho editorial. Eu não acho que Edward gostava muito do jornal. Ele pensava que era muito londrino e revolucionário demais, exibicionista, eu imagino. Eles foram mais simpáticos com o que aconteceu um pouco depois, quando eu estava fazendo uma coisa chamada Jobs for a Change[22], porque eu trabalhava para o Greater London Council [GLC][23], e Ken Livingstone e John McDonnell também estavam lá. Eu estava em uma coisa chamada Popular Planning Unit (Unidade de Planejamento Popular) com Hilary Wainwright[24]. Se existiam tentativas para busca de ideias sobre estratégias econômicas e sobre como democratizar o processo de planejamento construindo uma alternativa econômica socialista eles [Dorothy e Edward Thompson] faziam parte. GW - Gostaria de saber quais foram as principais lições aprendidas naqueles anos. Nós falamos bastante sobre o final dos anos 1960, mas você sabe, muito tempo já passou. SR - Eu acho que a luta continua, e continua. Aconteceu de eu me envolver com a esquerda em um tempo muito difícil, então eu não tinha grandes expectativas. Você poderia ir ao Labour Party Young Socialists[25]. Nós sempre fazíamos panfletagens, mas muito poucas pessoas vinham nas reuniões devido às nossas ações. Mas de repente houve um grande aumento de militância e da excitação [política]. Muitas pessoas estavam envolvidas em manifestações no final dos anos 60. Então eu penso que esse ímpeto seguiu na década de 1970, até os primeiros anos da década de 1980. Fazíamos muita resistência à Margaret Thatcher nos primeiros anos, até a abolição do GLC em 1986. Daí uma espécie de conclusão obscura pairou sobre nós: talvez as coisas não iriam acontecer tão rápido quanto pensávamos. Houve muitas décadas duras desde então. É realmente difícil envelhecer, porque você acaba pensando: “oh, tanto tempo se passou, tanto esforço e ainda assim. Nós realmente não provocamos uma mudança significativa”. Algumas mudanças aconteceram, mas quase nenhuma das quais a gente tinha pensado. Transformações realmente importantes aconteceram no campo da cultura e dos costumes, mas não houve mudanças significativas em termos de desigualdade. GW - Isso certamente parece verdade nos Estados Unidos também, mas se captamos qualquer coisa da “Formação da Classe Trabalhadora Inglesa”, é que os movimentos das pessoas, mesmo em derrota, nunca acabam. SR - Isso é absolutamente verdade. Notas [1] Historiador Britânico, autor de livros como “A formação da Classe Operária Inglesa”, “Costumes em Comum”, “Miséria da Teoria”, “Senhores e Caçadores”, entre outros. Além de historiador ele foi militante da Nova Esquerda Britânica, tendo participado de campanhas antinucleares e trabalhado com a educação de adultos. Edward Thompson é uma das principais referências na renovação da história social do trabalho na década de 1990 no Brasil. [2] Historiadora social, especialista no movimento cartista e militante da Nova Esquerda Britânica. Ela e seu companheiro E. P. Thompson tinham muitas confluências tanto na forma de pensar a história quando na visão política. Dorothy Thompson é autora de vasta produção bibliográfica em língua inglesa, dentre as quais “The early charters” (1971), “Outsiders: Class, Gender and Nation” (1993) e a recente coletênea organizada por Stephen Roberts “The Dignity of Chartism: Essays by Dorothy Thompson” (2015). [3] Os títulos dos livros foram traduzidos de maneira livre, não correspondendo a publicações em português. [4] Alex N. Press é editora assistente no Jacobin. Ela escreveu para Washington Post, Vox, Nation, n+1, entre outros periódicos. [5] Gabriel Winant é historiador da saúde e do movimento operário. É ex-membro da Unite Here. [6] No ano de 1956, a URSS, através do chamado “Relatório Kruschev”, reconheceu uma série de crimes praticados durante o stalinismo, o que provocou uma grande fissura nas esquerdas e levou ao abandono de muitos intelectuais do Partido Comunista. [7] Os Beatniks foram uma movimento sociocultural do pós 2ª Guerra Mundial que propunha um estilo de vida antimaterialista. [8] Grupo pacifista britânico criado em 1960 com cem pessoas públicas como signatários. Entre suas táticas estavam a ação coletiva, a reação não-violenta e a desobediência civil. [9] Revista fundada em 1959, a partir da junção de dois outros periódicos, a New Reasoner e a Universities and Left Review. Ela se tornou o principal instrumento de divulgação do debate político e teórico da nova Esquerda Britânica e existe até os dias de hoje. Mais detalhes sobre a Nova Esquerda britânica ver: FORTES, Alexandre; NEGRO, Antônio Luigi; FONTES, Paulo. “Peculiaridaes de E. P. Thompson. In: NEGRO, Antônio Luigi & SILVA, Sérgio. E. P. Thompson. As Peculiaridades dos Ingleses e outros artigos. Campinas- SP: Editora da Unicamp, 2001. [10] Historiador britânico, professor universitário e editor da New Left Review. [11] Historiador, professor universitário e ensaísta político marxista de origem inglesa. [12] Filósofo, teórico político e orador irlandês da segunda metade do século XVIII e membro do parlamento londrino pelos Whigs, que reunia tendências liberais. [13] Historiador britânico conhecido por seus estudos sobre o século XVIII. [14] Catherine Hall é pesquisadora e professora de história social e cultural moderna britânica no University College London. Ela tem trabalhos como historiadora feminista sobre os séculos XVIII e XIX nos temas de gênero, raça, classe e império. [15] Indira Gandhi primeira-ministra da Índia entre 1966 e 1977; e entre 1980 e 1984, quando foi assassinada. Em seu primeiro governo se aproximou dos comunistas e das causas populares, sendo também uma importante líder internacional. Ela não teve ligação de parentesco ou matrimonial com Mahatma Gandhi, embora ele tenha sido uma inspiração. [16] Radha Kumar é uma feminista indiana, acadêmica e autora de muitos escritos. Suas pesquisas tratam sobre conflitos étnicos e pacificação em uma perspectiva feminista. [17] Gertie Roche foi uma importante líder operária têxtil e feminista. Ela teve muito destaque na greve de 1971 e no movimento feminista britânico. Ver: https://doi.org/10.1093/hwj/1998.45.313 [18] Claudia Jones foi uma mulher negra natural de Trinidad e Tobago, comunista, feminista e pan-africanista. No Partido Comunista Estadunidense ela tratava de temas como antirracismo, descolonização da África, luta de classes, sendo também ativista pela paz mundial. Ver: https://harvardmagazine.com/2020/09/features-vita-claudia-jones [19] Black Dwarf foi um jornal político e cultural publicado entre maio de 1968 e 1972 por coletivos de socialistas na Gra-Betanha. Tariq Ali editou e publicou o jornal até 1970, quando o conselho editorial se dividiu entre leninistas e não leninistas. A entrevista faz referência ao artigo publicado por Sheila Rowbotham em 1969 “O ano da mulher militante”. Arquivo disponível em https://www.versobooks.com/blogs/3818-women-the-struggle-for-freedom [20] Ator, escritor e agente literário muito conhecido na cena artística popular em Londres. [21] Manifesto publicado em 1967 produzido originalmente por um grupo de socialistas associados à New Left Review, tinha como editores Edward Thompson, Stuart Hall e Raymond Williams. Ver: https://www.chartist.org.uk/may-day-manifesto-1968/ [22] Foram dois festivais de música que aconteceram em Londres em meados dos anos 1980 contra a alta taxa de desemprego, pela greve dos mineiros entre 1984 e 1985 que fazia um ano e contra os planos de Margareth Thatcher de acabar com o Greater London Council. [23] O Greater London Council (GLC), que pode ser traduzido como Conselho da Grande Londres, foi uma poderosa organização coordenadora do poder local em toda a área londrina. Ele funcionou entre 1965 e 1986, quando foi abolido por pressão do governo conservador de Thatcher, entre outras razões, devido à administração trabalhista e esquerdista do seu líder Ken Livingstone. [24] Hilary Wainwright é uma socióloga britânica, ativista política e feminista socialista. Ela é muito conhecida por ser editora da revista Red Pepper e diretora do New Politics Project of the Transnational Institute em Amsterdam. [25] Sessão da juventude do Partido Trabalhista britânico entre 1965 e 1993. Tradução: Flávia Veras Link para a entrevista original: https://www.jacobinmag.com/2020/06/sheila-rowbotham-gabriel-winant-british-socialist-feminism