Edição 2

  Ensaios: Fabiane Popiginis
Ensaios: Fabiane Popiginis

O que limpar (ou não) o próprio banheiro pode nos ensinar sobre nossas desigualdades sociais? Fabiane Popinigis* Em 1870 Anna foi trabalhar e residir na casa de comércio de José, que ficava na freguesia da Glória, no Rio de Janeiro. A escravidão ainda vigorava, mas ela era uma mulher livre, viúva e pobre, imigrante portuguesa. Anna cozinhava, engomava, lavava e limpava para ele e seus dois empregados homens, mas ela também carregava lenha da carroça para a taverna, buscava água e acendia o fogo. Enquanto isso, José ia acumulando bens e capitais e abriu outra taberna, duplicando o trabalho de Anna que nada recebeu de remuneração pecuniária. Em maio de 1878, internada na Santa Casa de Misericórdia, ela movia um processo judicial para obter seus salários não pagos do serviço de criada. José e seu advogado argumentaram que ela não era criada dele, mas amásia. Nessa posição Anna não tinha direito a nada que construíra com José, que se casou com outra mulher e a mandou embora. Sua única chance de obter alguma compensação pelos anos de trabalho duro que realizara na casa do negociante português era provar que trabalhara para ele na condição de criada, o que não conseguiu. Pesava contra ela o fato de que era amasiada (ou seja, não era casada na Igreja, mas tinha uma relação com José) argumento respaldado pela falta de contrato, usado contra ela e outras mulheres que entraram com processos semelhantes demandando salários pelo seu trabalho. O argumento da falta de contrato escrito também foi usado contra homens que demandavam salários, pois era prática corrente a inexistência de contratos físicos e registrados em cartório. Contra as mulheres, entretanto, o argumento moral pesava mais: dividiam “leito e carícias” com o proprietário, com quem viviam sob o mesmo teto e, assim, não eram caracterizadas como trabalhadoras (criadas), mas como amásias. Apesar de toda a sua mobilização e luta para receber a devida remuneração, Anna perdeu o processo e foi condenada a pagar suas custas. José, por sua vez subiu na vida com o trabalho não pago da ex-criada, que, pelo seu estado de saúde naquele momento supõe-se que tenha morrido na miséria[1]. Quem leu O Cortiço certamente se lembrará do caso de Bertoleza, mulher negra liberta que trabalhara para o português João Romão e por ele foi explorada e enganada, suicidando-se no final. Anna por sua vez era uma mulher branca que tinha por volta de 50 anos nessa época. Aluízio de Azevedo não estava alheio à realidade de Anna e de tantas outras, que trabalharam em casas de comércio do Rio de Janeiro no século XIX: limpando e alimentando os trabalhadores e o proprietário do negócio, mas também cozinhando e servindo os clientes, preparando a comida e fazendo as compras, carregando os mantimentos, lenha, água e até cuidando da administração e dos livros contábeis. As mulheres sempre trabalharam, mas no final do século no Brasil médicos e juristas pensavam que as mulheres “decentes” deviam ficar em casa para preservar a moral e os bons costumes da família nos setores médios, pois seria a portadora da honra da nação. Inclusive de pureza racial. As mulheres trabalhadoras – um mal necessário - seriam mão de obra barata, além de seu papel reprodutivo nas famílias operárias, assim como as escravas haviam reproduzido a mão de obra escrava. Na atualidade, as mulheres são vistas como responsáveis pela manutenção do trabalho doméstico. As mulheres de classe média podem pagar pelo serviço de outrem o cuidado da própria casa e às vezes dos filhos, para gerar seu “capital cultural” ou apenas para ter algum tempo livre. Ou seja, enquanto alguém realiza o trabalho desvalorizado e mal remunerado, uma outra mulher aprimora qualificações demandadas no “mercado de trabalho” para obter remuneração significativamente melhor e que, além de tudo, remetem e possibilitam um outro lugar de classe. Ainda assim, qualificadas para o mercado, ganharão muito menos do que os homens na mesma posição e com qualificação semelhante. Alguns resultados do PNAD, do IBGE referentes ao 1º trimestre de 2020, sistematizados pelo Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP nos dão uma ideia do fosso que separa as pessoas por gênero e pertencimento étnico-racial no mercado de trabalho assalariado[2]. Quando perguntadas sobre a razão de não estarem colocadas no mercado de trabalho formal, a ocupação com o trabalho doméstico é a resposta de 19,8% das mulheres, enquanto apenas 0,8% dos homens o citaram. Além disso, o rendimento médio por gênero e cor mostra que as mulheres negras e pardas estão na base da pirâmide, enquanto os homens brancos no topo. As mulheres pretas/pardas apresentaram o menor rendimento médio da população, equivalente a 63,4% do rendimento médio do Brasil, enquanto os homens brancos/amarelos, apresentam um rendimento equivalente a 148,5% ao rendimento médio do Brasil. A partir dos dados fornecidos estimamos que, se salário dos homens brancos fosse 100, o salário das mulheres negras seria aproximadamente 57% inferior ao dos homens brancos e o das mulheres brancas aproximadamente 25,7% inferior ao dos homens brancos. No quesito nível de escolaridade, as mulheres sem instrução tiveram 72,2% do rendimento médio dos homens na mesma categoria, enquanto aquelas com nível superior completo receberam apenas 59,7% dos salários dos homens com a mesma instrução. Ou seja, quanto mais uma mulher estudou maior foi sua diferença salarial em relação a um homem na mesma posição. No caso das mulheres cuja inserção no mercado de trabalho é via serviço doméstico, o Estado, que deveria ser responsável por socializar as tarefas de cuidado e reprodução social, deixa inúmeras lacunas em termos de serviços, creches e escolas para acolher os filhos das trabalhadoras pobres. Essas mulheres que são, em grande parte, o sustento da família. Sua rede de sociabilidade e família estendida – mães, avós, irmãs, vizinhas – dão suporte e substância a essa densa microeconomia política, cuidando, atendendo, alimentando, vestindo, limpando, com pouca ou nenhuma remuneração para que umas e outras possam acessar o trabalho remunerado, algumas vezes assalariado, raramente formalmente contratado. Atualmente cerca de 92% das trabalhadoras domésticas no Brasil são mulheres. 65,3% delas são negras. Por volta da metade dessas mulheres são responsáveis pelo sustento do domicílio.[3] Graças à longa luta dos sindicatos de domésticas, a chamada PEC das domésticas foi aprovada em 2013 e regulamentada nos anos seguintes. A grita foi tanta que não hesito em afirmar que a sua regulamentação e implementação foi um dos motivos para a queda da presidenta eleita Dilma Roussef. Não à toa circulava um adesivo para carros, na tampa do tanque de gasolina, e a bomba entrava justamente entre as pernas da imagem de Dilma, numa referência de violência sexual explícita (e porque não dizer, estupro). A última categoria de trabalhadores a ter seus direitos reconhecidos é, também, uma das mais vulneráveis à violência sexual e a situações de trabalho escravo contemporâneo. A luta sindical pelo reconhecimento e dignidade da categoria, do valor do trabalho doméstico e pela equidade de direitos continua[4]. Em todos os casos, entretanto, os serviços ligados ao cuidado, da moradia e dos outros, são vistos como uma extensão “natural” de qualidades “femininas”. Coloco entre aspas porque a ideia de “qualidade feminina” varia ao longo do tempo e sua associação com o cuidado das crianças e da família como inerentes ao amor de mãe e como papel da maternidade são construções sociais que tem história. Mas essa forma de pensar sobre o trabalho não pago das mulheres foi determinante para que certas atividades e pessoas ficassem de fora quando se tratou de criar normas e legislação para a remuneração dos trabalhadores, bem como regulação e limitação da jornada de trabalho. No Brasil escravista, homens e mulheres escravizados eram bastante engajados no serviço doméstico e todas as atividades que ele pudesse significar. Às mulheres, cada vez mais foi atribuído o lugar de uma domesticidade desejada e necessária após a abolição, ligada aos serviços e funções da casa e da família. Isso esclarece muito sobre como a inteligência e energia das mulheres foi e é apropriada pelos homens de várias classes sociais para realizar serviços e atividades essenciais para o funcionamento da vida cotidiana na sociedade capitalista em diversos níveis. Com a abolição da escravidão, a exploração do trabalho não-remunerado não acabou, tampouco a luta para colocar limites à essa exploração. No entanto, o trabalho não pago passou a ser normalizado para as mulheres: na própria casa, como atividade considerada naturalmente feminina, fruto do amor pela família, e por isso não remunerada (cuidado com os filhos e com os mais velhos, limpeza, alimentação, educação). No caso das mulheres trabalhando fora de casa, o serviço doméstico foi a atividade mais recorrente, e menos protegida pelo assalariamento ou pela legislação social, ao passo que outros trabalhos, ofícios e atividades foram sendo reconhecidos como portadores de dignidade, produtivos e merecedores de remuneração monetária, salário e contratos. Hoje as mulheres estão também em várias frentes de enfrentamento da COVID-19, como enfermeiras e cuidadoras, em que são a grande maioria, além de médicas e pesquisadoras e, portanto, mais expostas à doença e à precariedade. Como escreveu Keila Grinberg, não basta, para mulheres e homens brancos de classe média, usar a hashtag vidas negras importam e indignar-se com a morte de Miguel, José e tantos outros meninos e meninas negras assassinados pelo estado nas últimas semanas, e manter a empregada doméstica trabalhando em sua casa. Elas são as mães, irmãs, tias e avós desses meninos, em sua maioria negras, correndo mais risco de se contaminarem e morrerem na pandemia da Covid-19[5]. Como diz o titulo do artigo a revolução começa em casa: “se você quer ser antirracista, se as vidas negras realmente lhe importam, fique em casa e deixe a pessoa que você emprega em casa também”. Eu acrescentaria que essas mulheres, como Mirtes, mãe do Miguel, também tem sua dupla ou tripla jornada de trabalho doméstico: no caso delas assalariado, muitas vezes sem contrato e mal remunerado, e aquele na sua própria casa, para onde volta e é responsável novamente pela limpeza, alimentação e cuidado. E frequentemente também recai sobre elas a responsabilidade do sustento da família. Além disso, os casos de violência contra as mulheres e feminicídios, compartilhadas em todas as classes sociais aumentaram drasticamente no período de isolamento.[6] O ambiente doméstico sem o acesso às redes de ajuda e de solidariedade é muito mais violento e opressivo para as mulheres. Então, se queremos lutar contra as desigualdades sociais e a discriminação social e de classe, devemos repensar a naturalização do serviço doméstico em todos os seus níveis como tarefa “feminina”. Escravidão e patriarcado estão aí imbrincados, e é assim que, para compreender o processo histórico por meio do qual essas desigualdades se criam, se transformam e se perpetuam, precisamos compreender como o sexismo e o racismo atuam na sociedade de classes e são, em suas múltiplas dimensões, formadores e sustentáculos dessa sociedade que depende das desigualdades e da exploração do trabalho não pago ou mal remunerado. A imigrante portuguesa Anna, criada da taberna de José e a fictícia ex-escrava Bertoleza, criada da casa comercial de João Romão viveram o período de derrocada da escravidão e o pós-abolição, quando formulavam-se concepções sobre a superioridade do trabalho “livre” – envolvendo teorias racistas e políticas de embranquecimento da população. Também nesse momento intensificavam-se as pressões coletivas feitas pelos trabalhadores – escravizados, libertos e livres por liberdade – por autonomia e controle do processo de trabalho e as lutas pela aprovação de leis que limitassem sua exploração. Ao mesmo tempo tomava forma um conceito androcêntrico de trabalho, também pautado pela ideia de dignidade do trabalhador e das atividades laborais. Discursos desqualificadores das atividades realizadas pelas mulheres e suas ocupações ajudaram a construir políticas de exclusão pautadas em grande parte por teorias sobre sua inferioridade biológica e moral que as ligaria ao seu destino “natural” de domesticidade. As mulheres trabalhadoras, para quem o serviço doméstico se afirmaria cada vez mais como o principal nicho de ocupação, não conseguiam ter seu trabalho reconhecido, e muito menos valorizado como tal no início do século XX. Continuaram a ser, entretanto, fundamentais para a manutenção social e econômica de seus núcleos familiares, estendidos ou não: por um lado, alimentando e vestindo os trabalhadores, realizando um sem número de atividades e trabalhos fora e dentro de casa e “complementando a renda”, possibilitando assim o funcionamento da produção e salários baixos; por outro, mantendo a organização doméstica, a respeitabilidade e a honra da nação. Hoje, por conta da pandemia, a classe média teve que limpar os próprios banheiros, fazer a própria comida, lavar a própria louça. Sem escolas ou creches, as mulheres ficaram sobrecarregadas no cuidado com os filhos e nas tarefas de cuidados em geral.[7] Nas palavras da líder sindical Cleide Pinto: “depois dessa pandemia com certeza nosso trabalho vai ter mais valor, as pessoas estão percebendo o valor do trabalho doméstico. Mas, pra isso, as trabalhadoras têm que se valorizar e procurar ver quais são os seus direitos”[8]. Se os cuidados da família e da casa fossem compartilhados e socializados por homens e mulheres, essa sobrecarga de trabalho, de fundamental importância em todos os âmbitos da vida cotidiana, não recairia apenas sobre elas, nem seria tão invisibilizado e desvalorizado. Como escreveu Angela Davis em 1981: “A abolição das tarefas domésticas enquanto responsabilidade privada e individual das mulheres é claramente um objetivo estratégico da libertação feminina. Mas a socialização das tarefas domésticas – incluindo o preparo das refeições e o cuidado das crianças – pressupõe colocar um fim ao domínio do desejo de lucro sobre a economia”[9]. *Fabiane Popiginis é mãe da Carolina, profa. de História na UFRRJ (graduação e pós graduação) e coordenadora do GT Mundos do Trabalho. [1] Lima, H., & Popinigis, F. (2017). Maids, Clerks, and the Shifting Landscape of Labor Relations in Rio de Janeiro, 1830s–1880s. International Review of Social History, 62(S25), 45-73. doi:10.1017/S002085901700061X [2] GORAYEB, Daniela S.; SARRIS, Georgia C; FILLETI, Juliana de P.; CARDOSO de MELO, Maria Fernanda; Mulheres no mercado de trabalho no 1º trimestre de 2020. In FACAMP Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 01. Para visualizar os gráficos: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen/mulheres-no-mercado-de-trabalho-no-1o-trimestre-de-2020/ [3] SARRIS, Georgia C; FILLETI, Juliana de P.; CARDOSO de MELO, Maria Fernanda; GORAYEB, Daniela S. Perfil das Empregadas Domésticas no 1º trimestre de 2020: dados selecionados. In FACAMP: Estudos NPEGen. Campinas: Editora FACAMP, número 02, agosto de 2020. [4] “Eu tinha minha liberdade”: entrevista de Nair Jane de Castro Lima, liderança histórica das trabalhadoras domésticas do Rio de Janeiro. Entrevistadores: Paulo Fontes, Louisa Acciari e Tatiane de Oliveira Pinto. Edição: Paulo Fontes e Yasmin Getirana. Transcrição: Yasmin Getirana. Revista Mundos do Trabalho | vol. 10 | n. 20 | julho/dezembro 2018 | p. 167-189. [5] Keila Grinberg, “É hora de parar de agir como se sua vida valesse mais do que a dos outros.” EDIÇÃO 166 | JULHO_2020. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/letras-sensatas-revolucao-comeca-em-casa/# [6] http://coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/1781-o-aumento-da-violencia-contra-a-mulher-na-pandemia-de-covid-19-um-problema-historico.html#.XxrpLZNKhQI [7] https://brasil.elpais.com/smoda/2020-05-28/trabalho-de-madrugada-porque-nao-dou-conta-de-tudo-em-casa-a-nova-normalidade-massacra-as-mulheres.html [8] Podcast da Rede da Cidadania, UFRRJ. Entrevista de Cleide Pinto a Dulce Pandolfi e Louisa Accari. Apresentado por Paulo Fontes. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/1OEZzejQwDiCsQb1CHsoLC?si=0dRK6kd_RPW7Illy7FO7Pg [9] Angela Davis; Mulheres, raça e classe. São Paulo, Boitempo, 2016, p.244.

Entrevista com a Duda Salabert
Entrevista com a Duda Salabert

Revista Mulheres do Fim do Mundo - Muito obrigada pela disponibilidade em conceder essa entrevista! Você é professora de Literatura e trabalha no mesmo colégio desde 2007; gostaríamos que você falasse um pouco sobre sua trajetória profissional. Duda Salabert - Eu sou professora de literatura. Dou aula há 20 anos. Nos últimos treze anos eu trabalho no colégio e pré vestibular Bernoulli, que é considerado um dos melhores os colégios do Brasil, e também atuo na educação popular, onde criei aqui em Belo Horizonte o Transvest, que é uma ONG que oferece educação gratuita para travestis e transexuais da capital. Em 2006 nós criamos por essa ONG a primeira casa de acolhimento de pessoas transexuais em situação de rua. A ideia é justamente oferecer educação como ferramenta de transformação de vida e inserção de pessoas transexuais em espaços de poder, especificamente a universidade. Revista MFM - Em 2018 você se candidatou ao Senado por Minas Gerais e obteve mais de 350.000 votos. Você optou por não se afastar de suas atividades docentes durante o período de campanha. Gostaríamos que você falasse um pouco sobre esse período e essa decisão. O que te motivou? Duda Salabert - Eu não me afastei do emprego para evidenciar, deixar claro que sou professora. Mesmo que um dia eu ocupe algum cargo político, não deixarei de dar aula, porque minha profissão é a docência. Sobre o período referido, minha candidatura foi bastante complicada porque, quando eu lancei minha pré-candidatura, menos de 24h depois aconteceu a execução da Marielle Franco, que me fez questionar se eu deveria continuar, ou não, na vida política. Mas, depois de uma reflexão, eu concluí que, por ela, Marielle, e pelo grupo de que faço parte, que é um grupo extremamente vulnerável, é necessário que eu mantenha meu corpo na frente dessa luta política. Quando eu oficializei a candidatura, publiquei nas minhas redes sociais uma foto em que eu estava com uma blusa com quatro palavras que incomodam muitos setores da sociedade. Estava escrito: professora, travesti, lésbica e vegana. Quando lancei essa foto, recebi inúmeros discursos de ódio, porque parte da família Bolsonaro compartilhou essa minha publicação e então meu instagram recebeu, em menos de uma hora, mais de 5 mil mensagens de ódio. O próprio instagram bloqueou minha conta no periodo, de tantas mensagens de ódio que eu recebi. Não satisfeitos com essas mensagens que eu recebia, esses grupos bolsonaristas começaram a avaliar negativamente a página do facebook do colégio em que eu trabalho, começaram a mandar email pro colégio pedindo minha demissão, começaram a querer organizar manifestações na porta da escola para que eu fosse demitida. Eu continuei na luta e os alunos, na época, compraram essa briga pela minha defesa. Eu sabia que a chance de eu ser demitida era muito alta e sabia também que, sendo demitida, dificilmente um colégio me recontrataria, porque 90% das transsexuais do país está na prostituição. Isso derruba essa narrativa mentirosa e falaciosa da meritocracia, porque, se existisse meritocracia, eu estaria no apogeu da minha profissão e, sendo demitida, iria chover propostas de emprego. Fiz letras, cursei um pouco de antropologia, estou fazendo gestão pública, dou aula há vinte anos, estaria no apogeu da minha profissão. Mas, tenho certeza que, dificilmente, um colégio chamaria uma travesti para dar aulas. Há vinte anos, antes de iniciar minha transição, teria mais chances de trabalho do que hoje. Mesmo recebendo essa quantidade de discurso de ódio, fazendo a campanha e dando 55 horas de aulas por semana, fiz uma campanha com poucos recursos financeiros – foram R$15.690. É importante lembrar que as campanhas para Senado normalmente são campanhas milionárias. Por exemplo, a campanha da Dilma Rousseff foi 4 milhões de reais, a de Senadores eleitos também foram campanhas milionárias. Eu consegui ser votada em todos os municípios de Minas Gerais, que são 853, me tornei a pessoa mais votada na história do PSOL em Minas Gerais, como também a quarta mulher mais votada da história das eleições nos último 40 anos em Minas Gerais. Revista MFM - Em abril de 2020, quando começamos a trabalhar nos primeiros esboços para a construção da Revista, não tínhamos noção de que ainda estaríamos convivendo com as dificuldades, limitações, inseguranças e os surtos desencadeados pela pandemia e o distanciamento social. Gostaríamos que você falasse sobre sua rotina como mãe, professora e ativista nesse período tão crítico. Duda Salabert - Eu ando bastante exausta porque além de ter que tomar conta da minha filha, dar faxina, cozinhar, cuidar dos animais aqui de casa, há ainda o trabalho como professora e as escolas nesse contexto de pandemia estão ou querem transformar professoras e professores em youtubers, cuja linguagem é completamente diferente duma linguagem em ambiente escolar. Então nós temos que aprender sobre iluminação, sobre edição de vídeo, sobre sonoplastia, sobre cenário e nós temos que criar isso sem apoio nenhum das escolas. Vários professores estão se endividando, como eu também: tive que comprar uma câmera melhor, tive que comprar jogo de iluminação. Isso num contexto em que deveríamos estar juntando dinheiro, porque é uma crise econômica nunca antes vista na história e nós estamos nos endividando. Pra mim ainda assume um contorno mais complexo porque eu tenho que conseguir energia pra fazer e organizar minha candidatura. Eu estava pré candidata a prefeita da cidade e agora só estou pré candidata a vereança, então é bastante difícil. Revista MFM - Dados anuais divulgados pela ANTRA e pelo IBIT nos traz números alarmantes sobre a precariedade e violência vivenciadas por pessoas trans e travestis, sobretudo por mulheres trans no contexto da prostituição de rua. A transfobia, como um elemento estrutural, produz vulnerabilidades desde a idade escolar, mas na idade adulta, com a ausência de emprego formal, aprofunda-se substancialmente. Você é presidenta da ONG Transvest, que oferta cursos a pessoas transgênero e travesti. Você pode falar um pouco sobre como funciona esse projeto? Duda Salabert - Segundo pesquisa da UFMG, 91% das travestis e transexuais de Belo Horizonte não concluíram o segundo grau, não concluíram o ensino médio, o que mostra que a escola tradicional muitas vezes é um espaço de reprodução de ódio, violência e intolerância contra as pessoas trans. A Transvest surge para tentar mitigar ou minimizar em âmbito local esse problema que é estruturante no país, que é o fato de a escola não ser aberta à diversidade. Então o que existe em Minas Gerais e no Brasil não é uma evasão escolar de pessoas transexuais, é uma expulsão escolar, já que o nosso projeto pedagógico, nosso projeto educacional acaba manifestando esse apagamento da diversidade em âmbito escolar. Então a Transvest é um projeto pedagógico que oferece educação gratuita para travestis e transexuais da cidade. Além da educação, nós também temos aulas de defesa pessoal, aulas de idiomas, teatro, libras. Criamos em 2016 uma casa de acolhimento de pessoas transexuais em situação de rua. E agora no contexto de pandemia, em que não há como a gente manter nossas aulas, porque na verdade com a pandemia não tem como dar aula virtual para as pessoas trans, porque a maioria delas nem celular tem, devido à situação de extrema vulnerabilidade, então o que nós fizemos foi criar a renda mínima trans. Nós estamos ajudando 120 pessoas travestis com o valor de 100 reais mensais, vamos manter isso até o final da pandemia, e 20 travestis com o valor de 200 reais mensais, essas 20 travestis são as travestis idosas. Nós consideramos travestis idosas aquelas que têm acima de 35 anos, porque a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil não supera 35 anos. Revista MFM - Ainda sobre a questão do trabalho, mas fazendo uma conexão com o campo da cultura. Em 2016 o espetáculo Gisberta trouxe à público uma ampla discussão sobre transfake, inclusive com a ação de grupos organizados, como Coletivo T e o Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans). Na chave da reivindicação por real visibilidade e empregabilidade nos meios artísticos e culturais, foi feito o Manifesto Representatividade Trans em 2018. Você poderia fazer uma análise sobre esse debate hoje, considerando os avanços resultantes da luta social organizada e os impactos reais nos contratos e na recepção do público? Duda Salabert - Eu fui uma das fundadoras do Monarte e aqui em Belo Horizonte eu debati publicamente com o Luís Lo Bianco, o ator que interpretou Gilberta, e mostrei para ele as críticas que o movimento trans tem em relação ao transfake e ao fato de que peças como a dele, assim como outros filmes tematizam as nossas histórias, mas não empregam nenhuma pessoa trans desde a faxina até ao elenco. Essas peças reproduzem o tanto da transfobia que existe na sociedade, porque viram as costas para o fato de que 90% das travestis transexuais do país estão na prostituição e que a arte é um espaço de empregabilidade, mas cujas portas estão fechadas para nós e privilegiando aqueles que já são privilegiados. É um debate que não avançou em âmbito nacional, porque com a conjuntura da vitória do governo Bolsonaro e a ascensão dos movimentos ultra reacionários, junto à direita no país, hoje eu acredito que é difícil levantar esse debate com a sociedade. Nós temos que debater hoje, estamos debatendo hoje, ainda “escola sem partido”, estamos debatendo a questão de não censurar a arte, manifestações artísticas que tematizem questões LGBT. Então acredito que os próximos anos vai ser difícil a gente avançar esse debate, porque houve, de certo modo, um retrocesso de consciência no âmbito público, na esfera pública, devido à ascensão desses movimentos de direita que reproduzem o discurso de intolerância e ódio contra as pessoas trans. Então hoje a nossa luta é para nos manter vivas no plano concreto. Eu acho que o debate no espaço da arte ainda é muito distante da realidade que nós estamos. Revista MFM - Em entrevista à Revista Veja, em agosto de 2018, você disse que escolheu se candidatar ao Senado como “provocação” por conta do “caráter simbólico” já que “Senado, na sua etimologia significa ‘senhores’”. Essa provocação surtiu o efeito que você esperava? Qual sua avaliação sobre a organização das lutas sociais no contexto da pandemia, em especial aquelas que dizem respeito a mulheres e pessoas transgênero? O que podemos esperar, nesse sentido, para os próximos anos? Ainda: quais os limites e possibilidades para as lutas das mulheres e das pessoas trans nesse contexto de autoritarismo crescente e de aumento da polarização política? Duda Salabert - Em 2018, o PSOL de Belo Horizonte me convidou para disputar o governo do Estado, eu rejeitei. Me convidou para disputar para Deputado Estadual e Federal, eu também rejeitei. Se eu tivesse disputado, possivelmente, eu teria ganho. Eu fiz três vezes mais votos que o Deputado Federal eleito Aécio Neves. Mas aceitei disputar o Senado, por entender que a minha candidatura assumiria um contorno simbólico. E nesse contexto de crise, é importante a gente disputar o simbólico. É no simbólico que mora tudo aquilo que não é concreto, tudo aquilo que nos humaniza. É no simbólico que está a fé, os sonhos, as utopias, as paixões, o amor, que são elementos essenciais para ampliar a nossa humanidade. Se a palavra senado significa senhores, na sua etimologia, ter uma travesti querendo disputar o cargo de senhores, seria extremamente simbólico. A idade mínima para disputar esse cargo, até a última eleição, era 35 anos. 35 anos é a expectativa de vida de uma pessoa transexual no Brasil. E, além disso, o Senado desde a sua origem, sempre foi ocupado por pessoas moralistas. E como meu corpo que é lido como um corpo imoral, rivalizar esse espaço é mais do que rivalizar um cargo político, é rivalizar também o conceito de moralidade. Por isso aceitei disputar e tive este resultado positivo. Um deles foi saber que em qualquer lugar, em qualquer cidade ou município de Minas Gerais, que eu for, eu sei que naquele espaço pelo menos 2% daquele município ou cidade votaram e se permitiram ser representada por uma pessoa transexual. Essa é uma vitória de consciência, porque o que muda o mundo é a construção de novas consciências. Muitas pessoas me dizem: “Duda, meu pai não me aceita, não; mas votou em você”. E eu respondo: “Seu pai te aceita sim, o que ele tem dificuldade é de aceitar os próprios preconceitos. E seu pai não votou em mim, não; votou nele mesmo, dizendo que partir daquele dia, ele iria olhar a diversidade de outra forma”. E é isso que nós temos como resultado positivo, saber que pelo menos 2% de qualquer cidade de Minas Gerais ampliou a consciência. E foi uma candidatura em que eu estava disputando não eram votos, mas sim consciências. Porque nossos sonhos não cabem nas urnas. Nesse contexto de pandemia atual, fica bastante difícil à gente mobilizar e organizar a luta. As lutas políticas. Porque nossa maior luta hoje, eh por sobrevivência. Sobretudo, porque a maioria das pessoas transexuais no Brasil não conseguiu ter acesso ao auxílio emergencial, por causa da burocracia do governo federal. Muitas transexuais não têm documentos, muitas não têm celular, outras não sabem ler. Então, é uma luta por sobrevivência. E pós-pandemia, eu acredito que esse cenário será agravado, porque se espera que nosso PIB, neste ano, no melhor dos cenários, fique - 10. Seria o pior momento econômico da história do Brasil, nunca antes visto. O pior momento da história do sistema capitalista. Nesse contexto de crise aguda do capitalismo, a gente sabe que é a população que mais sofre é a população mais vulnerável, que é justamente a população de travesti e transexual do país. Cuja expectativa de vida já não superava 35 anos, isso num contexto que em que economia estava melhor, imagina agora pós-pandemia. Então, sabemos que não vão ter políticas públicas para as pessoas trans. Os governos vão tentar retirar e desmontar estruturas que buscam dar suporte à população LGBT. Então, acredito que o pós-pandemia, a melhor ferramenta que nós temos é a solidariedade colocar em prática o aforismo “ninguém solta à mão de ninguém”. Revista MFM - O transfeminicídio é um termo relativamente novo nas lutas sociais e, entre outras coisas, contribui para articular duas pautas importantes: a dos feminismos e as do movimento LGBTQIA+. Você poderia comentar um pouco sobre esse termo? Duda Salabert - É importante a gente dá visibilidade ao termo transfeminicídio por diversos fatores. O principal deles é mostrar que há uma especificidade no crime contra as mulheres transsexuais. Não podemos enquadrar e colocar o crime contra pessoas transsexuais no mesmo patamar do feminicídio, porque há diferenças. Por exemplo 80% dos assassinatos contra pessoas transsexuais no Brasil ocorrem com uma violência exagerada, uma violência hiperbolizada, que significa corpos esquartejados, paus enfiados no ânus, o que difere do feminicídio. Além disso, mais do que a metade dos assasinatos contras pessoas transsexuais ocorrem no espaço público, o que difere também do feminicídio, e há outras diferenças também. O importante de mostrar é que dentro do próprio feminino há uma hierarquia em que as mulheres transsexuais e travestis estão em situação de maior vulnerabilidade e mais expostas a violência do que as mulheres cisgênera. Daí a importância de mostrar e dar visibilidade ao transfeminicídio, mostrando que, no Brasil, o crime contra mulheres transsexuais, a maior motivação é o ódio contra a população transsexual. Tanto é que esses crimes em sua maioria ocorre com requintes de crueldade. Revista MFM - A disponibilidade de tempo para os cuidados com os filhos é um tema abordado por você quando defende a ampliação da licença-maternidade no Brasil, que é restrito se comparado a outros contextos em relação à duração e às diversas configurações familiares. Quais reflexões esse contexto suscita em você sobre esse tema? Duda Salabert - Até onde eu sei, eu fui a sua primeira mulher transexual do Brasil a efetivar a licença maternidade por 120 dias. Não foi fácil conquistar e garantir esse direito. Eu precisei de um advogado intervir, então eu trago já na minha experiência pessoal, na minha luta existencial uma defesa sobre a licença maternidade. Nós que somos mães sabemos que os 4 meses, ou seja, os 120 dias não são suficientes para o desenvolvimento pleno da criança. Então urge ampliar a licença maternidade no Brasil para que nossa legislação se aproxime a de outros países que são mais avançados nesse tema, que é importante para a família brasileira e, sobretudo, para a criança. Temos que pensar não somente na maternidade, mas também em legislações que garantam a manutenção e permanência das mulheres no mercado de trabalho após o fim da licença maternidade, porque 51% das mulheres no Brasil que trabalham deixam o mercado de trabalho após o fim da licença maternidade. Os motivos são vários. Desde a demissão, já que muitas empresas são administradas por pessoas machistas que vem a maternidade como um problema, mas também essas mulheres acabam deixando o mercado de trabalho por entender a importância da amamentação ou, até mesmo, por falta de creches no Brasil. Segundo o IBGE um terço das crianças de zero a 3 anos estão fora da creche por falta de vagas. Então, é um problema estruturante no país no que se refere à questão ligada à maternidade e cabe aos políticos debaterem essas questões, mas como Congresso Nacional é ocupado em sua maioria por homens ,eles não entendem a relevância dessa questão. No nosso congresso apenas 14%, se não me engano, dos cargos são ocupados por mulheres. E vamos lembrar que tivemos aqui em Minas Gerais uma deputada estadual eleita que ao ter um filho descobriu que não havia licença maternidade para deputadas aqui no Minas Gerais e isso se repete, se reproduz em várias câmaras legislativas no país, o que mostra todo o machismo estruturante que há na nossa sociedade. Imagem da capa: foto de perfil no Twitter @DudaSalabert

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

#alertagatilho #denúncia #abusos Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvida. Para preservar a identidade dos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, nos envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Olá querida Alice, Hoje te escrevo, consternada, para relatar um caso que aconteceu em nosso departamento na Universidade que envolveu um colega professor e renomado profissional da área e uma aluna. A gente ouve pelos corredores de casos de assédio entre professores e alunas, mas é aquela coisa, né? Boa parte das narrativas que chegam é muito no “anonimato”. Pior que sabemos que esse anonimato se justifica ora pelo medo de uma retaliação do docente, ora pelo sentimento que faz pensar “mesmo que eu denuncie, não vai dar em nada”. Pois bem, a história aconteceu com uma aluna que ingressou recentemente em nosso curso de História. Ela estava pagando a disciplina ministrada pelo professor em questão agora no segundo semestre. A aluna - vou chamá-la de Clio nessa correspondência - sempre sentava na cadeira da frente pois, desde o início, ela aguardava ansiosamente pelo momento que iria pagar essa disciplina. O aguardo ansioso não era apenas pela disciplina em si, mas pelo docente que a conduziria. Sabemos que as disciplinas ministradas por profissionais que muito se destacam no meio acadêmico acabam sempre tendo muitas inscrições. Contudo, não condeno o encanto dos alunos e das alunas, mas as péssimas posturas, e bem mais comuns do que imaginamos, que alguns docentes empreendem mesmo estando cientes que toda relação entre professor e aluno é uma relação de poder. Durante aproximadamente cinco meses de disciplina, a aluna comentava com as colegas sobre os olhares que o docente lançava para ela e os elogios que a dirigia, sobretudo, no final da aula. Tudo começou quando Clio foi tirar uma dúvida com o professor no fim da aula. Segundo o relato dela, ele se mostrou muito solícito: sanou a sua dúvida e elogiou as intervenções que vinham sendo feitas pela aluna durante as aulas ministradas. Nos dias que se passaram e com dada frequência, ao final da aula, o professor pedia para que a aluna permanecesse na sala pois gostaria de dar uma “palavrinha” com ela. Os bate-papos após a aula iam de esclarecimento de dúvidas sobre as atividades - até mesmo quando a aluna não solicitava o auxílio - a empréstimos de livros e mais livros. Na cabeça da menina, o docente desenvolvia um carinho especial por ela. Nós, que somos professores e professoras, sabemos muito bem que vez ou outra sempre tem aquele aluno ou aquela aluna ao qual nos afeiçoamos mais. Mas o que vou relatar a seguir tomou um rumo diferente do que admitimos como “afeição”. A aluna Clio era uma menina que pertence a uma família com renda baixa, mora na periferia da cidade e precisava pegar duas conduções (totalizando quatro) para ir e para voltar do campus. O docente passou então a oferecer caronas para a menina. Como as aulas eram ministradas no turno da noite, e sempre acabavam às 22 horas, a aluna aceitava de bom grado pois a carona diminuiria o número de ônibus que ela precisaria pegar para retornar para casa, assim como encurtaria o tempo que ela ficava falando dentro de sala com o professor, sendo possível travar a conversa no decorrer do trajeto. Certa noite, ao fim da carona, o professor se despediu da menina alisando as suas pernas, que estavam um pouco cobertas por um vestidinho rendado de cor azul. A reação imediata da aluna foi afastar a mão e dirigir a ele um xingamento. Clio destravou a porta do veículo e saltou rapidamente. Fico imaginando o que deve ter passado pela cabeça da aluna após a ocorrência do abuso. Imagina ser explicitamente assediada por um profissional que você admira e respeita, e com o qual ainda terá que conviver alguns meses pois ele é o tutor da sua disciplina. Mas o uso antiético da autoridade do docente não parou por aí. Dois dias depois, na aula da semana que ocorreu após o assédio, Clio apresentou um seminário avaliativo para a disciplina do docente. A partir do relato dos demais integrantes do grupo e de outros discentes da disciplina, soubemos que tudo se passou de forma muito positiva na apresentação. Também declararam que, ao final da apresentação, o professor teceu elogios à abordagem do grupo, mas fez duras críticas individuais a Clio. A turma ficou sem entender, pois tinha avaliado toda a apresentação como coesa, esclarecedora e de bom conteúdo. Enquanto a aluna chorava, o docente se aproximou e pediu para falar com ela após o final da aula. Muito embora apresentasse medo, a aluna concordou em ficar pois aguardava ouvir a justificativa das críticas feitas a ela. Ao invés disso, o docente propôs um acordo: “aumento a sua nota, se você topar sair comigo”. Não é preciso dizer mais nada… Com muito receio da possível retaliação aliado à falta de segurança para fazer a denúncia, já sabemos qual foi a resposta dada à proposta, Alice. O caso veio à tona quatro semanas após o ocorrido. Clio passou a faltar às aulas do docente. Após ser confrontada pelas amigas, a aluna contou o que havia ocorrido. O caso se tornou público quando as alunas resolveram produzir cartazes denunciando a ocorrência de assédios feitos pelos docentes do departamento. Todo o material produzido foi colado pelos corredores das salas de aulas e pelos murais do departamento de História. Além disso, as meninas se organizaram também para passar de sala em sala, durante as aulas dos turnos da manhã e da noite, sempre pedindo cinco minutos ao professor presente em sala para dialogar e alertar as turmas sobre o assédio moral e sexual de docentes contra discentes. Mas o ápice das ações coletivas feita pelas alunas foi uma denúncia feita à Ouvidoria da universidade, onde uma delatora anônima enviou o relato da Clio com prints do whatsapp que mostravam as intimidações feitas pelo professor. Como você sabe, Alice, estou ocupando o cargo da chefia do departamento desde o início do nosso primeiro semestre. E, após vir a público o caso da Clio, as denúncias de assédio têm chegado em maior número. Não sei se ter uma mulher na posição de chefe acaba incentivando as alunas a denunciarem por sentirem uma certa segurança e confiança - para não dizer esperança que as coisas sejam encaminhadas… No entanto, foi a organização coletiva de mulheres em resposta à má conduta do docente que fez toda diferença. A instituição encaminhou a abertura de um processo administrativo contra o docente, que foi ouvido, e em seu relato culpabilizou a aluna e seu vestido curto de cor azul. Não é preciso dizer que o professor foi apoiado por colegas do nosso departamento, que reclamam de como as alunas “se insinuam” nas aulas. Também, após o caso, a aluna ficou conhecida, pelos colegas de outras turmas, como a menina do “vestidinho azul”. A situação chega a ser constrangedora e triste, Alice. Mas, ainda bem que azul é uma cor que remete à esperança. E é isso que eu tenho: esperança em uma geração que não se cala. Que elas continuem falando então. Com carinho (e esperança), Beatriz.

Traduções: Isabelle Stengers e a abertura de possíveis
Traduções: Isabelle Stengers e a abertura de possíveis

Isabelle Stengers: Filosofia ativista, narrativas especulativas e abertura de possíveis Na paisagem filosófica atual, Isabelle Stengers persegue a criação de um dispositivo de pensamento inédito, interrogando a produção das ciências, a invenção de uma ecologia das práticas, ativando os saberes dos cidadãos. Desde seus primeiros trabalhos com Prigogine (coup de tonnerre de La Nouvelle Alliance) aos seus ensaios sobre Whitehead; de L’Invention des sciences modernes a Temps des catástrofes. Résister à la barbarie qui vient, em suas obras com Chertok, Tobie Nathan, Philippe Pignarre, Vinciane Depret... Ao lado de Deleuze, Latour, Haraway, ela não parou de propor narrativas capazes de fazer existir outros possíveis, em um gesto político que rompe com a resignação. (Véronique Bergen*) Você poderia desenvolver sobre o que te levou a construir uma visão histórica das ciências voltadas para o social, contrapondo-se, por um lado, a uma parte da epistemologia normativa (verdade em si, objetividade ahistórica) e, por outro lado, a uma sociologia das ciências (objetividade como simples interesse arbitrário)? Um momento importante é certamente este episódio já distante, há mais de 20 anos, que batizamos “guerra das ciências”, quando os cientistas (na região francófona, os principais animadores foram Alan Sokal e Jean Bricmont) se mobilizaram para denunciar pensadores críticos acusados de reduzir a realidade descrita pelas ciências a uma simples construção social. As ciências sendo práticas sociais como quaisquer outras implicaria que os seus resultados seriam contingentes (ou seja, isso poderia ter sido de outra forma). Não deveríamos dizer que a Terra gira “verdadeiramente” em torno do sol! – Os cientistas responderam, mas a guerra não favorece a inteligência. Os argumentos foram de uma estúpida brutalidade. Eu decidi pensar a partir da questão do que pediria a paz, questão especulativa, já que se trata de pensar a partir de um possível, uma possibilidade. Poderiam os cientistas aceitar uma concepção de sua ciência como prática social, não como as outras, mas entre outras, cada uma tendo sua especificidade própria? Isso implicava colocar a questão sobre o que tem valor para uma prática, o que a compele, o que é para os praticantes um sucesso, um fracasso ou uma traição. No que concerne aos cientistas, ao menos aqueles que praticam uma ciência digna desse nome, eu creio que se pode dizer que eles buscam menos “descrever a realidade”, do que criar situações que os permitam aprender com o que eles interrogam. Obtemos sempre respostas das questões que colocamos – o perigo, para eles, é a liberdade de extorquir respostas, ou de interpretá-las de acordo com suas ideias, desejos ou ambições. Então, evidentemente, eles se sentiram insultados pela ideia de que suas interpretações são construções, enquanto essa ideia não choca um artista, um escritor, por exemplo. No entanto, minha proposição era especulativa porque ela demandava aos cientistas apresentarem-se a partir da ideia de que seus casos bem sucedidos são da ordem do evento - aqui a gente pode obter respostas confiáveis - e não privilégios que seriam devidos a um método “neutro, racional, objetivo”. E eles teriam que questionar muitos de seus colegas que fazem da ciência um método geral. Em suma, isso ia contra a ciência enquanto instituição que pretende autoridade. Na “ecologia das práticas” que você questionou e impulsionou, a intervenção de saberes dos cidadãos, desqualificados pelos experts, exige forjar novas narrativas: narrativas que enfocam a modernidade, a conexão de ciências com o político-social, um “como viver nas ruínas” do Antropoceno, ou, ainda, “Capitaloceno”, como você sugeriu. Como narrativas dispersas podem se fazer ouvir e pesar sobre o palco do mundo, a fim de propor novos futuros, novas maneiras de agir, de resistir e de pensar que dizem não ao TINA (There is no alternative)**, ao ceticismo climático? São todas narrativas especulativas, cuja vocação é de repovoar nossa imaginação devastada. Não se trata de fazer-se escutar ou pesar, mas de se desintoxicar de nossas histórias de progresso, de aprender a resistir ao modo como a referência a esse progresso serviu para justificar como “infelizmente inevitáveis” as devastações cometidas. A especulação, no sentido em que a compreendo, começa sempre com uma insistência sobre um possível que nos faça sentir que as coisas não tinham que ser como são, e ela tenta irrigar esse sentimento, explorar as perspectivas que ele abre. Ela tem a vocação não de propor, mas de nutrir aquelas e aqueles que se engajam para que as coisas sejam diferentes. Por exemplo, especular sobre as práticas como divergentes sobre o que é importante para elas abriria uma questão de tipo ecológica. A ecologia levanta a questão de um ambiente onde coabitam de uma maneira emaranhada seres vivos com interesses divergentes. Deste ponto de vista, nosso ambiente de pensamento é caricatural, porque as divergências se apresentam como oposição. O único ponto onde as práticas estão de acordo é em seu desprezo compartilhado pela “opinião que não pode compreender”, e da qual se deve manter distância. Então, aí também a questão de uma "outra" ecologia insiste, e com ela aquela das instituições que mantêm fronteiras. Mas o que insiste, sobretudo, como verdadeira incógnita dessas questões, é o papel que poderia desempenhar essa “opinião” que, no momento, deixa-se desqualificar. Assim, minhas narrativas endereçam-se, primeiro, àqueles que se engajam não para defender a opinião enquanto tal, porque ela é acima de tudo uma figura que legitima a exclusão, mas, sobretudo, para colocar em jogo na cultura política, as questões avançadas por essas práticas e suas instituições. Trata-se, então, de especular sobre o que seria um ambiente denso, que saberia fazer valer suas exigências e suas cobranças, que multiplicaria as fricções – ou seja, forçaria os praticantes a pensar, no lugar de desprezar. E hoje é uma questão vital porque nossos especialistas, tal como são formados, são muito pouco capazes de participar dos problemas impostos pelo desastre socioecológico que se anuncia. O estabelecimento de um “Parlamento das coisas”, proposto por Bruno Latour, no qual se reunissem delegações de florestas, de oceanos, de espécies em vias de extinção, de não-humanos confinados no mutismo, avança como uma proposição potente. Como essa proposta consideraria a intrusão de Gaia***, de uma Terra que não é mais apenas ferida pela ação humana, mas tornou-se uma força que ameaça nos destruir? A potência da proposição de Bruno Latour é especulativa na medida em que ela supõe que nós saímos do capitalismo. Trata-se para ele, como para mim, de fazer sentir que uma outra política é possível no lugar daquela, puramente humana, que nós inventamos a partir dos gregos e que foi reduzida a uma caricatura pela aliança moderna entre estados e capitalismo. Evidentemente nossos estilos diferem, mas com uma questão comum, que é a eficácia. Ele torna presente essa possibilidade como se estivesse ao alcance das mãos, enquanto eu tento fazer ouvir sua insistência. Meu leitmotiv foi que, apesar de toda a nossa ciência e nossas técnicas nós estamos menos preparados do que nunca para responder à ameaça de desastre socioecológico que nós associamos, os dois, à figura de Gaia. Mas me importa destacar que se esta figura é aquela cuja ameaça os climatologistas decifram, ela não é, em si mesma, uma parceira política. Ela responde de modo implacável às nossas ações, mas, também, de maneira cega, porque a única coisa que importa para o clima é sua resultante, a quantidade de CO2 emitido. O “Parlamento das coisas” de Latour deveria, assim, reunir, todos aqueles que estão sob a ameaça do que chamo de sua “intrusão”. É o motivo pelo qual eu aprecio profundamente que, em seu “Face à Gaïa”, Latour a apresente como uma figura silenciosa, apontando para a terra, essa terra ferida. O que ela designa é o conjunto daqueles com os quais é preciso aprender a viver, que dependem de nós e de que dependemos. São essas interdependências que se trata de colocar na política, e, como elas estão sempre situadas, o Parlamento de Bruno não deverá convocar os delegados das coisas, mas reunir em cada lugar sensível as testemunhas que dão voz às maneiras pelas quais aquilo que existe, existe pelos outros e ao risco dos outros. Frente às catástrofes climáticas, ambientais, humanas que assolam o século XXI, aquilo que você definiu, com Philippe Pignarre, como a sedução, o feitiço exercido pelo capitalismo, não estaria fadado ao colapso? O feitiço, em todo caso, ainda está aí, e ele é mesmo mais potente do que nunca, já que nós estamos atordoados face à ameaça – nós sabemos, mas nós somos intimados a continuar o business as usual, e está bem entendido que, se nós devemos evitar as catástrofes, isso será no respeito das leis do mercado e de um modo que assegure o crescimento [econômico]. De fato, quando Philippe e eu propusemos pensar o capitalismo como um sistema “feiticeiro”, era para sublinhar o fato que, contra toda expectativa, seu empreendimento estava mantido, talvez até reforçado, enquanto não se tentava mais, ou não mais verdadeiramente, apresenta-lo como sinônimo de progresso. A nova abordagem que ele criou foi a de sugerir que “vocês não têm escolha” – ele [o sistema] fez-se fabricante do que nós denominamos como “alternativas infernais”: se você recusa isso [as transferências de multinacionais para regiões de mão-de-obra barata, por exemplo] por exemplo, você terá algo pior. Hoje, a alternativa é planetária: se, sob o pretexto das catástrofes que elas provocam, você recusa as leis do mercado e a liberdade de investimentos que seus governantes devem respeitar, isso resultará no colapso da economia. Mas o nosso objetivo, em La Sorcellerie capitaliste, era, antes, de evocar o exemplo das sociedades de sistema mágico para o associar à questão de “como proteger-se”, uma questão que Marx - que vivia em uma época na qual reinava a evidência da ligação entre capitalismo e progresso técnico-industrial - não havia colocado. Para ele, a tomada de consciência de que o progresso se fazia às custas dos trabalhadores seria suficiente. Me parece que muitos ativistas, hoje, começam a aprender a se proteger, a criar práticas eficazes para resistir às armadilhas que nos paralisam. Você escreveu o prefácio da obra de Anna Tsing, « Le Champignon de la fin du monde. Sur la possibilité de vivre dans les ruines du capitalisme ». Essa necessidade de “aprender a viver nas ruínas” deixadas pela devastação capitalista não apontaria para a confissão de uma impotência, pela sua recusa em vislumbrar um pós-capitalismo, uma saída deste regime? Como fazer balançar nossa “cena” e inventar outras maneiras de abrir um futuro viável, um “habitar Gaia”? Para Tsing, o capitalismo contemporâneo já fez a escolha das ruínas, tanto sociais (precarização generalizada), quanto ecológicas (extração por todos os meios). Ele não é mais construtor de mundos, como na época de Marx. Ele explora sem se preocupar com consequências e, quando os recursos se esgotam, passa-se a outro lugar. Então, é preciso, claro, lutar contra isso, mas sabendo que esse capitalismo nos deixará um mundo profundamente prejudicado. Um futuro eventualmente viável deverá se inventar em lugares arruinados, não em um mundo onde seríamos jardineiros ou zeladores, pois estes têm um lar para voltar depois de estarem ocupados. É o que sabem os ativistas quando dizem que « é preciso raízes para resistir, para enfrentar a tempestade”. Eles estão inventando uma ideia de raiz que resiste àquela de emancipação como desenraizamento. As raízes são aquilo que nos faz pertencer a um lugar, com outros, humanos e não humanos. Viver nas ruínas não é uma figura apocalíptica para Tsing. É um desafio. Claro, isso pode se transformar em uma catástrofe, mas as ruínas são antes de tudo um lugar onde nada está dado, onde nada é evidente, onde nenhuma racionalidade, nenhum “e então” dá o direito de esquecer as consequências. Um lugar onde, a cada passo, se coloca a questão de que Leibniz fez seu grande conselho moral: “dic cur hic”, diga por que aqui. Ou seja, evite as generalidades, situe sua ação no “aqui”, torne-se sensível a esse “aqui” que te situa. As ruínas são um lugar que pede um consentimento à precariedade, à vulnerabilidade. Não se trata de se resignar à precariedade organizada pelo capitalismo, claro. Consentir não é se resignar, é sentir junto. Consentir à precariedade é não se sentir dependente do que não controlamos, é curar-se do sonho de controle que os ideais de independência e autonomia dissimulavam. É reaprender a arte de prestar atenção, reaprender as práticas de sensibilidade que o capitalismo nos fez esquecer – venda sua força de trabalho e não se pergunte o que estou fazendo com ela! Mas não apenas o capitalismo. É o que, desde Platão, nós batizamos de razão, que se supõe transcender as circunstâncias, ser invulnerável aos perigos e válida em toda parte. As ruínas são lugares que exigem que se reencontre o sentido exigente desses termos que nós desonramos, realismo ou pragmatismo. Você retoma a herança de Whitehead, confrontando-a, notadamente, aos problemas atuais. Quais são os instrumentos, os conceitos whiteheadianos que entraram em consonância com seus questionamentos? Whitehead, matemático, tornou-se filósofo porque ele não poderia aceitar o poder que a modernidade conferiu a certas abstrações, conferindo a elas o que ele chamava de “uma concretude deslocada” e submetendo-se aos absurdos que daí resultavam. Poderíamos dizer que se trata de um filósofo ativista, porque seus conceitos têm por vocação fazer sentir e pensar não tanto contra essa submissão - não são conceitos-denúncia, defendendo a verdade contra falsários – mas ativando a experiência da importância daquilo que essa submissão pede para ser esquecido ou negligenciado. Nesse devir-filósofo-ativista, teve um papel nevrálgico a recusa do que ele denominou a bifurcação da natureza, ou seja, a bifurcação entre uma natureza objetiva, despida de valores, de beleza, de sentido, explicável em termos de causas indiferentes a seus efeitos, e uma natureza subjetiva, cujo único responsável seria o espírito humano, atribuindo aos seres naturais sensibilidade e intencionalidade. Whitehead não vai argumentar contra essa bifurcação cujas consequências estão por todos os lugares, isso seria como tentar esvaziar o oceano com uma pequena colher. Ele vai fazer sentir seu absurdo. Ele vai tomar partido da experiência. A tarefa da filosofia, ele escreve, é de nada eliminar daquilo de que temos efetivamente experiência. E, com a finalidade de equipar os filósofos para essa tarefa aparentemente insana, ele embarcará na construção de um sistema metafísico de uma abstração formidável, que destrona de suas pretensões antagônicas as abstrações que pretendem descrever o concreto, enquanto o desmembram. E, em particular, as causas cegas e os objetivos intencionais que fazem bifurcar a natureza. Esse sistema não reivindica nenhuma outra uma verdade além da eficácia. E foi isso que eu experimentei. Isso suscita um deslocamento do pensamento que não tem nada a ver com uma verdade escondida, esquecida ou negada. É um movimento bem mais distorcido, uma espécie de má vontade do pensamento, cujo “sim” está sempre associado a um “porém”. Por exemplo, não diremos “causa”, sem nos perguntarmos “como”, aqui, esta “causa causa”, nem “perspectiva / objetivo”, sem relacioná-lo com a forma como essa perspectiva situa o ser, humano ou não, que ele anima. E o “mas” não é desmistificador, mas tem algo de engraçado. O leitmotiv de Whitehead era “não é preciso exagerar”, ou “nothing too much”, mas não se trata, nunca, de humilhar. Foi aí, creio eu, que aprendi o desgosto dos “somente aquilo” e das verdades que insultam – como os cientistas, quando se apresentam como racionais, o que subentende que os outros não o são; ou como pensadores críticos, enquanto dizem que as conquistas das ciências são apenas a resultante de relações sociais. Mas o que experimentei mais recentemente é que o sistema conceitual de Whitehead ajuda a aventurar-se além dos tipos de casos que ele próprio poderia pensar em sua época. Não se trata mais de remover de nossas abstrações o poder de negar, mas, principalmente, de aprender com o desconhecido, que fazia Spinoza dizer “nós não sabemos do que nossos corpos são capazes” – o que significa, também, “aquilo que podemos tornamo-nos capazes de pensar, imaginar, fazer”. De fato, a modernidade nos surpreendeu muito, alargou ao máximo a distância entre alguns que criam e outros que são mutilados. Denunciar as desigualdades socioeconômicas é insuficiente, nós precisamos de dispositivos que nos tornem capazes de sentir e de pensar uns com os outros, graças aos outros, ao risco dos outros. Uma palavra sobre o GECo****, o Grupo de estudos construtivistas... Bruno Latour destacou que nós seríamos os únicos a nunca dizer “isso é apenas uma construção”. Nós somos entusiastas de construções, nós gostamos de compreender o que elas exigem, o que elas propõem e o que elas fazem no mundo no qual intervêm. Poderíamos dizer que “nós o provamos / degustamos”, como na expressão de Horácio “aude sapere”, de cujo sentido Kant desviou para definir as luzes em “ouse servir-se de teu entendimento” – mas que poderia traduzir-se como “ouse provar”. Evidentemente, nós privilegiamos autores que têm gosto, não os insípidos, nem os que fabricam venenos, mas não há uma doutrina GECo, nem um estilo. É um grupo que reúne filósofos e outros que não o são, sobre a base de uma necessidade comum de respirar, de pensar junto sem ações grandiloquentes, sem espírito de seriedade, mas não sem paixão. De fato, desde sua criação, e mesmo antes, desde, mais ou menos, vinte anos, nossa ideia foi a de atualizar uma especificidade da filosofia: em matemática ou outras disciplinas, misturar estudantes iniciantes, doutorandos e professores não faz muito sentido; em filosofia, é possível, com a condição de que excluamos os argumentos de autoridade, as referências eruditas, os jogos de oratória, e com a condição de que tenhamos o gosto de pensar junto. Então a gente não precisa selecionar, essas condições são em si mesmas muito eficazes. Se nós vivemos, hoje, nas ruínas da universidade, submetidos ao imperativo da competitividade e à modos de avaliação com efeitos perversos, a gente pode dizer que o GECo experimenta a possibilidade de vida nas ruínas. Tradução: Gabriela Mitidieri Revisão: Thaís Tanure Notas: Gabriela Mitidieri e Thaís Tanure * Véronique Berger, que conduziu esta entrevista com Stengers, é uma escritora e filósofa belga que colabora para diversas publicações literárias. A conversa foi publicada em Les carnets et les instants, nº. 198 (avril-juin, 2018). https://le-carnet-et-les-instants.net/archives/entretien-avec-isabelle-stengers/?cn-reloaded=1&cn-reloaded=1&cn-reloaded=1 ** TINA é a abreviação de uma célebre expressão de Margareth Thatcher, “There is no alternative”. *** Stengers propôs “a imagem da “intrusão de Gaia” para caracterizar a irrupção irreversível do planeta no primeiro plano de nossas vidas”. Ver o artigo Esse mundo já era, de Bernardo Esteves, publicado na Revista Piauí, edição 97, outubro de 2014. Disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/materia/esse-mundo-ja-era/ **** O GECo (Grupo de Estudos Construtivistas) reúne membros do corpo docente e pesquisadores e doutorandos em filosofia, mas também pesquisadores e doutorandos provenientes de outras disciplinas (sociologia, antropologia, direito, pedagogia, urbanismo). https://groupeconstructiviste.wordpress.com/

Mãos livres
Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos Diários de quarentena - Semana 16 – de 29 de junho a 05 de julho (A pandemia nos une, a classe nos divide) Amanda Moreira* Cheguei à triste conclusão que esta pandemia está despertando o que há de pior nas pessoas. Embora eu siga alternando o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, isso tem se convertido, com frequência, em otimismo ingênuo e pessimismo engajado. Nem mesmo esta tragédia humanitária, que dilacera vidas ao redor do mundo inteiro, tem sido capaz de fazer as pessoas pensarem mais no outro, no bem comum. Infelizmente o coronavírus só veio para acentuar o cada um por si e ninguém por todos, num mundo cada vez mais sem horizonte coletivo e com pessoas cada vez mais individualistas. Neste domingo atingimos a marca oficial de 1 milhão e 580 mil infectados pela Covid e 64 mil mortos. Já passamos do dobro da meta do Jair, e ele não se contenta. Atinge a meta e quer dobrar a meta, mesmo que para isso se valha de medidas estapafúrdias como vetar na lei de uso de máscara a obrigação do seu uso em igrejas, estabelecimentos comerciais, escolas e locais fechados. Nada, absolutamente nada, explica alguém fazer isso em plena pandemia. E ainda tem gente que não entende porque ele merece o título de genocida. Seguimos aprendendo tudo que não presta com quem dá mau exemplo e, neste caso, a população segue os passos do presidente e o presidente segue os passos do único país que nos supera no número de casos no mundo. Assim, EUA e BR seguem liderando o morticínio com duas figuras que dispensam comentários. Com toda a liberação promovida, não deu outra. Farra do boi! O gado bolsonarista saiu de sua cerca de arame liso e logo ocupou as ruas sem máscara, lotando todos os espaços possíveis, felizes, gravando vídeos, debochando, dizendo que a vida voltou ao normal. Normal é parar de morrer gente, estúpido! Mas, para essa gente é a oportunidade de tomar uma cerveja e voltar a “pegar as mina”. Vou repetir: 60 MIL MORTES, e como prêmio: praia cheia, shopping cheio, ruas lotadas, academias, bares e restaurantes voltando a funcionar. Deste modo, o isolamento social se tornou uma escolha individual, bem no pico da pandemia. Esta semana o Rio de Janeiro registrou 168 mortes em 24h. Só na capital temos mais de 7 mil óbitos e quase 11 mil em todo estado. E a galera segue vivendo numa realidade paralela... Não existe amor em SP, no RJ, nem em lugar nenhum. Leblon e Barra da Tijuca com seus bares cheios de almas tão vazias, onde a ganância vibra e a vaidade excita, nos deram a certeza da profecia criolê, ali ninguém vai pro céu. No Brasil a vacina para Covid-19 será muito bem vinda, mas a vacina contra estupidez é a mais urgente. Que asco eu tenho dessa gente egoísta, de enorme umbigo, tudo eu-eu-eu, desrespeitadores, covardes... Tudo isso me faz cerrar os dentes, apertar os lábios. Mas, individualismos à parte, hoje eu vou falar de classe, porque embora muitos não façam isso, pensar na coletividade e nos entender como classe trabalhadora é fundamental. Ficou claro para todo mundo, durante esta pandemia, que são os trabalhadores que fazem a economia girar, que sem o trabalho humano não há saída para a vida em sociedade, que o trabalho gera a riqueza do mundo e que o capital financeiro é parasitário e não serve para nada. Nos últimos três meses e meio, aqueles que nunca foram valorizados mostraram que existem, que fazem falta. O trabalho doméstico relegado às mulheres, vistas como criadas, passou a ser visibilizado. O trabalho dos mais precários são os mais essenciais e todo mundo entendeu que não podemos viver sem garis, sem motoristas de ônibus, sem entregadores, sem trabalhadores da limpeza, sem os trabalhadores da saúde, em sua maior parte enfermeiras e auxiliares. Esta pandemia exasperou as contradições sociais. O vírus, que chegou de avião para matar quem pega o busão, segue escancarando os retratos da sociedade de classes com a reabertura. Esta semana, vimos uma cena aterrorizante: trabalhadores balançando nos andaimes em meio a um ciclone no Sul, num prédio em construção. Havia alerta e mesmo assim eles estavam lá no meio do temporal. Assim como a Covid, desastres naturais seguem matando mais os pobres que, com Corona ou sem Corona acabam morrendo na contramão atrapalhando o público. Nesta pandemia aprendemos também que a solidariedade de classe é fundamental e que se a vida não é garantida pelo Estado, o povo da perifa vai lá e garante (e não deixa de cobrar do Estado!). Assim, tomando o problema nas próprias mãos, preservaram a vida de muita gente. A experiência de Paraisópolis em SP, a quinta maior favela do país, nos faz refletir muito. Os presidentes de rua – lideranças locais que acompanham os casos de Covid na comunidade – têm feito muito mais do que o presidente ou o governador. Se dependesse do governo seria mortandade em massa nas favelas, foram iniciativas como esta, que ocorreram pelo país todo, que permitiram que as pessoas pudessem ficar acolhidas, seguras e vivas. Isso acalenta a gente. Com este caos social instaurado, entendemos que é necessário ampliar as políticas sociais. O auxílio emergencial, implantado com a luta do setor democrático popular, é essencial, e continuaremos lutando pela sua permanência e ampliação, ao contrário do que querem Bozo e Guedes. Lutaremos também para que essa renda chegue à classe trabalhadora e atenda aqueles que mais precisam, pois é uma chacota o que tem sido feito com o programa. Sem coordenação do poder público ele beneficiou mais pessoas do que deveria e está custando mais do que o necessário. O IBGE nos mostrou que 5 milhões de brasileiros e brasileiras em extrema pobreza, com renda mensal até R$ 56,62 (isso mesmo!), não receberam o auxílio, ao mesmo tempo 461 residências com renda acima de 10 mil reais receberam. Um total descontrole do dinheiro público! É um escárnio o perfil de algumas pessoas que conseguiram o auxílio-emergencial destinado à população mais vulnerável. Teve madame com casamento marcado no Caribe que recebeu, gente que frequentemente faz viagens caríssimas pelo mundo que também recebeu. Houve quem gastasse com churrasco pró-Covid e outros que utilizaram o dinheiro para ir ao salão de beleza, enquanto milhões de pessoas que necessitam desta renda para seu sustento tiveram o auxílio recusado. Não há dúvidas, a classe mérdia aprendeu a feder tanto quanto a burguesia, esta que sempre cheirou muito mal, como já dizia Cazuza. O medo da contaminação levou os super ricos a finalmente descobrirem que há brasileiros que não tem água e não conseguem comprar sabonetes. Também descobriram que existem os invisíveis moradores de rua. A mulher do Dória (sim, não sei o nome e não tenho problema algum em me referir a ela assim, porque é só uma parasita mesmo), com aquela boca cheia de botox, falou que as pessoas vivem nas ruas porque querem e porque são preguiçosas. Disse isso sentada ao lado de outra parasita, em ambiente luxuoso, ambas cheias de pose e mexendo naquelas perucas de boneca. A burguesia não tem charme nem é discreta. Não tem nada mais repugnante que essa gente que se sente elevada, que parece não se constipar ou que, constipando-se, não espirra. Eu não consigo descrever o sentimento que possuo dessa gente podre que só quer manter os seus privilégios em qualquer circunstância da vida. Certamente eu colocaria a mão do nariz ao passar ao lado de uma madame daquela só pra não sentir o odor da mesquinhez abafada com perfume francês. “Ainn, mas elas são mulheres, você vai se referir a elas assim mesmo, você não é feminista? Cadê a sororidade?” Sim, sou feminista e não tenho nenhuma sororidade com esse tipo de gente. Eu nunca vou defender essas mulheres burguesas que humilham e exploram a classe trabalhadora. O gênero nos une, a classe nos divide. Para mim não existe luta feminista sem luta classista, assim como não há luta antirracista sem luta anticapitalista. A questão racial nos une, a classe nos divide. A despropósito, esta semana rolou uma polêmica envolvendo o ex-ministro da educação. Não falo do Weintraub, este continua fugido do país. Falo do seu sucessor, o Decotelli, que não durou cinco dias no ministério porque não se segurou diante dos fatos. Falsificou o currículo na cara dura. O cara é a fraude em pessoa. Inclusive, quando foi dispensado correu para colocar no currículo que foi ministro durante cinco dias, o que não considerei mais falsidade e sim patologia. Teve gente na esquerda que passou pano, tolerou a mentira, a fraude. Disseram que por ele ser negro a pressão foi maior, a queda foi mais rápida. Não desconsidero este elemento, considerando o racismo estrutural, mas achei meio rasa esta análise e não acho que caiba defesa de alguém que aceita cargo em governo fascista. De qualquer forma, refleti bastante sobre isso, pois sempre que alguém acusa um assunto de conter racismo, eu paro para pensar e acho que todos que se colocam no campo do antirracismo deveriam fazer o mesmo, especialmente se não são negros ou negras. Neste caso a questão foi política. Embora o governo Bolsonaro seja a expressão do racismo em seu grau mais extremo, o motivo de Decotelli ter rodado teve muito mais a ver com a crise que o governo enfrenta do que com a questão racial, como foi apresentado nas polêmicas de redes sociais. Esse senhor chegou ao governo pelo currículo, não tinha relação forte com o governo, não tinha laços, não tinha o perfil ideológico desejado pelo Bozo. O currículo era única coisa que o segurava, era a seu cartão de visitas. Tanto que a primeira coisa que o tosco do presidente fez foi vomitar o suposto currículo do cara aos quatro ventos. Logo depois veio a fraude, isso ficou mal, péssimo, desgastou. O governo Bolsonaro agora não está podendo comprar barulho, diferente de momentos anteriores que seguram as bizarrices do mestrado bíblico da Damares, do falso mestrado em Yale do Salles e das pirotecnias de Weintraub. O governo está vivendo na base de concessão do centrão e isso está a definir o jogo no tabuleiro. A proximidade com o centrão e com os militares mais milicianos busca uma estabilidade para a corja insana. O velho Bozo, o palhaço antissistêmico, que vocifera contra a globolixo e a Foice de São Paulo, de dentro do seu chiqueirinho no Picadeiro do Planalto, agora está sendo contido. Ele não usa focinheira contra a Covid, mas está sendo guiado na coleira. Entre Decotellis e Damares, eu jamais defenderei um inimigo de classe só pela condição de ser uma mulher, um negro ou um homossexual. Sei que isso é polêmico, já perdi amigos na militância por conta desse debate, porque em geral ele é mal feito, é vazio, liberal. É inegável que há um esvaziamento do debate de classe social e um superdimensionamento do debate identitário. Eita, fui polêmica agora, até nos termos, mas precisava falar sobre isso, mesmo com o risco de ser criticada. Aliás, crítica é uma coisa que a galera tem feito muito bem, o problema é a direção equivocada que faz atingir o lado errado. Tem gente, trabalhadores como nós, da esquerda, que faz a gente se sentir uma opressora identitária. Quando dei uma zoada no ministro postando um diploma verdadeiro (cabe dizer que achincalhar ministros é o meu esporte favorito), quase me disseram assim “não pode postar diploma, sua branca sinhazinha!”. A gente está muito perdido mesmo. A quarentena enlouqueceu mais o que já estava enlouquecido. Há uma inversão doida. Os inimigos de classe passam a ser defendidos e os trabalhadores tornam-se inimigos por terem um suado diploma. E segue a lei do valor e o fluxo. Enquanto a gente se esbofeteou discutindo entre nós se o candidato a ministro da educação mereceu ou não escracho público por ser um fraudador, a gente perde a grana do Fundeb e a educação segue em risco. A falta do debate de classe está levando muita gente a confundir privilégios com direitos, a pensar que não tomar tiro da polícia e poder ficar em casa durante uma pandemia é um privilégio. A gente precisa combater esse discurso dentro da esquerda. Não existe privilégio no seio da classe trabalhadora. Não existe! Só burgueses são privilegiados, parasitas, vacas gordas, que vivem das grandes fortunas, que nunca precisaram mover uma palha e vivem às custas do nosso trabalho. Este tempo poderia nos ajudar a melhorar essas reflexões, que tem a ver com a nossa humanidade, mas isso não vai acontecer se não qualificarmos o debate e melhoramos as nossas organizações. Precisamos de mais solidariedade de classe com os trabalhadores e trabalhadoras e não com a burguesia. Eu queria gritar: Gente, somos uma classe lutando contra a outra! Apesar do patriarcado e do racismo estrutural, existem mulheres burguesas e negros burgueses que não estão do nosso lado! Vamos falar da nossa classe e parar de defender burgueses exclusivamente por seu pertencimento de raça ou gênero? É que em vez de fazer a análise política tem gente, partido e movimentos que gastam um tempo tentando convencer que são de esquerda, mas acabam fazendo a opção e o caminho da burguesia. Acreditam na justiça burguesa, na mídia burguesa, apostam todas as fichas na institucionalidade burguesa e jogam o jogo do capital. Para mim não tem essa, me desculpem. Sair em defesa da Damares, da mulher do Dória, do ex-ministro Decotelli, daquele sujeito que está a frente da Fundação Palmares e de outras mulheres, e de outros negros que estão com esse governo é ir na contramão da luta de classes, é dar apoio àqueles/as que desejam arrancar as nossas unhas a alicate, apagar cigarros na nossa testa e outras lisonjas dos fascistas. Mas, o debate que tem rolado por aí está fugindo muito dessa vibe. Falar de classe é quase old, fora de moda. O tribunal da internet não gosta muito e sempre parte de julgamentos vazios. Se você postar uma frase com uma vírgula a menos vão dizer que você falou uma atrocidade. Se você disser “Vou comer, gente!” e esquecer da vírgula, vão te acusar de canibalismo. E parece que para quem é de esquerda a cobrança só aumentou. Tudo tem que ser milimetricamente certo, não pode ter erros e quando se erra os "companheiros", militantes, estão ali, como abutres, para tentar acabar com você. Nesse jogo da política, as forças continuam a ter como prioridade, a sua autoconstrução, os ataques são a prática cotidiana. Solidariedade? Empatia? Conversa? Imagina... Muitas vezes dentro da esquerda o que há é cobrança e grosseria. Como sempre as pessoas deduzem mais do que conversam. É na luta que a classe se faz classe. Não é na segregação. A gente precisa se aprumar. Pegar o rumo do barco porque ele está afundando e levando todo mundo. A luta de classes é como um jogo de futebol. Precisamos entender o lance, olhar o jogo com estratégia para não continuar colecionando mais derrotas no placar. A rejeição de Jair tem o nível mais alto desde que ele assumiu. São diversas ameaças de impeachment, inclusive pela via do TSE, e os filhotes estão todos indiciados. Resumindo, Jair está todo cagado. Mas ele tenta se manter em jogo e faz de tudo para impedir que o povo vença no final. Jair anda desesperado para se manter em campo. No mesmo dia que divulgou a prorrogação do auxílio-emergencial (mesmo que não chegue no bolso das pessoas devidamente) promoveu o Mengão “de graça” no YouTube. Foram 4 milhões de pessoas assistindo um jogo de futebol de um time que hoje tenho vergonha de torcer. Nos comentários enxurradas de agradecimentos feitos por um povo que ignora a promiscuidade entre os presidentes do Flamengo e da República. A fórmula é: Duas parcelas de auxílio emergencial + jogo do Flamengo por Streaming = carta branca para o governo genocida seguir matando pobre. Nesse governo a política do pão e circo é temperada com ódio e resulta em morte. E assim voltou a ter jogador em campo, comemorando gol no Maracanã, no patético campeonato carioca, enquanto pessoas morrem no hospital de campanha ao lado, em só mais uma revelação da miséria humana a que chegamos. O Brasil sempre foi de mal a pior. Digamos que quem é trabalhador aqui luta todos os dias para permanecer vivo. Só que hoje está ainda mais difícil viver por aqui com a política da morte funcionando a todo vapor. Resta saber quantos sobreviverão ao covarde genocídio em curso em nosso país. Mas, há resistência! Um novo semestre se inicia e ele começou muito bem! 1 de julho foi um dia histórico nas lutas da classe trabalhadora. Quem pensou em ver uma greve de motoboys? O #BrequeDosApps mostrou a que veio, os jovens das periferias, que carregam comida nas costas sem ter o que comer, deram aula, não só no Brasil, mas na América Latina. Uma verdadeira lição de internacionalismo proletário. Em poucos dias de articulação materializaram o ideal de união latino-americana que defendemos há séculos e pouco fazemos. Mostraram que a luta é uma só, que a classe trabalhadora deve lutar sem fronteiras por direitos, contra o Estado e o Capital. Foi um verdadeiro marco na luta de classes no que diz respeito à uberização do trabalho. Parar a produção agora é “não peça nada” e assim frear a circulação do capital. O motor das motocas poderá ser um capítulo central no motor da história. O precariado está nos ensinando como se faz a luta. Precisamos aprender com eles, reinventar os nossos sindicatos, saber utilizar as redes sociais e centrar o fogo para o lugar certo. O velho está morrendo e o novo sempre vem. Esses movimentos nos dão força. A vacina contra a Covid é a nossa esperança para voltarmos à vida normal e os trabalhadores precarizados são a nossa injeção de ânimo para derrubarmos o capital. O Galo cantou “Se você entrega a sua força de trabalho você é entregador. Somos todos entregadores!”. É verdade. Precisamos de solidariedade, organização coletiva. E assim como os entregadores, os professores também estão dando a lição. Não vão voltar a trabalhar na próxima semana como querem os donos das escolas privadas. É greve pela vida! Educadores mais entregadores juntos numa só classe. A luta é uma só contra a uberização do trabalho e da vida que atinge a todos nós. Trabalhador unido, jamais será vencido! Tudo isso dá uma injeção de ânimo na gente. Faremos de nossas lutas dispersas uma revolução? Não tenho dúvidas! Quando? Não sei. Precisamos de líderes, estratégias, programas. Ainda estamos muito longe de ser uma oposição de verdade. Somos só umas pessoas legais, de punhos erguidos e cerrados, cheios de ideias, humanos pra caramba, dotados de algum voluntarismo e mais nada, por enquanto. Ainda somos só umas crianças ingênuas protestando porque os pais não deixaram descer pro play, quando está claro que deveríamos era estar tocando fogo no parquinho todo. Mas, um dia a gente chega lá. Nos inflamaremos e não sucumbiremos à desgraça de um vírus oportunista e um verme inoportuno. Eles terão o que merecem: a nossa resistência, implacável, sempre. Vamos pra cima desses féla! * Amanda Moreira é professora da Uerj, Doutora em Educação e Cronista pandêmica de fim de semana. Metrópole Rô Carmo* O ano era 1983, me lembro bem. Estudávamos, as quatro irmãs, em um colégio no centro da cidade, e tínhamos que subir a imensa e famigerada rua da Bahia diariamente, pra chegar à escola. Minha irmã Meirinha, alguns anos mais velha, segurava minha mão; e isso me conferia uma soberba liberdade: presa assim, elevava os olhos acima dos imensos edifícios...abria as asas. À iminência de qualquer perigo, ela apertava minha mão e eu aterrissava em terra firme. Acontecia largas vezes ao longo do trajeto. Entanto, no meio do caminho, havia O cinema. Sim, “O”: não conhecia nenhum outro, por dentro ou por fora. Ganhava meu olhar de pronto! Os cartazes eram janelas pra um mundo que nunca soubera, mas já amava. Era uma sugestão diária, que se insinuava na ida pra escola e se concretizava na volta. Nomes de filmes dançavam na minha cabeça, cartazes suscitavam histórias e o resto eu resolvia só, imaginando. Enquanto desenrolava a tarde, em meio às aulas, construía, a partir do pouco que capturara dos cartazes com meus olhares oblíquos, todo o resto necessário: cenário, roteiro, música. Certo dia do ano de 83, outono/inverno, por certo_ ainda sinto a mão fria de minha irmã a guiar-me_ meu olhar procura, como de hábito, o refúgio de sempre. Nesse átimo de segundo, já eu antecipava o sorriso, sabendo que veria os cartazes de “Tootsie” estampados nos dois batentes das janelas do cinema, bem como o nome “Dustin Hoffman” em letras grandes acima da porta principal. Não...não foi isso que vi. E, pela primeira vez, quem guiava a caminhada era eu, puxando veementemente a mão de minha irmã, forçando-a a atravessar a rua pra ver de perto o que seria o fim de meus sonhos? O prédio do cinema estava em frangalhos: tapumes pra todo lado, escombros aqui e ali...passantes. Como podiam passar sem perceber que “O” cinema_ e isso abarcava, na minha meninice, todos os cinemas do mundo_ vinha abaixo? E pensava: Não tive a chance! Imaginei incontáveis vezes minha entrada triunfal pela porta da frente, supondo seguramente que veria o melhor filme de todos os tempos; mas não tive a chance. Mais que isso: roubaram-na de mim. Como poderia, depois desse desacontecimento, seguir Bahia até a escola? O que me esperaria na volta? Naquele dia, como nos próximos que se sucederam, testemunhei a vagarosa demolição do Cine Metrópole. Nenhum cartaz pra instigar minhas histórias, nenhuma música pairando sobre a cena inventada. Cena? Que cena? E a cada olhar lançado para os lados do prédio (art déco), cada dia menor; me assaltava uma tristeza funda, e uma dúvida incessante tamborilava em mim: Seria o cinema só ilusão? * Rô Carmo é graduada em Língua e Literatura brasileiras e pós graduada em Educação Musical. Professora na rede municipal de ensino de BH há 26 anos, sempre pautando sua docência na crença de que a leitura é uma experiência de descoberta e libertação. Militante da literatura, possui um blog de divulgação de crônicas em língua portuguesa desde 2019. Amanheceu... [primeiro texto da série de mesmo nome] Maria Helena Miranda* Amanhece na cidade Tanto movimento... Gente apressada, Lojas abrindo, Sol, muito sol Correria... Pra quê? Crianças caminham para as escolas Homens pro trabalho Alguns para o fim. Livraria abrindo, Livro na vitrina “Cem anos de solidão” Cem anos? Não, apenas dezesseis. Rapazes vazios em bares cheios. Gente alegre, gente triste, Gente, apenas. Eu também. Assalto à luz do dia Nervosismo da pessoa assaltada Calma dos outros. Livrarias vazias Boutiques cheias Importância da embalagem. Casa de discos Vitrolas berrando Gente procurando A música que já não quer ouvir. Casa de flores Gente que olha as rosas indagando o preço É, sempre o preço... Carros luxuosos Com gente triste. Crianças famintas Que ainda sorriem. É... amanheceu. [21 de novembro de 1970 Colégio Estadual Brigadeiro Schorcht] *Maria Helena Miranda, quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. (anti)Freud Tássia Veríssimo* Que medo é esse que os homens têm das fêmeas que falam? Medo desse sangue que escorre por entre as pernas e medo das pernas abertas que parem o mundo Verdadeiro pavor nutrem os homens dessa potência nas filha de Eva Medo da fêmea que goza apenas porque quer Se a deusa nos deu hímen foi apenas como proteção não como selo de valia A deusa nos deu clitóris A eles? Sobrou apenas inveja. *Tássia Veríssimo é escritora desde antes de saber escrever. Formada em Produção Editorial pela UFRJ e mestra em Literatura Brasileira pela UERJ, está lançando a marca Insones Poemas (@insonespoemas) na qual transforma frases-poemas em vestuário e acessórios de moda. Uma carioca amante dos pinguins e dos abraços apertados.

Respeita nossa história: Marli Pereira Soares
Respeita nossa história: Marli Pereira Soares

Bruna Cássia Nascimento Fonseca* “No dia que aconteceu, se pensasse no que já passei e no que ainda vou passar, acho que teria deixado só por conta da justiça de Deus. Mas senti aquela revolta: ver tirarem meu irmão de dentro de casa dormindo, espancarem na minha frente, na frente dos meus filhos, pouco adiante matar igual a um cachorro! Podia ter ido à delegacia e dizer que não sabia quem matou, mas disse: foi a polícia civil e militar. Agora não penso em desistir. Vou até o fim, só paro no dia que morrer. Vou. Acho que só não crio coragem é pra ter medo de barata!(…) Minha mãe falou: 'Toma vergonha nessa cara! Mulher que é símbolo da coragem no mundo inteiro correndo por causa de barata...' Tenho pavor de barata, de polícia, não" (SILVA, Ano, p.16) Marli: mulher jovem, negra de Belford Roxo, Baixada Fluminense. Trabalhadora de serviços domésticos. Nascida e criada na zona metropolitana do Rio de Janeiro. Juventude difícil, com poucas oportunidades. Mãe, irmã. Separada. Sua vida mudaria completamente na noite de 12 de outubro de 1979, quando, aos 27 anos, presenciou, junto com seus dois filhos menores, o irmão Paulo Pereira Soares ser retirado de casa, sequestrado e, dias depois, encontrado morto próximo dali. Assassinado com três tiros. Segundo relatos, por um grupo de extermínio da região conhecido por ser composto por policiais militares do 20o Batalhão, próximo ao local do assassinato. Ela viu os rostos dos acusados. Diante de tamanha brutalidade precisou ressignificar o luto e enfrentar uma segunda violência. Além de viver a trágica perda do irmão por assassinato, iniciava a partir dali uma grande saga de busca por justiça, em plena ditadura civil-militar, exigindo das autoridades locais a investigação e a punição dos responsáveis dos crimes que o vitimaram. Uma busca que durou meses, anos. Inicialmente exposta a reconhecer dezenas de policiais militares daquela jurisdição todos os dias, olhos nos olhos, sofrendo constrangimentos e resistindo a ameaças constastes para desistir de prosseguir, ou sofrendo coerção para reconhecer quem ela não viu na cena do crime. Caso de grande notoriedade jornalística, praticamente tornou-se uma coluna especial de muitos destes periódicos. Na TV, concedeu dezenas de entrevistas. Muitos foram os registros fotográficos de Marli, ao centro da cena, fazendo reconhecimento diário de policiais. Virou símbolo para movimentos feministas no Brasil (Revista Mulherio) e no exterior (Revista francesa feminina, F Magazine, que publicou a entrevista "Marli, um símbolo de persistência” como referência da luta feminina – fonte: Revista Mulherio) os movimentos negros pelo seu exemplo de perseverança, com o Movimento Negro Unificado. Inspirou de artigo a artistas badalados que interpretavam o momento, como a música “Mulher, coragem”, em 1980, de Ivan Lins e Vitor Martin. “Agora, em setembro, faz um ano que estourou o Caso Marli, no Rio de Janeiro. Depois que um batalhão de policiais matou o seu irmão Paulo P S Filho em Belford Roxo. Crime na Baixada Fluminense não é novidade (mais de 99% dos presuntos são negros), mas acontece que a empregada doméstica Marli resolveu apurar os culpados. Dois ou três policiais foram incriminados e o resto continua impune. Para isto Marli foi obrigada a lutar até contra o promotor público do caso ilegível(mandou suspender o reconhecimento dos assassinos. Os três tiros que seu irmão levou não intimidaram Marli que resiste na acusação e, por isso é considerada como símbolo da resistência à violência policial indiscriminada, assim como propôs o Movimento Negro Unificado.” (SNI, 1481-1982, p. 119) A política de extermínio sobre a população negra traria mais um episódio na vida de Marli. Não seria a única vez que ela sofreria com a morte de um familiar assassinado e presenciado policiais como principais suspeitos. 14 anos depois, ainda sob a sombra da impunidade pelo assassinato do irmão, Marli veria a vida, dessa vez de seu filho de 15 anos, também ser violentamente interrompida. O sonho do menino Sandro de ser militar, havia terminado em 9 de janeiro 1993, também a tiros, quando foi assassinado e seu corpo encontrado num terreno baldio em Jacarepaguá, perto da nova residência da mãe. Marli chorava novamente à frente do corpo de seu descendente. Ela seguiu, mais uma vez prometendo lutar contra a impunidade. Por toda a sua postura, mesmo em vista a uma dor imensurável, Marli foi e é um símbolo de resistência, monstrando a força e a firmeza de uma mulher negra, de origem humilde e da periferia. Ela questionou o Estado, tanto durante a Ditadura Civil Militar, quanto após a abertura, na defesa da sua família, mas não apenas isso, pois seu sofrimento era, e infelizmente ainda é, compartilhado pela população negra e periférica. Em sua batalha ela recorreu aos jornais e fez sua voz ser ouvida na imprensa nacional. Assim, trouxe à luz a realidade de várias pessoas pobres e negras nas periferias das grandes cidades, que diariamente convivem com um cotidiano de violência e medo de se tornarem as próximas vítimas da necropolítica do Estado que sistematicamente segue matando mais homens negros pobres e jovens; pessoas que perdem seus planos, seus sonhos, que fazem falta para tantas outras mulheres negras, por serem seus filhos, irmãos, companheiros e companheiras. Recentemente sua história voltou a ter visibilidade com o lançamento do livro “Heroínas desta História”, em que divide o espaço de representatividade com mais 14 mulheres que lutaram pela manutenção da memória de pessoas queridas assassinadas dentro deste período de repressão política. Marli Pereira Soares sempre é lembrada pelos movimentos sociais por conta da sua luta por justiça. Deve ser lembrada como uma importante personagem na luta contra as violências ocorridas no período da ditadura no Brasil e principalmente representar a insubmissão frente a política de extermínio de negros e pobres que segue atuante na sociedade brasileira até hoje. * Mestranda em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2020-1/2022-1). Licenciada em Artes Visuais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2019-1/2024). Bacharel em História pelo Instituto de História da UFRJ (2011). Licenciada em História - FE-UFRJ (2013). É natural do subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, busca em suas  escritas e obras resgates possíveis da sua trajetória e de inspirações históricas, valorizando as africanidades existentes nos afetos e nas lutas. Segue também por uma jornada pelo autoconhecimento, valorizando suas andanças cotidianas e reinterpretando sensações do passado. Do pastel de carne de Vila Isabel, ao toque das ondas de Copacabana nos pés, passando ao teste do acebolado cachorro quente do Méier com os namorados, indo ao Cabernet Sauvignon no Andaraí com a mãe, ao som de Emílio Santiago e Bethânia, chegando ao duplo grito de gol flamenguista das vozes confundidas com o pai, há caminhos, sons e afetos inesgotáveis e que seguem em mistura e investigação. Um pouco dessas traduções também passam pelas experiências como bacharel e licenciada em História pelos bancos do IFCS e corredores da Faculdade de educação da UFRJ. Segue caminhando hoje  pelas salas do 11º  andar  como licencianda e mestranda em Artes Visuais na UERJ. Referências do texto GONZALEZ, Lélia. "Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira". In: SANTANA, Bianca (org.). Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: do século XVIII à primeira década do século XXI. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2019. Disponível em : https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/. Acesso em: 07 Ago. 2020. LINS, Ivan e MARTIN, Vitor. Coragem, Mulher. Álbum: Novo Tempo. 1980. LP Disponível em: https://www.letras.mus.br/ivan-lins/901489/ Acesso: 09 Ago. 2020. SERVIÇO Nacional de Informações (SNI) – Informe 1481-1982/119 – Dossiê Movimento Negro Unificado – Arquivo Nacional – Localização: BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_EEE_82011816_d0001de0001 SILVA, Marli Pereira da. “Marli, um símbolo de resistência. Entrevista concedida a Maria Tereza de Moraes, Revista Mulherio, p. 16. Disponível em: Dossiê pelo Serviço Nacional de Informações - Arquivo Nacional. Localização BR_RJANRIO_TT_0_MCP_AVU_0308,fl 108 Disponível em: https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/ Referência das imagens Imagem de Marli Pereira Soares. Disponível em http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/ JACOB, Alberto. Reconhecimento. A tropa do 20º BPM, enfileirado para Marli reconhecer os assassinos do irmão, 1 fotografia. FO08 Abr. 1980. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/domestica-botou-tropa-em-revista-para-reconhecer-os-assassinos-do-irmao-10561218, Acesso em: 07 jun. 2020. Revista Mulherio. Julho/ Agosto de 1981. p. 16. Disponível em: Acervo Arquivo Nacional - BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_AAA_81018229_d0001de0001

Tá rolando...
Tá rolando...

1 - KETLLYN FERNANDES Recomendamos o trabalho da artista plástica Ketllyn Fernandes - que nós conhecemos por acaso, buscando uma imagem no Google para ilustrar a seção “Na gringa” 😄.  Ela tem um canal bem bacana no YouTube onde fala sobre aquarelas e dá várias dicas sobre essa técnica. Saiba que se você ainda não comprou (ou planejou comprar) um tapete de yoga e um kit pra aprender aquarela, você tá vivendo essa quarentena da maneira errada… hahahaha. Então, confiram! Ketllyn Fernandes Ateliê https://www.youtube.com/channel/UCWRurj1_O1qHweJavRsDJ6g). Você pode encontrar (e comprar) o trabalho dela aqui: https://www.urbanarts.com.br/prints/ketllyn-fernandes?O=OrderByScoreDESC,no  Pinterest: https://br.pinterest.com/ketllynfernandesdeaquarela/boards/ ou no Instagram @ketllynfernandes.ateliê 2 -  CANAL MORAL DA HISTÓRIA Nesse clima de quarentena a professora Lívia Barbosa criou uma um canal pra se  aproximar de alguma forma de alunxs, ex alunxs e de quem mais de interessar por História! O projeto Moral da história contém vídeos e conteúdos didáticos, sem abrir mão da densidade e crítica histórica. Lívia vai além da sala de aula, ocupando as redes sociais com a finalidade de fazer um conteúdo democrático, plural, com o rigor metodológico de uma historiadora e a didática de uma professora! Corre lá no @moraldahistoria_canal. Todo dia tem conteúdo novo e em breve vídeos no canal do YouTube link: https://m.youtube.com/channel/UCfhOHkXaWn0UHvuDz1SKaBg 3 - A TECNOLOGIA DAS MULHERES (INSTAGRAM) Laura Thais Batista teve a ideia de criar uma comunidade quando entrou no curso de Redes de Computadores. Dos 47 alunos matriculados no curso, apenas 7 eram mulheres. Após realizar uma busca na internet, constatou a inexistência de uma comunidade que trouxesse a história de mulheres na tecnologia. Laura começou a pesquisar sobre essa disparidade de gênero gigante na área e passou a refletir sobre o que ela poderia fazer para mudar essa situação. Foi assim que nasceu o instagram A Tecnologia das Mulheres. A rede é um lugar para empoderar, apoiar e incentivar mulheres. Para as mulheres que já estão na área de redes de computadores, o instagram funciona como um lugar aberto ao diálogo e compreensão, já para as estudantes da área que ainda estão receosas com o curso, a rede ajuda a tirar dúvidas e a demonstrar como a Ciência e Tecnologia pode ser uma ótima opção de carreira. Sigam a @atecnologiadasmulheres! 4 - CRÔNICAS DA QUARENTENA O artigo de Andreia Vizeu publicado neste número integra a antologia "Crônicas da Quarentena", lançada pela Páginas Editora, de Belo Horizonte (MG - Brasil), composta pelos textos vencedores do concurso literário lançado em março. A ideia foi coletar relatos das experiências desse momento ímpar que vivemos. O cotidiano do isolamento social rendeu excelentes narrativas, e neste livro o leitor encontra crônicas e alguns relatos que podem ser classificados como contos, ora divertidos, ora dramáticos, mas todos certamente muito bem escritos. Em breve o livro estará à venda na livraria internacional Buobooks. No Brasil, pode ser comprado no link https://www.paginaseditora.com.br/product-page/cr%C3%B4nicas-da-quarentena. 5. COLEÇÃO SABERES TRANS A Coleção Saberes Trans é composta por quatro obras escritas por mulheres trans, que discutem sexualidade e gênero em diferentes áreas, tais como educação e  psicologia. Os livros são “O diabo em forma de gente: (r)existências gays, afeminados, viados e bichas pretas na educação” e “Nem no centro nem à margem: corpos que escapam às normas da raça e gênero” ambos de Megg Rayara Gomes de Oliveira; “Crianças trans: infâncias possíveis” de Sofia Favero; e “Pedagogia da desobediência: travestilizando a educação” de Thiffany Odara. Apesar de ser um lançamento, recomendo a Coleção Saberes Trans por conhecer o trabalho da Megg Rayara, ela é a primeira travesti negra a defender o doutorado no Brasil, atualmente, professora adjunta da UFPR na área da Educação e tem dois livros na coleção, um deles é a sua tese de doutorado, publicada em 2017, que se propõe a discutir as diferentes formas de discriminação aos corpos negros, homossexuais, gays afeminados, viados e bichas no sistema educacional, propondo estratégias de resistência, assim como ressignifica os adjetivos citados transformando-os em categorias científicas. Outro bom motivo, é que a coleção pertence a uma editora independente, que se propõe a publicar autorxs LGBTs sem custo de publicação. As obras estão sendo divulgadas na loja da Editora Devires, entre outros livros das Ciências Sociais e Ciências Humanas referentes às pesquisas sobre sexualidade, relações de gênero, raça e classe, disponíveis no sitewww.queerlivros.com.br(valor da coleção R$130)

"La Gringa": Andréia Vizeu
"La Gringa": Andréia Vizeu

Não posso respirar Andréia Vizeu* Nos últimos dias, saímos de um silêncio sepulcral, onde barulhos de sirenes significavam um adeus solitário da morte, e passamos a um momento explode coração, barulhento, empoderado e vital… os dois momentos involucrados em medo e falta de ar. Isso me leva a essa crônica sombria, mas necessária. Nova Iorque sempre encontrou formas de me proporcionar tranquilidade e sorrisos. Posso caminhar pelas ruas a qualquer hora em qualquer lugar. Aqui conquistei meu espaço e não tenho medo de ser feliz. Tenho amigos, dois filhos maravilhosos, vida cultural interessante, trabalho que gosto, e todas as possibilidades que esse mundo nos oferece sem sequer sair do meu bairro. Pode parecer exagero, mas amo essa amálgama de gente, de cultura, de cheiros, sabores e amores. Faz mais de trinta anos que esse mosaico me seduz. Mas, agora, o medo e a revolta batem à porta. Rompemos momentaneamente com a quarentena para sair às ruas em protestos por vidas negras ceifadas pela polícia. A polícia tira mais ar que o COVID-19. As sirenes, que há pouco salvavam vidas, agora se aliam à opressão e ao uníssono dos gritos “Eu não posso respirar”. Essa foi a última frase dita por Eric Garner, pai de um ex-aluno, homem negro, assassinado pela polícia anos atrás. E também a última frase de George Floyd, cuja vida foi sugada por um joelho vampiro de um policial branco. Quase em flashback do movimento pela liberdade civil, o povo com o coração doído e inspirado por falas como de Angela Davis, Malcolm X e Martin Luther King Júnior toma as ruas. Riscos e os medos do vírus são esquecidos e a cidade, forçada a um sono pela pandemia, desperta com a brutalidade sofrida por Floyd. O povo, que teve seu ar sequestrado pelos fabricantes de cloroquina, retoma as ruas numa mensagem direta contra o preconceito rico, branco e vil. Tudo se transforma num campo de guerra. “Vidas Negras importam”, “Sem Justiça não há paz”, são gritos de ordem desse povo. Vida ameaçada pelo vírus e morte que chega por mãos brancas que juram proteção, enquanto violentam e oprimem. Já estávamos sem ar faz tempo, mas estávamos adormecidos. Hoje, enquanto escrevo – treze dias depois da imagem dos nove minutos da tortura e asfixia de George Floyd nos sacudir – a luta por resgatar a humanidade roubada do povo negro pela escravidão ocupa o país. Angela Davis, poderosa, nos inspira: "Não basta não ser racista, temos que ser antiracista". Que assim seja. *Andréia Vizeu - Bacharel em comunicação Social pela UFMG e Mestre em Educação pelo City College New York/City University of New York. Ativista em prol dos direitos humanos, contra o fascismo e o imperialismo. Co-produtora/apresentadora do programa semanal Voices of Resistance na WBAI FM/Pacifica Radio Network e professora do sistema público de educação da cidade de Nova Iorque onde vive com seus dois filhos e seus gatos.