Edição 13

Tá rolando...
Tá rolando...

1 - I Congresso Internacional Lélia Gonzalez O evento ocorre entre os dias 24 a 26 de novembro e é organizado pelo Grupo de Pesquisa Lélia Gonzalez. O congresso tem como objetivo debater questões ligadas aos movimentos sociais, direitos humanos, gênero, desigualdades sociais, violências, educação popular e teorias decoloniais do campo das ciências humanas e sociais. Será um encontro de estudantes, docentes e militantes do Brasil, além de também contar com a participação de colegas da Argentina, de Cuba, do México, de Porto Rico e da Colômbia. A atividade conta com mesas de abertura, mesa de encerramento, mesas redondas e GTs para apresentação de trabalho. As vagas são limitadas e os valores de participação são de 18 reais (ouvintes) e 25 reais (apresentação de trabalho). O formato de realização é remoto e ocorre por meio da plataforma Zoom. Para maiores informações, envie um e-mail para: grupoleliagonzalez@gmail.com 2 - Tamojuntas - Assessoria Multidisciplinar Gratuita para Mulheres em Situação de Violência O Tamojuntas é uma organização não governamental sem fins lucrativos, fundada em maio de 2016, em Salvador, no Estado da Bahia. A organização é composta por mulheres profissionais que atuam voluntariamente na assistência multidisciplinar a mulheres em situação de violência e que possui voluntárias em diversas regiões do Brasil com atuação local e nacional na perspectiva de denunciar e combater a violência contra a mulher em diversos níveis fundamentando seus princípios, posturas e práticas na perspectiva feminista, antirracista, anticapitalista, anti LGBTQIfóbica. A ONG presta assessoria jurídica, além de assessoria social, psicológica e pedagógica. Os atendimentos reúnem cerca de 70 voluntárias em 30 cidades brasileiras. Além dos atendimentos, a iniciativa também promove a divulgação de conteúdos sobre direitos da mulher em suas redes sociais e realiza eventos como seminários, rodas de diálogo e encontros. Para mais informações, confira o site do Tamojuntas: https://tamojuntas.org.br/ 3 - INÊS E AS LINHAS, POR ANA CLARA VERAS (FESTIVAL FESTIM) O espetáculo “Inês e as Linhas” é um teatro em miniatura de autoria da artista Ana Clara Veras. Usando a técnica boneco de Vara e teatro em negro, Ana Clara Veras conta a história de Inês. Em várias sociedades existem mitos e contos sobre as linhas invisíveis que conectam as pessoas mundo afora. Inês é apenas uma mulher que pode ver essas linhas, inclusive as pode ler. Com os olhos dentro dessa casa, seguimos os elos que nos levam até essa mulher leitora, e as linhas que não pode ler. O espetáculo possui 02 minutos e 04 segundos de duração, possui classificação livre e fez parte da programação da nona edição do FESTIM - Festival de Teatro em Miniatura. Nos dias 23 a 29 de outubro de 2021, o FESTIM promoveu um grande encontro pelas plataformas digitais. A nona edição do Festival foi realizada 100% em formato online. A programação do festival, que agrega conteúdos do Teatro de Animação, Literatura e Audiovisual, contou com a exibição de 50 espetáculos, 5 oficinas virtuais e 7 bate-papos com os artistas participantes. A 9ª edição do FESTIM foi realizada pelo Grupo Girino com recursos da Lei Aldir Blanc, com realização do Ministério do Turismo, da Secretaria Especial de Cultura do Governo Federal, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Não deixem de conferir no youtube! Ficha Técnica do espetáculo “Inês e as linhas”: Texto, manipulação, edição - Ana Clara Veras | Operação de câmera e luz - Javier Díaz Dalannais | Música original - Gleika Veras | Fotos - Ana Clara Veras Link do espetáculo “Inês e as linhas”: https://www.youtube.com/watch?v=s5jYX88ouNU Link para o festival FESTIM: https://www.youtube.com/channel/UC3w5E0qXJXHJmiZk82s4s9A 4. ARTISTA RAFAMON Rafaela Monteiro, ou apenas RafaMon, é artista, carioca, ativista LBGBTQIA+, feminista. Embora tenha nascido na cidade de Monte Sião, Minas Gerais, a artista adotou como casa o Rio de Janeiro. RafaMon possui um estilo colorido e marcantes em suas produções artísticas que embelezam as ruas da cidade carioca. Acompanhe suas produções por meio do instagram @rafamon e confira seu trabalho em: https://www.rafamon.com.br/index.html 5. CANTORA MARIANA FRÓES Mariana Froes é uma jovem cantora e compositora brasileira. Com apenas 18 anos de idade, Mariana tem trilhado um caminho de sucesso nas redes sociais, meio em que ficou conhecida com a divulgação de seus trabalhos. Nascida em Goiânia- GO, Mariana Fróes cria versões próprias de músicas famosas, tais como “Girassóis de Van Gogh”, do artista Baco Exu do Blues. A sua versão do single viralizou nas redes sociais. Seu álbum mais recente se chama “Caos” e está disponível em todas as plataformas digitais. Para conhecer melhor o trabalho da artista, acesse o seu canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAvuRrHQnT-4EVj-oqGUBOA

Mãos Livres (13ª Edição)
Mãos Livres (13ª Edição)

A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte Final Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pra minhas dúvidas; queria não ser humana. Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior, enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava! Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi, então, que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados, ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava, e desviava o olhar pro chão, e me olhava de novo, e gaguejava, e suspirava, e derretia sob o sol de inverno, e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros. “Não é fácil pra mim te dizer isso...”. Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...” “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...” “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não se encontra homem que preste, nem pruma transa... te contar que a vida não tá fácil... hahahahaha. O que foi?!! Que cara é essa?!” “Só achei que sua reação seria outra...” “Mas me conta, você tá comendo alguém?” “(...)” “Fala! (risos)” “Não.” “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!” Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha. Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir por ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele... Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade, acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados? Mas é claro q nós sabíamos q eu te escreveria. Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar. Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções. Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho. Queria não me sentir estranha... e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo (...) vida q segue. *Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal DE QUANDO FUI UMA JOVEM BRINCANTE Aline Sampin* Se eu fosse mais jovem Amava o domador Do circo da cidade. Não tenho mais amor Nem tenho mais idade. Pudesse eu ser criança. Me enamorar pelo palhaço Que toda vida não se cansa De brincar com seu fracasso. O passado vinha devagar, Espiando, sorrateiro que só, Cada passo que dei de amar. Toda pisada errada era um ai de dó. E mais um ponto para o azar. Mais um tropeço para o amor. Agora digo, sem mais delongas, Tanta coisa, tenho visto. De trato tão pobre e tão rico. Que não me faltam ditas lonas Nem mesmo lembro do meu/circo. *Aline Sampin, 38 anos, é atriz, com 20 anos de carreira no teatro e já foi premiada em festivais no Rio de Janeiro e em outras cidades pelo Brasil. Possui bacharelado e licenciatura em teatro pela UNIRIO e é mestra em história do teatro pela mesma instituição. É professora de artes cênicas da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 10 anos. Aline também é poetisa e artista plástica autodidata: trabalha com técnicas como desenho em grafite, carvão e pinturas em aquarela e giz pastel. Casada há 4 anos, tem uma filha de dois anos, que passa boa parte dos seus dias a rabiscar. Site (em construção): www.alinesampin.com PROFANAÇÃO Gabriela Mitidieri* aprendi que sou duro (ao mesmo tempo delicado) discreto, cruzado, concentrado o ideal é que eu quase suma (disseram) magro, não forte regrado, limitado, enclausurado letrado (minto, não muito) sob medida o chá de revelação é todo dia marcado na pele do corpo da menina disseram que sou sagrado me deram modelos vários vai, Maria, ser santa na vida reaprendi que sou dádiva, matéria em expansão puro gasto jogo a beleza do inútil o contrário da angústia dança que ocupa e enreda com tecidos, tendão, torção conjunto de células vivas irrigadas, agitadas pipa voada puro suco de contravenção (deixa eu dançar). *Gabriela Mitidieri é doutora em história com ascendente em antropologia e experiência nos ensinos básico, superior e de línguas. Professora de francês em formação e editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Aprendiz de acrobata e praticante da esperança equilibrista. Instagram: @gabimitidieri86 | Twitter: @Gabi_Mitidieri SOCIEDADE DOS POETAS METALINGUÍSTICOS Lya* a partir de "Carta ao Zezim", de Caio Fernando Abreu Querido Caio, Eu não quero escrever. Invento desculpas, busco ocupações, consumo distrações, colho insônias, testo receitas, repito filmes, viro sommelier de séries, fiscal da natureza e testemunha ocular do tédio. Escrevo. A contragosto, pois a escrita é espelho com eco: a lágrima, o vômito, a verdade incômoda, o medo da falha, a vergonha do aplauso, a fuga, o encontro, a construção, a melancolia, a erupção, a ruína, a catarse. É minha latrina. Meu melhor e meu pior. Ventre, fluxo, gozo, escarro, esgoto, velório. Exorcismo das emoções que joguei pra debaixo do tapete do miocárdio. A usurpação gráfica dos meus sentimentos. Tenho medo de ir na cozinha de madrugada e me deparar com um poema falando coisas de amor. É deitar-se nua no divã com o carrasco. Fazer uma entrevista de emprego com a mulher perfeita, bem-sucedida-comida-amada que eu seria aos 30. Andar de mãos dadas com o espectro dos meus fracassos. Abraçar o chorume da lembrança. Tentar explicar para a minha criança de estimação como falhamos até aqui. É o caminhão das derrotas passando na sua rua! Um convite ao passado pra passar tempo com o presente enquanto fofocam sobre o futuro. Tempo, futuro, legado. Meio milhão de mortes te fazem questionar a vida. 34 anos na cara e ainda perdida. É foda! Quem diria, aquela menina prodígio, aluna nota dez, com tamanho potencial para mudar o mundo, agora não passa de um peso morto prestes a virar poeira cósmica. Um total de zero feitos para ostentar na lápide. Que morte horrível! Um desperdício! Aquele passado tinha tanto futuro! Vai fazer a passagem sem fazer diferença, falta ou alarde. Menos um nome na Wikipedia. "Esperávamos mais de você." Eu também, Caio. Eu também... O que você quer ser quando morrer? Isolada em meu casulo, lagarta estagnei. Pérola em ostra não gerei. Farta de ser farsa, meus dedos niilistas calei. O sol tá em câncer e eu, só eclipse. Mas o pássaro azul cantarola dentro do eu-gaiola em plena madrugada querendo sair. Minha voz desenhada ele deseja ouvir. Malditos sejam os versos que não me deixam dormir! Ok, Caio. Você venceu. Eu me rendo! Satisfeito? Meu poema parido não é mais meu. É cidadão do mundo. Assim como ninguém pode entrar novamente no mesmo rio, nenhum poema é lido duas vezes. A cada dose, nasce um novo poema. Fruto da fecundação do seu olhar-sêmen no meu óvulo-verso. Quando você me lê, você também me escreve. Ler é a última etapa da cadeia de produção poética. A leitura é uma bolsa estourando a caminho da maternidade. Formamos família. Será que esses versos vão envelhecer bem? Seria a poesia cringe? Escrever está ultrapassado para a geração Z? Perceba Caio, estou redigindo a presente carta num aplicativo de notas do celular, enquanto a máquina de escrever empoeira esquecida na estante. Note, nem papel, guardanapo, notebook ou diário: notas virtuais armazenadas numa nuvem cibernética. Poesia imortalizada no Instagram, disputando algoritmos com memes, barrigas tanquinho e dancinhas de TikTok. Número de seguidores, curtidas, comentários e stories selam meu destino literário. Números, não letras. Seria eu uma aplicada poetisa de aplicativo? Uma futura membra da Academia Brasileira de Influencers? Ou apenas uma fraude que se diz escritora para provar que não é só uma bunda? Oi, sumida! Aqui quem fala é a síndrome da impostora. Tá passada? Aliás, seria eu poetisa ou poeta? Porque veja bem, você como homem há de convir que nós mulheres somos histórica e constantemente silenciadas e subestimadas. Mary Shelley, Sylvia Plath, Mary Ann Evans, Virgínia Woolf, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus. Seria poetisa uma mulher que escreve poesia, ou um poeta de marca menor por ser mulher? Pertencemos à categoria da literatura genérica? Tal qual uma mulher necessitada do companheiro para evitar assédio, visto que homens só respeitam os seus semelhantes, precisamos usar pseudônimos masculinos para sermos validadas? Ou apenas nos conformamos com a condição de sermos uma escritora inferior? Pois, eu, do alto de meu um metro e cinquenta e dois centímetros, decreto: sou POETA de grande porte e mão cheia, em capslock! Serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Deixo os escritos de sangue como legado. Até o meu último suspiro, ou canto do pássaro. Abraços, meu amigo! Viva a Sociedade dos poetas metalinguísticos! *Lya - Seguindo a burocrática cartilha do brazilian way of life, Lya estudou na Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ) e tentou levar uma vida perfeitinha, até sua decepção com o Supremo, com tudo, levá-la a escrever suas próprias leis. Servidora pública concursada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, posto que cringe deve pagar seus boletos, é carnavalesca clandestina e serva do verso, condenada por cometer poemas triplamente qualificados. Aquariana com coração (vermelho hei hei hei), rebelde com causas, extrovertímida, do axé, Oxum e Xangô, ela respira amor, aspirando liberdade, enquanto leva caldos de relações líquidas. Maratonista de festivais de rock, sommelier de filmes e séries, membra da Academia Brasileira de Comentaristas da internet e campeã olímpica de saltos ornamentais em delírios comunistas. Instagram: @0lhosderessaca A FOTO QUE ME NARRA Lívia Vargas-González* Para Daniel Ramírez, o autor da fotografia que, tirada o dia do meu aniversário, no ano 2016, inspirou estas paisagens. Reconheço-me na gordura destas pernas que abraçam que sustentam que seguem o balanço da minha medida na fenda das estrias que descubro entre os cinzas desta imagem Ando a linha que cruza e divide um abdômen definido pelo arrulho de uma vida prestes entre cantos dores em prazeres contrações vigia da vertigem o riso abdômen que filtra espasmos e espantos do umbigo discreto que marca o grito de uma ruptura Vejo a linha que me corta em metades e inflexões riso pélvico entre costura e cicatriz quebra de um útero ameaçado fissura inaugural de uma alvorada Na foto do meu corpo vejo rachas marcas manchas pegadas escrita do rejeito o estupor vergonha da humilhada revide da descontente desafio ao mórbido escrutínio dos olhos Corpo que habito que secreta que orgasma que despecha que tristeia e felizeia Abençoado seja este corpo que ri comigo no preto e branco imortal de uma foto que me narra. Ouro Preto-MG, 15 de agosto de 2021 *Lívia Esmeralda Vargas-González (Carracas - Venezuela, 1977): Mãe de Aquiles e migrante, compartilho as horas de meus dias entre a atividade acadêmica e a criação poética, reservando tempo e vontade para o cultivo permanente dos afetos que me sustentam, os daqui e os de lá, esses que rego na terra, no ar, na água, no fogo e na virtualidade indomável das telas e das redes. Sou escritora, poeta, pesquisadora, professora universitária, e hoje estou no Brasil, fazendo um doutorado em História, e mais um em Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), habitando as ruas que resguardam o barroco brasileiro e que ecoam as memórias da escravidão e da conquista. Publicaram-me: os livros Entre libertad e historicidad. Sartre y el compromiso literario (Caracas, 2008), Trânsitos Cotidianos. Passagens de uma Venezuela convulsa (Rio de Janeiro, 2020) e Fantasmagorias da trama (em imprenta); publiquei artigos de pesquisa em revistas acadêmicas de distintos países da América Latina e participei de várias antologias poéticas. Junto com Patrícia Parra Hurtado, Nideska Suárez e Tánia Alemán, faço parte da coletiva poética venezuelana Querencias & Saudades. E-mail: liviasartre@gmail.com | Insta: @liviavargasgonzalez

Respeita nossa história: Bárbara de Alencar
Respeita nossa história: Bárbara de Alencar

Por: Flavia Veras* “Bárbara flor do sertão, guerreira do não e do sim. Bárbara mãe de Tristão, avó de Alencar do Guarani. Bárbara olha esse mar, o Dragão desse mar é um Davi. Feito você a lutar pelo dom de lutar pelo porvir...” (Trecho de Glauco Luz. “Flor do sertão”) Bárbara Pereira de Alencar, ou “Dona Bárbara do Crato” como era chamada pelos seus contemporâneos, nasceu em 11 de fevereiro de 1760 na Cidade de Exu, na Capitania de Pernambuco, em uma família abastada. A casa onde viveu na infância, na Fazenda Caiçara, é hoje um pequeno centro cultural. Ela se casou contra a vontade dos pais aos 21 anos com um comerciante português, quando se mudou para a Cidade do Crato, atualmente sertão do Ceará, mas na época ainda pertencente à província de Pernambuco. Foi mãe dos também rebeldes José Martiniano de Alencar e Tristão de Alencar, avó do famoso escritor José Alencar e tataravó de Raquel de Queiroz. Um livro de pouca circulação comercial, escrito por Juarês Ayres de Alencar - “Dona Bárbara do Crato” - a partir das memórias de família ajuda a manter vivos alguns relatos dessa personagem, posto que muitas fontes históricas relativas a ela foram destruídas. Apesar dos esforços contemporâneos, sua biografia ainda não é muito conhecida, mesmo no Ceará. Ela foi uma mulher notável em sua época: defensora da liberdade, da república e da causa abolicionista [1]. Era reconhecida como “Inimiga do Rei”. Bárbara foi inspirada por ideias iluministas e lutou contra a ordem política colonial e imperial, liderou resistências que contestavam o poder centralizado no Rio de Janeiro, o autoritarismo da constituição outorgada em 1824 e a exploração financeira das províncias. Ela tinha contatos com pessoas influentes e religiosos, muitos deles ligados à maçonaria na sua terra natal. Conseguiu enviar dois de seus cinco filhos para estudar no Seminário de Olinda, e desempenhou um papel fundamental para conectar as lutas entre as regiões de Pernambuco e Ceará. Mesmo antes de se tornar viúva, Bárbara cuidava dos negócios da família, no Sítio Pau Seco, à revelia de seu esposo, 30 anos mais velho. Seus negócios encontravam dificuldades frente a um contexto de dificuldades econômicas no Ceará, visto que do Rio de Janeiro chegavam ordens para cobrança de pesados tributos nas províncias e que no sertão a seca dificultava a vida de todos. Respeitada e atuante como uma das mais importantes matriarcas da região, figurava como uma mulher forte do sertão. Por conta de suas ligações com Pernambuco e em acordo com as ideias de seu filho, José Martiniano de Alencar, aos 57 anos teve participação ativa na Revolução de 1817, que começara justamente em Pernambuco. Dessa forma, ela é uma personagem importante para pensarmos as tensões que marcaram o processo político da independência do Brasil, tal como os projetos possíveis de emancipação, em contraste com o monárquico vitorioso. Sobre a incorporação do Crato na Revolução de 1817 descreve-se: “A Igreja Matriz do Crato, no interior do Ceará, estava lotada de fiéis na missa dominical do dia 3 de maio de 1817, festa de Santa Cruz. A matriarca de uma das mais importantes famílias de todo o Nordeste, Bárbara de Alencar, acompanha o sermão ao lado de um público formado, na sua maioria, por pequenos comerciantes semianalfabetos e produtores rurais. Ao fim da cerimônia, um homem vestido de batina sobe ao altar e assume o púlpito de surpresa. Não era um padre. José Martiniano de Alencar, filho caçula de Bárbara, discursa sobre a sofrida realidade do Brasil colonial. Os espectadores aplaudem empolgados e ele manda hastear sua bandeira da independência [2].” Esse evento é corroborado e analisado por Raquel de Queiroz e Heloísa Buarque de Hollanda em “matriarcas do Ceará”. As autoras defendem que “ela (Bárbara) também assumiu o comando do movimento (de 1817), deixando a liderança apenas para que seu filho José Martiniano de Alencar subisse no púlpito em frente à igreja e proclamasse a república na região, a República do Jasmim, nome de uma propriedade sua. Bárbara se viu impossibilitada de fazer a proclamação ela mesma. Não era atitude própria de uma senhora”. A luta de 1817 foi separatista, ambicionava-se fundar uma república, o que ocorreu na cidade de Crato por apenas seis dias. Embora seu filho tenha tomado a frente do movimento, o reconhecimento público de Bárbara Alencar faz com que muitos digam que ela foi a primeira presidenta que o Brasil teve. Se existe controvérsia sobre sua curta presidência, o título de primeira presa política não é contestado. Vale lembrar que sua prisão por causa política, ou seja, a rebelião contra a ordem monárquica e portuguesa não se sobrepõe à luta de muitas mulheres que se levantaram contra a escravidão e foram penalizadas por isso. A repressão à República do Crato foi avassaladora. Bárbara e seus filhos foram presos e levados primeiro para Fortaleza, depois para Recife e Salvador. Existem muitas controvérsias e histórias fantasiosas acerca dos três anos de prisão de Bárbara. Há relatos de que ela teria ficado em uma prisão subterrânea em Fortaleza - o que é contestado por historiadores - no Forte Nossa Senhora de Assunção, que é um ponto turístico da Capital cearense não apenas pela história de nossa biografada, mas também por ser um dos marcos fundadores da cidade. Existem também relatos de que Bárbara, apesar da idade avançada para a época, teria sido torturada, além de pendurada no lombo de um burro com os braços acorrentados pelos dias que duraram a viagem do Crato até Fortaleza. Outro boato corrente é que ela teria escrito um bilhete com seu próprio sangue pedindo ajuda para as pessoas influentes que conhecia em Pernambuco. No entanto, não existe nenhuma fonte material desses relatos. Todos os escritos de Bárbara foram destruídos ainda em 1817, o que favoreceu a defesa da família Alencar, livrando-os da pena capital. Após mais de três anos de prisão, Bárbara foi anistiada. Ao retornar, além da fama de traidora, havia perdido todos os seus bens. Os contratempos e a idade não impediram que Bárbara participasse de outra revolta, agora com o Brasil já independente e contra Dom Pedro I e seu autoritarismo. Ela tomou parte da Confederação do Equador que explodiu em 1824 em Pernambuco, e que rapidamente se alastrou por outras províncias do Nordeste, entre elas o Ceará. Os rebeldes novamente foram duramente reprimidos e nessa ocasião Bárbara perdeu dois de seus filhos, mortos na guerra. Após a abdicação de D. Pedro I, em 1831, os restauracionistas (grupo que apoiava a monarquia) empreenderam uma forte reação aos revoltosos, que fez com que Bárbara tivesse que fugir. Dessa vez, ela não aguentou a viagem e morreu em 1833 no Piauí. Atualmente, muitos são os esforços de grupos intelectuais nordestinos e feministas para lembrar da história, da vida e das lutas de Bárbara de Alencar. Centros culturais e medalhas com seu nome foram criadas e uma estátua de Bárbara foi erguida na Praça da Medianeira. Em 2014, seu nome foi inscrito no Livro de Heróis da Pátria e depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves em Brasília. Em 1980, Caetano Ximenes de Aragão publicou um livro-poema “Romanceiro de Bárbara”, que recentemente foi reeditado pela secretaria de cultura do Ceará [3]. Esse verbete será concluído com um poema escrito em 1919 por José Carvalho em homenagem à Bárbara de Alencar e que também fecha o livro anteriormente referido. O poema é aqui reproduzido com a grafia original: D. BARBARA Eu, sim, de tudo sei! Pela primeira vez tal cousa falei bem constrangida, embora, a tão humilde amiga. Posso amanhã morrer, mas quero que alguém diga - mesmo que seja assim do povo um mulher – que da calumnia vil, sou victima! E siquer nem dela me poupou a inveja e a negra intriga de um inimigo tal, a quem seu ódio abriga a nada respeitar, nem mesmo a honra alheia! Ser liberal é toda minha macha feia e pela qual respondo, assim calumniada, porque succumbirei na fôrca ou fuzilada! Em paga desse amor á terra que nasci recebo um premio tal! Dir-se-á que padeci mas não dirão jamais que a Patria reneguei! Arrancaram-me tudo: a família que amei, a honra de mulher; escravos que eu criei como filhos também; - a fazenda ou riqueza – mas, do meu coração, não podem, com certeza arrancar este amor ao meu Brasil querido! Morrerei satisfeita! Um dia esse Partido ha de cantar victoria; e meu Paiz, emfim ha de ser livre, um dia! Pará – Janeiro – 1919 José Carvalho Referências e dicas Fundação Demócrito Rocha. Os Cearenses 2 – Bárbara de Alencarhttps://youtu.be/4ZaDIMYdO4Y ALENCAR, Juarês Ayres de. Dona Bárbara do Crato, a heroína cearense. Fortaleza, Ceará : Universidade Federal do Ceará, 1972. ARAÚJO, Ariadne. Bárbara de Alencar. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2017 GASPAR, Roberto. Bárbara de Alencar: a guerreira do Brasil. Universidade de Indiana, 2001. HOLLANDA, Heloísa Buarque & QUEIROZ, Rachel. Matriarcas do Ceará. Rio de Janeiro: Papéis Avulsos, UFRJ, n. 24, 1990. LUNA, Claudia. Bárbara de Alencar e Manuela Sáenz: duas mulheres nas independências latino-americanas. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura, realizado na Universidade de Brasília. Disponível em: https://www.cemhal.org/revista2.pdf MIRANDA, Ana. Dona Bárbara do Crato - Dona Bárbara foi a primeira presa política na história brasileira” Disponível em https://www20.opovo.com.br/app/colunas/anamiranda/2013/02/23/noticiasanamiranda,3010427/dona-barbara-do-crato.shtml NUNES, Dimalice. “Conheça Bárbara Pereira de Alencar, a primeira revolucionária do Brasil”. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/barbara-pereira-de-alencar-primeira-revolucionaria-do-brasil.phtml PARENTE, Claúdia. Bárbara de Alencar uma guerreira da “legião de sonhadores”. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/edicoes/159/barbara-de-alencar--uma-guerreira-da-rlegiao-de-sonhadoresr Notas [1] Segundo o livro de ALENCAR, Juarês Ayres de. Dona Bárbara do Crato, a heroína cearense. Fortaleza, Ceará : Universidade Federal do Ceará, 1972. [2] NUNES, Dimalice. “Conheça Bárbara Pereira de Alencar, a primeira revolucionária do Brasil”. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/barbara-pereira-de-alencar-primeira-revolucionaria-do-brasil.phtml [3] Disponível em: http://portal.ceara.pro.br/index.php?option=com_content&view=article&id=33862:1920-heroina-nacional-barbara-de-alencar&catid=472&Itemid=101 * Flavia Veras é editora da Revista MFM, membro do LEHMT-UFRJ e professora no ensino básico.

Entrevista com Heloísa Buarque de Hollanda
Entrevista com Heloísa Buarque de Hollanda

Heloísa Helena Oliveira Buarque de Hollanda* é a convidada na coluna “Entrevistas” da nossa 13ª edição! Atualmente, Heloísa Buarque de Hollanda é escritora, crítica literária, diretora da HB - Heloísa Buarque Projetos Editoriais e professora de Teoria crítica da cultura na Escola da Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o projeto Universidade das Quebradas, o Fórum Mulher e Universidade e o Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Com 60 anos de carreira e 80 anos de caminhada pela vida, Heloísa Buarque de Hollanda já deixou contribuições preciosas e inspiradoras. Nós, editoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo, queremos agradecê-la por ter aceito o nosso convite e dizer que estamos muito felizes com esta conversa. "Organizei um seminário chamado ‘Feminismos e Favelas: um diálogo urgente’ onde reuni ativistas das favelas com feministas acadêmicas. Foi muito lindo. As ativistas se descobriram e exibiram suas formas inovadoras de lutas e estratégias e as feministas acadêmicas tiveram espaço para mostrar seus pressupostos feministas e identificaram alguns porquês de sua dificuldade de conexão com as comunidades que trabalhassem fora dos sindicatos ou organizações sociais do centro." Heloísa Buarque de Hollanda Mulheres do Fim do Mundo: Sua aproximação com os feminismos ocorreu nos anos de 1980, momento chave no que diz respeito à retomada dos direitos civis e políticos no Brasil, após 21 anos de ditadura militar. O que era ser uma feminista nos anos 80? Heloísa Buarque de Hollanda: Nessa época, ao lado das ações políticas das feministas como a importante intervenção na Constituição de 1988, os estudos feministas começaram a surgir nas editoras universitárias dos Estados Unidos e da Europa. Era todo um novo campo de produção de conhecimento que se abria para as mulheres. Afinal, ler, a partir de seu próprio ponto de vista as grandes teses existenciais e ontológicas que nos formaram era um passo determinante para o feminismo. Ser uma feminista nos anos 1980, portanto, era intervir diretamente na arena política e intervir igualmente na arena epistemológica. Foi uma das décadas, talvez a mais interessante do feminismo. Essa onda que levantava a bandeira do ‘direito de interpretar’ é conhecida como a terceira onda do feminismo. Mulheres do Fim do Mundo: Sabemos que a difusão dos debates de gêneros no Brasil foi “atrasada” ou “ofuscada” nos períodos da Ditadura Militar e da redemocratização por pautas consideradas mais urgentes: luta de classes, direitos políticos, civis e humanos. A luta das mulheres por igualdade social e seu protagonismo nas batalhas sindicais eram bem aceitos nos setores progressistas, mas pautas mais específicas (ligadas à sexualidade, à construção dos papéis de gênero ou a questões raciais) eram constantemente marginalizadas ou silenciadas. Mesmo com avanços significativos, ainda vemos grande resistência a estes temas dentro dos partidos de esquerda. O argumento de que os feminismos e as questões raciais “dividem” a esquerda e polarizam a população sempre emerge. Como avançar essa discussão? Heloísa Buarque de Hollanda: A gente, na realidade, já começa a avançar nesse debate que, como vocês disseram, ainda é persistente, mas com o avanço da pauta internacional dos direitos humanos e com as novas gerações apontando, de forma bastante contundente, para pautas como o aumento da violência doméstica e principalmente do feminicídio, para o grande número de mulheres chefes de família, onde são as únicas provedoras da casa, as restrições e limites de suas aspirações no mercado de trabalho e sua ascensão no campo político e do trabalho, o feminismo começa a ser mais considerado como uma agenda política imprescindível. Mulheres do Fim do Mundo: Muito antes do feminismo se estabelecer enquanto campo do conhecimento e perspectiva teórica, ele irrompeu enquanto prática/ação. Atualmente, temos experenciado uma nova onda feminista que vem pautando a necessidade de formulação de teorias que possam dar conta das especificidades e demandas das mulheres latino-americanas. Como você avalia o impacto dessas interpelações decoloniais sobre a geração de jovens mulheres? E como podemos avaliar os impactos dos feminismos decoloniais em espaços de saber como as universidades, por exemplo? (o que vem mudando em termos de métodos de pesquisas, formas textuais, paradigmas, seleção de referência bibliográfica que fuja dos cânones e interação em sala de aula, etc.) Heloísa Buarque de Hollanda: Isso é uma realidade. A chegada das teorias decoloniais é bem coincidente com a consolidação das reivindicações identitárias. As duas me parecem faces da mesma moeda. Quando o feminismo branco eurocentrado é colocado em questão, explodem novas demandas e a valorização de novas formas de pensamento e visões de mundo locais e diversificadas. Esse é um momento muito belo para nós, feministas das antigas, em que afinal, todas as mulheres e suas raízes culturais se apresentam para enriquecer o debate e a luta feminista. Mulheres do Fim do Mundo: Você é uma das idealizadoras da Universidade das Quebradas, um projeto que promove o diálogo de produtores culturais e artistas das periferias com a comunidade acadêmica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 2009. Considerando que as universidades foram fundadas sobre um paradigma branco, masculino e elitista (que não só produziu seus saberes a partir dessa referência, como também os validou enquanto conhecimento científico), como o projeto, nesses 12 anos de existência, vem contribuindo para a democratização dos conhecimentos? Heloísa Buarque de Hollanda: Quando idealizei a Universidade das Quebradas com a ideia de trazer para dentro dos muros da universidade os novos saberes das periferias, tive muito medo da reatividade da comunidade acadêmica. Estava preparada para perder, mas convicta da necessidade dessa experiência, mas o que aconteceu foi inesperado. Os ‘quebradeiros’, como se chamam os participantes do projeto, surgiram com tanta garra , com tanta vontade de aprender e de narrar suas experiências e saberes que correu muito fácil esse laboratório cuja metodologia é a troca de conhecimentos. Hoje, pela Universidade das Quebradas já passaram mais de 700 artistas, ativistas, produtores culturais e arte educadores no laboratório e o crescimento que demonstraram foi bem acima das expectativas. Os quebradeiros, que de objetos de estudos universitários passaram a sujeitos de ação e produção, estão em toda parte crescendo com seus projetos e muitas vezes já influindo na vida pública. O Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro é um ex quebradeiros, assim como vários de sua equipe e diretores de museus. Meu maior plano, entretanto, que era sensibilizar a universidade em relação à importância dessa nova cultura periférica, teve uma resposta bem aquém da sonhada. O que comprova que a universidade ainda tem seus muros inabaláveis. Mulheres do Fim do Mundo: Heloisa, parece que ainda existe um muro entre mulheres periféricas e as teorias feministas acadêmicas. Observamos um crescimento de movimentos de mulheres que não se definem como feministas, por exemplo, os movimentos comunitários contemporâneos ligados às populações rurais, ao campesinato e às periferias. Nesse sentido, na sua opinião, os feminismos estão dialogando com quais mulheres ? Que mulheres eles contemplam? Até que ponto podemos falar que os feminismos são movimentos populares? Heloísa Buarque de Hollanda: Tenho trabalhado isso muito. Como coordeno o coletivo Muque (mulheres das quebradas), minha interlocução com mulheres de favelas e comunidades é alta. Inicialmente, elas recusavam peremptoriamente toda e qualquer identificação com o feminismo. Quando perguntadas respondiam: o feminismo não trata de questões nossas, fala numa linguagem inacessível e desconhece nossa existência. Aí organizei um seminário chamado ‘Feminismos e Favelas: um diálogo urgente’ onde reuni ativistas das favelas com feministas acadêmicas. Foi muito lindo. As ativistas se descobriram e exibiram suas formas inovadoras de lutas e estratégias e as feministas acadêmicas tiveram espaço para mostrar seus pressupostos feministas e identificaram alguns porquês de sua dificuldade de conexão com as comunidades que trabalhassem fora dos sindicatos ou organizações sociais do centro. Para mim, o resultado mostrou que temos ainda um longo e desconhecido caminho a percorrer. Mulheres do Fim do Mundo: Hoje as aproximações de jovens mulheres com movimentos auto-organizados (feministas ou não) se dá mediante o universo das mídias digitais. Tem-se disponível todo um leque de possibilidades de conteúdos dispersos pelas redes, desde referência bibliográficas disponibilizadas em acervos digitais a vídeos de youtube ou postagens nas contas do twitter/instagram. Como você avalia o papel da internet, sobretudo das mídias sociais, como potencializadora e produtora de uma espécie de instrumentalização desses novos feminismos? Heloísa Buarque de Hollanda: Fundamentais! Podemos atribuir à internet o boom do feminismo jovem e seus desdobramentos. O feminismo nunca havia conseguido se comunicar e colocar suas demandas e pautas como aconteceu nessa quarta onda que cresceu já na vigência da internet. Mulheres do Fim do Mundo: Os volumes “Pensamento Feminista Brasileiro” e “Pensamento feminista hoje”, organizados por você, visavam, entre outras coisas, fornecer um repertório histórico, conceitual e epistemológico para pesquisas e lutas políticas. Ao mesmo tempo, são livros que remetem à sua própria formação como pesquisadora e feminista. Qual é a importância do compartilhamento de saberes entre mulheres (seja por meio de livros, leituras, escrita, rodas de conversa, coletivos, etc.)? Heloísa Buarque de Hollanda: Acho que é a maior bandeira política que podemos levantar agora são movimentos articulados, compartilhados, solidários. No meu caso, por exemplo, procuro sempre responder as demandas de mulheres que chegam a mim, colaboro com os projetos feministas e coloco o que eu tenho à disposição especialmente das mulheres negras, ativistas ou de periferia. Procuro compartilhar conhecimento, espaço em livros, aulas e oficinas. Outra estratégia é a de compartilhar presença em canais, mídias sociais, em mesas de palestras e apresentações públicas. É juntar ou desistir. É assim que vejo a atuação política feminista acadêmica hoje. Mulheres do Fim do Mundo: Recentemente, você fez menção de que passaria a usar o sobrenome Heloísa Teixeira no lugar de Heloísa Buarque de Hollanda. O que te motivou para tal iniciativa? Trata-se de uma atitude política pensando numa crítica à estrutura patriarcal de nossa sociedade? Heloísa Buarque de Hollanda: Sim. Com toda certeza. Me dei conta que uso o nome do marido e antes usava o do pai. Quero agora ser identificada com o sobrenome da minha mãe, com a linhagem de mulheres da minha família. Mulheres do Fim do Mundo: O que podemos esperar de uma futura quinta onda feminista considerando os avanços conquistados até aqui e levando em conta os retrocessos que temos combatido todos os dias? Heloísa Buarque de Hollanda: Acho que uma quinta onda já está em curso. Saímos do universo das #s, para a realidade, essa realidade dura do enfrentamento aos retrocessos. Temos um número bem maior de vereadoras e deputadas com projetos e atuações importantes e criativas, e atitudes cotidianas de mulheres que não tem deixado passar em branco o sexismo e o racismo. E isso só tende a se consolidar e ampliar. Só quero dizer, nesse final, que um dos exemplos do que acabei de falar são as perguntas inteligentemente resistentes que vocês me fizeram nessa entrevista para uma revista com o sintomático título Mulheres do Fim do Mundo. Obrigada pela alegria que vocês me causaram. Estamos juntas. Beijos carinhosos! * Heloísa Helena Oliveira Buarque de Hollanda nasceu na cidade de Ribeirão Preto/SP epossui formação em Letras Clássicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e mestrado e doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).Atualmente, Heloísa Buarque de Hollanda é escritora, crítica literária, diretora da HB - Heloísa Buarque Projetos Editoriais e professora de Teoria crítica da cultura na Escola da Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o projeto Universidade das Quebradas, o Fórum Mulher e Universidade e o Programa Avançado de Cultura Contemporânea.É autora de inúmeros livros e ensaios como, por exemplo, as obras Macunaíma: da literatura ao cinema (1978), Pós-modernismo e política (1992) (Org.), Ensaístas brasileiras (1993), Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura (1994), Explosão Feminista: arte, cultura, política e universidade (2018) (Org.), Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto (2019) (Org.), entre outros.

Traduções: Marie Peltier
Traduções: Marie Peltier

Como o 11 de setembro pavimentou o caminho para a conspiração em grande escala Entrevistada: Marie Peltier, historiadora Entrevista por Benoît Zagdoun, France Télévisions Fotografia : AFP Seth Macallister Os atentados do 11 de setembro ainda são associados às teorias do complô que surgiram a partir daquela data. As Torres gêmeas do World Trade center não teriam caído em razão dos dois aviões que as atingiram, o Pentágono teria sido atingido por um míssil, o governo norte-americano teria deixado os terroristas agirem… Vinte anos depois, estas narrativas de complô permanecem pregnantes. Para a historiadora Marie Peltier, o 11 de setembro marca a entrada do mundo na Era do complô. As teses conspiracionistas, que proliferam desde então nas redes sociais, são os sintomas de uma sociedade cansada de suas fraturas. Na ocasião da rememoração dos ataques, France Info entrevistou esta especialista do tema, notadamente autora de Obsession : dans les coulisses du récit complotiste (Ed. Inculte, 2018). Franceinfo: Vinte anos depois, as teorias do complô sobre o 11 de Setembro continuam a circular. Como você explica isto? MP: A narrativa dos atentados do 11 de setembro de 2001 foi prolífica em teorias do complô, que chegaram muito rapidamente depois do evento. Houve uma multiplicação de histórias, mas também uma massificação destas narrativas através da internet. Estas teorias do complô tornaram-se um modelo. A cada atentado terrorista nos países ocidentais, coloca-se em ação uma narrativa alternativa que se funda sobre o mesmo esquema que aquele das teorias do 11 de setembro: a ideia de um teatro, de uma mentira de políticos e da mídia a serviço de interesses obscuros, em geral das potências ocidentais, frequentemente com um componente antissemita às vezes central, às vezes marginal. FI:As teorias do complô não nasceram, entretanto, com o 11 de setembro… O conspiracionismo, na sua forma estruturada ideologicamente, tal como o conhecemos hoje, é um fenômeno antigo. Vemos os panfletos conspiracionistas que pululavam na Europa no fim do século XVIII, no momento da Revolução francesa. Este movimento, muito impregnado de antissemitismo, perdura até o fim da segunda guerra mundial. Após o genocídio judeu, vários escritos complotistas, especialmente o Protocolo dos sábios de Sião, são proibidos. Até o fim do século XX, estes discursos foram marginalizados, mas não desapareceram. Estes livros continuaram a circular de maneira clandestina. FI: Como o 11 de setembro permitiu o renascimento do conspiracionismo? Primeiro, porque é um evento traumático. Este ataque foi um choque terrível para a opinião pública ocidental e até mundial. Ora, a conspiração é uma retórica que gira em torno do trauma. Quando experimentamos um trauma, precisamos encontrar um significado, fornecer uma explicação. É em torno desta narrativa do 11 de setembro de 2001 que as obsessões contemporâneas se cristalizam. Além disso, o 11 de setembro veio para remobilizar uma semântica antiga. Por um lado, tínhamos o caráter “civilizacional” dado ao evento por George W. Bush e seus aliados, com essa retórica do Iluminismo atacado pelas trevas, da civilização atingida pela barbárie, do Islã percebido como uma ameaça ao Ocidente... Uma velha oposição já em ação na época das Cruzadas voltou com a luta contra o terrorismo. A intervenção no Afeganistão, a invasão do Iraque com base em uma mentira... Toda esta sequência política causou um repúdio do público. Os cidadãos tiveram a impressão de que os políticos estavam mentindo, que a mídia estava a seu serviço - a famosa aliança que os conspiradores constantemente sublinham. A semântica anti-sistema foi reativada. A Al-Qaeda quis atingir o Ocidente em seu coração simbólico e funcionou: os ataques causaram grande medo da perda da hegemonia ocidental. Ora, o Ocidente é assimilado a regimes democráticos, e este questionamento da dominação ocidental foi acompanhado por um questionamento da democracia. FI: Ao mesmo tempo, é o advento da internet e o nascimento das redes sociais. Não é este o verdadeiro gatilho? MP: No início dos anos 2000, a conspiração ainda não estava nas redes sociais, mas circulava em blogs e fóruns. As esferas conspiratórias perceberam rapidamente a oportunidade que a internet representava de divulgar suas histórias, principalmente na forma de vídeos, antes mesmo do YouTube. Pessoas como Alain Soral [ensaísta de extrema direita condenado em várias ocasiões por incitar ao ódio ou questionar crimes contra a humanidade, em particular] muito cedo fizeram vídeos em que falavam sozinhos na frente das câmeras. Eles viram o poder do formato de imagem. A Internet tornou possível deixar os textos e teses de conspiração acessíveis novamente a todos. As redes sociais têm acentuado o movimento, principalmente a partir da década de 2010. FI: Hoje, as mesmas teorias da conspiração estão circulando em todo o mundo. Vemos isso com a pandemia da Covid-19. Com a internet, a conspiração não se globalizou? MP: Tivemos uma tal disseminação do conspiracionismo nos últimos vinte anos que hoje até as pessoas que não estão imersas nestes discursos são capazes de se apropriar da grade de leitura conspiratória e aplicá-la a qualquer evento. Vemos isso com a pandemia Covid-19. Nem mesmo precisamos mais de ideólogos conspiratórios. Esta trama narrativa - segundo o qual as autoridades e a mídia estão a serviço de interesses ocultos, mentindo e manipulando as pessoas - pode ser aplicada a todas as situações. Esta narrativa global já estava em ação nos escritos do século XVIII e no século XX, nos textos fascistas. Portanto, é algo ancorado nos imaginários, inconscientemente, desde muito tempo. FI: Nos últimos vinte anos, a exploração política das teorias da conspiração também não se intensificou? MP: Esquecemos disso durante muito tempo, mas a conspiração é uma arma para levar forças reacionárias, até mesmo fascistas, ao poder. Não é, como muitos pensam, uma arma de resistência. Essa é uma das grandes iscas da postura conspiratória. Historicamente, o repertório conspiratório que se desenvolveu contra a Revolução Francesa ou a Revolução Russa produziu discursos que visavam desacreditar os movimentos de emancipação democrática e fortalecer os poderes reacionários. A ideologia nazista foi nutrida pelos Protocolos dos Sábios de Sião e levou à ascensão de Hitler ao poder. Hoje, testemunhamos uma banalização da conspiração. Temos políticos que não são ou que não se consideram reacionários ou fascistas, mas que aproveitam essa onda. Já era o caso durante as eleições presidenciais de 2017. Havia elementos de discurso conspiratório em Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen. Havia também alguns em François Fillon, quando falava da “conspiração dos juízes”. Havia até em Emmanuel Macron, que se apresentava como o candidato anti-sistema. FI: Qual você acha que é o principal perigo da conspiração? A conspiração reprova a democracia por supostas falhas de caráter ditatorial. Ela ataca as instituições democráticas dizendo que mentem, que manipulam... Aqueles que se manifestam com o grito de "liberdade" contra Emmanuel Macron, que denunciam a "censura" e a "ditadura da saúde" também reivindicam os grandes princípios democráticos. Eles se consideram democratas, revolucionários, lutadores da resistência, estão persuadidos de que atacam uma lógica ditatorial. Hoje, muitas pessoas que se dizem anti-sistema questionam a democracia, de fato, e também frequentemente apoiam regimes autoritários, como o de Vladimir Putin na Rússia. Eles equiparam a democracia liberal, por mais imperfeita que seja, a uma ditadura, o que não é correto. É pernicioso. Houve uma inversão de valores nos últimos vinte anos. Com o tempo, essa forma de pensar se espalhou na sociedade, este está cada vez mais desinibida. FI: Como podemos lutar contra o conspiracionismo? MP: A conspiração é uma maneira ruim de fazer perguntas. A dúvida está equivocada. O conspirador pensa que duvida, mas na realidade já tem sua história, seu postulado dado. Os conspiradores do 11 de setembro já estão convencidos de uma encenação. A partir daí, eles vão questionar tudo o que é dito e procurar corroborar sua visão por todos os meios possíveis. Para não entrar na banalização desta conspiração, devemos lutar concretamente. Há a luta no dia a dia, tanto pela “averiguação” e pela “desmistificação”, mas, também, pela denúncia da ideologia que está por trás deste tipo de discurso. Devemos também tentar recriar a confiança. Há muito a ser feito por políticos, jornalistas, todas as profissões de "autoridade". Você tem que ir para o campo, conhecer pessoas, sair do mundo digital. Devemos recriar o vínculo social. Não conseguiremos convencer as pessoas que aderem a esta ideologia com soluções fáceis, porque já não acreditam em nós. Isso nos força a rever nossa própria relação com o mundo. A entrada no século XXI é o declínio das grandes ideologias. O "nunca mais", que tinha nos estruturado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está desaparecendo. Não sabemos mais em que nos apoiar para ter algo que nos conecte como sociedade. É difícil falar sobre o que está acontecendo conosco com a mesma linguagem de antes. A Covid-19 mostrou-nos, infelizmente. Diante dessa falta de projetos políticos estimulantes, surge um apelo ao vazio. Entrevista original pode ser acessada no link: GRAND ENTRETIEN. Comment le 11-Septembre a ouvert la voie au complotisme à grande échelle Publicada em: 12/09/2021 Tradução: Gabriela Mitidieri, editora da revista Mulheres do fim do mundo.

Traduções: Malala Yousafzai
Traduções: Malala Yousafzai

Malala: Eu sobrevivi ao Taliban. Eu temo por minhas irmãs afegãs. 17 de agosto de 2021 Por Malala Yousafzai* Fotografia: Belgaimage Nas últimas duas décadas, milhões de mulheres e meninas afegãs receberam uma educação. Agora o futuro que lhes foi prometido está perigosamente perto de se esvair. O Talibã - que até 20 anos atrás proibia quase todas as meninas e mulheres de frequentar a escola e punia duramente aqueles que os desafiavam - está de volta ao controle. Como muitas mulheres, eu temo por minha irmãs afegãs. Eu não posso deixar de pensar na minha própria infância. Quando o Talibã tomou conta de minha cidade natal no Vale Swat, no Paquistão, em 2007, e logo depois disso, proibiu as meninas de receberem uma educação, escondi meus livros sob meu longo e pesado xale e caminhei para a escola com medo. Cinco anos mais tarde, quando eu tinha 15 anos, o Talibã tentou me matar por falar sobre meu direito de ir à escola. Não posso deixar de ser grata pela minha vida agora. Depois de me formar na faculdade no ano passado e começar a abrir minha própria trajetória profissional, eu não consigo imaginar perder tudo - voltar a uma vida definida para mim por homens com armas. Meninas e jovens mulheres afegãs estão mais uma vez onde eu estive - desesperadas com a ideia de que talvez nunca lhes seja permitido ver uma sala de aula ou segurar um livro novamente. Alguns membros do Talibã dizem que não negarão educação ou o direito de trabalhar às mulheres e meninas. Mas dado o histórico do Talibã de suprimir violentamente os direitos da mulher, os medos das mulheres afegãs são reais. Já estamos ouvindo relatos de estudantes femininas sendo afastadas de suas universidades, e trabalhadoras de seus escritórios. Nada disso é novo para o povo do Afeganistão, que está preso há gerações em guerras por procuração [1] de potências globais e regionais. As crianças nasceram para a batalha. As famílias vivem há anos em campos de refugiados; milhares de outras fugiram de suas casas nos últimos dias. As Kalashnikovs [2] carregadas pelo Talibã são um fardo pesado sobre os ombros de todo o povo afegão. Os países que utilizaram os afegãos como peões em suas guerras de ideologia e ganância os deixaram para suportar o peso por conta própria. Mas não é tarde demais para ajudar o povo afegão - particularmente mulheres e crianças. Durante as últimas duas semanas, falei com vários defensores da educação no Afeganistão sobre suas situações atuais e o que eles esperam que vai acontecer em seguida. (Não estou nomeando-os aqui devido a preocupações com a segurança.) Uma mulher que dirige escolas para crianças rurais me disse que perdeu o contato com seus professores e alunos. "Normalmente trabalhamos na educação, mas neste momento estamos nos concentrando em barracas", disse ela. "As pessoas estão fugindo aos milhares, e nós precisamos de ajuda humanitária imediata para que as famílias não morram de fome ou por falta de água potável". Ela ecoou um apelo que eu ouvi de outros: poderes regionais deveriam estar ajudando ativamente na proteção de mulheres e crianças. Países vizinhos - China, Irã, Paquistão, Tajiquistão, Turcomenistão - devem abrir suas portas para os civis em fuga. Isso salvará vidas e ajudará a estabilizar a região. Eles também devem permitir que crianças refugiadas se matriculem em escolas e que organizações humanitárias locais criem centros de aprendizado temporários em acampamentos e assentamentos. Olhando para o futuro do Afeganistão, outro ativista quer que o Talibã seja específico sobre o que eles permitirão: "Não é o bastante dizer vagamente: ‘As garotas podem ir à escola’. Precisamos de acordos específicos para que as meninas possam completar sua educação, possam estudar ciências e matemática, possam ir à universidade e ser autorizadas a ingressar na força de trabalho e fazer os trabalhos que escolherem". Os ativistas com quem falei temiam um retorno à educação apenas religiosa, o que deixaria as crianças sem as habilidades necessárias para realizar seus sonhos e seu país sem médicos, engenheiros e cientistas no futuro. Nós teremos tempo para debater o que deu errado na guerra do Afeganistão, mas neste momento crítico devemos ouvir as vozes de mulheres e meninas afegãs. Elas estão pedindo proteção, educação, liberdade e o futuro que lhes foi prometido. Nós não podemos continuar a fracassar com elas. Não temos tempo a perder. *Malala Yousafzai (@malala), que sobreviveu a uma tentativa de assassinato do Talibã, é uma ativista pela educação das meninas e a mais jovem laureada com o Prêmio Nobel da Paz de todos os tempos. Ela também é co-fundadora do Fundo Malala. Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves Notas de tradução [1] No original, “proxy wars”. São chamadas “guerras por procuração” conflitos armados que ocorrem em países que representam os interesses de outros países (frequentemente mais potentes). Para maiores informações ver: https://www.scielo.br/j/cint/a/hMMrnxLKDmqyC5pPLQRZNmM/?format=pdf&lang=pt e também: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/proxy-war [2] Kalashnikov é um tipo de rifle também conhecido como AK-47.

Onde sexo, trabalho e pandemia se encontram
Onde sexo, trabalho e pandemia se encontram

Renata Saavedra* A pandemia de covid-19 afetou a todos e todas, mas sabemos que de forma muito desigual. Em termos de trabalho e renda, mulheres estão sendo particularmente afetadas, por exemplo. (Confira a pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, da Gênero e Número e da Sempreviva Organização Feminista). O Ministério da Economia listou os setores econômicos mais impactados (no topo estão as atividades artísticas, criativas e de espetáculos). Há um grupo, no entanto, que foi desproporcionalmente prejudicado mas não aparece nos levantamentos oficiais: as trabalhadoras sexuais. “É um público-alvo com o qual o Poder Público não está nada preocupado. Ninguém fala sobre o que fazer com as trabalhadoras do sexo”, diz Irene Santos, coordenadora da Associação das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe. Juridicamente desamparadas e socialmente estigmatizadas, as prostitutas não têm seu ofício reconhecido como trabalho. “Na maioria dos países, as leis sobre a atividade têm como principal objetivo acabar com ela, precarizando com isso a vida de quem a exerce e empurrando mulheres para a clandestinidade e o isolamento social”, escreve Monique Prada no seu livro Putafeminista. (Você também pode ler Monique Prada aqui e aqui) No Brasil, o Projeto de Lei 4.211/12 (apelidado de PL Gabriela Leite, em homenagem à ativista pioneira e fundadora da ONG Davida e da grife Daspu), que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo, está parado na Câmara dos Deputados, aguardando a composição de uma comissão temporária para analisá-lo. O projeto foi redigido pela equipe do então deputado Jean Wyllis e pela Rede Brasileira de Prostitutas, que era a única organização nacional de defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais na época. Desde 2002, a prostituição está no rol das ocupações brasileiras. A prostituição não é crime, mas tudo que está em torno da atividade é criminalizado. O Projeto de Lei Gabriela Leite prevê a necessidade do direito à aposentadoria especial, por se tratar de trabalho que pode trazer riscos à saúde ou à integridade física. “Trata-se de regulamentar algo que já existe, acabar com a extorsão policial, entre outras coisas. Com a lei vai se abrir uma janela para novos vínculos trabalhistas dos trabalhadores sexuais com os clubes, vai empoderar as prostitutas”, defende a ativista Indianarae Siqueira em entrevista ao El País, que abordou algumas controvérsias e embates entre feministas sobre o tema. A Global Network of Sex Work Projects [Rede Global de Projetos sobre Trabalho Sexual] está monitorando o impacto da COVID-19 nas trabalhadoras sexuais do mundo todo. “Estamos documentando e relatando aos formuladores de políticas internacionais sobre as violações dos direitos humanos e pressionando os formuladores de políticas nacionais para garantir que as necessidades das trabalhadoras sexuais não sejam ignoradas nesta pandemia” . Em abril de 2020 os grupos SOMOS - Comunicação, Saúde e Sexualidade, MundoInvisível.Org e a Articulação Nacional de Profissionais do Sexo lançaram uma nota de alerta sobre situação de trabalhadoras e trabalhadores sexuais do Brasil em relação à pandemia de Covid-19: ”Historicamente vulnerabilizados e sem direitos trabalhistas garantidos, esses profissionais veem suas rendas reduzirem drasticamente, assim como os demais profissionais autônomos, como motoristas por aplicativos, vendedores ambulantes e profissionais que realizam atendimentos por agendamento. Entretanto, diferentemente de outras categorias profissionais, não há sinalizações por parte do Governo Federal de qualquer tipo de ação assistencial a essa população e nenhuma informação sobre a possibilidade destes profissionais serem incluídos nos auxílios previstos até então.” Leia a nota completa aqui. Para saber mais: Nós existimos: reflexões sobre o trabalho sexual e covid-19 no Brasil, por Elisiane Pasini “A onda conservadora vivida pelo país tende a atrapalhar o avanço do debate”, disse à Revista Cláudia Ana Paula Silva, professora da UFF e integrante do Observatório da Prostituição e de um grupo de trabalho chamado Prostituição e Populações de Rua em Face à Pandemia. Mesmo enfrentando tantos obstáculos, as trabalhadoras sexuais estão desempenhando papel protagonista na resposta à crise da pandemia. A Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS) mobilizou empresários, organizações não governamentais (ONGs) e voluntários em nove estados brasileiros e na Europa, arrecadando meio milhão de reais para garantir o sustento de centenas de famílias. A central reúne nove associações e dois coletivos, que juntos organizaram lives, campanhas em redes sociais, vaquinhas, etc. A principal apoiadora foi a RedTraSex, Red de Mujeres Trabajadoras Sexuales de Latinoamérica y El Caribe. Em vários estados brasileiros, grupos e organizações de trabalhadoras sexuais apoiaram suas comunidades com doações de alimentos, materiais de higiene e informação. É o caso da Associação das Profissionais do Sexo da Bahia, das Mulheres da Luz em São Paulo e da Estrela Guia em Santa Catarina, por exemplo. Para saber mais: No Distrito Federal, as Tulipas do Cerrado elaboraram uma cartilha com informações sobre proteção, saúde mental e fake news para as trabalhadoras do sexo, e também têm distribuído cestas básicas e máscaras para trabalhadoras sexuais e pessoas em situação de rua. Em Belo Horizonte, a Aprosmig - Associação das Prostitutas de Minas Gerais, se uniu ao Clã das Lobas e ao Coletivo Rebu em uma campanha de "arrecadação de colchões, móveis, eletrodomésticos, alimentos não perecíveis, vegetais e verduras frescas, produtos de limpeza e de higiene pessoal, máscaras, cestas básicas, álcool em gel 70% e valores em espécie, que são revertidos em cestas". A Anprosex - Articulação Nacional de Profissionais do Sexo tem realizado lives sobre prevenção, tecnologias digitais, planejamento financeiro e saúde mental, por exemplo. A atuação estratégica destas profissionais e sua crescente articulação mostra que é hora de apoiá-las. No Brasil, Fundo Brasil, Fundo Positivo e Fundo ELAS são exemplos das poucas organizações que apoiam trabalhadoras sexuais a partir da ótica dos direitos, fortalecendo espaços de trocas e articulação, de mobilização política e de (in)formação sobre violências contra as mulheres e saúde. Em 2012 foi lançado o Red Umbrella Fund, fundo de investimento social liderado por e para trabalhadoras sexuais. O Red Umbrella Fund apoia grupos do mundo todo, como a Associação Mulheres Guerreiras, de Campinas (SP): “Nossa luta é para garantir melhores condições de trabalho para a categoria ocupacional que representamos. Lutamos por todos os direitos, como qualquer outra categoria de trabalhadores. Nossa estratégia é estar presente e utilizar todos os espaços e veículos existentes para a discussão de políticas públicas no município, estado e país. Queremos que os formuladores de políticas nos conheçam e queremos participar das tomadas de decisão. Por exemplo, existem vários conselhos em nosso município, como o Conselho da Mulher, o Conselho de Saúde. Participamos muito ativamente desses conselhos para garantir que, quando houver qualquer tipo de discussão que nos envolva, estejamos sempre presentes para ouvir e indicar o que queremos como coletivo. Somos cidadãs como qualquer outra pessoa e somos trabalhadoras como qualquer outro trabalhador. Contribuímos para a economia da nossa cidade”, afirma Betânia Santos. Para saber mais: A Sex Work Donor Collaborative, ou SWDC, é uma rede de financiadores que se uniram para aumentar a quantidade e a qualidade do financiamento para apoiar os direitos das trabalhadoras sexuais. Confira a campanha Counting Sex Workers In!, da CREA e Mama Cash, que destaca as vozes e perspectivas das trabalhadoras sexuais a fim de promover a compreensão de que os direitos das trabalhadoras do sexo são direitos humanos e uma questão feminista. Assista aqui. Acesse também o livro “Guaicurus – A Voz das Putas”, organizado pela Aprosmig, que reúne textos de 12 mulheres trabalhadoras sexuais “que escrevem sobre o negativo e o positivo da vida”. E se você ainda acha que esse assunto não tem a ver com você, compartilho a epígrafe do livro Putafeminista da Monique Prada, trabalhadora sexual, feminista, escritora e editora do projeto MundoInvisível.Org. Monique abre seu livro com palavras da argentina Dolores Juliano: “A divisão das mulheres entre boas e más beneficia a estabilidade do sistema. O estigma da prostituição nada tem a ver com o que as trabalhadoras sexuais são ou fazem. Ele representa um potente elemento de controle para as mulheres que não atuam na indústria do sexo. O modelo de esposa e mãe abnegada exige muito sacrifício. Ainda que se diga que a mulher é a rainha do lar, sabemos que não, que é uma pessoa a serviço de todo mundo. É um modelo tão pouco atraente, e com tão pouca recompensa e reconhecimento que a única forma de conseguir que as mulheres se adequem a ele é lhes assegurar que a outra possibilidade é pior”. *Renata Saavedra é jornalista e pesquisadora com foco em direitos humanos, filantropia e justiça social. Compartilha umas ideias e referências em renatacompartilha.medium.com